Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.

O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.

E, ainda assim, algo nele estava diferente.

Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.

Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.

Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.

Décadas atrás, invejável.

Agora lhe parecia belo.

Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.

Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.

Sorriu diante da própria conclusão.

— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.

Continuou caminhando.

O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.

Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.

Não era saudade.

Jamais utilizaria uma palavra tão humana.

Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.

O sorriso irônico.

Os olhos vermelhos.

A maneira como debochava de suas perguntas.

A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.

Talvez fosse isso que mais o irritava.

Ou admirava.

Ainda não decidira.

Também pensava em Nix.

A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.

Velian continuava sem compreender a existência.

Continuava sem compreender a eternidade.

Continuava sem compreender a si mesmo.

Mas passara a gostar da busca.

Aquilo era novo.

Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.

Agora buscava porque desejava conhecer.

Talvez houvesse diferença.

Talvez não.

As dúvidas permaneciam.

Como sempre.

A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.

Um frio impossível.

Não era o vento do oceano.

Nem uma mudança climática comum.

Era um frio antigo.

Sobrenatural.

O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.

Velian parou imediatamente.

Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.

Depois outra.

E outra.

Levantou a mão.

Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.

Conhecia aquele sinal.

O Castelo Drácula estava chamando.

Porém havia algo diferente.

Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.

Desta vez parecia um pedido de socorro.

Ou um aviso.

As sombras começaram a reunir-se diante dele.

As luzes da avenida tornaram-se distantes.

Os sons da cidade enfraqueceram.

Até mesmo o mar pareceu recuar.

Velian suspirou.

— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.

As sombras abriram-se.

E ele atravessou.

O impacto foi imediato.

Agonihria.

O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.

Cinzas negras caíam continuamente do céu.

Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.

O ar possuía cheiro de decomposição.

Não a decomposição comum da carne.

Mas algo mais antigo.

O odor de memórias esquecidas.

De sonhos abandonados.

De promessas que jamais foram cumpridas.

O Castelo parecia diferente.

Mais alto.

Mais vasto.

Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.

As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.

E havia silêncio.

Um silêncio tão profundo que parecia observar.

Velian avançou pelos corredores.

As sombras pareciam mais densas.

As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.

A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.

Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.

Ou de alguma coisa.

Os corredores pareciam maiores do que deveriam.

As distâncias alteravam-se.

Portas surgiam onde antes não existiam.

Escadas conduziam a lugares impossíveis.

O próprio Castelo parecia sonhar.

E o sonho não era agradável.

Então ouviu uma voz familiar.

— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.

Velian sorriu antes mesmo de vê-la.

Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.

Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.

Apenas um instante.

— Pensei que estivesses no Rio.

— Eu estava.

— E agora estás aqui.

— Excelente dedução.

— Séculos de prática.

O sorriso dela surgiu discreto.

— Vejo que ainda não encontraste respostas.

— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.

Cassandra soltou uma breve gargalhada.

— Talvez eu apenas seja mais inteligente.

— Ou mais teimosa.

— Também.

Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.

As cinzas continuavam caindo.

A névoa ondulava entre as torres.

O Castelo parecia respirar.

Então Cassandra tornou-se séria.

Algo raro.

— Este lugar está errado.

Velian voltou o olhar para ela.

— O Castelo costuma estar errado.

— Não desta forma.

O tom de sua voz bastou.

Cassandra raramente demonstrava preocupação.

Quando o fazia, havia motivo.

— O que encontraste?

— Nada.

— Isso parece ruim.

— É pior.

Ela afastou-se da coluna.

— O Castelo está vazio.

Velian sentiu um leve arrepio.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

O Castelo Drácula jamais estava vazio.

Sempre havia vozes.

Presenças.

Monstros.

Ecos.

Memórias.

Alguma coisa.

Mas agora existia apenas silêncio.

E o silêncio parecia faminto.

O silêncio parecia faminto.

Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.

As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.

Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.

Sussurros.

Lamentos.

Palavras incompreensíveis.

Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.

O corredor começou a estreitar-se.

Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.

Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.

As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.

O cheiro tornou-se mais intenso.

Mofo.

Ferrugem.

Terra molhada.

E algo mais.

Algo químico.

Doentio.

Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.

— Arsênio.

Velian arqueou uma sobrancelha.

— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.

— E você não?

— Não costumo cheirar venenos por diversão.

— Falha de caráter.

Continuaram caminhando.

A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.

Tudo parecia abandonado havia séculos.

E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.

Como se alguém observasse através das paredes.

Como se alguma coisa aguardasse.

Velian percebeu primeiro.

— Estamos sendo seguidos.

Cassandra não demonstrou surpresa.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Desde que chegamos.

— E não pretendias comentar?

— Estava curiosa.

— Evidentemente.

Uma sombra moveu-se no final do corredor.

Depois desapareceu.

Outra surgiu atrás deles.

Em seguida uma terceira.

Velian estreitou os olhos.

As formas eram humanoides.

Mas algo estava errado.

Os movimentos pareciam quebrados.

Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.

Nenhum som acompanhava seus passos.

Nenhuma respiração.

Nenhum coração.

Nada.

Apenas presença.

Continuaram avançando.

Os vultos também.

Sem atacar.

Sem se aproximar demais.

Apenas observando.

Como animais avaliando uma presa.

Ou talvez convidados.

A mansão revelou-se subitamente.

Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.

Ela simplesmente estava ali.

Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.

Janelas altas.

Paredes cobertas de fungos.

Varandas corroídas pelo tempo.

O lugar parecia existir fora da lógica.

Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.

Velian observou a construção durante alguns segundos.

— Tenho uma péssima sensação sobre isso.

— Então estamos no caminho certo.

— Eu realmente detesto tua lógica.

Subiram os degraus.

A porta abriu-se sozinha.

O interior mergulhava numa penumbra violeta.

Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.

Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.

Relógios antigos permaneciam imóveis.

Nenhum marcava a mesma hora.

Nenhum parecia marcar hora alguma.

Então ouviram.

Um som.

Baixo.

Distante.

Como alguém mastigando.

Velian parou.

O som repetiu-se.

Mastigação.

Lenta.

Úmida.

Persistente.

— Diga que ouviu isso.

— Infelizmente.

O ruído aumentou.

Veio do andar superior.

Depois de outro cômodo.

Depois de vários lugares ao mesmo tempo.

Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.

Mastigando.

Roendo.

Triturando.

A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.

O desconforto espalhou-se pelo ambiente.

Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.

