Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

A Guirlanda

Desde o princípio mais remoto da caminhada da humanidade por essa terra, o homem, esse magnífico ser pensante, utilizando-se de sua singular capacidade de raciocínio, sempre…

Foto de Erwan Hesry

"É de facto verdade que o conhecimento é muito mais cego do que a inocência."
— Bram Stoker

Por motivos dos mais diversos, existem pessoas que trazem em sua bagagem de vida, traumas que lhe acompanham até o túmulo ou quem sabe por toda a eternidade, — se essa porventura vir a existir para nossa insignificante existência — causando-lhe diversos dissabores, não somente a si próprios, mas as vezes até em prejuízo de outrem. A inverossímil história de Oscar Caetano poderia ter todos os ingredientes para ser um enredo de superação e exemplo a ser seguido. Contudo, nem todas as histórias têm um final feliz, nem mesmo com todas as forças do universo agindo a favor, pois entre os seres humanos, mesmo que o infinito — aquele que rege o destino de tudo e de todos sem exceção — assim o deseje, nada pode acontecer e nem ser feito de forma que contraponha o Livre-arbítrio de uma pessoa. Mesmo que a história de cada um já esteja escrita, mesmo antes de seu nascimento, são suas escolhas, feitas durante sua trajetória terrena, que irão concluir as consequências finais de sua vida. A vida, a bem da verdade, é uma grande lavoura onde tudo que é plantado e mais dia menos dia deverá ser colhido. Assim sendo, o resultado de uma plantação ruim consiste numa colheita um tanto quanto não muito satisfatória.

Oscar, em muitas ocasiões de sua trágica existência, se viu obrigado a fazer escolhas que nem todos poderiam considerar como sendo corretas. É certo que, em diversas ocasiões, a situação não permitiria outra escolha que trouxesse um resultado satisfatório e imediato, em muitas ocasiões o individuo é movido pelo desespero e termina por se enveredar por caminhos incertos. Numa vida cheia de privações e decepções diversas, Oscar não era do tipo de pessoa que tinha grandes esperanças na possibilidade de um amanhã melhor, levando em consideração a existência de um ontem não muito agradável. Seguia sua vida de forma intempestiva e sem muitas expectativas, pois não acreditava em muita coisa a não ser nele mesmo e em satisfazer seus desejos a qualquer custo, inclusive em detrimento daqueles que por infelicidade do destino se encontravam na posição de sua esposa e filho. O pequeno Gilson era quem mais penava perante a devassidão e inconsequência daquele que deveria por obrigação moral ser seu maior exemplo. Nem sempre o pecado dos pais recai sobre os filhos. O certo é que a divida adquirida aqui também deve ser quitada.

Gilson era um jovem de origem simples e humilde, filho de pais sem muitas posses, teve uma infância muito pobre, cheia de privações e muitas humilhações. Numa casa humilde, desprovida de quase tudo onde até mesmo a comida era muito escassa, a palavrapresentesignificava apenaso agora, e não algo que vinha embrulhado em papel brilhante com um laço colorido. Aniversário era uma simples data que servia para contar os anos vividos; a Páscoa era o domingo posterior ao final de semana onde as ruas ficavam enfeitadas com ramos de palmeiras e o Natal não era nada mais que uma época onde pessoas bem situadas enfeitavam suas casas com luzes coloridas e, numa determinada noite muito especial, havia festas com muita comida e bebidas variadas, servidas aos convivas que às vezes vinham até de lugares distantes.

As dificuldades de uma vida sejam elas: decepções, frustrações ou até mesmo privações daquilo que lhe é indispensável à sobrevivência até podem ser compreendidas por um adulto senhor de suas capacidades mentais e emocionais, mas conseguir convencer uma criança que alguns poucos escolhidos podem usufruir de certos privilégios enquanto uma grande maioria apenas se restringe à simples oportunidade de sonhar com dias melhores não é uma tarefa fácil. Uma criança, independente da classe social que ela pertença, é um pequeno ser carregado de sonhos e fantasias. São singelos seres movidos pela magia do faz de conta. Se brincar é a sua única responsabilidade, sonhar é uma prática constante e sem fim. Gilson, mesmo sendo uma criança muito pobre, ainda assim com todas as privações possíveis que um ser pode suportar, conseguiu a oportunidade de se matricular numa escolinha de uma igreja Batista, que sua mãe vez por outra, frequentava quando o cansaço e a exaustão lhe permitiam.

Essa escola, como fazia parte de uma congregação cristã, tentava fazer jus aquilo que pregava em suas celebrações, no final de cada ano, sorteava bolsas de estudos para crianças carentes numa carismática forma de praticar o amor ao próximo, principalmente para aqueles que eram mais necessitados. Não se sabe se Gilson poderia se considerar um sortudo, pois sua vida no ambiente escolar era tão deprimente e humilhante como em qualquer outro lugar. Seu uniforme — já bastante surrado — não era tão bom quanto o de seus colegas; seus materiais eram incompletos e insuficientes — sempre havendo a necessidade de pegar algo emprestado — e por fim, como ele não se alimentava adequadamente em casa, assim que o lanche era servido, ele comia avidamente, fato que gerava piadas e gracejos por parte de seus colegas, que chegaram ao ponto de o apelidarem de ferrugem. Quando eles retornaram das férias do meio do ano, a professora solicitou que fosse feita uma redação com o odioso titulo: “O que você fez nas suas férias?” Mas o pior de tudo era os dias festivos, onde seus colegas disputavam entre si quem havia ganhado o melhor presente. Foi justamente na escola, próximo ao final do ano que Gilson ouviu pela primeira vez sobre as festas de fim de ano e tudo aquilo que envolve o espírito natalino e o verdadeiro sentido do Natal.

Sua professora — Tia Letícia — propôs a eles que todos fizessem uma guirlanda para ser colocada na porta de suas respectivas casas para que todos pudessem dar boas-vindas ao espírito do Natal em seus lares. Nessa mesma aula, Tia Letícia lhes explicou sobre o sentido do Natal, o que representava cada símbolo natalino e como não poderia ser diferente, citou-lhes sobre a importância dos presentes e a figura do Papai Noel, propondo que todos eles também escrevessem uma pequena carta para o bom velhinho mencionando o que gostariam de ganhar de presente de Natal. A aula foi esplêndida! Todos os alunos adoraram, principalmente quando Tia Letícia contou-lhes a história de São Nicolau — o bondoso e endinheirado senhor, que já no final de sua vida, distribuía presentes para crianças carentes de sua comunidade e lugarejos próximos — que após sua morte se tornara na lendária figura do Papai Noel e continuando seu ato de bondade passara a dar presentes de Natal a crianças do mundo todo, desde que essas tivessem sido comportadas e obedientes durante o ano.

Aquele dia foi um dia extraordinário para Gilson, talvez o dia mais feliz de sua vida até então. Durante o decorrer da aula — o último dia letivo do ano — influenciado pelo alegre ambiente festivo, completamente envolvido por toda aquela história de Natal, presentes, espírito natalino etc. e tal, por um breve momento chegou até mesmo esquecer-se de sua vida sofrida, e a triste realidade em que se encontrava sua deplorável existência. Contudo, como tudo em sua vida estava reduzido a um mundo de privações e necessidades, o breve momento de euforia logo se desfez assim que chegou em casa e se deparou com sua verdadeira realidade. Tia Letícia havia dito a eles que a cartinha para o Papai Noel deveria ser colocada sobre a lareira — para quem a tivesse em casa — ou aos pés da árvore de Natal e em último caso se assim fosse necessário, até mesmo na janela. A guirlanda deveria ser fixada na porta de entrada da casa para que todos pudessem ver. A jovem professora em sua doce inocência recomendara aos alunos para que pedissem auxílio a seus pais para prenderem suas guirlandas de forma segura, sem correr algum risco de se ferirem. Tia Letícia apenas não sabia que o pai de Gilson era o tipo de individuo singular, totalmente desprovido de qualquer sensibilidade ou algum sentimento nobre que o valha.

Oscar era o tipo de homem frustrado com vida e sua deprimente situação financeira, o que o tornava um sujeito sombrio e taciturno ao extremo. Passava a maioria do tempo embriagado e quando muito raramente trabalhava — na função de carpinteiro — o pouco que ganhava era gasto com bebidas e tabaco para seu velho cachimbo, eternamente pendurado num dos cantos da boca. Era já bastante velho na aparência e estava muito mais para avô do jovem Gilson do que para pai. Aos 54 anos casara-se com sua própria sobrinha órfã de pai e mãe, que ficara aos seus cuidados quando seus pais morreram quando ela tinha apenas 5 anos. Assim que ela tomou corpo de mulher antes mesmo de completar 13 anos, Oscar logo a tomou por esposa alegando que jamais deixaria sua amada sobrinha nas garras de um homem qualquer. Os dois primeiros filhos daquele incestuoso casal não vingaram, morrendo antes de completarem um ano de vida. Entretanto, Gilson o terceiro filho teimava em resistir a todas as agruras que a vida pudesse lhe oferecer. Em seu ultimo aniversário — no mês de julho — completara 7 anos. Mesmo com um corpo franzino de faces com semblante doentio era um menino bastante forte e resistente demonstrando esbanjar saúde e disposição e naquele dia em especial estava euforicamente feliz.

Assim que chegou em casa, pulando de contentamento pelas diversas novidades que aprendera na escola sobre o Natal e todas as maravilhas que envolvem esse abençoado evento, logo foi em busca de sua mãe para lhe relatar sobre os pormenores de seu dia na escola e mostrar-lhe sua bela guirlanda. Contudo, para sua decepção, sua mãe — como já era de costume — não estava em casa. Havia saído para trabalhar na limpeza da casa de alguma senhora distinta, que vez por outra, lhe contratava como faxineira. Isabel era uma mulher jovem, na idade de 26 anos ainda, mas já de aparência cansada e envelhecida pelas tristezas e decepções que a vida sempre lhe oferecera. Com um corpo também franzino — como seu próprio filho — com as faces chupadas, olhos fundos e um cabelo mal cuidado tinha a aparência de uma mulher bem mais velha. Desprovida de qualquer tipo de carinho e afeto desde que perdera seus pais, assim que se viu sob a tutela de seu tio, logo teve de esquecer qualquer coisa que se referisse a infância e fantasia, sem mais delongas logo se viu obrigada a assumir todas as responsabilidades dos afazeres da casa. Como a casa de seu tio não era muito grande e as tarefas domésticas não eram muitas, como lhe sobrava muito tempo ocioso, muito rapidamente seu tio entendeu que ela também poderia se ocupar em pequenas tarefas em casas alheias e assim ganhar algum trocado — que sem demora lhe era confiscado sem remors

Belinha — como era mais conhecida — logo se tornara uma faxineira bastante requisitada, pois trabalhava muito exigindo pouco. Assim sendo, todos os dias estava ocupada na casa de alguém prestando algum trabalho doméstico. Oscar, que mesmo ainda na juventude cheio de vigor e disposição nunca fora muito adepto ao trabalho, logo estava vivendo as expensas do parco ordenado que a sobrinha recebia. Assim que a tomou por esposa, como ela vivia debaixo de seu teto, se viu no direito de viver sendo sustentado pelo árduo trabalho de sua esposa que dava o melhor de si, dia após dia. Enquanto Belinha se matava no trabalho, derramando seu sagrado suor na limpeza de casas de grã-finos, Oscar por sua vez, quando não estava em casa de cama — de ressaca — alegando mal-estar, que se tornara uma constante nos últimos tempos, estava perambulando pelas ruas — de bar em bar — segundo ele em busca de algum trabalho que somente ele não conseguia encontrar jamais.

