Um rosto trágico I
Melancolicamente, ele saiu... | Precisava comer alguma coisa… | Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça, | Por favor… meu estômago vazio...
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Melancolicamente, ele saiu...
Precisava comer alguma coisa…
Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça,
Por favor… meu estômago vazio...
Faz dias que eu não como... nem me mexo...
É como se uma sombra me impedisse,
Como se um ser maligno em casa eu visse,
E me dissesse que comer não devo..."
A mulher o escutava com assombro,
E ao fim daquela inusitada história
Entregou a ele um pouco de comida;
Ao vê-lo sair, estranhou seus ombros...
A postura inclinada de suas costas
Era a de alguém pisado pela vida…
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Epitáfio de um infeliz
Fecho os olhos… e esqueço do que vi; | Esqueço a dor, a angústia dessa vida, | Esqueço da alegria não vivida, | Dos desejos daquilo que eu não fiz….
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Fecho os olhos… e esqueço do que vi;
Esqueço a dor, a angústia dessa vida,
Esqueço da alegria não vivida,
Dos desejos daquilo que eu não fiz.
Tenho agora tudo o que eu sempre quis:
Sinto toda a Vontade enrijecida,
A Esperança não é mais bem-vinda,
Nunca me senti antes mais feliz.
Tenho agora o descanso merecido,
Depois de esperar tanto a tal da Sorte,
O Destino, o Futuro Prometido…
A vida me mostrou ainda jovem
Que nada nesse mundo é garantido
Além da terra, quando chega a morte.
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IV de Espadas
Três lâminas pendentes, uma ao lado — | repousa o cavaleiro. Ele adormecen | o santuário, e põe suas mãos em prece | sobre o corpo de pedra armadurado…
Four of Swords—“Pam-A” tarot card from the Rider–Waite Tarot deck (1910) por Pamela Colman Smith (1878–1951)
Três lâminas pendentes, uma ao lado —
repousa o cavaleiro. Ele adormece
no santuário, e põe suas mãos em prece
sobre o corpo de pedra armadurado.
Silêncio… Eis o Silêncio mais sagrado
do exílio. A solitude fortalece
o espírito dolente que esvanece
no amargor do combate malogrado.
Meditações de sono eterno e puro,
condenações de flamas e de escuro:
da letargia nada é discernido.
Na efígie sobre túmulo somente
reslumbra a face estatuesca, crente
na calmaria do dever cumprido!
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Sonnet d'Après la Mort
Além dos horizontes onde a vida se desvanece, | Onde sombra e luz se fundem num eco, | Minha alma se eleva, livre de todo fardo, | Em direção aos céus etéreos onde…
Imagem da Wev
Soneto do Após Morte
Além dos horizontes onde a vida se desvanece,
Onde sombra e luz se fundem num eco,
Minha alma se eleva, livre de todo fardo,
Em direção aos céus etéreos onde ninguém conhece o efêmero.
Neste reino imutável onde reina o infinito,
Eu silenciosamente descubro um novo universo,
Onde os sonhos eternos se tornam tochas,
E onde o amor divino continua a ser o nosso guia.
Eu então me curvo diante desta brisa suave,
O que leva meus pensamentos a outro dilema;
Da eternidade, que se sobrepõe ao tempo.
Deste mundo
Estou finalmente livre, pronto para transcender,
Na sagrada imensidão do além: No eterno!
Sonnet d'Après la Mort
Au-delà des horizons où la vie s'efface,
Où ombre et lumière se confondent en écho,
Mon âme se lève, libre de tout fardeau,
Vers les cieux éthérés où personne ne connaît l'éphémère.
Dans ce royaume immuable où règne l'infini,
Je découvre silencieusement un nouvel univers,
Où les rêves éternels deviennent des torches,
Et où l’amour divin continue d’être notre guide.
Je m'incline alors devant cette douce brise,
Ce qui amène mes pensées à un autre dilemme ;
De l'éternité, qui chevauche le temps.
De ce monde
Je suis enfin libre, prêt à transcender,
Dans l'immensité sacrée de l'au-delà : Dans l'éternel!
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Violenta
Qual luz de um céu distante, inalcançável, | Sonhando formas de abraçá-la um dia… | A essa altura os pensamentos vagam...