Medo.

Não o medo comum dos mortais.

Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.

Continuaram avançando.

O som tornou-se mais próximo.

Mais intenso.

Mais orgânico.

Até encontrarem o quarto.

A porta estava entreaberta.

O cheiro era insuportável.

Mofo.

Ferrugem.

Carne deteriorada.

Sangue antigo.

E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.

No centro do aposento havia uma cama vitoriana.

Os lençóis estavam rasgados.

Escurecidos.

Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.

Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.

A moldura era ornamentada com flores esculpidas.

Mas as flores pareciam apodrecidas.

Distorcidas.

Quase vivas.

Velian aproximou-se.

O próprio reflexo surgiu.

Algo impossível.

Vampiros não possuíam reflexos.

Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.

Cassandra apareceu ao lado dele.

Ela também estava refletida.

Por alguns instantes nada aconteceu.

Então os reflexos sorriram.

Nenhum dos dois sorrira.

O silêncio tornou-se absoluto.

As versões refletidas permaneceram observando-os.

Imóveis.

Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.

— Ainda finges que não sentes falta deles?

A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.

Velian percebeu imediatamente.

A pergunta atingira algum lugar profundo.

O reflexo continuou.

— De todos os amantes.

De todos os discípulos.

De todos os amigos.

De todos os mortos.

A figura refletida sorriu.

— Quantos nomes ainda consegues lembrar?

Cassandra fechou os olhos por um instante.

Apenas um instante.

Mas foi suficiente.

Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.

Então o espelho voltou-se para ele.

Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.

— E tu?

A voz era sua.

Mas não era.

— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?

Velian sustentou o olhar.

— Medo de quê?

O reflexo sorriu.

— De continuar existindo.

O quarto pareceu escurecer.

As sombras tornaram-se mais densas.

— De continuar desejando.

De continuar perdendo.

De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.

As palavras ecoaram pelo aposento.

Velian sentiu algo apertar seu peito.

Porque não eram mentiras.

O espelho compreendia.

E isso era pior.

Muito pior.

Uma rachadura surgiu na superfície refletora.

Depois outra.

E outra.

O som espalhou-se pelo quarto.

Lento.

Cruel.

Como ossos partindo-se sob pressão.

As rachaduras multiplicaram-se.

Até que algo começou a emergir.

Primeiro uma mão.

Depois um braço.

Em seguida um rosto.

Ou aquilo que um dia fora um rosto.

A criatura arrastou-se para fora do espelho.

Sua pele era cinzenta.

Os olhos completamente ocos.

E dentes.

Dentes por toda parte.

Nas faces.

Nos ombros.

Nos braços.

No pescoço.

Nas costelas.

Centenas deles.

Talvez milhares.

A criatura arrancou um dos próprios dentes.

Sorriu.

Então o mastigou.

Outro nasceu imediatamente.

Mais criaturas começaram a surgir.

Uma após outra.

Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.

Todas cobertas por dentes.

Todas sorrindo.

Todas sofrendo.

Todas parecendo sentir prazer na própria dor.

O quarto inteiro foi preenchido pelo som.

Mastigação.

Estalos.

Dentes quebrando.

Dentes crescendo.

Dentes sendo arrancados.

As criaturas observavam os dois vampiros.

E então falaram.

Não individualmente.

Mas como uma única voz.

Uma voz composta por centenas de gargantas.

— O abandono nos criou.

— A perda nos alimenta.

— O esquecimento nos fortalece.

Uma delas aproximou-se de Velian.

Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.

— Quantos partiram?

Outra surgiu ao lado.

— Quantos ainda partirão?

Mais uma.

— Quantos nomes esqueceste?

As criaturas começaram a cercá-los lentamente.

Sorrindo.

Mastigando.

Esperando.

E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.

Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.

Velian observou uma delas mais atentamente.

Os dentes não cresciam ao acaso.

Cada um parecia diferente.

Alguns eram humanos.

Outros lembravam presas de animais.

Outros ainda possuíam formatos impossíveis.

Como se cada dente fosse uma memória petrificada.

Uma perda.

Uma ferida.

Uma ausência.

A criatura mais próxima abriu a boca.

Lá dentro não havia língua.

Nem garganta.

Apenas mais dentes.

Infinitos dentes.

Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.

Não como uma arma.

Mas como uma presença.

Uma vastidão silenciosa observando tudo.

A Noite primordial.

Antiga demais para temer monstros.

Antiga demais para temer abandono.

A criatura avançou.

E Cassandra foi a primeira a agir.

Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.

Então a vampira ergueu uma das mãos.

Uma explosão de energia atravessou o aposento.

Três criaturas foram arremessadas contra a parede.

Os corpos despedaçaram-se.

Dentes espalharam-se pelo chão.

Por um instante, o silêncio retornou.

Então os dentes começaram a mover-se.

Velian observou-os reorganizarem-se.

Unindo-se.

Reconstruindo carne.

Tecendo ossos.

Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.

Sorrindo.

Sempre sorrindo.

— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.

— Eu avisei que algo estava errado.

— Você avisou que o Castelo estava vazio.

— E estava.

Uma gargalhada ecoou pelo aposento.

Não partira de Cassandra.

Nem de Velian.

Partira das próprias criaturas.

Centenas de vozes misturadas.

Centenas de gargantas.

Centenas de abandonos.

As paredes começaram a pulsar.

O papel decorativo desprendia-se lentamente.

Sob ele surgiam inscrições.

Nomes.

Milhares deles.

Nomes riscados.

Esquecidos.

Apagados.

Alguns escritos em idiomas mortos.

Outros em línguas que Velian jamais vira.

As criaturas continuavam aproximando-se.

— O que achas que são? — perguntou ele.

Cassandra não desviou os olhos dos monstros.

— Pessoas.

— Isso é reconfortante.

— Pessoas esquecidas.

— Ah. Menos reconfortante.

Uma das criaturas saltou.

Velian moveu-se imediatamente.

As garras atravessaram o peito do monstro.

O corpo abriu-se.

E algo caiu no chão.

Não sangue.

Não vísceras.

Mas fotografias.

Cartas.

Flores secas.

Objetos pessoais.

Pequenos fragmentos de vidas perdidas.

A criatura desfez-se em cinzas.

Outra ocupou seu lugar.

Depois outra.

Depois mais três.

A mansão inteira pareceu despertar.

Passos ecoaram pelos corredores.

Portas abriram-se sozinhas.

Espelhos racharam.