Quando Gilson entrou em casa muito eufórico gritando pela mãe — que estava ausente — sem receber nenhuma resposta, imaginando que naquela hora talvez seu pai não estivesse em casa, continuou com toda sua algazarra pela a casa adentro, mas para sua surpresa e infelicidade, todo aquele barulho acabou por acordar seu pai, que naquele infeliz momento estava tirando um cochilo vespertino no então denominado: “sono da beleza”. Oscar que, naquele dia, ainda não havia comido nada, mas já havia visto o fundo de uma garrafa, fato esse que já lhe alterara o juízo — que não era muito bom estando sóbrio — se levantara meio que assustado, meio que irritado e sem muitas palavras, logo recepcionara o filho com tabefes e safanões. Quando o menino ainda eufórico tentou argumentar sobre o motivo de toda aquela alegria, logo fora interrompido com mais uma demonstração de afeto que lhe deixara a orelha quente e o ouvido zumbindo. Esse último tapa fora sucedido por uma reprimenda sobrecarregada de lição de moral e diretrizes que deveriam ser seguidas perante uma pessoa mais velha. O sermão fora enfeitado com mais algumas ameaças, beliscões e diversas ofensas direcionadas à sua mãe que segundo Oscar, era a única culpada pelo menino não ter bons modos.

Muito decepcionado com aquela desprezível conduta de seu pai — um velho bêbado desprovido de qualquer forma de escrúpulos — Gilson se evadiu para o fundo do quintal para lamuriar as mágoas e momentaneamente lavar os olhos de dentro para fora. Refeito de mais um momento de tristeza e decepção, logo tratou de cuidar de suas obrigações. Tarefas essas que se não fossem feitas por ele, além de poder receber mais uma surra de seu pai e outra odiosa reprimenda, — que era pior do que as surras, pois sempre havia ofensas dispensadas a sua pobre mãe — sabia ele que, mesmo retornando exausta para casa, sua mãe teria que executar sem falta. Seu pai que também era tio de sua mãe, uma vez que, fora ele mesmo quem a educara, se sentia no direito de vez por outra, por qualquer motivo que fosse, bastava ele entender que fosse necessário, aplicava um corretivo nela também. Para evitar tais lastimáveis acontecimentos, tudo era feito de forma que seu pai não fosse contrariado em nada.

Assim que terminou todas as suas tarefas, influenciado pela ociosidade e pela ansiedade de agradar sua mãe, decidiu ele mesmo, sem nenhum auxilio fixar sua guirlanda na porta. Em sua ingenuidade e inocência, quisera ele fazer uma surpresa para sua querida mãe. Utilizando-se do martelo de seu pai — ferramenta de trabalho, do outrora competente e caprichoso carpinteiro Oscar — após subir num pequeno banquinho, iniciara o processo de fixar um prego na porta. Na primeira martelada conseguira a incrível façanha de quase arrancar uma de suas unhas numa forte pancada que errara o alvo e acertara em cheio um de seus dedos. Após alguns pinotes e sacudidelas na mão, sugou o sangue que brotara da unha e assim que a dor se aliviou um pouco, recomeçou sua hercúlea empreitada novamente. Quando já estava pegando o jeito de utilizar aquela pesada ferramenta, sem esfolar o restante dos dedos, estando o prego já quase todo fixado, seu pai mais uma vez se levantara devido a toda aquele bate-bate e assim que viu o filho com uma de suas sagradas ferramentas na mão foi tomado de um ódio incontrolável e sem remorso algum deu um tapa descomunal no peito do menino, que pelo susto em ver o pai naquele estado e já estando meio desequilibrado sobre o banquinho, com o sopapo que levara, caíra de costas jogando o martelo para alto. Essa enorme ferramenta fez um circulo no ar e ao cair acertara o menino em cheio no meio da testa. Oscar guiado pelo ódio fez a guirlanda em mil pedaços — destruindo por completo um sagrado símbolo natalino –. Antes de socorrer o filho, ainda quis lhe dar alguns safanões pela desobediência de ter pegado uma de suas ferramentas para brincar. Mas, ao perceber que o filho não se movia e que um fio de sangue já começava escorrer pelo ouvido da criança ficou momentaneamente atordoado e logo entrou num ensandecido desespero, imaginando que o filho estivesse morto. Rapidamente pegou a criança nos braços e saiu pela porta afora em busca de socorro. O diretor da escola — que também era pastor da igreja que Belinha frequentava — estando subindo a rua naquele exato momento foi quem lhe prestou os primeiros socorros levando pai e filho para o hospital.

Gilson dera entrada no pronto socorro com traumatismo craniano crônico. Oscar ainda meio embriagado com um insuportável bafo de cachaça misturado com tabaco, contou uma estória que a ninguém conseguira convencer. Alegou que estava deitado com um terrível mal estar e uma enxaqueca insuportável, quando ouvira o estrondoso barulho do filho caindo. Logo pode perceber que o menino estava tentando pregar alguma coisa na porta da sala utilizando-se de um pesado martelo e que certamente se desequilibrara do banquinho ao qual estava subido, quando acertara uma pancada no dedo. Na queda, possivelmente o martelo acertara sua cabeça. Assim que Belinha chegou ao pronto socorro sabendo que o filho estava em estado gravíssimo, mas ainda vivo, decidiu que o melhor a fazer era acreditar na historia de Oscar — mesmo sabendo no fundo de sua alma, que era uma mentira deslavada — pois sabia ela que qualquer coisa que dissesse naquele momento que pudesse desabonar seu marido e tio, certamente teria sérias consequências posteriores.

Naquela mesma noite, assim que fora informada pelo diretor daquele triste infortúnio, Tia Letícia ao chegar ao hospital a fim de visitar o pobre e infeliz Gilson que estava em coma profundo, contara a sua inconsolável mãe tudo o que havia ocorrido na escola naquele dia e como o menino estava feliz com toda história sobre o Natal e todos os outros pormenores, inclusive sobre a confecção da guirlanda que deveria ser afixada na porta de entrada da casa. Disse ainda como se sentia culpada por tudo aquilo. Belinha lhe confortara com palavras de afeto, tentando convencê-la que tudo fora um trágico acidente e que ela não era culpada de coisa alguma, pois em seu íntimo ela sabia realmente quem era o verdadeiro responsável pelo seu amado filho se encontrar naquela lastimável situação.

Por treze dias Gilson caminhou pelo vale da sombra da morte. Os médicos já não tinham mais esperanças e esperavam o fim do pobre menino a qualquer momento. Belinha era somente lágrimas e desespero, pois amava o filho mais que tudo nessa vida. Mesmo tendo de trabalhar durante os dias, passava todas as noites velando pelo menino em seu leito de morte. Oscar em nada mudara sua rotina, e quando em momento de desespero Belinha quis questionar algo sobre o acontecido foi violentamente reprimida com palavras ofensivas e alguns safanões. De forma ríspida — como lhe era de costume — culpara a pobre mãe pelo acontecido, alegando ser ela negligente com a educação do menino. Culpou também a inocente professora, por ficar inventando histórias sem sentido para as crianças. Belinha que já não estava mais suportando toda aquela situação, mesmo temendo a reação de seu tio, com uma voz carregada de dor dissera quase em sussurro:

– Ele é apenas uma criança cheio de sonhos e fantasias e nunca fez mal a ninguém.

Num ímpeto de uma terrível ira e num total descontrole emocional, recebendo aquelas palavras como algum tipo de desconfiança perante sua conduta sobre o acidente com o menino, aplicou em Belinha um violento corretivo e mais um de seus odiosos sermões sobre o funcionamento do mundo e a dura realidade que a vida nos impõe a cada dia. Belinha nada mais dissera sobre aquele assunto e seguira sua vida na esperança que seu filho pudesse se restabelecer e voltar logo para casa. Já na véspera de Natal, estando ela prostrada no leito do menino acariciando suas mirradas mãozinhas banhadas pelas lágrimas que caiam de seus olhos sem cessar, olhando para o crucifixo sobre a cabeceira da cama rogou a Cristo essas simples e dolorosas palavras:

– Senhor, sei que não sou digna de te pedir nada, mas não o peço por mim, mas rogo pelo meu filho amado. Também sei que o aniversário é seu e És Tu que deveria ganhar um presente, mas por tudo que é mais sagrado imploro por tua misericórdia e peço que coloque um fim em todo esse sofrimento. Se não puderes devolver meu filhinho que o leve Contigo para um lugar melhor.

Envolta nesse ambiente de dor e sofrimento, Belinha adormeceu prostrada aos pés daquele triste leito. Num sonho — talvez uma visão — teve a impressão de ter visto um vulto branco sobre o leito do menino. Pouco antes da meia noite acordou com o som de uma risada muito alegre vindo de algum lugar sobre a janela e ao levantar ser rosto viu que Gilson acariciava-lhe a face. Milagrosamente o menino se restabelecera por completo e já no dia seguinte — dia de Natal — os dois puderam retornar para casa como se nada tivesse acontecido. Caminhado de mãos dadas numa alegria incontida como se fossem as duas pessoas mais felizes do mundo logo entram em casa para se depararem com uma cena lamentável. Já na entrada da humilde sala — que se encontrava na mais completa desordem, como se uma terrível luta ali tivesse sido travada — encontraram o corpo de Oscar caído morto com os olhos estatelados de pavor. O mesmo martelo que causara o acidente no pobre Gilson estava fincado em sua testa e em seu peito havia profundos rasgos que deixavam os ossos de suas costelas à mostra. Marcas terríveis, que pareciam terem sido feitas por uma fera selvagem. Oscar segurava nas mãos uma pequeno pedaço de papel, que Gilson logo reconhecera como sendo sua cartinha para o Papel Noel. Na carta estava escrito com letras tímidas e tremidas:

Querido Papai Noel, na verdade não sei nem o que devo pedir, pois já tenho tudo que alguém possa sonhar na vida. Sou um menino muito abençoado, pois tenho o melhor dos presentes que alguém pode ter o amor de minha mãe. Mas se eu puder pedir um presente para outra pessoa, peço que se puderes, alivie os sofrimentos de minha pobre mãe e permita que ela possa viver em paz.

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja

Soneto da possibilidade

Tivéssemos mantido uma amizade, | Um algo a mais que um ínfimo contato… | Possivelmente além de aproximados, | Bem mais…

MidjourneyAI

Tivéssemos mantido uma amizade,
Um algo a mais que um ínfimo contato…
Possivelmente além de aproximados,
Bem mais que apenas íntimos, quem sabe…

Seríamos, talvez, uma metade
Faltante para o outro incompletado…
Com quem distribuir o peso e parte
Das nossas confissões não fosse um fardo…

Um braço para descansar o corpo
Feliz ao encontrar seu lado oposto…
Seria assim conosco tão mais fácil.

Agora, nada disso dividimos;
Por duas direções nós dois seguimos,
E penso que somente um tenha errado…

Soneto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
-Contos Castelo Drácula -Contos Castelo Drácula

Os Cervos

Tomou-me o livro das mãos, ardil, com dor e fúria nos olhos. — Escute-me. Preciso de um ouvido.  — pediu, com tom…

MidjourneyAI

Tomou-me o livro das mãos, ardil, com dor e fúria nos olhos.

 — Escute-me. Preciso de um ouvido. —  pediu, com tom de autoridade na voz.

Olhei para o meu livro, agora longe de mim, quase jogado em outra mesa por suas mãos esnobes. Direcionei o meu corpo para ele, ainda posicionada na cadeira. Nada proferi. Apenas o olhei, aguardando a sua voz e dando, assim, o meu ouvido para o seu tom.

 —  Sabes que tens os meus ouvidos para quando quiseres proferir as suas angústias.

 —  Uns cervos estão rondando este castelo. E o livro que você está lendo está os atraindo. Pare imediatamente. Eu tenho medo de cervos, você sabe. Você é a única que tem ciência desta minha fraqueza.

Sorrio, mas logo me contenho.

 —  Não se trata de fraqueza, senhor Lucius. É apenas um medo. O senhor tem um medo. Todos nós temos. E eu tenho um medo também.