MidjourneyAI
Qual luz de um céu distante, inalcançável,
Sonhando formas de abraçá-la um dia…
A essa altura os pensamentos vagam
Envoltos pelo azul-melancolia…
A raiva a qual se chega, malfadados
Os planos dessa antiga travessia,
Resultam veios sobrecarregados
De cor vermelho-sangue-rebeldia…
Vestígios do querer cicatrizados…
Agora em só lembranças transformados:
A fúria-melancólica por dentro…
Sinal daquele orgulho, reprimido…
Contudo, irá viver, subsistindo
Na púrpura-heráldica do peito…
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Extramuros
História de anciões, cantigas, lendas: | Terreno por selvagens percorrido; | Avesso a humanas leis, segundo a crença, | Lugar de estranhas vias, sons, gemidos…
Wildbad Gastein in the evening (Anton Romako)
História de anciões, cantigas, lendas:
Terreno por selvagens percorrido;
Avesso a humanas leis, segundo a crença,
Lugar de estranhas vias, sons, gemidos.
Escuso paradeiro de oferendas,
A fim de agraciar deuses antigos.
Ladino bosque, infligidor de penas
A qualquer invasor desconhecido.
Se fato ou mitológico… mistério;
Circundam seus limites tranca e ferro,
De apoio à segurança dos portões;
Defesa ante ameaças, o estrangeiro
Na busca por descanso, acolhimento,
Não entra mais depois que o sol se põe…
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Noturno
À noite, sob a lua e as estrelas, | Levado por vontades langorosas, | Percorro o céu e chego, a fim de vê-la…
MidjourneyAI
À noite, sob a lua e as estrelas,
Levado por vontades langorosas,
Percorro o céu e chego, a fim de vê-la
Dormindo — pois já tarde estando as horas…
Depondo as mãos suaves pela beira
Da cama, eu aproximo-me das cordas
Formadas pelas salientes veias
Que vejo sobre a pele que ela mostra…
Detenho-me a olhar por um minuto:
Seu rosto imperturbável… impoluto,
Angélico parece, de maneira
Que ao tocar de leve nos cabelos,
Desisto de manchá-la com meus dedos,
Com medo de acordar e, assim, perdê-la…
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Vigília
A noite não traz paz, não traz sossego, | O que refúgio foi não mais consola… | O lar virou covil do desespero …
MidjourneyAI
A noite não traz paz, não traz sossego,
O que refúgio foi não mais consola…
O lar virou covil do desespero —
Sabendo a fuga disso estar lá fora…
Usar inutilmente um travesseiro,
Enquanto o que, de fato, me conforta
Apenas é o repouso que prevejo
No lado exterior de minha porta…
Insone, até parece que’u escuto
Os passos de quem chega no escuro…
Dizendo rente à minha cabeceira
Aquelas mais incômodas palavras:
“É tempo o que tu perdes e perderas…
É tarde pra colher da tua lavra…”
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Soneto da Imortalidade
De papéis, livros, tinteiros e canetas | Do verso, à minha aorta e cava eternas | Antes, acreditando pertencer a uma natureza…
Foto da Web
De papéis, livros, tinteiros e canetas
Do verso, à minha aorta e cava eternas
Antes, acreditando pertencer a uma natureza findável,
Agora, tendo certeza da minha infinitude,
Quero viver a imensidão da eternidade
E em minha plenitude hei de espalhar minha maldição
Revés de quem tem amor a Vida;
Sorte de quem se fortalece na escuridão
E assim enquanto escrevo, me imortalizo
Porque a Morte é a solidão de quem não versa,
E a Não vida o acaso de quem se submete às presas
Eu possa me dizer do abraço sombrio:
Brindo à Morte, a continuação da Vida;
Brindo à Não Vida, dissolução da Morte.
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Soneto da possibilidade
Tivéssemos mantido uma amizade, | Um algo a mais que um ínfimo contato… | Possivelmente além de aproximados, | Bem mais…
MidjourneyAI
Tivéssemos mantido uma amizade,
Um algo a mais que um ínfimo contato…
Possivelmente além de aproximados,
Bem mais que apenas íntimos, quem sabe…
Seríamos, talvez, uma metade
Faltante para o outro incompletado…
Com quem distribuir o peso e parte
Das nossas confissões não fosse um fardo…
Um braço para descansar o corpo
Feliz ao encontrar seu lado oposto…
Seria assim conosco tão mais fácil.
Agora, nada disso dividimos;
Por duas direções nós dois seguimos,
E penso que somente um tenha errado…
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Void
De tudo o fim somente é garantia, | Certeza inevitável do incompleto — | Um fio de luz que haja, e, sem saídas, | Retorna…
Arte de Glauco Moura
De tudo o fim somente é garantia,
Certeza inevitável do incompleto —
Um fio de luz que haja, e, sem saídas,
Retorna ele a seguir ao ponto zero.
