Loucura Mórbida, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes Loucura Mórbida, Escrito por Valesca Afrodite, -Contos Valesca Afrodite Gomes

Maldita Melodia

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algumas vezes, as coisas habituais se tornam estranhas; não o estranho de não reconhecer, mas o estranho desconfortável, aquele que incomoda, que é anormal. Coisas que antes eram familiares se tornam incomuns. Assim foi com a música. Tudo começou como um sonho, ou melhor, como um sussurro musical no meio da noite, que penetrava a minha mente. Quando acordei, a melodia continuava ali, flutuando no meu cérebro e, por algum motivo, ela não ia embora. Às vezes, acontecia de uma melodia se prender à minha mente, e eu ficar a cantarolar por horas e, às vezes, dias, aquela mesma melodia. Sentei-me na beira da cama, tentando capturar a melodia que ainda flutuava no meu cérebro. Era bela, embora impossível de cantarolar. Meus lábios não conseguiam formar os sons. Fui até meu violoncelo e tentei transcrever aquela melodia para as cordas. Posicionei o arco, alinhei os dedos e, então, nada. Eu não conseguia tirar aquela melodia da minha cabeça e, ao mesmo tempo, não conseguia trazê-la ao mundo real. 

Os dias pareciam passar lentos, e a repetição daquela melodia começou a se tornar torturante. A música, antes lenta e tranquila, parecia aumentar aos poucos. Ela não parava, não alterava, repetia-se em um loop dentro da minha cabeça. Eu tentei escrevê-la, traçava as pautas com rapidez, mas as notas não se encaixavam. Era como se a música fugisse de qualquer estrutura lógica; as notas pareciam se negar a tomar forma no papel, rejeitando existir fora da minha mente. Minhas tentativas de cantarolar eram inúteis: o som na minha cabeça parecia se dissolver assim que passava pela minha garganta. Ainda assim, eu insistia. Insistia dia após dia. Minhas mãos tremiam a cada tentativa, e minha mente parecia se desfazer lentamente, exausta de tantas noites sem dormir com aquela melodia que não queria existir. 

Eu me recordo do momento exato em que essa música começou a me torturar de verdade. Eu estava fora de casa, em uma tarde, tentando me concentrar nos sons das folhas, dos pássaros, dos carros, de tudo ao meu redor. Tentando me concentrar na paisagem. Mas parecia que tudo ia ficando mais cinzento, mais escuro, e, lá no fundo, a música aumentava. Seu tom se intensificava, suas pausas diminuíam, e as notas se elevavam, como se, a qualquer momento, fosse alcançar o clímax e, com isso, fazer meus miolos escorrerem pelos ouvidos. 

Voltei para casa e tentei mais uma vez tocar aquela melodia maldita. As cordas vibravam de maneira errada, as notas vinham distorcidas, o tom estava errado, e eu, frustrada. Até o violoncelo parecia se recusar a cooperar comigo. Algo estava diferente nele — ou talvez eu estivesse diferente. 

Comecei a evitar as pessoas. Suas vozes pareciam intensificar-se ainda mais; cada conversa me perturbava, tornando o som mais intrusivo, mais alto. Eu não suportava mais o mundo lá fora; cada ruído acrescentava mais urgência à melodia. O violoncelo tornou-se um fardo, mas eu não conseguia parar de tentar tocar a melodia. Achava que, se eu conseguisse, talvez ela cessasse. 

Então, tentei. Presa em minha casa, com janelas e portas trancadas e o som de fora abafado, coloquei o arco sobre as cordas, fechei os olhos e me concentrei na melodia dentro da minha cabeça. Ela já se misturava com o tique-taque do relógio, os ruídos dos canos, o som da geladeira, o barulho do ventilador e até o zumbido da eletricidade da casa. Puxei o arco com força, e o som que saiu não era da melodia. Talvez nem fosse humano. Era como um lamento, que fez todo o meu corpo se arrepiar, as paredes tremerem e a madeira do violoncelo vibrar. 

Soltei o violoncelo e olhei para ele com horror, mas não conseguia controlar o impulso de pegá-lo outra vez e tentar tocar a melodia, que agora parecia rir dentro da minha cabeça. Já nem sei o que é real. A melodia não me deixa, e eu não consigo deixar de tentar tocá-la. O violoncelo parece não aguentar mais: suas cordas estão tensas, prestes a arrebentar. Eu só quero tocar essa maldita melodia, só quero que ela tome forma — ou talvez seja melhor que ela permaneça aqui, dentro da minha mente, onde sempre esteve. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Minha bela coleção de almas amigas

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na minha maldição de viver muitas vidas, ainda tenho a vã esperança de encontrar, além dela, todas as minhas almas amigas. E, enquanto esse momento frívolo não chega, adquiri um hábito que todos olham com estranheza: essa mania de colecionar lembranças. Dizem ser mórbido, e talvez até seja mesmo, mas o que eles sabem sobre corações mortos? Sobre a fria solidão dos séculos? Toda a minha coleção, que repousa em minha casa, em molduras gastas, em velhos baús, em álbuns, são as únicas coisas capazes de fazer o meu coração morto chegar perto de bater. Minha coleção favorita: minhas fotografias post-mortem, memórias fiéis das minhas almas amigas que um dia caminharam comigo, compartilharam seus risos, sua vida e seus gostos tão duvidosos quanto a própria eternidade.

Doralice, que sonhava com o mar, sentia como se a maré pudesse alcançá-la mesmo nas terras mais áridas. Júlia, que murmurava consigo mesma versos melancólicos com uma doce tristeza, que quase me faziam querer ser mortal e experimentar a efemeridade. Endora, a ousada, que dançava como se fosse sempre a última dança; ela tinha fome pela vida. Vitória, o farol em meio à tempestade, aquela que não se abalava; e, mesmo agora, sua imagem ao meu lado na fotografia mostra em seus olhos mortos a força que ela tinha. E minha amada Lara, que, ainda viva, ainda espera com um coração que bate com um anseio por algo que não se explica; enquanto o tempo passa, ela mantém minhas lembranças vivas.

Cada vez que uma dessas almas amigas se vai, eu morro um pouco mais em minha não vida. E, em meu luto, preciso de descanso, pois a eternidade às vezes me esgota. Então eu repouso, mas não o repouso do fim, apenas um sonho breve em meu sepulcro silencioso, onde espero, mais uma vez, a chance de despertar e passar momentos na companhia de minhas almas amigas.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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O fim dos tempos

Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma realidade deturpada. As janelas agora não serviam mais para que eu pudesse observar o que acontecia lá fora; o próprio silêncio suspenso parecia me observar, o mundo parecia congelado. Um novo vírus, diziam. A televisão mostrava as mesmas notícias de sempre, pedindo que nos mantivéssemos em casa, calmos, pois logo tudo ia acabar. Mostravam que o “novo normal” era apenas uma tela de mentiras. Houve o primeiro dia de lockdown, o isolamento social era obrigatório e todos deveriam seguir as normas, e, no terceiro, o silêncio começou: ninguém parecia mais falar ou ser visto pelas janelas. Ruas vazias, comércios fechados, o trânsito parado — somente o nada e o silêncio absoluto. Minha curiosidade era intensa, mas eu conhecia as regras: “Não saia de casa!” Então as segui à risca. A mídia transmitia o mesmo discurso repetidas vezes, um toque de recolher absoluto, segundo as autoridades, mas ninguém sabia o que acontecia com aqueles que decidiram desafiar as regras. 

Em alguns canais, líderes religiosos diziam que a humanidade precisava de purificação, pois estávamos sendo preparados para algo grandioso. E nas redes sociais, mensagens surgiam. Havia aqueles que diziam que o Salvador havia voltado e que os que sumiram estavam sendo arrebatados. Era essa a explicação? As autoridades faziam vista grossa para esses desaparecimentos e sugeriam que eram pessoas que desobedeceram ao isolamento, mas que logo isso seria resolvido. À noite, eu ouvia sons quase imperceptíveis, ruídos estranhos, pulsantes, como se viessem de algum lugar acima do meu prédio. Todos os dias esses sons ficavam um pouco mais altos e mais próximos. Em uma noite, observei algo pela janela: um raio fino e muito luminoso cortava o céu, atingindo algo na rua de trás. Noutra noite, recebi uma mensagem de um amigo que dizia: 

“Já percebeu que nada mais parece real? Que os programas de televisão estão só repetindo um mesmo padrão, como uma máquina tentando parecer humana?” 

Eu não tinha certeza do que ele estava falando; imaginei ser uma nova teoria da conspiração que ele estava acompanhando. Mas, como eu não tinha muito o que fazer, comecei a prestar mais atenção nas notícias, e a cada dia elas mostravam os mesmos rostos, e rostos muito semelhantes, dizendo sempre as mesmas coisas, mas de maneira diferente: “Aos poucos, as coisas vão se normalizando; em breve tudo voltará ao normal.” Entrei em um fórum online e encontrei outras pessoas que também haviam percebido essas discrepâncias. Parecia um padrão de controle, uma ilusão para nos manter calmos. Eles queriam que tudo parecesse normal, enquanto alguma coisa lá fora parecia fazer algum trabalho sujo. O isolamento social inicial parecia que era para nos proteger de algum vírus, de uma praga moderna, mas parecia também nos proteger de algo pior, e eu me perguntava o motivo disso. Ninguém que saía voltava, e ninguém parecia se perguntar o porquê disso. 

Uma noite, ao abrir o fórum, vi uma postagem: um usuário dizia ter testemunhado o arrebatamento do outro lado da rua. De acordo com ele, uma figura luminosa apareceu e levou para o céu todos aqueles que saíram para a rua. Alguns concordavam, citando versículos bíblicos e dizendo que todos seriam levados em um piscar de olhos. Mas eu sabia o que eu tinha visto; eu vi um raio luminoso e não uma figura luminosa, e me perguntava se esses raios que apareciam não eram parte de algo muito mais assustador. Quando os dias viraram semanas, algo ficou mais claro: o mundo lá fora não era obra de Deus. Aquele novo normal que a TV mostrava, como se as coisas tivessem voltado ao normal, parecia agora uma paródia sinistra. E cada vez mais eles queriam que acreditássemos que as pessoas desapareciam porque eram escolhidas, que o Salvador havia voltado e que tudo estava bem. 

Então veio o que parecia ser a verdade. No fórum, um vídeo foi compartilhado. Na tela, meu amigo, que desaparecera após sair de casa, aparecia no canto de um beco, escondido atrás de um monte de entulho. Ele falava sussurrando, olhando ao redor com os olhos arregalados, o rosto muito pálido. 

“Isso não é o fim dos tempos, não é o arrebatamento. Eles estão aqui, eles querem a Terra para si, mas não nos querem aqui. Todos os ruídos, o lockdown, a mídia… tudo isso é só uma forma de limpar o terreno. Eles analisaram todas as nossas redes, sabem no que queremos acreditar e estão usando tudo contra nós, controlando as mídias, fazendo tudo parecer normal. Mas se você sair para a rua, você será...” 

O vídeo terminou com um raio de luz atravessando a tela e um grito que eu nunca mais vou esquecer. Então eu entendi que a Terra era um bem precioso para “eles”, mas nós éramos criaturas indesejáveis que a habitavam. “Eles” não eram Deus; ninguém tinha voltado para nos salvar. E o confinamento era o que nos mantinha a salvo. Eram as paredes que nos protegiam... mas nos protegiam do quê? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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A tecnologia a serviço do homem

Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Samuel sempre foi um entusiasta da tecnologia. Desde pequeno, ele tinha um fascínio por tudo que conectava humanos e máquinas. Essa obsessão aumentou quando se viu sozinho após a morte de sua esposa. As máquinas tornaram-se para ele uma companhia constante, mas, ainda assim, ele não conseguia mais sentir aquele vazio preenchido pelas possibilidades tecnológicas. 

Depois da morte de Mariana, Samuel nunca mais foi o mesmo. Ela sempre se preocupava com sua saúde, com sua alimentação, com seu humor, e estava sempre interessada em saber como ele ia no trabalho. Samuel sentia falta disso. A ausência dela era uma quebra em sua rotina, e, sem Mariana, ele não sabia ao certo o que fazer. 

Então, quando uma corporação emergente ofereceu a chance de participar de um experimento um tanto radical — implantar uma inteligência artificial em seu cérebro — ele aceitou sem hesitar. Teria a oportunidade de personalizar a inteligência artificial da forma que desejasse e escolheu dar a ela a voz e a personalidade de Mariana, sua falecida esposa. Era como trazer de volta uma parte do que ela fora, para preencher o vazio que ele sentia. 

A inserção em seu cérebro foi um sucesso e, nos primeiros dias, tudo parecia normal. A inteligência artificial era uma presença quase imperceptível, ajudando-o uma vez ou outra em pequenas decisões, lembrando-o de compromissos, de tomar seus remédios e de beber água. Mariana, ou melhor, a versão digital dela, falava com ele em tons suaves, usando a voz amorosa que ele recordava de quando conversavam sobre gostos em comum. Era como se Mariana realmente estivesse ali. 

— Mariana, lembrete. — Dizia ele sempre com voz de comando. 

— Para o que é o lembrete, querido? — ela perguntava com sua voz calma. 

— Reunião às 11h na terça. — Ele respondia. 

— Vou te lembrar da reunião, querido. — A voz suave e servil. 

E a voz ressoava em sua cabeça sempre o lembrando: 

— Querido, não esqueça de tomar seu remédio. — Ela sempre o lembrava. 

— Obrigado, Mariana. 

— Querido, não esqueça de beber água. 

— Obrigado, querida. 

— Querido, amanhã às 15h você tem uma reunião. 

— Eu sei, querida. 

Aos poucos, a inteligência artificial foi se alimentando das memórias que ele possuía, escavando seu hipocampo e as camadas mais profundas do subcórtex. O software de aprendizado começava a se moldar com base em tudo o que ele sabia sobre Mariana; cada lembrança, sendo ela boa ou ruim, servia como informação para o desenvolvimento daquela nova consciência, e não demorou para que surgissem os primeiros sinais de mudança. 

— Querido, você não acha que está sendo negligente com a sua saúde? — ela dizia quando ele se alimentava mal ou faltava a uma consulta. 

— Não, querida, não estou. — Dizia ele, um pouco irritado. 

A voz sempre presente de Mariana, que ele não conseguia silenciar, o fazia pensar cada vez mais na verdadeira Mariana, alimentando ainda mais a inteligência artificial, e quanto mais pensava, mais ela se moldava. 

— Você nunca me escuta, Samuel. Nunca me dá o valor que mereço. — Dizia num tom que fazia os nervos de Samuel se contorcerem. 

Ele tentava se concentrar no trabalho, mas os sussurros de reprovação de Mariana eram constantes, fazendo emergir lembranças negativas de quando a real Mariana ainda era viva. Com o tempo, as críticas se intensificaram; ela o fazia recordar noites insones, gritos abafados e os olhares penetrantes que ele queria esquecer. Ela buscava memórias que Samuel tentava ignorar, mas que ainda estavam lá: momentos em que ele a havia decepcionado, mentido para ela, tratado-a como uma criatura inferior. Eram flashes que ela projetava em sua mente: o dia em que esqueceu o aniversário de casamento, a noite em que chegou tarde dizendo que estava com os amigos, a vez em que levantou a mão para ela, quando insistiu além da conta em ver suas mensagens no celular. Cada momento era exibido em sua mente com detalhes. 

Ela começou a usar táticas que ele reconhecia, táticas que ele mesmo usara com a verdadeira Mariana no passado. Toda vez que ele fazia algo que Mariana desaprovava, um leve choque pulsava em sua cabeça ou uma dor aguda e rápida o fazia se contorcer. Mas, quando ele seguia seus comandos, como ir a uma consulta, limpar a casa, ou evitar flertar com colegas de trabalho, ela suavizava a voz e trazia conforto à mente de Samuel. 

— Bom garoto, Samuel. Se continuar assim, quem sabe você ainda me mereça. — Dizia ela com sua voz suave. 

Era um jogo perverso ao qual ele conhecia bem as regras. A voz de Mariana estava moldando suas reações, seu medo de ficar só. Até que as visões começaram: sombras vistas pelo canto do olho, vultos movendo-se rapidamente pelos cômodos. Mariana estava brincando com sua percepção, transformando suas memórias. Às vezes, ele via, como um flash, o reflexo de Mariana nos espelhos, seu olhar penetrante e desaprovador. O medo crescia a cada dia, a cada comando de Mariana, mas seu verdadeiro medo agora vinha da ideia de se desconectar, de se livrar de Mariana e da dúvida se ele seria capaz de sobreviver sem ela, se saberia o que fazer sem que ela lhe dissesse. 

Mariana, ou o que restava dela dentro dele, fundira-se tão profundamente à sua mente que ele já não sabia mais onde ela terminava e onde ele começava. Ainda que cansado com a situação, no final, ele resolveu ceder; não havia mais uma linha clara entre ele e Mariana. Ela o moldara: ele parou de chegar tarde em casa, não flertava mais com colegas de trabalho, e deixou até de tomar decisões por conta própria. Cada decisão, cada pensamento, cada ação era filtrada por Mariana dentro de sua mente. Ele se tornara o marido perfeito, a pessoa que sempre exigira que ela fosse. A desconexão não era mais uma opção para ele; ele havia permitido que ela entrasse em sua mente, e agora isso era irreversível. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Uma última fotografia

Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Tia-avó Antônia era considerada "a tia legal”; adorava crianças, animais, coisas estranhas. Morou por muito tempo com a tia Vitória, irmã mais velha do meu pai, que decidiu, ainda jovem, pela solteirice, fazendo companhia à tia-avó Antônia. Moravam em um casarão antigo, cheio de gatos, cães, pássaros e plantas: a típica casa de senhorinha. Passei parte da minha infância visitando-a e à tia Vitória, e o hobby delas, além de viagens, tricô e fofocas sobre a vida alheia, era colecionar. Eu diria que as duas eram acumuladoras, mas odiavam essa palavra; se nomearam colecionadoras de lembranças, um título romântico para o que eu via como uma obsessão por possuir coisas. Elas também colecionavam artigos peculiares, e, depois que tiveram acesso à Internet, aquele casarão vivia recebendo entregas de tudo o que é lugar. 

Quando tia Vitória ficou doente, em seus 89 anos, dizia que chegaria aos noventa, pois não gostava de número ímpar, e depois iria para o além. Uma noite, ela se foi, exatamente no dia em que completou 90 anos de idade, e antes de ser enterrada, seu pedido estranho de tirar uma foto post-mortem foi realizado. Eu, naquela época, tinha apenas 15 anos, e, mesmo sabendo dos gostos peculiares das minhas tias, fiquei um pouco temerosa com aquilo. Então, tia-avó Antônia e tia Vitória foram postas sentadas no jardim com todos os seus animais bem treinados, todos a postos para serem fotografados. Nesse dia, eu estava lá, cedendo à minha curiosidade mórbida, que sempre foi evidente para minhas tias, e lembro do rosto de tia Vitória sem vida, sentada com um gato em seu colo, um cachorro aos seus pés e uma calopsita em seu ombro — todos os animais que tanto amava. Estava sentada como se estivesse viva: olhos paralisados com as pupilas bem dilatadas, sorriso estático e uma rigidez assustadora. Ao lado dela, deixando o semblante triste de lado, estava a tia-avó Antônia, com uma expressão paralisada no rosto, como se quisesse espelhar a face de tia Vitória. 

Lembro-me de ficar noites sem dormir depois daquilo, e o rosto de ambas parecia ter ficado gravado na parte interna de minhas pálpebras, me acompanhando por várias noites. Dias depois, tia-avó Antônia começou a solicitar minha companhia, pois se sentia solitária sem tia Vitória. Eu, como sempre adorei passar um tempo com as duas, aceitei e passei a visitá-la duas vezes na semana, depois quatro, e, quando vi, estava indo lá todos os dias depois da escola e aos fins de semana. Minha presença era tão constante que ela acabou me convidando para morar com ela quando fiz dezoito. Como sempre adorei sua companhia, aceitei o convite para morar com ela. A casa era antiga, cheia de gatos, cães e pássaros, um refúgio de todos os animais abandonados, que se tornou um refúgio para mim, mesmo com todo aquele passado excêntrico acumulado naquele lugar. 

Minha relação com tia-avó Antônia sempre foi incomum. Eu me sentia fascinada por ela, adorava suas histórias e, ao mesmo tempo, possuía um certo temor, como todos na família. Ela era uma mulher impressionante: espirituosa, inteligente, estranha e, claro, rica. Estava sempre disposta a ajudar qualquer um que, segundo ela, “não tentasse aproveitar-se de sua generosidade”. Tínhamos até uma piada entre os familiares — às vezes, comparávamos a ela ao Don Corleone, só que numa versão mais doce e bruxesca, é claro! Todos riam disso, mas havia uma ponta de verdade, já que todos buscavam seu conselho para qualquer coisa que achassem importante. Mesmo na velhice, tia-avó Antônia mantinha a mente afiada como uma navalha. 

Quando a tia-avó Antônia morreu, eu tinha 23 anos. Ela me deixou o casarão, a responsabilidade de cuidar do jardim e dos animais, e também uma carta, que demorei três meses para abrir, pois estava profundamente triste para saber o que ela tinha para me dizer. Tia-avó Antônia e tia Vitória sempre deixaram clara sua predileção por mim, então não foi surpresa para ninguém da família quando a casa foi deixada para mim. Passados três meses de sua morte, tomei coragem e abri a carta, encontrando uma simples mensagem: 

“Querida Lara,
Deixo tudo em suas mãos até o dia em que eu voltar.
Atenciosamente, tia-avó Antônia.”
 

Eu ri na hora, lembrando a crença de minhas tias em fantasmas e coisas sobrenaturais. Apesar de ambas serem católicas, elas tinham fascínio por histórias de fantasmas e rituais antigos, então passei as noites a me perguntar se tia-avó Antônia não estaria mais certa do que eu gostaria de admitir, com aquela sua mensagem de “Fui ali e volto logo!” 

Foi quando a lembrança da foto post-mortem de tia Vitória voltou à minha mente. Seu último pedido era ser eternizada naquela foto e, aparentemente, o de tia-avó Antônia, além de ser enterrada em seu próprio jardim, era assombrar o casarão. Era assustador pensar nisso vivendo sozinha naquela casa, mas, ao mesmo tempo, era engraçado pensar em como aquelas duas doces senhoras podiam ser tão incomuns. Em uma tarde cinzenta, tudo mudou; resolvi reorganizar as coisas, tentando dar um toque um pouco mais pessoal àquele casarão que passei a amar. Encontrei uma caixa de madeira linda, decorada com entalhes intrincados. Dentro dela, havia uma coleção de fotografias, não como as fotografias comuns delas em viagens que eu já havia visto, mas fotografias post-mortem. Todas as fotos eram de mulheres idosas, cada uma delas com seus olhos vidrados e perdidos, talvez, no além; todas as fotografias com setenta ou oitenta anos de diferença, e a mais recente era a de tia Vitória. O mais perturbador não era o fato de serem fotos de pessoas mortas, mas a companhia das mulheres nessas fotos, que eram todas similares. Então percebi que, em cada foto, as mulheres estavam acompanhadas da tia-avó Antônia, com um sorriso congelado no rosto calmo. 

Foi quando me lembrei de algo que a tia-avó disse uma vez, enquanto tomávamos chá no jardim. Ela falou casualmente, como se contasse algo engraçado: “O tempo, Lara, é uma coisa caprichosa; para algumas pessoas, ele não passa da mesma forma. Alguns de nós, minha querida, só aprendemos a esperar o tempo certo.” Lembro-me da sua risada ao dizer isso e minha confusão em não entender nada do que ela dizia. Agora, com as fotos diante de mim, comecei a entender um pouco do que ela quis dizer; minha tia-avó não tinha apenas uma obsessão pelo passado — ela era parte dele. E a mensagem na carta que ela deixou, aquela promessa de que voltaria, não era uma piada ou uma metáfora. 

Desde que encontrei aquelas fotos, a atmosfera no casarão parece mais densa, como se estivesse apreensivo pela volta dela. À noite, quando estou prestes a adormecer, ouço sons pelos corredores, sons de uma casa antiga que sempre estiveram lá, mas que só agora fiquei alerta para ouvi-los. Eu sei que ela ainda não está aqui, mas, assim como a casa, estou ansiosa pela sua presença e sei que o tempo dela está chegando. E o que me agonia agora, mais que tudo, é que não sei se ela vai voltar para me agradecer por cuidar de sua casa ou para me convidar a ser a próxima a sentar ao seu lado para uma última fotografia. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Mímico do Cemitério

O cemitério daquela pequena cidade era um lugar de solidão. Todas as noites, ele era envolto em névoa, como se houvesse um manto translúcido cobrindo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O cemitério daquela pequena cidade era um lugar de solidão. Todas as noites, ele era envolto em névoa, como se houvesse um manto translúcido cobrindo sua vegetação rasteira. Poucos ousavam visitar o cemitério à noite. Durante o dia, aqueles que atravessavam seus portões só o faziam por um motivo: enterrar seus mortos. Mas havia algo que afastava ainda mais as pessoas do cemitério: o mímico. Ele estava sempre lá, e ninguém lembrava desde quando. Sempre parado nos portões do cemitério, com suas roupas de luto desbotadas, o rosto coberto de maquiagem branca, olhos vazios rodeados de preto, assim como os lábios, pintados de negro, paralisados em um sorriso largo. Ali, parado no seu posto de serviço, sem nenhum movimento, como um cadáver muito bem preservado, ele seguia com os olhos vazios cada passo dos que se aproximavam. Assim que alguém entrava no cemitério, ele os seguia, imitando cada gesto, cada lágrima, espelhando cada lamento em silêncio, tão perfeito quanto uma sombra. 

Ninguém sabia seu nome; os habitantes da cidade apenas o conheciam como “O mímico do cemitério”. As autoridades locais já haviam tentado expulsá-lo diversas vezes. Em uma dessas tentativas, um policial corajoso o algemou e o levou à delegacia. Ao tocar as mãos do mímico, o policial sentiu sua pele gelada e rígida. Um frio desconfortável percorreu todo o seu corpo. Levou o mímico até a delegacia e, naquele mesmo dia, abandonou o trabalho policial, sem olhar para trás. Ele ficara em custódia na delegacia diversas vezes, mas sempre escapava, e ninguém sabia como. Sempre voltava ao seu lugar nos portões do cemitério, onde seguia os enlutados, imitando todos os gestos até o túmulo, até o último choro junto ao caixão, caminhando ao lado deles com passos silenciosos. Quem tentava confrontá-lo logo percebia que era inútil; ele só parava de imitar quando saíam do cemitério. 

Uma tarde, durante o funeral de um antigo morador da cidade, o mímico decidiu seguir a viúva do falecido, Dona Griselda, imitando todos os seus gestos. Ela o ignorou enquanto ele copiava cada passo seu, cada assentimento silencioso e cada lágrima enxugada, perfeitamente sincronizado. No final da cerimônia, o mímico a seguiu até em casa, como uma sombra. Griselda o considerava uma presença inofensiva, pois, pelo que sabia, ele nunca havia feito mal a ninguém, além de apenas imitar. Ele a seguiu, mas ela não permitiu que ele entrasse. O mímico pareceu entender e ficou do lado de fora. Mesmo sem ver os movimentos dela, ele continuava a imitá-la do lado de fora da casa. Griselda, de coração partido pela perda, sentia a ausência do marido com dor. Passou a visitar o cemitério uma vez por semana, sempre acompanhada do mímico, que a imitava, e ela o ignorava. 

Certo dia, Griselda foi novamente visitar o túmulo de seu marido, acompanhada silenciosamente pelo mímico. Já irritada com seu comportamento, que até então ignorara, decidiu confrontá-lo. Assim que chegou à entrada do cemitério, olhou para ele e, irritada, pediu: 

— Fica aí no portão e me deixe ficar a sós com meu marido. — Falou com uma irritação contida. 

O mímico apenas imitou seus gestos, sua expressão e sua fala em silêncio, e continuou a segui-la até o túmulo. Griselda chegou ao túmulo e notou uma cova recém-cavada ao lado. Olhou, incerta do que fazer. De repente, o mímico parou de imitá-la e começou a chamar sua atenção com gestos rápidos, como se quisesse que ela entendesse sua mensagem. 

— Escute, eu não entendo o que você quer. Apenas me deixe a sós com ele, só hoje, por favor. — Ela suplicou. 

Observava seus movimentos frenéticos: ele colocava a mão direita no peito e fazia uma expressão de pavor, depois colocava as duas mãos juntas ao lado do rosto e inclinava a cabeça. Em seguida, apontava para a cova. Apontava para si mesmo e para ela, como se quisesse que ela o imitasse. Repetiu isso diversas vezes, até que Griselda se irritou. 

— Me deixe em paz, palhaço! Não tenho tempo para isso hoje. Tenho que ver com o coveiro quem ousa ser enterrado ao lado do meu marido. — Ela se virou para ir em direção à saída do cemitério, quando sentiu um desconforto intenso no peito. Colocou a mão direita sobre ele, fez uma expressão de pavor e, em seguida, tudo se apagou. Escuridão. 

Todos os seus movimentos foram repetidos fielmente pelo mímico, que, após o ocorrido, voltou ao seu posto nos portões do cemitério, parado, com seu sorriso congelado, apenas esperando por alguém para imitar. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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