 —  Qual o seu medo, Amma?

 —  Ser expulsa deste lugar e ter a sua confiança por mim perdida.

 —  Se continuar lendo aquele livro, isso vai acontecer.

 —  Esse era o meu outro medo. Mas aquele livro não fala sobre cervos e não tem nada que possa atraí-los.

 —  Mentirosa! —  grita, batendo forte as duas mãos sobre a mesa à minha frente.

Eu fecho os olhos e respiro fundo, amedrontada. Senhor Lucius me conhece. Me conhece totalmente, quase.

 —  Eu fui mentirosa. —  confesso. —  Mas eu não tenho esse tipo de caráter. Eu não lerei mais aquele livro. Não aqui no seu castelo. Posso lê-lo fora daqui. Na floresta, por exemplo, não posso?

 —  Na floresta? —  ele me rodeia, como se me analisasse. —  Quem é você, Amma? Quem? Não tem medos, nem receios grandiosos. Se comporta como se fosse um membro da minha família e não uma simples mucama.

 —  Eu sou aquela que o senhor viu atrás daquela cela, mal vestida, com olhar triste e...

− E educada, culta. Por isso a comprei.

 —  Mas o comércio de pessoas já foi proibido. Por que ainda me quer aqui neste castelo e me chama por esses apelidos? Por que não me dispensa, senhor Lucius?

 —  Você é mesmo muito atrevida e insolente! Eu me arrependi de ter lhe comprado. Deveria ter lhe devolvido para aquela gente, realmente. Mas dá dó de lhe privar de tudo o que você tem hoje.

Sorrio.

 —  O senhor se preocupa comigo. Parece bruto, mas apenas parece. Eu vou continuar minha leitura lá fora. - faço menção de levantar-me

 —  Espere! Eu não lhe dispensei .

 —  Sim, senhor Lucius, eu espero. Sabes que não me atrevo a retirar-me sem antes ser dispensada. - respondo fria, mas com feição serena.

 —  Desculpe-me. Eu devo estar mais exaltado hoje. Não deveria ter tratado você assim.

 —  Eu notei, senhor Lucius. Está desculpado. O que mais gostaria?

 —  Pegue o livro. —  ele aponta, agora mais calmo. —  Leia-o onde você quiser. Menos neste grandioso recinto. Aliás, aqui está.

Senhor Lucius posiciona o livro sobre a mesa, devolvendo-me. Não precisa eu entrar em discussão, nem exaltar-me para ter alguma razão. Aprendi a ser mais calma e resiliente. Com a minha paciência e subserviência eu consigo acalmá-lo da sua ira diária. Ele comprou-me para isso, na época em que ainda havia venda de seres humanos, cujos quais recebiam o título de escravos. Se ele não tivesse me comprado, ninguém mais me compraria. Aquele era o último momento, antes daquela atrocidade terminar. Vivemos em uma época muito difícil. A mulher é a mulher. E não sei se um dia eu estaria onde o Lucius está, não sei. Mas anseio tal realização em um futuro onde podemos ser e fazer as coisas naturalmente.

Dez anos antes:

 —  Pare de chorar. Eu não farei nada com você. Medusa, tire essa moçoila da minha frente. O choro dela é irritante e não quero sentir dor de cabeça hoje. Mostre-lhe um quarto e providencie vestimentas de qualidade para ela. Depois leve-a à sala de jantar. Ela precisa se alimentar o quanto antes. Onde está o Claus agora?

 —  Eu não sei, senhor. Mas ele saiu desde cedo e embrenhou-se nas matas.

O homem respira fundo, impaciente, e o meu choro começa a cessar, pela minha curiosidade sobre aquelas matas.

 —  Eu não sei o que tanto tem nessas matas para ele fazer isso! Mande outro servo ir buscá-lo por lá imediatamente. Quero que ele conheça a... Amma. —  tenta se recordar o nome, estalando os dedos próximo à sua fronte. — E saiba algumas coisas sobre a presença dela no meu castelo.

 —  Sim, senhor.

Eu fervo de raiva por aquele senhor esnobe. Dizer que o meu choro é irritante apenas me faz pensar que ele ignora a minha dor; ignora a humilhação de ser negociada, junto à outros seres humanos, como se eu fosse um objeto. Não fazer nada comigo é o mínimo que não deve acontecer. Quero dizer, não sei. Ele pode estar blefando e quando nenhum servo estiver por perto, eu serei o cardápio àquela mesa. Porque eles comem muita carne, e o sangue está bem presente aqui, eu vi. Aquela sala de jantar cheira a sangue. E se for preciso eu fugir por aquelas matas, eu irei, para não ser devorada, assim como um cervo totalmente aberto e sangrando, morto, próximo deste lugar.

Dias atuais:

 — Obrigada pela sua confiança, senhor Lucius. Eu não vou demorar. Estou no primeiro capítulo e só pretendo ler um por dia. Gosto de ler lentamente, assim como você saboreia o cálice de sangue que deita sobre a sua taça e desce a sua garganta abaixo.

 —  Cale-se! —  profere irascível.

 —  Eu estou apenas dizendo a verdade. O senhor bebe com uma satisfação incomparável. É sangue de cervo, não é? —  ele nada responde, mas olha para mim com ira. —  Talvez isso que os tenha atraído para os arredores deste castelo. O senhor os mata, devora a sua carne e depois bebe o seu sangue fresco. Beba mais sangue! O senhor tem a pele muito clara, senhor vampiro —  inconsequentemente o provoco.

 —  Já chega! Saia da minha frente imediatamente!

 —  Mas eu...

 —  Saia! Agora, Amma! — ele toca o encosto da cadeira firmemente.

 —  Sim, senhor Lucius. Com a sua licença.

Me retiro da biblioteca. Talvez, desta vez, eu tenha provocado a ira do senhor Lucius demais. Mas quero que ele saiba que sei muito bem quem ele é e o que tem feito.

Dirijo-me para fora do Castelo e sigo rumo às matas, com o livro em mãos. Encontro um grande cervo. Aproximo-me dele, sem receios e, de onde estou, visualizo o senhor Lucius olhando-me amedrontado da sua janela escura e encarando o cervo e eu. Lhe sorrio fria, irônica, próxima ao cervo, e abro o livro para continuar a leitura. Outros cervos se aproximam e o vampiro fecha a sua janela fortemente. Ouço um grito desesperado vindo dele —  o vento o traz. Certifico-me: Eu tinha medo do senhor Lucius. Agora ele é quem terá medo de mim.

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Ana Kelly, -Contos Ana Kelly Escrito por Ana Kelly, -Contos Ana Kelly

A Dama de Marfim

O desejou a vida inteira. Secretamente clamou por sua chegada. Nada no mundo a deixava mais radiante do…

MidjourneyAI

O desejou a vida inteira. Secretamente clamou por sua chegada. Nada no mundo a deixava mais radiante do que a ideia de reencontrar aquele ser com o qual se esbarrou ainda jovem. Entre noites em claro e sonhos profanos, seguia o esperando.

“É um milagre”, diziam. “Quem cruza com criatura tão torpe não sai impune. E a criança nada sofrera.” Em seu íntimo sabia que sua alma fora despida naquela súbita noite.

Agonizando em seus próprios anseios pensou que não resistiria. Mas os ventos de outono a despertaram. O temor invadiu os corações alheios, mas o seu, bombeava devaneios.

E quando o céu escureceu, o chão foi tomado por vermelho carmesim. O horror instaurado era um prelúdio anunciado.

Suas vestes cor de marfim deslizavam pelos rastros de sangue. Cada célula de seu corpo se agitava em deleite. Olhos na escuridão emergiram a seu encontro… era ele!

Como se flutuasse, em segundos já estava em seus braços. O amante secreto a segurava com leveza. Pela primeira vez pôde o olhar com clareza. Não poderia descrever sua face, mas gemeu quando sentiu que lhe perfurava sua carne.

O sangue que escorria de seu pescoço ia de encontro com o sangue que invadia a barra de sua camisola. Em êxtase desfaleceu, mas como noiva da morte, renasceu.

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Sahra Melihssa, -Artigos Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, -Artigos Sahra Melihssa

A Fenomenologia da Imortalidade

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a…

Death of an Orphan, 1884 — Stanisław Grocholski (Polish, 1858–1932)

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.

Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.

Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.

Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.

Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.

Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.

Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Livros, -Resenhas Castelo Drácula Livros, -Resenhas Castelo Drácula

Resenha: Jane Eyre

Jane foi criada praticamente como uma estranha, sem nenhum afeto por parte de sua tutora, sra. Reed, contando apenas…

Foto e Liza Abreu

Jane foi criada praticamente como uma estranha, sem nenhum afeto por parte de sua tutora, sra. Reed, contando apenas com a boa vontade de uma das empregadas de ‘’Gateshead Hall’’, onde vivem. Tempos depois, Jane é enviada à instituição Lowood, um colégio interno com métodos de ensino duros e de situação precária, onde faz uma grande e curta amizade com uma jovem bondosa de nome Helen, e assim aprende sobre si mesma e espiritualidade.

Em sua fase adulta, e perfeitamente educada, Jane decide deixar a instituição a procura de um emprego, e imediatamente recebe uma resposta convocando sua estada na mansão Thornfield Hall, com a finalidade de instruir e educar a pupila do proprietário da mansão, sr. Rochester — personagem esse que chama a atenção de Jane desde o início por sua personalidade enigmática e opiniões controversas. Juntos, preceptora e patrão, desenvolvem uma relação de amizade e paixão devastadora, um relacionamento o qual subverte as opiniões de Jane e toda a sua percepção de moralidade e racionalidade.

Uma obra instigante por apresentar toda a complexidade dos sentimentos humanos, e acompanha particularmente a trajetória de uma jovem mulher da época vitoriana, expondo seus pensamentos e controversas posições a respeito de seu papel como mulher trabalhadora carecida de liberdade e compreensão das regras sociais, uma vez que toda sua sabedoria e independência não lhe permitem os mesmos direitos que os demais indivíduos do sexo masculino. 

De forma sensível, a obra debate a independência feminina e as angústias que enfrentamos ao fugirmos da "normalidade", ou o quão assustador e perigoso pode ser seguir apenas o coração. É comum lermos sobre esses aspectos e naturalmente nos identificamos em como se aplicam à época atual, contudo, me veio a reflexão sobre como tais questões provocaram os leitores do século dezenove, uma vez que pensamentos relacionados ao sentimentalismo, de forma escandalosa para os moldes da sociedade vitoriana, despertaria a reflexão e a relação do comportamento de grande parte da população, homem ou mulher, diante da quebra de padrão imposto em diversas instituições, como exemplo, o casamento.

Destaco também a construção do mistério envolvendo a mansão Thornfield Hall e o suposto fantasma o qual amedronta a protagonista e possivelmente (apesar da explicação lógica impressa no desfecho da trama) representa a preocupação de Jane pela mudança repentina de seus sentimentos e igualmente ao casamento e a responsabilidade que o mesmo representa.

