A angústia é uma farpa
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que floresceram em nós sem que, por vezes, pudéssemos perceber. Para a Psicologia, o “dar-sentido” é o valor real do ser que somos; entretanto, ainda sinto que há algo que nunca será amordaçado pelo discurso do ânimo: essa angústia tão familiar, que se manifesta de infindáveis formas.
Na imensidão mórbida do inautêntico, vemos o cansaço ofuscar o lume da angústia, vemos a hiperestimulação construir seu palácio de vidro ao redor do abismo desta aflição muda — o silêncio soturno é ouvido mesmo quando o alarde, dentro e fora de si, é inominável. Mesmo ocupados demais para nos voltarmos a nós mesmos, o poço da nossa constituição faz-se cada vez mais fundo — e não há como impedi-lo.
Mesmo assim, insistimos. E a rolagem infinita, guiada pelo nosso dedo indicador, é o glitter que cega nossos olhos, e vicia. Ora choramos, ora rimos; em frações de segundos, temos uma descarga mental absurda. Ora nos preocupamos com as contas mensais, ora rezamos pelo fim do mundo. A angústia é o pano de fundo de um cotidiano abarrotado de razoabilidade.
Podemos temer uma nova pandemia, a terceira guerra ou, ainda, a revolução das máquinas; a mudez ensurdecedora do espírito continuará perturbando nosso banho de dopamina, deixando um rastro úmido de desalento sôfrego. E, quanto mais o tempo passa, estando cada vez mais soterrada, a angústia, uma hora, torna-se maior do que aquele a quem ela pertence — mesmo oprimida e muda, mesmo tão ínfima como uma farpa.
Uma crítica é apenas uma crítica; uma verdade é sempre mais do que uma verdade. Podemos deixar as redes sociais? Podemos abraçar o tédio? O tempo transfigurado em infinito sem um ecrã luminoso para a bel lascívia psíquica? Não podemos. E os que podem estão mortos — incapazes de lidar com o tamanho de suas angústias ou iludidos pelo ego de suas pseudo-superioridades sobre a massa que consideram ignorante.
Estamos dispostos a discordar e questionar, não estamos dispostos a pensar, quietos.
Há anos — é minha percepção — não escrevo pensamentos e reflexões, tomada pela sensação de que meu pensar trará ódio daqueles que vagam, almas vagantes, na world wide web. Intolerantes por toda parte. E eu mesma, talvez, veja a hipocrisia no espelho. Ornamental e sublime hipocrisia. Pela constância com que me vejo nesse mundo, a Matrix dentro da Matrix, um sonho dentro de um sonho, eu não poderia pensar diferente disso.
Mas o que mais dói no silêncio da minha angústia é o quão alto ela grita e o quão solitária ela faz eu me sentir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.
Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear.
Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação.
Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença.
E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio.
O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza.
Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre).
O Som das Engrenagens
As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo.
Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante.
Foi então que a viu.
No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente.
Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo.
— Tu andas perdido, como sempre.
Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente.
— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia?
Ela sorriu de forma enigmática.
— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando?
Ele desviou o olhar para os dois sois difusos.
— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo?
Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela.
— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante?
Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê.
O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada.
Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar.
Entre a Máquina e o Sangue
Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir.
Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante.
Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera.
A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido.
Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar.
Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio?
Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade.
Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens.
E talvez fosse a hora de visitar Cassandra.
Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Além do Ser
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
"Torna-te aquilo que és" abrange o aceitar sua condição única, mas, no mesmo nível, traz a significação do eterno tornar-se, pois nunca, de fato, poderemos dizer que somos. Tornar-se o que se é não é possível, pois não somos. "Ser" refere-se a uma condição substancial, e o que "somos" é, tão somente, um vir-a-ser perpétuo. Sob o véu da morte lúgubre, findamos sem nunca termos sido. E, se "eterno vir-a-ser" é ser, então somos e não somos ao mesmo tempo.
A razão pela qual esta reflexão está sendo redigida não é apenas o deleite de pôr o "ser" em questão – como nos velhos tempos da filosofia. Estou certa de que a condição de ruína da humanidade reside na incapacidade de aceitar sua condição nadificante e, portanto, volto-me à questão do ser. Mas esta não é a única questão, pois "ser" é uma criação humana.
O que nos torna ainda mais dispostos ao vazio pertencente é o fato de que nada na natureza "é". O "ser-algo" é essencialmente uma questão humana. Nada que respira, exceto a humanidade, está "sendo", uma vez que quem criou o conceito de "ser" nem sempre existiu. As coisas que respiram estavam aqui, existindo. E nós, incapazes de tão somente existir, criamos o conceito de "ser".
"Ser" é, para nós, profundamente mais valioso do que "existir" – embora seja justamente no primeiro caso que a condição nadificante nos perturba. Enquanto você apenas existe, o "nada" não é uma questão. Mas, a partir do momento em que se "é" (do verbo "ser"), o nada torna-se o fantasma que se oculta nas sombras de seus próprios corpos. A dádiva de "ser" é a maldição de carregar o seu peso nadificante. "Ser" deveria significar uma condição superior ao "existir", mas tornamo-nos aquilo que somos apenas para desvelarmos que somos nada, tal como tudo o que existe.