Um prêmio antes mesmo da conquista,
Fortuna a todos paga (sempre a crédito):
Poder ambicionar enquanto as vistas
Conseguem distinguir se longe ou perto…
Nas imaginações um ominoso
Destino, solitário, pesaroso —
Razão deste desvio que dele fazem…
Talvez, amor à própria natureza;
Um tipo de resguardo, de defesa,
Temendo o vir a ser de algo que acabe…
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Sobre o Artista Convidado - Ed. 1, Janeiro de 2024 - Castelo Drácula
Ingenuidade
Perfeita!… Assim mantenha, não se mova! | Não há de ser difícil tal retrato… | Procure observar o resultado…
Foto de Johnny Briggs
Perfeita!… Assim mantenha, não se mova!
Não há de ser difícil tal retrato…
Procure observar o resultado
Com base na postura que impressiona…
Tão fácil que ninguém mais se questiona
Por que louvar o que já está fadado
A se perder… Pois não?! Então suponha:
Não fora aquele caco um dia um vaso?
Objeto de valor e de consumo,
De chamativas cores e rotundo,
Mas hoje ali num canto, só, quebrado…
Não quer a foto mais? Okay… desculpe…
Por mal não quis dizer, mas… se pergunte:
Não somos todos feitos desse barro?…
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Ciclos
Deixada em um canteiro a flor de outrora, | Germina ao lado um pé de nova estima… | Nas elucubrações ela se enrosca …
Foto de Evelyn Bertrand
Deixada em um canteiro a flor de outrora,
Germina ao lado um pé de nova estima…
Nas elucubrações ela se enrosca —
Por outra mão talvez apetecida…
Mas nada pra evitar que seja agora
Presente nesta interminável lista
De espécimes que a cada dia engrossa:
Da mais comum à rara, menos vista…
Tentar à parte vê-la de seu meio,
Colhê-la para si de seu herbário —
Poeta pela flor desesperado…
Por ela dispersar o próprio tempo…
Perder a mão, falhar no seu manejo —
Poeta pela flor espezinhado…
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Arrependimento (baseado no conto de mesmo nome de Guy de Maupassant)
Saval, num dia triste de outono, | Passando a limpo toda a sua história…
Retrato de Guy de Maupassant fotografado por Nadar.
Saval, num dia triste de outono,
Passando a limpo toda a sua história:
O ponto ao qual chegara, com desgosto
Sessenta anos de vida ele recorda…
Três décadas atrás, os dois andando…
Sra. Sandres nele se encostava;
Seus rostos, ao se proteger dos ramos…
Olhares que ela certamente dava…
Atravessou a rua em desespero,
As dúvidas solucionar querendo:
“O que faria se eu tivesse ousado?”
“Cedido eu lá teria, meu querido” —
Saval correu pro Sena, atordoado;
Sentou-se e lá chorou, arrependido…
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Pacto
Ergue o olhar ao céu de turno em turno
a consultar um livro atentamente,
assim é que ela aguarda paciente…
Foto de Akira Eshi
Ergue o olhar ao céu de turno em turno
a consultar um livro atentamente,
assim é que ela aguarda paciente
os astros alinharem-se a Saturno.
À densa mata adentra facilmente
a fim de ter com seu fauno noturno
e por um canto crebro, assaz soturno,
seu ritual começa diligente:
Traça-lhe a estrela ao chão e amor lhe jura
numa gota de sangue, sobretudo;
dança em transe despida e, nesta altura,
gargalha e então blasfema, faz de tudo
a pobre ninfa, como que em loucura,
no afã de pertencer ao seu chifrudo.
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Todos Iguais
Neste lugar de paz e de saudade,
a dura realidade se comprova,
em cada tumba aberta se renova…
Foto de JF Martin
Neste lugar de paz e de saudade,
a dura realidade se comprova,
em cada tumba aberta se renova
aos olhos de quem vive uma verdade:
Os homens têm aqui estranha prova
da fé que lhes confia a eternidade;
jazem no horror de sua vaidade,
reduzidos à escuridão da cova.
Notam aqui a sua irrelevância
aqueles que se julgam maiorais
nesta mesma devida circunstância;
despidos dos seus bens materiais,
veem, a despeito de sua arrogância,
o quanto todos são na morte iguais.