O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.

E então Agonihria revelou algo ainda pior.

As criaturas começaram a mudar.

Seus rostos tornaram-se familiares.

Velian reconheceu alguns.

Um antigo amante da França medieval.

Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.

Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.

Todos mortos.

Todos desaparecidos.

Todos transformados em algo grotesco.

As criaturas sorriram.

— Ainda lembras.

— Ainda dói.

— Ainda desejas.

Velian sentiu o golpe.

Não físico.

Mas emocional.

Porque lembrava.

Lembrava de todos.

Não dos rostos apenas.

Dos gestos.

Das vozes.

Dos momentos.

Das despedidas.

A eternidade possuía uma crueldade peculiar.

Tudo se transformava em fantasma.

Mesmo as memórias felizes.

Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.

As criaturas cercavam-na.

E também haviam mudado.

Velian observou sua expressão endurecer.

Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.

Mas Cassandra reconhecia.

Isso bastava.

Por um momento, a vampira desviou o olhar.

Por um único instante.

E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.

Porque Cassandra raramente olhava para trás.

Raramente permitia-se recordar.

As criaturas aproximaram-se dela.

— Ainda sentes falta deles.

— Ainda carregas seus nomes.

— Ainda finges que não te importas.

A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.

As janelas estilhaçaram-se.

As paredes tremeram.

Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.

Mas nenhuma desapareceu.

Continuavam retornando.

Sempre retornando.

Velian compreendeu.

Não importava quantas fossem destruídas.

Não estavam lutando contra corpos.

Estavam lutando contra uma ideia.

Contra um sentimento.

Contra algo muito mais antigo que carne e osso.

O Castelo inteiro estremeceu.

As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.

A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.

Os corredores pareciam alongar-se.

As portas desapareciam.

As paredes moviam-se.

Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.

Então uma voz surgiu.

Profunda.

Distante.

Maior que todas as outras.

Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.

Ou talvez do próprio vazio.

— Tudo será esquecido.

As criaturas silenciaram imediatamente.

A mansão inteira silenciou.

Até mesmo a mastigação cessou.

A voz continuou.

— Toda paixão.

Toda memória.

Toda conquista.

Todo amor.

Todo conhecimento.

Tudo.

Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.

As sombras tornaram-se densas.

Espessas.

Quase líquidas.

E algo começou a surgir do espelho destruído.

Algo enorme.

Muito maior do que as criaturas.

Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.

Os dentes moviam-se sozinhos.

Como insetos.

Como parasitas.

Como pensamentos doentes.

A entidade ergueu-se lentamente.

Sua cabeça quase tocava o teto.

Os olhos observavam Velian.

Observavam Cassandra.

Observavam tudo.

— Eu sou o abandono.

A voz fez a mansão inteira tremer.

— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.

Uma das bocas abriu-se.

Depois outra.

Depois centenas.

— Eu sou o silêncio após o último adeus.

Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.

Não por medo.

Mas por reconhecimento.

Aquilo não era uma criatura.

Não era um fantasma.

Não era um demônio.

Era um conceito.

Uma manifestação.

Uma ferida transformada em existência.

E Agonihria era seu reino.

A entidade voltou-se para Velian.

Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.

— Tu conheces meu nome.

Velian sustentou o olhar.

— Conheço.

— Caminhas comigo há séculos.

— Sim.

— Então por que continuas procurando?

O silêncio espalhou-se.

Mesmo Cassandra voltou-se para ele.

A pergunta parecia destinada apenas a Velian.

Mas talvez fosse destinada a todos.

Ao Castelo.

À humanidade.

À própria eternidade.

A entidade aproximou-se.

As sombras tornaram-se ainda mais profundas.

— Por que continuas desejando?

— Por que continuas amando?

— Por que continuas buscando?

A voz tornou-se mais suave.

Mais perigosa.

— Não aprendeste nada?

Durante alguns segundos Velian não respondeu.

Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.

E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.

Então sentiu novamente a presença de Nix.

Não uma resposta.

Jamais uma resposta.

Apenas a vastidão da noite.

A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.

A noite não prometia sentido.

Apenas existência.

E, estranhamente, aquilo bastava.

Velian sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas genuíno.

E então respondeu.

— Aprendi exatamente o contrário.

— Aprendi exatamente o contrário.

A entidade permaneceu imóvel.

Os milhares de olhos vazios observavam Velian.

As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.

Esperando.

O silêncio tornou-se quase absoluto.

Então Velian deu um passo à frente.

A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.

— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.

A criatura permaneceu imóvel.

— E encontraste?

Velian sorriu.

— Às vezes.

A resposta pareceu irritar a manifestação.

As sombras ao redor dela estremeceram.

— Às vezes?

— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.

A entidade inclinou lentamente a cabeça.

— E perdeste tudo.

— Sim.

— Todos morreram.

— Sim.

— Todos partiram.

— Sim.

A criatura pareceu crescer.

As paredes da mansão rangeram.

Os espelhos restantes começaram a rachar.

— Então eu venci.

Velian ficou em silêncio por alguns instantes.

Então riu.

Uma gargalhada breve.

Sincera.

Quase humana.

Até Cassandra pareceu surpresa.

— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.

Os olhos da entidade estreitaram-se.

— Explica.

— Eles partiram.

Mas existiram.

A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.

A manifestação permaneceu imóvel.

Velian continuou.

— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.

Esquecer nomes.

Esquecer cidades inteiras.

Vi impérios nascerem e desaparecerem.

Vi religiões mudarem.

Vi pessoas morrerem.

Vi amores acabarem.

Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.

As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.

Como se alguma força invisível as incomodasse.

— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.

Ele apenas vem depois.

A entidade permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.

Velian sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era fome.

Não era violência.

Não era desejo.

Era a presença de Nix.

A noite.

A verdadeira noite.

Não a escuridão do medo.

Não a ausência de luz.

Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.

A escuridão que não julgava.

Que não exigia respostas.

Que apenas era.

Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.

Não eram agressivas.

Não eram monstruosas.

Eram profundas.

Infinitas.

Belas.

As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.

A névoa púrpura começou a dissolver-se.

A entidade recuou pela primeira vez.

— O que és agora?

A pergunta veio quase como um sussurro.

Velian pensou por alguns segundos.

— Não faço ideia.

A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.

— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.

— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.

— Está funcionando.

A entidade rugiu.

As paredes da mansão estremeceram.

Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.

Desta vez não havia intenção de dialogar.

Apenas destruir.

Apenas consumir.

Apenas transformar tudo em silêncio.

Então Cassandra avançou.

A vampira ergueu ambas as mãos.

Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.

Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.

Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.

Talvez a mais perigosa.

O ar tornou-se pesado.

As janelas explodiram.

As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.

— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.

A magia expandiu-se.

Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.

Outras simplesmente desintegraram-se.

Mas não retornaram.

Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.

Algo mais profundo acontecia.

A presença de Nix espalhava-se.

A manifestação do abandono começou a enfraquecer.

As criaturas hesitavam.

Os dentes quebravam-se.

As formas tornavam-se instáveis.

Velian compreendeu.

Agonihria alimentava-se de uma única certeza:

Que tudo era vazio.

Que toda conexão era inútil.

Que toda existência terminava em abandono.

Mas ele já não acreditava nisso.

Nem Cassandra.

E aquela convicção possuía poder.

Mais poder do que imaginara.

A entidade rugiu novamente.

Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.

O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.

Colunas partiram-se.

O teto rachou.

Cinzas negras caíram como chuva.

Então Velian avançou.

A velocidade foi quase invisível.

As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.

Não como lâminas.

Não como armas.

Mas como fragmentos da própria noite.

Ele atravessou a tempestade de dentes.

Atravessou os gritos.

Atravessou as sombras.

E alcançou o coração da manifestação.

Por um instante viu algo.

Não uma criatura.

Não um monstro.

Mas uma criança esquecida.

Um amante abandonado.

Um velho morrendo sozinho.

Uma mãe chorando.

Um amigo perdido.

Milhares de solidões acumuladas.

Milhares de dores.

Milhares de despedidas.

Agonihria era feita delas.

Velian fechou os olhos.

E compreendeu.

Nem mesmo aquele horror desejava existir.

A entidade nasceu porque alguém sofrera.

Porque muitos sofreram.

Porque o abandono existe.

Sempre existirá.

Então tocou a criatura.

Apenas tocou.

E a noite respondeu.

A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.

Não para destruí-la.

Mas para envolvê-la.

Como o céu envolve as estrelas.

Como o oceano envolve os rios.

Como a noite envolve os sonhos.

A criatura parou de lutar.

As bocas silenciaram.

Os dentes deixaram de crescer.

Os olhos vazios fecharam-se lentamente.

E então Agonihria começou a ruir.

A mansão inteira tremeu.

Os corredores partiram-se.

Os espelhos explodiram.

As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.

O Castelo Drácula inteiro estremeceu.

Como se despertasse de um pesadelo.

As criaturas desapareceram.

As cinzas negras tornaram-se poeira comum.

A névoa púrpura dissipou-se.

O silêncio retornou.

Mas agora era diferente.

Não era um silêncio faminto.

Era apenas silêncio.

E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.

Uma paz estranha.

Breve.

Mas real.

Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.

— Então era isso.

— Era.

— Continua irritantemente filosófico.

— Continua irritantemente poderosa.

— Justo.

Ao redor deles, Agonihria desaparecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.

Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.

Pelo menos por enquanto.

Pelo menos por enquanto.

Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.

A mansão vitoriana desaparecera.

Os espelhos.

Os papéis de parede apodrecidos.

As criaturas dos dentes.

Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.

Restavam apenas os antigos corredores de pedra.

As colunas monumentais.

As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.

Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.

Não havia urgência.

Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.

As cinzas negras haviam desaparecido.

A névoa púrpura também.

No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.

O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.

O Castelo parecia tranquilo.

Não alegre.

Jamais alegre.

Mas tranquilo.

Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.

Velian observava as janelas enquanto caminhavam.

O tempo.

Sempre o tempo.

Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.

Depois pensara que fosse uma maldição.

Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.

Talvez fosse apenas uma condição.

Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.

— Estás pensando demais de novo.

A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.

Velian sorriu.

— É uma acusação injusta.

— Não é.

— Talvez um pouco.

Ela soltou uma breve gargalhada.

O som ecoou pelos corredores vazios.

Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.

— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.

— Ainda há tempo.

— Não. Agora não.

Velian voltou-se para ela.

A vampira mantinha os olhos voltados para frente.

Como se observasse algo distante.

Algo que apenas ela conseguia enxergar.

— Mudaste.

— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.

— Não dessa forma.

O silêncio retornou.

Velian percebeu que ela estava sendo sincera.

Algo raro.

Muito raro.

— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.

Agora procuras porque estás curioso.

— Há diferença?

— Toda diferença do mundo.

Continuaram caminhando.

As palavras permaneceram entre eles.

Velian não respondeu imediatamente.

Porque Cassandra estava certa.

Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.

Do vazio.

Da solidão.

Da própria eternidade.

Agora eram apenas perguntas.

E isso as tornava mais leves.

Mais honestas.

Mais humanas.

Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.

Algumas representavam reis esquecidos.

Outras criaturas que jamais existiram.

Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.

Velian parou diante de uma delas.

Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.

O rosto parcialmente oculto.

Os olhos voltados para o céu.

Nix.

Ou ao menos uma interpretação dela.

A Senhora da Noite.

A deusa que jamais lhe concedera respostas.

Apenas perspectivas.

Sorriu.

Talvez aquele tivesse sido o maior presente.

— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.

— Às vezes.

— Encontraste o que procuravas?

Velian observou a estátua.

— Não.

— Eu sabia.

— Mas encontrei algo melhor.

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Mais perguntas.

Ela revirou os olhos.

— Definitivamente continuas sendo tu.

Saíram da galeria.

Os corredores começaram a mudar.

As sombras tornaram-se mais finas.

O ar mais leve.

O Castelo estava liberando-os.

A despedida aproximava-se.

Ambos sabiam.

Nenhum comentou.

Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.

Ali, as realidades misturavam-se.

Portas conduziam a lugares impossíveis.

Séculos diferentes.

Dimensões distintas.

Sonhos.

Pesadelos.

Memórias.

O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.

Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.

Permaneceram alguns instantes em silêncio.

Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.

Não enfrentar monstros.

Não enfrentar conceitos transformados em horror.

Mas despedir-se.

Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.

Mesmo para imortais.

Cassandra cruzou os braços.

— Então é isso.

— É.

— Continuarás procurando sentido para a existência?

— Provavelmente.

— Que atividade ridícula.

— Concordo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas verdadeiro.

— Toma cuidado, Velian.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi preocupação?

— Não exageremos.

— Claro.

— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.

Velian riu.

Uma risada sincera.

Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.

— Sentirei falta dos teus insultos.

— Mentira.

— Um pouco.

— Melhor assim.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.

Guerras.

Viagens.

Discussões.

Desejos.

Separações.

Reencontros.

Nenhum dos dois precisava mencioná-los.

Existiam.

E isso bastava.

Finalmente Cassandra aproximou-se.

Tocou brevemente seu rosto.

Um gesto simples.

Mas raro.

Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.

— Continua vivo, Velian.

— Pretendo tentar.

— Ótimo.

Então ela atravessou a passagem.

E desapareceu.

Sem cerimônias.

Sem lágrimas.

Exatamente como Cassandra faria.

Velian permaneceu sozinho no salão.

Observando o espaço vazio onde ela estivera.

Por alguns instantes apenas respirou.

Ou algo próximo daquilo.

Sentiu a ausência.

Mas não como dor.

Apenas como consequência natural da existência.

Todos os encontros terminam.

Todos os caminhos se separam.

E ainda assim continuam valendo a pena.

Sorriu diante do próprio pensamento.

Estava se tornando perigosamente otimista.

Atravessou sua própria passagem.

E o mundo mudou.

Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.

A cidade permanecia desperta.

Como sempre.

As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.

O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.

Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.

Velian caminhou até a varanda do apartamento.

O céu começava lentamente a clarear.

Azul profundo.

Depois violeta.

Depois dourado.

O nascimento de mais um dia.

Durante séculos observara amanheceres.

Milhares deles.

Talvez milhões.

Ainda assim, continuavam diferentes.

Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.

Assim como nenhuma noite.

Assim como nenhuma pessoa.

Assim como nenhuma pergunta.

Encostou-se à grade da varanda.

Pensou em Cassandra.

Pensou em Nix.

Pensou nos monstros de Agonihria.

Pensou nos mortos.

Nos vivos.

Nos esquecidos.

Nos amados.

Pensou em si mesmo.

E percebeu algo simples.

O vazio continuava ali.

Sempre continuaria.

A eternidade continuava ali.

Sempre continuaria.

As dúvidas também.

Talvez jamais desaparecessem.

Mas já não eram inimigas.

Eram companheiras.

Parte da estrada.

Parte daquilo que o mantinha caminhando.

Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.

A luz espalhou-se pelo horizonte.

Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.

A noite terminara.

Outra viria.

Como sempre.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.

Pareceu uma possibilidade.

Uma pergunta ainda sem resposta.

E, estranhamente, isso era suficiente.

 

Fim.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

26 de maio de 2097

Tudo começou na década de 20.

O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.

Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.

Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.

E aquilo se tornou um vício.

Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.

Então começaram a moldar gostos.

Tudo era minuciosamente calculado.

O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.

Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.

Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.

Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.

Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.

Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.

Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.

Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.

Tudo se conectava.

Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.

E o pior é que ninguém se importava.

Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.

Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.

Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.

Tudo se tornou digital.

Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.

Até a própria vida passou a existir atrás de telas.

E então a humanidade começou a desaparecer.

Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.

Acabou em consumo.

No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.

Um duplo.

Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.

E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.

Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.

As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.

Perfis digitais.

Personagens inventados.

Duplos

É nessa realidade que você vive agora.

Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.

E eu?

Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.

Eu sou você, daqui a alguns anos.

Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.

Porque esse futuro…

Não é bonito.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Ela

Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.

Quase nada. Apenas você.

A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.

Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.

Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.

Foi quando eu o vi.

Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.

Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.

Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.

Ele acelerou o passo.

Eu também.

Não vou descrever o que fiz com ele.

Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.

Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.

Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.

Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.

— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.

Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.

Eu o matei.

Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.

Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.

Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.

Matei por você.

Já nem sei quanto tempo passou.

Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.

Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.

Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.

Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.

A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.

A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Era sexta-feira 13. Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era sexta-feira 13.

Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições foi uma delas.

Já não sei mais quanto tempo se passou desde que revisito esses momentos. Já decorei tantos rostos quanto os esqueci. Não sei seus nomes, e talvez devesse ter perguntado no dia em que os vi. Mas agora nada disso importa. Nada mais é importante.

Fico me perguntando o sentido disto. Se deveria me arrepender de algo, pedir desculpas a alguém. Mas nada do que faço funciona. Nada do que tento dá certo. Apenas consigo viver à margem daquele dia, como se nada fora do que vivi realmente existisse de verdade.

Todas as vezes. Todos os dias. Sempre iguais. SEMPRE. SEMPRE!

Acordo exatamente às 6h15. Preparo meu café da manhã: o pão, pálido como a luz desta manhã que se repete. Deveria ter escolhido algo melhor, se soubesse que seria meu último dia. Ovos e presunto. Talvez a pizza fria de ontem. Mas não posso mudar essa escolha. Não agora.

Saio de casa atrasado. Pego o casaco, o guarda-chuva, e caminho pelas mesmas ruas cinzas de sempre. O mesmo emprego tedioso em administração. O mesmo chefe a reclamar de atrasos e erros. Tudo já se repetia, mesmo antes.

Parando para lembrar agora... talvez eu já estivesse morto antes mesmo de morrer.

E então, vou para casa. E, após reviver este dia mais uma vez, sempre penso: o mais terrível nem foi morrer, foi ter de trabalhar o dia inteiro antes do fim. Talvez, se tivesse atravessado a rua no sinal vermelho às 7 da manhã, não estaria repetindo tudo. Não me arrependeria de ter morrido antes de começar a trabalhar. Talvez já estivesse renascendo noutro tempo, ou no céu, ou no inferno.

Não sei qual é o verdadeiro destino para quem morre.

Talvez seja isto: reviver as mesmas coisas, sempre. E eu esteja condenado a repetir este dia. Para sempre.

E depois de tudo, finalmente acontece: eu entro no supermercado que fazia as compras, mas dessa vez, na hora errada. O homem de máscara olha para mim e atira, e o tiro silencioso passa em câmera lenta, até me atingir. Eu não sinto a dor, apenas desabo no chão, arrependido, e acordo novamente, no mesmo dia, para reviver tudo de novo.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?..

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era frio e úmido. Como bueiro. Como fui chegar ao ponto de conseguir deitar a cabeça sobre as pedras? Como sujeitei-me ao insujeitável?

Há muitos à minha volta, tantos que nem sei o nome, nem a conduta de outrora, mas ainda assim me sinto só. Quando o ser humano deixa-se levar por seus instintos, acaba por tornar-se algo inimaginável, incompreensível.

Como vês, eu me tornei tudo aquilo que repudiava. Como somos enganados por nós mesmos. Como nos deixamos enganar!

Aqui, ninguém me vê, só eu mesmo, e não gosto do que vejo, se é que vejo. Não vejo! Minha habilidade de visão foi afetada, e eu, mesmo percebendo o que me ocorria, persisti. Deixei-me conduzir pelo caminho enigmático que separa a razão da emoção. Como ser pulsante e suscetível aos caprichos do destino, tornei-me marionete em suas arbitrárias mãos; não consegui escapar de seus encantos, envolto em seus caprichos e habilidades surreais. Ah, o desconhecido, que sussurra segredos quase sempre incompreensíveis, enlaçando-se em suas garras doces... Sairei incólume deste conflito?

Ali, no cantinho da parede pichada e tomada pelos fungos, está a jovem, grávida; o bebê não sabe quem é seu pai. Num frenesi instantâneo, como a divagar sob o céu que eu mesmo construí, pairo sobre abismos imaginários, mas que agora tornam-se reais, tangíveis. Percebo minha respiração, que de súbito está ofegante. O ar se rarefaz.

— Jovem, por que está aí? Não tem família? — Pergunto-lhe.

— Acho que tenho, mas não lembro mais quem são... Não lembro nem quem eu sou também...

— Me chamavam de Gregor, e você, como se chama?

— E-eu? ... Ah, eu não lembro! — O rosto sujo e desfigurado é banhado por lágrimas sinceras.

Desespero. De súbito, minha respiração me incomoda; os batimentos cardíacos, como solos de bateria, são. Então resolvo interromper o curtíssimo diálogo que comecei. Vou à rua.

Carros. Pessoas. Poluição.

Tudo ali, convivendo harmoniosamente. Só eu que não posso entrar neste círculo simétrico. Permaneço aqui. Imóvel. Um recipiente repleto do mais absoluto vazio. O peso da escuridão esmaga meus ombros; não é fácil carregar o fardo de suas más escolhas.

Os que por mim passam, me repudiam, torcem o nariz, viram as faces. Colocam em prática tudo quanto aprenderam; a sociedade ensina direitinho.

Caminhei por horas — horas? — a noção de tempo me fora arrancada, como um tumor maligno; mas o cirurgião era semelhante ao açougueiro desleixado e deixou-me com as marcas de sua inaptidão... E eu terei que conviver com essa escolha alheia a mim.

Com pesar, continuei caminhando a esmo, remoendo memórias de tempos felizes, ou assim eu acreditava que era. Como pude deixar o trem da minha vida descarrilar e, assim, me transmutar nesse ser horrendo que vos fala? Na verdade, eu não deveria ter abusado daquelas substâncias, bem que me avisaram...

Vejo a fumaça negra que emana pelo ar, saída do escapamento do caminhão, este, tão velho quanto o mundo. Percebo que ele poderá me ser útil, e o será à sociedade também. Neste momento, ele é tudo o que eu mais quero; vê-lo por debaixo é tudo o que desejo. O fio clama por ser rompido; estiquei tanto a corda que é impossível aguentar sua pressão. Jogo-me à sua frente. Só ele conseguiu acabar com essa coisa que chamam de vida, só ele quis ser, finalmente, meu herói.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar. 

Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?  
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera. 

- E tu, menina, comeste tangerina? 

- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar? 

- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar. 

- Nada... nada. Outro dia frio; cansada do inverno. é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Velório Sombrio

Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Porquanto és pó, e ao pó retornarás...”. — Gênesis 3,19

Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de entretenimento da população local são bastante reduzidas, até mesmo um velório pode se tornar um grande acontecimento social. E se o falecido for alguém muito querido, logo se transforma num grande evento, atraindo a atenção e a participação de quase toda a população, tanto do próprio lugarejo quanto de suas cercanias.

Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino. Isto é, há um angustiante misticismo carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto arcaicos, que se faz presente. O homem, nessas regiões, ainda está muito ligado à natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião, com seus dogmas e costumes, também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas, a fim de que, no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno lhes seja possível.

Dona Niltinha, sublime pessoa que a muitos tinha trazido à vida, “... havia se encontrado com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...”, como diria aquele ilustre poeta da Paraíba.

Comparando à quantidade de gente que geralmente vive nessas regiões, havia até um número considerável de pessoas, mesmo se tratando de um dia de meio de semana. Os que estavam ali presentes, de forma alguma mediriam qualquer tipo de esforço para prestar suas últimas homenagens àquela nobre criatura, que era muito querida e bastante estimada por todos aqueles que a conheciam.

Quem ainda não havia chegado, mesmo que apenas para prestar suas condolências e logo voltar a seus afazeres, certamente ainda haveria de comparecer, ainda que fosse somente para o sepultamento, que ocorreria no dia seguinte, após o velório que atravessaria toda a noite, aguardando parentes e amigos distantes para o último adeus.

Para aquele evento em si, a noite estava bastante propícia, pois era clara como o dia. A lua quase cheia ocupava o meio do céu naquele momento, e a brisa que soprava do rio estava fresca e perfumada por causa das flores das diversas árvores que florescem no Cerrado nessa época do ano. No entanto, o odor mais marcante naquele momento era o de duas espécimes em particular: no quintal da falecida, as duas frondosas “Damas da Noite”, bastante floridas, exalavam um aroma inebriante, que tomava conta de toda aquela baixada.

As inúmeras criaturas da noite também se faziam presentes, ocupando-se do som ambiente com suas incansáveis serenatas. No gramado, grilos cricrilavam sem parar; na lagoa, as rãs coachavam sem descanso; e, vez por outra, uma coruja dava um voo rasante, emitindo seu agourento piado.

Nessas regiões interioranas, esse tipo de evento envolve todos os familiares, amigos e conhecidos, e é sempre rodeado de certos costumes que, para muitos, podem causar até certa estranheza. O velório acontece geralmente na sala, onde o corpo é deixado no centro, para que haja espaço para que parentes e amigos possam se agrupar em derredor. Por mais simples e humilde que a família possa parecer, ainda assim, na cozinha é preparada bastante comida para os convivas que passarão a noite.

O café – que jamais pode faltar – é servido a todo momento. Dependendo da família do falecido, no decorrer da noite, doces e guloseimas também são oferecidos. Há uma espécie de rodízio entre os que ficam na sala próximo ao caixão: alguns se lamentando e outros tentando consolar os que lamentam. Outros ficam do lado de fora da casa, conversando, contando anedotas e até mesmo fazendo pequenas negociatas.

Quando a conversa externa se torna mais animada e o barulho se mostra um tanto quanto desrespeitoso, sempre há alguém para chamar a atenção. Nesse momento, é feito o rodízio.

Levando-se em conta que a noite é bastante longa e, em muitas ocasiões, acompanhada de madrugadas muito frias, sempre há um ou outro que acaba levando consigo uma garrafa de algo um pouco mais forte para molhar a garganta e aquecer o estômago.

É certo que essa tal regalia fica discretamente escondida, para que não haja nenhum tipo de comentário discriminatório, mesmo que todos saibam que há e onde está escondida.

No decorrer da noite, geralmente ficam despertos os parentes mais próximos e mais amorosos, os amigos íntimos e alguns poucos conhecidos. São, em sua maioria, pessoas mais velhas e ainda com vigor para enfrentar uma noite inteira acordadas. Há também os denominados papa-defuntos, que sempre fazem questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre, desde o início do velório até o cemitério, para o sepultamento.

A falecida em questão não era uma pessoa qualquer, mas sim Helenilta Marcondes Narciso, alcunhada Dona Niltinha, afamada parteira e poderosa benzedeira. Sua fama corria dezenas de léguas e atravessava serras e rios. Incontáveis pessoas tinham chegado a este mundo com seu auxílio, e outras tantas, ela tinha evitado que saíssem dele antes da hora.

Além de parteira de mãos ungidas, também benzia contra inúmeras moléstias, desde quebranto e mau-olhado até picada de cobra venenosa. Ela mesma tinha tido apenas três filhos, pois, sendo mulher instruída na prática da magia e nos conhecimentos das ervas medicinais, sabia muito bem sobre beberagens para evitar gravidez.

Desde que tivera Joaquim – seu filho caçula, chamado “Quinca” –, que nascera com as pernas deformadas, ficou temerosa de que ela ou seu falecido marido talvez não tivessem mais condições de procriar filhos saudáveis.

Além do aleijado Quinca, que nunca se casara e ainda vivia com a mãe, Dona Niltinha tivera duas outras filhas: Gertrudes – chamada “Geta” –, a mais velha, uma competente dona de casa que vivia numa casa próxima e cuidara da mãe nos últimos anos em que ela esteve acamada; e Genoveva – chamada “Gena” –, a filha do meio, uma professora de primário que vivia um pouco mais distante, numa cidade próxima. Ambas já eram casadas e tinham filhos e filhas.

Dona Niltinha tivera o privilégio de amparar ambas as filhas em seus partos e auxiliar seus netos a chegarem a este mundo. Geta e Quinca, que já tinham chorado bastante a perda da mãe, ainda aguardavam a chegada de Gena para chorarem um pouco mais.

Gena, que vivia cerca de sete léguas de distância, havia estado na casa da mãe no final de semana anterior. Contudo, tivera que retornar para sua casa e para seus afazeres profissionais na escolinha onde trabalhava, pois, até então, sua mãe não era nenhum poço de saúde, mas também não dera mostras de que morreria a qualquer momento.

É certo que jazia numa cama há mais de cinco anos, pois, tal qual o próprio Quinca, também perdera os movimentos das pernas. Gena até mesmo comentara que achava que sua mãe estava mais corada e com maior disposição. Mas, como a morte, em muitas ocasiões, vem sem avisar, na tarde de quinta-feira, logo após o almoço, Dona Niltinha reclamara de fortes dores no peito e pediu que Geta lhe fizesse um chá de erva-cidreira, que ela tomou com muito gosto, bendizendo a filha pelo carinho para com ela.

Geta, percebendo que a mãe dormia sossegadamente após o chá, decidiu ir rapidamente até sua casa para resolver alguma pendência doméstica que exigisse sua presença e logo retornar para ver como sua mãe estava. No entanto, seus afazeres tomaram mais do seu tempo do que imaginava, e ela só retornou no final da tarde, já com o jantar pronto, tanto para sua mãe quanto para seu irmão Quinca.

Este, por sua vez, estava sentado em sua cadeira de rodas debaixo da frondosa e florida paineira logo à frente da casa, contemplando o final de mais uma tarde. Geta se encaminhou para dentro da casa, mas, em poucos minutos, voltou para fora aos prantos, dizendo, em desvairado desespero, que sua mãe estava morta.

Depois disso, foi um rebuliço só. Em menos de uma hora, a pequena casa já estava apinhada de gente. Dona Niltinha fora dada como morta por volta das cinco da tarde e, antes das oito horas da noite, já estava banhada, amortalhada e convenientemente enfeitada para o velório.

No caixão, que fora rapidamente improvisado pelos vizinhos mais habilidosos, havia diversas flores diferentes, dando um aspecto bastante primaveril à querida falecida, que deixava atrás de si um rastro de gratidão e muitas boas histórias para todos aqueles que a conheciam.

Dona Niltinha, em vida, não era uma criatura dotada de grande beleza, mas também não era de assustar ninguém com sua aparência. No entanto, parece que a morte não tinha sido muito gentil com ela, e ali, deitada no caixão, não era uma imagem muito interessante de se ver.

Suas magras mãos, que, devido à artrite, tinham adquirido o formato de conchas, pareciam ter crescido e ficado com um aspecto assustador pelo tamanho dos dedos e pelas unhas amareladas. Seu rosto ossudo estava encovado e com uma aparência bastante maquiavélica, como se tramasse uma grande maldade. Para Quinca e Geta, era apenas sua falecida mãe que estava ali, e o desconsolo de ambos era algo inominável.

Quinca era o mais choroso dos dois, pois sabia que, a partir dali, sua vida não seria nada fácil sem o carinho e a proteção de sua mãe.

Já passava da meia-noite, quase uma hora da madrugada, com a lua já se encaminhando para o horizonte, quando Gena chegou acompanhada de seu marido e de seus três filhos. Ela, que já vinha com o rosto todo banhado em lágrimas – pois passara o caminho inteiro se acabando de chorar –, pulou do cavalo em que estava ainda na entrada do caminho que levava até o pátio da casa e logo se encaminhou para o local onde a mãe estava sendo velada, ignorando os cumprimentos que recebia pelo caminho. Seu marido era quem os agradecia.

Gena, ao entrar na sala, lançou-se sobre a mãe e quase a derrubou no chão. Seus gritos podiam ser ouvidos de muito longe. Sua dor era algo indescritível. Seus irmãos, que pareciam já ter se conformado um pouco mais, juntaram-se a ela naquele ensandecido desespero e também choraram bastante.

Por quase meia hora, houve muitas lamúrias e bastantes soluços.

No entanto, se não há felicidade que perdure para sempre, o sofrimento também não deve ser ad aeternum, e logo os ânimos foram se abrandando, e o silêncio se fez presente outra vez, sendo rompido, vez por outra, apenas por um soluço mais profundo ou um suspiro mais dolorido, vindos principalmente de Gena, que se aninhara ao lado da mãe e de lá não saíra mais.

Seu marido, Carmelito, um vaqueiro acostumado a dormir cedo e levantar-se sempre de madrugada para a lida com o gado, sentou-se em um pequeno tamborete um pouco mais afastado, encostado logo à parede, tentando ao máximo vencer o sono, mas, vez por outra, dava breves cochiladas, das quais despertava com os sons de ais que sua esposa emitia em involuntárias demonstrações de sofrimento pela perda.

Quincas estacionara sua velha cadeira de rodas no lado oposto de Gena, mas não tão próximo ao caixão, pois já tinha passado por essa fase e agora lamentava muito mais sua vida a partir dali do que a própria perda da mãe. Alguém o ouvira dizer, quase em sussurro entre um suspiro e outro, que não era justo ele ficar nesse mundo sem sua amada mãe.

Geta estava sentada ao lado do esposo, num banco rústico, em um canto mais afastado, e, vez por outra, dormitava alguns minutos, acordando sobressaltada com os suspiros da irmã.

A noite, que avançava lentamente, alcançara aquele horário em que o silêncio se faz presente em qualquer lugar, onde tudo se aquieta e todos parecem dormir. Na sala, meia dúzia de gatos pingados ainda se aguentava acordada, enquanto outros, lá fora, rodeavam uma fogueira improvisada, num silêncio quase absoluto, sendo rompido, vez por outra, por alguma estória que envolvesse a falecida e suas benfazejas práticas, tanto de competente parteira quanto de forte benzedeira.

A falecida, que estivera entrevada numa cama por mais de cinco anos, tinha ficado com as articulações das pernas atrofiadas e, por isso, fora necessário amarrá-la dentro do caixão para que permanecesse na posição adequada.

No entanto, devido às diversas evoluções que o corpo enfrenta logo após ter todas as suas funções vitais cessadas – rigidez cadavérica e inchaço pela produção de gases – e ao fato de os nós que prendiam as pernas de Dona Niltinha estarem bem apertados, impedindo que o corpo retornasse ao estado habitual dos últimos cinco anos, ela, num rápido movimento, levantou-se de supetão e ficou sentada no caixão, como alguém que acaba de despertar de um terrível pesadelo.

Gena, que a todo tempo clamava pela mãe em profundo desespero, foi a primeira a correr, deixando para trás tanto a mãe por quem tanto lamentava quanto o marido ou qualquer outro que fosse.

Carmelito, seu marido, que havia colocado um dos pés entre as travessas do tamborete, ao sair correndo apavorado, trouxe consigo uma das travas do pequeno banco, mas também deixara para trás uma considerável tira de pele da própria canela.

Geta e o marido saíram pela porta da sala aos trambolhões, um caindo sobre o outro e se levantando logo em seguida. Os demais fugiram como puderam.

Teve gente saindo até mesmo pela janela.

Os que estavam do lado de fora, vendo e ouvindo todo aquele alvoroço, também correram em disparada, sem ao menos saber do que se tratava. Um deles, ao tentar passar por cima da fogueira e cair sobre ela, acabou queimando ambos os pés e ferindo uma das mãos.

Depois de alguns minutos, quando os mais corajosos decidiram retornar para verificar o que realmente havia ocorrido, se depararam com a falecida sentada no caixão, com o corpo pendido para um dos lados, quase caindo ao chão.

A partir de uma observação mais detalhada, logo se soube o motivo de aquilo ter acontecido. O corpo de Dona Niltinha rapidamente foi devidamente acondicionado ao seu caixão, e todos puderam fazer um breve inventário dos possíveis danos que cada um havia sofrido na desvairada fuga.

No desespero que cada um enfrentara, todos esqueceram o pobre Quinca e, quando finalmente deram por falta dele, perceberam que sua cadeira de rodas estava vazia. Nesse momento, organizou-se uma verdadeira frente de buscas para tentar encontrá-lo.

Por mais de meia hora, chamaram por seu nome. Primeiro, dentro da casa; depois, ao redor, pelo lado de fora; e, em seguida, um pouco mais distante, mesmo que aquilo parecesse um completo absurdo, pois, em toda sua vida, ele jamais dera um único passo sequer.

Mesmo assim, fizeram uma varredura em um raio de quase duzentos metros ao redor da casa e, quando já estavam prestes a desistir e esperar pelo nascer do sol, encontraram-no morto, enrolado nos arames farpados de uma pequena cerca que circundava um velho chiqueiro.

 De alguma forma, – sabe lá Deus como – ele havia descido de sua cadeira e fugido como todos os outros fizeram, mas, em completo desespero e sem saber para onde estava indo, acabou se enrolado ao arame, morrendo enforcando. Sua mãe que sempre cuidara dele, ouviu suas preces e veio buscá-lo...

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Asas nos pés da fugitiva

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“Se opuseram, senhora.”

Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.

“Basta!”

Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.

“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”

“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”

Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!

— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.

E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.

Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.

Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.

— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.

— E se perguntar-me para onde?

— Conte o que sabe.

— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!

— Exatamente, querida! Conte o que sabe.

Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”

E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.

A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria.  Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”

Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”

Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”

Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.

“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”

E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.

E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.

O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.

Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.

Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.

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O Céu das Alfazemas

Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles. 

Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome? 

Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida. 

Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–... 

Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes. 

Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar. 

E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar. 

O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Sepulte-me, Ana

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prometeram, 

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! 

Não há morte, não há honra, não há sono... 

Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar. 

Bate o peito, Ana... 

Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou... 

Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta. 

É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar. 

A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens. 

Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada. 

Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar. 

Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar. 

Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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O Retrato

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.

Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.

Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.

Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.

Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.

É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.

Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.

Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.

Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.

Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.

Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.

Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.

A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.

Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.

Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.

Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.

Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.

Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.

Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.

É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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