"Tornar-se" implica que há algo a advir, entretanto, se o Nada é a única verdade, não há um "advir" a desvelar. Portanto, redundante, a frase se manifesta assim: "Nada há a advir para aquilo que nada se é". Se o Nada é o invólucro da vida, por que viver? Vivemos, justamente, em função do Nada; sem ele, não haveria vida tal como a conhecemos. Aceita-te como o Nada que és – talvez esta seja a frase correta.
Em um tempo de idolatria ao "sou", a revelação do Nada é, decerto, perturbadora. O Nada é dificilmente aceito pela lógica da racionalidade, o que é um fato curioso, já que viemos dele e voltaremos a ele. Alguns se questionam sobre o que "é" o Nada; alguns o chamam de Deus. Outros dizem que não pode haver um "nada", pois o "nada" é o insignificante ou o ausente. Mas o Nada não é insignificante, tampouco ausente – por isso é tão difícil para a mente humana aceitá-lo. O Nada é nada.
"Somos" o Nada, vivemos o Nada, estamos no Nada. O Nada é o único Deus. Somente no Nada é possível um Algo – ele é o ambiente propício, a condição basilar. Então, antes de tornar-te aquilo que és, reconhece-te como parte de uma totalidade nadificante. Pois não importa o que tu és, pois não "és"; o que importa é o que chamo de "Antesser": tudo o que se faz, pensa, expressa, sabe, sente e aprende no processo do caminhar consciente sobre o Nada. Isso é antesser.
"Antesser" é um conceito humano para significar a existência em suas mutabilidades e características psíquicas, considerando a constituição nadificante própria da vida. Não apenas considerando-a, mas principalmente valorizando-a. Antes de "sermos" – se é que é possível "ser" – precisamos antesser.
Eis aqui mais uma bela razão para viver: a condição da vida, florescida no solo nadificante, é a única que pode nos permitir o Antesser. Se digo que “sou”, é porque a condição de "ser" já se significou ou como um estado a ser alcançado, como um destino final, uma verdade imutável e perpétua. Enquanto isso, antesser é essencialmente provisório, instável, efêmero. Como um livro, ele faz-se de capítulos que contam uma história completa. Se antessou, é porque sei que tudo o que fiz e farei, tudo o que já pensei e hei de pensar; tudo o que aprendi, conheci, me arrependi ou mudei – absolutamente tudo, no passado, presente e futuro – faz-me na profundidade que me significa. E isso não é linear ou preditivo. Não é algo a ser alcançado ou algo a se tornar. É plural e total, contínuo e dinâmico, assentado sobre o Nada.
Antesser não é o mesmo que Estar. O Antesser considera toda a sua historicidade, mutações, conquistas, compreensões, conhecimentos e sabedorias. E, principalmente, sua condição de Nada – antes disso tudo e depois disso tudo. Eu antessou porque o que sou é Nada: o Nada antes e o Nada depois. Entre ambos, antessou o que antessou. E não há como não antesser enquanto houver vida. E mesmo que eu antesseja na certeza de "ser" algo, isto é, pois, antesser.
Sim, ser e antesser são criações humanas. Mas "ser" foi criado para identificar as coisas que existem e, depois, para significá-las: aquilo "é" um peixe, eu "sou" uma pessoa, eu "sou" especial e você não "é" especial. Em antesser, tudo isso é válido, mas sob outra ótica: não posso ser especial a todo momento, nem para todas as pessoas. É ridículo considerar que "sou" bonita ou feia, pois sou ambos – depende do dia, de quem olha, de minhas condições físicas. Se estou mais arrumada, se dormi mal. Apegados ao "ser", limitamos nossa compreensão da condição humana.
"Tornar-te aquilo que és"? Isso implica que "és" algo e que não se pode tornar-se o que não se é. Mas "somos" humanos tal como um peixe "é" um peixe? Tal como um peixe não pode "ser" um macaco? Pois um peixe não só não pode ser um macaco, como também não pode agir ou parecer um macaco. Nós, humanos, vamos além do "ser". Ainda assim, dizemos "eu sou", tal como um peixe "é".
Antesser afasta a ideia de que o que "sou" é o que "sou" e que não posso ser outra coisa além do que estou fadado a ser. Antesser é sobre todas as possibilidades da existência humana – possibilidades que nos diferem de um simples peixe. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, podemos aprender a nadar. Antessomos humanos porque, mesmo que não sejamos um peixe, criamos maquinários que nos permitem mergulhar nas profundezas do oceano.
Antesser é "ante" porque indica anterioridade – não no sentido cronológico, mas no sentido de estar sempre antes do ser: antes que eu possa ser algo, eu mudo; antes que o imutável me alcance, eu me desvio; antes que eu me defina como caminhante, aprendo a nadar. Portanto, não sou apenas caminhante. Sou caminhante e nadador. E um peixe é apenas um nadador. E mesmo que sua espécie evolua para além disso, ele nunca terá o mesmo grau de possibilidades de um humano. Eis a razão do antesser.
