O Estranho Senhor Jack
Recentemente, fui contratada para cuidar do senhor Jack, um homem que precisava de atenção médica mais direta. Era uma tarde chuvosa, e as gotas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Recentemente, fui contratada para cuidar do senhor Jack, um homem que precisava de atenção médica mais direta. Era uma tarde chuvosa, e as gotas de água deslizavam pelas janelas, criando um som quase hipnótico. A princípio, sua aparência não me parecia incomum. Ele tinha cabelos brancos, um olhar profundo e uma pele enrugada que parecia contar histórias de uma vida inteira. Um senhor aparentemente calmo e terno. Mas logo percebi que havia algo estranho em seu jeito de ser.
— A senhorita é Liah, a nova cuidadora? — perguntou ele, com uma voz trêmula, mas carregada de uma firmeza que me desconcertou. Seus olhos brilhavam de maneira peculiar, como se cada piscar guardasse um segredo obscuro.
— Sim, senhor Jack. — Ajeito a minha roupa. — Estou aqui para ajudá-lo com o que precisar.
Respondi, tentando manter a voz calma, apesar do frio que começava a se espalhar discretamente pela minha pele. A voz dele era assustadora, quase tenebrosa. Mas resolvi iniciar o meu trabalho e ignorar essa impressão.
Nos primeiros dias, segui a rotina que me foi indicada: preparar refeições, administrar medicamentos e, quando possível, conversar com ele. Mas as conversas rapidamente tomaram um rumo incomum. Jack tinha uma maneira de se expressar que me deixava desconfortável. Ele se detinha em detalhes, descrevendo coisas que não faziam parte de sua realidade aparente.
— Você sabia que o mundo não é o que parece, Liah? Às vezes, a verdade está escondida sob a superfície, como um peixe à espreita nas profundezas do mar — ele disse em uma tarde, enquanto olhava pela janela para a tempestade lá fora. — Talvez a realidade esteja abaixo da minha própria pele.
Eu tremi. Ali, eu não tinha mais dúvidas sobre a estranheza do senhor Jack.
— Acho que sim, senhor. Mas o que quer dizer com isso? — perguntei, tentando parecer interessada, embora uma sensação de inquietude começasse a tomar conta de mim.
— Ah, a curiosidade. Uma chama que pode queimar, sabia? Às vezes, é melhor não saber. Às vezes, o que se vê não é real. — Ele voltou a olhar pela janela, seus olhos distantes, como se enxergasse algo que eu não conseguia.
Havia dias em que eu achava que ele estava perdido em outra época. Ele falava de amigos que eu sabia que já haviam partido há muito tempo, ou mencionava lugares que não existiam mais. Suas mãos tremiam ao segurar o copo, mas, quando falava, sua voz era clara e poderosa, uma anomalia que me deixava assustada.
— Liah, você já ouviu as vozes? — ele perguntou em uma noite, quando a luz fraca da lâmpada lançava sombras dançantes nas paredes. Meu coração disparou.
— Vozes? Que vozes, senhor? — Eu estava apreensiva, mas não queria parecer insensível.
— As que habitam os lugares onde as pessoas não vão. Às vezes, ouço sussurros vindos do sótão. Eles me chamam, sabe? Como se soubessem que estou aqui, que guardo algo importante.
Respirei fundo, torcendo o lábio com irritação. Ele inclinou-se para frente e manteve os olhos fixos nos meus, quase como se estivesse tentando me convencer de que havia algo mais naquela casa, algo nele.
Naquela noite, não consegui dormir. Os sussurros pareciam ecoar na minha mente. Olhei para o sótão, e a porta estava entreaberta, como um convite à curiosidade. No entanto, um medo paralisante me impediu de me aproximar. O que se escondia lá em cima?
— Não se preocupe, Liah. A curiosidade é a mãe de todas as descobertas, mas também a raiz do medo.
— Dá para o senhor parar de falar essas coisas? — bradei, irritada. — Desculpe, não queria gritar com o senhor. É que estou amedrontada com essa conversa.
Percebi que me deixei levar pelo medo e me desculpei com ele, acalmando-me, fechando os olhos e virando-me de costas. Nesse momento, o senhor Jack havia se aproximado sem que eu percebesse, e a maneira como deixou esvair o som da sua respiração fez meu sangue gelar. Junto a essa percepção, notei seu rosto se transformando, como se fosse um líquido pastoso a se derreter, e seus lábios se abriram como quem grita. Seu olhar arregalou-se, e eu gritei, fugindo da sua presença. Quando olhei para trás, ele parecia normal. Então, me acalmei e ignorei o ocorrido durante todo o dia.
No calar da noite, comecei a notar pequenas coisas: objetos que mudavam de lugar, a temperatura da casa que oscilava inexplicavelmente, como se algo estivesse vivendo ali, algo que se alimentava da confusão e do medo. Eu tentava convencer a mim mesma de que eram apenas os efeitos do estresse, mas a sensação de que a casa estava viva e me observava crescia a cada dia.
Uma tarde, ao preparar o almoço, decidi confrontá-lo com a minha teimosia de jovem.
— Senhor Jack, tem certeza de que está bem? O senhor parece… diferente. Como se estivesse lutando contra algo.
Ele sorriu, mas era um sorriso que não chegava aos olhos.
— Ah, minha querida, todos lutamos contra algo. A diferença é que alguns de nós conseguem ver o que realmente está em jogo. Você não sente? A casa está mais viva do que nunca.
Meu coração parou. Não era apenas a voz dele que soava estranha; eram suas palavras, carregadas de um peso que eu não conseguia entender. Naquela noite, enquanto a tempestade rugia lá fora, não pude mais me conter. Com um nó no estômago e um aperto no peito, decidi subir ao sótão.
A escada rangia sob meus pés, e cada passo que eu dava era um desafio à minha coragem. Ao abrir a porta, um frio insuportável me envolveu. O sótão era escuro, exceto por uma luz fraca que parecia emanar de um canto. Quando me aproximei, percebi que não era apenas uma luz, mas uma espécie de pulsar, como se algo estivesse se agitando ali dentro.
— Liah… — O chamado era suave, quase um sussurro. Era a voz do senhor Jack, mas não era dele. Era um eco distorcido, vindo do próprio coração da casa.
— Senhor Jack? O que está acontecendo?
Eu estava paralisada, mas a curiosidade me puxava para frente. A luz tornou-se mais intensa e, por um momento, vi o que estava se movendo: sombras dançantes, figuras que pareciam absorver a essência do lugar.
— Venha, Liah. Você pertence a nós agora. A verdade é uma anomalia, e você acabou de descobrir sua essência.
Senti o chão tremer sob meus pés e, em um instante, uma onda de frio me atingiu. Meu grito se misturou com o vento que uivava lá fora.
No dia seguinte, despertei no sótão, sozinha, sem lembrar como, de fato, adormeci. A casa estava silenciosa. O senhor Jack havia desaparecido. O único sinal de sua presença eram os ecos de suas palavras que ressoavam na minha mente e a porta do sótão, agora fechada, mas com uma luz tênue que ainda brilhava através das frestas.
Não pensei mais e deixei aquela casa. Nunca mais voltei.
Às vezes, quando a chuva cai e as sombras dançam nas paredes da minha casa, posso ouvir a voz e ver o rosto desfigurado do estranho senhor Jack. Ele me chama, como se eu também fosse uma parte daquela anomalia, perdida entre o que é real e o que nunca foi. O estranho senhor Jack será o meu eterno terror.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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As Figuras Macabras do Wonder Teatro
O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O Wonder Teatro era um mausoléu vivo. Suas paredes desmoronadas e sujas de poeira eram como pele envelhecida, rachada e morta, cobertas por sombras que dançavam à luz bruxuleante dos poucos holofotes acesos. O ar era denso, impregnado de um cheiro ácido de mofo e tempo apodrecido. Mesmo antes de atravessar as portas, sentia a opressão deste lugar, como se o próprio edifício sussurrasse segredos sombrios, desejando me engolir.
Quando entrei, o silêncio se estendeu sobre mim como um manto pesado. Havia outros, sim, esperando suas audições, mas nenhum deles parecia realmente presente. Eles estavam ali, sentados nas poltronas desgastadas, mas seus olhares estavam fixos no vazio, nas sombras nascidas entre os feixes de luz do palco.
Enquanto esperávamos, algo estava errado. Uma sensação de desconforto percorreu minha espinha, e eu senti, lá no fundo, que não deveria estar ali. Mas o desejo de ser escolhida, de provar meu valor, me segurou firme. Foi quando o vi pela primeira vez: um homem estranho e sombrio, figura pesada, vestido com um terno desbotado e remendado. Seu rosto estava pintado de branco, o sorriso congelado e terrível, esticado de uma orelha à outra como se fosse cortado a faca. Seus olhos, negros como breu, estavam vazios. Ele estava ao fundo, imóvel como uma estátua de mármore, mas parecia um mímico.
Eu tentei desviar o olhar, mas era como se ele tivesse me enfeitiçado. Seus olhos, mortos e profundos, cravavam-se nos meus, e por um momento, tive a impressão de que ele estava dentro da minha cabeça ou torci para isso.
— Você está bem? — A voz de uma mulher participante quebrou o transe.
Eu olhei para o lado, forçando um sorriso tenso para a atriz ao meu lado, que parecia preocupada. Seus olhos, no entanto, estavam estranhamente distantes, quase como se ela falasse de forma automática.
— Sim... acho que sim. Você viu o... — Olhei de volta, mas o tal mímico havia desaparecido. Aquele palco, que antes parecia vazio, agora estava apenas mais sombrio.
— O quê? — Ela me olhou, franzindo a testa.
Eu balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de estar sendo vigiada.
— Nada.
Mas não era "nada". A partir daquele momento, o teatro se fechou ao meu redor, o ar parecia mais grosso, sufocante, cada respiração me prendia mais àquele lugar. E os outros... eles pareciam diferentes. Enquanto os chamavam um a um para o palco, a cada retorno, seus semblantes mudavam, como se algo neles estivesse sendo lentamente arrancado, inclusive aconteceu com aquela atriz que se aproximou. Suas vozes ficavam apagadas, seus olhares mortos, como se tivessem sido tocados pelo mesmo mal que eu sentia rastejar por dentro de mim.
Finalmente, chegou a minha vez.
Subi ao palco com os músculos tensos, as luzes ofuscantes piscando fracamente, como se estivessem prestes a se apagar para sempre. Quando comecei a recitar meu texto, algo na sala mudou. A atmosfera tornou-se sufocante, e senti que não estava mais sozinha no palco.
Eu estava sendo observada. Não somente observada — imitada.
Olhei para o lado e o vi. O mímico. Estava a poucos metros de mim, cada gesto meu era replicado com uma precisão perturbadora. Seus movimentos eram os meus, mas de alguma forma distorcidos, como se ele estivesse me zombando, exagerando cada curva dos meus braços, cada inclinação da minha cabeça. Seu sorriso era maior, grotesco, quase um grito mudo preso entre seus lábios pintados.
— Pare com isso! — Gritei, mas minha voz saiu fraca, como se o teatro estivesse absorvendo o som.
Ele não parou. Ao contrário, continuou imitando até o meu grito. Ele abriu a boca, como se estivesse gritando também, mas sem som. O eco silencioso da zombaria perfurou meus ouvidos como inúmeras facas invisíveis. Aterrorizada, corri meus olhos pelo teatro, buscando uma saída, mas as portas estavam fechadas, e os outros atores… desapareceram, mas eles não estavam desaparecidos, exatamente. Eu sabia que não.
Quando meus olhos percorreram as fileiras de poltronas, percebi com horror que havia mais deles. Não apenas um, mas vários mímicos, todos agora levantados, saindo das sombras. Eles estavam lá o tempo todo, disfarçados. Cada um imitava um gesto meu, uma expressão. Seus corpos rígidos se moviam como bonecos quebrados.
— Isso não pode estar acontecendo... — Murmurei, sentindo meu corpo tremer.
Olhei ao redor e vi um espelho no fundo do palco. Me aproximei, desesperada por qualquer conexão com a realidade, mas o reflexo que vi não era o meu. No vidro sujo e empoeirado, meu rosto estava pálido, com olhos vazios e um sorriso horrendo — eu estava me tornando um deles.
— Não… não… — Comecei a andar de costas, querendo fugir do espelho, mas o mímico estava logo atrás de mim. Quando virei, ele estava tão perto que senti o frio de sua presença. Ele estendeu a mão em um movimento lento, zombando do meu medo.
— Quer ser uma de nós? — Ele sussurrou, mas era minha voz que eu ouvia. Ele estava falando com a minha própria voz, imitando minha entonação, cada sílaba. — Nós todos somos artistas aqui. — Ele riu em tom baixo, um riso infantil, mas que reverberava com crueldade.
Os outros mímicos se aproximaram, cercando-me lentamente, causando-me um desespero terrífico. Seus sorrisos inexpressivos me cercavam como uma teia. Meus gestos se tornaram automáticos, meus pés imitaram seus passos, e eu já não sabia mais o que era eu e o que era eles. O teatro parecia pulsar, respirar comigo, como se eu fosse parte dele, fundida à sua escuridão.
— Não há saída. — Disse a minha própria voz, ecoando por entre os corpos pálidos dos mímicos que se contorciam ao meu redor. — Você é uma de nós agora.
Corri, desesperada, para as portas trancadas. Meus dedos arranharam a madeira, tentando encontrar uma saída, mas era inútil. As risadas aumentaram, ecoando por todo o salão, zombando da minha luta. E, então, eu vi: a chave, brilhando no meio da escuridão, bem no centro do palco.
Eu sabia que nunca conseguiria alcançá-la.
Quando me virei, o mímico original estava lá, os mesmos olhos negros e sem alma, o mesmo sorriso devorando seu próprio rosto. Ele estendeu a mão e, antes que eu pudesse reagir, tudo ficou escuro no ambiente.
Agora, não sou mais eu; sou um reflexo no espelho e, terrivelmente, sou um dos mímicos. Espero a próxima audição de atores neste sombrio lugar. Talvez eu me veja entrar pela mesma porta por onde adentrei. Queria que isso fosse um sonho e que eu pudesse acordar, mesmo que, ao abrir os meus olhos, visse a figura mímica a me observar em meu despertar, sozinha ou acompanhada de outros como ela.
Você está lendo um texto de um Autor Visitante do Castelo Drácula. Algumas edições do projeto podem permitir que autores visitantes escrevam e participem sem que seja preciso que tenham contrato assinado com o Castelo Drácula. Autores visitante não têm perfis fixos. Ao abrirmos nossos terríficos umbrais para visitantes, esperamos que eles possam vivenciar um pouco do trabalho editorial e da profunda dedicação da equipe do Castelo Drácula.