Mártir
Exangue, sua antiga força agora | Distante está de todo o heroísmo… | Mas vê-se, no bater d’última hora, | Seu corpo combater o derrotismo:…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Exangue, sua antiga força agora
Distante está de todo o heroísmo…
Mas vê-se, no bater d’última hora,
Seu corpo combater o derrotismo:
Os olhos — duas órbitas pra fora —
Erguidos, qual chorassem, comovidos…
Seus braços, envolvendo toda a glória,
Num gesto de abraçar algo invisível…
A dor de humana ação parece pouca
Perante o rosto altivo, quase indene,
Lavando com seu sangue o turvo chão…
De onde faz-se ouvir, de boca em boca:
Sem dúvida nenhuma dentro dele
Pulsava a cor vermelha da paixão.
Leia mais em Sonetos:
Nevoeiro
A névoa densa cobre toda a estrada, | mal se distinguem formas no caminho. | Todas as plantas, todos altos pinhos | se camuflam na vista limitada…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A névoa densa cobre toda a estrada,
mal se distinguem formas no caminho.
Todas as plantas, todos altos pinhos
se camuflam na vista limitada.
A cada passo, a cerração pesada
as têmporas perfura como espinho.
Vem-me a noção de estar aqui sozinho,
envolto inteiramente pelo Nada.
Emerge em meio à bruma um grande muro:
vê-se um portal a serpejar, escuro,
o fim da névoa negra que transponho…
Ei-lo: o portal que a vida antiga cessa,
o vórtice feral que me arremessa
a outro pesadelo, a outro sonho!
Leia mais em Poesias:
I | É um erro crer | que o sono abriga algum refúgio. | Deitar-se na escuridão | é depor as insígnias da vontade, | é entregar a alma, | desarmada, trêmula…
Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…
No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina | É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca. | Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,…
Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…
Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…
Ouço a voz do teu próprio hexagrama | Sussurrar a mensagem profanada; | Gemidos soltos de quem muito ama | Nos meus olhos fizeram sua morada…
Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…
Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…
Estou-me à rede, calma, descansando… | O vento é-se regélido e assoviante | E vem só d'uma fresta se apossando | Da noite no horizonte vigilante;…
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue | A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim, | e o som não é música…
O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…
o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…
Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…
No altar, em júbilo | Trajada em seda negra | Espero sob os olhos divinos | Brilhantes e perversos | A catedral silenciosa | Iluminada pela Lua…
o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…
O azulescer | transbordou em meu peito | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…
Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…
Nódoa fria de rebento | Tenaz escuro | Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado | E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos…
Ah, fé, | Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade | De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria | A fé que aprendemos desde crianças…
O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano…
Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…
Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…
Translúcidas as flores espectrais | N’um rosa-gris perpétuo adamantino; | Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais, | Deságua sob o manto vespertino...
Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam | Marchando silvos de compassos trôpegos | Junto aos metais, a miséria, aos córregos | Por onde se ouve o baforo dos…
A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…
São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: | – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…
Andando pela praia | De mãos dadas com a brisa | E os pés penetrando a areia molhada | Aquele deserto sem lavra | Pondo ao sol, no ar, meu corpo…
Pesadelo
Desperto numa rústica tapera… | Com passos range a paliçada antiga; | ventos colidem contra a porta, e as vigas | reverberam gemidos de quimera…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desperto numa rústica tapera…
Com passos range a paliçada antiga;
ventos colidem contra a porta, e as vigas
reverberam gemidos de quimera.
Ouço pelo ar gelado: os sons da fera
mais aparentam fúnebres cantigas
compostas pelas hostes inimigas
de bruxas e xamãs, há muitas eras.
Contemplo pela mísera ventana
a mata que contorna esta cabana —
ao longe aquele vulto apavorante!
Uma anciã do Volga, a pele nua,
argêntea como a lucidez da Lua,
caliginosa, ainda que brilhante!
Leia mais em Poesias:
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…
I | É um erro crer | que o sono abriga algum refúgio. | Deitar-se na escuridão | é depor as insígnias da vontade, | é entregar a alma, | desarmada, trêmula…
Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…
No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina | É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca. | Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,…
Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…
Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…
Ouço a voz do teu próprio hexagrama | Sussurrar a mensagem profanada; | Gemidos soltos de quem muito ama | Nos meus olhos fizeram sua morada…
Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…
Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…
Estou-me à rede, calma, descansando… | O vento é-se regélido e assoviante | E vem só d'uma fresta se apossando | Da noite no horizonte vigilante;…
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue | A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim, | e o som não é música…
O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…
o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…
Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…
No altar, em júbilo | Trajada em seda negra | Espero sob os olhos divinos | Brilhantes e perversos | A catedral silenciosa | Iluminada pela Lua…
o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…
O azulescer | transbordou em meu peito | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…
Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…
Nódoa fria de rebento | Tenaz escuro | Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado | E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos…
Ah, fé, | Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade | De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria | A fé que aprendemos desde crianças…
O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano…
Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…
Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…
Translúcidas as flores espectrais | N’um rosa-gris perpétuo adamantino; | Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais, | Deságua sob o manto vespertino...
Oh, tropéis insanos, vozes se aglutinam | Marchando silvos de compassos trôpegos | Junto aos metais, a miséria, aos córregos | Por onde se ouve o baforo dos…
A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…
São Baudelaire das causas impossíveis, | quisera assim orar Raul: | – Livra-me, ó Senhor, | dos sofrimentos do jovem Werther; | fazei Goethe descer da minha cabeça,…
Andando pela praia | De mãos dadas com a brisa | E os pés penetrando a areia molhada | Aquele deserto sem lavra | Pondo ao sol, no ar, meu corpo…
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…