Capítulo 1: O Adágio Sibilino
Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal…
Um flúmen carmesim cruzava o níveo balcedo e, deste liquor consistente, eu me inebriava, sorvendo sem temores, e imergindo-me nua em seu sereno caudal cujo aroma ferroso seduzia-me. O álgido inverno mordaz congelava-me os cílios, alvejava meus negros cabelos e sobrancelhas enquanto a torrente escarlate era estranhamente tórrida como uma nascente termal. Eu não sabia a origem daquele sangue, no entanto, em minh’alma residia a intuição de que advinha de um mórbido pecado. Despertei deste sonho após tal intuição fissurar o plano onírico e, então, senti sede. Não foi uma sede qualquer, parecia-me como mãos a asfixiarem-me a garganta; senti dilatarem as minhas pupilas e um ímpeto terrífico embaçara em rubro a minha visão. Foi isso que aconteceu naquele dia após o sono sombrio no amanhecer. Despertei às dezessete horas, completamente alucinada.
Então, lá estava ela; uma taça de ouro lapidado e brilhante que por certo fora disposta sobre a mesa poeirenta enquanto eu devaneava, uma vez que eu não a vi n’outro momento desde meu despertar primevo, quando tudo era-me tão somente uma penumbra de indagações a pairar pelo ambiente frígido. N’um único movimento suave, segurei o lustroso cálice e levei-o aos meus lábios sequiosos após notar que dentro dele habitava um espesso líquido acarminado, em demasia semelhante ao flúmen de meus oníricos recônditos. Posso ter olvidado cada uma das memórias do meu passado, todavia, ainda detenho os conhecimentos mais precisos, e alguns além, que me permitem compreender o mundo; um destes saberes é que este sangue não deveria ser tão apetitoso para mim, tampouco matar deveria esta minha inominável sede.
Na voracidade mitigada pelo degustar, observei um envelope esculpido em um tipo de material valioso, talvez um quartzo. Toquei-o, estava próximo à cama e, em minhas mãos, ele lumiava como uma folha feita de um excêntrico e natural rubi fissurado por ouro. Era apenas um papel, todavia, não poderia advir dos eucaliptos setentrionais. Em seu interior, letras conduziam uma misteriosa mensagem.
“A escuridão do ressurgir possui ímpar esplendor, contudo, o exício d’alma, como Rosaemori, habita na dança da meia-noite pela lembrança ao refletir, onde o doce carmim se putrefaz às faces dos que jamais se delatam.”
Um peculiar enigma de essência familiar, embora tão ofuscado pelo mórbido vazio de minhas mais ínfimas memórias. Conservei uma proximidade à letra cursiva, mas desconfiei apenas encontrar-me delirante. Esforcei-me em profundo pensamento, no entanto, o “exício d’alma, como Rosaemori,” e as “faces dos que jamais se delatam” soavam-me como um longínquo corvejar em um horizonte crepuscular inebriante, isto é, passível de admiração intensa, mas não de compreensão. Dobrei a epístola insondável e escondi-a em meu vestido, próxima aos seios; e asseei meus lábios úmidos pelo fascinante e fresco vinho da profanação. Era hora de deixar aquele sôfrego aposento e conceber novos retratos à conservação dos momentos advir — e tentar colher do inconsciente as mais ocultas verdades, pois, possuíam seu incontestável valor.
Abri com ampla facilidade os altos umbrais e dirigi-me pelo corredor silencioso. Candelabros espargiam de si um lumiar trêmulo, porém, vigoroso, e clareavam as veredas obscuras. À vista dos vitrais de um grandioso salão, o qual adentrei sem anelo por meio de um esmo perscrutar, observei um esguio homem no jardim; à sua frente uma mesa de carvalho servia de repouso a incontáveis itens fúlgidos e tecidos de apurada aparência. Destinada a conhecê-lo, busquei escadas que me levassem ao andar de baixo e não demorei a encontrá-las, pelo caminho, contudo, examinei alguns quadros, estantes vazias, livros e gavetas. Tudo era símil a uma abandonada mansão, mas, de forma ambígua, habitada por um singelo número de pessoas, o suficiente para que a poeira se esquivasse aos cantos por onde pés não andejam.
— Ó! Fascinante donzela! Ande! Apressa-te! Esgotar-se-á o teu tempo, tens uma mísera hora para aprontar-se para o Baile, vamos, venha, venha! — Proferiu o homem ao ver-me aproximar; seu sorriso era largo, tétrico e pontiagudo, seu rosto era pálido e seus olhos lembravam-me das chamas sobre as velas dos candelabros. Os dentes afiados pareciam esculpidos em etéreo marfim e os dedos das mãos quais se abanavam n’um gesto chamativo em minha direção, eram franzinos e longos. Os trajes do indivíduo peculiar possuíam uma fina elegância, envoltos aos tons mais negrumes com adornos sublimes e áureos. Sob uma tenda rubra ele se mantinha em pé, um relógio de bolso dependurava-se em seu braço e, pela indumentária extravagante, o curso de uma corrente lhe enfeitava as mãos ao vincular-se aos seus anéis de pedras preciosas. Quando próxima, vi-o erguer alguns vestidos.
— Há excelsas peças, Dama soturna, veja, veja, veja!
— Perdoa-me... — Iniciei uma conversa hesitante — Não compreendo sobre o que falas ao mencionares um... baile? — Indaguei com a sutileza mais sincera, o homem cessou seus movimentos apressados e fitou-me atento.
— Não recebeste o convite? — Indagou, cismático. Ponderei por instantes fugazes sobre revelá-lo o bilhete enigmático, no entanto, receei. — Vamos, diga-me teu nome! — Ele voltou a movimentar-se entre seus apetrechos, em especial as gavetas de uma grande mobília detrás dele.
—Eu... — Eu não sabia meu nome.
— Diga-me! O Tempo se escassa a cada átimo! — Abrindo e fechando cada uma das gavetas, o homem procurava por algo.
— Eu não... sei... — Revelei. Novamente, mirou-me seus olhos lumiados. E, então, cruzou seus braços magérrimos e elevou, com sutileza polida, seu maxilar.
— Hum... — Ele parecia pensar, seus sonidos eram de, porventura, um abismal refletir. — Creio que tu sejas, então, a esperada...
— A esperada? — Questionei em uma curiosidade infante. O homem retirou de sua manga, em uma lentidão performática, um envelope fascinante em simetria e perfeição. Estendeu-o a mim. Nada havia escrito ao lado de fora do envelope, todavia, era selado com um tipo de mecanismo único feito com delgados ornamentos fulvos e, no centro, um único elemento cetrino, era um verídico Realgar esculpido em formato orbicular.
— Fui instruído a dar este invite à primeira donzela inominada que viesse ao meu encontro.
— Quem o instruiu? — Minha voz estva mais célere, enquanto eu me sentia embriagada pela beleza do artefato que agora eu segurava em minhas mãos.
— Ora, ora... um alguém... — Ele olhou para o tecido à sua frente, retirando-lhe uma longa agulha e, com um monóculo, observou a fenda por onde, sem delongas, atravessou uma rúbida linha.
— Quem, afinal? Possuía um nome? — O homem gargalhou com requinte diante meu questionamento.
— Perdoa-me o riso... é que tu, inominada como és, estás a indagar sobre o nome de outrem? Ora, parece-me tão pitoresco. — Respirei impaciente. Olhei para o belíssimo invite e toquei-o, admirada. Assim que o fiz, em especial na preciosa Realgar, o envelope abriu-se n’uma deslumbrante carta e todos os ornamentos dourados fragmentaram-se à fulvo pó com aroma de cestrum nocturnum.
“Caríssima dama! Que adorável noite! Venho por meio desta missiva convidar-te à Masqarilla, a qual terá seu início às dezenove horas. A solenidade saudará os novos residentes com o liquor-carmesim e dançaremos sob o luar. Como desperta, é de inefável valor que venhas ao nosso encontro e participe deste fascinante festejo, este é seu novo lar. Tenho sob minha guarda uma carta destinada, creio eu, à senhorita; decerto é de teu interesse tê-la em mãos. Com apreço, Conde Drácula.”
— Como o reconhecerei? — Sussurrei.
— Conde Drácula? — O homem à minha frente indagou, ainda obcecado por costurar o seu tecido. Respondi-lhe que sim. — Tu o reconhecerás, não te preocupes. A influência da presença do Conde é notável, mesmo no mais longínquo. — O Homem ergueu, após sua fala, o vestido que costurava. — Que tal este? Do teu exato tamanho, vermelho como os teus olhos.
— Belíssimo! — Encantei-me com a peça e, ao tocá-la, vislumbrei abaixo, no mais oculto da mesa de carvalho negro, uma máscara peculiar. — E esta?
— Ó... Esta? Sim, sim, uma máscara especial de uma criatura mítica há muito esquecida.
— Pensei tratar-se de um corvo.
— Um crânio fidedigno, caríssima inominada, de uma criatura mítica dos dédalos florestais... Segure, isso mesmo, experimente! Deve servir em tua fronte. — Era perfeita para mim, tive tal certeza ao vesti-la; somou-se a uma proximidade tênue que senti no exato instante. — Sabes que uma taça de ouro do Castelo pagaria facilmente o indumento e a máscara... — Disse o homem esguio, com seus olhos dispersos e lábios trêmulos, de alguma estranha forma ele sabia da taça que eu possuía em meu aposento. Curvei-me a ele em um cortejo formal e, em alguns minutos, lhe entreguei o fulvo cálice para tão logo aprontar-me para o festejo misterioso, mas... algo me estorvava a empolgação de desvelar os segredos da tal carta em posse do Conde; ou mesmo de conhecer mais sobre este imensurável castelo à beira do abismo. “O exício d’alma, como Rosaemori” — aquele insólito bilhete era a razão do meu remorar frente aos umbrais de minha alcova.
Não obstante, entretanto, corri pelos claustros e passadiços, passei pela galeria e o saguão, até ouvir ao longe o murmúrio dos convivas. Afoita e um pouco sem fôlego, antes de chegar à câmara do festim, busquei a serenidade de minha mente e corpo e, assim, pelos meus íntimos pensamentos, revisitei cada questionamento que me perturbava desde o despertar do dia anterior. Não importa quem, mas decerto — eu pensava — que alguém naquele lugar sanaria minhas vertiginosas dúvidas. Cingida por esta certeza, adentrei o grandioso salão e meus olhos reluziram pela riqueza dourada que se desvelou a eles com magnitude.
À leste, o vermelho, todavia, espargia das tapeçarias aos ornamentos que decoravam o pequeno púlpito destinado à banda, a qual, por sua vez, era composta por treze pessoas; tocavam valsas marcantes, onde o violino tinha destaque ao lado do acordeão. Meia dúzia de outras pessoas compunham um pequeno coral ao lado, com vozes marcantes que ecoavam à valsa que, julgo dizer, possuía ares circenses. Todo o som difundia pelo gigantesco local e parecia conduzir, pela abóbada de rubi, um encanto fantasmagórico estonteante. Lembrar-me da cena transporta-me a ela, parece vívida em sua volúpia teatral e, certamente, estivera; a mastodôntica câmara abrigaria mais de mil indivíduos, estou certa disso e, porventura, ali estivessem mil e um. Todos com elegantes trajes e máscaras sombrias, que fascinante! Compreendi a razão pela qual o Conde a nomeara “Masqarilla” e não apenas “Mascarada”, a primeira palavra em si tinha gosto de cereja, as mesmas dispostas em cachos na ampla mesa destinada ao banquete; além disso, ornada pelo “q”, perpassava a sensação de mórbido assombro por causa da extravagante ourada, os veludos de ouro, os vitrais de ouro, o néctar de cacau banhado à ouro para acompanhar as cerejas, tudo exótico e aclarado, sim, luminoso como um dia de sol, embora penumbral como a mais fúnebre noite.
Embora eu fitasse com minhas atentas retinas cada lôbrego e exuberante pormenor, dos cântaros com cestrum nocturnum a exalar um aroma notívago, aos candelabros cujas chamas febris estavam envoltas por decágonos feitos de um tipo de quartzo — eu alvitraria tratar-se de sirehnniha, pois se mesclavam entre o escarlate e o marfim, o que causava um efeito bizarro no ambiente à medida em que as chamas fremiam pela aragem; e, enfim, a despeito de tudo isso, quando eu conduzia minhas atenções aos olhos daqueles que cruzavam o meu caminho, os quais eram igualmente fascinantes em suas vestimentas, joias, peças e máscaras, eu parecia não ser vista. Talvez o crânio da criatura mítica a me ocultar o contorno facial fosse um empecilho para as aproximações virtuosas — ainda assim, eu não o retirei de meu semblante, pois, de modo incomum, detrás dele eu me sentia protegida.
Acabei por passar boa parte do tempo assentada n’uma das poltronas de um belvedere interno, acessado por escadas encíclicas, por onde o horizonte da Masqarilla era mais bem admirado. Isso me permitiu notar que, com o passar das horas, as velas envoltas aos decágonos de sirehnniha marfim iam se apagando, de modo que o ambiente, n’um aspecto tétrico profundo, se avermelhava cada vez mais. Além disso, a lua cheia subia no firmamento lucífugo e aos poucos o seu lumiar soturno se espargia pela abóbada de rubi acima do encalço destinado às danças. Essas minúcias provocavam-se uma inquietação ofuscante, no entanto, algo me prendia àquele lugar, não apenas algo brumal e símil a tudo o que se desvelou a mim desde meu despertar; houvera algo ainda mais misterioso, porém tangível, que me impeliu a permanecer na meia-luz escarlate.
