Memento Mori

A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis. Não tinha mais curiosidade sobre o que viria a seguir, a noite não era mais a mesma e as pessoas eram cada vez piores e repulsivas**. Naquela noite, em específico,** até o mar, a única coisa que parecia acalentar sua alma, estava agitado demais.

— Minha alma! — disse em voz alta, sorrindo. Há quanto tempo não devia ter uma? Deve ter nascido com uma alma bem ferrada, afinal, para ter se fodido tanto em tão pouco tempo de vida. E não bastasse isso, as inúmeras sequências de escolhas erradas que fez ao longo dos muitos anos, dariam vários capítulos em um livro maldito.

Bom, o fato era que ela preferia o mar em seu estado calmo, por mais incoerente que isso possa soar, sabendo de toda sua imensidão, movimento, energia e seres de todos os tipos que o habitavam, dos microscópicos aos grandes leviatãs. Ainda assim, contemplar a água se movimentando levemente trazia um pouco de paz e conforto ao seu interior, sempre à beira da explosão.

O vento batia frio e úmido em sua pele, e trazia um pouco de areia e o cheiro de que tanto gostava. O céu estava estrelado e via, ao longe, pequenos pontos de luz amarelada de barcos pesqueiros. Olhou para baixo e observou uma embarcação passando sob a ponte que ligava a ilha à cidade — provavelmente seu lugar favorito no mundo. Ela pareceu esboçar um pequeno sorriso no canto de sua boca, mas logo pensou em Maria.

— Puta que pariu, Maria, você tinha que foder tudo! Não é possível que me deixou sozinha nessa merda de universo. — Seu hábito de falar sozinha e ter intensas discussões consigo mesma parecia só piorar. Quem convive muito tempo com a solidão acaba desenvolvendo certas habilidades adaptativas que podem ser muito interessantes. Há alguns anos, ela sentia que estava vivendo a melhor fase de sua existência, algo parecido com uma nova vida. Não estava mais sozinha, havia conhecido Maria e ela mudou seus dias. Toda perseguição, medo, fome, solidão, pareciam ter entrado em modo de stand by. Se conheceram bem ali, onde estava naquele momento, sobre aquele mar e sob aquele céu escuro e estrelado. Maria a viu de longe, parada em cima do parapeito, imóvel e com os braços abertos, parecendo um anjo prestes a cair.

— Ei, o que você está fazendo aí? Posso te ajudar? — Sem resposta, continuou: — Meu nome é Maria, estava dirigindo e vi você. Por favor, desce daí e vamos conversar!

Com um leve rotacionar da cabeça, Maria viu seus olhos pela primeira vez, verdes como esmeraldas, contrastando com sua pele clara e cabelos pretos.

— Posso me aproximar? Entendi que não vai conversar comigo agora, né? Só quero ajudar! Você é linda, está uma noite linda, mas muito fria... — Maria se aproximava lentamente enquanto conversava, quase sem respirar, tinha medo de que ela saltasse dali. Não passava carro algum naquele instante, não havia vento e o mar parecia estático, sem ondas ou som. Ao se aproximar, a uma distância de menos de um braço do parapeito, a mulher ofereceu a mão àquela alma triste e solitária — e ela aceitou. Quando as duas já pisavam sobre o meio-fio, Maria respirou pela primeira vez e percebeu sua taquicardia, respiração acelerada e suor frio.

— Daniela... meu nome é Daniela. — Ela mal abriu a boca para falar, parecia estar em outro lugar, outra dimensão, em outro corpo.

— Oi, Daniela, posso te dar um abraço? — Maria falava com o olhar fixo nos olhos verdes, marcantes e que pareciam contar tanta coisa. Enquanto se aproximava, uma pergunta ficava em sua mente: como uma criança pode ter um olhar que carrega tanto peso?

A garota aparentava ter seus sete ou oito anos de idade, muito bonita, com cabelos pretos caídos na altura dos ombros, porém, um rosto bastante abatido e aparentando preocupações e o peso comum aos adultos. Caminhava como se estivesse dopada, na verdade, fora conduzida por Maria e colocada no carro, no assento do passageiro.

— Daniela, você consegue me dizer onde estão seus pais ou qual o telefone deles? — A menina se manteve calada.

— Eu quero ajudar você, mas não sei por onde começar. Se você quiser ligar para eles ou amigos, ou algum parente, pode usar meu telefone.

— Não tenho ninguém, não tem mais ninguém, sou só eu.

Ao dizer isso, lágrimas escorreram de seus olhos e, instintivamente, a mulher lhe deu um abraço apertado.

— Você tem algum documento? — A menina fez uma negativa com a cabeça. — Então, vamos fazer uma coisa, vou com você à delegacia e tudo vai ser resolvi... — antes que Maria terminasse a frase, a menina arregalou os olhos, dilatou as pupilas, segurou com força o braço da mulher e gritou:

— Não é pra gente ir pra polícia nenhuma, eu não posso ir à polícia! Pra polícia eu tô morta! Se a gente for até lá e eles ficarem sabendo, vão me matar e vão matar você também!

— Calma, Daniela, não tô entendendo nada! Quem vai matar? Como assim você está “morta” pra polícia?

Naquela noite, a vida de Maria mudou. Aos poucos foi entendendo que Daniela não podia andar à luz do dia para não sofrer uma combustão; descobriu que a garota não comia frutas ou biscoitos, mas precisava caçar todas as noites, desde ratos até humanos, pois se alimentava de sangue — sangue esse que fluía nas veias de Maria e que esta não entendia o porquê de a garota não atacá-la; passou também a ser perseguida por um bando de criaturas com dentes caninos enormes, que pareciam voar durante a noite e as caçavam como bestas, sem descanso. A menina parecia ser tratada como algum tipo de oferenda necessária a um ritual cabalístico ferrado que precisava ser feito para que o mundo não acabasse — bem do tipo filme “B”, mas tudo na vida de Maria, naquela época, parecia um filme B. Maria demorou a digerir a ideia, mas entendeu e aceitou que aquela menina era um vampiro. E descobriu também que, naquele dia, na ponte, a menina pretendia se jogar, ela já não aguentava mais sua existência e solidão.

De início, a mulher não compreendia como poderia ser ruim, viver para sempre, poder viajar o mundo, não ser afetada por doenças, fazer, literalmente, o que tivesse vontade. Era tudo o que ela queria — mandar seu chefe ir se foder, bater à porta do escritório de merda onde trabalhava, largar o puto de seu namorado que vivia comendo outras enquanto ela o esperava com a mesa posta e ir embora. Matar vários filhos da puta, viver a luxúria até não aguentar mais, ser perene e atravessar as eras. Caralho, isso seria incrível, era a vida perfeita. Porém, aí que estava o problema: para Daniela não era perfeito, porque não era vida. Era viver escondido, só, atravessando o tempo em uma existência angustiante, vendo e sentindo as dores do mundo. E, em seu caso, presa em um corpo que não acompanhava sua mente — uma mulher, com mais de 100 anos, com corpo e feições de menina, que fora transformada à força, sem romantismos ou poesia envolvidos. Maria não conseguiria, mesmo que quisesse, compreender sua dor, porém tentou acolher da melhor forma que pôde.

Começaram a partir dali, um novo capítulo em suas existências, firmando uma espécie de pacto silencioso que tinha como objetivo, ressignificar seu tempo na Terra. Pode soar muito pretencioso — e era —, mas era o que fazia mais sentido para as duas naquele momento. Juntas, viajaram pelo mundo, observaram o céu noturno de diferentes locais, quase morreram por vezes a fio, leram, ouviram as mais variadas canções e discografias, amavam o cinema e artes em geral, aprenderam diferentes idiomas e caçavam em par. Na verdade, Maria acompanhava e ajudava Daniela na caçada — sabia seduzir muito bem as presas e deixá-las entregues à predadora criança. E isso a excitava bastante. Entretanto, nunca Daniela cogitou matar sua companheira ou condená-la à vida eterna. Estabeleceram uma relação de amizade muito forte, em alguns momentos, eram mãe e filha, em outros, mãe e mãe e, em vários, filha e filha, mas sempre, cúmplices da existência.

Um dia, de repente, como todas as mudanças de rota que a vida pode tomar, Maria foi embora e Daniela nunca mais a viu ou teve notícias. Nos primeiros dias ainda ouvia seu coração bater, um som fraco perdido no tempo, e isso servia de combustível para manter suas buscas. Procurava por Maria em todos os locais que frequentavam, nos bares e restaurantes, nas casas de show e de swing, hospitais, delegacias. Invadiu, inclusive, os covis de bestas ancestrais que as perseguiram por anos... e nada. Em alguns momentos e, em alguns momentos, e locais, o som do coração de sua amada parecia ficar mais forte e isso despertava em si um mecanismo de alerta feral, mas nada se concretizava. A criança se tornara quase uma lenda urbana; por onde passava, o número de assassinatos aumentava, as gangues ficavam vorazes e em modo de vigília, e as notícias sobre um psicopata ou serial killer se espalhavam. Ela se tornara o que a perseguia: uma criatura predadora, fria e monstruosa, que matava por matar e destruía por mais puro instinto. Não tinha sede por sangue, mas por aplacar sua dor e encontrar respostas, encontrar Maria. Talvez porque ela representasse sua tentativa de redenção no universo, não sabia mais dizer. Acima de tudo, a procura por sua companheira havia se tornado algo autodestrutivo; ela não se alimentava, não dormia, apenas matava, procurava, vigiava e não sentia. Não sentia mais nada, por nada ou ninguém. Desde que fora condenada à vida eterna, Daniela já não se sentia mais viva. Porém, agora percebia que a morte real a espreitava como um abutre e era dilacerada, todos os dias, por um punhal agudo que a estripava repetidamente.

Uma noite, ao acordar após exaustão extrema, ela parou de ouvir e sentir o coração de Maria. Não sabia se um dos vampiros a matara, se fora atropelada, ou o que acontecera, mas nunca mais a viu. Preferia crer em uma fatalidade como assassinato, acidente, sequestro... era menos dolorido do que encarar que a companheira a deixara, simplesmente, por não querer mais sua companhia. Pensava que Maria já não aguentava mais olhar seu rosto de boneca maldita, ou ouvir seu choro e lamentos noturnos, ou quem sabe, sentia vontade de ter uma vida comum, caminhar ao sol, amar alguém normal. Nenhum dos outros motivos mais pertinentes tinha tanto peso para Daniela quanto esses. E isso doía. Em algum momento, ela já havia lido em novelas chorosas vampirescas ou visto em filmes, vampiros chorando sangue. Era tudo uma bobagem romantizada, mas no dia em que Maria foi embora, ela acreditou ser verdade, pois perdera ali seu fluido vital.

E, naquele momento, do alto da ponte onde estivera na noite que conheceu Maria, o céu estava bonito e estrelado. Não havia visto uma noite tão perfeita em sua existência centenária, a Via Láctea parecia ter sido pintada para sua apreciação. Seu rosto era acarinhado por uma brisa leve e fresca, com o cheiro do mar que tanto gostava.

E o mar? O mar estava agitado, intenso, com ondas violentas estourando nas pedras, pronto para receber o corpo de Daniela, que , por dentro, estava calmo. Não sabia se tinha uma alma outra vez, mas se tivesse, devia tudo a Maria. Ao pensar nisso, pouco antes de ser abraçada pelo mar que tanto amava, a menina sorriu.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Criaturas que Carregam o Nome de Drácula

Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, o conde da Transilvânia deixou de ser apenas um personagem literário para se tornar um ícone cultural..

Imagem: Eric Hunt

Desde que Bram Stoker publicou Drácula em 1897, o conde da Transilvânia deixou de ser apenas um personagem literário para se tornar um ícone cultural. Sua aura sombria atravessou as páginas, o cinema e o teatro, infiltrando-se também na ciência natural. Naturalistas e biólogos, inspirados por seu caráter sinistro, batizaram diversas espécies com o nome de Drácula ou do próprio Stoker. Assim, o vampiro literário ganhou vida no mundo real, fazendo parte da flora, da fauna e até da paleontologia.

Orquídeas do gênero Dracula

As orquídeas Dracula formam um gênero vasto, com cerca de 146 espécies diferentes. Algumas espécies de Drácula são conhecidas por lembrarem o rosto de primatas, como exemplo temos a Dracula simia. Nascem, em sua maioria, nas montanhas úmidas da Colômbia e do Equador, embora algumas espécies tenham sido registradas no Peru, México e em outros países da América Central. Preferem regiões mais escuras das montanhas, com sombra, onde a umidade é bem alta, dificilmente vão estar expostas à luz solar. Cada Dracula possui nomes bem específicos e alguns exemplos incluem: D. diabola, D. nosferatu, D. vampira e D. vlad-tepes.

Papagaio-Drácula (Psittrichas fulgidus)

No norte da Nova Guiné vive o papagaio-Drácula (Psittrichas fulgidus). Diferente dos papagaios tropicais coloridos, este pássaro possui penas negras que recobrem corpo e asas, enquanto o peito e o ventre brilham em vermelho intenso. Em voo, parece um conde emplumado, trajando uma capa de veludo rubro e negro. Apesar do nome, não é um predador sanguinário, ele se alimenta principalmente de figos, outras frutas, flores e néctar. O rosto nu, sem penas, aumenta sua aparência sinistra, mas também facilita a sua alimentação, evitando que resíduos se acumulem.

Imagem: Greg Hume

De cauda curta e porte imponente, mede cerca de 50 cm, e vive entre 20 e 40 anos. Endêmico da Nova Guiné, é alvo do tráfico por suas penas negras e vermelhas, usadas em adornos tradicionais. Desde 2017, está na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), classificado como vulnerável.

Morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae)

Entre mais de 1.500 espécies de morcegos, apenas três se alimentam de sangue, todas da América Central e América do Sul e México. O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves.

No passado, porém, existiu um vampiro mais imponente: o Desmodus draculae, ou morcego-vampiro-gigante. Com 50 cm de uma asa a outra, viveu entre 2,5 milhões e 3 mil anos atrás, compartilhando cavernas com preguiças gigantes. Nomeado em homenagem a Drácula, ele se alimentava de mamíferos de grande porte, como um predador noturno da megafauna hoje extinta. Hoje o que resta dele são apenas fósseis, apenas lembranças de que, em eras passadas, até o morcego-vampiro teve representantes grandiosos.

Peixe-Drácula (Danionella dracula)

No sul da Ásia vive o Danionella dracula, um peixe minúsculo onde apenas os machos exibem presas afiadas, usadas não para se alimentar de sangue, mas para duelar por território. Sua anatomia é igualmente estranha: metade do esqueleto de um peixe adulto que nunca se desenvolveu, mantendo-o em estado larval. É como se seu desenvolvimento tivesse sido incompleto, um desvio evolutivo que suspende o corpo no tempo. Assim, o peixe-Drácula vive eternamente jovem, incompleto e estranho, carregando presas afiadas.

Formiga-Drácula (Mystrium camillae)

Imagine uma mordida disparada a 320 km/h, cinco mil vezes mais rápida que um piscar de olhos humano. Essa é a arma da formiga-drácula (Mystrium camillae), do Sudeste Asiático e da Oceania. Suas mandíbulas funcionam como mola, trinco e alavanca combinados, produzindo o movimento mais rápido já registrado no reino animal. Pequenos artrópodes são atordoados, esmagados e levados ao ninho como alimento das larvas. Essas formigas mostram que o vampirismo não se restringe ao sangue, mas também à velocidade letal que devora a vida em frações de segundo.

Aracnídeos das cavernas do gênero Draculoides

No noroeste árido da Austrália, longe da luz, rastejam os Draculoides, aracnídeos que habitam exclusivamente as cavernas. Caminham sobre seis patas, usando duas como antenas sensoriais, e seus pedipalpos (segundo par de apêndices articulados localizados próximos à boca) lembram presas de vampiros. Com eles, capturam pequenos invertebrados, despedaçando-os e sugando seus fluidos vitais. Entre as espécies mais conhecidas estão: D. bramstokeri, D. carmillae, D. belalugosii, D. nosferatu, D. immortalis. Esses aracnídeos perpetuam na biologia o legado do conde e prosperam no escuro das cavernas se alimentando do que resta da vida.

Da orquídea das montanhas ao peixe eternamente jovem, do papagaio rubro ao morcego extinto, da formiga super-rápida ao aracnídeo das cavernas, todos esses são Dráculas da natureza, pois o conde nunca morreu, seu nome apenas se multiplicou em flores, aves, insetos e fósseis, espalhando sua sombra pelo mundo real, provando que a literatura e a ciência compartilham o objetivo de compreender a experiência humana e podem inspirar-se mutuamente para gerar novas ideias e descobertas.

Referências:

COSTA, Maria Clara Nascimento; COSTA, Henrique Caldeira. Drácula pré-histórico. [S. l.]: Ciência Hoje das Crianças, 10 jan. 2020. Disponível em: https://chc.org.br/artigo/dracula-pre-historico/. Acesso em: 27 set. 2025.

HSU, Jeremy. New 'Dracula Fish' Has Fake Fangs. [S. l.]: Live Science, 9 abr. 2009. Disponível em: https://www.livescience.com/3471-dracula-fish-fake-fangs.html. Acesso em: 27 set. 2025.

HUME, Greg. Papagaio-Drácula: conheça essa ave de aparência soturna que remete ao famoso vampiro. [S. l.]: National Geographic Brasil, 28 out. 2024. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2024/10/papagaio-dracula-conheca-essa-ave-de-aparencia-soturna-que-remete-ao-famoso-vampiro. Acesso em: 27 set. 2025.

PERRELLA, Flora. Researchers count 13 new species of fanged arachnids in the Pilbara. [S. l.]: Western Australian Museum, 28 out. 2020. Disponível em: https://visit.museum.wa.gov.au/learn/news-stories/researchers-count-13-new-species-fanged-arachnids-pilbara. Acesso em: 27 set. 2025.

ROYAL BOTANIC GARDENS. Board of Trustees of the Royal Botanic Gardens. Orchidaceae Dracula. [S. l.]: Royal Botanic Gardens, . ?. Disponível em: https://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:30001158-2#other-data. Acesso em: 27 set. 2025.

VEIGA, Edison. A incrível formiga drácula, que tem as mandíbulas mais potentes do mundo animal. [S. l.]: BBC News Brasil, 12 dez. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46531170. Acesso em: 27 set. 2025.


Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
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Lotus Aqua Obscura

Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão. 

Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”. 

Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”. 

Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ―  juro aos santos e profanos ―  eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila. 

Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.

"Lotus Aqua Obscura" é uma obra inspirada no conto "Silence — A Fable", de Edgar Allan Poe. Leia a tradução do conto feita por Sahra Melihssa: » Iniciar leitura.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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