Resenha publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Thais Gomes, -Contos Thais Gomes Escrito por Thais Gomes, -Contos Thais Gomes

Lucy

Após ter sofrido toda a dor possível —  e impossível — ao ter revelado meu amor à pessoa amada e não ter sido correspondida…

MidjourneyAI

“Quanto maior é a sede, maior é o prazer em satisfazê-la.” – Dante Alighieri

Londres – janeiro de 1898

Após ter sofrido toda a dor possível —  e impossível — ao ter revelado meu amor à pessoa amada e não ter sido correspondida, fui indicada pelo Dr. Seward, durante nossas sessões psicoterapêuticas, a me distrair de alguma maneira, a fim de esquecer um pouco as dores do amor e do mundo. Foi quando passava pela Oxford St. no retorno para casa e vi uma espécie de boutique na qual nunca havia reparado que existia ali —  o que era raro, já que mamãe fazia questão que eu soubesse cada nova loja de roupas e cosméticos que Londres pudesse ter. Confesso que fui seduzida a entrar na nova boutique, primeiramente porque o cheiro ambiente que os funcionários mantinham na loja era doce e também porque as cores dos vestidos que estavam na vitrine eram de um colorido que eu nunca havia visto antes. As funcionárias daquela loja eram todas muito atenciosas e apesar da maioria das estampas dos vestidos e roupas de baixo serem bem alegres, o que despertou o meu senso de consumismo fora um vestido cinza escuro. Instintivamente, fui até o vestido, a fim de perguntar a uma das atendentes se eu poderia experimentar, porém, no mesmo momento em que fui em busca da roupa, uma outra mulher, de um loiro quase branco acabou perguntando ao mesmo tempo. Ficamos surpresas ao ver que perguntamos pelo mesmo vestido e percebi que a mulher me olhava – mesmo que discretamente – por todos os lados a fim de analisar se meu gosto poderia ser tão parecido com o dela, já que aparentemente, mesmo que eu venha de uma família de posses, ela possuía um requinte e fineza sem igual, até bem diferente dos habitantes de Londres. Apresentamo-nos e naquele momento descobri que a mulher que aparentava seus 30 e poucos anos se chamava Alexia. Conversamos um pouco e Madame Alexia me informou que era nova ali —  apesar de conseguir falar inglês fluentemente e sem sotaque —  e me disse que vivia há pouco tempo em Londres, que recentemente viera de Bucareste, na Romênia, pais que pouco eu havia escutado falar e tão pouco conhecia os costumes. Ela possuía uma beleza peculiar; a pele e os cabelos muito claros e os olhos de um estonteante tom de azul.

Informalmente, Madame Alexia me convidara para tomar o chá das 5 horas em sua nova residência —  que se localizava na Abbey Road —  , o que não faltava muito, já que eram por volta das 4:30 e como era inverno, Londres já se encontrava completamente escura desde às 3 horas da tarde. Por muita insistência lhe prometi que iríamos juntas em sua carruagem, mas informei que eu não demoraria muito, pois já era noite e eu não queria preocupar minha mãe. Chegando a residência de Madame Alexia, percebi que o ambiente era muito aconchegante, apesar da decoração envolver a temática sobre répteis, sobre tudo ao que dizia respeito às serpentes. Havia um espelho em cima do buffet da sala que possuía uma moldura trabalhada em madeira escura, era muito bonito apesar de ter sido moldado sob a desenho de uma grande cobra. Logo que perceberam que eu havia adentrado a sala, os criados da casa vieram com todo o aparato da cozinha, a fim de não demorarem muito a servir o chá. A mulher parecia estar confortável, pois se encontrava em sua casa, mesmo sendo uma imigrante, parecia que aquele local era o seu reino, que fora transportado juntamente com ela da Romênia, e parecia não sentir falta de nada. Após conversamos mais um pouco e ela ter me dito que estava em Londres e ficaria um longo tempo, pois precisava resolver algumas questões pessoais como problemas com o sogro —  que segundo ela vivia em Londres há algum tempo e agora se encontra com problemas de saúde —  senti que após ter bebido o chá, que me encontrava um pouco cansada e sonolenta e então quando finalizamos nossa conversa, tentei me levantar e caminhar até a porta, porém vacilei e desmaiei.

Quando acordei, o ambiente já não era a sala de estar de Madame Alexia. Estava em um ambiente totalmente desprovido de claridade; não fazia ideia de onde me encontrava. Foi quando o local ganhou um pouco de luz que percebi que estava em uma espécie de calabouço e com a luz percebi que vinham três pessoas em minha direção. Quando as luzes das velas se aproximaram de mim, percebi que ali estavam três mulheres e estas possuíam aparência familiar com a de Madame Alexia; todas eram muito pálidas e os cabelos muito claros. Ao lado da que carregava o candelabro e as velas, uma das mulheres carregava alguma criatura que parecia de grande porte e peçonhenta. Foi quando se aproximaram mais ainda de onde eu estava que percebi que ali encontrava-se uma grande serpente.

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
-Contos Castelo Drácula -Contos Castelo Drácula

O cadáver de um coração

Fechei a porta a procura de concentrar-me em meu próprio luto, pois tortura-me pensar a respeito do que ocorre após…

MidjourneyAI

Fechei a porta a procura de concentrar-me em meu próprio luto, pois tortura-me pensar a respeito do que ocorre após o findar da vida humana. Temia a morte, porém nunca me atentei na existência de uma outra forma de morrer. Por este motivo ocultei meus sentimentos aconchegando-me por detrás das estantes, abrigado entre a vasta literatura oferecida por nossa coleção particular. Contornei as lombadas a procura de um clássico qualquer, um que ouvi falar, mas jamais pus os olhos, ou desejava ler desde sempre, porém perdi o encanto.

Há muito tempo desenvolvi aversão à leitura, o desespero me tomava no momento em que colocava os olhos sobre as páginas, e logo meu coração saltava, sustentando uma pavorosa confusão mental tomada de medo e desprezo pelo processo cognitivo básico de decodificação. As mãos pouco obedeciam ao meu desejo de tocar as páginas, e tão logo a contração involuntária de meu estômago empurrava todo o meu conteúdo gástrico boca a fora; ler me adoecia. Torturava-me dessa forma, ainda que soubesse sobre a importância de meu afastamento, embora ler tenha feito parte de minha história e um dos maiores prazeres da vida.

Após minutos de indecisão, afastado do triste velório que ocorria no andar superior e acompanhado pelo coro musical composto por vozes trêmulas e femininas, afundei os dedos em páginas amareladas do romance ‘’O cadáver de um coração’’, redigido por um magnífico autor espanhol, de prática escrita sombria e estranhamente doce e delicada, chamado Benite Carrilho. Benite iniciou o primeiro parágrafo de sua obra valorizando pensamentos pessimistas e saudosos e apontando centenas dos mais delicados detalhes acerca do corpo humano, fazendo de nossa estrutura interna e externa a mais bela das composições naturais do criador.

Ao passar os olhos sobre as páginas, senti a costumeira queimação ocular interromper meu deleitoso momento particular, assim como o palpitar do coração no interior da cavidade toráxica, meu corpo relatava o indício da rejeição pela decodificação das palavras, porém, lutei contra o findar de meu princípio vital, sugando o ar de volta aos pulmões e o expelindo em seguida.

Nas doces e sombrias páginas do romance conheci Adélia, cujas formas eram descritas como joviais e singulares, uma vez que seus jovens olhos castanhos igualavam-se a grandes esferas brilhantes e saltadas, de pálpebras largas e pestanas alongadas. Sua fisionomia, apesar de primeiramente arrancar deleite, era traçada por pequenos órgãos da face miúdos e estreitos, tão estreitos que os mais chegados contavam sobre como ao nascer assemelhava-se a um primata recém-nascido, por carregar olhos enormes e assustados, próximos aos lábios e ao nariz.

De tão pequena, Adélia cresceu atormentada pela beleza jovial, a qual jamais sofria mudanças, fazendo dela alvo de comentários e troça pelo vilarejo espanhol onde residia. Seus órgãos internos eram mesmo pequenos, assim foi constatado após uma investigação profana em sua morte. Instantaneamente procurei apanhar o romance e escondê-lo em meus aposentos, onde lia com fascínio todas as linhas transcritas como um relato de um telespectador curioso e próximo.

Passados os dois primeiros dias de leitura meu corpo retornou aos indícios da ojeriza habitual, tal como meus olhos cansados e em chamas cerravam ao passo em que uma dor latejante se apossava de minha cabeça, palpitando uma veia grossa em minha têmpora, foram esses os primeiros indícios da rejeição, porém prossegui movido pelo interesse em investigar a vida de Adélia e suas excentricidades, parte de mim desejava acariciá-la em momentos de incompreensão e rejeição de parentes e amigos.

Dias se passaram em minha debilidade emocional e vitalidade comprometida, de modo que já não levantava de meu leito, pouco falava aos mais próximos e dores se espalhavam por todo meu corpo, por vezes acreditei deixar de ser minha própria pessoa, e um pavor excruciante surgia da incompreensão diante de meu estado. Bastava deixá-la de lado, devolver Adélia as prateleiras empoeiradas, esquecê-la para sempre, todavia não podia afastá-la, acompanhar sua dor trazia-me a esperança de que o compadecimento se tornaria suficiente e assim a leitura já não afetaria minha saúde, porém, afundei em desgraça com o passar dos capítulos.

Adélia fora rechaçada ao desabrochar prematuramente, logo o broto mamário evidenciava mudanças biológicas e fisiológicas, dessa forma e à vista de tais mudanças, homens maduros apreciavam sua imagem e apontavam com lascívia parte do que a deixava embaraçada. A jovem sofreu consequências do amadurecimento com a demasiada proteção dos guardiões, ao mesmo tempo em que desprezada era vista como tola e indigna de fala.

Detalhes de seu corpo e mente foram dissecados pelo autor de modo que pude odiá-lo pela exposição desnecessária e intrigante, a jovem era vendida em uma obra, aparentemente ficcional, como um relógio de algibeira comercializado por um ambulante em todos os cantos do império. Quando me aprofundo em tais pensamentos a vejo aliciada e apalpada, aberta e controlada como um piano a ser avaliado e tocado, avariado perdendo parte da utilidade por um enxame de cupins.

Quando mulher, o esposo a aprisionou, pois longe da vista de outros não despertaria o deleite e podia se guardar somente para ele, como uma boneca de porcelana intocada, pois mesmo em sua defloração ainda mantinha a beleza da juventude. O tempo não passava, era uma mulher madura em um corpo de moça.

“Linda, mas se linda, como há de ser desprezada? Esperta, mas se esperta, como há de ser ludibriada?”

Gritei padecendo em desgosto, uma desgraça apossada de minha pobre alma, eu não resistia à leitura. Todo meu corpo sofria com a teimosia, e por consequência o sumo suco da vida saltava de minha garganta acompanhado do revirar das entranhas. Eu desfalecia, sentia o fim conforme a obra finalizava.

Quando li as últimas palavras redigidas pelo autor, o qual finalizava descrevendo o fim de uma vida longa e lamentável, fui atordoado por uma síncope repentina. Reclinado em meu próprio sangue senti o sumo emporcalhar minha face ao passo em que perdia a consciência. O fim de uma vida, e o cadáver de um coração aprisionado havia me consumido à exaustão. Sei apenas que despertei após o corrido, porém não era mais o mesmo.

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja

Void

De tudo o fim somente é garantia, | Certeza inevitável do incompleto — |  Um fio de luz que haja, e, sem saídas, | Retorna…

Arte de Glauco Moura

De tudo o fim somente é garantia,
Certeza inevitável do incompleto — 
Um fio de luz que haja, e, sem saídas,
Retorna ele a seguir ao ponto zero.

Um prêmio antes mesmo da conquista,
Fortuna a todos paga (sempre a crédito):
Poder ambicionar enquanto as vistas
Conseguem distinguir se longe ou perto…

Nas imaginações um ominoso
Destino, solitário, pesaroso — 
Razão deste desvio que dele fazem…

Talvez, amor à própria natureza;
Um tipo de resguardo, de defesa,
Temendo o vir a ser de algo que acabe…

Soneto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Sobre o Artista Convidado - Ed. 1, Janeiro de 2024 - Castelo Drácula

Leia mais
Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja

Ingenuidade

Perfeita!… Assim mantenha, não se mova! | Não há de ser difícil tal retrato… | Procure observar o resultado…

Perfeita!… Assim mantenha, não se mova!
Não há de ser difícil tal retrato…
Procure observar o resultado
Com base na postura que impressiona…

Tão fácil que ninguém mais se questiona
Por que louvar o que já está fadado
A se perder… Pois não?! Então suponha:
Não fora aquele caco um dia um vaso?