Em um fantasmagórico cárcere que vinha sobre mim no silêncio de minha mente conturbada, um alguém de vestes obscuras sentou-se ao meu lado e o vi apenas quando sua voz grave sonorizou sua presença à minha audição que se alucinava com o mórbido som do órgão de tubos.
— A morte é a eterna dança da alma no abismo. — Dissera, intenso, entregando-me um ramo ornamentado de cestrum nocturnum. O bálsamo da flor penetrou, marcante, meu olfato e, tamanha era sua veemência que, por instantes, desorientei-me. — Dance comigo. — Sussurrou o homem com a mesma delicadeza viril, então segurei o belíssimo e inebriante ramo que era erguido em minha direção e ponderei sobre qual seria o sabor daquelas pequenas flores lívidas, pois que o perfume me era um êxtase sui generis. O misterioso Dom à minha frente aguardava, atento e sombrio.
— A quem devo a honra? — Indaguei, segurando-lhe a mão estendida. O homem a ergueu, beijando-a. Ele usava uma ornamental máscara negra que se assemelhava a um rosto humano com traços felinos; o vazio dos olhos tinha um exagerado tamanho, curvados como os de um tigre e cobertos por uma manta interna, no mesmo tom noturno. Somente seus lábios estavam à disposição, onde pude sentir sua pele fria; todo o restante de sua feição estava sob a paralisia do felino rosto ornamental feito de escuridão dourada. As mãos, por sua vez, estavam sob a proteção de luvas de couro e seu traje régio dispunha-se dos mesmos tons trevais por onde jaziam seus olhos ocultos. Uma umbrosa gema, talvez obsidiana, fora lapidada na fronte de sua máscara. Com este vulto de um alguém, iniciei o bailar ao som da umbrífera valsa.
— Lëvri Dorean — Revelara-me enquanto nos movíamos sob o som sepulcral. Muitos ao nosso redor seguiam na coreografia, o que nos impedia de um diálogo contínuo. Entretanto, enquanto a lua chegava ao cume da abóboda-rubi e quase todas as velas no decágono marfim se apagavam, o carmim transfigurava o ouro em sangue e tudo o que víamos era nós dois, a cada cinesia organizada, seguimos um diálogo em partes, entre as sombras de outrem. — E qual haveria de ser o nome da tua espécie? — Ele questionou com seriedade.
— Minha espécie? — Perguntei atenta enquanto a penumbra roubava-me a serenidade, conquanto a presença marcante daquele que não desviava seus olhos ocultos de mim fosse o apaziguar da solidão e do esquecimento, ainda que evolasse de sua aura algo inenarrável a me enlear ao medo lúgubre.
— É o que as flores possuem... espécie, classe e gênero. Da classe, sem dúvidas, és da mais excelsa; do gênero, decerto feminil. Falta-me a espécie. — Explicara, como um gomil a verter sobre minha pele um puríssimo néctar das belíssimas flores da arbórea Calliandra angustifolia. E meu corpo próximo ao dele, as palavras sedutoras, uma cura plena cujo mistério impedia-me de dosar o quanto eu poderia ficar imersa, ludibriada, e então sentir o veneno pela dosagem exacerbada.
— Dama-da-noite. — Ele sorriu com sutileza ao me ouvir, no entanto, um regélido arrepio tétrico percorreu meu corpo, originando uma desagradável angústia, de modo que seu sorriso se afigurou mais vil do que cativante.
— Quero o teu nome real, o qual eu possa sussurrar quando estiver só em meu aposento. — Neste íntimo, unimos outra vez os nossos corpos, com as mãos dadas, à valsa da morte. Era quase meia-noite. As sensações desoladoras ascendiam céleres, e os efeitos dos decágonos vermelhos à luz das chamas, me entonteciam.
— Eu te diria, se assim pudesse. Mas não me recordo... — À altura daquele diálogo, tudo de horrífico que eu pressentia, alastrou-se de repente. E, assim, uma pungente dor em meu crânio expandiu-se terrífica e meus olhos lacrimejaram detrás da máscara. Cessei meus movimentos, a lua era o astro de sangue no píncaro da abóboda de rubi, iluminando em um denso rubro tudo que debaixo estava, e a música não cessava. A aragem ao redor esfriara no exato átimo em que a aflição dardejara de mim, pelas têmporas. Fui obrigada a retirar, de súbito, minha máscara, revelando meu rosto entre os que bailavam à meia-noite vermelha, e minha dor hórrida espargia e se dilatava; lembro-me de olhar para o abismo dos olhos de Lëvri, ele me observava estático e, talvez, amedrontado — eu nunca poderia saber. Então, no aterramento da tortura, quando minha lancinante dor aguda colidiu-se com a minha sanidade, perdi-me dentre os corpos dançantes, perdi-me de Lëvri.
Na morbígera dança, colidindo com os corpos, as máscaras se distorciam à minha visão, elevavam às sombras cetrinas uma hórrida composição pavorosa. O som do violino agudo confrangia meu coração acelerado e o pulsar da dor abissal em minha mente era como tambores insondáveis. Um, dois, três, em cada ouvido, tímpanos invadidos por sonatas em tenebrosa essência, um adágio de repugnante e diabólico vibrar. Eu só podia estar delirando e eu não conseguia deixar o encalço dos dançantes, conforme a meia-noite se prolongava, e o que me parecia ser uma desgraça de infortúnio, tornou-se o maior dos meus pesadelos, pois, perante os tambores do antro do meu crânio, na dor cruel e violenta, todos aqueles que dançavam tornaram-se inertes. Um a um. Viraram seus rostos para mim enquanto a música intensificava, perversa.
Em movimentos lentos, no meu desesperar medonho por fitar as máscaras distorcidas, o escarlate tremeluzindo; cada uma das pessoas, uma a uma, retiraram os sinistros objetos desfigurados de seus rostos, e o que vi não foram semblantes. Cada rosto possuía entranhado, em suas faces sanguinolentas, um fragmento fincado de espelho. Pedaços que, de imediato, voltados a mim, refletiram o que deveria ser eu, mas não era. Fui terrificada por imagens perturbadoras do mais cruel possível ao meu olvidar, eu não soube se eram reais ou não. Mortificada, corri para sair daquele lugar, no entanto, não havia saída, mesmo que todos estivessem paralisados; olhavam-me no infinito salão. Eu não podia fechar meus olhos. Cada reflexo desvelava-se n’uma cena macabra e, no primeiro deles, vi um homem com uma flor de cor negra-gaultéria fincada em suas entranhas pelo torso aberto com lâmina dourada; a planta sorvia dele, mirrando seu corpo dolorosamente; e a cada rosto que eu olhava, o reflexo d’esta cena, aos gritos soturnos do homem, se evidenciavam.
Em outro instante, fora refletido um animal símil às serpentes, embora com um aspecto corvino, era decerto idêntico à minha máscara; mas vivo. A criatura mítica. Seus olhos eram amarelos e fúlgidos e seu corpo fascinante era esfaqueado por homens de olhos negros, sem esclera. O sibilar, vociferado pela criatura, era o clamor ensurdecedor do mais execrável sofrimento. E repetia-se a cada refletir dos espelhos, o quais cravados nas frontes dos inertes, sangravam cada vez mais; eram como manequins por todo o salão dourado daquele festejo cruel, manequins humanos. E na última cena — pois que após ela eu já não pude mais permanecer consciente — havia um ventre protegendo um feto que foi banhado por um líquido níveo, transfigurado em sangue logo depois, e partes deste embrião se via pelo sangue, rasgado e moído como carne fresca; e o fluído alvo-enrubescido manava de dentro de meu ventre, do meu corpo imerso em águas salinas que se escaldavam em vermelhidão; a água escarlate e ferrosa de um rio... a água que eu bebia... do flúmen carmesim de meu sonho daquela manhã.
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5. Castelo Vampírico: Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente
Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário de Rute Fasano
23 de dezembro - Estou há dez dias sem sair do quarto, são muitas as sensações, a ansiedade, o medo, a raiva, tristeza, todas elas presas e misturadas na minha mente, borbulhando, e correndo pelas minhas sinapses e causando um estrago no meu psicológico. As únicas coisas que tenho feito esses dias já se tornaram tão rotineiras que nem me dei ao trabalho de escrevê-las diariamente, pois se resumem apenas a acordar, tomar banho, meditar, esperar pacientemente com o ouvido atrás da porta para a boa alma que ainda não conheço e sempre vem deixar o café da manhã, o almoço e o jantar na mesa ao lado da porta do quarto. Nunca vejo essa pessoa, mas ela sempre bate três vezes na porta e sai caminhando a passos lentos e arrastados. Eu só a ouço, porém sempre agradeço com um bilhete escrito à mão. Depois do café da manhã eu escrevo ouvindo música, tem um toca-discos aqui que foi deixado provavelmente por essa pessoa depois do meu primeiro encontro com Drácula.
O som muito específico da agulha passando pelo vinil me faz relaxar, então escrevo até o almoço e depois fico à porta ouvindo, me alimento e coloco o prato e o copo na mesa do lado de fora. Escovo os dentes, releio um pouco do único livro que trouxe. Preciso encontrar uma biblioteca nesse castelo. Volto a escrever até o jantar, volto à porta e escuto, me alimento, faço minhas outras necessidades fisiológicas específicas e tomo banho, escovo os dentes e me preparo para dormir. Me deito e leio até ficar com sono e durmo. Essa rotina é parecida com a que eu tinha fora do castelo, tirando a parte da escrita e adicionando um trabalho repetitivo, fascinante, porém estressante.
Tenho estado tanto tempo presa no quarto que memorizei todo o ambiente, tanto que consigo perceber quando algo diferente aparece no quarto. A grande cama com dossel, com lençóis de linho na cor verde escura, travesseiros com fronhas bordadas à mão, papéis de parede verdes com arabescos numa tonalidade que parece bronze, há uma escrivaninha de castanho-avermelhado bem escuro perto de uma janela, parece algo de muito boa qualidade, diferente dos móveis de madeira suspeita que tenho em casa. Há uma cadeira da mesma cor onde me sento para escrever, um armário com espelho grande ao lado, uma poltrona em frente a uma lareira que nunca precisei usar, pois aqui parece que o clima nunca muda. Um grande tapete persa com detalhes verdes escuros, diferentes tons de marrons e vinho, a textura macia que me faz andar descalça por ele por horas quando estou bloqueada criativamente ou cheias de questões não resolvidas na minha cabeça, gosto da textura dele em meus pés, me acalma.
Uma vez ou outra eu penso em fugir do castelo e voltar para minha vida, mas me vejo obcecada por algo novo, e só quero saber disso, ouvir e falar sobre isso. E Drácula, o castelo e seus hóspedes são minha nova obsessão, eu quero entendê-los, estudá-los, me aprofundar neles, analisá-los minuciosamente até que eu me sinta saciada por esse conhecimento tão fora do comum, tão fora do meu comum lógico e pragmático. Porém, tenho medo, pois sinto que de alguma maneira, aos poucos, Drácula tem tentado ter controle sobre mim, me controlar como uma marionete, será? Eu não consigo pensar sobre o motivo disso, já que estou aqui por vontade própria. Se ele quer que eu escreva para alimentar ele e o castelo, por mim tudo bem, desde que se mantenha longe das minhas veias e artérias.
Fui despertada das minhas viagens dentro da minha mente pelas batidas na porta fora dos horários habituais, fui até a porta e pude ouvir os passos se distanciaram, era a mesma pessoa de sempre, já conheço seus passos. Abri e tinha uma grande caixa baixa, porém larga com um envelope vermelho e preto adornado de arabescos dourados, abri o envelope e aqui escrito com uma bela caligrafia, escrito dessa forma:
“Prezada Rute,
É com imensa honra e profundo fascínio que lhe envio esta carta, convidando-a para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. Este é um evento de requinte e mistério, onde o traje formal é obrigatório, e uma máscara é imprescindível.
À meia-noite, será servido um banquete memorável, seguido pelo brinde com nosso especial liquor-carmesim, servido em taças de diamante vestal, para celebrarmos o ápice da Lua Cheia. A música encantadora nos acompanhará até às três da manhã, momento em que solicito gentilmente que nossos estimados hóspedes retornem aos seus aposentos.
Sua presença, sem atrasos, é solicitada para as dezenove horas de amanhã. Esperamos ser agraciados com sua presença sublime neste deslumbrante evento.
Com respeito, Conde Drácula"
Dentro da caixa havia um belo vestido preto, com pequenos bordados dourados no busto parecendo estrelas num céu negro, godê longo, acinturado, gola alta, mangas longas bufantes, o tipo de vestido que eu usaria se eu tivesse o hábito de usar vestido. Junto a ele também havia uma máscara grega trágica negra com uma lágrima dourada do lado direito. Um baile mesmo que pareça um evento social assustador que já me causa certa comichão, é também uma oportunidade de saber mais e ainda, quem sabe, poder me encontrar com outros hóspedes. Tenho que preparar meu psicológico para isso e aproveitar essa oportunidade.
24 de dezembro - Chegou o dia do baile, e eu estaria mentindo se dissesse que estou preparada para ele. Uma vez li que quando você tem medo de uma situação e a faz mesmo assim, isso é coragem, então tenho que ir e acreditar que sou corajosa, pois de que outra forma eu conseguiria saciar essa minha curiosidade, se não fosse enfrentando meus medos?
Me vesti, prendi meus cabelos atrás, deixando algumas tranças soltas, estava ansiosa demais para planejar um penteado mais elaborado. Coloquei minhas botas confortáveis, mesmo que junto à caixa estivessem saltos adequados para a festa, eu não conseguiria usá-los. O vestido longo escondia um pouco dos meus sapatos, além deles serem mais úteis caso eu precisasse correr. Me olhei no espelho e o que vi me agradou. Coloquei a máscara que me obrigou a deixar os óculos de lado, pois não dava para usar os dois. Respirei fundo e saí do quarto, e como sempre eu não sabia o caminho, mas sabia como chegar lá.
No salão de baile, com lustres e candelabros majestosos, todos bem-vestidos, com uma diversidade de máscaras bem decoradas, músicos tocando uma música num volume agradável, pessoas conversando, outras rindo, a maioria dançando, olhei ao redor tentando ver se reconhecia alguém mesmo com máscaras, mas não fui bem-sucedida, fiquei um longo tempo no canto apenas observando. A única pessoa que reconheci pelo jeito de se movimentar foi Drácula. Vestido com requinte, todo de preto, com a camisa de seda de um vermelho vivo brilhante, uma sobrecasaca preta com bordados dourados e o forro escarlate. Ficou um tempo conversando com os convidados e dançou com alguns deles. Olhou em minha direção e era como se soubesse que eu os estava observando, veio andando e eu podia sentir cada passo seu. Respirei fundo e me preparei.
— Permita que eu conduza? — Ele disse estendendo a mão para mim, olhei para ele e concordei com a cabeça sem pensar demais. Dançamos em silêncio por algum tempo, até ele quebrar o silêncio:
— Ah, sim, os bailes de máscaras... uma festa para os vivos, onde escondem suas verdadeiras faces por trás de máscaras elaboradas. Interessante observar como revelam mais de si mesmos do que jamais admitiriam em suas formas mundanas.
Silencio entre nós novamente:
— Entendo suas hesitações, minha cara, seu desejo de às vezes escapar deste lugar que pode parecer uma prisão. Mas saiba que posso oferecer a você e a todos os que aqui estão algo muito mais profundo do que simples entretenimento. Posso saciar a sede insaciável de vocês por inspiração e conhecimento, através de meios que alguns considerariam sombrios. E eu sei que você compreende o preço que deve ser pago por tal conhecimento?
Nada do que ele estava dizendo era mentira, desde que entrei no castelo as ideias fervilham da minha mente, mesmo que às vezes eu não consiga colocá-las no papel, elas estão lá se debatendo para serem criadas e escritas. Essa situação não era nem um pouco agradável para mim, como no nosso último encontro, sua presença tentava impor tranquilidade, mas ele estava tão perto de mim, mais perto do que permito a maioria estar, era desagradável, pois meu corpo lutava contra essa imposição. Não conseguia responder nada a ele, a proximidade me deixava sem palavras, só olhava através dele e percebia seu sorriso pelo canto do olho.
— Ah, minha querida, não se preocupe. Estou aqui apenas para facilitar sua adaptação neste ambiente. Jamais a forçaria em algo que não desejasse. Afinal, você veio ao baile por sua própria vontade. Como um verdadeiro cavalheiro, sempre solicito permissão, mesmo para os atos mais... sombrios, por assim dizer. Embora possam não ser explicitamente revelados. — Ele sorriu ao dizer isso. — Veja, não há necessidade de se sentir obrigada a me acompanhar nesta conversa, se assim não desejar. Simplesmente desfrute da dança, entregue-se ao ritmo e deixe-se levar pela atmosfera deste lugar.
Mesmo que aquele sorriso fosse uma tentativa de me acalmar, seus caninos brancos e protuberantes me causaram arrepios. Quando estou muito ansiosa com um alto nível de adrenalina, não consigo pronunciar nem uma palavra sequer e, então, a única coisa que me foi possível foi concordar com a cabeça. Dançamos, ele me conduzia, e para mim era difícil me deixar conduzir quando eu sempre conduzia na dança, sempre seguia os mesmos passos básicos, não importava a dança. Ele me conduziu de maneira tão suave que era como se eu sempre tivesse dançado nos passos dele.
— Não vá tão precipitadamente, minha cara. Lembre-se de sua inata curiosidade científica. Se partir agora, perderá a oportunidade de compreender tudo isso. Permita-se um momento para acalmar os ânimos. Talvez uma breve caminhada para espairecer, uma conversa amistosa com os demais presentes, desfrutar da comida e da bebida, tentar se integrar socialmente... ou, se preferir, a opção da fuga sempre está disponível. Faça o que julgar melhor para si. — A música havia terminado. — Porém, antes que siga seu caminho, permita-me um gesto de cortesia. — Ele segurou minha mão e depositou um leve beijo sobre ela, fazendo uma reverência. — Devo agora dispensar-lhe minha atenção, pois há outros hóspedes e convidados a quem devo dedicar minha presença. Afinal, há mais danças não solicitadas a serem atendidas. — Com um sorriso sutil, ele se virou e se afastou, entre os demais convidados.
Vi-o andar resoluto por entre os convidados e soltei o ar, era como se eu tivesse prendido minha respiração sem perceber todo o tempo em que estava com ele. Fui aproveitar um pouco do baile antes de fugir para meu quarto, me sentei e comecei a olhar todos em volta, reparando em suas belas máscaras e vestimentas, tudo tão elegante. Os passos ecoados pelo chão de mármore, a música suave que agora tocava enquanto todos dançavam e se divertiam, a decoração e o grande banquete era de encher os olhos, eu estava deslumbrada. Peguei uma taça cristalina com um líquido escarlate que me foi oferecida, aparentemente já era meia-noite e brindaríamos o ápice da lua cheia. Torci para que não fosse sangue ou vinho, eu nunca bebo vinho. Levantei um pouco a máscara para tentar sentir o cheiro que exalava e não parecia nenhum dos dois, virei a taça nos lábios para experimentar e o sabor que sentia de um amargor adocicado, eu podia sentir uma textura aveludada que envolvia minha língua. Tomei coragem e tomei logo um gole, me deleitei com aquela sensação, e aquele gole foi o bastante para me conduzir a outro mundo, tão rápido como um piscar de olhos.
Esse mundo era uma cópia sombria do castelo com cheiro sutil ferroso de sangue fresco com um fundo de rosas. E, para meu pavor, todos os presentes emanavam uma aura pesada e, de alguma forma que não sei explicar, eu sabia que eu era a única humana ali. Eu estava aterrorizada naquele lugar suntuoso, mas tinha que passar a impressão que fazia parte daquilo, tudo era como no castelo original, só que mais sombrio, mais pesado e frio. Andei entre eles e encontrei todos os hóspedes do castelo que eu já conhecia de vista e, junto a eles, outros que eu ainda não havia visto.
De alguma forma, dentro de mim, eu sabia que todos eram vampiros ou qualquer outra criatura sobrenatural que eu não conseguia identificar, todos com máscaras que cobriam apenas os olhos, todos bem-vestidos, conversando e entre si. Então eu vi uma mulher de olhos amarelos como de um gato, cabelos negros longos e volumosos, pele lisa de um marrom translúcido brilhoso e sobrenatural que permitia que eu visse suas veias esverdeadas em todo seu rosto, busto e braços, com um vestido vermelho decotado, a saia com camadas pretas e vermelhas com rendas douradas em suas bordas e uma fenda que deixava exposto sua coxa esquerda, um corpete preto justo, joias douradas em profusão, envolta em um ar de mistério e sensualidade, tão bela e assustadora como eu jamais seria.
Conversava tranquilamente e se expressando com as mãos e o rosto, parou e olhou para mim, sorrindo com os incisivos e caninos brancos à mostra, lábios grossos com vermelho carmesim, fiquei chocada a ponto de rir daquela situação surreal ao qual eu estava presente, não havia bebido tanto assim para me transportar para o universo espelho tal qual como em jornada nas estrelas, onde eu encontraria minha “gêmea do mal”. Coloquei as mãos no rosto só para me certificar que eu ainda estava de máscara, imagine a minha surpresa quando ela veio em minha direção:
— Já estou tão acostumada com o funcionamento do castelo que encontrar minha doppelgänger não me surpreende. É difícil se esconder de você mesmo por trás de uma máscara, quando se conhece tão bem. Não preciso me preocupar em ser apunhalada ou ter que te apunhalar, espero?
Era como olhar um espelho onde eu via uma versão inverossímil, porém atraente de mim mesma, tão assustadoramente imponente, terrivelmente bela que me despertou uma vontade incontrolável de interrogá-la para saber mais sobre ela. Eu tinha tantas perguntas, e também com quem mais eu poderia encontrar as respostas que eu precisava senão comigo mesma?
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O Poeta das Mil Noites
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela, minha mãe era filha de um cavaleiro nobre que morreu na cruzada de reconquista. Estas poucas noções é tudo que sei da minha origem. Meu pai não sei quem foi, mas tenho feições mouriscas, por isso já levantei muitas suspeitas sobre quem sou, algumas um pouco assombrosas, talvez.
Quase não tenho lembranças de minha mãe e de onde eu nasci, também não sei descrever o lugar, fui levado de lá muito cedo, ainda criança e por isso tenho dificuldades com a língua castelhana. Fui tirado dos braços de minha mãe pelos invasores em uma noite sangrenta, raptado e levado para Córdoba, vendido como escravo para uma família de mercadores aristocratas do califado. Aprendi outros costumes e outras línguas, maneiras as quais eu não era familiarizado, mas hoje é como se tivesse sempre vivido entre os maometanos.
Quando cresci e comecei aprender as línguas estrangeiras, tive facilidade com o modo de falar dos mercadores que chegavam de toda parte do mundo. Talvez por isso me deram uma ótima educação, apesar da minha condição de prisioneiro, era de grande valor o servo que pudesse facilitar as comunicações com os negociantes, até boas vestes me foram concedidas.
Tive aulas com os melhores mestres andaluzes, com o tempo notaram minha vocação para o letramento, me ensinaram gramática, religião, história e também as artes do canto. Nesta arte encontrei minha primeira e mais duradoura paixão, junto dela também aprendi a correr os dedos pelo alaúde, aprendi a tocar muito bem este instrumento, dominei as cordas e os dedilhados melhor do que qualquer um dos menestréis de Córdoba. Permitiam-me algum tempo para praticar estes dons que eu descobri ainda jovem e sempre pediam que eu alegrasse o salão durante o jantar ou as visitas durante as conversas de negócios do meu senhor.
Mas um outro amor que eu encontrei junto com meu dom teve uma passagem mais breve e mais trágica na minha vida. A bela filha de meu senhor, Ester gostava de me ouvir cantar. Fiz bonitas canções para ela e foi exatamente esse o início da ruína deste grande amor. Nos descobriram enquanto eu cantava à noite nos terraços para que ela ouvisse, nunca estive junto dela, mas isso já era algo suspeito demais para manter minhas poucas liberdades. Fui aprisionado, privado de água e comida, e depois de alguns meses vendido para um traficante que me levou para Argel numa tortuosa viagem no porão de um zambuco. Quando cheguei naquele lugar fiquei aliviado de pôr os pés na areia, depois vi tanta areia naquela noite e mal sabia quanta areia ainda veria em toda minha vida.
Tantos anos se passaram em Argel, os anos mais difíceis. Deixei de ser jovem naquele lugar. Não sei quantos anos eu tenho agora, mas talvez tivesse chegado lá com quinze ou por volta disso. Servi o palácio como criado particular de uma das concubinas do Sultão. Uma mulher esguia que tramava inúmeras conspirações e intrigas no palácio. Notei como ela influenciava com língua de cobra as políticas do sultão e daquela corte. Também descobri um de seus muitos segredos, ela escondia nos seus aposentos livros de magia proibidos, dos antigos Dins, também conversava com estes espíritos no deserto. Na madrugada fria da imensidão de areia, saía de noite por uma passagem secreta e voltava manchada de sangue. Certa vez ela me trouxe um alaúde, disse que os Dins mandaram que ela comprasse um bom instrumento no bazar e desse para um de seus escravos. Por coincidência ela me escolheu, mesmo não sabendo que eu dominava aquele instrumento. Talvez este meu segredo tenha sido contado pelos espíritos do deserto que tinham algum tipo de propósito no meu destino. Peguei a concha de madeira bem trabalhada em minhas mãos, era o mais belo alaúde que eu pudera colocar os olhos, uma peça de carpintaria finíssima, não sei de quem ela obteve, não era do tipo que vendem os mercadores.
Temi não me lembrar de nenhuma canção, mas assim que o tomei nos braços e empunhei a escala e as cordas, foi como rever um velho amigo que não mudou nada com o passar dos anos, toquei com destreza e exímia habilidade. A feiticeira ficou muito impressionada e me exigiu que eu tocasse para todo seu séquito. Assim fiz durante algumas noites sem saber que, na verdade, aquela mulher tinha me amaldiçoado. Enquanto eu dormia, entrou pela janela um espírito muito antigo e me revelou nos meus sonhos que, quando eu aceitei o presente da minha senhora, firmou-se um contrato com os Dins. Eu empunharia o instrumento como ninguém jamais fez, cantaria tão lindamente como ninguém jamais pôde e criaria as mais belas canções que já foram criadas, no entanto a fama não alcançaria o meu nome, eu teria que provar a cada trova que eu era o grande bardo das noites argelinas, esta porém não era a condição mais cruel, eu só poderia exercer minha arte por mil noites e quando se esgotasse esta conta, nunca mais poderia cantar, pois ficaria mudo e cego até o fim da vida, condenado a vagar sozinho pelo deserto.
Incrível como foram as noites depois deste sonho assombroso, embora tivesse acordado assustado na manhã seguinte, eu não acreditei que aquilo era verdade, mas meu talento ficou muito mais aguçado e foi se desenvolvendo cada vez mais, de um modo que quase atingia a perfeição. Tocava pelas noites de Argel, no palácio e nas casas mais nobres, sempre cercado de boa comida, bajulações e mulheres jovens e bonitas. Tornei-me o maior amante dos prazeres, vivi empenhado em esbaldar das benesses que este dom me proporcionou, me embriaguei nas maiores abundâncias da riquíssima cidade de Argel, quase me esqueci que eu era um escravo.
Então que um novo sonho aconteceu, depois de uma noite das mais festivas e agitadas, um novo espírito entrou pela janela dos meus aposentos e me mostrou uma ampulheta que era o contador das noites que eu usufruí e das que ainda me faltavam. Não sei dizer ao certo o número que ainda restava, mas a areia já tinha escorrido a maior parte para o bulbo do vidro de baixo. Acordei desesperado ainda na madrugada, entrava um vento frio pela janela por onde eu via as estrelas e as dunas do deserto. Tive uma nova epifania acordado, pensei em toda a minha vida, na minha mãe e em Ester. Onde poderiam estar? Chorei pela primeira vez desde que eu era criança, pedi que algum espírito ou qualquer força maior me escutasse, pedi que quando minha maldição se concretizasse, eu vagando cego e mudo pelo deserto ainda pudesse ver com clareza as figuras de minha mãe e de Ester.
Decidi fugir daquela cidade, decidi ir embora de Argel. Arrumei algumas poucas coisas, água e tâmaras, embrulhei meu alaúde e segui pela passagem secreta que levava fora dos muros da cidade entre o mar e o deserto. Cheguei na praia e continuei para o leste sem saber o que esperar ou o que eu poderia encontrar, andando entre as quatro maiores imensidões que existem, a imensidão arenosa do deserto à minha direita, a imensidão salgada do mar à minha esquerda, a imensidão brilhante das estrelas no céu e, por último, a imensidão da alma dentro de mim.
Andei por tanto tempo, não sei estimar, mas algo estranho acontecia, aquela noite parecia eterna, como se passasse muito mais de doze horas e o dia não dava sequer sinais de alvorecer. Andei pela areia até Argel sumir à distância atrás de mim. Eu estava só caminhando sem ter um rumo ao certo, consumi todas as tâmaras e toda a água, tive certeza de que caminhei por muitos dias embora a noite jamais deixasse o céu.
Quando já estava exausto, sentindo a falta de água e de comida, minha mente turva sem saber se minha atitude foi sensata, avistei uma luz ao longe. Caminhei até me aproximar, quando chegava perto reconheci a forma de uma ampulheta espectral, uma névoa brilhante pendente no ar, parecia ser feita de estrelas. Tive vontade de tocá-la, estendi a mão e quando o fiz, um raio de luz me ofuscou num instante e percebi que estava em um lugar diferente. Eu pisava sobre um gramado, rodeado de jardins verdejantes e diante de mim havia um suntuoso castelo europeu. No ambiente pairava um murmúrio alegre e notei que chegavam convidados para uma festa, todos trajados com muita elegância e usavam máscaras cravejadas de brilhante, entendi que haveria um baile e me animei em participar.
Um cavalheiro vinha em minha direção, não o percebi chegar, tinha cabelos na altura do pescoço, bigode fino e cavanhaque pontudo, conversou comigo durante alguns minutos, tinha gestos delicados e uma postura muito gentil. Acho que ele é o dono deste lugar, um conde talvez. Por certo é muito rico e me passa ares de ser muito culto. Ele notou meu estado decadente e mandou que trouxessem um copo de água para matar minha sede. Aquela água estava deliciosa, parecia um elixir revigorante. No instante seguinte já pensava eu: “Que mal tem um pequeno grãozinho de areia a menos na parte de cima da minha ampulheta?”.
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O Baile Sombrio
Bailes são sempre bailes. Misteriosos, longos, satisfatórios e saudosos. Ser convidada para um baile é sentir o primor de ser considerada uma…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Bailes são sempre bailes. Misteriosos, longos, satisfatórios e saudosos. Ser convidada para um baile é sentir o primor de ser considerada uma verdadeira dama — importante para a sociedade, embora eu não tenha cavalheiro algum para acompanhar-me.
Olho-me no espelho e estou impecável para um baile. Meu vestido em tom violáceo representa a minha candura. Me falta apenas a máscara, a tão importante máscara. Mas dirijo-me tão logo ao Castelo Drácula, recinto do grandioso evento, onde avisto pessoas chegando e se aproximando. Há um homem esguio e comprido, como se fosse uma figura misteriosa. Paro os meus passos para contemplar a sua face, escondida em uma máscara levemente sombria, que cobre todo o seu rosto. Não se sabe se ele sorri ou se chora dentro daquele molde. Ainda assim, me aproximo e percebo que ele comercializa lindas máscaras acompanhadas de joias preciosas. Isso toma a minha curiosidade de tamanha forma que eu faço a minha escolha.
Uma das máscaras chama a minha atenção de maneira impressionante. Nela há um brilho especial ao redor da parte dos olhos. O brilho é lilás, quase da cor das vestes que me cobrem. O homem das máscaras impulsiona a pô-la em meu rosto. As suas mãos aproximando quase insistentemente a máscara da minha face me faz colocá-la em mim. Mais um pouco e seriam as suas enormes mãos a fazerem isso. A máscara vem acompanhada de uma joia, mas a deixo na bancada do seu quiosque, os meus dedos já estavam fartos de brilho.
Ao colocar a máscara, começo a me sentir estranha, com uma sensação de vertigem e desconforto. Não vejo outras pessoas se sentirem assim, apenas eu. Então, decido tirá-la, mas não consigo fazer isso, a máscara não sai dos meus olhos. Apenas os meus lábios podem ser vistos. Desisto de lutar contra e resolvo permanecer com ela sem pedir ajuda ao homem. Ele me olha como se soubesse o motivo daquela faixa brilhosa com dois orifícios grudarem em minha pele da face. Ele também sorri, sinuoso, sarcástico. Ignoro tal ato e entro no castelo; não poderia perder um minuto de baile por causa de loucos mascates.
Entrando no recinto, percebo que está tudo muito lindo, ornamentado em um trio de cores espetacular: preto, vermelho e dourado. A música é melodiosa, valsante, e as bebidas têm uma coloração intrigante em tons sempre escuros. Sento-me à uma mesa num canto discreto. Estou sozinha e não gostaria de ser notada tão facilmente, mas, ainda assim, sinto o aproximar de uma figura masculina, gentil, máscula e imponente. Respiro fundo, parecia admirável. Essa figura me estende a mão, nada me diz. E eu sei que é para uma dança, eu sei. Penso por uns instantes, ele está mascarado, é óbvio, a sua luva alvacenta e muito limpa me convence de que devo aceitar a sua dança.
Levanto-me, educadamente, e a minha face se curva ao cavalheiro. Mas o salão está levemente escuro, luzes baixas, e a música alcança uma frequência soturna demais para mim. De repente, os meus ouvidos captam um som doído e tento me afastar, mas o cavalheiro não permite. Não bastara a máscara que não sai da face minha, agora sou obrigada a ficar de mãos dadas e corpo colado a um homem que eu nem consigo ver a face, pois tal se cobre com um molde esdrúxulo e que parece também ter grudado em sua face, a qual não existe. Onde eu estava com a cabeça para aceitar dançar com ele? Era impossível ver o que havia de estranho com tanta delicadeza desse senhor cavalheiro. Mas me arrependo. Estou presa a esta dança como quem sente tortura até a hora da morte.
Depois de ficar presa ao corpo dançante do jovem homem, decido que quero abandonar a dança, mas ele me dá a condição de que se isso eu fizer, é certo eu aguardar algo negativo acontecer. Não me importo, e ao me afastar do seu corpo, ele desaparece, quase imediatamente. Se ele não tem face, como saberei onde ele vai?
Me perco nos pensamentos e já me sinto tonta, quando algum maitre parece perceber a minha fraqueza e me oferece um néctar rubro. Não penso, aceito e no mesmo instante parece que todo o baile se acaba, cessa e não estou mais lá no castelo. Deparo-me com outro ambiente similar, como se fosse um espelho de todo o baile. A tal máscara ainda está em meu rosto, o sabor do líquido rubro ainda desce garganta abaixo e não há nem mesmo o tal cavalheiro valsante sem face para me ajudar. As mesmas pessoas do baile estão presentes, mas todas sem cor, nem graça, nem rosto... como eu voltarei? Como?
Lembro-me de que não poderia parar de dançar. Se eu valsasse até o fim do baile talvez eu ainda estivesse lá e não viria para este recinto fúnebre, obscuro, demoníaco. As pessoas me olham e sorriem irônicas, sarcásticas e o som das suas risadas são como surras em meus ouvidos. Logo, as risadas transformam-se em gargalhadas colossais e, para completar o meu reflexo parece se fundir a um espelho negro e sorri para mim, desfigurado. Outrora chora e faz caretas perturbadoras e chacoteia de mim.
A minha lágrima desce, dolorida, dolorosa, e os seres fingem dó e compaixão, ironicamente, de maneira sarcástica. Me distraio com a face baixa, encarando o piso reluzente do salão, embora ele esteja coberto por um carpete em tons rubros e dourados. Nesse momento, ao levantar a minha face, não há mais ninguém e noto que estou de volta ao salão anterior, no castelo Drácula, sobretudo, vazio, escuro e já se aproxima das três horas da manhã.
Sozinha, mascarada, sem luz. Lembro-me da placa que li ao adentrar o castelo, que dizia que o baile seria encerrado às três da madrugada e todos deveriam se retirar e voltar para os seus lares ou aposentos. O que me resta é sair do recinto e tentar retornar para casa. Mas o silêncio é gritante e o som dos ponteiros de um relógio arcaico são ensurdecedores. Não obedeço. Fico ali olhando fixamente para o relógio do grande salão até passar da hora exata, como afronta. Não importa o que me aconteça. Continuo, e agora, três horas e um minuto, sinto a necessidade de seguir a luz da lua fúlvida que lumia a saída do salão.
Os meus olhos se deparam com aquele homem das máscaras caído ao chão e a face ensanguentada. A cena é terrível. O homem sem face também aparece e o toca no rosto coberto pelas líquidas hemácias. Eu não me sinto pronta para ver isso e quando penso em ir embora e sair daquele jardim afora, o mesmo maitre que me serviu a bebida rubra parece cercar o meu caminho para que eu não passasse, mas o venço e me retiro dali, junto à máscara, que arranco da face sem pensar mais. Respiro fundo, ofegante e aquele castelo parece ser engolido pela terra, restando apenas eu na estrada de volta para a minha casa.
Não contarei a ninguém. Não ousaria. Ninguém acreditará. Mas foi o baile mais assombroso cujo qual participei. Se eu voltaria ali? Contarei as horas para o próximo evento, que acontece de sete em sete anos.
Sete anos depois, sorrio sinistra para o terreno baldio, onde um dia aconteceu o grande evento e coloco uma placa cravada naquela terra, escrito “Preparem-se para o grande baile do Castelo Drácula”.
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Baile das Sombras
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Não duvido de mais nada… Deixei de duvidar há bastante tempo, e minha estadia neste Castelo, desde os primeiros momentos em que pisei com os pés aqui, me comprova ser totalmente compreensível uma abertura dessas para o mundo-outro, o outro-mundo… whatever…
Jamais sabemos o que pode estar nos esperando ao dobrarmos num corredor, ao abrir uma porta… De uma hora para outra, podemos cair num buraco do qual nem tivéramos notícias antes, ou então sermos puxados para algum recanto que também mal imaginávamos poder existir… Isso tudo tenho dado como possível de acontecer desde os últimos acontecimentos…
Finalizei minhas mais recentes anotações ao me deparar com batidas na minha porta… No quarto em que estava (concentrando-me em colocar no papel minhas impressões advindas dos fenômenos ocorridos nesse lugar), só podia pensar ser algum coabitante, outra presença, talvez, decidida a estabelecer contato e, quem sabe, me convidando para alguma conversa — coisa dificilmente vista no ambiente, devo ressaltar, longe de parecer desejada pelos presentes, ainda arredios pela recente chegada…
Aconteceu que não havia ninguém… vivalma alguma, no limiar de meu quarto, para me dizer o que quer fosse. O que eu entrevi ao olhar para os dois lados do corredor foi somente uma carta, quase sob os meus pés, mas chamativa o suficiente para me fazer pensar no porquê da pessoa que a deixara ali não ficar para me entregar em mãos… Situação no mínimo enigmática.
E qual não foi minha reação ao ver o remetente da carta: Drácula! Sim, o próprio, era quem aparentemente assinava... Ao menos, era o que eu não podia duvidar, tendo passado por todas aquelas situações vivenciadas até então, com fumaça nos corredores, presenças semifantasmagóricas no local…
Era um convite, me convocando para um baile no salão principal do Castelo; havia até a indicação de roupa formal para o “evento”, a qual eu encontraria, já à disposição, no armário do meu quarto. Ou seja: pensei estar passando por algo planejado antes mesmo de minha chegada! (em algum filme eu devo ter visto isso: convidados chegando inesperadamente, encontrando-se com outros desconhecidos, todos eles sendo, de uma hora para outra, chamados para igual confraternização… O jeito como isso acabava que não lembro de ser sempre boa coisa).
Enfim… me vesti, da maneira que achava mais confortável (pois, de fato, não sendo muito chegado a festejos, gosto no mínimo de me arrumar de modo que me sinta satisfeito dentro de alguma roupa de ocasião), e dei outra olhada naquele cartão deixado no sopé da porta. Li mais uma vez a parte em que dizia estar programado o fim do baile pontualmente às 3h da manhã… Ora! mais essa! Chegando às sete da noite, o desfecho seria nesse horário da madrugada, que, pelo que eu saiba, tem simbologias fortes e dizem ser o momento de maior ocorrência de fenômenos paranormais… Juro que estava empolgado, mas lá, no fundo, temendo algo do desconhecido…
Tudo no mesmo dia, tudo ocorrendo como se eu fizesse parte de algum jogo, fora do meu controle… Minha apreensão era do tamanho da minha curiosidade; ainda que não fossem muito claras as intenções para aquele convite, eu não tinha como não sentir certa “honra”, certa disposição positiva para fazer presença nesse baile que, a meu ver, tinha tudo para ser como eu imaginava: um salão suntuoso, repleto de mesas, lustres enormes, cristais… Mas entre todas essas divagações acerca do que haveria ou não no evento, o que mais me inquietava era saber sobre os outros convidados… Quem estaria lá? Será que outros membros do Castelo? Gente de fora?... Por conta disso, finalizei o trato do meu traje e parti, rumo ao salão principal.
Minha chegada ao salão foi do jeito mais peculiar que podia imaginar. Aproximando-me da majestosa entrada, ela parecia abrir de maneira voluntária, sem força aparente que a manipulasse… E qual não foi minha surpresa ao ver o que acontecia lá dentro: uma centena, quiçá milhares de pessoas (o que se via era uma nuvem de cabeças, de vestimentas e máscaras, impossibilitando meu olhar de enxergar a parede oposta de onde eu estava), a maioria trajada em vestes escuras, de rosto coberto, encarando umas às outras, de maneira que adivinhei casais confabulando entre si, amizades sendo feitas… Em razão do uso solicitado de máscaras, senti-me aliviado, pois, de outro modo, alguém teria certamente visto meu semblante impressionado e, também, assustado diante de toda a pompa…
Enquanto ensaiava uns tímidos passos em direção à mesa mais próxima, onde percebia um recoberto prato de refeições, fui interrompido… Uma mulher, um pouco maior que eu, completamente envolta em sua luxuosa indumentária (tão escura que fazia eu perder a perspectiva de seu corpo, perto de mim), estendia-me uma das mãos… Minha presença ali, que já parecia involuntária, agora estava totalmente ao dispor dos estímulos exteriores; sendo assim, sem demora, tudo o que lembro foi estender meu braço e me deixar guiar por aquela dama — sem saber seu nome, seu rosto, sem um pingo de consciência sobre quem me arrastava agora para o meio do salão…
Vou escrevendo na medida em que me recordo dos últimos acontecimentos no baile; pois, estranhamente, depois de me ver guiado por essa mulher, as imagens que me vêm à memória são de uma completa estranheza (pelo menos, da maneira com que me lembro).
Abrindo espaço entre as pessoas que nos rodeavam — todas de máscara, com taças na mão, misteriosamente encarando-nos dos pés à cabeça, sem esboçar outra reação —, fui percebendo que estava começando a soar uma música, sutilmente chegando de algum canto do salão e ambientando o lugar. Escondendo meu rosto por trás daquela máscara, mas ainda assim receoso de levantar o olhar e me deparar com algo além das minhas capacidades humanas, minha companheira desconhecida subitamente estacou o passo. Arranjando-me uma das minhas mãos ao redor de suas costas, com a outra eu maquinalmente suspendendo uma das mãos dela (recordo neste instante o contato com seus dedos, graciosos e gélidos dedos), nós iniciamos a dança…
Não tendo ideia alguma de onde eu poderia ter aprendido aquilo, simplesmente lembro de conseguir acompanhar minha parceira da noite. Seus leves movimentos de quadril e pernas, no ritmo da música que tocava, eram seguidos dos meus, nada estabanados, todos dando um prosseguimento digno e, diria, primoroso ao ritmo da dança.
A todo momento, quando nossos olhares pareciam se alinhar, eu tentava observar em meio àquela máscara dourada os olhos de minha enigmática companheira. Rapidamente, sempre que isso eu ansiava, ela baixava o olhar, e logo em seguida me envolvia em sua espiralada dança. Também a música, nesses momentos, parecia conspirar contra a minha vontade de adivinhar a identidade de quem me acompanhava, e sucessivos foram os períodos em que uma agitação tomava conta do salão, impossibilitando de vez qualquer iniciativa de estabelecer contato visual ou vocabular com ela…
A noite foi passada assim, literalmente assim… dançando, girando, contemplando os pares que surgiam ao redor de nós e se abraçavam, repetindo os movimentos de nossa dupla… ninguém, absolutamente ninguém eu pude perceber fazer outra coisa que não fosse dançar, rodopiar naquele salão e contribuir com o brilho de sua máscara dourada para o reflexo quase entorpecedor de luzes e mais luzes…
Tenho a absoluta certeza de que, desde o primeiro minuto em que coloquei os pés dentro daquele baile, nada mais fiz a não ser me ver dominado pela decisão daquela estranha e atraente mulher de me guiar para a dança. Levado como fui por suas mãos — aquele toque que ainda agora sinto roçar em meus braços, preenchendo meu corpo com frígida sensação —, somente lembro de ficarmos juntos, perdidos nas horas em que acontecia o evento e sem nos preocuparmos com mais nada. Nem mesmo a comida, que quase eu descobrira ao adentrar no salão, eu pude saber qual era… Cardápio nenhum passou por meus olhos e boca… Absolutamente nada foi o que eu fiz e descobri — além de me ver capaz de empreender alguns passos de dança, bailando junto de alguém cujo nome não tenho ciência, e me deparar sobre a minha cama, nesse meu quarto do Castelo Drácula (que leva o ilustre nome de quem assinava o convite, mas de quem não tenho lembranças de ter avistado durante a noite), após o que parecia soar como um aviso de que havíamos chegado, talvez, às 3 horas da manhã, horário final da festa…
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Sob a luz do lustre dourado
Estimado amigo, hoje escrevo-te pela manhã. Após meu encontro com Maria, obtive certas respostas, creio que ainda permaneço abalada devido as recentes…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Estimado amigo, hoje escrevo-te pela manhã.
Após meu encontro com Maria, obtive certas respostas, creio que ainda permaneço abalada devido as recentes descobertas. Estou sozinha, estimado amigo, nada tenho, mesmo a mais vergonhosa mácula impregnada em meu passado fora extinguida com o disparar das horas e dos anos. Devo contentar-me com esta recém-adquirida nova vida, e transformá-la em uma oportunidade valiosa de encarregar-me de reconstruir minha imagem, afinal não fora isto que desejei toda a vida? Por anos, em momentos de descarrego emocional clamei em desespero por uma forma de aproximar-me da realidade, dos demais ao redor, como parte de um todo, a peça mais valiosa e não mais o borrão disforme vergonhosamente manchando o bonito cenário transcrito no livro da vida.
Lamento minha perda, não compreenda meu anseio pela nova vida como inércia.
Pois bem, após Maria e eu deixarmos o leito em vão em busca do relógio de ametista, unidas deslocamos nossos passos pelo interior do castelo, porém nada encontramos, como se a lembrança do artefato, e do caminho feito por mim ao vosso encontro, fora apenas fruto de minha mente criativa e exaurida.
Um minuto, caro amigo, fora empurrado algo por debaixo de minha porta e não posso ignorar esta ocorrência.
Escrevo-lhe horas após a ocorrido.
Paciente amigo, volto imensamente intrigada com minhas novas circunstâncias; algo fora deixado para mim, um convite de nosso misterioso anfitrião, vou transcrever suas palavras para que o registro deste evento jamais se perca.
Diz a missiva:
Inestimável conviva.
Com honra, e profundo fascínio, venho por meio desta carta convidar-te para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. O trajo deve ser formal, como deves presumir, e tua máscara deve lhe cobrir o rosto ou parte dele. Serviremos um banquete memorável à meia-noite e as extraordinárias taças de diamante vestal receberão nosso liquor-carmesim, o especial da casa, para que brindemos ao ápice da Lua Cheia. A música findará às três da manhã e os estimados hóspedes deverão regressar aos seus leitos neste momento. Solicitamos a presença, sem atrasos, às dezenove horas de amanhã. Que sejamos agraciados com a tua presença sublime neste deslumbrante evento.
Respeitosamente, Conde Drácula.
Interrompo meu relato por agora, pois o tempo é curto, e preciso do auxílio de Maria com os arranjos do baile, até breve.
Benquisto amigo, escrevo-te pela madrugada.
A noite iniciou de forma formidável, Maria e eu permanecemos obstinadas a encontrar uma resposta para o desaparecimento do artefato e a sala onde deveríamos encontrá-lo. Durante nossa reflexão, cuidamos de nos aprontarmos para o baile. Maria pediu-me que cortasse vossos cachos ruivos de mechas esverdeadas, fazendo deles uma nuvem volumosa de bonitos contornos espiralados, disse ela, que o novo corte lhe traria modernidade, uma vez que o ambiente em que nos encontramos era abarrotado o suficiente pelo passado, como um eco seco dos anos passados aprisionados nestas paredes medonhas envelhecidas.
Embora a valentia e a ferocidade façam parte da personalidade de minha nova amiga, a ternura trasborda de vossos olhos, eu a vi no momento em que o sorriso contido tornou-se alongado á medida que os olhos deslizaram por meus trajes, os poucos que ainda me restaram, porém ainda datados. Descobri que Maria é uma exímia colecionadora de artefatos antigos, trajes históricos estão em sua lista de preciosidades. Com tamanha felicidade apresentou-me o traje escolhido para a noite do baile; um belíssimo vestido francês verde-oliva repleto de pompa, com aplicações negras por todo o tecido, aberto e alinhado à cintura, acompanhando de peitilho, mangas e gola, ambos bufantes e rendados, por detrás da sobreposição formava-se uma cauda repleta de excepcionais pregas negras.
Maria explicou-me didaticamente os cuidados que tomava com as peças, e o traje, o qual fora adquirido de segunda mão, era uma raridade histórica de alto valor, e não poderia jamais ser manuseado com descuido. Ao apresentar-me vosso baú de preciosidades mal pude crer em meus olhos, pois junto aos tesouros de minha amiga estava meu vestido de baile, o vestido o qual jamais ostentei, pois logo após sua aquisição fui obrigada a deixar meus pertences para trás. Creio que o destino juntou-me a Maria, esta criatura nobre, querida e obstinada.
Ao sentir o vestido, que ainda permanecia belo e branco quanto me lembrava, e a delicadeza do cetim e da seda, transbordei em lágrimas. O belíssimo vestido de noite decotado, de corpete baixo, manga rendada, saia drapeada e cauda, que presa a cintura, na parte posterior, alongava minha silhueta, sempre fora o meu favorito. Após estarmos satisfeitas com as vestimentas, nos comprometemos a investigar o espaço, e nos encontrarmos no salão de baile.
Embora dolorosamente enfraquecida, cobri-me com minha capa e desci as escadas devagar, cuidadosamente para não encontrar-me com os demais moradores do castelo. Ao aproximar-me do salão ouvi a movimentação e a música que preenchia todo o ambiente. Em frente a porta, duas figuras mascaradas recepcionaram-me com cortesia, eu os cumprimentei receosa e entreguei minha capa, porém o simples movimentar de suas mãos, ao tocarem no tecido e logo após girarem sincronizadamente as maçanetas da grande porta dupla do salão, trouxesse um vento frio e cortante, arrastado através da movimentação das deslumbrantes figuras, também mascaradas, transitando com uma delicadeza mórbida pelo baile, feito marionetes.
Minutos após a minuciosa inspeção, não reencontrei minha amiga, ou qualquer outro rosto familiar, porém, afastado da multidão de bailarinos ardorosos ao som da sinfonia número cinco de Vivaldi, uma figura masculina de bonitos cachos loiros dourados, pele alva, bigodes finos, e olhos de um azul profundo, como os das campânulas soterradas pela neve encontradas por mim certa vez próxima ao poço, se aproximou sorrateiro como uma raposa e estendeu os dedos alongados e espaçados vagarosamente para mim em um convite para uma dança. Com o decorrer da movimentação teatral e exaustiva de nossos corpos projetou-se em minha mente um rosto masculino do passado, um erro o qual por dias venho procurado esquecer.
– Trindade? – Exprimi receosa, correndo os olhos por suas vestes brancas, como as dos oficiais da cavalaria. Contendo o impulso de tocar-lhe a face em busca de reconhecimento, afastei-me abraçada ao meu próprio corpo.
Ao ápice da lua cheia, o homem de meu passado estendeu a mim uma taça de diamante vestal repleta de um liquor-carmesim, exatamente como descrito na missiva de nosso anfitrião.
Contemplando os olhos, que outrora brilhavam em um azul celeste místico, distingui um ponto carmesim crescente o qual tomou a pupila rapidamente, distanciando a figura masculina da familiaridade anterior, deixando a imagem do homem de meu passado para trás, honestamente deixara de se igualar a qualquer ser humano comum.
A lembrança de Trindade, mesmo que por alguns instantes, lembrou-me da dor de retornar a memórias regressas, ultrapassando meu ambicioso desejo de permanecer altiva, e não desejava mais transformar-me, mas sim permanecer autêntica, afinal, minhas memórias e falhas fariam de mim a sobrevivente a qual deveria não mais representar e sim tornar-me.
A figura, agora estranha para mim, novamente estendeu-me a taça, porém, não me atrevi a tocá-la, pois ao recorrer ao instinto de tocá-la ouvi dela um grito agonizante á medida que o liquor ocupava minha atenção.
Sob a luz do lustre dourado e tortuoso de sinuosas curvas semelhantes a garras, permaneci solitária, mesmo meu acompanhante, desapareceu obediente a regra de recolhimento, e desacompanhada segui o clarão da luz pela madrugada, porém, o que testemunhei ao procurar pelo corpo celeste cintilante foi o retorno das memórias de um passado sangrento e lascivo, e pela primeira vez em minha curta vida, senti-me corajosa, nada amedrontada, preparada para enfrentar meus demônios e buscar uma forma de estabelecer minhas forças.
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Desde que meu celular descarregou totalmente, me perdi um pouco com a minha escrita, deixei a desejar algumas coisas…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Diário Não datado – Encontrei uma humana
Desde que meu celular descarregou totalmente, me perdi um pouco com a minha escrita, deixei a desejar algumas coisas. Me encontro numa maré de dúvidas cercada de coisas que me atormentam de algum modo avassalador que me consomem e até a minha fome está em escassez.
Quando Jason e eu fomos destinados a visitar este castelo, não nos foi dito nada além do que nossa vinda e agora que já nos encontramos aqui, sinto que sei ainda menos. Conheci a jovem bela e solitária Astrid, que além de ter vivido em uma outra época, é uma humana que se encontra ainda em vida. O tempo não é mais equivalente desde que me tornei imortal, mas esse encontro com Astrid me deixou em conflito com minhas expectativas pessoais.
Nosso diálogo foi muito curto, mas senti uma conexão com tal, que me fez querer entender um pouco mais o propósito deste castelo. As vozes que antes foram escutadas de muito longe, agora são reais e existem pessoas nesse lugar além do anfitrião. O bálsamo que me atormentara outrora agora sumiu de vez e me sinto sem um sentido a que buscar além de verdades absolutas. Se é que existe alguma.
Vim para este lugar como subordinada com um propósito não específico e o que me restara além de divagações e disparates aleatórios é o Jason e um salão cheio de indivíduos que buscam algum sentido neste percurso.
— Jason, precisamos aprender a nos comunicar por telepatia, vamos nos unir mais do que já somos e vou precisar que haja com mais cautela, estamos entendidos?
— Miau! — Jason confirma com a cabeça.
Dia __
Um outro dia se passou e me recordei do encontro com Astrid, quando fomos à procura do relógio e que não encontramos nada além de mais uma sala vazia neste imenso castelo. Quão arraigada este sórdido acontecimento me aproxima a um pútrido estado de estagnação e frigidez inconsolável.
Caminhei neste quarto sem pensar em palavras que me aproximassem da minha escrita diária. Que me trouxessem alguma inspiração efêmera e me tirar desse abismo em que me encontro. Lembro-me que Astrid tem uma escrita solitária e sinto culpa por vaguear em suas palavras intimamente sem decoro.
Tenho o Jason como um companheiro para toda uma vida.
Somos gélidos, somos siameses em alma, nossas mentes se cruzaram em um destino mortificado de imortalidade, temos o mesmo desejo e na frígida presença em que me encontro, ele tem sido o meu maior consolo.
— Miau!
Jason me trouxe uma mensagem telepática enquanto caminhava do corredor até o nosso leito, na distância eu já percebera que algo novo estava surgindo e ao deparar-me com a missiva em sua boca felina:
Inestimável conviva, com honra, e profundo fascínio, venho por meio desta carta convidar-te para o anual Baile de Máscaras do Castelo Drácula. O trajo deve ser formal, como deves presumir, e tua máscara deve lhe cobrir o rosto ou parte dele. Serviremos um banquete memorável à meia-noite e as extraordinárias taças de diamante vestal receberão nosso liquor-carmesim, o especial da casa, para que brindemos ao ápice da Lua Cheia. A música findará às três da manhã e os estimados hóspedes deverão regressar aos seus leitos neste momento. Solicitamos a presença, sem atrasos, às dezenove horas de amanhã. Que sejamos agraciados com a tua presença sublime neste deslumbrante evento.
Com respeito, Conde Drácula.
Após a leitura, sinto uma fraqueza pela “falta” que me acomete, e com esta carta sei que respostas serão esclarecidas.
— Jason, precisamos encontrar Astrid, nossa nova companheira e amiga. Temos um baile à nossa espera.
Diário Não datado – Amizade
Sou completamente movida pelos meus sentimentos e Astrid me trouxe algo que já não sentia algum tempo... saudades da minha terra acalorada e onde moram todas as minhas amigas.
Desde que este cadáver ambulante não sente mais as gotas escorrendo pelo rosto de suor, tenho a impressão de que me afasto cada vez mais do que já fui um dia e mesmo inconsolavelmente angustiada, sinto que algumas coisas estão por vir.
Meu encontro com Astrid dessa vez foi mais íntimo e com uma confiança mútua pela minha nova amiga, compartilhei minha coleção preciosa de roupas e artefatos que passei alguns dos meus anos de vida de escritora independente garimpando em sites e brechós. Minha coleção vai além de indumentarias e, ao ver um vestido específico no meu baú, vi os olhos da minha amiga solitária brilharem pela primeira vez.
Aquele rosto jovial e sensível estava radiante, Jason brincava com Astrid enquanto ela cortava meu cabelo, um penteado novo para fazer jus à minha nova personalidade que luto diariamente para aceitar. Nos olhamos no espelho juntas, com nossos trajes, Jason estava usando um fraque vitoriano verde oliva, combinando com meu vestido, e um colar elizabetano preto, combinando com os detalhes do meu vestido, seus olhos me direcionavam amorosos e ele ronronava de felicidade.
Minha amiga Astrid estava belíssima naquele traje que fora feito especificamente para ela, uma jovem mulher com sentimentos tão profundos e que agora poderia compartilhar um pouco de suas dores comigo. Nos olhamos no espelho de maquiagem feita, cabelos no alto e combinamos de nos encontrar no baile.
Baile
— Jason, estamos devidamente trajados para a ocasião, não acha? Sinto que nos falta algo...
— Miau! — Jason confirma e telepaticamente esboça uma máscara em minha mente.
Desde que eu soubera da presença de outras pessoas neste castelo, o eflúvio que discorre neste ambiente tem me deixado deveras questionadora. Enquanto andamos até uma cabana de um homem esguio, os tons da cabana me chamaram atenção, parei para apreciar enquanto Jason procurava uma máscara. Como imaginar que estaríamos em um lugar como este e um evento como tal, podendo enfim usar meus trajes que estavam guardados, que utilizei apenas para algumas fotos com meus livros.
— Miau! — Jason me chama telepaticamente mostrando uma máscara de meio rosto que combina com os tons do meu vestido. Deixando apenas a minha boca a mostra e a dele da mesma forma.
Saímos da cabana do homem estapafúrdio, e decidimos procurar nossa amiga Astrid.
Nesta noite de lua cheia onde os lobos uivavam ao longe, e os sentimentos intensificados nos acendendo uma chama que há muito balança pesadamente no nosso corpo leve, Jason compartilha comigo de sua forma, mas sentimos do mesmo pesar e agora caminhando até o salão onde será servido o liquor-carmesim à meia noite.
Dancei um pouco com meu gato amado, relembrando os nossos momentos rodopiando ao som de The Cure em nosso quarto. Pedi para que ele cumprimentasse os membros que estavam no salão. A interação dela facilitaria ouvir algo que pudesse ser útil para entender nossa presença neste inestimável evento do Anfitrião.
Enquanto ele fazia amizades, eu pude olhar em volta e a ambientação com a decoração que só vemos em filmes e séries prestigiados, me irradiaram em algum momento. Me perdi nos tons de vermelho e dourado, as rosas vermelhas recheadas em diamantes exibidos nas mesas bem ornamentadas. O corredor que cercava alguns encontros de cômodos do castelo, estavam todos com quadros específicos para o baile e neles estavam todos com membros mascarados, alguns poderiam ser criaturas assim como eu e Jason, ou quiçá algo que não faço a menor ideia.
Sou levada pelas luzes dos candelabros e relembro de uma fascinante ópera que presenciei em minha cidade. Na nostalgia que me devaneava em sentimentos conflitantes. Fui tocada por alguém. E com a mão esquerda me convidando para uma dança.
Me senti receosa, pois a aparência de tal me deixava um pouco assustada. Devo ser a vampira mais frustrada existente... Criei coragem no meu âmago e aceitei a instância.
O ser a minha frente estava caracterizado com as cores que já citei anteriormente, combinando completamente com o castelo, como se fosse um membro importante. Enquanto em passos sendo bem guiados pelo salão, uma melodia começara e me lembrava o toque de Elfen Lied.
Não consigo discernir o que qualifica este companheiro, que com maestria me leva pelo salão de forma flutuante, eu não consigo ter totalmente o controle dos meus pés e por mais que eu precise encontrar Astrid, meus sapatos não param de se mexer, acompanhando, rodopiando, curvando e quase rasgando os fios delicados do meu vestido raro. Tento chamar Jason telepaticamente, mas não consigo tirar meus olhos dessa máscara que cobre o rosto por inteiro, consigo apenas enxergar que agora os olhos estão vermelhos e fascinantemente eu consigo desprender uma das mãos.
Ao tentar me desvencilhar por completo, acabei colidindo com um homem, de fraque preto, com detalhes amarelos e não dourados, a máscara cobrindo apenas metade do rosto como a minha. Ao tombar com este homem, meu vestido é fracionado e os tecidos tão delicados, agora estão no chão de mármore do salão.
Minhas veias inflamam no meu rosto, meus pulsos começam a acelerar juntamente com meu coração, meus olhos mudam de cor e agora não tenho mais controle, minhas presas foram direto no pescoço deste infeliz, que agora com a cabeça em uma das mesas com o jarro quebrando ao chão, me alimento firme, minha frigidez indo embora bruscamente, e num salto Jason pula no pulso dele. Alimentamo-nos juntos naquela carcaça que conseguira colocar para fora toda a raiva guardada dentro de mim.
Não consigo enxergar as pessoas à minha volta, só consigo pensar que Astrid não tenha medo de mim, pois não me alimento de mulheres assim como meu clã. E há muito não colocava para fora esse meu lado vampiresco. Só consigo pensar que perder algo importante para mim agora, meu vestido, uma amiga, minhas dúvidas jamais serão sanadas.
Ao terminar minha refeição juntamente com Jason, procuro à minha volta o ser que dançara comigo e não consigo mais avistar. Minha mente lateja junto com o toque relógio para a hora do liquor-carmesim e eu corro em direção ao meu quarto.
Estou cheia.
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Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Um estridente ranger é ouvido por toda biblioteca; a porta fora aberta, mas permaneço encarando o temível livro. Quando um forte caminhar rasga o silêncio daquele lugar, causando sutis arrepios, em determinada hora, os passos cessam, pela minha visão periférica enxergo debilmente uma figura, ela traz consigo um castiçal contendo uma vela a qual projeta, sob o piso de pedra, dançantes sombras; ao virar, me deparo com uma figura trajando um manto sombrio e, após um comprimento formal, a figura estende uma das mãos, revelando um envelope rubro, se esvaindo na escuridão, deixando-me sozinha novamente.
Abro o envelope com cautela, meus olhos quase saltam da órbita. Escrito em letras douradas, no papel de mesmo tom rubro, um convite para um exuberante baile de máscaras; tal ideia me encanta, pois, sonho com este momento desde criança, leio com atenção as instruções, assim como a localização dos meus aposentos, bem como meus trajes.
Eufórica, imaginei-me rodopiando com algum deslumbrante vestido, animada, guardei o convite na jaqueta, respiro profundamente, e ele ainda está lá, o livro clama por mim, creio que terei tempo de vê-lo, mesmo que rapidamente. Volto-me para o livro, deslizo suavemente meus dedos sob a repugnante superfície daquele puído e grandioso exemplar, deixando resíduos debaixo das minhas unhas. Havia um símbolo em sua capa, vejam bem, apesar de nova, sou bastante curiosa em relação ao oculto, consumi alguns livros sobre o assunto, mas esse símbolo me causa certa estranheza, nunca vi nada igual, e se encontra severamente devorado pelo infindável tempo.
Ao abri-ló me deparo com uma série de funestos símbolos e fragmentos de textos, escritos em uma língua desconhecida, tão antiga quanto a existência. O odor ferruginoso salta no ar, fazendo-me salivar, meu colo pulsa fortemente, deixo escapar de meus lábios uma leve excitação, “preciso me controlar” digo a mim mesma, fecho o livro, e vou em direção aos meus aposentos, pois tenho um baile a ir.
Conforme eu caminhava, ouvia conversas e sussurros, alguém caminhava com graça sob saltos altos, escuto um ansioso respirar, notei algumas fragrâncias como sândalo, outras mais cítricas, cheguei até meu quarto e abri a porta. Meu coração, então, disparou, acima dos lençóis perfeitamente arrumados, encontrava-se meus trajes. Sem dúvida o anfitrião me conhecia, era um estupendo vestido longo renascentista, todo trabalhado no cetim roxo, adornos em rendas pretas abrilhantaram ainda mais a peça, por fim, uma encantadora máscara, feita inteiramente com rendas douradas e roxas.
Devidamente vestida, me dirigi com rapidez para o salão principal, meu colo batia descompassado, segui com mãos gélidas. Após atravessar um extenso corredor, me deparo com o salão principal, repleto de rostos desconhecidos, homens e mulheres trajando a mais pura elegância, todos exuberantes, tudo era maravilhoso, as máscaras deixavam tudo ainda mais misterioso.
Um quarteto de cordas tocava alegremente as quatro estações de Vivaldi, os acordes tocados eram um convite para bailar, meus olhos ainda contemplavam aquele belíssimo baile. Pouco a pouco os outros hospedes ocupam o enorme salão, meus olhos encontram uma estranha figura, ela se aproxima com leveza, muito cordial me oferece uma bebida em tom carmim, retribuo a gentileza, aceitando a taça dourada. Após erguê-la, sorvo de forma voraz, em seguida ele me conduz para o meio do salão, estende a mão direita e gentilmente me convida a dançar, ele trajava vestes negras, sua máscara do mesmo tom das vestes; seus olhos azuis me remetiam à horrenda noite em que experimentei o gosto amargo do sangue.
Após longos rodopios, encontrava-me em outro lugar onde a decadência reinava imponente, assemelhando a um sonho, o castelo estava em ruínas, todos os convidados assemelhavam a horrendas sombras bailando em celebração à depravação, a alegre canção que outrora preenchia o castelo fora substituída por notas fúnebres da sinfonia de Giuseppe Tartini, intitulada Devil’s Trill; a dança se tornou lascívia, com movimentos rápidos, meu estranhamento foi notado pelas criaturas, era possível ouvir sussurros maldosos através das sombrias máscaras. Soltei a mão do meu acompanhante e questionei o que estava acontecendo, mas ele gargalhou, senti o escárnio vindo dele.
Aproximou-se de mim e disse: “Você não pode fugir disto, é o seu destino! Entregue-se à escuridão”. Amedrontada, empurrei-o e tentei respirar, em vão, por mais medonho que fosse, ele tinha razão, pertenço à escuridão.
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Diário de Anto Stefan Miahi
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e…
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Diário de Anto Stefan Miahi
(Notas em meu caderno)
15 de junho de 1871 - Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito, colocar nestes diários minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi, em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante no lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.
Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do meio leste da Europa, devo ter em minha maleta neste momento umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que me deixa ainda agora agitado, ansioso, como se ali houvesse um feitiço e a cada palavra… Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, a guiar minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti como um apaixonado respondendo a amante, numa carta secreta, contando segredos obscuros. Por vezes como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total inocência e despretensão.
Inegável que ao terminar, o ar que saía dos meus pulmões era como se estivesse libertando minha alma de dentro de um cativeiro do qual naqueles momentos não tinha como sair, e que a chave para tal era colocar o ponto final naquela folha, branca e inocente.
Após alguns minutos. - Após uns quantos chacoalhões da carroça e algumas tantas maldições proferidas, assim como insultos ao cocheiro e seu amigo, pude retomar os pensamentos aqui nessas páginas.
Para uma pessoa como eu; que sou dado às letras, ao pensamento, aos livros; me ver às voltas com uma baioneta em mãos, preparando o mosquete, e ouvindo o estrondoso som das explosões e o zunido dos projéteis voando por sobre a cabeça, realmente foi inesperado para assombroso. Uma completa mudança de ares.
Isto já se converteu em rotina realmente, estar com o lápis em uma mão e um caderno na outra, ainda mais após meu regresso daquele infame conflito entre os poderosos, Bonaparte e Frederico.
O cheiro da pólvora, das cinzas e do sangue ainda atormentam meu nariz e, os gritos, a minha memória. Campos verdes agora desfigurados, marcados e banhados com sangue de homens valentes e covardes, astutos e ignorantes, de amigos quanto de inimigos.
Faz um pouco mais de 3 dias que me encontro dentro desta repugnante carroça, e ainda me faltam um dia e umas quantas horas para chegar ao meu destino.
Escutando o condutor, um homem velho e rechonchudo, com uma barba malfeita, com uma semicalvície que ele oculta com um chapéu velho e sujo. O que lhe falta de altura compensa com o falatório. Enquanto seu amigo, que vai sentado ao seu lado direito, é alto, esguio, tão quieto que parece morto. Seus olhos cansados, e a cara de quem não quer nada com nada, não fazem jus a sua força física jovial, lançou as malas que eu levava com apenas uma mão para o alto da carruagem, e para o cúmulo repetiu a façanha com as de uma jovem senhorita com seu irmão e cuidadora que me acompanharia nessa viagem.
Pelo que pude notar a conversa de ambos não passava de, - “Adrian” - esse parecia ser o nome do homem alto e silencioso e do cocheiro pelo que percebia era Loui. - “Clarice não me deixou quieto, só por causa que me encontrei com os rapazes da estalagem para beber…” após isso me dei conta do quão desinteressante eles eram.
16 de junho de 1871 - Ontem à noite comecei a escrever e, ao relatar os fatos, terminei por cair em devaneios sobre o cocheiro e seu amigo, mas devo dar alguns pontos importantes a estes meus relatos. Acho que o cansaço e a monotonia da paisagem me levaram aos braços de Morpheus.
Retomo então para as minhas ideias originais.
Há um pouco mais, ou menos, não tenho certeza, de um mês, recebi minha última carta dele, dando as indicações e detalhes para minha viagem até sua terra. Com tantos preparativos para essa jornada, ainda mais depois de regressar da guerra, e mal ter pisado em Paris, já me aventurar novamente, tira o fôlego de qualquer um. Acabei não fazendo um registro justo e detalhado deste fato crucial nos dias anteriores.
Seu remetente era de uma parte de um país esquecido pelas divindades. Romênia. Um lugar cheio de uma mística, de umas quantas lendas, verdadeiro centro de contos. A história da região contada pelos ciganos é realmente impressionante se fosse crer em tudo o que dizem.
Devo acrescentar que é um texto elegante aquele que encontrei naquelas duas páginas, além de uma caligrafia impecável, da parte de um tal Conde Drácula. Suponho ser uma pessoa realmente culta, douta, pois em sua carta não notei um erro de sintaxe ou de modismo populares, pois sendo romeno, escreveu com exímia clareza, em um francês belíssimo. Isso me encantou, mesmo que minha área de entendimento fosse a História, os fatos, os heróis, aquelas palavras me cativaram de uma forma que apenas meus escritores favoritos poderiam.
Um convite para uma visita para explorar a história local, e acessar livros, ter contato com documentos exclusivos, e segundo o que dizia na carta, ter contato com um outro estudioso da história e da sociedade.
Paris estava um caos, e eu, só queria uma boa desculpa para pegar minhas coisas e sair daquela cidade infernal. Essa é uma oportunidade que não posso me negar. Corri para organizar minha partida.
18 de junho de 1871 - Cheguei hoje no meio da tarde, por volta das 15h, à região de Bram e há coisas que devo realmente relatar do dia de hoje nestas páginas.
A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco, óbvio que aqui faz um frio de doer os ossos. O clima frio e severo do lugar não é convidativo, mesmo nosso cocheiro falante rendeu-se ao silêncio no trecho final da corrida. Todos tentavam manter a cabeça calma, e o corpo quente, por sorte a companhia de dentro da carruagem não era de todo ruim. A jovem, com sua dama e o acompanhante tinham consigo um pouco de vinho de Lyon.
Um breve comentário sobre os que estavam dentro da carruagem, a jovem, com olhos azuis, tinha cabelos negros bem amarrados numa trança perfeitamente trançada, o rosto denunciava sua pouca idade, passava muito tempo observando o exterior; enquanto aos que a acompanhavam: era uma senhora magra com rosto severo, loira, com cabelo abaixo dos ombros, de olhos verdes, tinha um crucifixo grande de madeira em seu pescoço, onde ela por várias vezes o buscou, como quem deseja receber conforto; enquanto ao cavalheiro, um tanto jovial, mas já passava dos trinta anos, suas roupas bastante elegantes, bem cuidadas, pele branca, com um bigode bem tratado adornado por bochechas rosadas, obviamente pelo frio e pelo vinho, o que deixa ele com aspecto ainda mais bonachão.
Nos primeiros dias pude conversar melhor com o cavalheiro, apesar de suas roupas, era uma pessoa simples e sociável, já a sua companheira por outro lado beirava o fanatismo quase igual aos jacobinos, por vezes intragável. Quanto a jovem, bem, tratava das coisas de seu tempo.
Eu, o sargento Anto Stefan Miahi, um historiador e militar, agora estou no meio das montanhas da Romênia, na intenção de mudar meu próprio rumo de vida. Longe de casa e outra vez com a promessa de ser reconhecido. Devo ter inalado muita fumaça de canhão.
Assim que cheguei a Bram, tive a infeliz surpresa de que teria que trocar de carruagem. Acabei numa conversa assombrosa com os condutores.
— Mas senhores, segundo minhas fontes, estamos a menos de duas horas de alcançar nosso objetivo. — Supliquei aos dois cavalheiros sentados no coche quase se abraçando para manter os corpos quentes, seus rostos estavam quase vitrificados de tanto frio.
— Senhor, sinto dizer que nem Jesus nos fará subir o caminho proposto. — Falou Adrian com uma voz trêmula, parecia um baritono, abraçando a si mesmo, com as mãos dentro do casaco negro que vestia.
— Sinto dizer que nem por minha mãe vou por este caminho, o senhor não viu enquanto vínhamos para esta cidade perdida de Deus? — A pergunta de Loui com uma voz rouca de quem bebia e fumava sem qualquer controle, mas me fez lembrar de algumas coisas. Todos com que cruzamos na estrada fazia o comumente sinal da cruz. Em seus rostos havia apenas uma expressão de angústia e desdém.
A conversa não avançou além deste ponto, e assim terminei no meio de um povoado estranho, que me olhava à distância como se eu tivesse alguma praga, ou estivesse acompanhado do próprio demônio.
Não demorou para que um velho senhor viesse pela estrada, arrastando seu corpo cansado, com um rosto de poucos amigos.
— O senhor vai para o castelo? — Perguntou avançando lentamente, sem olhar para qualquer lado. Ele para a minha frente, ele apenas move os olhos na minha direção, sinto que aquele olhar vai além de me ver.
— Sim, sim, eu vou! — Tentei simular meu melhor sorriso, mas algo no meu interior dizia que seria um esforço inútil.
Ele voltou a olhar para frente, baixou a cabeça, cuspiu no chão em frente aos meus pés, o que me fez dar um passo e meio para trás, mas antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer em resposta aquilo, o senhor se virou para mim, e logo estendeu os braços e agarrou minha mão direita. Naquele ato ele me entregou um colar de tira de couro com uma cruz de madeira rústica. Ele recolhe os braços para junto do corpo, rapidamente com sua mão esquerda ele tira seu gorro azul, e faz o mesmo sinal que vi na estrada quilômetros atrás.
De Anto Stefan, 18 de junho de 1871
Boa noite, meu estimado amigo, Maurice!
Como tem passado?
Já faz alguns dias que parti e espero que tudo esteja na mais perfeita ordem na nossa amada Université de Paris.
Agora são 22h, deste mesmo dia, após me estabelecer melhor pude retornar a este meu diário, pois ainda me sinto incomodado com os eventos até o presente momento.
Após aquela cena rara com aquele senhor na vila, ouvi o som do relincho dos cavalos, além do estalar de um chicote, não muito longe, descendo a estrada que eu deveria tomar.
O senhor deu meia volta nos calcanhares sem que eu notasse e tomou um caminho contrário, quando me dei por mim, apenas vi suas costas ao longe desaparecendo no meio do povoado.
Não demorou muito para que uma carruagem surgisse ao longe. Ela tinha uma pintura preta, e quanto mais perto chegava melhor eu podia ver os detalhes de suas estruturas, como cortinas vermelhas iguais a brasa viva, janelas adornadas com bordas de prata, e quatro cavalos negros maiores dos que eu havia visto na guerra. Pararam ao lado de onde eu estava. O cocheiro tinha seu rosto coberto por um cachecol vermelho escuro que deixava sua respiração passar e condensar o ar, suas roupas eram de couro tingido de preto, e um chapéu de abas largas e um trio de penas adornando. Os olhos dele eram soturnos, frios, parecia que para onde ele fosse olhar poderia congelar.
— O senhor se chama Anto Stefan Miahi? — Uma voz grossa que era abafada pelo cachecol deu para ser ouvida.
Ele nem esperou minha resposta e saltou da carruagem. Um homem alto, o pouco de pele que se podia ver, era branca, tal qual mármore, magro, de braços longos, e um cabelo comprido, de um castanho claro. Agora que ele estava mais perto, deu para ver a cor dos olhos dele, num tom verde e amarelo.
— Sim, sou eu. — Respondi o mais prontamente que me foi possível — Você é o cocheiro que vai me levar até o Castelo, do Conde? — Mesmo para um homem como eu experimentado na guerra, que viu coisas horríveis, aquela presença era intimidante.
Ele apenas assentiu com a cabeça de maneira positiva, e logo foi pegando as duas malas que estavam no chão ao meu lado. Num piscar de olhos ele as colocou no teto e já abria a porta para que eu subisse, sua agilidade fugia claramente do normal.
A viagem foi no mais profundo e mórbido silêncio, a monotonia reinou plena nas horas que se seguiram.
Um tempo depois, ouvi duas pancadas ocas no teto do carro. Abri a janela da porta e coloquei a cabeça um pouco para fora, o suficiente para poder ouvir e ver.
— Mais à frente já podemos ver o castelo, senhor Miahi. — Pude escutar a voz gutural do cocheiro que com sua mão esquerda aponta para frente uma série de pontos brilhantes, ainda distantes, dentro de uma sombra imensa, que tão pronto começou a parecer com uma estrutura, e não demorou muito para delinear a construção em si.
Alguns minutos mais tarde eu estava cruzando um portão de ferro, um portal de pedra, com uma muralha que terminava no que parecia um despenhadeiro gelado. Uma curta passagem que levava à porta principal, num grande pátio, e no seu centro uma velha fonte que agora estava cheia de neve. Mais ao fundo uma outra passagem que levava para o estábulo.
Os cavalos reclamaram quando o cocheiro puxou as rédeas forçando sua parada, ele fez algum som que os animais reconheceram e fizeram silêncio. Aquele homem alto saltou, e quando me dei por mim, ele já havia aberto a porta. Sai tentando absorver todo aquele cenário que beirava o aterrador, sombrio, e belo, com algo de clássico. A arquitetura do lugar era impressionante, mesmo já quase estando todo o ambiente submerso na escuridão.
Quando olhei o horizonte e vi na linha das montanhas o sol lentamente desaparecer, foi que eu ouvi o som das malas tocando o chão e a porta de madeira maciça ranger loucamente, como se gritasse. Nisso uma sombra se projetou dela. No alto de uma escadaria espaçada que conduzia para uma porta de umbrais de madeira grossa, com entalhes que já não podia ver bem, em tom natural, e em cada folha o que pareciam desenhos em baixo relevo.
A porta ficou completamente aberta, a luz dentro era amarela e forte, deixando apenas ali a silhueta de uma pessoa alta, coberta por algo que parecia ser uma capa, e uma voz se projetou. Algo nela me fazia recordar as mesmas sensações que eu sentia ao ler as cartas e telegramas do Conde Drácula.
— Já é noite meu jovem. As noites nessas paragens podem te matar numa única mordida. — Houve uma risada baixa ao final da frase.
— Certo… Claro! — Me apressei em subir as escadas, me esquecendo das maletas perto… bem… não sei em que momento ele havia subido na carruagem, porque quando me dei conta apenas ouvi o relincho dos cavalos, o som do ranger da madeira e um estalo agudo. — Deixe-me pegar as maletas, senhor, e logo vou apertar sua mão.
Por mais atrapalhado que pareça, tentei manter a pose diante de quem quer que fosse que estivesse ali observando no alto da escada com aquela postura imponente e sombria.
Assim que recolhi minhas coisas, já não havia mais luz do sol, neste momento olhei para o céu instintivamente, quando me deparei com aquele mar de estrelas, por um breve momento senti que o chão em meus pés estava desaparecendo e eu caia, foi então que senti em minhas costas um toque suave, gentil, e um rosto estava para se revelar a mim, quando apenas senti que caía num sono prazeroso, um abraço bem-vindo.
Maurice, há algo raro e estranho neste lugar, dentro deste quarto tão suntuoso, mas ao mesmo tempo tão frio, o carmesim das cortinas da janela, o roxo dos cobertores e travesseiros, a pedra cinzenta das paredes e a madeira dos móveis, parecem não vir deste mundo. Mais estranho é que senti essa emoção inquietante desde o momento que passei os portais do muro desde a construção belíssima de tão sombria. Existe um ar que me absorve e me acorrenta aqui.
Bem, já não vou mais importuná-lo nesta carta com estes detalhes anormais, aguarde minhas próximas cartas ou telegramas.
Desde já desejo a você, meu amigo e mentor das artes da história, toda a boa sorte.
De seu velho amigo, Anton.
PS.Sempre, “Hic et ubique terrarum” (“Aqui e em qualquer lugar do mundo”) carregando o lema de nossa amada instituição no coração e na mente.
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Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de sol, para que eu me dirija para as matas lidar com os animais perigosos? Não... eu não estou em meu país — preciso lembrar.
Lentamente, ainda no escuro, levanto-me da maciez dos lençóis de cetim e sinto os meus olhos ainda sonolentos, se ajustando à baixa luz da alcova onde me encontro.
Ao me aproximar da janela deste quarto no antigo castelo, os meus olhos se fixam nos majestosos montes que se erguem ao longe. Lá, entre os mistérios da madrugada, surge uma silhueta, e mais do que isso, uma figura solitária, destacando-se contra o horizonte sereno. Um homem, cujos contornos se misturam com a imponência das montanhas distantes.
Minha feição muda para um possível receio, enquanto observo aquele estranho visitante. Uma sensação indescritível me envolveu, um misto de curiosidade e medo, como se o universo tivesse conspirado para que eu visse alguém a uma hora dessas.
Me afasto do grande vidro, rogando a Tupã que aquilo não tenha me enxergado assim como eu o enxerguei e vou correndo até a porta do quarto conferir se está mesmo trancada. Eu poderia buscar à Olga Nivïttiz, mas preciso me controlar e dominar os meus medos. É só um andarilho, vizinho, talvez. Ou será mais um residente do Castelo? Não, não sou capaz de ver nenhuma figura masculina em minha frente. Bastam todas aquelas pessoas estranhas que vi na grande embarcação cuja qual me trouxe até aqui.
Preciso registrar tudo, tudo, para mostrar aos meus líderes, à minha família. Busco meus papiros e sento-me na escrivaninha que me é possível, próxima ao dossel onde estou descansando, e escrevo, relato, amedrontada, mas o faço.
Meus lábios se entreabriram, tentando questionar tudo isso comigo mesma, mas nenhuma palavra escapa deles. Eu permaneço aqui, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse dissipar a visão diante de seus olhos.
O vento que escapa de uma fresta discreta brinca suavemente com as cortinas de renda, criando uma dança etérea ao redor dela, enquanto meus pensamentos se perdem na figura misteriosa lá fora que eu acabo de vislumbrar.
Eu posso sentir a pulsação do meu próprio coração, cada batida ecoando no silêncio da madrugada. O desconhecido nos montes parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Uma inexplicável sensação de conexão se estabeleceu, como se “aquilo” pudesse compreender-me ou, até mesmo, ter vivido uma história similar à minha. Muitas vezes, histórias se cruzam e eu preciso parar de temer as pessoas, preciso parar de pensar que todos os seres masculinos são diabólicos e monstros. Talvez até eu ganhe um amigo-irmão um dia. É o que vibra em meu coração, como se houvesse um fio invisível de verdade. Para isso eu preciso parar de acertar homens com a minha flecha. Não farei mais isso. Não aqui. Com ninguém. Prometo para mim mesma.
Com um suspiro involuntário, me aproximo novamente da janela e não mais o vejo. Será alucinação? Alucinose? Ele desaparece dos meus olhos, mas a imagem do homem nos montes permanece gravada em minha mente. E se ele se aproximou do castelo e conseguiu entrar? Fecho os olhos, como se assim eu sentisse mais veracidade e sensibilidade no ambiente e percebo que ele pode ter adentrado no castelo. Ele está presente neste lugar, sei que está. Olho novamente para a porta e me acalmo. Por mais presente que aquela criatura Indecifrável esteja, ela não será capaz de adentrar às portas das alcovas particulares deste grande recinto.
O mistério daquele quase encontro noturno paira no ar, deixando-me ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos que o destino reserva para mim neste castelo.
...
Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui. Abracei o incerto, o irreal, abandonando minha vida anterior atrás de algo que, à princípio, me parecia um mero devaneio, mas agora é angustiantemente verdadeiro.
Juntei todas as economias que pude, me desfazendo de todos os bens que me cabiam, para poder partir com todos os recursos possíveis. Após dias e mais dias de uma jornada cruel e longa, cheguei a um pequeno povoado. Muitos idosos, poucos adultos e nenhuma criança. Este último fato me causou um desconforto visceral e inesperado.
Eu deveria esperar pela carruagem que me levaria pelo último trecho do meu caminho.
Os moradores mal se dirigiam a mim, e quando eu os forçava, por meio de minhas diversas e invasivas perguntas, eles condensavam suas respostas ao mínimo possível, apenas me indicando onde esperar pelo cocheiro.
O povoado era pequeno, bem pequeno para os meus padrões. Úmido, escuro, quase pútrido. Não esbarrei com uma dúzia de pessoas, o que me causou uma estranheza exponencial.
Conforme o esperado, a noite chegou, e o cocheiro também. Eu seria seu único cliente, se é que posso me identificar desta forma. O sujeito vestia um manto escuro, denso, velho e maltratado. Era pouco mais baixo do que as outras pessoas que observei, embora sua estatura reduzida não condissesse com sua força sobrenatural, a qual demonstrou ao erguer minha única mala, desprezando totalmente o peso exagerado.
A viagem seguiu sem maiores intercursos. Não trocamos palavras, nem olhares, nem coisa alguma. Seguimos floresta adentro, por uma trilha que mal era visível. Me questionei quantas vezes ele teria realizado aquele caminho… Inúmeras, talvez.
Após uma subida íngreme e desleal, ele parou. Senti uma estranha angústia descer pela garganta e tomar conta do meu estômago. Não o vi descer do banco frontal, tão pouco ouvi retirar minha mala de trás da diligência. Abriu a porta lateral e fez menção para que eu saísse. Senti que, se ousasse desafiar sua sugestão, seria estripado e largado à própria sorte. Estava acuado, como uma presa indefesa, mas segui a ordem.
Não pude localizar o povoado, nem me esforçando para tal. A floresta era densa e escura, iluminada por poucos pontos de luz, espaçados, que indicavam a presença de lamparinas. No segundo seguinte, tanto a diligência quanto o cocheiro haviam desaparecido, sem deixar rastro ou som algum. Nada ali fazia sentido, tão pouco o que eu presenciei em seguida.
O Castelo erguia-se imponente, tal como uma entidade sobrenatural, atemporal e titânica. A morte reinava em cada torre, cada quarto, cada porta e janela. Tudo me causara terror, mas não o terror que eu já conhecia, e que escrevia em minhas obras, mas sim um terror feroz, cruel, brutal, rígido e ávido por sangue.
A ânsia e o desespero congelaram cada músculo do meu corpo, de forma que levei alguns segundos, ou horas, para me recompor. Minha cognição estava prejudicada, talvez pela longa viagem, talvez pelo espanto, talvez pela falta de tabaco.
Balancei a cabeça, tentando me ater ao último fio de sanidade que me restara. Foi quando meus olhos me pregaram uma peça cruel.
Pude ver, dentro do Castelo, uma figura feminina. Sim, claramente uma mulher. Soube, dentro do meu ser, que ela também havia me visto, apesar da generosa distância entre nós.
Havia vida dentro daquelas paredes, restando-me descobrir que tipo de vida era aquela. Poderia, também, ser uma penosa e bem delineada armadilha. Eu poderia estar sendo guiado para um abatedouro, destinado ao fim mais mórbido que meu lado pessimista pudesse imaginar.
Antes que eu pudesse conceber qualquer pensamento concreto, a figura desapareceu, fechando as cortinas da janela. Ela era real. Real e viva, tão viva quanto eu. Fora este o momento oportuno para que eu pudesse recobrar o controle sobre minhas pernas e caminhar em direção à porta do Castelo.
Faço uma pequena e rápida prece aos deuses e bato à porta.
Ela se abre sozinha.