"Torna-te aquilo que ante-és" – é o que, por fim, faz verdadeiro sentido. Pois aceitar o antesser é aceitar sua condição dinâmica e sua capacidade de tornar-se qualquer coisa.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Naufrágio
A mais caudalosa turbulência, | a rebeldia que transportava espumas | para o colo do barco, | fazia surgir o medo constante | de conhecer o fundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
A mais caudalosa turbulência,
a rebeldia que transportava espumas
para o colo do barco,
fazia surgir o medo constante
de conhecer o fundo escuro do oceano.
Ao sobressaltar a visão,
embaçador, mas lúgubre,
com a fronte alçada em desafio.
Partindo caminho, devastando e empurrando o próprio mar,
mas não há disputa, nem trégua.
Antes do golpe, toda dança e cerimônia,
um ritual, tal qual uma primitiva celebração ou
uma câmera lenta moderna.
Baforando ódio por sobre o barco, engolindo, aglutinando madeira, carne, água e trovões.
Um baile de máscaras molhadas,
que ficará apenas registrado na história das águas.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Simbologia de uma torre imponente
Definha’s estruturas obra inacabada | Abalada em si pela agonia | Bela torre bradava ao céu alada | Babel em momento de alegria…
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Definha’s estruturas obra inacabada
Abalada em si pela agonia
Bela torre bradava ao céu alada
Babel em momento de alegria
Faz sempre nos passos dos gigantes
O vínculo mágico da apatia
Facínoras! Amores tão fluentes
Os quais escarram minh’agonia
Um poroso monstro nasceu triste
Por alusão a grandeza da torre
Fatigado em preâmbulos morre
Escondendo-se à agonia desiste
De ser obra onipotente, orgulhosa
A tempestade derruba, ela escorre.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Crisálida do Vazio
O que sou senão um mero errante, | Um grão de areia à beira de um abismo, | Um mero sussurro em um tempo vacilante, | Moldado em pranto, pó e sofismo?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que sou senão um mero errante,
Um grão de areia à beira de um abismo,
Um mero sussurro em um tempo vacilante,
Moldado em pranto, pó e sofismo?
Quem criou meu ser nessa névoa escura,
Que mãos moldaram minha carne e pensamento?
Por que a razão me machuca e me tortura,
Se sou apenas cinzas jogadas ao vento?
Eu seria vestígios de um delírio,
Sonhado por um deus esquecido?
Ou seria um vulto, fantasma sem martírio,
Que ao nada volta, em tempo perdido?
Se tudo é pó, se tudo é ausência,
Por que meus olhos ardem ao olhar?
Por que persiste em nós uma consciência,
Se o fim irá nos sufocar?
Talvez sejamos somente ilusões,
Que caminham entre brasas frias,
Almas perdidas, pequenas constelações,
Brilhando, já mortas, na noite vazia.
E se formos apenas um espelho partido,
Refletindo o vazio em fragmentos?
E se a vida for o mais cruel dos mitos,
Nos condenando a frios sentimentos?
A terra nos engole sem piedade,
O tempo apaga nomes e glórias,
Mas algo em nós se recusa à verdade,
Teimando em escrever a própria história.
E assim seguimos como sombras retorcidas,
Com medo do que vem e do que virá,
Pois ser é somente buscar, curar nossas feridas,
E nunca, nunca se encontrar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Adormeça
Melíflua, te entorpeças no sonhar; | Visões de horror e encanto surgirão | E salva na tu’angústia vais estar | Enquanto lamentar teu coração;…
Melíflua, te entorpeças no sonhar;
Visões de horror e encanto surgirão
E salva na tu’angústia vais estar
Enquanto lamentar teu coração;
Amável, durma qu’inda, bem profundo,
Na onírica verdade do teu manto,
Erguendo-se te estás, num novo mundo;
Querida, frágil e bela, traz teu canto;
No interno de teu ser tão preservado
Estás sempre abrigada, protegida,
Portanto feche os olhos delicados…
E acalme o coração e a alma sofrida
O alvor desponta mudo em tua existência
A pôr-se melancólico — solvência
Da mágoa d’esta terra corrompida.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
O que é um Anfêmero?
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nota da autora Sahra Melihssa: Este artigo
foi escrito há alguns tantos mêses, no entanto,
eu havia definido o nome deste livro-diário como
Memórum. Este nome, todavia, me soava como algo
póstumo e isso me incomodava. Por isso, renomeei
para Anfêmero, uma palavra esquecida que remete
ao sentido de cotidiano e, ao mesmo tempo, tem
um peso inestimável, tanto em sua pronúncia quanto
na constituição que possui (sua grafia) — lembra-nos da efemeridade da vida e nos conecta com esta genuína verdade; talvez uma força contrária à finitude, mostrando-nos que apesar do tempo imposto ao nosso ser, aquilo que redigimos nos eterniza em páginas polén.
Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Ao Anfêmero pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Anfêmero é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Anfêmero, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Anfêmero, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento. Boa leitura, núridos queridos, imerjam-se na profundez do Anfêmero.
Cada um deve ser autor de seu próprio Anfêmero. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Anfêmero para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Anfêmero deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Anfêmero, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.
Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Anfêmero, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Anfêmero; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Anfêmero.
A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Anfêmero é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.
Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Anfêmero como hábito produz:
1) Exercício e expansão da Memória;
2) Reforço da atenção diária;
3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo;
4) Melhoria na habilidade de lógica;
5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Anfêmero, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Anfêmero, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.
O Anfêmero, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Anfêmero, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial.
1) Queira, de verdade, escrever um Anfêmero;
2) Dedique-se ao seu Anfêmero;
3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável;
4) Trate seu Anfêmero como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser;
5) Entenda seu Anfêmero como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento.
Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Anfêmero e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos têm suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Anfêmero é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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A Casa dos Quatro
Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar.
Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera.
- E tu, menina, comeste tangerina?
- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar?
- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar.
- Nada... nada. Outro dia frio; tô cansada do inverno. Tô é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Serei Póstuma?
Temer tornar-se póstuma poeta | Amarga-me a ponto d’um malfeito: | Tirar d’um literato a sua costela | E pô-la, ensanguentada, no meu peito…
Temer tornar-se póstuma poeta
Amarga-me a ponto d’um malfeito:
Tirar d’um literato a sua costela
E pô-la, ensanguentada, no meu peito.
Na lira-languidez que aqui sonuro,
Segredo os meus mais lídimos anseios…
Regai-vos meu caixão de cedro escuro
Com vosso admirar que tarda alheio!
No lôbrego noturno ler-me-eis
E então, pois, sentireis o meu plangor
Ao pé d’ouvido: “Póstuma” direi…
P’ra alguns, elã; p’ra outrem, horror!
Verei persignar-se espavoridos
Aqueles editores, corrompidos,
Dirão: “Misericórdia!” e os bons: “Valor!”.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Flor da Morte
Mui bela, azulínea, pulcro aroma… | Enflora desolada finitude… | Ó, pétalas de seda! Eis meu sintoma: | Saudade… terra úmida, ataúde…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Mui bela, azulínea, pulcro aroma…
Enflora desolada finitude…
Ó, pétalas de seda! Eis meu sintoma:
Saudade… terra úmida, ataúde…
Ornada em pólen pútrido, tão lhana…
De caule frágil, símil à alma nossa,
Silente à noit’escura e vil, profana,
Insigne inda quant’horror esboça…
Regada com sorrisos e tristuras,
Sabeis d’estes quem somos, és o Norte…
Perfume sobre a última arfadura…
Execram-te, mas sabem quanta sorte
É ver-te no rebento em choro santo,
Depois, quando senis, se bem, portanto,
Entendem teu valor, ó Flor da Morte.
Sonura escrita por Sara Melissa de Azevedo em 05 de fevereiro de 2025, registrada na Câmara Brasileira do Livro pela Editora Castelo Drácula.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Sonuras”:
Velório Sombrio
Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Porquanto és pó, e ao pó retornarás...”. — Gênesis 3,19
Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de entretenimento da população local são bastante reduzidas, até mesmo um velório pode se tornar um grande acontecimento social. E se o falecido for alguém muito querido, logo se transforma num grande evento, atraindo a atenção e a participação de quase toda a população, tanto do próprio lugarejo quanto de suas cercanias.
Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino. Isto é, há um angustiante misticismo carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto arcaicos, que se faz presente. O homem, nessas regiões, ainda está muito ligado à natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião, com seus dogmas e costumes, também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas, a fim de que, no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno lhes seja possível.
Dona Niltinha, sublime pessoa que a muitos tinha trazido à vida, “... havia se encontrado com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...”, como diria aquele ilustre poeta da Paraíba.
Comparando à quantidade de gente que geralmente vive nessas regiões, havia até um número considerável de pessoas, mesmo se tratando de um dia de meio de semana. Os que estavam ali presentes, de forma alguma mediriam qualquer tipo de esforço para prestar suas últimas homenagens àquela nobre criatura, que era muito querida e bastante estimada por todos aqueles que a conheciam.
Quem ainda não havia chegado, mesmo que apenas para prestar suas condolências e logo voltar a seus afazeres, certamente ainda haveria de comparecer, ainda que fosse somente para o sepultamento, que ocorreria no dia seguinte, após o velório que atravessaria toda a noite, aguardando parentes e amigos distantes para o último adeus.
Para aquele evento em si, a noite estava bastante propícia, pois era clara como o dia. A lua quase cheia ocupava o meio do céu naquele momento, e a brisa que soprava do rio estava fresca e perfumada por causa das flores das diversas árvores que florescem no Cerrado nessa época do ano. No entanto, o odor mais marcante naquele momento era o de duas espécimes em particular: no quintal da falecida, as duas frondosas “Damas da Noite”, bastante floridas, exalavam um aroma inebriante, que tomava conta de toda aquela baixada.
As inúmeras criaturas da noite também se faziam presentes, ocupando-se do som ambiente com suas incansáveis serenatas. No gramado, grilos cricrilavam sem parar; na lagoa, as rãs coachavam sem descanso; e, vez por outra, uma coruja dava um voo rasante, emitindo seu agourento piado.
Nessas regiões interioranas, esse tipo de evento envolve todos os familiares, amigos e conhecidos, e é sempre rodeado de certos costumes que, para muitos, podem causar até certa estranheza. O velório acontece geralmente na sala, onde o corpo é deixado no centro, para que haja espaço para que parentes e amigos possam se agrupar em derredor. Por mais simples e humilde que a família possa parecer, ainda assim, na cozinha é preparada bastante comida para os convivas que passarão a noite.
O café – que jamais pode faltar – é servido a todo momento. Dependendo da família do falecido, no decorrer da noite, doces e guloseimas também são oferecidos. Há uma espécie de rodízio entre os que ficam na sala próximo ao caixão: alguns se lamentando e outros tentando consolar os que lamentam. Outros ficam do lado de fora da casa, conversando, contando anedotas e até mesmo fazendo pequenas negociatas.
Quando a conversa externa se torna mais animada e o barulho se mostra um tanto quanto desrespeitoso, sempre há alguém para chamar a atenção. Nesse momento, é feito o rodízio.
Levando-se em conta que a noite é bastante longa e, em muitas ocasiões, acompanhada de madrugadas muito frias, sempre há um ou outro que acaba levando consigo uma garrafa de algo um pouco mais forte para molhar a garganta e aquecer o estômago.
É certo que essa tal regalia fica discretamente escondida, para que não haja nenhum tipo de comentário discriminatório, mesmo que todos saibam que há e onde está escondida.
No decorrer da noite, geralmente ficam despertos os parentes mais próximos e mais amorosos, os amigos íntimos e alguns poucos conhecidos. São, em sua maioria, pessoas mais velhas e ainda com vigor para enfrentar uma noite inteira acordadas. Há também os denominados papa-defuntos, que sempre fazem questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre, desde o início do velório até o cemitério, para o sepultamento.
A falecida em questão não era uma pessoa qualquer, mas sim Helenilta Marcondes Narciso, alcunhada Dona Niltinha, afamada parteira e poderosa benzedeira. Sua fama corria dezenas de léguas e atravessava serras e rios. Incontáveis pessoas tinham chegado a este mundo com seu auxílio, e outras tantas, ela tinha evitado que saíssem dele antes da hora.
Além de parteira de mãos ungidas, também benzia contra inúmeras moléstias, desde quebranto e mau-olhado até picada de cobra venenosa. Ela mesma tinha tido apenas três filhos, pois, sendo mulher instruída na prática da magia e nos conhecimentos das ervas medicinais, sabia muito bem sobre beberagens para evitar gravidez.
Desde que tivera Joaquim – seu filho caçula, chamado “Quinca” –, que nascera com as pernas deformadas, ficou temerosa de que ela ou seu falecido marido talvez não tivessem mais condições de procriar filhos saudáveis.
Além do aleijado Quinca, que nunca se casara e ainda vivia com a mãe, Dona Niltinha tivera duas outras filhas: Gertrudes – chamada “Geta” –, a mais velha, uma competente dona de casa que vivia numa casa próxima e cuidara da mãe nos últimos anos em que ela esteve acamada; e Genoveva – chamada “Gena” –, a filha do meio, uma professora de primário que vivia um pouco mais distante, numa cidade próxima. Ambas já eram casadas e tinham filhos e filhas.
Dona Niltinha tivera o privilégio de amparar ambas as filhas em seus partos e auxiliar seus netos a chegarem a este mundo. Geta e Quinca, que já tinham chorado bastante a perda da mãe, ainda aguardavam a chegada de Gena para chorarem um pouco mais.
Gena, que vivia cerca de sete léguas de distância, havia estado na casa da mãe no final de semana anterior. Contudo, tivera que retornar para sua casa e para seus afazeres profissionais na escolinha onde trabalhava, pois, até então, sua mãe não era nenhum poço de saúde, mas também não dera mostras de que morreria a qualquer momento.
É certo que jazia numa cama há mais de cinco anos, pois, tal qual o próprio Quinca, também perdera os movimentos das pernas. Gena até mesmo comentara que achava que sua mãe estava mais corada e com maior disposição. Mas, como a morte, em muitas ocasiões, vem sem avisar, na tarde de quinta-feira, logo após o almoço, Dona Niltinha reclamara de fortes dores no peito e pediu que Geta lhe fizesse um chá de erva-cidreira, que ela tomou com muito gosto, bendizendo a filha pelo carinho para com ela.
Geta, percebendo que a mãe dormia sossegadamente após o chá, decidiu ir rapidamente até sua casa para resolver alguma pendência doméstica que exigisse sua presença e logo retornar para ver como sua mãe estava. No entanto, seus afazeres tomaram mais do seu tempo do que imaginava, e ela só retornou no final da tarde, já com o jantar pronto, tanto para sua mãe quanto para seu irmão Quinca.
Este, por sua vez, estava sentado em sua cadeira de rodas debaixo da frondosa e florida paineira logo à frente da casa, contemplando o final de mais uma tarde. Geta se encaminhou para dentro da casa, mas, em poucos minutos, voltou para fora aos prantos, dizendo, em desvairado desespero, que sua mãe estava morta.
Depois disso, foi um rebuliço só. Em menos de uma hora, a pequena casa já estava apinhada de gente. Dona Niltinha fora dada como morta por volta das cinco da tarde e, antes das oito horas da noite, já estava banhada, amortalhada e convenientemente enfeitada para o velório.
No caixão, que fora rapidamente improvisado pelos vizinhos mais habilidosos, havia diversas flores diferentes, dando um aspecto bastante primaveril à querida falecida, que deixava atrás de si um rastro de gratidão e muitas boas histórias para todos aqueles que a conheciam.
Dona Niltinha, em vida, não era uma criatura dotada de grande beleza, mas também não era de assustar ninguém com sua aparência. No entanto, parece que a morte não tinha sido muito gentil com ela, e ali, deitada no caixão, não era uma imagem muito interessante de se ver.
Suas magras mãos, que, devido à artrite, tinham adquirido o formato de conchas, pareciam ter crescido e ficado com um aspecto assustador pelo tamanho dos dedos e pelas unhas amareladas. Seu rosto ossudo estava encovado e com uma aparência bastante maquiavélica, como se tramasse uma grande maldade. Para Quinca e Geta, era apenas sua falecida mãe que estava ali, e o desconsolo de ambos era algo inominável.
Quinca era o mais choroso dos dois, pois sabia que, a partir dali, sua vida não seria nada fácil sem o carinho e a proteção de sua mãe.
Já passava da meia-noite, quase uma hora da madrugada, com a lua já se encaminhando para o horizonte, quando Gena chegou acompanhada de seu marido e de seus três filhos. Ela, que já vinha com o rosto todo banhado em lágrimas – pois passara o caminho inteiro se acabando de chorar –, pulou do cavalo em que estava ainda na entrada do caminho que levava até o pátio da casa e logo se encaminhou para o local onde a mãe estava sendo velada, ignorando os cumprimentos que recebia pelo caminho. Seu marido era quem os agradecia.
Gena, ao entrar na sala, lançou-se sobre a mãe e quase a derrubou no chão. Seus gritos podiam ser ouvidos de muito longe. Sua dor era algo indescritível. Seus irmãos, que pareciam já ter se conformado um pouco mais, juntaram-se a ela naquele ensandecido desespero e também choraram bastante.
Por quase meia hora, houve muitas lamúrias e bastantes soluços.
No entanto, se não há felicidade que perdure para sempre, o sofrimento também não deve ser ad aeternum, e logo os ânimos foram se abrandando, e o silêncio se fez presente outra vez, sendo rompido, vez por outra, apenas por um soluço mais profundo ou um suspiro mais dolorido, vindos principalmente de Gena, que se aninhara ao lado da mãe e de lá não saíra mais.
Seu marido, Carmelito, um vaqueiro acostumado a dormir cedo e levantar-se sempre de madrugada para a lida com o gado, sentou-se em um pequeno tamborete um pouco mais afastado, encostado logo à parede, tentando ao máximo vencer o sono, mas, vez por outra, dava breves cochiladas, das quais despertava com os sons de ais que sua esposa emitia em involuntárias demonstrações de sofrimento pela perda.
Quincas estacionara sua velha cadeira de rodas no lado oposto de Gena, mas não tão próximo ao caixão, pois já tinha passado por essa fase e agora lamentava muito mais sua vida a partir dali do que a própria perda da mãe. Alguém o ouvira dizer, quase em sussurro entre um suspiro e outro, que não era justo ele ficar nesse mundo sem sua amada mãe.
Geta estava sentada ao lado do esposo, num banco rústico, em um canto mais afastado, e, vez por outra, dormitava alguns minutos, acordando sobressaltada com os suspiros da irmã.
A noite, que avançava lentamente, alcançara aquele horário em que o silêncio se faz presente em qualquer lugar, onde tudo se aquieta e todos parecem dormir. Na sala, meia dúzia de gatos pingados ainda se aguentava acordada, enquanto outros, lá fora, rodeavam uma fogueira improvisada, num silêncio quase absoluto, sendo rompido, vez por outra, por alguma estória que envolvesse a falecida e suas benfazejas práticas, tanto de competente parteira quanto de forte benzedeira.
A falecida, que estivera entrevada numa cama por mais de cinco anos, tinha ficado com as articulações das pernas atrofiadas e, por isso, fora necessário amarrá-la dentro do caixão para que permanecesse na posição adequada.
No entanto, devido às diversas evoluções que o corpo enfrenta logo após ter todas as suas funções vitais cessadas – rigidez cadavérica e inchaço pela produção de gases – e ao fato de os nós que prendiam as pernas de Dona Niltinha estarem bem apertados, impedindo que o corpo retornasse ao estado habitual dos últimos cinco anos, ela, num rápido movimento, levantou-se de supetão e ficou sentada no caixão, como alguém que acaba de despertar de um terrível pesadelo.
Gena, que a todo tempo clamava pela mãe em profundo desespero, foi a primeira a correr, deixando para trás tanto a mãe por quem tanto lamentava quanto o marido ou qualquer outro que fosse.
Carmelito, seu marido, que havia colocado um dos pés entre as travessas do tamborete, ao sair correndo apavorado, trouxe consigo uma das travas do pequeno banco, mas também deixara para trás uma considerável tira de pele da própria canela.
Geta e o marido saíram pela porta da sala aos trambolhões, um caindo sobre o outro e se levantando logo em seguida. Os demais fugiram como puderam.
Teve gente saindo até mesmo pela janela.
Os que estavam do lado de fora, vendo e ouvindo todo aquele alvoroço, também correram em disparada, sem ao menos saber do que se tratava. Um deles, ao tentar passar por cima da fogueira e cair sobre ela, acabou queimando ambos os pés e ferindo uma das mãos.
Depois de alguns minutos, quando os mais corajosos decidiram retornar para verificar o que realmente havia ocorrido, se depararam com a falecida sentada no caixão, com o corpo pendido para um dos lados, quase caindo ao chão.
A partir de uma observação mais detalhada, logo se soube o motivo de aquilo ter acontecido. O corpo de Dona Niltinha rapidamente foi devidamente acondicionado ao seu caixão, e todos puderam fazer um breve inventário dos possíveis danos que cada um havia sofrido na desvairada fuga.
No desespero que cada um enfrentara, todos esqueceram o pobre Quinca e, quando finalmente deram por falta dele, perceberam que sua cadeira de rodas estava vazia. Nesse momento, organizou-se uma verdadeira frente de buscas para tentar encontrá-lo.
Por mais de meia hora, chamaram por seu nome. Primeiro, dentro da casa; depois, ao redor, pelo lado de fora; e, em seguida, um pouco mais distante, mesmo que aquilo parecesse um completo absurdo, pois, em toda sua vida, ele jamais dera um único passo sequer.
Mesmo assim, fizeram uma varredura em um raio de quase duzentos metros ao redor da casa e, quando já estavam prestes a desistir e esperar pelo nascer do sol, encontraram-no morto, enrolado nos arames farpados de uma pequena cerca que circundava um velho chiqueiro.
De alguma forma, – sabe lá Deus como – ele havia descido de sua cadeira e fugido como todos os outros fizeram, mas, em completo desespero e sem saber para onde estava indo, acabou se enrolado ao arame, morrendo enforcando. Sua mãe que sempre cuidara dele, ouviu suas preces e veio buscá-lo...
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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A Travessia
Sob o manto escuro da noite, eu a vejo, | uma ponte feita de ossos e madeira antiga. | Ela desperta com o som de trovões, | um caminho que chama meu nome…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sob o manto escuro da noite, eu a vejo,
uma ponte feita de ossos e madeira antiga.
Ela desperta com o som de trovões,
um caminho que chama meu nome na escuridão.
O vento me envolve como se estivesse vivo,
meus segredos rasgam meu peito querendo sair.
Cada passo me corta como uma lâmina,
e a luz dos raios revelam minhas feridas que fingi esquecer.
As tábuas rangem sob meu arrependimento,
como se confessassem meus pecados ao infinito.
A chuva cai, não como uma benção, mas como sentença,
lavando meu rosto com lágrimas que não derramei.
Diante de mim, formas se erguem na penumbra,
amores que destruí, promessas que quebrei,
rostos que banhei com indiferença quase mortal.
Agora me encaram, famintos por respostas.
A cada passou que dou, a ponte me consome,
meu fôlego se perde em meio aos murmúrios.
O Universo ri zombando de minha fraqueza,
e eu, frágil, encaro verdades que não posso fugir.
Ao fim, o abismo me espera, escancarado,
mas não há queda, apenas um cruel silêncio.
Deixo parte de mim naquela maldita travessia,
um pedaço de mim que nunca irei buscar.
Quando eu olho para trás, a ponte some,
engolida pela noite e sua escuridão eterna.
Eu sigo em frente, mas não sou o mesmo,
pois agora carrego o peso do que sempre fui.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Asas nos pés da fugitiva
Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Se opuseram, senhora.”
Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.
“Basta!”
Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.
“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”
“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”
Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!
— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.
E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.
Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.
Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.
— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.
— E se perguntar-me para onde?
— Conte o que sabe.
— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!
— Exatamente, querida! Conte o que sabe.
Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”
E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.
A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria. Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”
Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”
Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”
Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.
“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”
E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.
E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.
O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.
Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.
Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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À Crusoé
A cara não é feia nem bonita sem saber o que é feio e belo | Como Crusoé na ilha tentando fazer-se a si | Um personagem fictício como os outros…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Eu é o outro”
Arthur Rimbaud
A cara não é feia nem bonita sem saber o que é feio e belo
Como Crusoé na ilha tentando fazer-se a si
Um personagem fictício como os outros
Pois em si somente o vazio
Uma bola como alguém para ser ele mesmo
Uma comparação, um padrão, brigas, conversas,
[perdão]
O que seria do mágico sem o trágico?