Objeto de valor e de consumo,
De chamativas cores e rotundo,
Mas hoje ali num canto, só, quebrado…

Não quer a foto mais? Okay… desculpe…
Por mal não quis dizer, mas… se pergunte:
Não somos todos feitos desse barro?…

Soneto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja

Ciclos

Deixada em um canteiro a flor de outrora, | Germina ao lado um pé de nova estima… | Nas elucubrações ela se enrosca …

Deixada em um canteiro a flor de outrora,
Germina ao lado um pé de nova estima…
Nas elucubrações ela se enrosca — 
Por outra mão talvez apetecida…

Mas nada pra evitar que seja agora
Presente nesta interminável lista
De espécimes que a cada dia engrossa:
Da mais comum à rara, menos vista…

Tentar à parte vê-la de seu meio,
Colhê-la para si de seu herbário — 
Poeta pela flor desesperado…

Por ela dispersar o próprio tempo…
Perder a mão, falhar no seu manejo — 
Poeta pela flor espezinhado…

Soneto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
-Poesias Castelo Drácula -Poesias Castelo Drácula

Declínioterapia

O ciclo de esquecimento transmutado em alegoria, | Vigora o perdão, | incorporado em mim como terapia…

Bing Image Creator AI

O ciclo de esquecimento transmutado em alegoria,

Vigora o perdão,

incorporado em mim como terapia.

Consisto em sentir, indiferente a minha letargia,

degustando o declínio da dor,

sustentada pelo dia.

Sinto, pois sentir é permitido, porém,

mesmo o direito de sentir

Por mim foi diminuído.

Contrário à minha natureza, busco alívio

Sintomático, veloz como a correnteza.

Aguardo dessa forma o torpor,

Enquanto assisto desaparecer de mim

o temor.

Poesia publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
-Poesias Castelo Drácula -Poesias Castelo Drácula

Noite Chuvosa

Nos lugares mais recônditos da mente, | O obtuso “ser” que em tolices parecer… | No íntimo de apaziguar-se a maneira brusca…

MidjourneyAI

Nos lugares mais recônditos da mente,
O obtuso “ser” que em tolices parecer… 
No íntimo de apaziguar-se a maneira brusca. 
Delirantes fraquejos de loucura

Se perpetuam em criptas forjadas,
Enlameadas e cercadas de ninharia.

Quão nobre “ser” que estupefato em viver
Na eloquência atroz;
Multidões voluptuosas embriagando-se mutuamente.

Não há jazigos suficiente…
Tamanha lascívia que levaram em todos a vida,
Acometidos por eterno desejo
Que em pleno ar virou derradeiro.

Poesia publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
-Prosa Poética Castelo Drácula -Prosa Poética Castelo Drácula

Esquecimento

Me enclausuro na grande convicção de tais pensamentos. Quão denso meu ser está inerte ao viver?…

MidjourneyAI

Me enclausuro na grande convicção de tais pensamentos.

Quão denso meu ser está inerte ao viver?

O quanto precisa amadurecer para tudo compreender?

A vista insólita de uma vida taciturna.

A dor lancinante de ser ou não ser e estar aqui.

É precário dizer que o quanto mais inertes estamos em viver, 
Com mais pressa vem nos calhar a morrer.

A existência ferida com toda a experiência contida,

Está a um mero passo para a beira sepulcral.

Mesmo que jaz não estás aqui poderia ainda existir?

Vidas futuras de pensamentos esquecidos.

Corpos enterrados em castelos de ossos.

Existências encarceradas em memórias esquecidas.

Prosa Poética publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes

Assunto: Revisitação às Sombras do Passado

Espero que esta mensagem a encontre bem e revigorada. Como solicitado, venho compartilhar…

Querida Dra. Joana,

Espero que esta mensagem a encontre bem e revigorada. Como solicitado, venho compartilhar minhas reflexões após nossa última conversa, na qual a senhora sugeriu que me conectasse com minha criança interior. É um exercício desafiador, mas que me levou a revisitar um capítulo peculiar de minha infância.

Ao fechar os olhos, vi-me novamente de frente a igreja, a fachada de tijolos avermelhados, com três portas de madeiras, a do meio tem a imagem de Santa Cecilia em relevo, logo acima três vitrais na mesma direção que as portas, sua fachada tem quatro colunas retangulares e as duas do meio vão até o alto. Elevando meus olhos admiro a torre do centro que tem uma janela redonda, mais adiante, o campanário com um sino, do qual só me recordo de conseguir ouvir de perto ao meio-dia; olhando mais além tem uma pirâmide pontuda que termina com uma cruz, a igreja fica no bairro onde cresci conhecido como o mais quente do Rio de Janeiro. Ao lado daquela igreja tem uma praça e, sob o calor infernal e sufocante do bairro, era para mim um oásis de esperança que ecoou em minha memória. Naquelas tardes intermináveis, a praça tornava-se meu refúgio e, a igreja, meu castelo de segredos. Minha mente infantil criava um mundo onde Drácula, senhor das trevas, era meu salvador. Cada descida no escorregador, aquecido pelo sol, eu vislumbrava Drácula como meu guardião com suas asas escuras, alguém capaz de me proteger das aflições da minha infância complicada, pois sempre tive amor pelos cantos inquietos e escuros da minha imaginação, amor esse que eu não conseguia compartilhar com todas as outras crianças, por algumas delas não compreenderem que eu me via distante do comum. A igreja, imponente e majestosa, era o palco onde as promessas de Drácula ecoavam em coros celestiais.

Adentrar a igreja era como entrar num santuário de magnificência. No seu interior, altos arcos que se estendem ao teto, a ala central é espaçosa, ao andar mais um pouco eu posso ver o altar com uma cruz de madeira no centro com o Cristo morto, a direita dele São Sebastião, a esquerda Santa Cecilia, acima um vitral com o sagrado coração de Jesus que filtra a luz do sol. O cheiro bem suave, terroso e amadeirado que dava à igreja uma aura misteriosa, fazia-me imaginar se aquele não seria o cheiro do próprio Drácula. As sombras tremulavam, o coro preenchia o espaço e, em minha mente infantil, Drácula habitava as sombras dançantes entre os bancos. Essas memórias, mesmo após o peso dos anos, permanecem como se gravadas em pedra.

Chegando à juventude, os ecos da infância me acompanharam. Unia-me aos jovens alternativos na praça à noite, onde as sombras se entrelaçavam com risos, segredos sussurrados e vinhos baratos. Porém, mesmo estando entre eles ainda me sentia distante do mundo deles. Alguns, desrespeitosos, profanavam o lugar que para mim era sagrado. Eu, sempre fiel ao meu imaginário salvador, alertava aos meus companheiros que mesmo que não compartilhassem da minha veneração pelo local, ao menos o respeitassem, pois na minha mente a igreja era o refúgio do meu salvador e eu não permitiria que desonrassem. Os corredores da igreja, mesmo ao longo da adolescência, continuaram a me acolher. As sombras ainda dançavam, o coro ecoava, o cheiro mesmo que leve ainda era persistente e a presença de Drácula, mesmo que de forma sutil, na minha mente permanecia.

Hoje, na idade adulta, senti-me compelida a voltar à igreja. A vida adulta trouxe consigo dores e desafios, como você bem sabe, estou perdida nos corredores labirínticos da minha própria mente e as sutilezas das interações sociais entre os adultos fazem eu me perder em um mar de confusão que me levam a querer me refugiar no isolamento, então mais uma vez, busquei naquele santuário a promessa de alívio. E ao entrar, a grandiosidade do local envolveu-me como nos dias de infância, mas algo mudou. A sensação de que Drácula não apenas residia ali, mas dentro de mim, tornou-se inegável. E sem perceber, pronunciei as palavras: “Agora não mais eu vivo, mas Drácula vive em mim.” Foi como se eu tivesse feito um pacto com as sombras do passado, aceitando que o verdadeiro poder para enfrentar as dores da vida reside na compreensão do que vive dentro de mim, e agora eu sentia de forma real que meu salvador não apenas vive, mas vive em mim.

Espero que estas palavras possam fornecer uma compreensão mais profunda sobre o que ocorre dentro da minha mente, e que com esse relato, você possa me guiar nessa jornada de autodescoberta. Agradeço pelo seu tempo.

Com respeito e gratidão,

Vânia R. Campos

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja

Arrependimento (baseado no conto de mesmo nome de Guy de Maupassant)

Saval, num dia triste de outono, | Passando a limpo toda a sua história…

Retrato de Guy de Maupassant fotografado por Nadar.

Saval, num dia triste de outono,
Passando a limpo toda a sua história:
O ponto ao qual chegara, com desgosto
Sessenta anos de vida ele recorda…

Três décadas atrás, os dois andando…
Sra. Sandres nele se encostava;
Seus rostos, ao se proteger dos ramos…
Olhares que ela certamente dava…

Atravessou a rua em desespero,
As dúvidas solucionar querendo:
“O que faria se eu tivesse ousado?”

“Cedido eu lá teria, meu querido” — 
Saval correu pro Sena, atordoado;
Sentou-se e lá chorou, arrependido…

Soneto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda Escrito por Alex Miranda, -Contos Alex Miranda

Hereditário

Desde o princípio mais remoto da caminhada da humanidade por essa terra, o homem, esse magnífico ser pensante, utilizando-se de sua singular capacidade de raciocínio, sempre…

MidjouneyAI

Desde o princípio mais remoto da caminhada da humanidade por essa terra, o homem, esse magnífico ser pensante, utilizando-se de sua singular capacidade de raciocínio, sempre esteve envolto a invenções e mecanismos que quase todo o tempo lhe proporcionou satisfatórias vantagens sobre as inúmeras adversidades e percalços que poderia a vir enfrentar durante sua insignificante existência nessa aventura chamada vida. Principiando pelo controle do fogo, — que talvez tenha sido o primeiro e maior avanço para aquele ser ainda primitivo, que possivelmente, talvez por algum acidente da natureza ou para quem quer acreditar, um presente de Prometeu, de repente se viu com a satisfatória possibilidade de, com apenas uma simples fogueira, poder se aquecer em congelantes noites de inverno e, ao mesmo tempo, iluminar as tenebrosas noites sem luar nos fundos de uma caverna escura, mas principalmente cozer seus alimentos, os tornado mais palatáveis e mais digeríveis.

Passando pela descoberta ou quem sabe talvez a invenção da roda, — mecanismo esse que para muitos é considerado como a maior de todas as invenções, pois somente a partir da roda, a grande maioria das outras invenções se tornaram possíveis — até chegar ao domínio dos céus, após a invenção dos aviões — primeiro, simples aeroplanos que mais pareciam armadilhas voadoras, posteriormente os confiáveis aviões comerciais capazes de transportar dezenas de passageiros de uma lado ao outro do mundo em questão de horas, até a invenção de potentes jatos supersônicos com incríveis capacidade de deslocamento —. 

As descobertas e invenções desse inquietante ser pensante, na maioria das vezes, trouxe-lhe mais conforto e maior possibilidade de controlar e até mesmo alterar a natureza ao seu bel prazer.

A partir do surgimento das primeiras carroças — primeiro; puxadas por braços humanos, posteriormente por tração animal — barcos a vela e logo após a vapor, locomotivas, automóveis, seguidos por fim pelo intrépido avião, o homem conseguiu com seu incrível senso de inventividade vencer grandes distâncias em curto espaço de tempo, conseguindo chegar com suas engenhocas a lugares, antes até mesmo, inimagináveis. Contudo, bem como a própria evolução não é equânime a todos os seres vivos da mesma forma, nem todos as invenções servem a todos ao mesmo tempo. Enquanto em determinadas regiões, os meios de transporte já estão avançados ao ponto de enormes congestionamentos assolarem as ruas e avenidas dos grandes centros urbanos, por outro lado, em muitos lugares, ainda ermos e distantes, o translado de uma local para o outro qualquer, ainda é feito sobre o lombo de animais de carga, ou na maioria das vezes, sobre as próprias pernas. Nesses pitorescos lugares, onde o tempo passa muito lentamente e as novidades demoram bastante tempo a chegar, quando se faz necessário o transporte de alguma carga, essa obrigatoriamente é transportada por animais ou até mesmo nos próprios ombros das pessoas que habitam essas longínquas e esquecidas regiões.

Em muitas regiões dos mais profundos rincões do sertão, nem mesmo estradas existem, apenas tortuosos e improvisados caminhos, por onde se tocam boiadas. Sobre pequenos regatos ou até mesmo estreitos riachos, muitas das vezes não existem pontes, quando muito uma simples e traiçoeira pinguela que quase sempre é feita com rústicos e abaulados troncos de árvores que por uma tempestade um pouco mais violenta, caem sobre o veio d’água ou próximo as margens. Se, o rio é um pouco mais largo e muito caudaloso com fortes correntezas, a travessia deve ser feita em canoas. É sempre comum nesses caminhos cortados por largos rios, haver às margens desse mesmo rio a presença de um canoeiro, que morando pelas cercanias, sempre se demonstra a disposição para atravessar qualquer um que esteja disposto a pagar uma pequena taxa, cobrado, pelo indispensável serviço. Contudo quando em períodos de chuvas intensas, e rio se encontra cheio bem acima de seus limites aceitáveis, com suas correntezas em bravia violência, se faz necessário baixar acampamento às margens desse rio e aguardar, as vezes por dias ou até semanas, até as águas diminuírem de volume e as correntezas amainarem um pouco sua violência para, então, se fazer a travessia de forma segura. Um canoeiro experiente, que conhece bem o rio onde ele presta seus serviços, por dinheiro nenhum desse mundo, ousa desafiar a violência das águas e as inconstantes forças da natureza que de forma impiedosa ali imperam.

Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado e evoluído em comparação às grandes cidades, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino, isto é, há um angustiante misticismo, carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto, arcaicos se faz presente. O homem nessas regiões ainda está muito ligado a natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião com seus dogmas e costumes também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas a fim de no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno possa lhe ser possível.

Se por um lado algumas engenhocas mecânicas ainda não são conhecidas de muitos sertanejos embrenhados pelos mais longínquos lugares, no campo do conhecimento intelectual não é tão diferente. Esse mesmo individuo que ainda não teve contato com as inovações tecnológicas tão pouco teve acesso as belas letras da literatura de Shakespeare, Victor Hugo, Goethe, Dostoiévski e tantos outros, nem de longe sabe por onde passa a geometria euclidiana, as ideias de Platão ao seu costume interiorano de ser obediente e temente a Deus podem facilmente ser entendidas como uma imperdoável blasfêmia passível dos mais temíveis castigos divinos. Nessas ermas regiões os costumes ancestrais são obedecidos a risca pelos mais velhos, que de forma equânime as ensina aos mais jovens que, assim que as apreendem, dão continuidade ao eterno ciclo de saberes e costumes que dão certo sentido às suas insípidas vidas campesinas.

Um desses costumes era que, o local de sepultamento de um individuo — independente de quem fosse ou o que tivesse feito em vida –, deveria ser um cemitério, ou seja um campo santo previamente benzido por autoridades eclesiásticas com autonomia para tal. Se, porventura, esse mesmo individuo que se deparou com o seu último e inadiável compromisso nessa terra, residisse distante de algum cemitério, seu corpo após as exéquias iniciais — lavagem e preparação do corpo para o funeral — logo, deveria ser transportado para o cemitério mais próximo de sua antiga morada. Nesses ermos e distantes locais, onde ainda não existia meios de transportes mais adequados, o traslado do falecido sempre era feito por seus pares mais próximos — fossem eles parentes, amigos, conhecidos ou apenas papa-defuntos — em rústicas padiolas rapidamente improvisadas, denominadas no linguajar do sertão como banguê.

Justamente em uma dessas regiões, onde ainda o progresso demoraria um longo tempo a se fazer presente, em certa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, viu-se por um desses improvisados caminhos, um pequeno grupo de transeuntes que caminhavam no mais respeitoso silêncio com passos tão lentos que facilmente poderiam ser contados por quem desocupadamente os observasse. O silêncio entre o grupo era absolutamente melancólico, o único som que pudesse ser ouvido era de seus próprios passos ou aqueles inconfundíveis sons que a natureza em seu esplendor matinal brinda qualquer um que tenha tempo para apreciar, — o leve cair da chuva, o vento frio, que vez por outra soprava entre as folhas das frondosas árvores e o alegre cantar dos pássaros em agradecimento por mais um dia em suas vidas. À frente desse grupo caminhavam quatro homens fortes, mas, ainda assim, já bastante fatigados pelo frio e pelo cansaço, por estarem carregando aos ombros nus um banguê, com um enorme e rústico caixão, que dava a impressão de ter sido improvisado muito às pressas, com algumas tábuas fortes mais já bem velhas.

Esse silencioso grupo não era muito grande, oito homens que se revezavam de tempos em tempos no transporte do banguê, que visto, mesmo de longe, dava a impressão de estar bastante pesado. Além desses incansáveis e vigorosos transportadores, havia ainda uma chorosa e muito bela mulher, aparentando ainda estar na flor da idade, essa triste criatura arrastava pelo braço um belo jovem de aparência muito angelical de uns doze anos, talvez até um pouco mais, pois era difícil determinar sua idade certa, se por um lado seus gestos e aparência era um tanto quanto infantis seu tamanho físico era um tanto quanto descomunal. Tinha ele, já o tamanho de um homem adulto, tanto em altura bem como em largura com uma estatura já bem definida, contudo seu semblante trazia em si traços de uma inocente infância bem cultivada. Esse viçoso jovem de pele amorenada num tom bem leve, de vasta cabeleira cacheada da cor de ouro escuro, se demonstrava ser uma criança muito inquieta e bastante irritadiça e naquele momento em questão, estava num frenesi que misturava seu temperamento indócil com o sentimento de perda de algo muito precioso.

Como não era para menos, pois além de ter perdido um ente muito querido para ele, estava enfrentando uma longa caminhada debaixo de uma chuva fria, que nem por um instante sequer dava uma mínima trégua. Devido a tudo isso, vez por outra reclamava do frio e do cansaço quebrando o respeitoso silêncio que de forma involuntária era estabelecido por todos. Essas inconvenientes reclamações, que vez por outra eram dirigidas a sua bela e melancólica mãe, — que além do sofrimento de perda que lhe dilacerava a alma já estava se impacientando com essas indiscrições — já haviam lhe rendido alguns dolorosos beliscões e algumas caras feias, por parte dos mais velhos que ajudavam no traslado daquela funérea carga. Esse pequeno e silencioso grupo era então num total de dez pessoas, coincidentemente como; os dez mandamentos ou os dez Sephiroths — os atributos de Deus na criação do Universo — o certo era que mesmo que involuntariamente, os dez criavam uma espécie de circulo protetor ao redor daquela funesta carga. Logicamente que nenhum deles tivesse a menor noção disso tudo.

Completando o fúnebre grupo, era óbvio que havia o defunto, que estava dentro daquele improvisado esquife, que era trasladado, pelos já calejados ombros, ávidos por um merecido descanso de tão nobre, mas não menos pesada carga. Nobre, não por que o defunto em questão pudesse ter possuído em vida algum tipo de título importante, mas porque todos nós, assim o tornamos, quando finalmente cumprimos nossa árdua sentença nessa vida e nos encontramos com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele sinistro fato sem explicação que iguala tudo quanto é vivo num único rebanho de condenados, porque tudo que é vivo, um dia morre e ao morrermos nos tornamos todos bons e dotados de inúmeras qualidades. A certo modo, a morte em si é uma espécie de restauração da índole do individuo. A bem da verdade, a carga em si era realmente bastante pesada, pois o homem, sendo respeitosamente ali transportado, era de uma descomunal estatura. Grande e muito pesado era aquele defunto, pois além de seu próprio peso físico, aquele inerte e funesto corpo, carregava consigo o peso de incontáveis pecados, sendo alguns hediondos e quem sabe talvez, até mesmo imperdoáveis, aos olhos de Deus.

Por mais cansados, que pudessem estar todos eles, pois já caminhavam por quase quatro horas, enfrentando além da enorme distância percorrida, uma fina e insistente chuva de invernada, que caia tão fria naquela manhã dando a leve impressão que pudesse congelar até os ossos e já um ou outro, quase concordando com o jovem que a quase todo momento solicitava que parassem pelo menos um pouco, para recuperarem o fôlego, os mais velhos seguiam silenciosamente renitentes em frente num passo firme, pois sabiam que uma parada, por mais breve que fosse não era de todo recomendada. Qualquer tipo de parada, poderia esfriar o sangue do corpo e pairar certo esmorecimento entre os caminhantes e além do mais, segundo os mais velhos — rigorosos guardiães de uma inquestionável sabedoria milenar — havia certo conhecimento que, quando um cortejo fúnebre partia da antiga morada do falecido, com seu corpo, rumo a sua nova e eterna morada, não poderia de forma alguma, haver nenhuma tipo de parada pelo caminho, pois se, porventura, isso viesse a acontecer em qualquer lugar, o espírito do falecido entenderia que aquele seria o seu local de infinito descanso.

Se, porventura, o lugar não fosse um campo santo e não tivesse sido liturgicamente benzido, como é o caso das igrejas bem como os cemitérios em si os são, a alma do defunto sendo ali transportado ficaria ali estacionado vagando a esmo sem descanso, atormentando os vivos que, por acaso, passassem por aquele local. Para alguns mais extremistas ainda, nas questões de misticismo antigo, acreditavam que essas almas atribuladas buscavam avidamente uma forma de dar descanso ao seu espírito, como esse espírito errante estava proibido de entrar no paraíso ou até mesmo padecer no inferno, para não ficarem vagando no eterno abismo que separa os mundos, tentaria de qualquer forma encontrar um novo corpo, para assim, voltar a terra e refazer todo o trajeto novamente. Havia certo temor entre os mais velhos, que se uma mulher de recente gravidez se demorasse tempo suficiente num desses locais atormentados, o espírito errante poderia encontrar uma porta para o nosso mundo através da criança que viria nascer. Alguns, até mesmo acreditavam, na ignorante ideia, de que as pessoas loucas são frutos provenientes desses espíritos errantes que atormentam a mente do individuo desde o seu nascimento.

Todos os prestativos companheiros que se revezavam continuamente no transporte daquela funérea carga eram moradores da região e conheciam bem o falecido. Na verdade pode se dizer que apenas conhecidos, mesmo sendo vizinhos de muitos anos, pois amizade mesmo era um termo já desconhecido do defunto há séculos, era do tipo de pessoa que para o mundo ele já havia morrido há bastante tempo. Dentre os homens que compunham tal seleto grupo que transportava aquele inglório banguê, o mais velho dentre eles era Senhor Juraci Fonseca — conhecido por toda região como Seu Jura — de quase oitenta anos, mas milagrosamente ainda muito forte e vigoroso. Mesmo sendo quase octogenário, sempre fazia questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre. Desde o inicio do velório até o cemitério. Alguns, — longe de sua presença obviamente — o chamavam de papa-defuntos e diziam — pelo menos os desocupados — que Seu Jura tinha um estranho deslumbre com a morte, pois independente de quem era o falecido — criança, velho, mulher ou quem quer que fosse — era ele o primeiro a chegar ao velório e um dos últimos a deixar o cemitério, bem depois do sepultamento.

Seu Jura era um homem de estatura mediana, com a pele queimada pelo sol devido a incontáveis anos de lida no campo, desde que se entendera por gente. Sua barba sempre bem aparada era branca como um chumaço de algodão, dando-lhe a aparência de uma sábio ancião. Havia uma estranha sombra de mistério sobre seus olhos castanhos cor de âmbar que já perdiam o brilho. Ele caminhava em absoluto silêncio e apenas emitindo longos suspiros entre um intervalo e outro; talvez tivesse receio de que algo estranho acontecesse a qualquer momento.

Esses doridos suspiros mais pareciam um frio sopro de inverno, quem o observasse naquela completa melancolia, deduziria facilmente que o defunto era seu ente mais querido, mas em qualquer velório seu comportamento era sempre o mesmo. Contudo, naquele cortejo em si, havia algo sinistramente diferente. Esse senil senhor parecia um guia bastante rigoroso, uma espécie de arauto da morte, pois sempre caminhava à frente, estando ele carregando o banguê ou não. Com o semblante sempre muito sério, embora forte e confortador, com gestos firmes e determinados, comandava o rito fúnebre. Seguindo sempre em frente, sem demonstrar esmorecimento algum ou considerar qualquer possibilidade de descanso, ensimesmado com seus pensamentos sobre as grandes questões que envolvem os mistérios tanto da própria existência bem como da morte, ele se lembrara de algo que tinha ouvido em algum lugar: “…por ocasião de uma partida ou à beira da morte, um homem é capaz de refletir sobre seus próprios atos, ordinariamente fazem um inventário minucioso de suas ideias e crenças em geral e, nesses momentos, fazem um retrospecto do passado, se questionam de forma incômoda sobre o futuro e, evidente, o que vem depois…

Seu Jura com certeza não tinha a leve noção de seu próprio destino, mas, de alguma forma, sabia com exatidão o que o destino reservava ao nobre defunto que estava sendo, também por ele mesmo, ali transportado. Sendo ele um senhor já bastante experimentado na vida, quase nada temia desse mundo em si, porém, de certo modo naquela manhã em especial, algo o incomodava bastante, deixando os pelos de sua nuca eriçados e com estranhos arrepios que corriam por todo o seu corpo tal como em seu passado, quando ainda era uma criança e tinha medo de quase tudo — em especial a escuridão das noites de tempestades — . Esse estranho sentimento de ansiedade e temor o fazia, vez por outra, olhar para trás, guiando seus olhos até onde a vista alcançava pela infinitude do caminho como se estivesse esperando por algo ou por alguém.

O mais jovem, dentre aquele curioso grupo de carregadores, era o belo e instruído Gottardo Domingues, recém-chegado da capital, onde já era tratado pelos amigos — a maioria um bando de bajuladores — como Doutor Gottardo, pois este, devido a sua aguçada inteligência e prematura entrada nos estudos — como era filho de família abastada, desde pequeno já se via envolvido no mundo das letras e números — logo em breve seria um médico formado. Seu pai Laércio Domingues não poupava elogios para o filho, que aos seus olhos era o grande orgulho da família, — o primeiro doutor entre os Domingues –, pois estando ele, Gottardo, já no terceiro ano da Faculdade de Medicina, o que o pai recebia por parte dos professores e até mesmo do próprio Reitor era laudas e mais laudas pela inteligência e desenvoltura do filho nos estudos — e, de fato, o jovem era um prodígio em seu aprendizado, no entanto, a faustosa doação feita anualmente pelo seu pai à instituição incentivava bastante o aflorar destes elogios  — . Ali na região, desde criança, ele sempre fora conhecido pelos mais íntimos como Dominguin e, naquele exato momento, contava com seus vinte e um anos recém completados de poucos.

Dentre os homens adultos, Dominguin era o único homem solteiro daquele grupo, todos os demais eram casados e tinham família formada, com filhos e netos e, no caso de Seu Jura, até mesmo um bisneto já a caminho. O motivo de estar acompanhando aquele grupo não era por amizade ao falecido, muito menos pelo social de representar sua família no velório, até porque o falecido não era bem visto pelo Seu pai, tampouco por sua mãe que temia o finado como uma criança teme os mistérios das trevas. A razão real de um jovem como ele, — quase um doutor — , recém-chegado da cidade grande, com todas as suas libertinas atrações, estar acompanhado aquele humilde cortejo e estar, durante todo o trajeto até ali, se mostrando aos outros como incansável e com um vigor extremo, era o fato de seus olhos estarem pousados sobre a única mulher que acompanhava o grupo.

Essa chorosa criatura era a única filha do então falecido, e acompanhava o grupo com doridos suspiros e pesadas lágrimas que lhe banhavam sua meiga face deixando-a aos olhos do jovem enamorado, ainda mais atraente. Certo era que, Gardênia, mesmo com todos os seus encantos, já era uma mulher madura e tinha quase o dobro de sua idade, mas sempre fora para o jovem Dominguin seu grande amor platônico. Desde sua pré-adolescência, esse letrado jovem cultivava uma ardente paixão pela encantadora filha do afamado feiticeiro Thomás, sentimento esse que lhe rendera incontáveis noites de agonia e sonhos lascivos que, vez por outra, lhe sujava os seus lençóis. 

Na cidade grande, Dominguin havia se deitado com inúmeras outras mulheres, mas sua grande obsessão sempre fora ter, um dia, Gardênia entre seus braços e realizar com ela seus mais ardentes desejos. Todas as vezes que se deitava com outra mulher, era ela quem ele via, sentia o perfume dela em outros corpos, via seus ardentes olhos em outras faces. Enfim, Gardênia era, na verdade, para Gottardo Domingues, que sempre tivera de tudo e nada nunca lhe fora negado, uma prenda que parecia estar longe de suas possibilidades até então. Entretanto, agora com a morte de seu pai, estando ela naquele momento de extrema fragilidade, certamente estaria bem mais acessível a uma investida feita com cautela e parcimônia.

Mesmo naquele momento de profunda fragilidade, Gardênia ainda trazia consigo todo o seu encanto que desde sempre fora motivo de plena admiração, contudo, se essa bela mulher por um lado era bastante atraente, com todos os traços que um corpo bem feito pode oferecer, de certo modo era profundamente repudiada por todos aqueles que a conheciam de perto e sabiam de sua história e dos dois únicos homens que um dia ousaram se aproximar dela. O primeiro deles um coronel que se achava acima de tudo e de todos e pensava que o restante do mundo era o quintal de sua fazenda e tudo lhe pertencia; o segundo, um exibido boiadeiro que sempre sorria na face da morte e nada temia, a este último deve ser dado um desconto, pois seu idílio com Gardênia foi um acidente de percurso, mas encontrou um triste fim da mesma forma. A partir de então, essa encantadora mulher havia se tornado uma flor solitária onde todos temiam o odor que ela exalava, pois por mais doce e atraente que pudesse parecer, seu perfume tinha cheiro de morte a quem ousasse apreciá-lo.

Dominguin havia se tornado um belo jovem de corpo atlético, com um bigode muito bem cuidado, cabelo cortado ao estilo dos cavalheiros da capital e mesmo de longe já dava mostras de ser bastante polido e muito instruído. Sendo ele um homem das letras e da ciência, não dava muito importância a certas estórias contadas à beira de uma fogueira para assustar crianças pequenas e mulheres inocentes. Seus atraentes olhos claros não viam esses relatos como concretas ameaças para ele, além do mais, estava embevecido pelos encantos daquela mulher, pode se dizer enfeitiçado até, por toda a beleza que era exalada de cada movimento de Gardênia. Quando soube do falecimento de Pai Thomás, imediatamente se dispôs a prestar seus sentimentos a filha do velho feiticeiro. Sua mãe imediatamente se colocou contra aquela determinada resolução, mas logo o pai, Seu Laércio se interpôs dizendo que ele já era um homem feito e tinha todo o direito de tomar suas próprias decisões. Sua mãe, em contrapartida, tentou dissuadi-lo lhe contando algumas estórias sobre o falecido e seu envolvimento com o mundo das trevas. Dominguin para convencer e deixar sua mãe mais tranquila a abraçou e deu-lhe um estalado beijo em sua testa dizendo logo em seguida:

– Minha doce mamãe, sou um homem da ciência, quase um doutor, pode-se assim dizer. Eu só acredito naquilo que eu vejo e que tenha uma explicação lógica. Não acredito nessas coisas que não existem no meio científico. Aqui no campo ainda paira um misticismo bastante arcaico, essas coisas de bruxarias, espíritos errantes e demônios só servem de explicações para tentar responder de forma conveniente aquilo que essas pessoas ignorantes ainda não conseguem compreender. Para essa gente humilde, muito facilmente uma pessoa com sérios problemas mentais poderia ser confundida com um endemoniado e certamente um padre seria chamado para tentar resolver a questão, ao invés de um tratamento médico-hospitalar sério e eficaz.

– Abençoado aquele que mesmo sem poder ver, ainda assim acredita naquilo que os olhos não podem ver. E não precisa se queimar no fogo para saber de seu violento calor, mas acredita no perigo das chamas, simplesmente pelas histórias de quem assim já o padeceu. Você mesmo meu filho, que se diz um homem da ciência, deveria saber, pelas palavras daquele poeta lá dos estrangeiros; “que existem bem mais coisas entre o céu e a terra do que julga a nossa vã Filosofia…”. — disse sua mãe por fim, mas vendo a resolução nos olhos do filho, não o impediu de ir.

Dominguin era jovem e muito ousado, ainda na flor da idade. É comum ao jovem, transpirando o frescor da juventude, perder o bom senso para o desejo, o amor e a cautela. Qualquer aviso nessa idade soa bem mais como a um desafio ou até mesmo um irrecusável convite. Então ali estava ele, ansiosamente aguardando uma melhor oportunidade para uma investida segura e eficiente. A caminhada continuava de forma obstinada e, depois de quase quatro horas, ainda faltava um terço do caminho. A maioria dos homens já se mostravam exaustos e ansiavam por um breve descanso quando, ao longe, foram avistados quatro cavaleiros vindos por trás na direção do grupo em uma obstinada marcha. O grupo obviamente teria que se afastar um pouco do caminho para dar passagem aos cavaleiros, pois demonstravam estar bastante apressados para algum compromisso de suma importância. 

Mesmo de longe ainda era possível discernir que os quatro cavaleiros pudessem fazer parte de algum tipo de batalhão ou algo parecido ao longe, eram os quatro praticamente idênticos. Estavam montados sobre belíssimos corcéis negros de pelo reluzente, e os próprios cavaleiros vestiam negro dos pés a cabeça, galopando rápido na direção do cortejo, mais pareciam quatro manchas negras que cortavam o caminho, criando um contraste curioso no verde da relva ao redor e o branco acinzentado daquela manhã chuvosa que pairava no ar.

Seu Jura ao ver os cavaleiros se benzeu por completo com o sinal da cruz e iniciou um apressada oração em sussurro, como se temesse que algo ou alguém pudesse ouvi-lo. Os demais viam aquilo com certa curiosidade, primeiro porque nunca tinham presenciado Seu Jura agir daquela maneira, demonstrando estar profundamente apavorado e, também, pela novidade daqueles estranhos cavaleiros estarem transitando ali naquele lugar. Nenhum daqueles que compunha o grupo parecia conhecer qualquer um dos cavaleiros, nem mesmo o porquê de eles estarem vestidos daquele modo. A cada passo que os cavaleiros davam, encurtando cada vez mais a distância entre eles, as preces de Seu Jura se intensificava um pouco mais. Até mesmo Gardênia se mostrara incomodada com tudo aquilo. 

Dominguin já acostumado a ver todo tipo de estranhezas que pululavam pela capital, não demonstrou qualquer tipo interesse nos cavaleiros, nem mesmo no comportamento absurdo de seu ancião companheiro — que para ele era normal pela sua senilidade — para os demais tudo não passava de apenas uma estranha novidade até o momento que os quatro cavaleiros se emparelharam junto ao grupo e se puseram a disposição para levarem o banguê. Seu Jura que sempre fora uma espécie de guia que regia aquele tipo de evento e até o presente momento havia coordenado todas as ações, estava agora num silêncio sepulcral, meio que paralisado. Quem o observasse com mais atenção naquele momento, diria facilmente que nenhum músculo de seu corpo se movia, temendo até mesmo soltar o ar de suas narinas.

Assim que os cavaleiros solicitaram a honra de conduzir aquela funérea carga, — solicitaram — , é o certo a dizer, pois foi assim mesmo que se sucedeu, não foi apenas um cavaleiro quem falou, mas os quatro de uma única vez, como se apenas um falasse, mas o som das vozes vinha das quatro direções ao mesmo tempo, uma voz cavernosa e firme, quase como uma ordem inquestionável dada por um terrível superior ao seus temerosos subordinados. Como Seu Jura nenhuma palavra dissera e nem ao menos um único gesto demonstrara em contrário a solicitação dos negros cavaleiros, logo, também ninguém se opusera — pois a grande maioria ansiava por logo se verem livres daquela pesada carga. Assim que o primeiro carregador entregou sua parte do banguê ao primeiro cavaleiro, logo fora acompanhado pelos outros que também entregaram suas devidas partes. Seu Jura estava paralisado como uma estátua e nem sequer ousara levantar os olhos, como se naquele exato momento, tivesse vendo estampado no chão toda a verdade do universo ou apenas temesse olhar para os cavaleiros.

Contudo, Dominguin, que fora o último a entregar sua parte do banguê, olhou para a face do ultimo cavaleiro, mas não conseguiu ver muita coisa, a maior parte de seu rosto estava coberta por uma espessa barba negra e a imensa aba do chapéu que também era preto bem como o restante de toda a indumentária, entretanto por um breve relance imaginou ter visto parte dos olhos do cavaleiro ou aquilo que deveria estar no lugar de onde deveria haver olhos. Dominguin teve a impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos, mas tudo foi muito rápido, por que assim que esse último cavaleiro suspendeu sua parte da carga, logo esses quatro cavaleiros se afastaram em um trote rápido, como se o cortês auxílio prestado àquele exausto grupo fosse, na verdade, uma importante missão para eles. Estando eles, ainda a menos de vinte metros de distância, disseram os quatro em uníssono ou talvez apenas um falasse e a voz ecoou como se fosse os quatro ao mesmo tempo, o som da fala era muito estranho, e bastante sinistro, tanto que, a todos causou arrepios, até mesmo o douto Dominguin teve sua dose de temor, experimentando certo receio, quando ouviu os cavaleiros dizerem:

– Thomás! Thomás! Como esse sempre tomara mais…

Assim que os quatro cavaleiros disseram essas lacônicas palavras, estando eles já de posse daquela funesta carga, seguiram a trote rápido pelo caminho afora numa velocidade que não seria possível para um homem comum conseguir acompanhá-los a pé, talvez nem mesmo montado a cavalo. Quanto mais se afastavam mais a velocidade de seus cavalos parecia aumentar, de certo modo, vistos já bem distantes dava a estranha impressão que pudessem estar voando sobre a estrada, como um pássaro em um voo rasante pairando sobre as águas. 

Seu Jura demonstrando estar terrivelmente assustado, não dissera uma única palavra, apenas se aproximou de Gardênia e tocando em seus ombros com as mãos trêmulas de uma forma bastante paternal, olhou no fundo dos olhos dela e após dar um longo suspiro, iniciou a caminhada de volta pelo caminho por onde até então estavam vindo. Pela primeira vez em toda sua vida, aquele senil senhor abandonava um velório antes de seu término — fato esse que causou estranheza a todos os presentes –. Como muitos ali, estavam apenas prestando uma última gentileza a uma indefesa e inconsolada filha e tinham vindo acompanhando Seu Jura para o auxiliar no transporte do falecido, assim que esse — de forma ainda incompreendida — iniciou o seu retorno para casa, também logo, o seguiram para seus determinados afazeres. Gardênia e seu filho continuaram em frente, pois deveriam chegar até o cemitério para onde o corpo de seu pai estava sendo levado para assim que recebesse as determinadas exéquias, pudesse em fim descansar em paz no local de sua ultima morada.

Dentre os companheiros que iniciaram a jornada, desde a casa de Pai Thomás, ainda de madrugada, apenas três seguiram Gardênia pelo caminho — dois deles provavelmente tinha algum tipo de negócio a resolver na distante corrutela ou apenas estavam ansiosos para saberem o desenrolar daquele estranho acontecimento. Dominguin, agora livre do peso que estava carregando nos ombros, se colocou ao lado de Gardênia e a acompanhou, bem próximo, esperando avidamente pela oportunidade de travar algum tipo de diálogo com ela, todavia manteve o silêncio que ela havia predeterminado para si naquele triste momento, silêncio que se quebrava somente pelo suspiro profundo e dolorosamente sofrível.

Dominguin, vez por outra, a olhava de cima a baixo, sem poder acreditar que as estórias que os desocupados da região contavam sobre aquela meiga e indefesa mulher pudessem de alguma forma ter um mínimo sequer de verdade. Segundo ele — um homem que vivera por anos na capital, rodeado das inovações tecnológicas da ciência e das comodidades do progresso — as estórias que contavam sobre seu falecido pai e seus estranhos e inverossímeis poderes paranormais era uma completa bazófia. O que havia acontecido aos dois homens que tiveram relacionamentos com ela, teria sido apenas simples acidentes do acaso e logicamente teria uma explicação cientifica plausível para cada caso em si. Coronel Guilhermino, que havia morrido bem antes dele nascer, fora acometido por algum tipo de doença que carecia de diagnóstico correto e tratamento adequado, já o boiadeiro Emanoel havia sofrido uma queda de sua montaria, apenas um trágico acidente de trabalho comum a qualquer um que se destina a esse tipo de função.

Naquele momento seus interesses eram bem maiores do que dar ouvidos a estórias contadas pelos caminhos e varandas ao luar sobre maldições, pragas e magia negra ou qualquer coisa que o valha. De qualquer forma não seria nem um pouco cavalheiresco de sua parte abandonar tão bela dama ali, no meio do caminho naquele momento tão triste. Além do mais ele não tinha muita coisa para fazer naquelas terras do sem fim. Depois de uma profunda discussão interna consigo mesmo, decidiu que deveria a qualquer custo acompanha-la até o fim. Como já haviam caminhado bem mais do que a metade da distância, e como o tempo dava mostras de melhorar um pouco, aceleraram o passo e seguiram pelo caminho. Todos de cabeça baixa e no mais absoluto silêncio…

Conto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Leonardo Garbossa, -Poesias Leonardo Garbossa Escrito por Leonardo Garbossa, -Poesias Leonardo Garbossa

Pax Romana

As mulheres e crianças liberdade receberam | Podendo viver, livres, sem receio; | Pedra seus corações se tornaram, | Na cidade onde os homens nada falam…

Arte de Glauco Moura

As mulheres e crianças liberdade receberam
Podendo viver, livres, sem receio;
Pedra seus corações se tornaram,
Na cidade onde os homens nada falam

Bocas rosadas e juvenis contam
Histórias antigas suas narrativas remontam
O doce sono da morte embalam
Na cidade onde os homens nada falam

O silêncio pútrefo impera regente
No coração de um movimento final, emergente
Solo bélico que poucos tocaram
Na cidade onde os homens nada falam

Por guerras sem sentido a trama fora marcada
Um clássico de frieza rebuscada;
O desejo e a destruição se calam
Na cidade onde os homens nada falam.

Poesia publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.

Sobre o Artista Convidado - Ed. 1, Janeiro de 2024 - Castelo Drácula

Leia mais
Escrito por Carlos Conrado, -Poesias Castelo Drácula Escrito por Carlos Conrado, -Poesias Castelo Drácula

Mãe

Tu que colhes os ermos deste cemitério, | vem colher a víscera deste corpo, | louco e desvairado, carne do fracasso...

José Uría y Uría (1861–1937) - Lope de Vega en el cementerio (1884)

Tu que colhes os ermos deste cemitério,
vem colher a víscera deste corpo,
louco e desvairado, carne do fracasso...
Tu que amamentas um feto menino,
derrama o teu leite num leito de flores,
vem, entrega-te ao arroio...
Tu que andas nesta noite,
vem visitar-me, estou a sete palmos,
ó ser excomungado pela lua...
Tu que choras nesta tumba,
deixa que o teu pranto invoque estes restos,
esses pútridos esquecidos pela vida...
Tu que a saudade é quem guia,
nunca me esqueças!
Busque-me algum dia...
Tu que os sonhos acompanham,
nunca te esqueças,
dos dias em que éramos um só...
Tu que levas esta carcaça depressiva,
vem dar-me o último beijo,
o abraço do adeus...
Tu que és musa de um desgraçado,
feio, morto e sepultado,
traz-me o teu colo, ó mãe querida.

Poesia publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais deste autor:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Músicas, Escrito por Sahra Melihssa, -Resenhas Sahra Melihssa Músicas, Escrito por Sahra Melihssa, -Resenhas Sahra Melihssa

Resenha: A Melancolia de Trees Of Eternity

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio e…

Foto da Web

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio (da banda Swallow the Sun) e a cantora Aleah Stanbridge, nascida na África do Sul e residente na Suécia. A música deles é frequentemente descrita como melancólica ea inspirada no estilo musical doom/death, com vocais femininos angelicais.

A banda foi formada quando o guitarrista Juha Raivio e a cantora Aleah se juntaram no estúdio para trabalhar na música "Lights on the Lake" para o próximo álbum da Swallow the Sun. A partir dai, o projeto se tornou uma ideia com vida própria e, desta experiência nasceu o álbum Hour of The Nightingale.

Em 11 de agosto de 2016, o álbum de estreia da banda, Hour of the Nightingale, foi anunciado para ser lançado em 11 de novembro. Infelizmente, em 18 de abril de 2016, a cantora Aleah Stanbridge faleceu de câncer aos 39 anos. Dois dias depois, Juha escreveu no Facebook que o álbum estava pronto para ser lançado há algum tempo e que os planos ainda estavam em andamento. Ele também planejava lançar as músicas solo de Aleah

"Alcance através de sua mente, céu interno
Deslize infinito até mim
Alma encarcerada, presa atrás de seus olhos
Até que seja salva, compartilhando sua luz
E escuridão"
— Trecho traduzido da música Condemned To Silence

O álbum foi lançado, às condolências por Aleah e em nome de sua voz perfeita e do trabalho que tivera, junto a Juha e os demais convidados, na produção de Hour of The Nightingale.

É preciso ouvir Aleah cantar em Hour of The Nightingale para compreender como as sensações mais soturnas emergem no âmago e florescem em uma lentidão abominável dentro da alma. Tamanha é a melancolia dos instrumentos que conduzem a voz de Aleah que, através dos nossos olhos, vertem lágrimas imateriais enquanto um estranho conforto nos guia a um abismo sem fim. Por tais sensações inenarráveis, é impossível deixar de ouvir o álbum completo, várias vezes consecutivas; é viciante o universo que tais composições evocam.

Há males quais não podemos dizer terem vindos para o bem, pois que amargura é não ter um novo single de Trees of Eternity nos dias atuais; resta-nos o lamento e a mensagem deixada: “Não chores por mártires | Levante a cabeça | Águas salinas não vão ressuscitar os mortos” — Trecho traduzido da música que leva o nome do álbum: Hour Of The Nightingale.

"Veja todas as cores desaparecendo
Com o Sol
Temporada de uma escuridão sombria
De novo, isto começou
Amaldiçoado por ciclos recorrentes
Erguido para ser desfeito"
— Trecho traduzido da música Eye Of Night
Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais desta autora:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais