Nas profundezas do azul índigo

Acordou em um sobressalto, o coração anunciando que o perigo estava à espreita. Mais uma vez aquele estranho sonho, pesadelo. Outra vez…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Balanço.
O casco range. Lamento surdo.
Engolida pelas ondas que golpeiam sem trégua.
Um céu cinzento-petróleo pesa sobre o oceano esverdeado, fundindo horizonte e abismo em uma só ameaça.
Não há bússola. Nem norte. Nem voz. Sons confusos, abafados. O bater acelerado dentro do peito e o gosto salgado do medo sobe pela garganta.
O barco, pequeno demais para tanta água, parece hesitar. A cada solavanco, uma parte cede — madeira, sanidade, tempo.
E então, longe, como uma miragem feita de promessas secas, surge ela: uma ilha.
Um recorte de terra firme em meio ao delírio líquido. Um alívio quase terno...

... Que dura pouco.

A embarcação gira de repente, sem lógica ou aviso. Um puxão violento arrasta tudo para o lado, depois para baixo. Bem rápido.
O corpo se solta ou é lançado — pelo que? — e mergulha nas entranhas frias do oceano.

A superfície se afasta, distorcida, irônica.
O som se apaga. Os pulmões imploram por uma trégua.
Braços se movem em vão, como se nadar fosse se lembrar de algo esquecido.

Nada sustenta. Tudo afunda.

E no azul-petróleo que agora é vazio, só resta o silêncio.
Denso.
Infinito.
Infamiliar.

Acordou em um sobressalto, o coração anunciando que o perigo estava à espreita. Mais uma vez aquele estranho sonho, pesadelo. Outra vez atrasada, já não tinha munições em seu arsenal de desculpas, e teria que vestir a face da humildade, quando o supervisor viesse lhe cobrar uma postura “mais profissional”. Engoliu o café e enfiou-se dentro de algo que julgou apropriado, ao menos com as roupas ele não implicava mais. Saiu correndo, voaria se pudesse, ruma à delegacia em que trabalhava como investigadora.

Chegando ao estacionamento do local avistou Gustavo, o supervisor, parado de braços cruzados à porta de entrada, pés batendo em descompasso que denunciavam uma visível irritação. “Merda”, a sessão de lamentações seria iniciada mais cedo hoje.

Parou o carro na vaga mais próxima, respirou fundo, como se a rajada de ar preenchendo os pulmões viessem carregadas de fragmentos de coragem. Mas seguiu firme e de cabeça erguida em direção à entrada e, consequentemente, de Gustavo. Quando foi esboçar um cumprimento foi interrompida por uma saraivada de lamúrias, que por incrível que pareça, não tinham relação com o atraso. O caso era sobre um velho homem maltrapilho, de longa barba e cabelos brancos, igualmente compridos, que fora encontrado no centro da cidade, perdido e com sinais de confusão mental e amnésia, de linguajar, aspecto e vestimentas que pareciam ter saído de um livro do século XVIII.

Sem questionar, pegou os documentos que Gustavo lhe ofereceu, e enquanto o homem continuava falando sem parar, ela questionava-se o porquê ele estava tão inquieto. “Por que um idoso perdido era motivo para tanto alarde?”

— Espera! Deixa ver se eu entendi: você quer que eu interrogue de forma bem incisiva um senhor desaparecido, mas por quê? Por que você o está tratando como um terrorista?

— Desculpa, Fernanda. Eu não te contei a pior parte: ele não estava somente “perdido”, mas carregava uma cabeça de adulto, ainda “fresca”, debaixo do braço... Por isso fomos chamados. Preciso de você para descobrir quem ele é e de onde ele veio... Porque eu sei muito bem para onde ele vai!!!

— Uma cabeça... Como assim...

— Entra lá e arranque essa informação dele. Porque se eu for lá novamente... não sei do que sou capaz!

O balanço, aquele incômodo, novamente surgia, mas agora era o responsável por a conduzir até a sala, que naquele dia parecia preenchida por uma turva força. Iniciou o interrogatório, o olhar do homem era um vazio vítreo na maior parte do tempo, mas em certos momentos poderia afirmar que a encarava como se pudesse ver o que trazia dentro de si.

Foram duas horas tentando obter as informações necessárias para continuarem os processos contra aquele homem, mas o idoso sempre conseguia sair pela tangente, como se adivinhasse a próxima pergunta e armasse as defesas como um habilidoso enxadrista.

Fernanda não sabia mais como abordá-lo e sentia suas forças se esgotarem. Em todos aqueles anos de trabalhos tivera milhares de interrogatórios, até mais longos e tensos, mas que não tiveram um peso tão grande sobre seus ombros. Agora entendia o comportamento de Gustavo, algo naquele senhor estava muito errado, — além do fato de estar perambulando pela cidade com uma cabeça humana —, algo inominável e ainda mais intrigante.

Quando pensou em desistir e sair da sala, o homem começou a proferir palavras ritmadas, como um cântico sombrio que a hipnotizou:

Tudo balança, tudo range,
no ventre do mar sem margem.
Azul-petróleo, verde em pranto,
sufoca o céu em seu manto.

Promessa de terra à distância,
miragem feita de esperança.
Mas o casco gira, trai,
e o corpo, ao fundo, cai.

Braços gritam, nada escuta,
a água abraça e transborda a luta.
Silêncio espesso, fim sem chão —
o mar consola como prisão.

Afunda o fôlego, apaga a luz,
e o azul, agora, tudo conduz.
No fundo, onde o tempo é vão,
bate um coração…
e depois, não.

Permaneceu inerte. O som daqueles versos sibilantes causara um pavor similar aos pesadelos recorrentes. Era o mesmo clima soturno, desespero irrefreável e estado incompreensível. O homem já não tinha o olhar vazio, mas aqueles glóbulos pareciam agora preenchidos de uma insinuação astuta. Ele sabia, sim ele sabia dos pesadelos e por isso deliciava-se com a reação da moça.

— Reconheço bem esse olhar... Nos primeiros tempos, o medo é o único camarada. Chamo-me Allant Elirrahz, e outrora julgava-me sabedor de todos os segredos que as entranhas do grande oceano ocultavam. Mas então surgiu ela... uma ilha, formosa como o canto das sereias, que se revelou ser mais do que simples terra firme sobre as ondas...

O tempo dissolveu-se em minúsculos pixels, tudo tornado pó tingido de azul índigo — a mesma cor das criaturas emergidas dos orifícios daquele homem. Tentáculos sinuosos rasgaram o ar, avançando em todas as direções com uma precisão austera e inevitável.

Não houve luta. Não houve salvação.

Um a um todos os presentes foram tragados, arrancados de sua realidade e lançados em outras dimensões fragmentadas — cada qual aprisionado em uma era, um planeta, um tempo diferente, sob o domínio absoluto daquele ser.

Ainda não sabiam, mas o mundo havia sido engolido.

Ficariam submersos para sempre nas águas daquela entidade — onde o tempo não passa. Apenas escorre, afoga. Balança.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sibilino

O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida em eras estranhas. O velocímetro marcava 70 km/h — o que era consideravelmente rápido, dadas as condições da pista —; apesar das mãos trêmulas, segurou com firmeza no volante, pois esse trecho possuía muitas curvas sinuosas. Pelo retrovisor, viu a casa do amigo sumindo lentamente; prometeu a si mesmo voltar mais vezes. Observou também a união mística de céu e mar, fazendo desaparecer a linha do horizonte, causando uma inexplicável sensação de medo. Tivera a impressão de que o céu, repleto de estrelas resplandecentes, estava mais próximo da terra. Pensar nesta ideia lhe apavorou.

Tomé mergulhou cada vez mais em seus pensamentos, enquanto a minguante e turgida lua iluminava seu caminho. Finalmente, a descida chegou ao fim. Era meia-noite, de acordo com os ponteiros. Ansiava estar em casa; porém, ainda havia alguns quilômetros, e uma longa estrada reta se estendia até o horizonte.

Enquanto dirigia, notou o despencar da temperatura, presenciando a cortante brisa gélida tocar-lhe o rosto terrivelmente. Notou mais algumas peculiaridades, como o ar que havia se tornado mais viscoso e, mesmo distante da praia, — o cheiro ainda permanecia ali, a assombrá-lo. Os ventos também trouxeram uma suave bruma, que surgiu tal qual uma aparição fantasmagórica, flutuando pela escuridão.

Com o vento soprando, Tomé assistiu, com olhos vestidos de horror, à bruma ganhar estranhos contornos. Os faróis amarelados deixavam tudo etéreo. Lembrou da nefasta imagem da ponte descomunal, assim como esta estrada.

Escutou nitidamente a melancólica voz de João, seu amigo, recitando Shakespeare, ecoando em sua mente. Esta lembrança o fez virar bruscamente, pois era como se alguém estivesse no banco de trás, sussurrando a citação — mas encontrou o vazio.

Seu peito batia em desassossego. Observou o céu novamente: as estrelas pareciam se aproximar ainda mais. Uma terrível sensação de estar sendo observado tomou conta dele. “Preciso manter a calma”, pensou. Novamente olhou para o retrovisor — a escuridão parecia devorar o que ficou para trás.

Precisava parar. Puxou devagar o freio. O carro derrapou em meio à neblina; o som dos pneus ressoou naquele lugar. Respirou fundo. Passou a mão na testa que gotejava medo. Saiu do carro, respirou fundo outra vez. Viu algo inexplicável — a impressão que tivera se concretizou. Aquela visão era inconcebível. Ficou na frente dos faróis e, em seguida, caiu de joelhos, as mãos na cabeça. Em sua frente: a imensidão.

Não havia nada que Tomé pudesse fazer, a não ser contemplar o irreal. Desejou ter uma câmera fotográfica para registrar aquele medonho espetáculo. Nenhum ser humano deveria presenciar aquilo. As brumas se tornaram mais densas, adquirindo formas grotescas; elas bailavam terrivelmente, alcançando alturas inimagináveis.

Passou a ouvir sons demasiadamente longínquos, porém não demorou muito até que se aproximassem com rapidez. Trêmulo, ouviu o que pareciam ser incontáveis vozes de diferentes tons, mas unidas. Eram semelhantes a um tenebroso trovão rasgando a imensidão do firmamento.

Tomé se perguntava se aquilo era fruto de um delírio causado pelas histórias impressionantes do amigo. Mas aquela visão era tão verossímil quanto o vento gélido e pútrido tocando seu rosto. Sua mente ínfima não iria suportar aquela visão. Seu corpo estava prestes a entrar em colapso, quando vislumbrou nuvens se aglomerando, formando imagens colossais, incompreensíveis. Gritos emanavam de suas entranhas.

Seu corpo não aguentou. Antes de entrar em colapso, viu dois olhos titânicos, flamejantes, clareando o céu — a mesma visão que seu amigo e exímio Capitão João tivera.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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Observadores

Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado. Fico imóvel por algum tempo, tentando centrar a minha visão. Tudo treme e vibra. 

O que aconteceu comigo? Depois que minha visão centrou, observo minhas roupas. Estou sentado, com as pernas estendidas. As costas estão apoiadas no canto de um espaço pequeno e quadrado. O chão é de um metal polido e cinza, muito brilhante, eu vejo o meu reflexo distorcido nele, de tão brilhante. 

Eu visto roupas comuns: calça jeans, sapatênis e uma camisa polo vermelha. Não me recordo de onde estava. O que fazia com essas roupas? Onde? Nada vem à minha mente. Um grande vazio, absoluto! Preenchido apenas por perguntas: será que fui sequestrado, será que morri? 

Ouço alguma coisa? Sim! É um barulho muito distante! Sons abafados. Tento identificar de onde eles vêm, cruzo a sala, então a noto. Uma única vela acesa. Ela está exatamente no centro da sala e sua chama... ela parece estar atrelada de alguma forma a mim, ao que eu faço, ao que eu penso... não posso provar, mas sinto isso. 

Quero sair daqui, não me sinto bem nesse lugar. Meus olhos percorrem as quatro paredes. Ao terminar, se desconcertam. Cresce o desespero que meus olhos foram capazes de gerar. Não havia uma janela sequer. Nenhuma forma sequer de abri-la. Sim, a única porta da sala era um tipo de elevador, porém não tinha como abri-la… Eu não conseguiria, não havia como forçar os dois lados a se abrirem, não havia botões para serem apertados e comandá-la. Então ela permaneceu totalmente fechada e impassível. 

Não sei quanto tempo fiquei acordado, mas me sinto desgastado, minha visão pesa. Mas certamente eu dormi, pois estou acordando agora. Minhas retinas registram as mesmas paredes frias e metálicas. Elas, o meu reflexo. 

Meus olhos registraram, meu cérebro notou. A chama da vela está ligeiramente diferente. O fogo que antes aquecia o lugar, com reflexos laranjas e quentes, agora trepida e hesita, com chamas azuis crepitantes. No entanto, o reflexo dela parece que guardou o reflexo de quando eu chegara: amarelado, os tons alaranjados estavam apenas nos reflexos. Deveriam refletir a cor azul, mas pareciam testemunhas renitentes do passado.

Num átimo, a chama da vela apagou-se e acendeu novamente. Agora a cor da chama que as paredes refletiam era idêntica à da chama: um azul intenso e profundo. Sentia que dentro daquela chama havia um universo que me atraía.

Apesar de assustar-me com o reflexo da chama destoante nas paredes, insisto em fazer o meu olhar vagar por elas, em busca de uma saída daquele lugar, cada vez menor na minha percepção. Dou um pulo para trás: ali, nas paredes onde uma luz laranja bruxuleava... ali, agora há um detalhe a mais — marcas de riscos nas paredes fazem meu estômago revirar. Um dos espelhos estava rachado, de fora a fora, na diagonal.

Continuando a vagar pelo que o estranho espelho reflete, chego até ele. Minha própria imagem encara os meus olhos friamente. Do lado de lá, é a imagem refletida quem conduz a ação. Apenas um reflexo de mim, sim. Mas por que meus olhos parecem ser um engodo? Sinto medo, por ela ser deformada e diferente, devido à rachadura que apareceu agora. A única verdade que seus olhos ameaçam entregar é a de que quer me fazer mal. 

Será que aquela imagem sou eu? E, na verdade, eu é que estou confuso? Será que as paredes limpas, lisas e espelhadas do elevador em que me encontro apenas estão refletindo a realidade: uma vela com chama laranja em seu centro; e eu é que estou a imaginar que a chama é azul, que algo riscou e rachou as paredes? Por que as minhas mãos estão arranhadas? 

Sinto um cansaço pesar, minhas pálpebras fazem força para se fechar. Eu luto para me manter acordado. A tarefa é difícil, cansativa, árdua, eu diria que se tornou hercúlea. Como se o meu próprio corpo não fosse meu. Estranho. Eu tento controlar as minhas expressões faciais, mas o olhar hostil do meu reflexo se recusava a mudar, resoluto. 

Acho que dormi nessa cansativa luta de fazer o reflexo do espelho mudar. Por mais que sentisse os músculos do meu rosto se mexerem, o rosto no reflexo estava imóvel e com uma expressão ambígua, ameaçadora. Se o reflexo era eu, por que me olhava com raiva? Se não era eu, por que era igual a mim? 

Acho que agora desperto pela terceira vez nesta sala. Sinto frio. O chão me parece mais frio ou foi a minha temperatura que cedeu? O cúbico do elevador, já não o percebo tão pequeno, ele parece um pouco maior. A vela? Ah, sim, ela está bem menor, derreteu… Agora, está bem mais escuro do que antes. 

Eu próprio me sinto menor. Como se os meus músculos, tal qual a cera daquela vela, tivessem diminuído, tivessem derretido. E parte de minha essência tivesse se dispersado pelo chão, como se eu fosse uma vela de chama azul, igual àquela: triste e pequena; obedecendo a um desígnio além do que ela pode controlar, certa de que ela será, indubitavelmente, não mais uma vela, mas uma mera poça de cera derretida. 

— Estamos quase completos! — uma voz inumana diz, mas entendo claramente o que foi dito. As palavras claras, como água cristalina em meus ouvidos, vindas do outro lado da parede. 

Agora percebo que estou junto à vela, no centro da sala. Eu sou uma criatura dada em sacrifício, a chama azul da vela me disse isso, em meio às imagens projetadas em sua pequenina chama que eu observo deitado. Algo está sendo vaticinado. Meu sangue está sujando o chão, percebo que não só o meu nariz está sangrando, mas todo o meu corpo está se moldando a algo que não conheço, mas já não estranho. 

Mas ela também me mostrou memórias de outras vidas. Outros Jeremias. Um era pai, e abraçava suas filhas no quintal. Outro era policial e dera um tiro na testa de alguém — que horror! Havia outro que era branco, e não negro como eu. Tinha uma criatura estranha, que eu também sabia que era eu — ela passava por ruas, como as nossas. 

Agora desperto pela quarta vez. Flutuamos, eu e a vela, pelo espaço oco. Vejo escamas finas da minha pele se soltarem. Sinto-as desprenderem das mãos, das pernas, das costas encurvadas. Elas vão flutuando pela escuridão, formando uma galáxia, um redemoinho bizarro de peles mortas vagando pela escuridão, iluminadas apenas por uma chama fraca. 

Desespero-me ao perceber que estou me desfazendo aos poucos. Sou como um embrião que desfaz sua casca, sumindo a cada porção perdida no espaço. Não é um processo que pode ser parado. Acho que não. Talvez eu seja só a casca de algo que amadureceu. 

Agora desperto. Vejo a porta se abrir pela primeira vez. A vela está no teto, assim como eu sinto que estou. Não tenho voz, não tenho corpo. Quem eu era, não recordo. Mas isso não importa mais. 

Junto-me aos meus companheiros lá fora… lá fora, no espaço-tempo, eu vejo: somos muitas criaturas. Temos garras e escamas brancas, e olhos grandes e esbugalhados. Nos chamam de observadores… 


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
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Ardente

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela para investigar. Ele era um homem metódico, de olhar afiado, qualidades forjadas em anos de serviço militar exemplar. Nada lhe escapava — exceto, talvez, o preço que essa rigidez cobrava. Seu temperamento afastara todos que um dia cruzaram seu caminho, deixando-o sozinho, amargurado, corroído pela felicidade alheia. 

A alegria dos vizinhos, tão tarde da noite, era algo intolerável. Aquela algazarra precisava acabar. Em um mês, ele perdera a conta de quantas vezes fora dormir com horas de atraso, mais do que podia contar nas mãos calejadas e enrugadas. Sentia nelas o peso da arma, sua fiel companheira dos tempos de glória. Agora, ela carregava tanto o fardo de sua existência quanto a honra que restava de seus dias como major. Jamais a abandonaria — era tudo o que lhe sobrava. 

Pela janela imunda, a três casas de distância, avistou os malditos. Todas as noites era assim: eles se postavam na porta, estáticos, e, pontualmente às 23:45, a entrada se abria. Entravam, mas nunca saíam. No dia seguinte, outros apareciam para perturbar seu sono. Após inúmeras chamadas, a polícia finalmente apareceu — mas também não voltou. A viatura seguia lá, exposta ao sol e à chuva, há dias. 

Naquela noite, a porta se abriu novamente. As figuras desapareceram no breu do interior, mas, dessa vez, ela permaneceu escancarada. Seria um convite? Com a arma nas mãos, sentia-se forte, jovem outra vez. Poderia ir até lá e pôr fim àquela festa. Refletiu por um instante, mas decidiu não se expor. Ainda tinha um nome e uma honra a zelar, por mais tentadora que fosse a ideia de silenciar os arruaceiros. 

No domingo, acordou convicto de que teria paz. Era um dia em que as pessoas descansavam, ficavam em casa. Tudo correu bem até a noite, quando um estrondo vindo da frente o arrancou de um cochilo. Pegou o tablet que exibia as câmeras da casa e viu um adolescente parado perto do portão, encarando fixamente a direção da casa dos baderneiros. 

Era o estopim. Não toleraria uma criança malcriada chutando sua propriedade. Abriu o cofre, apanhou a arma e correu à janela da entrada. Chegou a tempo de ver o garoto atravessar a rua e se juntar à multidão diária diante do imóvel. Todos, imóveis, fitavam a porta. 

Ela se abriu mais uma vez. A escuridão do interior parecia engolir a da rua, como um buraco negro. O grupo entrou sem hesitar. Henrique já não sabia se queria punir ou salvar o menino, mas tinha certeza de que precisava tirá-lo dali. Preparou a arma, puxando o ferrolho, e avançou até o imóvel, cuja porta aberta o aguardava, mergulhada em um breu absoluto. 

Diante do batente, encarou a escuridão. Mesmo a um braço de distância, nada conseguia enxergar. Uma fraqueza, que outros chamariam de medo, atravessou sua mente. Poderia estar entrando em uma armadilha, mas não recuaria. Resgataria o garoto e, se necessário, acabaria com os arruaceiros. 

Ao cruzar o limiar, a escuridão o envolveu, roubando-lhe os sentidos. Caminhou às cegas pelo que pareceu uma eternidade, até que uma luz discreta surgiu no horizonte, atraindo-o como uma mariposa. Era uma árvore colossal, ardendo em chamas que lambiam galhos e folhas sem os consumir. Centenas de pessoas — talvez quinhentas — observavam, hipnotizadas, babando, tremendo, algumas à beira da inanição. 

Empurrando a multidão, chegou ao pé da árvore. Lá estava uma mulher imponente, vestida com trajes religiosos chamuscados, segurando um tomo enorme do qual lia incessantemente. De repente, ele notou: seus olhos estavam cobertos por um pano sujo de sangue. Aquilo era uma seita, percebeu. E ele não tinha munição suficiente para enfrentá-la. 

Algo se moveu entre os galhos. Um animal o encarava — semelhante a um macaco de pequeno porte, mas grotescamente deformado, com a pele derretida em uma massa disforme de músculos e tecidos. Mostrou os dentes afiados e correu pelos galhos, numa clara ameaça. 

Horrorizado, Henrique ergueu a arma e disparou todo o pente, acertando o ser três vezes. O grito de agonia ecoou, e a resposta veio rápido. Um titã, oculto entre as chamas e as folhas, desceu da árvore para proteger sua cria. A criatura, semelhante a um gorila monstruoso e igualmente deformado como o filhote, aterrissou, esmagando os hipnotizados mais próximos. Sua bocarra soltou um rugido que estourou os tímpanos de todos ali. 

Surdo e horrorizado, Henrique tentou atirar em vão. A entidade o agarrou como se fosse um brinquedo frágil, erguendo-o até sua face. Parecia avaliá-lo — seria comida ou algo mais? O fedor de sua respiração o sufocava, forçando-o a encarar as escolhas de uma vida rígida, vazia de afeto. O fim chegara, e ele sabia. 

Com facilidade, o monstro escalou a árvore colossal, levando-o ao ninho. Henrique nunca mais foi visto. A casa, até hoje, segue atraindo pessoas, e a porta permanece aberta, esperando. 


Escrito por:
Luiz E. Marcondes

Luiz E. Marcondes é um escritor brasileiro de literatura de terror cósmico e psicológico. Desde jovem, sempre foi curioso sobre a mente humana. Formou-se em Psicologia Comportamental e Existencial e faz uso de sua formação profissional para agregar mais complexidade e valor aos textos que escreve. Apaixonado por uma variedade de gêneros literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Reflexo da Bruxa

Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.

No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.

Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.

 A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.

Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.

Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.

Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.

Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.

Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.

Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.

Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.

Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.

Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.

Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

 Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.

Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.

Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.

Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.

Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.

Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.

Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!

Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.

Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.

Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.

Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.

Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?

A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.

O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.

Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.

O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda.  A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.

Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.

O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.

A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.

Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.

Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.

A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.

Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.

A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.

Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.

Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.

Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Amor do Pai

Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ismael viveu toda a sua vida intimamente com o medo, que era seu melhor amigo, amante e confidente. Sentia-se perseguido a todo momento, e uma voz discreta no fundo de sua mente sempre o lembrava de olhar por cima do ombro ou dormir com a luz acesa no quarto.

Aos vinte e dois anos, atacou um idoso enquanto gritava que o andador dele eram tentáculos. Isso ocorreu à luz do dia, em um mercado famoso da cidade. O resultado foi uma internação compulsória até que a situação se estabilizasse.

Aos trinta anos tornou-se padre, encontrando paz de mente na santa casa, sob o zeloso e amoroso olhar do Pai. Mas, no fundo de sua consciência, ainda ouvia a voz que o lembrava de olhar para trás quando estava sozinho.

Em uma noite de chuva torrencial, no calor escaldante do janeiro campinense, Ismael estava ajoelhado sozinho em frente ao grande crucifixo da nave da igreja. Rezava fervorosamente, pois sabia que o horror da paranoia havia retornado. Solicitava, com angústia, ser guiado a um estado de espírito elevado que o fizesse esquecer a alucinação que tivera há poucos momentos.

A igreja estava sem energia já fazia horas. Ele escutava sons alienígenas e aterrorizantes vindos de um corredor escuro à direita, próximo de onde encontrara o corpo do jovem coroinha. Era um eco agudo que passava por cima de suas orações, não importando o quão alto rezasse.

Cravou as unhas na coxa; a dor trazia paz, silêncio e a bênção da santa casa. Funcionou.

O barulho que invadia sua mente e destruía seus pensamentos cessou. Continuou rezando e se machucando por mais alguns instantes para garantir. Chorou de alegria ao concluir que havia sido bem-sucedido. Encontrou na escuridão a paz e o amor que só o Pai e sua casa poderiam proporcionar. Agora, teria que encarar seu medo para provar a si mesmo que não havia corpo algum.

Entrou na sala mal iluminada pela lua. O corpo não se encontrava entre as mesas e cadeiras. Respirou fundo, aliviado. Sentia-se feliz agora que tinha O guia para conduzir sua mente atormentada.

Virou-se para se retirar aos seus aposentos e cuidar do ferimento na perna, mas se deparou com dois seres que o observavam estáticos.

Ambos eram de um azul estrelado, como se galáxias habitassem seus corpos. Seus crânios eram desproporcionais ao resto do corpo, como bolhas que correspondiam a metade de suas alturas totais. Os corpos humanoides eram pequenos e de aparência gelatinosa.

A garganta de Ismael fechou, e ele não conseguia respirar. Tremia e gritava, em silêncio, que estava alucinando.

Ergueu os olhos em direção ao horizonte, ignorando os pequenos seres, da forma como havia treinado a vida toda. Deu dois passos à frente e sentiu algo gelado pegar suavemente sua mão, de forma quase carinhosa. Outro ser envolveu sua coxa na região da ferida que ele havia feito há pouco.

Agora, produziam um som que parecia uma canção da igreja. Sentia o corpo frio e a visão escurecendo rapidamente. O pequeno ser que havia envolvido sua perna com o braço ficava cada vez mais vermelho, transformando-se lentamente em uma galáxia carmesim.

Ele acordou algumas horas depois, cercado pelos irmãos e irmãs da igreja. Conseguia ouvir os pensamentos de todos em sua cabeça. Moviam-se e cantavam alegremente, procurando mais pessoas para trazer à comunidade.

Agora ele ouvia ao Pai, ouvia a todos e todo ouviam ele.

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Infindável

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.

Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.

Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.

"Preciso entrar!"

Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.

— Venha, entre, caro amigo.

Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.

Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.

— Fique à vontade.

Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.

— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.

Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.

Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.

— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.

A melancolia estava presente em cada palavra.

— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?

Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:

— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...

Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:

— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.

— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!

Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:

— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.

Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:

— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.

Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.

O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!

As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.

Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.

Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.

Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...

A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.

Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.

É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.

Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.

Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.

Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.

Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.

Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.

Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.

Implorei ao universo forças para sair dali.

Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.

Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.

Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.

Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.

Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.

— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.

Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.

Ao se despedir, disse:

— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Vale verdejante

Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Aquele inverno estava rigoroso. O ar gélido açoitava, sem escrúpulos, a face dos transeuntes e endurecia os seus corações, já embrutecidos, pelas dificuldades de uma rotina enclausurante. As vegetações quase jaziam, sem viço, e exibiam uma fina camada esbranquiçada, causada pelas constantes nevascas, nada comuns para aquela região.

Os animais também eram prejudicados e sofriam as consequências da escassez de alimentos. Doenças. Mortes. As carcaças dos pobres animais eram amontoadas em uma pira, não por ritual, mas por necessidade, e o cheiro dos pelos e carnes, enquanto eram incinerados, – com o intuito de conter as mazelas que emanavam de seus cadáveres, – causavam ânsias e amarguras. Ledo engano. As doenças logo reclamariam para si o direito – autoimposto – aos corpos dos moradores daquele local, primeiro das crianças e idosos, depois das mulheres e homens adultos.

A comunidade, outrora festiva e alegre, agora não tinha motivos para comemoração. O ânimo foi-se esvaindo, assim como a vida dos campos verdejantes, que emolduravam aquele belo lugar em tempos passados.

O vilarejo, batizado gentilmente de “Vale verdejante”, em referência clara às belezas naturais que possuía, agora era tomado por uma pesada aura inodora e insípida, reflexo do que agora aqueles pobres coitados traziam dentro de si. O verde pulsante das folhas de outrora tornou-se incolor, sem vida.

E, como eram supersticiosos, ponderaram sobre os motivos de tais agressões, que segredos os deuses e entidades haviam descoberto que justificassem castigos tais? Como crentes em maldições e contra maldições, agarraram-se ainda mais à fé, e direcionavam suas rezas e sacrifícios para todos os deuses que estivessem dispostos a ouvi-los.

E ouviram. 

Numa noite fria, que reafirmava que nada mudaria, e confabulavam se iriam falecer de inanição ou hipotermia, uma esfera luminosa atravessou os céus e cravou-se violentamente nas colinas ao redor, iluminando a noite tenebrosa como um farol esmeralda de esperança, há tempos perdida. Sim, a cor que caíra do céu era indescritível, mas na obrigação de classificar os eventos, a cor era semelhante ao verde. O verde, que tanto almejavam, vinha trazer-lhes o terror? Os reflexos de luzes verdes e suas variadas nuances, criavam um caleidoscópico hipnotizante, tragando-os para dentro do mosaico enigmático, penetrante. O impacto da esfera causou um leve tremor de terra e uma cratera recheada com os destroços do que quer que fosse aquele elemento. No centro da esfera, uma mancha verde brilhante pulsava, como se estivesse viva.

Apavorados. Inertes. Não desviam o olhar da cratera, esfera. Ela tinha um poder invisível sobre eles, tornando-os marionetes sem controle dos próprios corpos e ações. Contudo, do mesmo modo misterioso com que foram dominados, sentiram-se libertados de repente e conseguiram, enfim, discutir sobre o ocorrido.

– O que será isso?

– Será que é perigoso?!

– Mas de onde veio isso???

– Céus, o que é isso?

Questionam-se, obviamente, não obtendo uma resposta plausível. Após algum tempo de indagações retóricas, por fim, ouviram uma voz ecoando em suas mentes:

Venho do nada. Do vazio. Antes da existência das galáxias, dos mundos e da vida. O nada, esse lugar incompreensível para você, é minha morada, meu abrigo. Eras e eras, bilhões e bilhões de anos separam meu existir e o surgimento de sua frágil raça. Mas você me invocou. Clamou por ajuda e eu vim para ser a sua única saída. Não temas.

Sentiram uma paz preencher cada parte de seus corpos. Ninguém ousava dizer mais nada, mas sabiam, o socorro viera e eles seriam salvos. E foram. Nos dias seguintes o mau tempo deu trégua, o sol voltava a iluminar os olhos e corações, derretendo a geleira surgida dos escombros das dores e mortes. Os animais, que haviam conseguido subsistir, ficaram mais fortes, suas doenças foram extirpadas, como se arrancadas com a mão. O mesmo ocorreu com os enfermos que resistiram ao doce chamado da morte, – e ela, havia sido expulsa daquele lugar por tempo indeterminado. Mas a melhora mais nítida era com a vegetação: tornara-se verde brilhante e viva, mas de um tom tão intenso, quase fosforescente. E em certas noites afirmavam que as folhas irradiavam uma luz verde intensa, mas não ousavam questionar os milagres recebidos.

E permaneceram firmes naquele acordo mudo. Sem questionamentos.

As verduras, que cresceram após aquele evento, eram deliciosas, cada mordida emitia um som suave, como um sussurro apaixonado aos ouvidos. Logo as árvores também deram frutos, suculentos e inebriantes, nunca haviam provado nada igual. E no meio de tantas dádivas insistiam em não enxergar os efeitos colaterais daquele milagre: suas peles estavam ganhando tons de verde água, bem sutil, mas perceptível. Mas não ousavam reclamar.

Os pelos dos animais também estavam tornando-se verdes. E quando abatidos para consumo, suas carnes e sangue tinham uma coloração esverdeada. Mas não se podia negar que isso tornava a carne ainda mais saborosa. E consumiam as carnes, verduras, frutos – tudo o que provinha da terra – com tanto afinco, obsessão. Sem questionamentos.

A terra já não era mais marrom, mas verde oliva. E banhavam-se nas terras, conectando-se a ela. E estavam. Primeiro foram os membros, os dedos já são tinham a forma humana, mas era semelhante a cipós. Sem questionamentos.

Os braços e pernas foram metamorfoseados em troncos esverdeados. O sangue transmutara-se em uma seiva verde limão, os órgãos internos adaptaram-se perfeitamente ao novo homem-vegetal. A locomoção era cada vez mais restrita, arrastavam-se por cima da manta verde – outrora terra – e ficavam horas parados ao ar livre, em um ritual de fotossíntese macabra.

E novamente a voz submergira nas mentes, solicitando a presença de todos na cratera. E foram. Quando suas mãos-cipó tocaram a esfera, sentiram algo se mover dentro dela. Um vulto surgiu na superfície e sorriu. Era o próprio ser-verde, aprendendo, copiando, invadindo. O verde havia consumido tudo e todos. E continuaria crescendo, para sempre.

A comunidade desapareceu em um silêncio vegetal. Onde antes havia casas e pessoas, agora havia apenas um vasto vale verdejante, coberto de flores e árvores que brilhavam levemente à noite. Quem olhasse de longe veria algo belíssimo, mas quem se aproximasse demais ouviria os sussurros nos galhos, risadas engasgadas e palavras esquecidas ao vento, e jamais seria visto em forma humana novamente.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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