Contente de que?
Com raiva de que?
Esbelto?
Gordo?
Imundo?
Com tudo que há de liberdade
Sem empurrões
Sem ideias
Necessidades
Com a fauna e a flora a te observar
Mas sem contigo participar
Nem dizer se é ou foi
O que? Algo? Alguma coisa?
A morte não tem sentido sem a vida
Destilar a sua consumação até esgotar
Agravar os erros e perdões
O amor de quem para quem
Como se poeta deixasse de ser
Morrendo sozinho na beira da praia
Como os ultrarromânticos de tuberculose no leito
Um Crusoé cansado de não sentir seu Eu
As estrelas com seu brilho próprio
Sobre um deserto despovoado
Meus cabelos não são somente meus cabelos
Eles são diferentes
Meus olhos não são somente meus olhos
Eles estão em mim e não no outro
Têm formas e introspecção singulares
[das de quem?]
Numa ilha, (no inóspito) [ninguém!]
Um olho, dois olhos, um cabelo
Só(s), somente
o eu é o outro e não há quem arranque isso de mim, de nós, de todo mundo
a não ser nós mesmos virando ilhas e desertos.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Sepulcral
Um beijo sepulcral na testa dada ao frio | Mais descoberta que a vida fora dos rumores | Um beijo traz imagens das carícias e das dores | Da vida gélida…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio
Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
Desciam. Tomando o último soneto, partiu
Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos
Jogou com a morte paciência à luz da lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu último o último dos seus vícios.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Tudo Acabou
Será que tudo acabou? | Quando se destrona o sono | A realidade pesa pelo abandono | E o suor da vida sem sonhos, inundou…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Será que tudo acabou?
Quando se destrona o sono
A realidade pesa pelo abandono
E o suor da vida sem sonhos, inundou
Será que tudo tombou?
Como as cargas d’água do seu preconceito
O trem descarrilado na estrada com defeito
O sonho da vida se furtou
Não se apresenta mais nas noites cruéis
Não se destina mais aos corpos fiéis
Livros, astrais... Mãos, sensibilidade...
Sumiram como as águas dos poços
Que alimentavam a sede do sertão
Desapareceram com as vozes da vaidade
[vazio]
Crianças, recreios, sonhos nas ruas...
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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A Ponte Sem Fim
Há uma ponte eterna que atravesso, | Da qual não vejo o fim, se a distância | Aumenta quando penso haver progresso — | Se feita é como as minhas esperanças…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Há uma ponte eterna que atravesso,
Da qual não vejo o fim, se a distância
Aumenta quando penso haver progresso —
Se feita é como as minhas esperanças…
Pois inda que pareça controverso,
Não posso mais parar: por ela avança
Meu sonho de chegar ao lado inverso,
Propósito de toda a minha andança…
Se vejo uma barreira no caminho,
Transtorno, tempestade — e estou sozinho —,
De um fato só, talvez, eu me arrependa:
É de não ter previsto o meu destino…
Não ter adivinhado o repentino
Porvir, que hoje imenso é de contendas…
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Baile de Máscaras
Sob o arco dourado do salão brilhante, | desliza a vida em passos intrigantes. | Um baile onde máscaras não revelam a verdade, | trocando sorrisos por…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sob o arco dourado do salão brilhante,
desliza a vida em passos intrigantes.
Um baile onde máscaras não revelam a verdade,
trocando sorrisos por vãs efemeridades.
Os lustres pendem como estrelas à espreita,
clareiam espectros, a cena é perfeita.
Rostos de plástico, esculpidos em dor,
olhos que choram o que fingem ser amor.
Cada giro no chão polido e vazio,
desafia o compasso de um tempo sombrio.
Nesse baile, numa roda incessante,
dançam memórias que soam distantes.
Os violinos gemem notas como um pranto,
um coro feito de sombras se eleva num encanto.
Os pares deslizam, frágeis, quase febris,
cada qual preso a sonhos que são infantis.
Longos vestidos arrastam fantasmas antigos,
pisando em lembranças, relembrando castigos.
O salão se enche de dores trazidas pelo vento,
cada passo dos pares ecoa como um novo lamento.
No canto mais frio do salão, sem brilho ou candura,
há olhos sem máscaras que estão cheio de amargura.
Eles observam calados o mundo que está a girar,
sabendo que um dia o baile irá terminar.
Pois a vida, em sua essência, é uma dança perdida,
um jogo de erros até a inevitável despedida.
E quando a música, enfim, silenciar,
as máscaras irão cair, será a hora de parar.
Então ficaremos no salão desfeito e escuro,
rodeados por sombras, no destino obscuro.
O baile se finda, e a ilusão se consome,
e a escuridão nos devolve o próprio nome.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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O Céu das Alfazemas
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles.
Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome?
Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida.
Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–...
Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes.
Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar.
E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar.
O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar.
Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa