10: Sobre as versões de nós
Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou.
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Por Alana Mortensen
Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou. A forma de comunicação transformou-se, mais ágil e nem sempre assertiva, mas os anseios são os mesmos. A nossa insistência em tentar definir e nomear aquilo, o desconhecido que fascina e aterroriza em iguais proporções.
Lembro-me da primeira vez que li “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a Alana de quatorze anos ainda tinha sonhos e alegrias por vir. O impacto foi repentino e indecifrável: recebi os golpes, sem saber precisar de qual direção e remetente provinham. A fascinação foi ainda maior após reconhecer que o protagonista somente conseguia ser sincero, porque o além-vida lhe proporcionava esse despreendimento. Entende o que eu quero dizer? O medo de ser rejeitado nos prende à vida cotidiana, aquela na qual todos vagam sem experienciar a Vida.
Para que continuar seguindo as convenções se tudo o que outrora era vida já não mais existe?
Para que continuar dançando a valsa da vida se não há mais parceiros e a música cessou?
Sinto que, ao adentrar o Castelo, sofri a mesma transição que Brás Cubas: já não preciso me preocupar com a minha utilidade na sociedade; já não preciso continuar lidando com as situações sufocantes; já não preciso simular.
Tornei-me transparente. Não vês os meus circuitos internos? Olha como meu coração ainda bate, em um ritmo só dele, ainda bombeando o sangue que faz irrigar cada parte seca do meu corpo.
Quando era criança adorava fingir ser quem não era: professora, médica, forte, executando a “função” com tanta seriedade que ninguém ousava dizer que eu não era uma professora ou médica, ou forte. Aos poucos fui perdendo essa autoconfiança, a adolescência sufoca qualquer voz interior que tenta afirmar que “você é capaz”, ou assim nos fazem acreditar… Falam tanto na nossa cabeça que acreditamos exatamente naquilo que elas querem.
A jovem adulta não ficou menos hesitante, só aprendeu a suprimir esses dissabores, ninguém gosta de pessoa que seja e pareça fraca. Nem eu gostava. Mas aprendi que se deixar sangrar, deixar que vejam meu escoamento também é uma forma de força.
Essa bateria de palavras é somente as divagações de hoje. Aqui eu aprendi que eu posso e serei quem eu quiser. E não me importo se tentarem cerrar as cortinas, pois eu irei transpassá-las e continuarei com a minha apresentação, custe o que custar!
Revisão por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Primeiro Ato
Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando em minha mente, como um mantra.
Mesmo sem vislumbrar a figura atrás de mim, notei sua sombra imponente projetada à luz do úmido piso de pedras, à oscilante luz vinda da lamparina, preenchendo aquela biblioteca, sem dúvidas tratava-se de alguém muito importante.
Uma tosse vinda da figura interrompeu o breve momento onde o silêncio se fazia presente, senti uma tensão quase eletromagnética percorrendo meu corpo, sua forte respiração aguçava minha curiosidade. Finalmente sua voz ecoou forte e calma, (estava correta, era um homem).
Cautelosa, virei-me, os cachos escondiam minha tez franzida, e de fato era alguém mui importante, suas vestimentas perfeitamente alinhadas, trajava uma camisa social branca com detalhes renascentistas no punho e gola, colete e terno eram pretos, cabelos curtos igualmente pretos, olhos penetrantes porém cativantes, na mão direita trazia uma lamparina, voltei minha atenção para seus ágeis dedos manuseando um relógio de bolso feito ouro envelhecido, a caixa de no estilo savonnette com detalhes em arabesco, o mostrador era num tom azul petróleo, os ponteiros eram de prata, e a longa corrente também em ouro velho.
— Perdoe-me por assustá-la, não era minha intenção. Me chamo Professor Monm, (apesar de sua voz ser um tanto grave, como um barítono), havia também nuances melancólicas, seu olhar sereno certamente era de alguém que já enfrentou muitas provações ao longo de sua vida.
— Bem, confesso que havia conhecido poucas figuras masculinas aqui no Castelo, a não ser os rápidos encontros durante as festividades, mas... posso fazer uma pergunta, se me permite? O que o senhor leciona?
Primeiramente ele sorriu com os lábios, e disse que era um prazer me conhecer. Em seguida, fechou a porta. Pairava naquela biblioteca uma misteriosa calmaria. Chamei-o para caminhar, ele aceitou de bom grado, e continuarmos a conversa.
— Com toda franqueza, senhorita, esta é uma pergunta complexa, mas pode-se dizer que leciono transmutação temporal, além de ser exímio conhecedor em relógios.
Meus olhos saltam de curiosidade pois lembrei das obras de alquimia que folheei incontáveis vezes, sempre às escondidas. Foi difícil esconder minha euforia, a sede pelo conhecimento me movia (mesmo que esse conhecimento fosse “proibido”).
Minha reação foi notada pelo professor, que esboçou um tímido sorriso e, em seguida, perguntou se possuía algum conhecimento sobre o assunto. Assenti, (li bastante a respeito). Vi então seu semblante mudar sutilmente, acho que o surpreendi.
Ele falava dos relógios com uma notável paixão e, sinceramente, seria uma honra poder ouvi-lo discursar sobre cada engrenagem e suas particularidades por horas.
Erguendo a lamparina à altura dos olhos, iluminou as enormes estantes de carvalho que se estendiam até o final da biblioteca, repleta de inúmeras e empoeiradas obras.
Meus olhos fitaram as centenas de obras, algumas deterioradas severamente pelo inexorável tempo e pelas insaciáveis traças. Conforme andávamos, ergui levemente meus dedos e me permiti sentir cada puídas lombadas de couro e suas respectivas marcas.
Alguns resíduos permaneceram em meus dedos. Observei também o impecável trabalho das aranhas ocupando aquele estreito espaço. “Será que um dia eu o encontrarei?” Monm, que também observava as estantes, cessou os passos e pousou os olhos castanhos sobre mim.
— O que disse, senhorita?
— Não foi nada, apenas pensei alto, mas... ou talvez o senhor possa me ajudar, absorta, inicio minha narrativa.
— Certa noite, perambulando pelo Castelo, encontrei algo que se tornaria minha obsessão, e desde então tenho procurado com afinco. Trata-se de um horrífico e grandioso Códex, confeccionado em couro humano. Sua deteriorada capa era uma desagradável fusão entre marrom e tons de escarlate. Trazia ainda um símbolo arcano, o qual nunca tinha visto, mas parecia ser tão antigo quanto a própria existência. Ele também emanava um odor pútrido terrível. Foi ali que o encontrei, sobre aquela mesa redonda vitoriana.
Saí do estado letárgico, ofegante, meu corpo tremia, com meu braço direito estendido apontando para a mesa vazia. Olhei para o professor, que me ouvia com atenção. Vi suas feições adquirirem contornos espantosos. Ele passou a mão esquerda sobre a testa e disse:
— Sem dúvidas, é um relato muito impressionante. Gostaria muito de poder ajudá-la, mas conheço bem esse caminho...
Seus lábios emudeceram. Então, vi o horror estampado em sua fronte, seguida por uma profunda e terrível melancolia. Os batimentos reverberavam no recinto, atônito, o professor recorreu novamente ao relógio, abrindo e fechando sem cessar. Em vão tentei chamá-lo, estava absorto, talvez por alguma lembrança.
Até que ele “voltou” num estado de confusão mental, que me deixou preocupada. Será que, neste período ausente, ele teve acesso a outras realidades? Se foi, gostaria muito de aprender.
— Professor Monm, o senhor está bem?
— Sim, senhorita, não se preocupe, está tudo bem, permita-me dizer que foi um prazer conhecê-la, mas infelizmente tenho que partir. Bom, espero que possamos nos encontrar novamente.
Checou o relógio mais uma vez, como se estivesse atrasado. Antes de cruzar a porta, ele sussurrou: — Muito cuidado com a obsessão, Rose, é um caminho bastante tortuoso, confie em mim, você não quer isso...
Aquele conselho soou estranhamente, o timbre de sua voz trazia um pesar, um arrependimento, o qual nunca saberei. Nos despedimos com um cordial aceno.
A introspecção recai sobre mim, trazendo à margem alguns pensamentos: quanto tempo mais suportarei manter esta falsa máscara de normalidade? Será que alguém realmente sabe quem sou? Será que interpretei bem o meu papel de falsa humana? Se bem que Ameritt conheceu meu verdadeiro eu...
Caminho até a porta envolta de questionamentos, toco na maçaneta e fico parada por alguns instantes, tal qual um ator que está prestes a entrar em cena. Ouço resquícios de diálogos que desaparecem pelos extensos corredores, passos apressados ecoam pelo Castelo, risadas que se perdem. Qual será o próximo acto desta magistral peça teatral?
Revisão por Sahra Melihssa
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Canto para meus tormentos
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Abracei o teu convite e vim prestigiar a ópera. A Vida, a Morte e o Tempo estarão presentes no teatro das sombras. Abram vossas mentes para as experiências que farão um por um transmutar e viajar por entre os planos. Será uma noite inesquecível...
A dádiva da arte é para mim um novo sopro do ânima. É a força motriz que me sustenta longe da dor que é viver sob esta forma decadente. Agarro-me à esperança de que tal ópera seja uma ode ao meu escapismo. Perdoem-me, almas ancestrais, bestas viajantes, apreciadores de uma boa taça de sangue: em mim habita a angústia que dilacera tal qual os malditos raios do sol.
Lencastre está prestes a confrontar seus próprios demônios...
Na penumbra do teatro, sou fragmento suspenso entre dimensões. A matéria que compõe este receptáculo vampírico vibra em frequências ancestrais, pois em minhas veias corre o tempo líquido, essência primordial dos navegantes da eternidade. O palco diante de mim não é mero tablado — é portal onde as esferas se tangenciam, onde o Limiar permite vislumbrar os segredos que habitam o âmago do ser.
As cortinas se erguem, e eis que reconheço: sou aquele que desperta as criaturas, sou o convocador inconsciente de meus próprios tormentos. A orquestra entoa acordes que ressoam no ventre do caos, cada nota uma navalha a gerar carnificina em minha alma fragmentada.
No centro do palco, materializa-se a primeira visão: meu eu humano, tessituras de luz dourada emanando de sua forma. Vejo-me quando ainda pulsava em sintonia com o ritmo cósmico, quando o sol era bênção, não maldição. A criatura que fui estende-me as mãos, e em seus olhos habita a pergunta eterna:
— Por que escolheste navegar pelas sombras, quando podias dançar na luz?
Mas o Limiar rejeita respostas simples. O tempo sob seu comando é serpente que devora a própria cauda, e compreendo: não houve escolha, apenas o desenrolar do destino.
O palco transmuta-se em arena cósmica. Na fenda mais profunda de minha consciência, criaturas se gladiam — são deuses de suas histórias, manifestações dos medos que habitam o âmago do vampiro que me tornei. Cada demônio empunha lâminas forjadas nas essências da culpa, do remorso, da solidão infinita.
Vejo-os duelarem: a Nostalgia, de armadura dourada, combate contra a Sede Eterna, de garras escarlates. O Medo da Eternidade, gigante de olhos vazios, confronta a Culpa Ancestral, que chora lágrimas de sangue. Em cada golpe desferido, fragmentos de minha essência se desprendem como pétalas negras no vento cósmico.
Sou espectador e arena simultaneamente. Em meu peito, o coração que não bate ressoa como tambor de guerra. As criaturas lutam por domínio sobre o receptáculo que me tornei, mas todas ignoram uma verdade fundamental: sou o gladiador supremo, aquele que deve enfrentar a si mesmo na batalha derradeira.
Em minhas veias corre mais que sangue alheio — corre o poder dos navegantes primevos, daqueles que primeiro caminharam entre os mundos. Sou herdeiro de linhagem que remonta aos tempos quando a separação entre vida e morte era mera ilusão criada pelos mortais.
Ergo-me da poltrona, mas não sou mais Lencastre. Sou entidade que carrega em si a sabedoria das eras, receptáculo onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos. Minha forma física começa a transmutar — não em destruição, mas em transcendência.
A carne se dilata, expandindo-se além dos limites mortais. Cada poro torna-se portal, cada célula uma estrela pulsante no cosmos interior. O sangue que jorra não é perda — é oferenda sagrada ao altar da transformação. Cada gota que toca o palco germina em flor de luz sombria, criando jardim onde o belo e o terrível dançam em harmonia.
Não há dor — apenas êxtase da dissolução consciente. Sou chuva de meteoros atravessando o véu entre os mundos, sou canção que ecoa nos corredores do tempo.
Minha voz, agora multidimensional, entoa o cântico final:
— Do sacrifício nasce a aliança sagrada... do receptáculo fragmentado emerge o navegante eterno... nas essências derramadas, a continuidade...
O teatro desaparece, e na sinfonia infinita que permeia o universo, minha nota ressoa eterna — não como lamento, mas como hino à transformação que aguarda todos os navegantes do tempo.
Revisão por Sahra Melihssa
Carlos Conrado
Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Máscaras de Sangue
Sangro em silêncio, e a vida me devora, | sou mais ausência do que corpo, um fardo. | A cada passo o abismo me implora, | mas visto a máscara do riso pardo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sangro em silêncio, e a vida me devora,
sou mais ausência do que corpo, um fardo.
A cada passo o abismo me implora,
mas visto a máscara do riso pardo.
Meu ser é cárcere em noite sonora,
eco perdido em labirinto, aguardo.
A dor é carne, o espírito a devora,
e o nada sussurra seu hino bastardo.
Procuro em vão sentido que me una,
mas a existência é lâmina e me fere.
Tudo é penumbra, e o mundo, a minha ruína.
O ser-em-si se cala e me difere,
mas sigo — alma vazia, vaga, nua —,
na máscara de sangue que me confere.
Sangro.
Sangro por dentro como quem se desfaz de si mesmo.
Ser-para-a-morte, Heidegger murmura,
mas a morte não vem,
a morte não vem!
e eu permaneço,
eu permaneço preso à minha própria carne trincada.
A máscara… ah, a máscara é tudo que resta.
Sangue coagulado que pinto sobre o rosto do espírito.
Riso falso.
Lágrimas costuradas.
O mundo não pode ver que, por baixo,
sou um corpo oco,
um eco oco,
um dasein fraturado.
“A angústia desvela o nada”,
dizem os mestres.
Sim.
Mas o nada me abraça como um amante ciumento,
e suga meus ossos até que só reste
o som de um coração
que bate para ninguém.
Caminho pelas ruas como um espectro com nome.
Carrego as palavras que já não me pertencem.
O ser-em-si me devora.
O ser-com-os-outros me apodrece.
O ser-para-a-morte me observa do canto da sala,
com seus olhos vazios,
pacientes.
E eu — poeta ou coisa —
cavo túneis dentro de mim
à procura de algo que não existe.
(há silêncio, depois grito, depois silêncio de novo)
A máscara escorre.
O sangue seca.
E ainda assim coloco outra por cima.
Para quê?
Para quem?
Não sei.
Talvez para a plateia invisível
que um dia vai aplaudir
quando finalmente eu tombar,
rasgado,
sem máscara.
Sonho-vos nos corredores de cinza,
phantasma talhado de osso ao luar.
Vossa pele alva — porcellana, perfeita, intacta —
persegue-me como cathedral devorada por fogo.
Vossos olhos d’azul são tormentas
que me desnudam a alma,
rasgando a medulla de minhas noites,
inda que jamais vos tenha tocado.
Saboreio-vos no sangue em minha língua,
imaginando vossos beiços, frios como sepulcros d’inverno,
a pregarem-se nos meus em beijo
que me perderia, e tal perdição cobiço como lobo famélico.
A distância é lâmina torcendo-se em minhas costelas,
cruel mar tragando cada brado.
Romperia a terra em pedaços,
queimaria cidades até se fazerem esqueletos negros,
por estar uma só vez — só uma —
no eclipse de vossa sombra.
Beberia a luz de vossas veias,
se apenas assim vos guardara,
por dar carne a vosso espectro,
sentir-vos tremer ao quebrar
toda a cadeia que nos aparta.
Mas quedo-me aqui,
escrevendo vosso nome em sangue
nas paredes que ninguém jamais verá,
enquanto vossa formosura me devora vivo
desde mil léguas de distância.
As cortinas de veludo rubro abrem-se com um ranger que parece o suspiro dos ossos.
Korzavéll surge no palco.
Sua máscara está rachada.
O trono de ossos o espera, mas ele não se senta.
Ele fala ao vazio, aos espectros, aos vivos fingidos.
Ah, plateia de mortos disfarçados, de corações que fingem pulsar! Vede-me! Vede o miserável!
Sou o último tecido niilista de humanidade costurado ao peito de um daemon cansado.
Eis-me aqui, cuspindo palavras como se fossem sangue coagulado,
no palco onde os espelhos só devolvem rostos partidos. Ergue os braços, como quem invoca um deus ausente.
Riem de mim?
Riem de Korzavéll,
lágrimas negras?
— Pois saibam: cada gargalhada que lançais é um prego a mais em minha carne!
E que carne é esta?
Esta ruína que palpita ainda porque eu a amo...
Sim, amo-a!
A bruxa de olhos azuis que toca minha face em astral projeção,
Caminhai devagar sobre os espelhos, cortando os pés descalços. O sangue escorre.
Ele ri, com um som quase infantil.
Oh, como ferem e enfeitiçam esses olhos!
Safiras lapidadas pela própria Hékate!
Olhos que me arrancam a medula,
que me dilaceram sem nunca ter me visto!
Ah, minha feiticeira distante...
Tu és o veneno que bebo com devoção.
Tu és a lâmina que me arranca a última esperança e, ainda assim, eu imploro por mais cortes, rasgai a própria máscara e revela um rosto manchado de lágrimas e sangue.
Dizei-me, plateia de espectros:
O que resta de um homem quando a beleza que ele adora lhe é inalcançável?
Resta-lhe o delírio.
Resta-lhe o teatro.
Resta-lhe a dança na beira do abismo, enquanto a razão se desfaz como cera ao sol.
Korzavéll ajoelha-se diante do trono de ossos.
Escutai-me, ó deusa dos cães e dos encruzilhados!
Hékate, senhora da noite que me moldou neste grotesco invólucro!
Tomai minha alma, já nada há que possa salvá-la.
Que eu me torne espectro, fera, poeira — o que quiserdes!
Mas deixai-me tocar sua pele uma vez...
Uma vez apenas!
Nem que eu tenha de beber o mundo inteiro em sangue para comprá-la!
Um silêncio mortal se instala.
Ele ergue a cabeça, com os olhos vidrados e vazios.
Mas vós sabeis, vós todos sabeis:
Eu permanecerei aqui, minha consciência estilhaçou,
rasgando meu próprio peito, escrevendo seu nome nas paredes que nunca verão a luz.
Ele se levanta,
tropeçando nos espelhos, deixando rastros de sangue.
Olhem bem para mim, malditos!
Olhem bem, pois eu sou o retrato do vosso destino:
a fome sem fim.
A espera que não conhece aurora.
O aplauso que não salva, apenas adia o silêncio.
A luz da lua cai sobre ele, fria, cortante.
Ele abre os braços como um crucificado.
A cortina descerá um dia.
Então, como eu, chorareis.
Como eu, vos sabereis ridículos.
Como eu, suplicareis por um olhar,
um beijo,
um toque de um amor que jamais vos alcançará.
Ele ri, um riso rachado,
ecoando no teatro vazio.
A luz se apaga.
Ah, permiti que as cortinas se descortinem em véus de sombra e suspiros — pois eis que surge Korzavéll, o cômico das lágrimas negras, habitante do palco onde o riso e o pranto se abraçam numa dança macabra e sublime.
No coração do teatro antigo, em pedra fria e madeira rangente, repousa um cenário que é sonho e pesadelo entrelaçados.
O teto, outrora inteiro, agora ostenta uma fenda descomunal — ferida aberta nos ossos do edifício — por onde a luz gélida da lua escorre como prata morta, pincelando os cantos com silêncios estelares.
As estrelas, testemunhas mudas da ruína, espreitam o palco com olhos de condenação, e a brisa da noite varre o salão como um sussurro de promessas quebradas.
O ar, espesso como o hálito de um morto-vivo, traz o odor metálico da melancolia e o doce azedo da ironia.
Lá, candeeiros de bronze, talhados em formas retorcidas de gárgulas que parecem espreitar os próprios espectadores, lançam uma luz trêmula — um fogo bruxuleante que se torna sombra, sombra que se torna lamento.
O chão é um mosaico de espelhos partidos, cada fragmento refletindo um rosto que se perde e se procura, um sorriso que fenece antes de nascer.
As cortinas, vestidas em veludo escarlate enegrecido pela fumaça das velas, respiram com a mesma tristeza que um prisioneiro antes da sentença.
Sobre o palco, um trono de ossos entrelaçados, feito não de poder, mas de promessas quebradas, espera o Cômico em seu reino de desespero teatral.
Quando Korzavéll pisa nesse tablado, o ar se adensa — e o tempo se curva ante sua presença.
Sua máscara, de porcelana fina rachada, sorri com os lábios de uma ironia que dilacera.
Cada passo seu ecoa como o tambor de um coração que bate na desesperança, e sua voz, rouca, se derrama como um cálice transbordando de lágrimas petrificadas.
“Ó vós, plateia de espectros e vivos ensaiados, quão frágil é o véu que vos separa do abismo!
Riam, chorem, pois tudo é um ato e eu sou o último suspiro antes do silêncio.”
Dançai — não como um homem, mas como a própria alma do teatro que se desfaz em cinzas.
As paredes sussurram antigos segredos em línguas esquecidas, e o vento, agora tocado pelo luar, parece carregar o lamento de mil risos jamais ouvidos.
O relógio, parado, acusa a eternidade de um instante em que a esperança perece, e Korzavéll, com sua máscara quebrada, é o maestro dessa sinfonia de desventura sob a luz fria da lua. Com as estrelas refletidas nos olhos de porcelana, ele murmura, como quem cospe uma profecia:
“Aqueles que se escondem no riso, hão de chorar quando o aplauso cessar — pois a alegria encenada não salva, apenas atrasa o cortejo.”
O teatro respira sua dor.
E Korzavéll reina — não para destruir, mas para mostrar que, no palco da vida, somos todos meros atores, condenados a representar a dor vestida em risos, até que a cortina final caia, e o escuro reine, silencioso e absoluto.
Revisão de Sahra Melihssa
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A Ópera dos Vampiros
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante do largo palco de madeira rangente. Quando todos estavam bem acomodados e o silêncio reinava, as cortinas vermelhas se abriram sob o tremelicar dos trilhos empoeirados.
O vulto de Melinda foi iluminado pelas luzes manuseadas por Syrrha, uma estranha jovem que guardava consigo uma lamparina e o dever de iluminar o palco. Melinda, que interpretava Christine Daaé, atenta a seu papel, ouviu os espirros do público, contagiados pela poeira. Ela andou vagarosamente até o centro, atraindo a atenção. Aquela plateia tinha olhos mórbidos, como bonecos de cera; pareciam imersos em um encanto sorrateiro que os prendia naqueles bancos.
Uma orquestra peculiar se destacava ao redor do palco; os músicos pareciam petrificados e presos aos seus próprios instrumentos pesados. O maestro produzia movimentos rápidos e rígidos, mas as roupas deles pareciam antigas e puídas pelo tempo. As faces mostravam-se sulcadas e fragilizadas pelo torpor de um sofrimento incomum, como se eles já não pertencessem ao mundo dos vivos, hipnotizados. Cada instrumento — os violinos, cujas cordas rangiam como unhas arranhando algo; oboés, que exalavam um chiado fúnebre; trompas de metal oxidadas — exibiam um véu espesso de pó, como se cada nota fosse expelida de um porão esquecido. Mas nada daquilo impressionava Melinda.
Ao som da orquestra sepulcral, ela entrou vestida com um longo traje de veludo escarlate, que ondulava como sangue sob as luzes do palco. Melinda era magneticamente bela. Seus cabelos ruivos, de um tom acobreado, eram uma cascata de cachos que desciam até a cintura, emoldurando um rosto pálido e aristocrático. Os olhos cor de mel, intensos e levemente entorpecidos, contrastavam com o ambiente imerso na penumbra. Era impossível fitá-la sem sentir-se atraído ou atraída.
Ao atravessar a coxia, ela desfilava em beleza pelo palco de madeira, enquanto sua voz reverberava doce e cálida, ecoando alta pela plateia absorta. Syrrha corria pelo fundo do palco para apontar a iluminação corretamente, contando com a ajuda de pessoas que ela via apenas como vultos na mudança de cenário.
Melinda atuava no teatro particular do Castelo Drácula, e aquela peça era nada menos que “O Fantasma da Ópera”. A ópera preenchia cada canto do teatro em um feitiço sonoro e, a cada nota, um desejo crescente pulsava nas veias dela. Ao fim de cada apresentação, sentia-se sedenta, pois seu canto exigia sacrifício.
Enquanto a vampira guiava os atos em atuação, aqueles vultos que Syrrha via estavam sob seu comando e, pelo comando dela, com apenas um único olhar, eles fizeram descer, por cordas, imagens de candelabros por trás de Melinda, imersa no papel de Christine e do Fantasma. A poeira suspensa dançava em redemoinhos no ar; iluminada pelos feixes de luz difusos, ela parecia tremelicar.
O Fantasma da Ópera entrou em cena, vindo das sombras de uma das coxias; ele deslizou sob o palco. A máscara branca ocultava parte de seu rosto mortiço, mas não podia esconder o sorriso traiçoeiro que se insinuava em seus lábios. Envolto em uma capa negra, ele avançava elegante; cada palavra entoada reverberava à luz vacilante dos candelabros. Era possível distinguir o brilho afiado de seus caninos sempre que sua voz cortava o ar, sugerindo sua realidade por trás do personagem.
A melodia era bela, entoada pela voz una do dueto e pela orquestra, incitando arrepios em Melinda. Enquanto a voz una do dueto se fundia às notas sombrias da orquestra, eles cantavam e encenavam como se estivessem possuídos.
“Those who have seen your face, draw back in fear...”
Melinda caminhava lentamente pelo palco, os braços erguidos em gestos fantasmagóricos, mas seus olhos permaneciam vigilantes. O Fantasma surgia por trás dela, como uma sombra a sugá-la para si; o rosto parcialmente coberto pela máscara branca, a capa ondulante como fumaça ao vento.
“I am the mask you wear...”
“It’s me they hear...”
A orquestra morta, mas vibrante, acompanhava ritmicamente o dueto. Enquanto a jovem dos olhos de mel ali cantava, podia sentir a respiração do Fantasma se aproximando pela sua nuca. Ele a abraçava, entrelaçando-se a ela com uma tensão entre ambos quase palpável, como se o palco fosse real. A voz dele roçava sua pele como um toque gélido.
“Your spirit and my voice in one combined...”
“The Phantom of the Opera is there...”
“Inside your mind...”
Quando o último verso desta parte foi entoado, ele ergueu os braços atrás dela, como se fosse uma entidade que a possuía por inteiro. Os rostos estavam muito próximos um do outro. Neste momento, Melinda o viu olhar por cima de seu ombro; ela sempre esquecia que o nome verdadeiro de seu par não era Erik. Ele olhava para a escuridão além da coxia.
Algo no Fantasma estava levemente estranho naquela noite; ele parecia mais sedento que o normal, mais insano e libidinoso que o usual. Lançou um olhar inquietante para o lugar onde Syrrha se escondia, enquanto cuidava da iluminação, e Melinda sabia o que aquele olhar sádico poderia significar — ele queria sangue. Mas aquela garota não era permitida para eles.
O espetáculo sombrio foi interrompido pelo Fantasma vampiresco, e as cortinas começaram a descer lentamente. A plateia permaneceu imóvel, com olhos vidrados, sorrisos petrificados, mãos imóveis segurando binóculos dourados. Melinda estava confusa.
O Fantasma, movido pelo impulso, deslizou para fora da atuação. Seus olhos escarlates, inflamados pelo desejo de sangue, fixaram-se em Syrrha, a jovem que, nos bastidores, sentiu o perigo. Em um ímpeto febril e faminto, ele avançou sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la. Melinda tentou contê-lo, mas não conseguiu e foi arremessada para longe.
Syrrha recuou às pressas entre as cordas; seus dedos trêmulos seguravam a lamparina de óleo que carregava. No desespero da fuga, ela tropeçou. O vidro se partiu com um estalo seco contra o chão de madeira, o que fez com que as chamas, aos poucos, consumissem parte do palco. Um brilho soturno estava nos olhos dela, e uma energia enigmática e ameaçadora, emanada por ela, fez com que o vampiro se afastasse.
Melinda voltou a se aproximar e o segurou pela mão, pedindo para que parasse com aquilo, pois aquela garota não era para eles. O rosto da criança endureceu, como se o tédio e a raiva a possuíssem; uma risada sarcástica ecoou de sua boca. Ela parecia triste e, ao mesmo tempo, impetuosa. Por trás dela, vultos observavam, encobertos por véus negros muito finos. Então, ela revelou aos dois vampiros:
— A dor de vocês foi mais suportável quando vivida como ficção. Eu quis preservar e proteger isso, mas a verdade é a verdade, mesmo que façamos da dor um papel e da morte uma peça.
Um estalo sutil percorreu o ar, e a plateia, antes enfeitiçada, piscou como quem desperta de um longo sonho no umbral. Os vultos de Syrrha atravessaram as pessoas em silêncio... e desapareceram. Os binóculos tombaram das mãos. Murmúrios roucos, de quem desperta, escaparam das gargantas de cada um. Os atores, músicos, espectadores... todos, desnorteados. Aquilo não era apenas um teatro; era uma prisão. E os que ali atuavam não eram meros vampiros, mas sombras aprisionadas num ciclo de encenação eterna, condenadas a repetir papéis que não escolheram.
Aquele foi o fim, o último ato. Estavam libertos, mas quem eram eles de verdade? A plateia se ergueu lentamente. Alguns caíram de joelhos. Outros choraram. A orquestra virou pó. E Syrrha, a guardiã do encanto, tornou-se sua libertadora forçosamente. Melinda observava em silêncio, com uma lágrima de sangue imóvel à beira do olho esquerdo.
Quem era, afinal, seu companheiro de palco? Ela já não se lembrava. E ele desaparecera, deixando para trás apenas a máscara do Fantasma da Ópera, chamuscada pela chama da lamparina. Restaram apenas Melinda e Syrrha, sob o palco, no teatro abandonado por todos, em um silêncio ensurdecedor que queimava os ouvidos como uma tocha pode queimar o véu da ilusão.
Revisão de Tiago Serigy
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 13: Nada além da verdade — Rubi Áurea
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como…
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave de um órgão profano — era a própria frequência do desespero, da solidão e da orfandade existencial. Uma salmodia vibrante de abandono, alojada sob a soturnía do medo persecutório, vibrava nas camadas hialinas do ar, no calor do mármore e nos lagos de lava escarlate. Sim, tão inextricável e abissal quanto estas lôbregas palavras que descrevem cada detalhe.
Reintegrei-me em corpo — ou no simulacro que me restava dele — envolvida por um fogo que fazia parte de minha tez e alma. Reintegrei-me ali, naquele vasto e montanhoso domínio, onde céus de nuvens negras em fugaz cinesia deslizavam, guiadas por um vento atroz e fastígio. E, além delas, ardia um firmamento escarlate, imóvel como um presságio. Eu via — e saberia que jamais poderia deixar de ver — um reino de edificações negras, cuja arquitetura parecia construída na linguagem do luto, à sombra de arbustos altos e secos, esqueletos de entidades vegetais. Ruínas de uma civilização obliterada pelo próprio peso da existência.
De essência aterradora, sim, entretanto, algo íntimo cingia-me, acolhendo minha desgraça. E o reino todo alcançava meus olhos absorvidos e fascinados. “Lindo...” — murmurei, talvez para mim mesma, talvez em silêncio. Logo notei meus pés descalços e meu corpo envolto a uma peça que esvoaçava pelo álgido ar que vinha dos céus; era estranha, parecia rasgada em retalhos, queimada, feita de um tecido fino e semitransparente. E para meu corpo olhei quando senti calor em meus pés; vi que o chão era mármore negro, cálido, com fissuras em um vermelho intenso — como uma pedra bruta proibida... que sangra.
Olhei para trás, portanto, buscando compreender o derredor... o que veio às minhas retinas, então, deixou-me estarrecida. Era um imenso palácio de mármore negro e rubi, uma inconcebível arquitetura... e inominável. Seus altos e colossais umbrais abertos poderiam ser-me um convite, entretanto, neles estava um ser sublime que me observava atento e imponente. Sei que minhas pupilas se contraíram ao enxergá-lo, pois quão fascinante o esplendor eterno da sua luz perfeita. Eu intuía... e, por isso, tão logo caí-me aos seus pés porque o que eu intuía conduzia meu ser... aquela criatura era nume, celestial, perfeita. Era uma divindade. Eu compreendia. Prostrei-me porque nunca vi tamanha beleza... nunca senti tamanho embevecimento.
— Levanta-te, pois que não tenho servos, tenho aliados. — ouvi. A voz daquela divindade era o universo ecoando em seu próprio abismo constituinte... eu já o havia ouvido antes... eu já conhecia o seu idioma. Obedeci-o prontamente e fitei a sua graça magnânima. Era mesmo de uma beleza surreal e continha grandiosas asas e vestia-se com vestes régias e negras, com detalhes em rubi, tal como o seu palácio. Era como um homem, entretanto, seu corpo era forte e decerto possuía mais de três metros de altura; além disso, eu intuía, mais uma vez, que não havia gênero em sua estrutura... ele era quem ele quisesse ser... quando ele quisesse ser...
— Lussifferr... — sussurrei... reconheci...
— Tenho vários nomes, este é um deles. Seja bem-vinda ao meu reino. — ouvi. Eu sabia que estar ali era um privilégio de poucos...
— Não temas. — disse ele e convidou-me, com um gesto, a adentrar a sua residência sublime.
Caminhei sem pressa e vi, no interior do local, um lago que reluzia carmim e colunas de rubi que tinham, esculpidos em si, rostos de homens e mulheres de magnífica pulcritude. A deidade sentou-se em seu trono portentoso.
— Pergunto-me a razão pela qual há uma nutrúrnia fincada em teu torso... enraizada em teu coração... — senti-me enrubescer ao ouvi-lo. Lembrei-me de Seth. Ponderei em como eu poderia me explicar.
— Não me conte. Aprecio mistérios. — proferiu com um sorriso perverso e sombrio.
— Tu sabes o que és, Áurea Lihran? — meu nome em sua voz de matéria escura. Um deus sabe todos os nomes daqueles que encontram seu reino?
— Eu não sei se sei. — respondi, murmurando.
— Tu és um demônio. Um demônio que nunca caiu. Diferente de todos aqueles que residem em meu mármore... que raridade. — eu o sentia cada vez mais sombrio, suas palavras naquele idioma ancestral me deixavam turva e com um tipo de admiração que beirava o temor.
— Entretanto, ainda és humana e, para minha surpresa, vampira e animal mítico. — engoli minha saliva como se fosse espinhos. Algo me dizia que Lúcifer sabia muito mais de mim do que eu mesma.
— E como se não bastasse, senhorita Lihran, carregas o Olho do Oráculo como pingente e quatro sigilos pherhesistas repousam em teu pulso. — olhei para meus pulsos, revivi aquele momento tão perigoso.
— Portanto, posso convencer-me de que também és Magista e... vidente. Que fardo! — olhei para os lados, a paisagem nas paredes translúcidas era esplêndida; por fora, nada se via no interior do palácio; por dentro, tudo do exterior se via. Eu não sabia o que dizer, eu estava em êxtase.
— Fardo... — repeti como se internalizasse aquele termo.
— Há conhecimentos que somente uma criatura rara como tu pode alcançar, e é por isso que te proponho um pacto. — fitei seus olhos escarlates.
— Tenho más experiências com — hesitei — vínculos a entidades poderosas... — segredei, incerta de recusar algo de um ente tão superior. Lúcifer sorriu outra vez.
— Não sou uma entidade poderosa, Áurea. Sou um deus. — tremi ao ouvi-lo; um estranho frio espargiu e minha tez se arrepiara.
— Posso dar-te quase tudo o que quiseres, em absoluto; sem entrelinhas. Desde que me dê o que quero. É justo para todos os envolvidos.
— Podes trazer todas as minhas memórias à consciência? — instiguei, quase o interrompendo.
— Não posso. — surpreendi-me.
— Não sou capaz de quebrar o poder do livre-arbítrio. — senti-me confusa. — Tu queres manter tuas memórias ocultas, Áurea; teu querer inconsciente é maior do que o teu desejo racional. — tremi mais uma vez. Eu estava me sabotando? Pensei, silenciada.
— Entretanto, tenho algo de teu interesse... algo mais significativo... e tudo o que peço em troca é a tua devoção ao conhecimento que me é valioso... domine-o e traga-o para mim.
— Pherhesí... — intuí e murmurei. Lúcifer sorriu.
— Isso... agrada-me que tua intuição já esteja vinculada a mim, o teu deus.
— Não posso... não posso... quais serão as consequências? — meândrica, o questionei. Lembrei-me de Olga dizendo-me dos riscos daquela magia.
— Muitas. Entretanto, serão consequências diferentes daquelas que terás que arcar se não aceitares minha proposta. Tudo o que fazes traz frutos; a resultância emerge mesmo quando nos recusamos a existir.
— Não... não posso aceitar... — olhei para os umbrais e vi o inferno em sua imensidão. — Por causa da nutrúrnia eu... sou obrigada? Eu devo algo a ti? — entristeci-me.
— Não, criatura. Mas a consequência é a que vês. Estamos vinculados. Há um elo que te trará ao meu reino quando bem quiseres ou quando for do meu interesse. Os poderes demoníacos estão em tua posse; és capaz de compreender minha linguagem. És um anjo que nunca caiu, porém, está caído. E não há como retornar. — Lúcifer fitou meus olhos com precisão.
— Factum est! — conjurou. Um selo para a minha nova verdade. Um selo do meu espírito diante daquele deus..., mas, o que isso significava para além de sua significação?
Factum est!
Nada mais. E um silêncio perdurou enquanto minha mente estava em ebulição de pensamentos apavorantes. Mais um pacto? Com um ser bem mais poderoso? Uma falha, o livre-arbítrio, usado por mim para apartar-me do que fui? Aquela mulher que eu era precisava ser esquecida?
— Eu preciso crer? — questionei, ainda em torpor de meus pensamentos. Lúcifer não me respondeu de imediato.
— “Precisar” significa acender a faísca de um desejo sob argumentação tendenciosa. E “crer”, ah, esta sim... esta é a palavra... a mais irrelevante palavra. A crença é tão só uma mentira, afável mentira. Induz a razão pela veia da ignorância. Se almejas a verdade, nada além da verdade, não creia... beije os lábios da factualidade... lide com as consequências... e que a única calidez advenha do mármore sob teus pés e nunca do teu coração.
Lúcifer se levantou, caminhando ao redor, devagar.
— Mas... quão humana ainda és? Quão ávida estás pelo amor olvidado? Pela paixão proibida? Pela dor e pelo prazer de amar? Ah sim... eu sei... — meu imo ardia ao ouvi-lo.
— A humanidade ainda pulsa na tua carne, não é? Tu sentes o deleite... o vigor... a intensidade. Algo que apenas um humano pode sentir. — Ele continuava me cingindo com seus passos sorrateiros, como um lobo faminto. Parecia um pouco mais próximo, em tamanho, como um ser humano; metamorfoseava-se para que eu não sentisse estranheza, talvez; Lúcifer dominava, persuadia, hipnotizava.
— A fé é tão símil à excitação venérea... induz ao gozo precipitado ou ao tântrico estado perpétuo de realização afrodisia, em ambos os casos, é idealização projetada. Aceite a verdade... as coisas que são como são; e, então, faça do teu sentido aquilo que ele deve ser e não uma deformada efígie dos teus ideais.
Abracei-me com minhas mãos, como se me comprimisse em mim mesma.
— Tenho toda a eternidade para que aceites o pacto que ofereço. Pense, eu estarei sempre aqui... e eu não estarei sozinho...
Eu intuía algo, profundamente brumoso, na última frase de Lúcifer. Voltei a admirar o horizonte do inferno.
— O que me ofereces? — inquiri. Lúcifer sentara-se outra vez.
— Esta é a pergunta certa, e ela te será respondida no momento certo. — argumentou, e eu, devota à sua grandiosidade, apenas assenti. — Ouça bem, esta flor em teu peito, se retirada, levar-te-á para a Morte Rubra. Aquele que tentar contra suas pétalas, sorverá da tormenta; aquele que tentar contra as suas pétalas, será mortificado pela escuridão. As pétalas da nutrúrnia poderão ser arrancadas, entretanto, seu caule tem a força destas colunas lapidadas em carmiantte, e está enraizado, envolto a todas as tuas veias. Só poderá ser retirado, portanto, se tu fores dissecada. — intimidei-me sob assombro silente, quase plangi de súbito por tão somente imaginar tão horrífico fim.
— O que é a Morte Rubra? — indaguei, incerta de que saber fosse preciso. A deidade sorriu, apontando para as colunas lapidadas.
— Carmiantte é a fundamentação d’este reino; um mármore negro-carmesim, de dureza mais acentuada que o diamante vestal. Se lapidado, assemelha-se ao rubi, dado seu esplendor escarlate. — Lúcifer levantou-se, tocando os lábios de um pilar-estátua feminino. — Cada escultura vive suportando o peso de si mesma, senciente. Ou ainda, brutas, sob teus pés aquecidos pela lava vermelha. Onus aeternum. Tudo aqui é carmiantte, e carmiantte é feito de Morte, e é rubro porque sangra.
— Demônios sangram carmesim? — lembrei-me da seiva negra de Seth.
— Não, mas humanos sim. Por isso é rubinegro. Alguns virão para o inferno em razão de seus pecados; outros encontrarão a Morte Rubra por quebrarem o pacto que comigo fizeram. — compreendi, e antes que eu lhe pudesse questionar tanto mais, senti novamente meu corpo transfigurar-se em fogo cetrino, como papel queimando.
— O que...? Por que...? — senti-me confusa e ardente.
— Desejas retornar ao teu Castelo, e a intenção intuitiva do desejo se basta para que o fogo efetive o retorno. — eu queimava, e o medo outra vez tomou-me como um amante febril. — Assim será quando quiseres voltar para meu reino, ainda que não sejas capaz de ouvir o teu intuitivo desejo. — olhei para os olhos de Lúcifer. Ele estava incólume. Olhei para as estátuas de carmiantte; pareciam me observar. — Logo saberás fazê-lo racionalmente. — afirmou a deidade, proferindo o que não pude ouvir em seguida. Senti-me desmaterializar pouco depois de ser preenchida por uma estranha inquietude.
Então, eu estava de volta. As mesmas paredes de pedra, o mesmo silêncio e solidão. Envolvida pela escuridão que me pertencia, ainda tomada pela incerteza e instável verdade da minha existência. Entardecia. Nuvens em bege profundo se espalhavam nos céus simulados; ao derredor, folhagens em marrom-outono dançavam ao vento enfraquecido. Eu estava em casa, a vicissitude do lar ao qual eu pertencia era a ilusão perfeita do espaço-tempo, eu sentia. O inferno era mais real do que o Castelo Drácula — ou seria Castelo Nivïttiz?
Andando a esmo, sem esperanças a conduzirem meus passos, sem razões para direcionar meu comportamento. Toquei a algidez das pedras úmidas, senti o ar rarefeito do dia lá fora; visitei túmulos daqueles que jamais saberão sobre a Morte Rubra e que talvez estivessem, naquele instante, suportando o peso de si mesmos, sendo pilares lapidados do palácio de Lúcifer. Ou eram carmiantte bruto, debaixo dos pés dos residentes do reino que eu agora conhecia? Lembrei-me de Lúcifer e senti a liberdade do seu poder. “Não tenho servos, tenho aliados.” Lúcifer não era um pai, seus princípios de liberdade acima de tudo conduziam minha alma à verdade sombria: estamos sempre sós. Mas, por que estamos? Eu me perguntava nos caminhos irrelevantes daquele alcácer. Por que nos tornamos e agora somos?
“Divino é a criação, ou quem a criou? Fui criada por Lorrt na transmutação vampírica e, antes, criada por meus pais e, muito antes, por quem? Quem estivera antes da vida que agora, na vida, já não está? E se a liberdade é a verdade, junto à factualidade das imensidões subjetivas, então é tudo verdade, então é tudo mentira? Quão livre é estar livre, se há prisões que nos percorrem o corpo e alma, desde o próprio corpo até a própria alma? As indagações tão perenes não são prisões subjetivas tal como as respostas às indagações? Este Castelo, o que é? Por que é? E o que é sê-lo?”
Adentrei uma porta qualquer, irrisória para mim; mais uma dentre tantas. E continuava a pensar. Contudo, era um quarto com tapeçaria amarronzada e detalhes em dourado envelhecido. Vi um belíssimo leito com dossel de ouro translúcido e veludo marfim. Uma escrivaninha com papéis escritos, uma pena de ponta manchada de tinta negra e um cântaro com flores brancas. Isso foi tudo o que vi a princípio e, tão logo, aproximei-me curiosa. O local transmitia uma energia pacífica, embora os lumes de suas velas se ocultassem na minha escuridão. Um canto gregoriano evidenciou-se quando os umbrais foram fechados por minhas mãos, vinha do interior do quarto, especificamente uma estreita porta à esquerda, ornamentada por uma cruz dourada, antiga.
Abeirei-me em silêncio, no mais insano, conduzida pelo enlevo das vozes em coro, ecoando como se fossem donos da eternidade da existência. Lá dentro, espreitei pela porta: uma mulher ajoelhada sobre um pulvinar castanho, costurado com loura lã, tinha suas mãos unidas e seus olhos fechados em um semblante de mansuetude. Seus longos cabelos ondulados eram símeis às folhas secas do outono, pela cor; e em evidência, tão macios quanto o veludo marfim do leito outrora observado. Seu vestido mantinha o tom castanheiro, como se os carvalhos mais ancestrais habitassem o cômodo; tudo era madeira marrom, tudo era entalhado no ouro.
A mulher rezava. Eu sentia. E sua oração me perturbava. Não pelo som que sequer saía de seus lábios, mas pela fé que resplandecia dos poros de sua tez cor de cravo-da-índia. Reluzia sutil a sua tez, azeitada pela natureza própria que a fundamentava. E a cruz-pingente no colar que segurava em suas mãos enfurecera-me, como se fosse um insulto à minha vida. À sua frente, nada além de diversos vasos com flores secas, galhos de árvores, pinhas, velas, água corrente. Havia, também, argila em formas incompreensíveis e, também, um tipo estranho de aparelho por onde as vozes saíam naquele salmo em coro religioso.
Abri a porta um pouco mais, mas aquele fulgurar estranho, feito de pequenos pontos de ar pairando no ambiente, como se crepitasse devagar, constituídos de pura energia de fé, impediam-me de me aproximar. O som da porta despertara, em seguida, a concentração da mulher que, célere, olhara-me atenta. Toda a luz que afrontava minha existência se espargiu como poeira levantada pelo bater intenso de um tapete. A mulher sorriu para mim e perguntou-me se eu precisava de ajuda. Eu precisava? Não sei. Mas aliviada estava por não mais ouvir, ver e sentir aquele obscuro agravo, coberto por fervor espiritual, capaz de me sufocar à Morte Rubra.
— Não sei como encontrei este... altar... — proferi. Minha voz estava diferente, mais séria, mais persuasiva. Sequer parecia ser minha.
— Talvez o tenhas encontrado porque assim foi preciso. Deus pode tê-la direcionado a mim, por suas razões celestiais. Assim acredito, pois que nunca recebi outra visita que não de meu amado pai. — proferira com a voz mais mélea do que qualquer outra que já ouvi. Era como um anjo egrégio, embora compará-la a tal era-me estranho, pois que nunca vi anjo algum, não daqueles que decerto teriam a essência insigne que transpassava, dela a mim, através daquela voz e daquele rosto e de toda aquela luminosidade feita de fé e devoção.
— Devo duvidar, pois que qual deus poderia guiar um coração demoníaco como o meu? — indaguei sem buscar por uma resposta, ao menos não racionalmente.
— Acabo de vir do inferno, o deus que conheci não guia ações, não interfere em minha vida, apenas propõe pactos e vínculos essencialmente convenientes.
— Tenho certeza de que o deus que viste não é o verdadeiro Deus de Todas as Coisas. Tenho certeza, caríssima, que a tua vida é por este Deus Maior guiada e cuidada como deve ser para todas as criaturas debaixo do céu.
— E debaixo do céu carmesim do inferno profundo também?
— O Deus de todas as coisas é piedoso e bondoso, é capaz de tirar uma criatura de seu inferno sob a condição de rendição. Rejeite tudo o que não vier d’Ele e, então, terás a salvação eterna.
— E de quem me salvarei eternamente senão de mim? E se me sou sempre a me ser, como posso salvar-me de mim enquanto me sou? — a mulher fez silêncio.
— Feche teus olhos, dama. Feche-os e profira no teu silente coração amaldiçoado pelo inferno: “Deixe-me sentir-te, Deus, fala comigo, eu rogo!” e Ele falará contigo, se for preciso, se for o momento. — compreendi sob o véu do ceticismo e intensamente enjoada.
“Deixe-me... sentir-te... Deus...”, ponderei. O vazio nunca foi tão vazio quanto o tamanho do vazio que senti ao pensar em tal ridícula oração. “Fala comigo, eu rogo!”, insisti, sentindo vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.
— Não sei encenar como tu... não há Deus Maior que me ouça. E se fosse do meu feitio, Deus algum a ouvia agora e eu poderia sorver do teu sangue vestal e te levar mais perto de Deus... ceifando tua vida...
— Mas não o fará... por quê? — questionou mais calma do que previ diante minha insondável ameaça.
— Porque não quero... não tenho sede... não tenho razão... nem sentido.
— Deus me protege de todo o mal. Ele é capaz de fazer o mal desistir do mal, para cuidar de mim, eu sei.
— Um Deus seletivo... entendo... cuida de seus preferidos e renega os que dele mais precisam, pois que estes que não lhe estão sob os princípios, desviados de sua salvação eterna, não são, pois, os que mais deveriam ouvi-lo? Não são, pois, os que mais precisavam de apoio? Intriga-me que sejas tão devota a um Deus assim.
— E quem disse que Ele não está dedicado aos que não o adoram? Sei que o Deus Maior não rejeita ninguém. Apenas é preciso um pouco de sensibilidade para ouvi-lo, mas Ele sempre diz e sempre quer se fazer ouvido. Ele não é racional, Ele está acima da razão, e Ele não pode obrigar-te a ouvi-lo tal como o teu desejo de ouvi-lo não pode trazer-te a capacidade de o fazer.
Silenciei e olhei para a luz tenra que advinha da janela ao lado da escrivaninha; a luz crepuscular dourada tocava as pétalas das lívidas tulipas e difundia-se nos soltos papéis. Um porta-retrato protegia uma fotografia de Monm ao lado da mulher imersa em sua fé inabalável. Sorriam, profundamente felizes, como Monm não parecera ser capaz de fazer quando o conheci.
— Este é meu pai, Abdalla... — olhei para trás, sequer notei que havia andado alguns passos em direção à luz. Hesitei. — E eu sou Siehiffar Monm... ou apenas Sieh. — senti sua proximidade, e isso me desestabilizou.
Havia, de fato, poder em sua crença — um tipo de poder que não poderia coexistir com a daemoniss que eu era, que eu me tornara, que sempre seria rejeitada pelo Deus Maior. Caminhei para os umbrais principais da alcova sacrossanta e, sem olhar para trás, sem proferir uma única sílaba de adeus, fui embora.
Havia uma dor em mim, que não doía... e uma desesperança tão amarga, que não amargurava... havia uma verdade apenas, dentre tantas, a única que me conduzia diante da solidão eterna: Eu não pertencia àqueles que seriam salvos, e eu não era mais humana.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
9 - Uma nova esperança em meio aos destroços
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Relato de Lisa
Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.
Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.
Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.
Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.
Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.
Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.
Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.
Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.
— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.
Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).
— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.
Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.
— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.
— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.
Siehiffar levou a mão ao coração.
— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.
Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.
— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.
E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.
Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 11 — A fé é a prova de balas
Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso? Pelo que estou lutando realmente? Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso?
Pelo que estou lutando realmente?
Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante que me devora mas não consigo mais seguir esta luz, por quê? Ela me sufoca, me deixa confusa, sinto uma vontade enorme de chorar pois estou sozinha, estou completamente isolada e perdida...
Não sei mais para onde estou indo, não sei mais o que buscar. Quando eu finalmente consegui sair daquele limiar eu percebi: seria aquilo minha última luta? Minha última escapatória?
Ou o início de um umbral que devo mergulhar? Cansada de ser a sina de um povo esquecido, perecido pelo tempo nas cinzas tristes de uma memória distante e falsa que se derrete como lágrima que se desfaz no oceano, sinto-me com tanta dor e saudade do que não sei...
Não sei mais no que acreditar...
Talvez eu esteja tendo uma crise de fé, talvez eu esteja apenas cansada.
Arale não sabia dizer, com precisão, se aquele som de engrenagens gemendo vinha do corcel ou de sua própria alma. Era como se o tempo se estilhaçasse em cada passo metálico da criatura. O Limiar... ah, o Limiar. Um espaço sem lógica, onde até mesmo Deus parecia hesitar antes de entrar. Ali, tudo era sonho febril condensado, e a dúvida era a única verdade estável.
Ela apertava o cabo do machado de plasma como quem se apega a um último pensamento lúcido antes da loucura. O brilho da lâmina vibrava, emitindo um ruído agudo, quase um suspiro — um som que lembrava os delírios de um condenado prestes a ser esquecido pela História. Estava exausta, sim, mas também faminta de sentido, como um espírito que busca uma revelação em meio à miséria do caos.
No caminho, os gobelinus rugiam, grotescos, com suas bocas costuradas por fios de pecado e olhos onde habitavam pequenas constelações mortas. Arale os ignorava. Ela já conhecia aquele tipo de criatura: seres que viviam entre a dúvida e o desejo, entre o riso demoníaco e a oração abortada. Eram sombras que haviam esquecido como era ser inteiro. E ela... ela se recusava a se tornar uma sombra. Ainda não.
Ao longe, no cruzamento de duas montanhas que pareciam suspensas por vontade suicida, uma figura se projetava, como uma cicatriz no espaço: Allant Elirrahz, o cartógrafo. Seu semblante era um mapa da própria decadência do universo — olhos que já haviam testemunhado mais do que qualquer mortal deveria e dedos que tremiam com o peso dos caminhos esquecidos.
— O que buscas, viajante do abismo? — ele perguntou, sem mover os lábios, como se a própria paisagem tivesse falado.
Arale desmontou, sua armadura chiava em protesto. Ela não respondeu com palavras. Estendeu lentamente a mandíbula arrancada de um gobelinus, envolta em prata líquida — um símbolo. Um gesto. Um pacto.
Allant assentiu com um olhar que compreendia o desespero mudo das coisas que não se dizem. E então, do chão, ele arrancou um mapa. Mas este não era feito de papel, nem tecido, nem pedra. Era feito de lembranças — memórias fossilizadas dos que se perderam tentando entender o Limiar.
— Siga a trilha dos olhos enterrados. Lá encontrará o prisma-espelho. Mas cuidado... Citlalmiquiztli a observa. Ela julga os desequilibrados.
À essa altura, o vento começou a zumbir como um velho bêbado recitando maldições. E lá, no horizonte, a figura dela surgiu.
Citlalmiquiztli.
Não como inimiga. Não como aliada. Mas como juíza.
Seu semblante jovial se mantinha, mas seus olhos... seus olhos não perdoavam. Em cada passo, ela pisava em realidades desfeitas. Em cada gesto, o universo parecia suspenso por um fio de cabelo. Ela olhou para Arale como se olhasse para o próprio destino — não com piedade, mas com pesar.
— Procuras justiça... ou vingança? — murmurou, quase com ternura.
Arale não respondeu. Talvez porque não soubesse mais a diferença.
E assim, ambas se encararam:
Uma guerreira do plasma, ferida pela lucidez.
Uma guardiã do cosmos, ferida pelo equilíbrio.
O Limiar assistia.
O tempo chorava.
E o destino, como sempre, permanecia de olhos vendados.
O silêncio que se instaurou entre Arale e Citlalmiquiztli era tão profundo que parecia devorar o próprio som. Um silêncio denso, inquisidor, feito não de ausência, mas de peso — o peso do que não se pode ignorar. Arale sentiu o machado em sua mão vibrar. Não por ameaça. Mas por dúvida.
E foi então que Citlalmiquiztli se aproximou. Seus passos não tocavam o chão, mas feriam a realidade. Cada pegada que deixava exalava símbolos — runas astrais, fósseis de uma linguagem esquecida, que tremeluziam e se apagavam como lembranças de um sonho que morria ao nascer.
— Dizes que buscas sentido, filha do plasma. Mas que sentido existe num universo onde até as estrelas enlouquecem? — perguntou ela, com um sorriso que não era deboche, nem compaixão. Era o sorriso dos que já entenderam que até a luz cansa.
Arale ergueu os olhos. Seu semblante, endurecido pela desconfiança, carregava a lucidez de quem já perdera tudo, menos o desejo de compreender.
— Se há sentido, ele se esconde nos cacos. Nos espelhos quebrados. No espasmo final do que amamos antes de ser devorado pelo absurdo — respondeu. Sua voz soava como se tivesse vindo de outra era. Uma era em que ainda se rezava.
Citlalmiquiztli parou. Estendeu a mão. Um gesto simples. Humano.
— Então prova. Olha.
Arale hesitou. Mas afinal, o que é a hesitação senão a sombra da coragem? Aproximou-se. E viu.
Na palma da mão da guardiã, surgiu o Prisma-Espelho de Sangue de Wendigo.
Mas não refletia luz. Refletia passados negados.
Arale viu a si mesma — não como guerreira, mas como menina, numa estação de mundos abandonados. Sozinha. Viu o momento em que escolheu o plasma, não por heroísmo, mas para não sentir mais o frio do afeto extinto. Viu os rostos que deixou morrer para sobreviver. Viu o riso do primeiro amor, silenciado pela lógica da guerra.
E chorou.
Mas não com lágrimas. Chorou com tremores, com silêncio, com a forma como a respiração se recusava a seguir o ritmo do universo.
— Não se forja uma arma devastadora sem devastar o que te habita — disse Citlalmiquiztli, guardando o prisma como quem sela um destino.
Então, e só então, ela entregou o primeiro item.
— Vais seguir. Ainda há a engrenagem da criatura orgânica e a lamparina da maçã fantasma. Mas te aviso: o que encontras do lado de fora só revela o que se nega dentro.
Arale assentiu. O corcel chiou atrás dela, como se sentisse o peso da revelação.
Ela montou. Seguiu.
Mas agora… cada passo do corcel reverberava memórias que ela nunca quis lembrar.
E Citlalmiquiztli ficou, fitando o céu, como quem consulta um mapa feito de constelações doentias.
Porque Ela sabia: a verdadeira caçada nunca é por objetos.
É por redenção.
O Limiar — esse teatro do impossível — começava a pulsar como um útero cósmico, doente e grávido de delírios. Após deixar para trás o prisma, Arale adentrava uma nova região. O ar ali não se respirava — engolia-se. Pesado, viscoso, úmido como uma confissão não dita.
O corcel de fuligem estancou. Farejava. Sentia. Algo ancestral despertava no ventre da terra, como se o próprio inconsciente universal estivesse prestes a vomitar uma lembrança reprimida demais para ser ignorada.
À frente, uma clareira. No centro, um ser.
Não era bicho. Não era máquina. Era o casamento malsucedido de ambos. Tinha braços como raízes nervosas, olhos em constante mutação, e um torso onde uma engrenagem de osso e carne girava, cuspindo uma gosma que cantava em notas dissonantes. A criatura vivia em sofrimento — mas um sofrimento orgulhoso, como o de um tirano que se recusa a morrer.
E falava.
Não com palavras. Mas com visões.
Arale caiu de joelhos. Um colapso. Não físico, mas existencial.
Ela se viu como mero código — dados emocionais transmutados em circuito de decisão. O que chamava de “alma”, ali, era interpretado como algoritmo de defesa psíquica. Nada mais.
A criatura a olhava e mostrava:
Que não há essência.
Que o instinto reina.
Que tudo que nasce… é para devorar.
E então avançou.
O chão fendeu. As árvores-gritos se enroscaram nos céus.
Mas Arale... ruiu para dentro.
Foi em seu colapso interior que encontrou a fagulha.
Não uma verdade.
Mas uma negação da verdade da besta.
Porque se tudo é instinto, por que ainda hesitamos?
Se a alma é um erro de cálculo, por que ainda morremos por ideias?
Ela ergueu o machado de plasma. Mas não o lançou.
Ela o fincou no próprio peito.
O golpe não a matou. Despertou.
O plasma fez contato com sua memória mais pura — a lembrança de quando amou sem saber o que era o amor.
E isso... não estava na lógica da criatura.
A besta recuou. Urrou. Engasgou-se com o próprio código vital.
E ali, no meio da dor...
a engrenagem orgânica caiu.
Arale a recolheu com mãos trêmulas.
Tinha dentes. Tinha coração. Tinha peso.
Mas também tinha um ritmo.
E pela primeira vez, o universo parecia sussurrar esperança.
Ela montou no corcel, agora exausto.
Mas sabia: só faltava a lamparina da maçã fantasma.
E que no caminho, os mortos — os dela — a esperavam.
A noite caía no Limiar como uma sentença, não como um ciclo. Não havia lua, apenas um céu costurado com fios de saudade. Arale cavalgava com a engrenagem orgânica presa ao peito — pulsando ainda, como um coração transplantado que não esqueceu a vida anterior.
Agora, ela adentrava um bosque.
Não um bosque comum.
Um bosque de árvores que murmuram nomes esquecidos.
Cada folha era uma lembrança.
Cada galho, uma escolha abortada.
E o chão... feito de promessas não cumpridas.
Ela desmontava.
O corcel recuava. Não por medo. Mas por respeito.
Ali, tudo era memória que não quer ser lembrada.
Então a vê.
A Maçã Fantasma.
Ela paira no ar, envolta em névoa translúcida. Uma fruta feita de luz e cheiro — com o aroma exato do lar perdido, do colo da mãe morta, da infância em que ainda era possível rir sem carregar culpa.
Mas a maçã... não brilha sozinha.
Está acesa apenas por um fio de chama interior.
A lamparina que a sustenta é o que Arale busca.
Mas tocá-la requer um preço:
lembrar do que mais se tentou esquecer.
E o Limiar cobra sem piedade.
A presença surge.
Ela.
A própria Arale — mas criança.
Menina, suja, faminta, segurando um brinquedo que não existe mais.
— Você me deixou — diz a criança.
— Eu precisei sobreviver — responde Arale, a guerreira.
— Sobreviveu? Ou apenas esqueceu como era viver?
A lamparina oscila.
A maçã escurece.
Arale faz o impensável.
Ela se ajoelha.
Abraça a criança.
Não com culpa. Mas com ternura.
E diz:
— Eu senti tua falta.
Por um instante, o Limiar treme.
A luz retorna.
A lamparina se acende em definitivo.
Ela a segura. A chama é fria, mas intensa — uma iluminação que não cega, mas revela.
Mostra o que se é, o que se foi, e o que se poderia ter sido.
Agora, com os três itens em mãos —
Arale retorna.
Mas algo mudou.
Ela não é mais só guerreira.
Ela é testemunha.
De si.
Do universo.
Do abismo.
Var’Ghul a espera.
E com o códex umbra, uma arma será forjada.
Mas a pergunta permanece, cintilando como estrela morta:
Que tipo de arma pode carregar o peso de uma alma redimida?
Arale entrega seu machado e aguarda, meditando do lado de fora da torre. Meditou por sete luas e sete sóis. Durante a meditação, ela enxergou um pássaro espiritual chamado Xa´vir lhe solicitando que siga ao horizonte, além do limiar: lá do outro lado da floresta reside uma pequena aldeia que ela precisa seguir...
Arale então abre os olhos e pondera:
— Por que minha máquina de ossos não me forneceu um pergaminho sobre esta missão?
Valgur a clama.
Ao adentrar no salão, ela fica deslumbrada com o que vê.
Seu machado está pulsando com uma lâmina nova, com uma luz de plasma e um cabo de carvalho escuro totalmente restaurado. No centro da lâmina, onde reside um formato de coração, ali fora inserida uma esfera de energia e o prisma. Ao apertar a esfera, o machado se transforma em uma arma que rasga os véus entre os mundos...
Seu machado, o T'Zakrah — A Gume do espírito ancestral — agora também pode transmutar em uma ceifadora com balas.
Nesse instante, a máquina lhe fornece um pergaminho:
“O T’Zakrah, seu tomahawk xamânico, é seu legado ancestral e é forjado da madeira fossilizada do Ipê Fantasma, banhado em prata lunar e embutido com cristais oníricos recolhidos dos sonhos dos antigos. Seu fio é etéreo — corta não só carne, mas também memórias e maldições. No cabo, inscrições em língua indígena extinta dançam ao toque da luz, pulsando com o ritmo do tambor do mundo espiritual. Quando em repouso, murmura cantos de guerra de um tempo perdido...
Ao pressionar a prisma-esfera ou ser girado três vezes no ar e batido contra o solo, o T'Zakrah libera um urro ancestral, evocando o espírito de um Jaguaretê de silício.
O machado se desfaz em partículas de luz âmbar, que orbitam em espiral ao redor do braço do portador — como se ele vestisse o próprio espírito da floresta em guerra.
As partículas se condensam num corpo de uma espingarda alongada, com uma coronha feita de osso de Ent digitalizado e cano duplo pulsante, atravessado por veios de código xamânico que brilham em vermelho-azul, como uma profecia radioativa.
Nome das Munições:
"Bala de Sangue Solar"
Condensada do plasma vital de entidades espectrais derrotadas. Ao atingir o alvo, explode em uma chuva de luz rubra que queima a escuridão como sal em ferida profana.
"Projétil de Próton Verdejante"
Conjurado de partículas bioespirituais — um ataque quântico que atravessa dimensões, desmaterializando qualquer sombra interdimensional que tente escapar da justiça cósmica.
"Munhão T’ata"
Disparo ritualístico que emite um grito ancestral ao ser disparado, causando pânico em entidades das trevas e chamando os espíritos guardiões da floresta digital para cercar o campo de batalha.
Em sua função espiritual, o T’Zakrah não é apenas uma arma — é um ritual ambulante. Ele reconhece apenas aqueles que ouviram o chamado do silêncio entre os trovões. Serve para caçar criaturas do abismo, desfazer pactos de trevas e selar portais abissais com um único golpe ou disparo...”
O pergaminho se cristaliza, então Arale o guarda na bolsa.
— Minha sincera gratidão... — ela acena com a cabeça e então gira a espingarda no ar, encaixando-a em suas costas e partindo para a nova missão que lhe fora revelada em sonhos.
Quando enfim Arale atravessa aquele inóspito vazio surreal de névoa e ilusão, ela chega ao continente de Aurax, uma região gélida e fantasmagórica. Ela avista de longe uma clareira que serpenteia alaranjada, destacando-se naquela mórbida pintura de prata, e então avança em direção à chama de um lar...
Enfim sua máquina de escrever de ossos lhe sangrara um pergaminho.
— Até que enfim, meu bebê... — ela brinca.
O pergaminho dizia:
"Tribo de Kjaarnheim à frente. (Cuidado com os falsos profetas...)"
Então o pergaminho se desfez no ar como pólvora no oceano.
A neve caía como lâminas de vidro sobre o mundo, cortando o silêncio com um sussurro cruel. O céu era um véu de chumbo rasgado por vendavais ululantes, e a névoa engolira tudo exceto os próprios pensamentos de Arale. Ela avançava com o corpo envergado, os ombros pesados de gelo e propósito, em direção à esquecida e sagrada Kjaarnheim, a vila indígena onde os anciões da Névoa Cinzenta ainda recitavam os nomes perdidos das estrelas.
A trilha era quase inexistente, devorada por dunas gélidas em mutação. Cada passo afundava no branco traiçoeiro que escondia rachaduras e galhos congelados como armadilhas. O vento gritava em línguas antigas, tão antigas que talvez nem o tempo as compreendesse. Arale apenas cerrava os olhos e cuspia sangue, o gosto metálico aquecendo a garganta.
Um clarão pulsante estourava na altura da lua de sangue.
Distante. Os olhos queimando da brancura. Um halo translúcido pulsando entre os pinheiros mortos — como se o próprio mundo respirasse dor. Foi ali que eles surgiram. Três lupinos brancos, criaturas geneticamente corrompidas, forjadas em laboratórios obscuros e esquecidos por seus próprios criadores. Gigantescos, com músculos pulsando sob pelagem albina, os olhos vazios, negros, sem alma. Seres que não rosnavam, mas rangiam, como engrenagens orgânicas sedentas por carne. Arale rugia alto.
Arale se deteve. A mão fria buscou a coronha da T’Zakrah, sua espingarda espectral.
A madeira era negra e viva, cravejada com runas escarlates que pulsavam em resposta à presença dos monstros. Arale rapidamente transmutava as armas com maestria, rasgava a palma com a lâmina do machado e deixava o sangue escorrer e em seguida a alquimia.
As balas da T’Zakrah beberam da oferenda. A arma estremeceu em suas mãos.
O primeiro disparo soou como o uivo de um deus morrendo.
A bala de sangue atravessou o peito do primeiro lupino, explodindo sua espinha e lançando entranhas em espiral no ar. Um clarão púrpura iluminou a névoa com espectros famintos. O segundo veio por baixo, rápido demais. Arale girou o corpo, mas as garras rasgaram suas costas, abrindo um sorriso sangrento que fumegava no frio. Ela caiu de joelhos, cuspindo gelo, mas seus olhos brilhavam como brasas.
O machado veio em arco. Um golpe seco, preciso, arrancando a mandíbula do inimigo que ainda vivia tempo suficiente para uivar como um cão de guerra antes de cair.
O terceiro, o maior, investiu.
Ela ergueu o braço esquerdo — o braço cibernético — uma peça de guerra herdada do colapso dos sete xamãs. Dentes se cravaram no metal. Chamas de dor pulsaram em seus nervos. Mas o braço de aço girou com força brutal. Um estalo seco. O crânio do monstro foi esmagado como fruta podre.
Sangue branco e viscoso jorrou em seu rosto.
Ela tombou de lado, arfando. A neve ao redor tingia-se lentamente de vermelho. O céu parecia mais próximo agora, como um teto de ferro prestes a esmagar tudo. Mas ao longe, as primeiras tochas da vila Kjaarnheim tremeluziam entre os pinheiros.
Ela estava ferida. Mas viva.
Os espíritos antigos, enterrados sob a tundra, sussurravam seu nome. Arale, a sangue-da-névoa.
Caçadora da Aurora.
Portadora do Machado-espingarda. T’Zakrah.
A aldeia surgiu como uma miragem sólida no fim da tempestade.
Kjaarnheim — a Última Vigília dos Ventos, como sussurravam os cantores das planícies geladas. Erguida entre falésias cravejadas de gelo e pinheiros retorcidos, a tribo pulsava com um estranho fulgor âmbar, uma fusão ancestral entre tecnologia esquecida e rituais milenares. Tochas plasmáticas queimavam em torres totêmicas feitas de chifres de urso-do-gelo e antenas de relíquias antigas. As ocas não eram meras cabanas, mas cúpulas vivas, entrelaçadas por cipós bioluminescentes que reagiam ao humor dos habitantes — luzes mudando de cor conforme passavam, como se a vila em si tivesse olhos.
Arale cambaleou ao entrar, o manto rasgado, o sangue ainda quente colando suas costas à armadura térmica. Os habitantes interromperam seus afazeres. Nenhum som foi feito. Eles apenas a observaram, os olhos escondidos por máscaras tribais feitas de aço enferrujado, couro de wyren tundral e lentes óticas de precisão adaptadas como visores. Vestiam-se com camadas sobrepostas de peles e placas cerimoniais, cada traje diferente — indicando caçadores, artífices, cuidadores de bestas ou mestres dos circuitos.
Dos confins da praça principal, avançou Thrym Urr-Naal, o Xamã das Três Códices. Alto, encurvado como as árvores tortas da encosta, o velho trajava um manto feito de asas de corvos mecânicos e fios dourados extraídos de núcleos de IA ancestral. Em seu cajado, um motor de dronossauro pulsava como um coração aprisionado. O rosto era parcialmente coberto por um visor rachado que projetava símbolos vivos em sua testa — runas fluídas de uma linguagem que ninguém mais sabia decifrar.
— Tu sangras, viajante dos ecos. — sua voz era rouca como couro velho sendo costurado. — E o sangue é bom. Ele chama. Ele lembra. Ele desperta.
Arale tentou falar, mas sua garganta era uma fornalha gelada. Apenas assentiu, caindo de joelhos diante da chama da praça — um reator nuclear primitivo disfarçado de fogueira cerimonial. Crianças de olhos vivos e cachos revoltos aproximaram-se com cautela, oferecendo a ela peles secas, água infundida com folhas de synarhk e pequenos ossos talhados em forma de lebres e engrenagens — votos de cura.
De uma estrutura mais afastada, cujas paredes eram feitas de painéis solares resgatados e adornadas com presas de cervomáquinas, saiu Darrun Eksveil, o Profeta de Silício e Vapor. Um homem de cabelos acobreados, longos e embebidos em óleos purificados, olhos cobertos por uma viseira neural que reagia ao ambiente com microexpressões matemáticas. Seus dedos eram implantes refinados, capazes de desmontar e reconstruir um behemoth com os olhos vendados. O povo dizia que ele lia o futuro nas quedas de tensão elétrica do vento e ouvia a voz da Terra através dos tremores do código enterrado sob os glaciares.
— Ela é a do presságio. A que carrega o aço que sangra. A conjunção está próxima, Thrym. — disse Darrun, sua voz embalada por microvibrações vocálicas, como se falasse em múltiplas frequências ao mesmo tempo.
— O T’Zakrah respondeu. A Primeira Batalha foi travada. Três sangraram, um rugiu. — completou o xamã, traçando no ar um símbolo com a ponta incandescente do cajado.
A aldeia então cantou.
Uma melodia grave, ressoante, acompanhada por tambores que eram feitos de chassis de velhas torretas de guerra e cordas extraídas de nervos sintéticos de ursos mecânicos. Mulheres com tatuagens luminescentes dançavam com movimentos precisos e circulares, evocando algoritmos de caça. Velhos narradores recitavam em transe a história do Tempo Antes do Código, enquanto um garoto conduzia um rebanho de fenrirs biomecânicos — grandes cães-lobos cujos ossos eram reforçados com titânio e que latiam em pulsos binários.
Ali, homens e máquinas não coexistiam. Eram um só corpo. Uma só mitologia.
Arale, ferida, mas não vencida, olhou para os céus que agora começavam a se abrir, revelando auroras retorcidas dançando como serpentes elétricas. Um silêncio ancestral pousou sobre ela, como uma coroa invisível.
Sabia, em seu sangue ferido, que aquela vila era mais do que refúgio.
O prelúdio da próxima guerra.
Os tambores estavam apenas começando a bater.
Acordou envolta em peles fumegantes de calor antigo, o corpo nu entre camadas macias que ainda cheiravam a musgo, cinza e especiarias minerais. A respiração era lenta, pesada, marcada pelo perfume estranho que preenchia o abrigo — uma mistura de óleo de engrenagens queimadas e raízes aquecidas. A pele de Arale estava limpa, o sangue lavado, os ferimentos cobertos por unguentos negros e cintilantes. Sentia-se leve. Vulnerável. Quase… humana.
O abrigo era um domo de energia filtrada, com paredes respirantes que pulsavam ao ritmo da luz lá fora. Sentado próximo, com os olhos mergulhados em uma planilha etérea de código flutuante, estava Darrun Eksveil, o profeta, o maquinista, o decifrador do invisível.
Seus olhos artificiais projetavam runas sobre as pálpebras — mas naquele momento, eles a fitavam diretamente, como se tentassem decifrar algo mais profundo que algoritmos. Havia nela uma ferocidade suave, felina. E algo nele, sob a camada de lógica e silício, ansiava pelo toque daquela desconhecida que despertava com olhos dourados e peito marcado por cicatrizes antigas.
Darrun desviou o olhar. Rápido demais.
Mas Arale viu.
Sentiu.
O cheiro.
Não como uma humana.
Mas como uma predadora.
Havia feromônio no ar. Aquela excitação primal disfarçada de reverência. O embaraço rastejando sob o silêncio técnico do cientista. Ela sentiu o calor subir à nuca, não de vergonha, mas de alerta.
Vestiu-se com as vestes que lhe haviam deixado: um manto cerimonial de fibras sintéticas trançadas com escamas de dracomarcas, uma calça ajustada feita de couro técnico tribal e um colar de dentes antigos, ainda vibrando com energia residual. Saiu sem dizer uma palavra, guiada pelo instinto que pulsava como bússola ancestral.
Thrym Urr-Naal aguardava.
Diante de uma estrutura ciclópica, meio santuário, meio torre de observação, onde relíquias de tempos esquecidos giravam em órbitas suaves, suspensas por magnetismo primitivo, o xamã erguia o olhar para as constelações ocultas sob o dia. Quando Arale se aproximou, ele sorriu. Um sorriso antigo, orgulhoso e... maravilhado.
— Tu és o eco perdido. O fragmento que não esquecemos. — disse ele. Aproximou-se, tocando o colar em seu pescoço. — Teus ossos vibram com as canções de Gaya.
Ela franziu o cenho.
— Não compreendo.
— Todos aqui nascemos com cauda. Alguns com orelhas. Pelos. Mas isso se perdeu com o tempo, cruzamentos, colapsos. Apenas os mais antigos lembram. Tu és pura. És nossa origem. És… nossa irmã.
A mente de Arale oscilou como um pêndulo. Imagens cruzavam sua consciência: caçadas em florestas que não lembrava ter pisado, vozes em línguas que nunca aprendera, e o brilho de olhos dourados — iguais aos dela — ecoando no passado.
— Viestes de outro tempo, talvez outro plano. Mas o sangue é o mesmo. — disse o xamã. — Este mundo, este que chamamos Gaya, não era sempre assim. Os anciãos dizem que ele colidiu com um outro céu, um plano superior chamado Fractis. E da fúria dessa colisão nasceram os Deuses.
— Jafari. — murmurou Arale, como se o nome lhe fosse sussurrado de dentro.
Thrym assentiu. Seus olhos lacrimejaram.
— O Leão da Luz. Nosso ancestral. E seu primogênito: No’ahki, o Guerreiro da Raiz. Eles enfrentaram o Caos de Fractis. Venceram. Trouxeram ordem. E teu machado, T’Zakrah, foi a lâmina que No’ahki empunhou. És sua herdeira. És a que retorna.
Ela cambaleou. O mundo girou.
— Teu verdadeiro nome, criança do eco, é... — ele sussurrou com solenidade.
— Baskhiat Sual’Ra — filha do trovão e das estrelas errantes.
Naquela noite, em um círculo de fogo azulado, realizaram a Cerimônia da Prisma Tríade. Arale — não, Baskhiat Sual’Ra — bebeu do vinho das almas, uma infusão de seiva de árvores vivas, sangue de lobo-máquina e lágrimas de obsidiana líquida. O calor subiu por sua garganta, queimando seus sentidos.
Ela testemunhou com lágrima nos olhos.
Isis, a Senhora do Véu: Uma feição tão amorosa e amigável**,** olhos que escondiam galáxias, e mãos de cura e destruição.
Nix, a Deusa do Abismo Noturno: com cabelos de serpentes de luz e nua como a noite, pele de estrelas em colapso, a voz um lamento de todas as mães que perderam filhos para o vazio.
Anubis, o Guardião dos Fios da Morte: cabeça de chacal sideral, corpo coberto de engrenagens rúnicas, segurando uma balança onde as almas eram medidas em bytes de destino.
— Há algo que cresce sob tua terra, Ysmir. — disse Isis.
— Um mal antigo, sem nome, sem rosto. — sussurrou Nix.
— Mas tua alma será guiada. Pela guardiã perdida... — completou Anubis.
Na névoa daquele diálogo ela apareceu.
Citlalmiquiztli.
A Deusa-estrela.
Com olhos de quartzo negro e um corpo feito de constelações mortas. Ela caminhava entre as dimensões como bruma. Sua voz, suave e imortal:
— O caminho te aguarda além dos Picos do Gelo da Morte.
No subterrâneo de tua linhagem repousa a pirâmide cybercosmo.
Lá encontrarás aquele que despertou:
Quetzalcóatl. O Senhor das estrelas.
Ela viu — ou sonhou — o vale oculto no coração do México, uma cidade abandonada entre raízes metálicas, e um templo com portas abertas para as almas perdidas. Sentiu o frio da encosta, o cheiro da floresta desconhecida, e o sussurro do dever.
Observar os astros. Proteger o equilíbrio.
Decifrar o destino. Despertou com um sobressalto.
As chamas ainda ardiam. Na parede da caverna, desenhado com o sangue do vinho sagrado, o símbolo dos três deuses pulsava.
— Tenho tantas perguntas... — Arale arfou.
— És da casa Fay´ax. Sua mãe Lyra está conosco, mas, para este povo, você é a representação da linhagem de Sual’Ra, a escolhida de Citlalmiquiztli para ceifar Quetzalcóatl.
— Se eles têm fé em minha origem, devo honrar meus ancestrais e meus descendentes, pois a única coisa que conheço à prova de balas é a nossa fé...
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Velian: Sob o Chamado de Nix
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele odor residual que permanece na pele mesmo depois de muitos banhos. O que fora dito, o que fora silenciado, tudo seguia reverberando dentro dele, como as ondas mansas do mar que vira na partida, batendo sem pressa na memória.
Agora, Fortaleza o recebia novamente, com suas ruas quentes mesmo à noite, onde o suor se misturava ao sal do ar, e os prédios se erguiam como colossos cansados, com as fachadas descascadas pela maresia e pelo tempo. A cidade vibrava em outra frequência, mais bruta, mais nua, mais próxima da pele.
Velian caminhava pelas calçadas irregulares da Aldeota, depois cruzou lentamente o Centro, onde vitrines fechadas refletiam sua figura alongada, espectral, entre restos de lixo e placas enferrujadas. Não tinha pressa.
Procurava sangue, sim — como sempre — mas não apenas para se alimentar ou tentar saciar-se, e sim como quem deseja, ainda que secretamente, sentir-se parte de alguma coisa: um olhar, uma troca de palavras, um encontro improvável no meio da noite suada de uma cidade que parecia tão alheia quanto qualquer outra.
A cada passo, sentia a carne mais densa e o espírito mais leve, como quem se desloca gradualmente entre dois mundos. O Rio ainda latejava nele, com o cheiro doce das manhãs à beira-mar e as conversas enigmáticas com Cassandra, aquela que sempre o fazia sentir-se ao mesmo tempo mais forte e mais vulnerável. Ela ficara — e ele voltava a vagar, como sempre.
Havia ironia nisso, claro: uma criatura tão antiga, tão cheia de histórias, e, ainda assim, eternamente condenada a buscar um sentido nas ruas de cidades modernas, iluminadas por néons decadentes e com o asfalto rachado expondo raízes velhas que insistiam em romper a ordem dos homens.
Mas, naquela noite, algo o atravessou.
Não foi uma voz, nem um clarão súbito. Foi uma espécie de tração invisível, como um músculo antigo que, mesmo atrofiado, ainda sabe se mover.
O Castelo Drácula o chamava.
Velian reconheceu o chamado não com surpresa, mas com aquela espécie de resignação cúmplice, como quem sabe que não poderia ser de outro modo. Sempre que retornava a Fortaleza, era assim: primeiro vagava, depois era puxado — nunca sabia ao certo quando ia acontecer, mas sempre acontecia. A cidade nunca o retinha por completo.
...vazios e, ao sair dali, sentiu que o ar se rarefezia, como se os elementos conhecidos do espaço urbano começassem a se dissolver.
Em poucos passos, já não estava mais na cidade.
O limiar era tênue, quase imperceptível: o concreto quebrado do calçamento cedia lugar ao solo úmido, coberto de folhas mortas, e o som abafado do trânsito se extinguia, substituído pelo sussurro grave das árvores e o canto noturno de pássaros invisíveis.
A floresta sagrada que envolvia o Castelo Drácula o recebia como sempre — sem alarde, sem cerimônia, mas com a gravidade de quem reconhece um de seus.
As ruínas esquecidas surgiam entre as folhagens como espectros de um passado ainda mais antigo que o seu: colunas tombadas, altares carcomidos, fragmentos de deuses anônimos soterrados pelo musgo e pelas raízes. Velian passava a mão sobre uma dessas pedras frias, como quem saúda um irmão adormecido.
E ali, sem necessidade de invocação, a presença se fazia sentir: Nix.
Desta vez, a senhora da noite não apareceu personificada, como figura, nem como entidade delimitada, mas como princípio. A Senhora da Noite. A vastidão que acolhe e engole tudo, a mãe e o túmulo, o véu e o abismo, Mas, Velian sabia que ela estava lá.
Velian ergueu os olhos. O céu, opaco, parecia mais uma pele translúcida do que uma cúpula infinita. Entre os galhos entrelaçados, as estrelas apenas sugeriam sua existência, veladas pelo manto de Nix.
“Salve, Senhora”, disse, quase como quem saúda uma velha amiga — com respeito, mas também com uma ponta de ironia que não conseguia extirpar nem mesmo diante do mistério absoluto.
Continuou caminhando entre as ruínas, sentindo a umidade das folhas sob os pés, o aroma profundo da madeira apodrecida e da terra revirada. Aquelas eram as relíquias que verdadeiramente o comoviam — não os objetos das cidades, não os monumentos de concreto, mas esses sinais silenciosos de uma eternidade que se consome lentamente, mas nunca desaparece por completo.
O Castelo Drácula ergueu-se, enfim, diante dele, imponente e mutilado, com suas torres fendidas e os vitrais quebrados deixando entrar feixes aleatórios de luar que se desfaziam como fumaça.
Velian parou um instante antes de cruzar o limiar. Respirou fundo, não por necessidade — a respiração, há muito, perdera o sentido biológico — mas, como quem deseja ainda sentir o ar, como quem quer lembrar que ainda é corpo, mesmo sendo, sobretudo, espírito.
Sentia-se vazio e cheio ao mesmo tempo.
Carregava a melancolia inevitável de quem já vira demais, perdera demais, desejara demais. Mas também uma esperança tênue — um traço de luz sob as cinzas do tempo, um resíduo de fé na possibilidade de que, ainda assim, pudesse encontrar um outro, ou um outro sentido, ou apenas o próximo capítulo de sua própria errância.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo de continuar.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, naquele breve intervalo entre o fora e o dentro, o antes e o depois, percebeu mais uma vez a estranha maleabilidade do tempo.
Para os homens, o tempo é linha, é flecha, é cronologia. Para ele, o tempo era mais: um tecido espesso e ondulante, ora nó, ora fenda, ora espiral.
As noites de Fortaleza e do Rio de Janeiro sobrepunham-se agora como véus transparentes: o mar ao longe, o cheiro das frutas na calçada, o calor da pele de Cassandra, a textura úmida das ruínas, o hálito frio de Nix. Tudo coexistia, simultâneo e indistinto.
Não havia passado que se encerrasse, nem futuro que prometesse redenção. Apenas camadas, justapostas, ressoando umas nas outras, como ecos infinitos numa caverna sem fundo.
E, contudo, havia ali, naquele excesso, uma espécie de melancolia mansa: a constatação de que nenhum instante se perde, mas, também, de que nenhum pode ser plenamente revivido.
Velian sabia que continuaria a atravessar cidades, florestas, corpos e séculos, sempre tocando o tempo com a ponta dos dedos, mas, sem jamais poder retê-lo entre as mãos.
Essa percepção, contudo, não o paralisava. Ao contrário: alimentava aquela esperança sutil que, como uma lâmina fina, cortava a densidade da noite.
Ainda que tudo fosse transitório, ainda que tudo fosse simultâneo e indomável, ele continuava.
E esse continuar não era desespero, mas, uma escolha — ou talvez, mais honestamente, uma necessidade inscrita em sua própria natureza.
Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo — sempre o desejo — de seguir adiante.
Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.
E ali, sob o olhar invisível de Nix, senhora do mistério e do silêncio, Velian seguiu.
Como sempre.
Como nunca deixaria de ser.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
23. Diário da Irmã da Ordem II
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 8 de julho de 1374
Fui convocada para uma missão, irmã Teodora me entregou um pergaminho com um nome, não me deu nenhuma explicação, nenhuma justificativa, apenas o nome, o destino e uma ordem: “Elimine-o sem deixar rastros”. Dessa vez não era um ambiente controlado, eu iria sozinha para o mundo real, não fiz nenhuma pergunta, apenas fui completar minha missão. Cheguei à cidade e faz meses que não caminho entre os vivos, e depois de tanto tempo longe, eles parecem tão frágeis e distraídos. Meu alvo era um mercador rico e influente, mas aparentemente insignificante, então não posso perder tempo analisando os vivos, quando a ordem quer a sua morte, mas acho que ele deve ser algo mais do que parece, mas não cabe a mim perguntar. Passei o dia observando, ele almoça sempre na mesma taberna, sempre escolhe as mesmas bebidas, tem um guarda-costas que parece depender demais da força bruta, mas acredito que seja descuidado, já percebi ele se distraindo com as belas moças que servem as bebidas. Se eu quisesse poderia acabar com ele ali mesmo, mas não posso deixar rastros, preciso ser cuidadosa e fazer parecer um acidente.
Data: 13 de julho de 1374
Troquei as garrafas na taverna, o mercador vai beber o vinho envenenado essa noite, não irá fazer efeito na hora, apenas dará a ele uma leve indisposição, o suficiente para fazer com que volte para casa mais cedo. O veneno real vai estar no chá que seu criado prepara para ele antes de dormir, pela manhã quando o encontrarem ele já estará morto, o médico vai declarar falha no coração, nada de suspeito, nada que leve até mim ou a ordem.
Data: 14 de julho de 1374
Ele está morto e ninguém suspeita, volto para ordem hoje à noite.
Data: 3 de setembro de 1374
Os jardins da abadia são muito bonitos à noite, há diversas flores que possui, mas há algo nos crisântemos, na forma como desabrocham, no aroma, no formato deles que me é muito agradável. Algumas das flores daqui duram apenas uma estação, depois se tornam irrelevantes. As pessoas também são assim, algumas são tão fascinantes por um tempo e depois se tornam tão sem importância. Logo precisarei de uma nova missão, algo novo para tornar o mundo mais vivido.
Data: 6 de setembro de 1374
A lua hoje estava cheia e muito brilhante, iluminando o jardim da abadia com seu brilho, eu senti algo a admirá-la, um vestígio de emoção que se manteve em mim por longo tempo, isso é raro. Talvez aqui na ordem sempre haja algo que possa me surpreender, “rezo” para que sim.
Data: 3 de outubro de 1374
Irmã Teodora me deu mais uma missão, dessa vez num vilarejo, uma cria vampírica estava causando terror nesse pequeno vilarejo depois que fugiu de seu covil, após seu mestre ser morto por mercenário descuidado. O vilarejo fedia a sangue, caminhei por entre as casas de madeira, procurando minha presa, eu podia ouvir o choro abafado por detrás das portas trancadas, os habitantes sabiam que havia um monstro entre eles, eles só não sabiam onde estava ou onde espreitava. Não precisei procurar muito, pois ele fez o que todos que confiam demais na imortalidade fazem, foi descuidado. então segui seus rastros, uma mulher com a garganta dilacerada caída na entrada de um celeiro e um homem morto ainda segurando um amuleto sagrado de ferro, como se isso pudesse protegê-lo de algo, e mais à frente encontrei o monstro.
Uma cria vampírica novata, nem mesmo era um bom predador ainda, somente uma coisa faminta e sem controle. Podia me ver nele e quase sentir uma pontada de empatia, era isso mesmo, empatia. Ele estava ajoelhado sobre um corpo, bebendo desesperado. Eu me aproximei em silêncio e era tarde demais quando ele me ouviu. Quando ergueu a cabeça eu vi o terror em seus olhos, as irmãs da ordem causavam isso, alívio para os humanos, terror para os monstros. Ele tentou fugir, mas não lhe dei tempo, com meu punhal rasguei sua garganta, cortando um grito antes que ele saísse, o sangue escorreu, ele se debateu, tentou segurar o corte e se afastar, em vão. O joguei no chão e me ajoelhei sobre ele, meu peso sobre o corpo dele enquanto se contorcia, o punhal dessa vez no seu coração, encontrando caminho em meio a algumas costelas, como eu aprendi com irmã Teodora, senti o osso ceder sob a lâmina e pude ouvir o estalo da sua costela partindo, seus olhos arregalaram, e por um instante pude apreciar o puro pavor nos olhos dele. E então acabou, apenas cinzas.
Fiquei no vilarejo para ajudar seus habitantes a enterrarem seus mortos e oferecer os ritos fúnebres para dar paz às suas almas. Eu os ajudei, mas via nos olhos de cada um o medo do monstro que eu era, talvez eu tenha me excedido demais ou mostrado prazer demais ao matá-lo, não sei dizer. A voz em minha mente sussurrou algo naquela noite, não era fome, vontade ou desejo, mas um “obrigada”, ela estava satisfeita. Então por hoje minha vontade está silenciada.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Le Combat des Âmes Fidèles - O Combate das Almas Fiéis
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi – Capítulo XXVII
(Escrito em meu Diário)
"Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue... já começava a fervilhar."
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira, começou a vibrar de modo antinatural, contorcendo-se com uma raiva que não pertencia à carne humana. Era uma aberração em nascimento. Algo inumano, um filho de trevas e necrose.
A cruz que Monm me entregara, ainda no quarto de vigília, jazia em meu pescoço, sob a camisa rasgada pelo tempo e pela guerra. Ela ardia em meu peito como se pressentisse o mal.
Monm, sem hesitar, cravou uma de suas longas adagas no coração da criatura e, em um movimento certeiro, separou-lhe a cabeça do corpo com a outra lâmina curva. O som foi o de um graveto partido sob os pés da justiça.
Observei em silêncio. A cena me arrebatava não por repulsa, mas por uma fascinação sombria.
— Já vi essas coisas antes, Anton. São ghouls. Não estamos só com humanos aqui dentro. — Sua voz era calma e firme, como a de quem aprendeu a reconhecer a noite pelo cheiro. — O vampiro que o matou busca cervos que não pensam.
— Certo. Temos vampiros... ghouls... e o que, em nome do inferno, são essas coisas, Monm? — indaguei em voz baixa, uma raiva latejante crescendo com a curiosidade.
— Aberrações, criaturas de um mundo que Deus está tentando esquecer. Mas nós ainda estamos aqui para lembrá-Lo.
A resposta me atravessou como um salmo distorcido. Cruzamos a porta com a cautela de pecadores num santuário profanado.
O salão se abriu diante de nós como a barriga aberta de uma besta adormecida. Era amplo, tomado por caixas empilhadas, mesas de madeira carcomida, cadeiras tombadas. Um portão no lado esquerdo permitia a entrada de água barrenta e de um sol amarelado, espectral, como se brilhasse de um mundo distante.
Do lado oposto, em meio a um semicírculo de corpos, erguia-se uma criatura dos pesadelos da infância. Caminhava sobre duas pernas, mas nada nela era humano. Devia medir mais de 2,40 metros. Os braços longos terminavam em garras que brilhavam como facas rituais.
A cabeça era ornada por brânquias pulsantes. Os olhos, negros, tinham íris cor de jade. Em suas costas, três apêndices semelhantes a guelras aladas, mas retorcidas, exalavam uma névoa verde-musgo que sussurrava orações num dialeto perdido, talvez náuatle, talvez infernal.
— Anton, a criatura está em vantagem. — sussurrou Monm. — Vamos avançar por trás daquelas caixas.
Assenti em silêncio. Rastejamos como sombras famintas.
Do esconderijo, observamos. Quatro ghouls, espectros de carne mordida e alma ausente, enfrentavam a fera. Tinham olhos turvos, unhas roxas e dentes gastos de tanto roer os mortos. Avançavam com fúria cega, mas sem coordenação divina. A criatura se movia com uma elegância brutal, uma dança de terror e sobrevivência.
Um ghoul foi partido ao meio com um golpe vertical. O outro teve o crânio esmagado pela garra esquerda. Os dois restantes tentaram contornar o monstro, mas a névoa os alcançou. Era um veneno de alma, drenava vontade e luz. Caíram de joelhos, como penitentes corrompidos.
— Aqueles são vampiros poloneses. — sussurrou Monm. — Provavelmente membros do clã Zmora. Eles dominam o miasma e a mente. Têm agilidade acima do comum, e suas lâminas cortam através da fé. Um deles, o de cabelo branco, é Kazimierz. O outro é Dawid, usa duas rapieiras.
Antes que eu pudesse responder, um dos ghouls foi arremessado em nossa direção, revelando nossa presença. O inferno nos acolheu de vez.
Erguemo-nos. As armas, encontradas por acaso num armário durante a noite em que Monm e Siehiffar me resgataram, já estavam em nossas mãos ao entrarmos no armazém. Monm empunhava suas duas adagas longas de prata, e eu segurava firmemente uma rapieira negra de origem desconhecida, também achada naquele momento. Quando o corpo do ghoul foi arremessado para junto de nós, perdemos as armas por alguns segundos no impacto. Mas logo as recuperamos, firmando posição como sentinelas diante da tormenta. Os vampiros nos encararam como caçadores observando uma presa que ousa se armar.
Kazimierz veio primeiro. Deslizou pelo chão com graça férrea. Saltou, girando no ar, e tentou um golpe diagonal com sua adaga de osso. Bloqueei por um triz. A força era assombrosa. Respondi com uma estocada ao flanco, mas ele evaporou em sombra e reapareceu atrás de mim.
— Anton! Cuidado com as ilusões dele! — gritou Monm, lutando com Dawid, que duelava como um dançarino sacrílego.
Monm esquivava-se com maestria. Uma rapieira o raspou no ombro, e ele respondeu com uma adaga cravada na coxa do inimigo. Dawid uivou, o som foi o de vidro estilhaçado por dentro.
Kazimierz tentou morder-me. A cruz sob minha camisa brilhou, e ele hesitou. Aproveitei. A rapieira cortou-lhe o rosto da sobrancelha ao maxilar. Ele recuou, cuspindo sangue negro e blasfêmias em latim corrompido.
— Você ainda reza, humano? — cuspiu.
— Não. Mas minha espada sim. E ela foi batizada.
Golpeei com toda minha força. Kazimierz desviou, mas não viu Monm vindo por trás. Uma das adagas cravou-se em sua nuca. Kazimierz caiu de joelhos. Com um grito, cruzei minha lâmina com a de Monm e decapitamos o maldito.
Dawid, ao ver o fim do irmão, recuou. Mas Monm, agarrando uma perna de cadeira quebrada que jazia próxima a ele, lançou ao chão um punhado de sal marítimo — remanescente de uma das caixas estilhaçadas nas lutas anteriores. O vampiro gritou. Suas pernas queimaram. Corri, saltei, e cravei minha rapieira — não herdada, mas encontrada por acaso como as armas de Monm — em seu peito. Monm finalizou com a estaca improvisada, direto no coração.
Ambos tombaram. O salão silenciou por um instante, até que uma voz gutural rasgou o ar com força ancestral:
— Váš svět se lembrará de mim! Eu sou Václav Vlk! — rugiu o vampiro, a voz mais parecendo um brado bestial do que uma frase compreensível. Não falava com ninguém em particular, mas gritava para a criatura.
Aquela cena proporcionada pelo vampiro nos deu a impressão de ser um clamor de coragem desesperada, uma tentativa de reacender em si a fúria da batalha, como se evocasse sua própria alma pelo nome. Era seu modo de desafiar o abismo com o que lhe restava de bravura.
A fera recuou, como se reconhecesse o nome. Václav, o vampiro que já estava presente desde nossa entrada no armazém, avançava com uma alabarda manchada de um líquido verde claro e tão vivo numa mão e uma pistola de pederneira prussiana na outra. Seus olhos cintilavam com um brilho febril, como de um passado que sangrava na memória da criatura.
O ser imenso começou a recuar, murmurando com insistência, como se as palavras brotassem de um passado ancestral esquecido:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl... Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl...
Monm franziu a testa, sua mente mergulhando em lembranças distantes.
— Anton... esse dialeto... me soa familiar. Mas não é latino. Nem é náuatle puro. O que é isso?
— "Tetl"... pedra. "Tlachinolli"... fogo. Eu li isso num códice maia esquecido, salvo pelo convento de Oaxaca. É náuatle ritual... algo sobre guerra sagrada... sobre o coração do mundo. "In cemanahuac yolotl"... "o coração do mundo inteiro"...
— E por que ele está dizendo isso?
— Porque, Monm... ele está se lembrando de quem foi. Ou do que destruiu...
O silêncio voltou a cair como um véu, denso e prenhe de presságios. E eu sabia... o verdadeiro combate ainda estava por começar.
Anton S. Miahi – Capítulo XXVIII
(Escrito em meu Diário)
Václav Vlk avançou contra o monstro com uma fúria que desafiava qualquer concepção de medo. Não havia espaço para hesitação, tampouco para pensamentos racionais. O combate apenas prosseguia, como um cântico infernal que se recusava a cessar. Por um instante, a criatura permaneceu estática, repetindo aquele mantra estranho — uma ladainha de tempos esquecidos. Monm e eu trocamos um olhar rápido, buscando decifrar o significado oculto.
Foi então que percebemos a presença de dois indivíduos ocultos, agachados próximo às caixas na esquina esquerda do portão inundado. Um deles, trajando roupas negras, tentou se mover com discrição, mas foi percebido. A criatura virou o rosto lentamente, e o vampiro também.
Num átimo, Václav dissolveu-se em névoa, reaparecendo diante do fugitivo. Antes que qualquer um de nós pudesse intervir, o vampiro exibia um sorriso sádico. Num gesto fluido, agarrou o pescoço do homem e cravou-lhe os dentes. Um grito agudo ecoou pelo salão, reverberando entre as paredes úmidas. O infeliz debatia-se, mas sua luta cessou gradualmente. O sangue cessou de fluir.
Sim. Ele estava morto.
Monm e eu partimos em direção ao vampiro. Por um instante, minha mente esqueceu a fera ao lado direito. Esse lapso foi imediatamente punido: uma mão colossal me atingiu com brutalidade, lançando-me contra uma pilha de sacos de arroz e caixas despedaçadas. Senti as costelas rangerem.
Václav riu, limpando os lábios com o dorso da mão.
— Que pena, Monm... pensei que viesse com palavras santas. Mas tudo o que vejo são punhais e arrogância.
Monm não respondeu com palavras, mas com um salto fulminante. Suas adagas cintilaram sob a luz turva do galpão. Václav bloqueou o primeiro golpe com a lâmina da alabarda, girando o corpo com leveza, como se dançasse. A arma passou rente ao rosto de Monm, que se abaixou, deslizando por baixo da guarda do inimigo e desferindo um chute na perna do vampiro. O estalo foi seco, mas Václav mal se moveu.
— Já fui caçado por inquisidores, Monm. Você não é o primeiro... e, convenhamos, também não será o último.
— E ainda assim continua vivo. Deve ser frustrante para o inferno te ver de volta toda noite — retrucou Monm, arremetendo com a adaga da esquerda, mirando o ombro. Václav aparou com o cabo da alabarda, recuou e, com a pistola de pederneira na mão livre, disparou.
Monm rolou para o lado, o disparo arrancando faíscas das pedras do chão. Ele se lançou por cima de uma mesa caída, chutando uma cadeira em direção ao vampiro, que a partiu em dois com a lâmina. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Monm já estava sobre ele, desferindo uma série de estocadas com precisão cirúrgica.
— Tua dança está velha, Vlk. Seus passos já não assustam ninguém.
— Ainda assim, fazem sangrar! — gritou Václav, golpeando com a haste da alabarda, acertando Monm no flanco. O som de carne e osso sendo atingidos me fez estremecer.
Mas Monm apenas sorriu, com os dentes cerrados.
— Isso doeu. Mas agora... é minha vez.
Num movimento inesperado, Monm agarrou o pulso do vampiro, torceu-o e cravou a adaga na articulação. Václav urrou, deixando cair a pistola. Um golpe certeiro no queixo, e o vampiro cambaleou. Monm chutou seu peito, lançando-o contra uma coluna. A alabarda caiu. Václav se ergueu com dificuldade, o rosto emoldurado por sangue e ira.
— Isso... é por cada alma que você devorou — sussurrou Monm, avançando como um anjo vingador.
Enquanto o combate continuava, tentei me erguer entre a poeira e o arroz espalhado. A dor irradiava das costas e ombros como brasas sob a pele, mas havia uma centelha de gratidão em mim: benditos sejam os sacos de arroz.
Ao virar o rosto, vi um jovem de traços juvenis — talvez quinze anos, ou um pouco menos. Tremia, choramingava, e fazia preces em alemão — palavras que reconheci vagamente de minha infância em Sevilha, quando um velho tutor luterano me ensinava os ecos esquecidos de salmos germânicos, como relíquias de um passado que se recusava a perecer.
Aproximei-me devagar, sem ameaçar.
— Junge... Junge, bist du verletzt? (Garoto... você está ferido?)
Ele olhou para mim com olhos arregalados. Estava pálido como um cadáver recente, mas vivo.
— Ich... ich weiß nicht... sie haben uns geholt... sie... — Ele começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas.
— Calma... estás seguro por ora. Qual é o seu nome?
— Friedrich. Friedrich Kröger... Ich bin aus Lübeck... (Sou de Lübeck...)
— Friedrich, ouça-me. Você precisa sair daqui. Há uma porta nos fundos. Quando ouvir um estouro — corra. Monm e eu vamos manter essa coisa ocupada.
Ele assentiu lentamente, os lábios movendo-se em oração muda. Seu corpo era só medo, mas os olhos — havia fé neles. Uma fé ainda não devorada.
E naquela hora, percebi que não lutávamos apenas contra carne e ossos distorcidos. Lutávamos para salvar os que ainda lembravam como orar.
Foi nesse momento que a fera urrou, um grito gutural que reverberou nos ossos: não era uma palavra comum, mas um nome — o dele mesmo, urrado com fúria primal.
— Nēhuatl Aloxōtl... Tlāltikpak tzitzimitl! — bradou a criatura, em um dialeto ancestral que escapava das dobras do tempo.
A criatura tornou a rugir, reafirmando seu nome como quem sela a própria maldição:
— Nēhuatl Aloxōtl... in nemiliztli cualli, in miquiztli tlachinolli!
Logo após, num bramido carregado de uma dor que parecia milenar, sua voz rompeu mais uma vez o ar saturado:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl!
— Isso foi... nahuatl? — perguntei, franzindo o cenho, tentando vasculhar a memória por aquela cadência extinta.
A criatura tornou a rugir, como se se recordasse de sua própria maldição: — Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl! — bramiu com raiva quase febril.
— "Pedra e fogo... o coração do mundo... não foi ofertado..." — murmurei, traduzindo de forma tosca e instintiva, com um nó na garganta.
Monm girou o rosto, os olhos arregalados.
— Aloxōtl... ouvi esse nome numa ruína perto de Tenochtitlán. Era um espírito de destruição. Um condenado. Um ser que não devia estar aqui.
— Pelo que li em manuscritos antigos — sussurrou Monm, quase em reverência —, não se trata de um deus, mas de algo que ousou aspirar à divindade. Uma entidade do submundo asteca, forjada nos confins insondáveis de Mictlán. Durante um ritual arcaico, o sacerdote incumbido do sacrifício final hesitou, e nesse instante de fraqueza, o processo foi interrompido. Em vez de ascender ao plano dos deuses, a entidade se amalgamou à carne de seu invocador — um sumo sacerdote já corrompido pela ambição e pelo sangue. Desde então, vagou pelas fronteiras da existência, presa entre mundos, entre o éter e a matéria. Forças ocultas, possivelmente ligadas a ritos de translocação do Velho Mundo, o arrancaram de seu tempo e o lançaram para cá, como uma relíquia maldita do México ancestral, retida entre o ontem e o eterno, entre a morte e a memória sagrada.
A criatura urrava para o vazio: uma besta tentando lembrar a si mesma de que ainda existia — ou, talvez, anunciando sua danação ao mundo. Václav hesitou por um breve instante, distraído pela súbita irrupção daquela brutalidade animalesca.
Monm, atento como um lobo à espreita, percebeu a brecha. Estava de frente comigo, tendo o vampiro entre nós. A criatura se encontrava à esquerda de Václav, a mais de dez metros, ainda imersa em sua fúria desgovernada. Aquela era a chance. Nossos olhos se cruzaram, e sem necessidade de palavras, compartilhamos um plano silencioso: era preciso agir com rapidez. Com um leve movimento de cabeça, Monm sinalizou que, a qualquer momento, eu deveria correr.
Václav então se voltou para a criatura, em tom zombeteiro:
— Quem és tu, besta? Um espírito faminto preso em carne e osso? Um cão molhado rosnando contra os vivos? Esperava mais de um espectro milenar!
A criatura respondeu com um grunhido gutural, o som de séculos de ódio condensado em um só instante. Monm, sem perder o ritmo, rebateu com sarcasmo:
— Cuidado, Vlk... alguns cães mordem mais forte que o inferno.
Enquanto a tensão crescia entre as feras, deslizei pelas sombras, cada passo sussurrando segredos ao chão. Mas o monstro percebeu. Seus olhos faiscaram com fúria repentina. Num rompante animalesco, lançou-se contra mim.
O impacto foi devastador. Rolei para o lado, escapando por pouco das garras que despedaçaram o solo. A criatura girou com velocidade absurda, mas eu já me esgueirava entre colunas e destroços. Era a dança do desespero.
Monm aproveitou o momento. Saltou sobre um caixote, alavancando o próprio corpo com as duas lâminas empunhadas. Ignorando a fera, lançou-se diretamente contra Václav Vlk, mirando-lhe a garganta com precisão mortal. Um golpe que teria sido fatal — se Vlk fosse um homem comum. Ao aterrissar, Monm ficou perto demais do monstro, que girou com brutalidade e o lançou contra uma pilastra com um baque seco. Mas ele se levantou, os olhos ainda fixos em Vlk. Era ali que residia o verdadeiro perigo.
Enquanto isso, avancei com ele, olhos cravados na figura do vampiro.
Friedrich, o jovem alemão, permanecia em silêncio, oculto nas sombras, até que recebeu um sinal sutil de minha parte: quando chegasse o momento certo, deveria correr.
Vlk, com seu sorriso cruel e presunçoso, continuava a provocar a fera, divertindo-se com o caos.
— Essa tua arrogância vai te enterrar mais fundo do que essa criatura, Václav — retrucou Monm, sem vacilar.
A fera, enlouquecida, desviou seu olhar em minha direção, captando o rastro dos meus movimentos furtivos. O instinto selvagem tomou o leme; o pouco de controle que ainda restava se desfez.
Num novo surto de fúria, a criatura investiu contra mim. Esquivei-me com precisão treinada — cada gesto ensaiado como um ritual de sobrevivência. E o combate explodiu como um trovão em plena catedral: brutal, frenético, cruel.
Lutávamos: carne contra garras, aço contra ossos. Minha lâmina rapieira feria, desviava, provocava — açoite de precisão em meio à selvageria. Os dentes da besta rasgavam o ar, tentando encontrar minha carne, mas seus ataques falhavam por um fio de segundo, desviados pelo instinto que a dor e o medo haviam aguçado em mim. Ao fundo, Monm, já de pé, avançava novamente contra Václav Vlk, forçando o vampiro a recuar entre imprecações sibilantes e risos ácidos como fel.
A batalha era uma tempestade viva: o cheiro metálico do sangue e da carne queimada flutuava no ar, entrelaçado ao som de passos frenéticos e urros que pareciam brotar das entranhas do próprio inferno.
Friedrich, os olhos arregalados como espelhos de pavor, aguardava — só aguardava — o instante certo para fugir, enquanto ao seu redor o destino se desenrolava em aço e sombras. Sinalizei com um gesto firme, apontando a porta estilhaçada pela colisão com o cadáver do ghoul. Sem hesitar, ele correu. Não olhou para os lados, não gritou, apenas correu, com a alma cravada no instinto de sobrevivência. Ele realmente queria viver.
Não que Monm e eu não desejássemos o mesmo — mas sabíamos demais. Estávamos presos àquele lugar por laços que transcendiam o medo: honra, missão... ou maldição.
Movi-me entre pilhas de caixas, escombros e colunas rachadas, buscando uma posição vantajosa. Quando encontrei um ponto seguro de onde pudesse agir, sinalizei ao meu aliado. Monm captou o gesto, e então — como um maestro no ápice de sua sinfonia — investiu contra o vampiro com uma série de ataques fulminantes. Seus golpes eram rápidos e certeiros, movendo-se com a precisão de um guerreiro treinado além do tempo. Vlk, por sua vez, desviava-se com a graça de um predador antigo, empunhando uma alabarda com uma fluidez quase coreográfica.
Foi nesse instante que percebi algo além. O vampiro começara a recitar palavras em um idioma antigo, estranho e profundamente blasfemo. As vibrações desse discurso pareciam rachar o próprio ar. E então, surgiu uma nova presença.
Sentado sobre um monte de caixas quebradas, havia um ser cadavérico. Usava o que parecia uma coroa retorcida, um cajado disforme nas mãos esqueléticas, e vestes que lembravam restos de veludo cerimonial misturado a mortalhas profanadas. Sua pele era fina como pergaminho seco, e seus olhos... vazios, gélidos, observavam a cena com a paciência de um juiz das eras.
Não havia tempo para contemplações. Voltei-me para o vampiro justo no momento em que Monm me fez novo sinal. Sem palavras, compreendi: o ataque final viria agora.
Monm investiu com fúria controlada. Suas duas adagas riscaram o ar em movimentos oblíquos e alternados, forçando Vlk a recuar até a grande mesa redonda que jazia no centro do salão em ruínas. A madeira rangeu sob seus pés. O vampiro tentou usar a alabarda, mas Monm a prendeu com um giro acrobático de uma das lâminas, enquanto a outra ameaçava sua garganta — travando-o por um instante precioso.
Aproveitei. Lancei-me com toda a força contra o flanco do inimigo. O impacto o desequilibrou — e foi o bastante. Monm saltou, girando no ar como uma sombra viva, e desferiu o golpe final: um corte horizontal que atravessou o pescoço de Vlk. O som foi abafado, como se o tempo se comprimisse ao redor do aço. A cabeça tombou com um baque surdo, rolando pela mesa antes de cair ao chão, estalando contra as pedras como um cálice profano.
O corpo do vampiro ainda estremeceu, como se tentasse agarrar os últimos instantes de uma eternidade roubada. Depois, tombou — e a escuridão ao seu redor pareceu estremecer com seu fim.
Ofegantes, Monm e eu trocamos um olhar — sabíamos que aquilo era apenas o prelúdio. Pois o ser que nos observava, imóvel, ainda não havia feito seu movimento. Mas a criatura — o monstro ancestral — também o percebeu.
Ergueu-se com violência, liberando ao redor uma nuvem de névoa pútrida e tóxica que nos obrigou a recuar alguns passos. O ar se tornava mais denso, os olhos ardiam, e o coração parecia pulsar em outro ritmo diante daquela emanação sobrenatural. Então, como se tomada por uma cólera divina, a criatura bradou seu próprio nome com voz que reverberava nas entranhas do templo:
— Aloxōtl!
E, com a mesma fúria, bradou o nome do reino que a pariu nas trevas:
— Mitclan!
Num ímpeto de fúria atávica, Aloxōtl lançou-se sobre o visitante cadavérico, suas garras envoltas pela neblina venenosa que exalava como um manto de morte. O ar vibrou com a colisão iminente. Mas o estranho se ergueu com uma calma profana, como se cada movimento seu estivesse sintonizado com os relógios do juízo. Quando a criatura alcançou seu alcance, ele ergueu o cajado, que brilhou com uma luz âmbar soturna, desviando o golpe com um arco de energia espectral. Antes que a criatura pudesse contra-atacar com as presas escancaradas, ele girou o cajado como um bastão de sentença, bloqueando a mandíbula infernal com precisão inumana. O som do impacto ecoou como um trovão abafado num túmulo selado — e a batalha transcendia agora os limites da carne, entrando no domínio das forças esquecidas.
A cena que víamos, tanto eu quanto Monm, beirava o patético — mais para nós do que para o recém-chegado. Pelo simples fato de que ele parecia não empregar esforço algum em conter o Aloxōtl.
— Ele... está brincando com ele? — sussurrei, mantendo os olhos fixos na criatura cadavérica.
Monm, limpando o suor da testa com as costas da mão, assentiu com um leve movimento de queixo.
— Parece mais uma dança que um duelo — murmurou. — Mas quem, em nome do Altíssimo, é esse sujeito?
Como se ouvisse a pergunta lançada ao éter, o ser virou-se lentamente para nós. Seus olhos, vazios como a eternidade, cravaram-se nos nossos.
— Chamo-me Tezcal — disse, a voz de barítono soando como um canto sepulcral. — Fui criado das cinzas e do lodo pantanoso do Mitclan, uma fusão sombria de elementos terrenos e divinos, infundida com o sangue de Xolotl. Sou o reflexo entre os mundos. Moldado como um intermediário entre os vivos e os mortos, minha existência tem como objetivo manter o equilíbrio no ciclo da vida e da morte.
— És um necromante? — perguntou Monm, dando um passo adiante.
— Não — respondeu Tezcal, com calma imperturbável. — Sou o eco dos que caminham sem corpo, a vigília dos que repousam em ossos. Não comando os mortos. Eu os ouço.
O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido. Aloxōtl, apesar da fúria anterior, recuava em círculos lentos, como um animal que pressente uma força que transcende sua fúria.
— E por que agora? — perguntei. — Por que intervir presentemente?
Tezcal apoiou o cajado no chão. O som ressoou como se ecoasse nas catacumbas do mundo.
— Porque o véu entre os mundos foi rasgado. Vocês o rasgaram. E ele... — olhou para Aloxōtl, cuja névoa começava a perder intensidade — não deveria ter atravessado.
Monm cerrou os punhos.
— Vai destruí-la?
— Não — respondeu Tezcal. — Vou devolvê-lo ao sono que jamais deveria ter sido interrompido.
Tezcal começou a murmurar. Um canto em dialeto azteca, antigo como os ossos da terra, deslizou de seus lábios como uma oração invertida. Gradualmente, o sussurro tornou-se canto pleno, ressoando nas paredes com ecos que pareciam vir de debaixo da pele do mundo. O ar gelou — não com frio comum, mas com o gélido das tumbas abertas. As sombras, até então imóveis, começaram a deslizar pelo chão como serpentes, convergindo para o recitador.
Aloxōtl, num último ato de cólera, tentou investir contra Tezcal — suas garras enegrecidas pelo veneno, sua boca aberta num rugido ancestral. Mas o ambiente pesava como chumbo, e a própria matéria parecia se curvar ao rito.
— Anton... — sussurrou Monm. — Isso... isso é um ritual de banimento?
— Parece mais um julgamento — respondi, com a mão instintivamente sobre a cruz que repousava sob meu manto. E ela queimava. Queimava com um brilho índigo, como se o céu clamasse por ordem.
Tezcal então silenciou. No mesmo instante, a criatura foi tragada do chão por uma areia negra e espessa, que brotou sob seus pés como uma fauce aberta. O som era de carne sendo puxada por ganchos, de ossos esmagando vidro. O odor de carne podre, sangue envelhecido e enxofre empestou o ar. E antes que pudéssemos reagir...
— Não... isso não é apenas magia — tentei dizer, mas a frase morreu em minha boca.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Ordam Noctam
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
E N W
No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino. Ao seu redor, um halo perfeito, um arco circular de luz diáfana que parecia emanar do satélite, como um diadema mágico flutuando na noite. O pano de fundo da visão era um azul-marinho profundo que tingia o céu noturno, quase aveludado, salpicado em milhares de estrelas, cada uma cintilando em matizes de branca luminosidade, dispostas em constelações desconhecidas. A névoa tênue que serpenteava pelos beirais góticos das ameias realçava o contraste entre as sombras do castelo e o esplendor etéreo da Lua.
Uma densa névoa cobria os corredores de pedra do Castelo Drácula, escorrendo pelas paredes como um véu e também encobria os pensamentos de Minerva, mergulhados em águas profundas e insondáveis. Naquela noite, a Lua que pairava no céu marcava o momento sagrado em que a própria Lua, a Mulher e a Noite se tornavam uma só entidade arcaica.
Minerva sentia, em seu íntimo, o chamado da escuridão reverberar no peito, como o bater de um tambor antigo anunciando o inevitável. A hora se aproximava, talvez a mesma que a visitara no sonho da clareira dos láparos. Sua magia pulsava sob a pele como eletricidade contida, e seus olhos, já tingidos pela essência da loba, brilhavam em azul ardente, como safiras em chamas anis.
Minerva caminhou lentamente pelos corredores de pedra, onde a luz das tochas tremeluzia. Seus passos ecoaram ao atravessar o umbral da galeria dos espelhos, um santuário onde o silêncio parecia respirar. Ela usava um vestido preto e longo, feito de linho. Os cabelos cacheados estavam presos em um penteado elegante: duas tranças delicadas unidas atrás da cabeça, firmadas por um broche de mariposa prateada. A cada passo, alguns cachos soltos escapavam e saltavam como se tivessem vida própria, dançando na penumbra.
Seus dedos trêmulos apertaram a cruz de Lwccirtt, pendurada em seu pescoço por uma corrente de prata. O artefato parecia pulsar sob sua pele, emitindo um calor que desafiava o frio do castelo. Minerva parou diante do maior dos espelhos, onde seu reflexo começava a distorcer, como se o vidro refletisse além da carne.
Minerva sentia a sua aura lupina estremecendo e uivando dentro de si, enquanto seus olhos marejados perdiam o brilho, tornando-se escuros. A sombra de Lwccirtt não a deixara. Ela sentia a entidade chamando por seu nome, era estranho como uma coceira no interior de seu cérebro. Ela inclinou o corpo sob o próprio reflexo frio, arquejando. Não desejava ceder à vontade daquela criatura, já não sabia se era ela quem clamava por ele ou se ele era quem chamava por seu nome. Irritada por aquela sensação desconfortável, ela iniciou um pequeno ritual de banimento na tentativa de se proteger contra as influências da entidade em sua mente.
Com a voz firme, porém baixa como uma prece murmurada à meia-noite, ela pronunciou o Tetragrammaton: "Ateh... Malkuth... Ve-Geburah... Ve-Gedulah... Le-Olam... Amen." A cada palavra, sua aura lupina se expandia. Ela estendeu o braço diante de si e com os dedos desenhou no ar o primeiro pentagrama flamejante, visualizando linhas incandescentes surgindo do vazio, traços de luz azul anil que cortavam a escuridão como lâminas. Virando-se lentamente para cada ponto cardeal, ela repetiu o gesto e invocou os nomes sagrados com precisão ritualística, cada entonação carregada de intenção:
"YHVH" — ao leste, onde o vento ouviu a prece.
"ADNI" — ao sul, onde a chama tremeluzente da vela cresceu.
"EHEIEH" — ao oeste, onde um espelho estalou, como se algo ali respondesse.
"AGLA" — ao norte, onde o farfalhar de asas foi ouvido.
A cada nome entoado, uma presença se manifestava. Minerva não as via com os olhos comuns, mas sentia-as com a alma: os Arcanjos Raphael, Gabriel, Michael e Uriel alinhando-se ao seu redor, como pilares de luz velada que sustentavam o mundo oculto. Ela ergueu os braços ao alto, a cruz ainda pendendo em seu peito, e declarou:
— Diante de mim, Raphael; atrás de mim, Gabriel; à minha direita, Michael; à minha esquerda, Uriel; e ao meu redor brilha a estrela flamejante, e no centro... Eu a filha da Noite, demando que minha mente seja protegida do chamado de Lwccirtt!
Ao finalizar, ela traçou um círculo ao seu redor, selando o espaço entre os mundos. A energia no ar parecia viva, como se o próprio véu entre as realidades tivesse sido rasgado. O banimento estava completo e Minerva pedia em seu interior que a proteção funcionasse. Ela deitou dentro do círculo mágico que havia projetado no chão, aflita, pedindo que sua prece fosse ouvida. Seu peito dolorido parecia ainda sangrar e a cruz parecia tão pesada que ela evitou segurar.
A bruxa percebeu que o tempo tinha passado quando olhou de relance no espelho e viu que sua aura lupina estava mais tranquila, aninhada ao seu lado. Ela se ergueu, desfazendo o círculo sagrado. Sua mente parecia mais aliviada, mas algo ainda chamava por ela, algo bem mais familiar. Mais uma vez, ela se aproximou de um dos espelhos, sentindo-o vibrar como se algo estivesse prestes a saltar de dentro dele. Uma imagem encapuzada se formou à sua frente.
Sua mãe, a rainha Nuara, se apresentava diante dela no reflexo do espelho, envolta por um manto negro que cobria sua cabeça. No braço esquerdo, ela segurava uma tocha acesa. Minerva tentou ver o que estava por trás, mas além de sua mãe, só conseguia ver a escuridão. A rainha removeu o capuz, revelando seu rosto pálido e olhos sulcados repletos de sabedoria. Elas eram como irmãs gêmeas. Uma luz reverberou no fundo do espelho. Minerva estendeu a mão para Nuara, que atravessou o vidro como um portal.
As duas se entreolharam e Minerva deu um sorriso saudoso, se aproximando para abraçá-la. No centro do grande salão circular dos espelhos, Nuara removeu o seu manto negro sagrado completamente, o símbolo triplo da lua em sua testa era vívido. Ela viera para buscá-la.
As duas se entreolharam por um instante que pareceu suspenso no tempo. Um sorriso suave, carregado de saudade, curvou os lábios de Minerva antes que ela se aproximasse para abraçá-la. O símbolo da lua tríplice, marcado como prata na testa de Nuara, parecia reluzir na luz das pequenas chamas das velas.
— Filha da sombra, núrida, filha minha... — disse Nuara. — As deusas exigem teu parecer. Não podes mais te esconder neste castelo.
— O castelo não me aprisiona. Eu escolhi ficar. — Minerva respondeu. Os olhos dela estavam faiscantes. — Respeito nosso poder, respeito as deusas, mas este lugar... este lugar é onde pertenço.
— Somos filhas da escuridão, Minerva. — retrucou Nuara, dando um passo adiante. — Não me espanta que te sintas em casa num lugar infestado por forças caóticas e criaturas soturnas... tão soturnas quanto nós. Mas os “incidentes” com as entidades cósmicas que encontraste... não são meros desvios. Primeiro foi Ttyphrssett, e agora... o outro. Espero que não cometas o mesmo erro.
— Sei que não fui cautelosa, mas aqui, neste castelo, meu poder pulsa com mais vida. — murmurou Minerva, apertando a cruz de Lwccirtt contra o peito. — Sinto a força crescer em mim.
— A última entidade... aquela que agora sussurra em tua mente... — Nuara olhou fundo nos olhos da filha. — Ela é quase tão antiga quanto as próprias deusas. Sentimos que ela busca uma brecha entre os mundos... por meio de ti.
— Mesmo assim, não desejo partir. — insistiu Minerva. — Aqui é onde me sinto em paz.
— Minerva... — a voz de Nuara suavizou, mas seu tom era grave como um presságio. — Venho como mãe para aconselhar, mas como sacerdotisa, trago o aviso: as deusas te reivindicam. Elas te nomeiam filha da Noite e te chamam para cumprir os votos. Vais continuar recusando a fonte de onde teu poder emana?
— Eu não recuso as deusas... — disse Minerva, com uma sombra de dor. — Mas não desejo me curvar a nenhum dogma. Não quero ser moldada. Quero escolher.
Nuara suspirou. Por um instante, pareceu mais velha do que o tempo.
— Minerva... Minerva... — sussurrou, com pesar e respeito. — Como mãe, te compreendo. Como sacerdotisa, anuncio: se ignorares o chamado, virá uma punição breve... mas inevitável. — As feições de Nuara estavam mudando quando Minerva se aproximou e, com curiosidade, perguntou: — Mãe?
As feições de Nuara estavam a se contorcer como cera derretendo sob uma chama invisível. Seus olhos tornaram-se completamente negros, vastos como o espaço entre as estrelas. A pele da sacerdotisa parecia agora feita de mármore translúcido, pulsando uma luz que não vinha deste mundo. O salão dos espelhos mergulhou em penumbra.
As velas arderam azuladas, despertaram as chamas como vulcões e os reflexos nos espelhos evaporaram, apenas o vazio ficou. Um vento atravessou o salão, trazendo um incenso antigo, fazendo Minerva arquejar, sentindo um nó na garganta e um peso nos ombros ao cravar os olhos no rosto inóspito de Nuara.
Nuara já não estava mais ali, algo mais antigo e sombrio se instalava em seu corpo. Algo que desejava se comunicar com Minerva e o fez.
— Filha do crepúsculo... do sangue e do limiar. — disse uma voz múltipla, entrecortada e vibrante, como se ecoasse de três bocas ao mesmo tempo. — Tu, que carregas o símbolo dos mundos, ouve agora o chamado do Trino Lunar.
As palavras reverberaram pelas paredes como um cântico sendo entoado. A primeira a se manifestar foi Hekate. A voz tornou-se mais grave.
— Eu sou Hekate, guardiã das encruzilhadas, dos véus e dos segredos esquecidos. Tu despertaste Lwccirtt com tua sede de poder e tua recusa ao chamado. Mas o castelo o sente. Ele se ergue e se corrompe por tua presença e teu toque. — Minerva, com a boca entreaberta, estava com a respiração agitada. Uma pausa foi feita.
— Se não reconheceres o Trino, se não curvares tua alma diante da Noite que te fez, serás devorada. Se Lwccirtt não te encontrar, outros te encontrarão. Caninos longos repletos de sede de sangue.
Hekate estendeu o braço e a cruz de tungstênio no pescoço de Minerva flutuou e brilhou com uma luz ofuscante e cobalta. O calor atravessou sua pele por dentro do vestido. As sombras se movimentaram atrás de Nuara, dançando, sussurrando, contorcendo-se em espirais. Quando Hekate silenciou, foi a vez de Nix assumir. O corpo de Nuara relaxou e a voz tornou-se suave, fria como o orvalho em uma cripta de pedra.
— Eu sou Nix — sussurrou ela — a noite que antecede todas as noites. Berço das sombras, véu da origem. Lwccirtt encontrou uma fenda em ti, Minerva. Ele não te tocou, ele te viu. E no espaço entre um pensamento e outro, plantou raízes. — O chão sob os pés de Minerva pareceu oscilar, como se ela fosse cair.
— Tu não és apenas filha de Nuara. És filha da noite. Da escuridão que acolhe, que vê, que cala. Não negue mais o trino. Tuas recusas rasgam os limites do real. Reconhece-nos ou teu corpo será abrigo para o que nem os espelhos ousam refletir!
Minerva estava incrédula e relutante, exibia seus dentes afiados e sua aura de sombras lupina erguia-se por trás dela. Ela arquejava, buscando a calma que havia perdido. Em um momento, fechou seus olhos, buscando silenciar a mente e, quando os abriu, encontrou a face da última deusa.
Com o corpo ereto, mas a alma afundada, Minerva ainda sentia o coração pulsando não só no peito, mas nas pontas dos dedos, nas têmporas, na cruz de tungstênio em seu pescoço. Aquela presença era mesmo real? Eram as deusas... ou algo fingindo ser?
Então, a última voz ecoou — mais baixa, como uma canção esquecida, cantada para embalar o mundo.
— Eu sou Selene, a que dança com a lua e vela o sono dos vivos e dos mortos. A luz que brilha apenas para os que sabem ver no escuro, aquela que guia a carruagem da luz prateada da noite! Não viemos como donas de teu destino, mas como espelhos daquilo que tua alma esconde. Não somos uma prisão de dogmas. Somos a tua força, criança!
As velas tremeluziam em tons leitosos. A sala girava devagar à percepção da jovem bruxa. Minerva manteve-se em silêncio, olhos arregalados. Dentro de si, o turbilhão de perguntas: eram mesmo elas? Ou seria Lwccirtt, sorrindo por trás das máscaras? Selene parecia ouvir seus pensamentos.
— Dúvida é também parte do caminho. A fé cega é tão perigosa quanto o poder não reconhecido. Mas o que há dentro de ti, Minerva, não pode mais ser adormecido. Nós somos o que sempre foste. A trindade que gerou tua alma nas sombras da floresta. A Noite, a Morte, a Vida. A mulher. A loba. A sacerdotisa!
O rosto de Nuara travou-se em uma única expressão até que seus olhos retornaram ao que eram antes e sua cabeça pendeu para frente, ocultando a transformação. Um espelho às costas de Minerva trincou. A fenda serpenteou o vidro como uma raiz e a cruz de tungstênio em seu pescoço esquentou de novo.
Num rompante final, as sombras se recolheram e a pele de Nuara retomou seu tom natural. Seus olhos negros recuperaram o brilho materno, e o contorno de seu rosto, antes esculpido pela presença tripla, amoleceu-se em traços de calor humano. Ela piscou, como que despertando de um sonho, e estendeu a mão para Minerva, num gesto doce e pesaroso. Uma lágrima cintilante verteu do olho esquerdo de Minerva. Ela baixou os olhos e, sem segurar a mão de Nuara, se distanciou com um passo para trás.
Sem uma palavra, Nuara voltou-se para o maior dos espelhos ao fundo do salão. Com dedos firmes, traçou no vidro um símbolo antigo, um círculo entrelaçado por outros círculos. O espelho vibrou, a superfície ondulou como água, e um portal prateado abriu-se diante delas.
Nuara lançou um último olhar à filha, um misto de amor, urgência e saudade, antes de atravessar. O portal se fechou num estalo surdo, deixando apenas o sussurro das velas e o eco distante de um chamado lunar que prometia voltar. Minerva, sozinha novamente, apoiou a mão no espelho frio, sentindo, ainda, a presença das deusas desaparecer e permaneceu ali firme, em sua mente, buscando uma saída para não se entregar a nenhum dos caminhos dispostos. Ela desejava desbravar o próprio caminho, ela era o próprio conhecimento. Sua natureza de loba urgiu em seu interior.
Tomada por um impulso, ela cravou as unhas sobre os próprios braços e rasgou a pele junto da roupa. A carne dela se desdobrou em fiapos elásticos, se soltando do corpo enquanto seus ossos se remodelavam com um estalo, os dedos alongaram-se em patas firmes, a coluna arqueou, tornando-se a lombar lupina, e os músculos se rearticularam abaixo do pelo negro como breu. Em seu lugar, ergueu-se a loba de pelagem espessa e lustrosa e olhos de um azul frio. No chão, ficaram espalhados os pedaços de suas vestes e, ao lado, o broche de mariposa e a cruz de Lwccirtt, abandonados.
Sem hesitar, a criatura correu e saltou por uma das janelas do castelo, rompendo o vidro em estilhaços. Cada pata pousou com leveza sobre o chão após a alta descida. Ela galopou feroz, em disparada, rumo à floresta obscura. O vento noturno assobiava por entre os pinheiros, arrastando consigo o som ritmado de seu tropegar; em poucos instantes, Minerva-loba sumiu na penumbra das árvores, deixando apenas o farfalhar da mata para trás.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
22. É a Fonte de vida e ajuda a escapar dos perigos da morte
Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Meus olhos ainda ardiam com o sal do oceano e minha mão treme ao escrever tudo isso, seguimos por entre aquela ilha de aparência seca que mais parecia uma ossada gigantesca, que fazia ainda mais me dar conta da minha insignificância. Mara ia à frente, sua silhueta, magra e alongada, parecia por vezes se dissolver no nevoeiro que começava a se espalhar rente ao solo, parecia querer certa distância de mim, caminhava em silêncio. Eu a seguia, cansada, sentindo como se minha alma, se ainda existe uma, pulsasse dentro de mim. Como se eu estivesse caminhando entre realidades, talvez dissociando, porque estamos mesmo caminhando entre realidades, não havia outra explicação lógica. Havia silêncio demais entre nós, aquele silêncio incômodo, palpável, como se minha existência fosse inadequada para ela. Até que ela parou, sua cabeça ergueu de súbito, como se ouvisse algo que para mim não era permitido ouvir.
— Escuta — ela sussurrou.
E então um som estranho, como som de eletricidade abafada, sem direção ou local específico, sufocado pela distância. Viramos ao mesmo tempo e vimos bem ao longe, uma figura difusa, solitária que deslizava em nossa direção, vestida com um manto antigo e escuro, seu rosto oculto por um véu negro espesso. Ela não nos olhava ou ameaçava, apenas caminhava em nossa direção, vinda de sabe-se lá onde, o nevoeiro se condensou e num piscar de olhos ela sumiu. Não houve ruído, apenas a sua ausência súbita no meio daquele nevoeiro, o vento aumentou de intensidade e com ele veio um frio que era mais do que uma mudança brusca de temperatura, era um aviso de que deveríamos sair dali. Mara se virou para mim, com os olhos arregalados e não precisou dizer nada. Corremos, ou pelo menos corri rápido com o pouco de energia que meu corpo permitia, e entramos em uma caverna próxima. A escuridão da caverna nos engoliu, lá dentro era úmido, o ar denso e o cheiro de mineral quase metálico, e a única luz vinha do fundo da caverna, embaçada pelo nevoeiro que invadia. Me recostei na parede fria, ofegante, eu não conseguia parar de olhar para a abertura lá fora, como se a qualquer momento a figura pudesse deslizar até lá e nos encontrar dentro da caverna, eu não sabia o que ela era, para mim não era uma ameaça, mas senti o medo em Mara e isso foi o bastante para me fazer correr.
Fomos mais para o fundo da caverna, o chão sob nossos pés era irregular, coberto de limo, úmido, cada passo nosso era abafado, as paredes eram escuras, riscadas aqui e ali por nervuras metálicas, veios de minerais com um brilho pálido. O teto era arqueado em certas partes, outras erguiam-se como abóbadas de uma catedral esculpida na rocha, outras partes eram tão baixas que nos obrigavam a abaixar a cabeça. Quanto mais adentrávamos a caverna, mais seu ar ficava pesado, impregnado de um odor de sal, ferro e umidade, como se estivéssemos respirando o ar das entranhas da caverna. Gotas dispersas caíam do teto, estalando nas pedras com um som irregular, como uma música experimental e assombrosa, às vezes contínua, outras vezes descompassada. Mara caminhava à frente, sem olhar para trás, os dedos roçando lentamente as paredes, como quem busca uma evidência tátil de que estava no lugar certo e que aquilo era real. Eu não precisava tocar a caverna, eu a sentia sob minha pele, se situando com leves toques gélidos que arrepiavam os pelos do meu corpo, a umidade que começava a ultrapassar as minhas roupas, se infiltrar na minha carne, se fixar na minha consciência. Nós avançamos mais e notei pequenas formas no teto, formações calcárias, finas estalactites como agulhas que pingavam devagar, construindo gota por gota um padrão que jamais seria terminado, algumas pareciam dentes fazendo conjunto com as estalagmites do chão que se projetavam em direção ao teto, algumas delas se unindo uma às outras formando colunas, outras pareciam garras, vestígios de algo que começou a se formar muito antes de nós, e que continuaria mesmo depois de nossa presença ali.
Ao fundo, a caverna se abria numa espécie de sala ampla, do teto, uma escuridão absoluta, o chão ali era mais seco, coberto de pedras quebradas e poeira que formava uma fina nuvem com qualquer movimento nosso. Nos sentamos ali, sem nos olhar, sem trocar palavras, pois não havia necessidade. O som do lado de fora se tornou mais distante, fechei os olhos, e o som do que ouvimos lá fora continuava distante, abafado pelos sons do interior da caverna. Os sons da caverna, indistintos, pareciam carregar o ruído de todas as coisas vivas e mortas, não sabia como eu sabia disso, mas sabia, sentia-me uma hospedeira dentro daquela caverna, não tendo ideia para onde ir e só me restando ali permanecer, ouvir a caverna respirar e esperar o próximo passo de Mara. Antes que eu pudesse descansar direito, Mara se levantou, eu não saberia explicar o sentimento de sentir que eu era repulsiva para ela, mas eu sentia isso, talvez nossa ligação permitisse isso, eu não sei.
Então andamos mais para o fundo da caverna em direção à luz, uma luz prateada difusa, seguimos em direção a ela e foi então que vimos os ossos. Havia crânios empilhados como tijolos, formando paredes, tetos e lustres como uma capela, havia símbolos em excesso, cristãos, iorubás, hindus, judaicos, wiccanos, islâmicos e outros que não reconheci, alguns cobriam os ossos, outros estavam entalhados nos crânios, tudo ali tinha um cheiro seco e pungente. No fundo, sentada sozinha como se fosse parte do cenário, havia uma jovem curvada sobre uma mesa de pedra, escrevendo com uma pena que segurava com os dedos delicados, ao seu redor havia alguns livros e papéis, pequenas relíquias, tudo organizado com cuidado, era dela que vinha a luz prateada. Ela notou nossa presença e levantou os olhos para nós e ficou de pé, ela tinha uma pele de um marrom escuro, um tom tão escuro quanto o meu, olhos âmbar intensos que davam um contraste tão perfeito com o tom escuro de sua pele, cabelos escuros, longos e volumosos, com cachos caindo em cascatas, um fino véu sobre sua cabeça que dava a ela uma aura divina. Seu vestido longo e escuro, com detalhes dourados, parecia uma santa guardiã dos mortos naquele ambiente que possuía uma atmosfera onírica e assombrosa.
— Vocês chegaram — disse com uma voz melodiosa. — Meu pai disse que viriam e eu estava rezando por isso. Aliás, me chamo Siehiffar — disse esboçando um sorriso calmo e fazendo uma leve reverência. — E vocês devem ser Rute e Mara.
Não fiquei surpresa e acredito que nem Mara tenha ficado, com o fato de Siehiffar nos conhecer, todos pareciam saber algo sobre nós, enquanto eu tentava entender quem eu era naquele momento. Eu quis perguntar quem ela era de verdade, como soubera de nós, mas minha garganta permaneceu trancada, esmagada pela densidade daquele lugar. Olhei a parede de ossos à nossa esquerda, só então percebi que as marcas nos crânios não eram apenas símbolos isolados, juntos eles formavam linhas, mapas, trajetos entre as crenças, como se alguém tivesse desenhado uma cartografia sobre os restos de quem em vida acreditou em algo.
— Eles vieram antes de vocês — disse ela estendendo a mão à parede. — E acabaram se tornando parte da estrutura.
Mara estremeceu ao meu lado, eu pude sentir, mais do que ver, que ela apertava as mãos umas contra as outras.
Olhei dentro dos olhos âmbar de Siehiffar e dentro desses olhos vi uma paz que não era deste mundo. Mara estava em silêncio e eu observava Siehiffar, desejando tocar a sua pele, tocar aquela paz com minhas mãos sujas de… dúvidas? Não, de maldade talvez, ou desejo por salvação. Controlei meus impulsos que eu não sabia de onde vinham.
— Quem é seu pai e como ele sabia que viríamos? — perguntou Mara com a voz seca e hostil.
— Abdalla Monm, ele disse que vocês apareceriam aqui no momento certo — ela falou ainda gentil, ignorando a hostilidade na voz de Mara.
— O professor Monm? — eu disse surpresa. — Faz quanto tempo que você está esperando?
— O tempo não é importante aqui, o importante é que vocês estão aqui — falou, mostrando com as mãos um canto da caverna iluminado por velas sobre os crânios da parede. Mas eu e Mara continuamos de pé, ainda absorvendo aquela presença tão viva num local tão cheio de morte.
Ela nos ofereceu água e comida e depois perguntou se poderia ver meu ferimento — aquele que já deveria ter cicatrizado. Concordei, então ela colocou as mãos no meu ferimento, murmurou algo numa língua que não reconheci. Senti um alívio, e a dor que eu já não lembrava mais que sentia, sumiu.
— Isso não sou eu — disse Siehiffar — é a Fonte que flui através de mim, eu apenas a deixo passar. Curei o seu ferimento, mas os danos que ele causou são incuráveis — se virou e olhou para Mara. — Desculpe por não poder fazer algo por você, mas a cura que você precisa não virá de mim. Sentem-se e descansem.
Nos sentamos ali, sobre tapetes antigos estendidos no chão de pedra, nós a ouvimos falar sobre um Deus sem forma, sem nome e sem lógica, que ela chamava de a Fonte, um Deus que estava acima do que existe e não existe, um Deus que não exige, apenas nos convida à contemplação, um deus sem gênero ou rosto.
— Acredito que não se deve buscar a Deus com perguntas — ela disse — mas com atos, com contemplação, no caos e na calmaria da natureza.
Ela falou de mundos dentro de mundos, de lugares que apenas podemos ter acesso em sonhos, de estrelas mortas que ainda emitiam luz, disse que as religiões, todas elas, são um espelho rachado que tenta refletir um rosto que ninguém nunca viu. Ela olhou para nós com carinho e disse:
— Vocês já acreditaram em algo, não é? Antes da dor, da morte, do castelo.
Mara ficou em silêncio e eu não respondi de imediato. Pensei e disse:
— Acreditei, mas hoje não vejo sentido, não vejo propósito nas promessas de salvação que não nos levam a lugar nenhum.
Ela não respondeu, apenas pegou um osso do altar atrás de si, um fêmur humano, com símbolos esculpidos, e o soprou como uma flauta. O som saiu puro e cortante. E eu a observei fazer aquilo e apenas desejei entender o que aquilo significava, ou ela estava apenas tentando me fazer entender que nem tudo precisa fazer sentido ou ser explicado.
— Você pode morrer aqui se quiser, mas também pode renascer. O tempo já não se move aqui, este lugar não está onde o mundo pensa que está. Aqui, o que você sente é o que te guia — ela falou com um leve sorriso.
Estar ali com Siehiffar era ao mesmo tempo agradável e confuso. Minha mente tentava entender suas palavras, sua intenção, mas era tudo cheio de significado, mas sem significado nenhum, como se ela falasse um monte de palavras bonitas, mas nenhuma delas fizesse efeito ou sentido para mim. Mara continuava em silêncio, nem um movimento ou palavra. Estávamos ali cercadas de ossos e símbolos e na companhia de Siehiffar em silêncio, não um silêncio incômodo, mas contemplativo. E em minha cabeça eu pensava no motivo de tudo ali ser tão incompreensível. Então Siehiffar sorriu para mim e disse:
— Acho que algumas perguntas não precisam de respostas.
Ela olhou para nós, se levantou devagar e caminhou até o centro da caverna, seus pés quase não faziam som no chão de pedra da caverna.
— Venham — disse ela, se virando para nós — há algo que quero mostrar a vocês, algo que quero convidá-las a ver, se quiserem, é claro.
Troquei um olhar com Mara e ela assentiu com um leve balançar de cabeça, então fomos. Siehiffar afastou uma tapeçaria de ossos unidos com cabelo humano; atrás dela, uma porta foi aberta com um leve rangido. O corredor que se revelava era longo, escuro e curvado, no fim dele uma luz prateada podia ser vista e, quanto mais avançávamos, mais seu brilho aumentava.
— Este é o caminho da Fonte, na verdade, um deles — ela disse com uma voz calma — é aqui que os que deixaram de acreditar vêm para se lembrar como crer, que os que sangram aprendem a oferecer seu próprio sangue como semente, e é onde o desejo se torna palavra, as palavras se tornam ação.
No fim do corredor havia uma câmara circular. O chão era de pedra, coberto de pequenos símbolos; o ar era espesso como algo que não sei como nomear. No centro, uma mesa de pedra e, sobre ela, uma tigela com um líquido prateado que parecia mercúrio líquido, como as águas dos rios de Séttimor. Siehiffar ficou ao lado da tigela, fechou os olhos e pronunciou palavras incompreensíveis, mas com um tom de voz tão musical que parecia um mantra. Silêncio novamente, e depois ela abriu os olhos e nos encarou com suavidade.
— Rute, Mara, convido vocês a dormirem aqui por uma noite, tendo a Fonte como vigia. Se ouvirem algo, ou sonharem algo, poderão partir e seguir o caminho que foi designado a vocês. Mas, se nada virem, ficarão aqui como todos os outros antes de vocês.
Senti um aperto no peito, mas a ideia de que talvez algo pudesse me impedir de voltar ao castelo foi reconfortante. Mas eu suspeitava que teria sonhos — ou melhor, teria pesadelos.
— Se nossos sonhos forem pesadelos? — perguntei.
— Eles também têm o rosto de Deus, às vezes até mais do que os anjos — Siehiffar sorriu.
Tudo vibrava, tudo me sufocava e eu tinha a certeza que seriam pesadelos o que eu teria, eu queria entender Siehiffar, e ao mesmo tempo não sabia se queria mesmo entender, mas sabia que queria ficar ali. Dormimos ao lado da tigela, deitados sobre mantos antigos que Siehiffar estendeu para nós. Mara ficou um pouco próxima, mas ainda parecia querer manter uma certa distância de mim. Me deitei e o ar parecia denso, demorei para pegar no sono, mesmo cansada, meus pensamentos não me deixavam relaxar e permitir que o sono chegasse, e de repente eu estava sonhando. Não era um sonho comum, o castelo estava lá e eu estava nele e eu era ele, vivo de maneira orgânica: ossos, músculos, tendões, nervos, carne e pele, e eu podia ouvir que em algum lugar dentro dele havia um coração que batia lento no mesmo compasso do meu. Os vitrais pareciam sangrar uma luz vermelha mortiça, as paredes quentes como um corpo vivo e o teto escuro e fundo, mas que ao mesmo tempo parecia o teto de uma catedral.
Andei pelos corredores do castelo e vi ao longe Ameritt andando devagar com um enxerto de flores vermelhas e roxas e cogumelos que cresciam de seus braços, rosto e no topo de sua cabeça. Ela sorria, mas em seus olhos havia lágrimas. Vi o salão do baile vazio e todos os seus espelhos cobertos com panos negros que tremulavam sem vento, vozes sussurrantes e outras guturais pronunciando meu nome. Andei até a biblioteca e vi Monm curvado sobre uma mesa, escrevendo com fúria nomes que eu não conhecia, mas eu sabia, não sei como, serem nomes dos mortos — e o meu nome estava entre eles. Então eu senti Drácula, antes mesmo de o ver; ele estava no alto da escadaria central como um deus abandonado, vestia uma túnica branca cuja borda era vermelha, como se tivesse absorvido uma grande quantidade de sangue do chão do castelo. E cada vez mais sua túnica se tornava vermelha, até o sangue absorvido tomar toda ela. Sua pele alva e seus olhos vermelhos ardiam, me reconheciam como uma igual, e a sensação de ser reconhecida por ele fez meu coração disparar em uníssono ao coração do castelo.
— Você partiu — ele disse com uma voz firme e calma — mas o castelo foi com você.
Ao seu lado estava Hadassa, linda e viva, com um véu escuro que mal cobria metade de seu rosto. A outra metade era osso, o crânio com metade de uma cruz gravada na testa. Sua boca sorria um sorriso ao mesmo tempo conhecido e assustador. Ela segurava um livro — na verdade, o livro de Mara — com dedos que pareciam vivos e também mortos.
— Você fugiu da promessa, Rute? — ela sibilou com aquele rosto que tinha apenas metade dos lábios.
“Que promessa?”, eu pensei e tentei responder, mas minha garganta estava cheia de água salgada.
Então Mara apareceu no sonho, com um vestido longo branco simples, um véu e uma coroa com rosas cheias de espinhos que afundavam na sua cabeça, fazendo linhas de sangue deslizar sobre o véu. Seus pés descalços sangravam na escadaria do castelo, deixando suas pegadas, indo em direção a Drácula.
— Mara! — gritei seu nome e fui andando em sua direção.
Ela parou, virou-se para mim, levantou o véu, e quando ela me olhou, surpresa — não era a minha Mara, translúcida — era uma mulher de carne e osso, com pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito expressivos e intensos, nariz levemente aquilino e lábios cheios e bem marcados. Senti como se meu coração fosse apertado com muita força. Senti mãos tocarem os meus ombros e me girar com pressa, e lá estava a minha Doppelgänger, aquela que deveria estar na outra versão do castelo, ainda vestida como no baile de máscaras.
— Você tem que voltar — ela gritou.
— Por quê?
— Porque o castelo está em você, e você precisa continuar a escrever — disse, enquanto segurava meus braços, me impedindo de ir em direção a Mara.
— Eu não quero mais escrever, estou cansada — gritei.
— Mas você precisa, mesmo que doa — ela falou, colocando a mão esquerda em meu rosto e o acariciando de leve, e depois me empurrou.
Então o chão se abriu e eu caí num mar de sangue e tinta. Vi as palavras do meu diário se dissolverem naquele líquido viscoso e rubro, minhas memórias escorrerem pelos meus dedos e irem em direção a um fundo com uma luz prateada que vibrava. Então acordei, ainda deitada no manto antigo, tentando me orientar. Mara estava ao meu lado, também desperta.
— Você também…? — não precisei terminar a pergunta, ela logo assentiu.
O líquido na tigela ainda brilhava. Saímos de dentro daquela câmara e, sentada na escrivaninha, estava Siehiffar, concentrada na leitura. Olhou para nós com um sorriso gentil e disse:
— Algumas questões importantes são resolvidas em sonhos. O que vocês farão com o que viram é escolha de vocês.
Não sabia o que fazer com aquele sonho que mais parecia saído da cabeça do próprio David Lynch, mas eu sabia que deveria voltar para o castelo. Mas, ao mesmo tempo, não sentia como se estivesse saído dele. Estou fora dele ou não estou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite Gomes
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Gênesis II
Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Após ler e discernir melhor sobre a suposta origem do que sou hoje, tomei fôlego e segui adiante em mais um capítulo do livro de capa de dragão; este capítulo se intitulava “Caim Magnus”. Era mais uma narrativa de Igor Dracul sobre o que acontecera com Vlad após o encontro com o vulto grotesco na alcova.
Caim Magnus
Após os muitos dias e muitas noites em que Vlad Tepes havia estado trancafiado no intento que tivesse boa recuperação, ele se levantara no décimo quarto dia com um vigor como se nunca houvesse ficado acamado e beirando à morte. Ele mandara me chamar através de um dos criados de seu Castelo e prontamente eu adentrara seu quarto a fim de atender prontamente ao chamado do meu Senhor. Vlad ainda permanecia com a aparência pálida, tal qual um cadáver. O primeiro pedido que ele me fizera era para ajudar a enterrar o corpo de um moribundo que estava escondido dentro do seu guarda-roupas; ele pedira ao criado que fora me chamar no meio da madrugada do dia anterior, para que trouxesse um dos presos turcos que se encontravam na prisão local de guerra, que se localizava dentro do castelo, e fizera do homem sua primeira refeição. O cadáver se encontrava murcho; talvez o homem fosse mais alto ou mais gordo do que o estado ao qual se encontrava no post mortem. Estarrecido, não sabia por onde começar a perguntar ao meu Senhor o que acontecera afinal na noite passada, e ele já presumindo que isso fosse acontecer, não me deu tempo para pensar muito; me pediu para ajudá-lo a enterrar o corpo no terreno ao lado do castelo. Após voltar para o seu quarto, Tepes me entregara em mãos este livro que escrevo (e, antes que alguém — que possa estar lendo — questione, as páginas do capítulo anterior foram adicionadas posteriormente. Note a costura da folha em cor diferente do resto das páginas originais que vieram no miolo deste livro), para que deixasse o registro por escrito sobre o que acontecera na fatídica noite em que ele e Mihnea estiveram na alcova.
O Conde me confessara que, durante os dias em que se encontrava em coma, a criatura que lhe sorvera o sangue e as forças naquela noite, fizera uma espécie de contato mental. A partir deste contato telepático, a criatura tenebrosa contara sua história e o porquê de ter escolhido Vlad para passar tamanha maldição que lhe pertencia adiante. Dos diálogos que Vlad me fizera registrar aqui, iniciarei com o mais marcante:
— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas.
Segundo Tepes, após ter caído ao chão, imediatamente o ser maligno se conectou com sua mente continuando o diálogo:
— És meu filho e Dela. És a ponte entre o esquecimento e o renascimento. Teu sangue clama pelo abismo, e o abismo respondeu.
E sem resposta de Vlad, que se mantinha em silêncio, a fim de manter sua vida e um pouco da sanidade preservada, o monstro então continuava a contar sua saga:
— Após milênios caminhando entre os mortais e vendo os Primevos corromperem minha maldição, enfraquecido pela tristeza e pela sede de um silêncio eterno, me retirei do mundo. Meus últimos seguidores, pertencentes a uma seita esquecida, selaram meu corpo adormecido em um caixão de ébano, cravejado com símbolos sumérios e hebraicos, banhado em prata lunar, e me carregaram pelo deserto e pelas montanhas do Império Turco-Otomano, buscando o local mais distante da luz — a sua terra Natal: A Valáquia. Ali, entre as florestas antigas e as fortalezas de pedra, eles me enterraram em uma cripta sob o solo amaldiçoado, confiando que o mundo me esqueceria…
Vlad, ainda incrédulo com a história que a criatura lhe contava, tentava se manter mentalmente em silêncio, porém o vulto continuava a narrar sua crônica pessoal:
— Séculos se passaram e chegamos ao século XV. O conflito entre o Império Otomano e a resistência valaquiana atingiu níveis épicos. Você, jovem príncipe Vlad Tepes, cruel estrategista e herdeiro de uma linhagem marcada por sangue e pacto, enfrentou o avanço turco com uma brutalidade que faria até os demônios hesitarem. Em uma batalha particularmente sangrenta, milhares morreram sobre a colina onde eu jazia. O sangue dos mortos da batalha penetrou a terra. O solo gritou. E eu despertei.
Tepes gritou mentalmente com o vulto:
— Você está louco!
O espectro continuou a dialogar:
— Você é feito de medo, homem. Mas aprendeu a usá-lo. É morte vestida de carne. E ainda assim… está vivo.
O Conde passa a encarar o vulto com desdém:
— Vivo o bastante para ver os deuses calarem. E você? Que abismo o pariu?
O monstro se dirige a Vlad, ainda sem hostilidade:
— O abismo é meu espelho. Eu fui o primeiro a matar. O primeiro a ser amaldiçoado.
E você… É meu reflexo quebrado.
Vlad, com certo receio, afirma:
— Você é Caim. O mito… a maldição viva.
A criatura sorri com melancolia e responde:
— Não mito. Não lenda. Apenas memória rejeitada. E você, Vlad, é mais do que príncipe. Tem olhos de condenado… Mas sua alma se recusa a morrer.
Vlad, ainda temeroso, responde:
— Já enterrei todos os deuses em que acreditei. Não procuro redenção.
Caim então retruca:
— Nem eu ofereço. Mas vejo em você a mesma fome que Yahweh não soube curar.
Lilith lhe sussurrou, não foi?
Tepes, então surpreso, respondeu:*
— Como sabes desse nome?
O espectro demoníaco interpelou:*
— Porque ela foi minha mestra. E agora, sussurra a você como sussurrou a mim.
Entenda, você não é um homem comum. É o elo perdido… é o filho que o tempo prometeu.
Vlad questiona, seriamente, firme:*
— E o que você quer de mim?
Caim responde:
— Nada. Mas o mundo… o mundo vai desejar seu sangue. E eu? Eu vim apenas ver o que a dor esculpiu em meu nome…
Lilith - A Deusa Negra
Vlad permaneceu em silêncio, como se paralisado por uma visão maior. Por meio do uso de magia, Caim, como testemunha de um tempo anterior ao tempo, mudara o cenário na mente de Tepes.
Com a voz solene, quase que religiosa, o Amaldiçoado disse:
— Antes do Éden. Antes de a terra ser dividida, ela caminhava entre os Deuses. Lilith… filha de Anu, o Senhor dos Céus. Irmã das estrelas, mãe das serpentes, Centelha viva do abismo primordial. Mas Yahweh, o ciumento, quis moldar o mundo à sua imagem. Roubo disfarçado de criação. E aprisionou Lilith em carne… E transformou Deusa em mulher.
A visão se forma na mente de Vlad: Lilith, resplandecente e imortal, envolta em luzes negras, é arrastada ao barro e moldada como esposa. Ela se ergue no Éden ao lado de Adão, mas seus olhos jamais se curvaram.
O espectro grotesco continuara a narrativa:
— Ele a deu a Adão como prêmio. Mas ela não se dobrou. Ela não nasceu da costela. Ela era anterior a ele. E então Lilith disse:
— Não fui feita para me deitar abaixo do pó, nem para que o barro me comande. Sou anterior à tua imagem, Yahweh. Eu me recuso.
Caim tomara para si a crônica e continuara:
— E foi expulsa, expulsa do Éden, da luz, da memória dos homens. Mas, ao cair… ela não quebrou. Ela despertou.
Em seguida, projetada na mente de Tepes, apareceu a imagem de Lilith em exílio, nua sobre a areia escaldante do mundo antes dos homens. Porém, ao invés de definhar, ela se ergueu em fúria. O sangue dos deuses voltou a queimar nela. Os pássaros caíram do céu. As águas se agitaram, a terra se contorceu.
Caim retomara a narrativa:
— Quando o silêncio dos céus tentou esquecê-la, ela gritou. E o grito rasgou o véu entre os mundos.
Em seguida, Tepes teve a visão de Lilith erguendo os braços. Atrás dela, havia um eclipse. A lua sangrou. Sua voz subiu aos céus, amaldiçoando o trono divino.
Lilith interpelou em tom desafiante:
— Ó Yahweh, você que criou o homem do barro e se envaideceu… Um dos seus filhos se voltará contra você, e dele nascerá uma prole que não morrerá. Sede será seu nome e sangue será sua língua. Eles não adorarão sua luz, eles andarão pela noite; minha herança. E lembrarão que eu fui a primeira a dizer não.
A visão de Vlad se quebrara. Caim estava de joelhos, como quem reviveu um trauma antigo. Vlad o encarou em silêncio, olhos arregalados, e afirmou:
— Você é a praga viva, Caim. O cumprimento da maldição.
Caim respondera sussurrando:
— Eu sou a lâmina da promessa, o filho do pó que ousou erguer-se contra o céu. Ela me fez como resposta ao castigo. E agora, Vlad… você é o próximo capítulo.
E então eu percebi que havia adormecido em parte da narrativa de outro capítulo do livro de capa de dragão, e já não sabia distinguir o que fora escrito e o que fora sonhado. Mas em mim havia a certeza de que algo havia despertado: a chama viva primordial de Lilith.
Thais Gomes
Thais Gomes é apaixonada pelo universo Gótico da Literatura, sua formação é em Letras Português/Espanhol e sua obra mais recente, ainda está sendo produzida, é Contos Vampirescos, uma releitura de muitos personagens do Drácula de Bram Stoker. Inspirada em clássicos como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Álvares de Azevedo, e contemporâneos como André Vianco e Eduardo Spör; a autora explora o universo da literatura... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Supplicatio Damnata - (Súplica dos Condenados)
Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi XXV
(Escrito em meu Diário)
Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer que o mundo, em sua crueza, tivesse a me oferecer. Havia uma sensação estranha, como se algo em minha mente tivesse sido libertado — uma prisão sutil se desfazendo em fragmentos de lembranças. E então, o recordar do encontro com Var’Ghul, a criatura que invadira meu íntimo, expondo segredos que eu mesmo havia enterrado, julgando-os mortos para sempre.
Lá estavam: memórias, sentimentos, angústias... todos exumados com a delicadeza brutal de um coveiro sem alma.
Mas algo me chamou a atenção. O frio — companheiro constante — havia desaparecido. Nem vento, nem chão gelado. Em seu lugar, um calor tênue, uma quietude... uma maciez que envolvia meu corpo fatigado. Abri lentamente os olhos. A luz era suave, amarelada, e sombras dançavam pelas paredes como espectros tímidos.
E então, uma imagem tomou forma: um rosto gentil, sereno, com olhos doces e convidativos. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite sem luar. Sua beleza era ímpar, angelical — exótica demais para que eu pudesse descrevê-la com justiça.
De súbito, ergui-me num pulo, quase instintivo — alerta, ainda tomado pela sensação de ameaça. Meus olhos percorreram o ambiente, buscando pistas, tentando entender onde me encontrava.
Ela sorriu com delicadeza. Sua presença, no entanto, não transmitia hostilidade.
— Siehiffar, é como me chamo — disse ela, num tom baixo e educado. Sua voz, de contralto, era como música em câmara fechada — ressoava macia, íntima. — Você é um dos moradores do castelo... daqueles que foram convidados! — Havia uma curiosidade tênue em seu falar, uma leveza que ocultava um mundo de experiências.
— Chamo-me Anton Stefan Miahi. Sou historiador... e oficial do exército francês — respondi, sem saber por que minha língua se soltara com tanta facilidade. — Ainda estamos no Castelo de Drácula?
Deixei os ombros relaxarem, adotando uma postura menos defensiva.
Ela trajava um esplêndido vestido azul, ricamente adornado com rendas em prata e bordados dourados que pareciam brilhar à luz da lareira. Uma tiara dourada repousava em seus cabelos, cravejada de pequenas pérolas e pedras translúcidas. Seus colares pendiam delicados sobre o colo, compondo uma figura que evocava tanto realeza quanto mistério.
— Sim, estamos. Onde mais deveríamos estar? — disse, agora com um sorriso zombeteiro, embora isento de malícia. Seu olhar era jovial, sagaz — um jogo sutil entre o encanto e a astúcia.
— Entendo... — murmurei, hesitando. — Como vim parar neste cômodo? Quem me trouxe?
A pergunta brotou da angústia. Havia algo naquele lugar — em mim — que não se encaixava.
Ela demorou a responder. Voltou-se para a lareira, estendeu os braços até uma pequena mesa de centro. Nela, duas xícaras de porcelana branca, ornadas por folhas azuis, repousavam ao lado de uma chaleira do mesmo padrão, da qual ainda subia um fio de vapor.
Com delicadeza, ela serviu o chá. Estendeu uma das xícaras a mim, reservando a outra para si. Tomei a que me fora oferecida. Ela sorveu um gole com tranquilidade antes de falar.
— Uma pessoa o trouxe até aqui. O senhor estava desacordado. Havia sangue em muitas partes de seu corpo. Suas roupas, rasgadas — disse, pausando para olhar o fundo de sua xícara. — Var’Ghul é uma criatura estranha. Suas ações são, para mim, um mistério constante. Nunca o vi com meus próprios olhos... mas já encontrei os que ele chama de “réus”.
Ela me fitou com uma expressão de pena e estranha curiosidade. Algo em seu olhar fazia minha pele se arrepiar.
— Mortos... ou vivos. Os vivos raramente saem incólumes desses encontros — murmurou, quase triste. Havia em sua voz um eco de vivências amargas. — Senhor Miahi, o castelo chamou por você. Estar aqui é privilégio para alguns, uma saída para outros... mas há quem veja tudo isso como uma prisão. Qual é a sua visão?
A pergunta me atravessou como uma lâmina fria. Ela dissera com tanta leveza... e, no entanto, a questão me lançou ao abismo do pensamento.
Não vim apenas para aprender. Vim para questionar o impossível. E em troca recebi a quebra de paradigmas, a dilaceração da fé, a desconstrução de minha identidade. O castelo tornou-se espelho de tormentos. Um mosaico maldito de enigmas e horrores.
— Este lugar era para ser um templo do saber, senhorita — disse, tentando conter o tremor na voz. — Mas revelou-se um mar tempestuoso. Um quebra-cabeça sujo de sangue e sombras.
— Nem tudo é o que parece — disse ela, indulgente. — Talvez exista algo além. Algo mais...
Antes que ela pudesse concluir, deixei escapar uma risada amarga, quase histérica.
— Neste lugar, senhorita Siehiffar, quase fui morto. Fui levado a outros mundos. Transformaram-me em algo que mal reconheço — meio homem, meio máquina, um híbrido nascido da dor. — Caminhei até a parede e, com meu braço mecânico, esmaguei os punhos contra a pedra com força. — Já vivi horrores antes. Mas nada... nada como isto.
As semanas — os meses — foram apenas sucessivas descidas numa espiral de insanidade. E, mesmo assim, minha maldita curiosidade, minha obsessão em resolver os enigmas... mantinham-me aqui.
— Pois deveria parar de chorar! — rugiu uma voz atrás de Siehiffar. Reconheci de imediato o timbre grave e metálico de Monm.
Ao me virar, lá estava ele, encostado como uma sombra sólida.
— Para um homem que sobreviveu à guerra, parece frágil como vidro — zombou.
Uma mescla de raiva e incredulidade apoderou-se de mim.
— Você sabe que nada do que vivi aqui poderia ser suportado por uma mente comum! — apontei o dedo para ele com fúria contida. — Revivi a morte de meu irmão. Vi o espírito dele... ou aquilo que tomou sua forma. Não sou homem de fé, Monm, mas o sobrenatural me golpeou até que eu sangrasse por dentro.
Ergui meu braço mecânico, adornado com os circuitos do éter. Um símbolo da monstruosidade que haviam me imposto.
— Vamos, Anton... — disse Monm, num tom paternal. — Estás apenas despertando. O mundo tem segredos, e nós conhecemos só uma fração do todo. Tu agias com complacência... e agora, te vês à beira do abismo.
Ele se aproximou mais.
— Cuidado, homem... quem olha demais para o abismo, acaba por ser olhado por ele. E há os que não voltam mais.
Silêncio. A pergunta pairou no ar como um punhal.
— Qual é o caminho que seguirás?
E eu... não soube responder.
Anton S. Miahi XXVI
(Escrito em meu Diário)
10 de novembro de 1871 — Vi-me surpreso quando questionei Monm sobre a data. Em minha mente, acreditava terem se passado somente algumas poucas semanas. O último registro datado remontava a agosto. Esquecera-me de como o tempo, neste lugar é instável, maleável — como se fosse manipulado por mãos invisíveis.
Segundo Monm, estive desacordado por três dias. Quanto aos períodos anteriores… um completo mistério. Mesmo minha estadia na prisão-laboratório de Arturo é um borrão. O confronto com a fera na Igreja parece ter ocorrido há séculos e, ao mesmo tempo, ontem.
Ainda recordo aquele senhor barbudo. Julgo que fosse um líder entre os seus. Solicitou que eu aceitasse algo — o quê, exatamente? Ah, sim... "a verdade da Igreja." Isso mesmo. Soou estranho à época, mas agora me é quase familiar.
Apesar de o reencontro com Monm ter começado de forma um tanto acalorada, logo tive oportunidade de ponderar e buscar respostas. Indaguei-lhe sobre o povoado ao norte, e a Igreja ali presente.
— Monm, quem são aqueles monges que vivem no povoado ao norte do castelo? — Observei o viajante, concentrando nele todo o peso do meu olhar e da minha expectativa.
Ele fitou a lareira, inspirando fundo, como se buscasse forças num passado distante.
— Não achei que se lembraria... mas esqueci que os chamados para este castelo têm algo em comum: seus registros. Certo... — sua pausa foi pesada, quase teatral. Uma sombra de frustração lhe desfigurou o semblante. — Eles são um grupo que, nesta linha do tempo, não teme os eventos do castelo. Parece tratar-se de uma ordem religiosa oriunda da Prússia. Alguns de seus monges... foram corrompidos por Nestor. Aquele vampiro possui o dom de seduzir mentes frágeis.
Essas informações me deixaram inquieto. Uma Igreja prussiana? A Prússia tem garras longas, penetrando em todos os confins. Se vinham de lá, podiam ser católicos, luteranos… ou dissidentes, tachados de hereges, como os de certos grupos na Holanda.
— Presumo que o convite que recebi tenha sido armado por um desses monges. Recordo-me de que era bastante jovem. Pena não ter memorizado sua fisionomia... — Senti minha frustração aflorar. Talvez, se o tivesse observado melhor, poderia agora persegui-lo. — No grupo, há um homem de longa barba branca? Robusto, talvez?
Monm refletiu. Fitou o chão como quem escava a memória. Seus olhos brilharam ao encontrar algo.
— Ah, sim. Esse homem vem da Holanda. Chegou a estas terras há alguns anos, com quase nada. Um andarilho comum. Seu sobrenome é Hans... o nome, Sander. Sander Hans, é assim que se chama. Por quê? — indagou, num tom apático.
— Após meu confronto com a besta vinda do espelho — trazida por um dos monges — ,fiquei caído, ferido. Ele, o tal Sander, falou algo sobre aceitar a verdade da Igreja... que somente isso poderia me salvar. — Minha voz vacilou, mergulhada em uma memória incômoda. Nunca fui de crer em entidades superiores… — Mas, naquele momento, eu queria viver.
Todos os olhares voltaram-se para mim. Um desconforto silencioso se instalou. Um prenúncio.
Siehiffar ajeitou-se no sofá. Seus olhos cintilavam com genuína curiosidade, enquanto Monm apenas mantinha sua atenção fixa em mim.
— Senhor Miahi, que relato peculiar. — Um brilho quase infantil tomou o rosto de Siehiffar, como se houvesse desenterrado uma relíquia. — Então... algo já havia começado antes. Achei que o encontro com a criatura de Olga fosse o início. Mas não. Já havia ecos meses antes.
— Você disse: "criatura da Olga"? — Não pude conter minha surpresa. — Var’ghul foi criação da Olga?
O olhar de Monm para Siehiffar era carregado de reprovação. A jovem mordeu os lábios — como quem se arrepende da travessura dita.
— Siehiffar, às vezes o silêncio é a melhor escolha. — disse Monm, soando como um mestre que repreende a pupila. — Sim, Var’ghul é uma criatura forjada aqui, no castelo. Uma consequência maldita dos experimentos de Drácula com o éter... com objetos, com almas condenadas.
Eu queria não acreditar… mas depois de tudo — depois de ver meu próprio corpo se tornar híbrido de homem e máquina, tal revelação já não me feria com tanta força.
— Certo, certo. — disse Siehiffar, desviando o peso da conversa. — Abdalla, perdão... esses fatos são novos para mim. Mas parece que a fé tornou-se uma chave essencial ao senhor Miahi, ainda que ele próprio não o perceba.
Monm meditou sobre aquela fala, então caminhou em direção ao cesto de lenha, agachando-se em silêncio. Seus gestos denunciavam que arquitetava algo em sua mente.
— Abdalla? — questionei, em voz alta.
— Sim, é esse o nome dele. Não sabia? — Siehiffar soltou uma risadinha e levou a mão à boca. — E eu me chamo Siehiffar Monm.
Essas revelações fizeram-me recostar na poltrona ao lado do sofá onde ela estava.
— Não sabia. Monm nunca me contou. A bem da verdade, nunca tivemos tempo para conversas. Sempre havia algo... interrompendo tudo — falei, quase com incredulidade.
— Anton, isso não é o foco. — A voz de Monm cortou minha dispersão, trazendo-me de volta ao núcleo do mistério. — Há muitas coisas que não pude, não posso e jamais poderei revelar. Siehiffar cresceu neste lugar. Seus olhos veem o mundo de forma distinta. Até para mim, às vezes, ela é um enigma. Uma aprendiz que instiga seu próprio mestre.
Notei, enfim, o ar místico que pairava ao redor dela. Uma presença diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Algo nela era... profundamente incomum.
— Var’ghul encontrou um modo de me chamar. — disse Monm. — Aquela criatura é tudo, menos injusta. Quando o encontrei caído em sua torre de julgamento, havia algo em sua mão. A criatura afirmou não tê-lo deixado lá.
De seu bolso, Monm retirou uma corrente e, logo em seguida, um pingente... uma cruz.
Aproximei-me. À luz da lareira, percebi seu contorno singular: pesada, de metal negro, com uma pedra central roxa. Nos extremos, pequenas pedras azuladas, reluzentes.
— É uma ametista. E essas pequenas são labradoritas. — explicou com voz serena, sempre professoral. — Tome. Pelo que sei, é sua.
Ergui meu braço alterado. Ainda era estranho vê-lo assim: mecânico, frio, tão alheio à carne que um dia o cobriu. Aproximei a cruz dos olhos, examinando seus entalhes. Era bela... e estranhamente familiar. Como se murmurasse meu nome do âmago da alma.
Assim que aquele objeto tocou o metal de meu braço, senti algo — primeiro, uma ansiedade crescente; depois um formigamento sutil. A sensação não me era estranha. Já a havia experimentado antes. Sim… com Monm, nos primeiros contatos com as distorções temporais e, mais tarde, na adega do castelo, ao lado de Áurea. Aquilo fora assombroso — um entrelaçar de lembranças minhas e dela, como se o tempo ali não mais obedecesse a Deus.
— Essas sensações do éter e das torções do tempo são incômodas — murmurei.
— Incompreensíveis, até para mim — respondeu Monm, cruzando os braços, o cenho marcado por sombras de inquietação.
— E, no entanto, tão recorrentes — disse Siehiffar, com a voz suave e firme. Havia nela um tom investigativo que me atravessava como uma lâmina polida.
De súbito, um estrondo — um impacto seco e violento nos interrompeu, vindo de algum ponto próximo. Todos voltamos os olhos à porta, a tensão nos envolvendo como neblina espessa. O receio de que algo — ou alguém — invadisse nossa reunião informal apertou nossos peitos.
— Em que parte do castelo estamos, Monm? — perguntei, tentando manter o controle. — Há alguma arma aqui? Algo com que possamos nos defender?
— No flanco noroeste — respondeu com firmeza. — Próximo à torre, mas fora do alcance da busca de Arturo. Mesmo assim, este castelo é... imenso. Vivo. Parece ter vontades próprias.
Fez uma pausa, os olhos vasculhando o aposento.
— Atrás daquela porta, há um corredor que leva a um salão usado como armazém. Há um portão para o exterior e uma rampa em L que desce pela encosta da montanha até o vale. Creio que você conhece essa região, Anton — explicou, enquanto revirava um armário à minha esquerda. Sua voz tornara-se grave, baixa, tentando não denunciar nossa posição.
Então, um grito — quase bestial. Um som gutural que fez meus pelos se eriçarem. Meu coração acelerou. A respiração se tornou densa. Aquilo me transportou de volta à guerra. Era como se a morte soprasse novamente em minha nuca.
Começamos a vasculhar o ambiente, buscando algo que servisse à batalha. Logo, Monm encontrou algo.
— Anton, isto pode ser útil — disse, afastando-se para que víssemos.
Dentro do armário repousavam três armas: duas adagas longas, uma adaga curta e uma rapieira.
— Estou mais habituado a armas longas. Dê-me a rapieira — pedi.
Empunhei-a. Seu peso, seu comprimento, seu equilíbrio — tudo nela me falava. Sentir aquele metal em minhas mãos trouxe-me uma paz estranha, como reencontrar uma antiga companheira.
Monm ficou com as adagas. Para nossa surpresa, Siehiffar, sem hesitar, tomou para si a adaga curta. Um brilho de determinação cintilava em seus olhos. Estávamos armados e, mais do que isso, preparados. O espírito, silente, mas desperto.
— Vamos pensar. Monm, você abre a porta. Eu fico à esquerda. Siehiffar, de frente. Não atacamos primeiro; observamos. — propus, ajustando minha postura de combate.
As pancadas intensificaram-se. Metal contra metal. Sons ocos e ressonantes. Atrás daquela porta, um combate feroz desabava como tempestade sobre penhasco.
Antes que pudéssemos agir, um estrondo seguido por uma explosão. Fomos à porta. Monm posicionou-se atrás dela, eu ao seu lado oposto, e Siehiffar de frente. A urgência pesava no ar.
— Um... — sussurrou Monm, começando a contagem.
Abrimos a porta com cautela. O corredor estava iluminado pelas tochas de Arturo. Nenhum sinal de batalha — mas os sons ainda ecoavam, cada vez mais perto.
Monm se voltou para a jovem.
— Siehiffar, daqui você não passa. Não sabemos o que há adiante. Daqui, você pode fugir pela passagem do tempo.
Sua voz era suave, mas firme. Um mestre zelando por sua pupila. Contudo, ela não se calou.
— Um dia terei de ver o mundo, Monm. E o mundo terá de me ver. — Sua voz era uma chama contida. Pela primeira vez, vi desaprovação em seu semblante.
Monm e eu seguimos. Antes de partir, olhei para trás.
— Quanto antes resolvermos isso, mais rápido voltaremos. — Minhas palavras eram de aço, moldadas pela disciplina militar que me guiava.
O corredor era breve. Ao alcançarmos a porta do armazém, ouvimos gritos — e então a porta explodiu. Um corpo juvenil foi arremessado contra a parede de pedra, tombando ao chão como boneco sem vida.
Aproximei-me das sombras do umbral. No interior, o confronto prosseguia. Monm examinava o corpo: um jovem desfigurado, com vestes negras e uma cruz branca no peito. Um clérigo? Um guerreiro da fé? Mas o que fazia aqui?
Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue… já começava a fervilhar.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 11: Pecado... — Rubi Áurea
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com o Oráculo, como os sigilos no pulso, entretanto, eu não sabia o porquê, tampouco como aquilo se manifestaria. Por instantes pensei, ofuscada em mim, sob o mortal silêncio daquela estranha natureza... que a solidão, por muito rejeitada, talvez fosse a mais honesta escolha. Nunca estive só, eu pensava, desde que respirei sob a umidade do Castelo. Havia a criatura em meu cerne... sim... eu não a culpava ou a considerava odiosa... porém, era algo em mim que não deveria residir em minh'alma — eu nem sabia onde ela estava... no ser... no inconsciente... nas entranhas...
E, de repente, estive nos braços de Lëvri... e, então, selei um pacto com Lahgura... como se não bastasse... veio-me Seth... e outros que encontrei por tais tortuosas veredas. E, ainda, os medos que sempre me acompanhavam como vultos em vigia. A condição de solidão esteve sempre contígua mesmo sob tal verdade inabalável — fazia-me pensar que se é para tê-la, independente daqueles ao meu redor, então que seja na totalidade, sozinha e a sós, sentindo e vivenciando a solidão. Lembrava-me que, com Lëvri, por átomos de tempo, afastara-se este exílio impertinente e ínfimo e tão... tão amargo..., mas... um poço de mágoa se estendia... tudo mudou sobre Lëvri... como se a intensa paixão fosse nada além de uma ilusão lunar...
As minhas rubras íris, no reflexo daquelas águas, entristeciam-se. Eu esperava mais da vida logo que despertei, mesmo cingida por nada além de hialina reminiscência. Eu não sabia o que sentir sobre as vivências desde então, era como não pertencer a si mesma... atrelei isso à ausência das memórias, embora nada mudasse a cada relembrar... Antes, porém, que eu pudesse extrair alguma compreensão do mais medonho oceano que estava, no meu cerne, cada vez mais revolto, eu vi outro alguém refletido nas águas da fonte, logo atrás de mim. Respirei fundo... era Seth...
— O que tu queres? — Indaguei, irresignada. Seth sentou-se ao meu lado na fonte. Mantive-me olhando as águas, movimentando-as com a lentidão de mil noites. As dunas do plácido intermúndio que eu almejava eram, na verdade, cada grão de areia, um incômodo. Uma flor, então, desvelou-se à minha visão. Era inenarrável... Símil às dálias, tão leve e suave... com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; o vento ali já agitado, abriam-nas com um sopro contínuo. Resplandeciam em um negror-etéreo, com nuances carmesins, como se a noite tivesse derramado nela seu próprio sangue. No âmago daquelas pétalas, havia infinitesimais veias que pulsavam de forma quase imperceptível, como se a espécie tivesse um arcano coração, palpitando lento e sutil.
Seu aroma, um mistério adocicado e quente, invadiu-me os sentidos, evocando abstrações sentimentais que eu desconhecia possuir, arrancadas do meu mais merencório oblívio. Os espinhos grandes, como nas rosas selvagens, eriçavam-se agressivamente, curvado para cima, protegendo-a dos toques indignos, em uma beleza que se declarava proibida. O caule, negro como carvão polido, era robusto e sinuoso, morno ao toque, quase aquecido ao tom de uma tez, como se moldado na escuridão nociva do mármore negro das bordas do rio de lava, no inferno.
Ó, pulcritude absurda! Nunca vi espécie de tamanha perfeição. Era tão majestosa e tão estranha em sua beleza lúgubre, que trouxe às janelas de minh’alma um lacrimar vestal, embaçando-me a visão. A luz ao derredor minimizara drasticamente, era como estar apenas, sob minha presença, a flor e, sob a presença dela, eu; nada mais, nem o tempo, nem o dia ou a noite. E nenhum astro na imensidão. Minhas mãos tremiam, tocadas pela solenidade desse presente impensável, enquanto eu a segurava cuidadosamente, sentindo sua lanugem e a textura sedosa das pétalas.
Olhei para Seth, estava tudo tão escuro... meus olhos, tomados por uma emoção ambígua, entre gratidão e mágoa, contornavam meu semblante aflito. Seth era tão familiar... tão desconhecido...
— A nutrúrnia prometida... — Disse com sua voz abíssica. Fazia tempo que eu não o ouvia. Seus dedos tocaram a lágrima que vertia pelo meu rosto e eu o fitei, com mais rancor.
— Bela na pureza de sua constituição... tão doloroso e pungente, no entanto, é sê-la, pois, tudo o que é vestal trava encontro com a mentira e a traição... profanando a inocência... — Proferi, sem deixar de fitá-lo. Sei que minha face transbordava em amargura. Ele respirou fundo.
— Por que proferes tamanha complexidade? Se tens algo a me dizer, então diga.
— Sim, eu tenho... — Estava profundamente, cada vez mais, escuro ao redor. — Tua traição, tuas mentiras... um grandioso protetor tu és, eu já disse n’um outrora não tão longínquo... tu és capaz de enganar e trair a tua protegida...
— Do que... — Ele parecia confuso, mas eu sentia que tudo era um disfarce.
— Cinismo agora não! — Interrompi com a voz elevada. — Já basta, Seth. Tentaste colocar a criatura mítica como uma dupla personalidade que busca me fazer mal, como se eu tivesse um transtorno psíquico. Não ias me revelar sobre o que ocorria quando ela assumia minha consciência... o que mais tens escondido, demônio? — Ares superiores curvaram seu rosto.
— Demônio, sim... e, como tal, não tenho os mesmos princípios morais que um humano. Faço tudo para proteger a tua existência, se isso inclui mentir, será feito; não há maldade em mim, muito menos bondade... — Respondeu. Mais respirações profundas, silêncios sob o véu do vento intenso e cicioso. A feição de Seth se amainou no tempo silente. — Sentes minha falta, Aessatt? — Ele segurou-me em meu maxilar. — A criatura do teu âmago, não me permite mais possuir... possuir o teu corpo... Ela quebra nosso elo... incapacitando-me de saber onde tu estás e quando precisas de mim... Isso está me enlouquecendo...
— Dizes, então, que estás além do bem e do mau? Dizes que Corphidrae está expulsando-te e digo, pois, que a razão é o saber que ela possui sobre a tua maldade! — Argumentei após retirar suas mãos de mim. Eu não queria seu cálido toque, já muito me bastava ter de fitar seus olhos tão azuis...
— Sim, estou além do bem e do mal... eu não sou humano, Áurea. E Corphidrae também não é. Como um animal, ela apenas mantém protegido o seu território.
— Então... parece que já tenho uma protetora. Pode ir embora, Seth. — O silêncio voltou... e criou imensurável barreira entre nós. Seth ainda me olhava, entretanto, uma tênue tristura se espelhava em sua fisionomia.
— Não sentes... nenhum afeto por mim? — Murmurou, baixo e grave. Eu não esperava tal indagação, portanto, não sabia como respondê-la.
— Qual é o valor do afeto para um demônio além do bem e do mal? — Embarguei...
— Decerto muito maior do que para um humano... — Desviou seus olhos de mim, fitando o horizonte quase impossível de enxergar.
— Esperas algo de mim, Seth? Que eu lhe diga apreciar tua companhia desde o primeiro momento? Enquanto sinto tanto por tuas enganações... a rispidez do teu sarcasmo... sempre vieste a mim como bênção e como maldição.
— E sou aquele que está aqui. — Seth aproximou-se, pegando em meu rosto com suas mãos. — Eu estou aqui, Áurea, eu estou aqui... Estou buscando por ti, estou protegendo-te em teu âmago ou fora dele... usurpei uma nutrúrnia para o teu bel prazer, com um inominável risco à espreita... — Senti-o acariciar meu torso, próximo ao meu coração pulsante. — Questionas minha moral... minhas mentiras... entretanto, em nome de tuas memórias, compactuas com entidades traiçoeiras... desenvolves laços com oráculos hostis, sempre em busca do que tu eras... enquanto eu... estou em teu presente... no aqui e no agora... construindo ao teu lado uma nova história que se perde no teu saudosismo... — Seth acariciou meus cabelos. — Desejo a Áurea que vejo e não aquela que um dia existiu... nem mesmo tu, Áurea, deseja a Áurea d’este momento... sempre sondando quem ela era... e quem ela há de ser...
— Quem tu és sem as tuas memórias, Seth?
— Lembra-te quando despertaras? Quando me viste em Séttimor... e quando me desejaste... na biblioteca... ou quando te salvei naquela adega sombria...? — Eu lembrava, contudo, mantive-me silenciada. Seth levantou-me e segurou minha cintura, colocando meu corpo contra o seu no centro daquela escuridão. — Tem algum valor em tais memórias para ti? — Aproximou-se, beijando meu rosto, devagar...
— Eu... — Hesitei. Era difícil resistir... Seth me envolvia tanto... e eu sentia que ele tinha razão, pois, seus argumentos me mostravam que eu não dava valor ao que o despertar n’esta existência, em tal Castelo, proporcionava... pouco a mim valia tudo o que havia ao meu redor, pois eu precisava de minhas memórias, sem elas eu me sentia incompleta. Por outro lado, Seth criou memórias ao meu lado e esteve próximo, fazendo o que lhe era possível... sendo quem ele poderia ser... e, talvez, de todos os horrores, de todas as inverdades... desde Lëvri até Lahgura... ou mesmo o preço que devo ter pagado pelas previsões do Oráculo... havia manipulação em tudo... todos... eram enganações perpétuas... lâminas cortantes, translúcidas, abscindindo meu coração.
— O Corvo Esfaqueado: Invertida... eu sei que é sobre ti... — Murmurei.
— Queres crer em teu oráculo... eu compreendo... mesmo havendo Monm te alertado sobre os perigos... — Seth estava tão perto... eu sentia seu hálito quente...
— Tu esteves lá... — Lamurei já enlevada...
— Sim... preso pela Corphidrae, digno apenas de observar e temer... — Seth apertou-me a cintura, beijou o canto de meus lábios quando sua mão direita guiava minha nuca.
— Ah... o teu perfume mescla-se à nutrúrnia... — Sussurrou, beijando-me o pescoço; minha tez arrepiara e senti medo. — Um bálsamo ardente... almiscarado e doce...
— Eu não... eu não sei... — Tentei dizer algo que sequer sabia... balbuciando palavras em busca de alguma lídima racionalidade.
— Ah... mas eu sei... — A mão de Seth conduziu-se aos meus cabelos... — Eu sei... — Seus lábios tocaram nos meus... Seth era ardente, parecia possuir uma temperatura verdadeiramente mais elevada que a de qualquer outro corpo.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura, ssaeiva enssnura voluass.” — Ouvi, não vinha de Seth, mas a voz amedrontadora estava nele; meus olhos que outrora se fecharam pelo que emergia em meu imo, abriram-se assustados.
— O que é isso? De quem é essa voz? Seth? — Ele me olhou, seus olhos brilhavam como fogo e sua respiração era ofegante...
— Hum...Tu ouviste...
— Sim! E não é a primeira vez! — Seth levou as mãos à sua cabeça, parecia transtornado. N’um impulso, pegou a flor do inferno e logo voltou-se a mim, puxando meu corpo contra o seu com mais força. Seu beijo, n’este instante, tornou-se voraz, intenso e promíscuo. Segurava-me os cabelos, a cintura, levando-me a caminhar para onde eu não via. Caímos em um monte de folhas secas, ao que parecia, ainda no jardim; mas tudo se mantinha muito escuro.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss.” — Ouvi outra vez e tremi, em medo irrompente. Seth beijou meus seios, abrindo meu vestido... meu oceano íntimo desaguou por volúpia no instante em que o medo aflorou ainda mais em minha tez.
— Áurea... pulso tanto... por ti... — Murmuraram as sete vozes do abismo, ascendendo-me mais ao temor e ao prazer.
“Inuoss ssor Lussifferr!” — ouvi, mais alto, mais horrendo e austero. Meus olhos lacrimejaram de pavor dilacerante. Seth agitou sua cabeça, como se tentasse afastar o que ouvia.
— Seth... isso... estou amedrontada... — Confessei.
— Eu sei... — Disseram as sete vozes do abismo. Desde aquele momento anterior, Seth só se comunicava com elas. Era como o eco de sua própria voz, sete vezes se repetindo, um eco profuso e tétrico. — Eu sinto o teu medo... e também sinto o teu desejo... e quero sentir a tua boca... — Fui levada, ainda sendo segurada pelos cabelos, a ficar sobre o peito de Seth. Dominados pelo breu absoluto, eu mal podia enxergá-lo, pois, sempre que a luz adentrava ao derredor, pouco depois era consumida na escuridão. Ainda que privada de visão em razão d’esta estranha manifestação que pensei se tratar advir de Seth, as trevas pareciam nos proteger na intimidade apavorante. — Sinta o meu verdadeiro inferno... — Seth murmurou e levou meu rosto à tua plenitúrgida intimidade... abri meus lábios, um instinto perverso que não era meu, mas vinha de mim. “Abnaesss! Sserpen! Abnaesss!” — ouvi, o maldito som da voz, pior que a de Seth; o medo me consumia violento.
As mãos dele ordenavam minha cabeça, forçando-a contra seu membro que eu sorvia e me engasgava. Era tão quente... tão errado... de sabor sedutor... aroma viril... olhei para sua face de regozijo. Eu o desejava e senti-me profundamente envergonhada por isso. Eu não conseguia compreender. Seth me puxou para seu peito outra vez, e logo se colocou sobre mim, beijando-me e beijando mais. Senti-o subir meu vestido, tocando minhas pernas. Arrepiava a minha pele, em profundo temor e volúpia. Então... tocou o cimo de minha vulva, quente e, naquele momento, inundado por minha saliva. E lentamente foi se penetrando... devagar... bem devagar... seus olhos queimavam, assim, de forma literal havia fogo em suas retinas... e seu membro, se entrando em minha arculva, pronta para envolvê-lo... abraçá-lo... e tão pulsante, ele e eu... “Ssattaessatt erebriss esspussess daemoniss” — tremulei e vibrei.
Ainda cingida pela aflição do medo, entretanto, muito mais pelo deleite. Assim que o membro de Seth se escondeu em mim, tocando-me o ventre; seu ritmo ascendeu rápido, tanto quanto a exultação. E seus movimentos, entrando e saindo do meu íntimo, como um animal, gemendo e lamuriando demoníaco, faziam-me curvar meu corpo, enquanto suas mãos apertavam-me a cintura e as costas; minhas unhas cravavam-se novamente, agora por outras razões, em seu dorso, relembrando de nosso recente confronto.
— Ah... isso... ah... mais... mais... — Eu o ouvi, entre nossos gemidos e o terror. Eu estava descontrolada... perdida... minha cabeça volvia e volvia, embriagada, extasiada... e ele... dentro de mim... tão intenso... tão sensível... minha respiração completamente desorientada. Sua pele em minha carne... rígido, forte, deslizante... Eu sentia uma energia bizarra extraída do corpo de Seth e penetrando meu ventre, subindo pelos meus órgãos vitais. — Ah... ttssorr... — Ele dizia, tomado pela insanidade... eu sequer sabia o que aquilo significava... e cada vez mais agressivo, teso... obsceno em mim.
Naquele instante, vi minhas marcas em seu pescoço... vi suas veias... belíssimas... qual era a cor de seu sangue? Eu não me lembrava... segurei seu pescoço... cravei-lhe meus dentes e o ouvi ranger de dor. O sangue dele tocou minha língua como uma febre causada pela peste mais horrenda, como lava me queimou, ardeu! Tinha o sabor de um pecado oculto em veludo escarlate... era picante como uma planta maldita, amargo como vinho seco guardado há eras sob as colunas de mármore negro do inferno. E, no fundo, uma nota de morte... e o gosto de promessas quebradas, de mentiras seladas na dor e no prazer. Gota a gota... inundando-me os lábios e a garganta...
O sangue de Seth não alimentava — ele incendiava. Despertava. Corrompia e elevava ao mesmo tempo. Estava acima do sangue humano: não era vida, era poder. E, ao consumi-lo, minha alma sibilou: “sserssattua” — o significado era evidente à minha consciência: “pecado”. Seth me retirou do meu delírio ao ouvir-me, o seu sangue escorreu, pingando sobre meus seios. Ele segurou meu rosto; fitou-me com um sorriso mórbido. Suávamos tanto... e após sorvê-lo, eu me sentia mais tórrida...
— Perssattua ssorn aessatt... — murmurou. “Minha possuída... para sempre” significava. Contrações intensas em todos os meus músculos, um orgasmo súbito me governara. Arranhei o torso de Seth. Ele se abaixou, sussurrando em meu ouvido. — Sinta... — Eu queria mais. Puxei-o, pelo lado esquerdo, e cravei meus dentes no outro lado de seu pescoço; sorvi... deliciosamente... e tão logo enquanto sorvia, eu o senti tremer muito... bradar um prazer inumano... e o seu liquor demoníaco e fértil, banhou-me como uma onda obscura do oceano azul-gris. Seth vociferou horrores na língua dos demônios, parecia enfraquecido de tanto que fora sorvido por mim, e eu não parava. Novamente fui empurrada por ele; afastando-me de seu pescoço. Ele estava muito fraco. Prostrou-se ao meu lado, incapaz de se levantar... parecia dizer algo, mas eu não o ouvia bem... seu corpo começou a queimar como papel, algo nunca visto por mim, entretanto, meus sentidos estavam aguçados para tudo, eu podia enxergar em toda aquela escuridão e entendia que Seth estava indo para o inferno.
A nutrúrnia, por sua vez, também estava diferente, caída ao nosso lado, parecia mais viva... e eu podia ouvi-la sussurrar o ininteligível, como um canto feminino sôfrego. Em minhas pernas escorria um líquido denso, eu estava nua e tudo era preto e vermelho. Peguei a flor, fechando-a na palma de minha mão, de modo célere, fui ferida pelos espinhos; eu não me importava, pois, estava em uma afrodisíaca overdose. Finquei o caule da nutrúrnia em meu peito... sim... e senti profundo enlevo arrebatador, como doses absurdas de dopamina... eu senti... muito além da dor estarrecedora. Caminhei, cheia do poder demoníaco... e o desejo sexual ainda aflorado... meus passos na escuridão... uma escuridão que pertencia a mim... sozinha... imunda de sêmen... manchada de pecado.
Eu compreendi muitas coisas... sorver o sangue de Seth me fez uma daemoniss, em alguma instância... em alguma profundidade. Compreendi que a nutrúrnia consumia toda a luz ao seu redor, tornando qualquer pálido lume em um ponto opaco no breu absoluto. Compreendi que sua seiva causava o mesmo êxtase que o sangue de Seth, se sorvida... e que, regada de sangue e luz, ela propagava sua escuridão onde apenas os daemoniss eram capazes de enxergar. Compreendi o idioma de Lussifferr, entendi que ele alertava Seth a todo o instante, com sua voz de imponente horror, dizendo que o expulsaria do inferno se ele ousasse possuir uma humana..., mas eu... eu não me sentia humana... era, mesmo assim, vista como uma.
Eu tinha o poder de Seth... e apesar disso... apesar do que veio de encontro ao meu entendimento e apesar do intenso desejo, mesmo após o sexo... eu me sentia constrangida e uma intuição insistia em revelar que a solidão ainda era real, obstinava-se em me alertar que a paixão por Seth era hostil. Eu o vi abrasar e sumir... debilitado e... eu pensava nele. Voltei ao meu aposento e fiquei imersa nas águas frias de uma banheira de porcelana... impassível diante de meu próprio pecado... enquanto a nutrúrnia permanecia fincada, sem permitir esvair uma única gota do meu sangue. Eu via seu caule detrás de minha tez... respirar estava difícil...
E a estranheza tinha uma presença própria, quase tátil... ela se disseminava no calvário de um sentimento mofino que me pertencia tanto. Eu... eu sentia que era uma traidora... era isso... eu sentia que havia traído Lorrt, mesmo sem amá-lo como um dia amei.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Mar Espectral
Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma ventania estranha que dançava pelas paredes de pedra e roçava na poeira, erguendo um cheiro de umidade e pó. Em uma das câmaras de retiro do castelo, Minerva escrevia em seu livro negro, posicionada sob uma mesa de escrever. Ela aguçou os ouvidos, atenta àquele som ritmado que ecoava cada vez mais perto.
O som deslizava pelo ar, suave e contínuo, como um sussurro levado por uma brisa forte ou o farfalhar de um tecido escorregando sobre uma superfície lisa. Era fluido, mas inconfundivelmente presente enquanto se movia, sussurrante e rápido, arrastando o pó do castelo pelos ares e emitindo notas como Dó, Mi e Sol.
Hummmmmm Hummmmm hummmm hummmm...
Ela parou, pousou a pena sob a madeira da mesa cautelosamente ao direcionar o olhar atento para onde o som ecoava quando aquilo adentrou pela porta do cômodo, que se abriu de leve como se alguém a destrancasse, aquele vento soprou a vela erguida pelo candelabro ao lado de Minerva e a apagou, sob a mesa. A escuridão dominou e ela ouviu apenas o som de seu espirro após inalar o pó que aquela brisa trouxera, que exalava um aroma de terra molhada.
A esfera luminosa de Minerva brilhou no ambiente acima de sua cabeça, afugentando um pouco do breu e elevando à penumbra a marca dos objetos ao seu redor. Com cuidado, ela fechou o livro e, com um sussurro, o encantou para que ninguém mais o pudesse ler. O pó sob o chão era levado por aquela brisa fazendo círculos ao seu redor e aquele som podia ser ouvido como às vezes mais longe e às vezes bem mais perto, como se estivesse indo e vindo até ela. Aquele era um dos sinais de algo que a chamava mais uma vez para os lugares mais ermos e lúgubres que se escondiam nas reentrâncias dimensionais do castelo.
Minerva avançava pela galeria silenciosa, guiada por uma intuição que pulsava em seu coração. A brisa, cada vez mais intensa e carregada de poeira, soprava sua direção, também lhe indicando o caminho. A cada passo, seus pés ecoavam suavemente sobre o chão de pedra, e ela percebia uma mudança sutil, quase imperceptível, na atmosfera do castelo. Havia um murmúrio distante de água corrente deslizando pelas paredes e pelo chão. Ao seu lado, a esfera de luz que a acompanhava brilhava com um tom inusitado: o azul-cobalto substituíra o habitual tom de safira, como se até mesmo sua magia estivesse sob influência de algo diferente.
O vento empoeirado mudou repentinamente de direção, arrastando Minerva para uma ala do castelo que lhe era completamente estranha. A escuridão era tão densa que o teto parecia ter deixado de existir, e todos os objetos ao redor surgiam apenas como vultos distantes, como se ela caminhasse por um vazio absoluto, desprovido de tempo e espaço. Vista de longe, se alguma alma pudesse enxergar naquele abismo, ela seria apenas a silhueta de uma dama envolta em negro, recortada contra o brilho pálido de uma luz fria, um vestido longo de mangas justas a cobria como um véu de sombra, os tecidos pesados ondulando suavemente ao compasso do vento oculto, como se a própria escuridão se moldasse ao seu corpo.
O sussurro ecoou mais uma vez, baixo e arrastado, como um segredo sendo revelado gota a gota nas paredes. À frente, Minerva vislumbrou um alto portal, duas portas monumentais, cravadas no chão e fundidas à rocha das paredes. Eram feitas de jacarandá escuro, e exalavam uma presença inquietante. Reunindo toda a força do corpo, ela empurrou as portas pesadas, que rangeram com um som áspero e profundo ao se abrirem.
Do outro lado do portal, Minerva encontrou uma paisagem emoldurada pela desolação: uma praia fria e cinzenta, açoitada por rajadas de vento cortante, sob nuvens espessas que mergulhavam o mundo em penumbra. As ondas do mar, negras e revoltas, quebravam com fúria sobre a areia pálida, como se tentassem devorar a costa. Ao erguer o olhar, ela o viu o castelo Drácula erguendo-se com imponência sobrenatural no alto de uma formação rochosa, cercado por montanhas escuras como carvão.
As torres do castelo se projetavam contra o céu como lanças de pedra, adornadas por gárgulas de olhos ocos e asas abertas, como se estivessem à espreita. Vitrais rachados e sujos, mais parecidos com feridas do que com janelas, manchavam suas fachadas, lembrando igrejas amaldiçoadas, esquecidas pelos deuses e devoradas pelo tempo. A atmosfera era densa, elétrica, como se algo além da compreensão, habitasse aquele cenário. E Minerva sabia, ela estava numa das dimensões ocultas onde o castelo Drácula existia, um reflexo sombrio entre realidades na encosta da praia da melancolia.
Em sua mente, ela considerou aquele acontecimento por alguns segundos, tentando entender onde estava e por que o castelo a trouxera ali. Ela sentou-se na encosta da praia. Seu longo vestido negro foi consumido pela areia e seus cabelos tornaram-se esvoaçantes com as rajadas de vento. Em seu interior, se instaurava um medo vestal como se sua magia fosse se esvair, ela não tinha fé única, mas cria principalmente em sua magia.
Por um instante fugaz, tão breve quanto o piscar de olhos, Minerva tentou racionalizar o que via. Por que o castelo a convocara para aquele limiar de mundo esquecido? Que propósito obscuro havia naquela travessia? Sem respostas, deixou-se cair sobre a encosta pedregosa da praia, onde a areia, fria e úmida como cinzas de ossos antigos, começou a engolir as dobras de seu vestido negro. O vento, cada vez mais impiedoso, fustigava-lhe os cabelos, fazendo-os dançar em espirais caóticas como serpentes presas na cabeça da medusa.
Ela afundou as mãos na areia pálida, desejando ancorar-se ao mundo físico, sentir algo que não tremesse sob o peso do abismo. Foi então que seus dedos roçaram algo rígido e frio, uma estrutura metálica soterrada sob os grãos. Puxou-a lentamente, revelando um objeto soturno: uma cruz de tungstênio escurecido, com uma safira profundamente cravada no centro. Gravadas em seu corpo metálico, inscrições arcanas serpenteavam em uma língua extinta, como se tivessem sido gravadas por mãos que já não pertenciam há nenhuma era conhecida. Era um encantamento, um aviso, talvez. Ou uma chave.
Ofegante, os olhos de Minerva vasculharam mais uma vez as inscrições entalhadas no artefato, buscando um sentido oculto nas curvas tortuosas da escrita. Então, com um murmúrio quase imperceptível, lançou um encantamento que fez a cruz flutuar diante de si. Os símbolos arcaicos despertaram, acendendo-se com uma luz azul e girando lentamente no ar. Uma única frase reverberou, clara como uma sentença final: aquele que habita na escuridão, Lwccirtt, livre de sua prisão.
Mal as palavras cessaram, as rajadas de vento emitiram urros furiosos, e no coração do oceano caiu um raio etéreo de luz antinatural, impossível de nomear, que desceu rasgando os céus. O clarão golpeou as águas como uma lâmina divina, e o mar respondeu. Minerva tentou erguer-se, tentou fugir da costa maldita, mas o tempo já não lhe pertencia. Das profundezas abissais, ergueu-se a onda. Não uma onda comum, mas uma muralha de água e trevas, uma maré de natureza arcaica e brutal que não pertencia àquele mundo. Era como se o próprio mar, consciente e vingativo, se levantasse para apagar tudo. Ela não apenas engoliu a praia, ela perfurou, arrastando com ela a matéria que Minerva conhecia ou cria ser o mundo.
O castelo Drácula, em sua imponência amaldiçoada, foi tragado inteiro. As gárgulas se despedaçaram como bonecos de sal; os vitrais explodiram num mosaico brilhante de pontos escuros, e as colunas góticas se retorceram sob o peso de um oceano que não devia existir. A água salgada invadiu corredores e criptas, afogando histórias e horrores adormecidos naquela dimensão. Minerva, engolfada pela força inominável, foi arremessada contra as rochas submersas como uma folha sem destino e ali seu corpo flutuou, inerte, entre as sombras. E então ele surgiu. Lwccirtt.
Uma criatura feita de névoa viva e substancial, pairando sob as ruínas submersas como um presságio, dançando imerso nas águas escuras. Era amorfo, uma nebulosa sólida e escura, líquida, pulsante como tinta cósmica derramada sobre o fundo do oceano perto da zona abissal. Sua anatomia desafiava a mente: tentáculos espectrais sem origem serpenteavam em direções paradoxais, oscilando entre matéria e vazio.
Minerva submergiu sob as águas que devoraram o castelo, envolta em silêncio. Seu corpo repousava imóvel, e apenas o tangível frio das águas lhe despertava as extremidades dormentes, sabia que estava machucada, mas não conseguia sentir onde. As sombras que avançavam no escuro levavam consigo destroços do castelo Drácula; numa quietude súbita, as correntes agitavam-se num balé funerário, como se o próprio mar reverenciasse uma queda tão grandiosa.
Foi então que algo se formou nas profundezas e ela pôde ver e aproximar-se do que deveria ser a superfície, só que não conseguiu alcançar. Não era fera nem fantasma, mas um vulto indecifrável, a entidade Lwccirtt, uma massa de nébula quase sólida e insólita; era escura e se desenrolava sem pressa. Suas bordas não tinham consistência firme; eram como brumas antediluvianas, densas como breu, mas compostas de uma estranha luz opaca e cobalta.
Aquilo flutuava indiferente no véu escuro aquático, com curiosidade pacífica, observando Minerva, que ainda presa entre o limiar do sono e da vida, não sentiu medo. Pelo contrário, mesmo sem respirar, ela despertou do seu transe turvo com uma curiosidade silenciosa, a falta de ar por hora não a incomodava. Era como se aquele ser tocasse sua mente sem a tocar fisicamente, e impressões e sensações fluíam diretamente em seu ser. Não havia voz, apenas um eco distante, um sussurro que animava sua consciência. Os olhos vermelhos da bruxa enxergavam, turvos, os dentes afiados daquela estrutura nebulosa que a faziam lembrar de um peixe-ogro.
Sensações de frio e calor envolveram-na num diálogo psíquico indescritível com os vórtices luminosos que deveriam ser os olhos daquela entidade. De súbito, o inconcebível se revelou em visões fugazes. Aquele ser conversava com ela e mostrou para Minerva um turbilhão de imagens e nem todas ela compreendia. Ela viu cidades submersas antes da era dos homens, rostos antigos esculpidos na pedra que jamais poderiam ser lidos submersos em águas profundas, florestas petrificadas sob um sol que ainda não nascera. Ela enxergou desertos de cristais negros e mares de trevas luminosas, espectros de constelações mortas e astros recém-nascidos girando num balé eterno. Cada fragmento destas cenas era um pressentimento de algo maior, um lampejo de conhecimento proibido, mas tudo lhe escapava entre a visão turva do vermelho rubro de seus olhos sangrentos que ardiam pelo sal. Suas forças e sua magia estavam sendo drenadas.
Ela apanhava vislumbres da geometria do cosmos, da quietude antes do tempo, sem conseguir nomear. Um som estranho, como um borbulhar, era ouvido por ela quando a entidade a mostrava as visões. Ela sentia que precisava adentrar em uma daquelas realidades, em seu âmago ela começou a chamar pelo castelo Drácula, pela dimensão que ela conhecia. Cada vez que ela buscava aquele vislumbre nas visões de Lwccirtt, o som do borbulhar aumentava; ela precisava respirar e não conseguia se desvencilhar daquele contato, não conseguia nadar em busca de uma superfície.
Sentia as suas energias sendo transferidas para a nebulosa lôbrega, mesmo assim ela insistia com todas as forças psíquicas em chamar a visão de seu grimório deixado lacrado na câmara de retiro entre as visões que Lwccirtt lhe mostrava. Quando seu coração despontava sem ar e seus pulmões quase sem vida, um relance do grimório surgiu e ela pode sentir a estranheza da entidade diante da imagem.
Quando o contato terminou, Lwccirtt retornou ao mar de sombras de onde emergira. Minerva conseguira retornar, porém, quase sem magia e a cruz de tungstênio perfurava seu peito. Pairava no ar, suspensa por um último fôlego da magia que agora a deixava, ela caiu sob o chão de pedra.
Seu corpo encharcado chocou-se contra o chão, pesado e exausto, como uma ânfora vazia. A cruz de tungstênio, que antes flutuava com poder, agora atravessava-lhe o peito, cravada como um selo. A dor era real, mas mais real era a estranheza de ainda estar viva. Ela arquejou, expelindo a água salgada dos pulmões pela boca, numa ânsia entre a morte e o renascimento ela arfou em uma tosse desenfreada. Sua mente ainda oscilava, presa à visão do castelo submerso, e da criatura que havia lhe mostrado o infinito. Ela invocou a esfera luminosa que, enfraquecida, piscava emitindo um som vibrante de energia.
Com um último esforço ela se ergueu sentando-se, segurou a cruz e a arrancou de si. O sangue misturou-se à água que escorrida de seu corpo sobre o chão, formando um reflexo escarlate. Minerva tombou outra vez, silenciosa, com os olhos abertos para o teto que não via, carregando em si um novo vazio, não de ignorância, mas de sabedoria impossível.
O mundo ao seu redor parecia mais vasto e menor ao mesmo tempo; o tempo não corria mais linearmente. Embora não pudesse nomear o conteúdo exato das visões, sentia que partilhava de uma sabedoria antiga. E essa certeza, por si só, já transformava sua existência fazendo-a se perguntar o que ela realmente buscava. A cruz continuava ali, ao seu lado, fria e cintilante, gravada com o nome daquele que habita na escuridão. Lwccirtt.
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Tribunal das Sombras
30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Valéria S. Miahi
(Diário pessoal)
30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário. Estes últimos tempos têm sido estranhos, como se algo no ar tivesse mudado... As pessoas nas ruas cochicham sobre eventos anormais, presságios, vultos à meia-noite. Mas preciso começar de algum ponto.
Ontem, o céu amanheceu como se carregasse um presságio sombrio — um véu cinzento sobre o mundo, pesado, úmido, como os olhos de alguém prestes a chorar. Eu não deveria ter saído. Mas como resistir? Havia algo na neblina da manhã que me chamava, como um sussurro sem língua, como se a própria terra curvasse-se à minha curiosidade.
Vesti meu traje de passeio mais querido — um vestido cor de vinho envelhecido, de tecido modesto, mas digno, com rendas finas nas mangas e na barra, feitas por minhas próprias mãos. O corpete me apertava o peito, não cruelmente, mas lembrando-me que sou feita de carne e limites. Prendi os cabelos loiros e ondulados num coque frouxo, deixando que algumas mechas rebeldes escapassem — um gesto quase instintivo, como se meu corpo dissesse que não sou de me conter.
Segui por uma velha estrada atrás da estufa da senhora Camille, aquela mesma que o jardineiro Rasson jura estar amaldiçoada desde o último verão, quando encontraram o cão da família Moore dilacerado, com os olhos arrancados. Uma cena que ainda ecoa nos corredores do cortiço.
Decidi me aventurar para conhecer melhor a região. No início, o caminho era povoado de casas e passos alheios. Mas, em algum momento — não sei bem quando — percebi que estava só. O silêncio cresceu devagar, feito erva daninha, até que me vi andando entre sombras e pedras molhadas.
Foi então que notei, próximo a uma poça d’água da chuva da noite anterior, algo como um papel encharcado. Curiosa, agachei-me.
— Um jornal?! — murmurei em voz alta, como se precisasse ouvir minha própria presença.
Os últimos dias haviam sido tão intensos que sequer me atentei às notícias. Se Anton soubesse disso, já estaria me repreendendo como o velho Padre Bento — com aquela cara de sermão e voz solene, capaz de transformar até uma receita de pão em pregação.
O que me chamou atenção foi a data... e o trecho ainda legível:
“Na madrugada de ontem, a tranquila neblina que pairava sobre o rio Sena (...) três corpos, dois de mulheres jovens e um de um homem, flutuaram às margens do rio, na degradada área de La Cité.”
La Cité... sempre soube que aquela região era perigosa, ainda que esteja mais ao norte. As indústrias tomam conta dali, com os ratos e os segredos.
Mas aquelas mortes... ficaram gravadas em mim, como se o papel tivesse sussurrado seu horror aos meus ouvidos. Olhei ao redor, sentindo a terrível sensação de estar só — não só fisicamente, mas em essência. Como se o mundo inteiro houvesse sumido, e eu estivesse esquecida ali, por algo que me observava sem rosto.
A aventura não foi longa. E terminou, confesso, de forma um tanto frustrante — com meus passos retornando apressados para casa, vencida por um medo que julguei infantil... mas será que era? Admito que ler aquela notícia me perturbou mais do que gostaria.
02 de Agosto de 1871 — Despertei esta manhã com minha mãe gritando do andar inferior. Chamava meu nome com urgência — eram seis da manhã, e havíamos trabalhado até quase três costurando roupas para clientes do bairro. Sonhava em continuar dormindo, mas a realidade, como sempre, puxou-me de volta.
Vesti-me rapidamente com uma blusa de algodão creme, bordada nos punhos com pequenas flores azuis, e uma saia de linho escuro, já um pouco desbotada. Amarrei um xale nos ombros e prendi os cabelos com fita — não por vaidade, mas porque o vento de agosto é traiçoeiro.
Do cortiço até o mercado não se leva mais que dez minutos. Paris é viva, pulsante, e mesmo em sua miséria se encontra tudo — de frutas maduras a sorrisos feridos.
Na esquina sul do mercado, um menino, talvez de doze anos, gritava como um arauto do caos, com uma pilha de jornais sob o braço:
— As notícias de Paris em primeira mão! Notícias fresquinhas, vindas do Sena e dos infernos!
— Garoto, me entregue um.
— Me chamo Giules, senhora. Aqui está — disse com orgulho, entregando-me um jornal com as mãos sujas, mas o coração limpo. Seus olhos castanhos eram grandes, atentos, cheios de uma esperança que Paris ainda não lhe roubara.
A manchete fez meu peito apertar:
“O Caso dos Corpos no Sena
Segundo a Gendarmerie nationale, as investigações têm sofrido entraves, o que gera insatisfação entre o maire e o conselho público. Durante a madrugada do dia 29 de agosto, um acontecimento inédito ocorreu: os corpos, que haviam sido levados à Universidade de Paris, desapareceram misteriosamente. Além disso, oficiais da Gendarmerie foram mortos num possível confronto. Houve um incêndio numa das alas da instituição. Moradores relataram sons estranhos, semelhantes a grunhidos, e uma testemunha afirma ter visto uma “entidade com asas de morcego” voando rumo ao céu.”
Naquele instante, o som das ruas sumiu. O burburinho, o ranger das rodas das carroças, o tilintar das moedas — tudo foi engolido por um silêncio cruel. Meus olhos ardiam. Minhas mãos tremiam.
Senti algo puxar minha manga.
— Se... senhorita, está bem? — A voz infantil de Giules me trouxe de volta. Devia estar com uma expressão horrível, pois ele me olhava com preocupação genuína.
— S... sim. Estou bem. Só me surpreendi com a notícia...
— Mas o que diz aí de tão assustador? — perguntou com uma inocência quase cruel.
— Coisas de adulto. Você... não sabe ler?
— Não, não sei — respondeu com os olhos agora escurecidos, como se a vergonha tivesse feito sombra sobre eles.
Antes que eu pudesse dizer algo, alguém gritou seu nome ao longe. Ele correu com os jornais ainda nos braços, mas a meio caminho parou, virou-se e sorriu. Um sorriso sincero. Aquele tipo que ilumina mais do que o sol da manhã.
E foi assim que o dia começou. Com um rastro de fogo dentro de mim, e a estranha certeza de que algo invisível está se movendo pelas ruas de Paris — e talvez, também, dentro de mim.
Anton S. Miahi XXII
(Diario pessoal - Póstumo)
Sem data – Escritura feita em meu caderno, entre as trevas e o fôlego último da razão.
A realidade dentro daquela cela, mais do que contrastante, era um espelho estilhaçado da sanidade. Havia em mim a dúvida como uma ferrugem, roendo os pilares da mente. Olhei meu braço — aquilo que outrora fora meu — agora uma mescla profana de carne, metal e Éter.
E então, a aparição: Alonso.
O espectro de meu irmão. Sua forma trêmula, seu olhar suplicante, e seu desaparecimento... como se houvesse sido tragado pelo próprio abismo.
Minha mente, ainda enegrecida pelas dores da transformação, foi domada pela frieza com que a guerra me educou. Era preciso calar o pavor e erguer a razão.
Levantei-me do chão pútrido com o vigor desesperado dos que nada mais têm a perder. Voltei, arfante, à sala onde Arturo cultivava suas abominações. O ar me feria o peito como vidro moído. O coração pulsava alto demais — não sabia se era um tambor de vida ou o prelúdio da morte.
Vasculhei a sala com olhos de predador.
Meu olhar caiu sobre um baú, ao lado de uma mesa profanada por tubos de vidro que cintilavam com líquidos de cor e textura inexplicáveis.
Aproximei-me. Ajoelhei. A tranca — aberta.
— "Ele realmente não teme que alguém fuce seus segredos..." — murmurei, mais para as sombras do que para mim.
Abri a tampa com mãos trêmulas. As dobradiças rangiam baixinho, como se também temessem o que revelariam. Lá dentro, relíquias de um delírio científico. Artefatos que não pertenciam ao nosso tempo. Objetos frios, inumanos. Mas um deles...
Uma arma.
Estranha, quase bela.
Não como as que portei na guerra, mas era certamente feita para matar. Examinei-a. O cano, os mecanismos, o gatilho... uma peça híbrida, como eu.
Pensei:
— "Se há uma arma, a munição há de estar próxima..."
Havia. Um estojo de projéteis cintilantes, como se fossem alimentados por luz. Carreguei a arma, improvisando um treinamento silencioso.
Precisaria confiar nos instintos.
Mais adiante, encontrei uma barra de ferro.
Não era meu sabre, mas seria minha extensão se a arma falhasse. Prendi-a ao cinturão, e com a arma em punho, respirei fundo.
E marchei.
Corredores estéreis e úmidos, paredes que choravam sangue seco e fungos. O ar pestilento oscilava entre mofo e morte.
Passei diante da cela da jovem... um nó me subiu à garganta. A lembrança do sofrimento dela, de sua expressão vazia, perfurou meu peito.
Segui.
Não sabia onde estava. Subterrâneos? Ala superior do castelo? As paredes não respondiam, apenas gemiam. Os corredores, talhados em pedra e pecado, faziam curvas labirínticas. Então, sob a luz doentia de uma lamparina, lembrei-me do diário de Arturo que ainda trazia comigo. Abri-o.
Uma página aleatória:
"Hoje conheci duas figuras intrigantes — uma dama de fala arguta, olhar felino; e um cavalheiro de aparência saudável, embora sua pele beirasse o albino. Curioso. Há algo de... antigo neles.”
Um ruído.
Atrás de mim.
Abracei o silêncio e aguardei. Respirei. E ouvi.
Vozes.
Gemidos. Lamentos. Tormento encarnado em som. Segui, tenso como fio estirado. Meus passos ecoavam no ventre da arquitetura maldita. E então os vi: cativos.
Seis celas. Homens, mulheres... retalhos humanos, olhares apagados. Experimentos. Fracassos. Almas em ruínas.
A dúvida me invadiu:
— Libertá-los? E se forem perigosos?
Mas posso deixá-los aqui?
O dilema me dilacerava. Mas havia algo mais forte: compaixão. Ou talvez, o desejo de fazer algo certo em meio ao caos.
— Vocês... vocês vão sair daqui. — sussurrei, quase sem acreditar.
Quebrei os cadeados, um a um. Os prisioneiros gritavam, choravam, corriam ou rastejavam. Uns me abraçavam, outros somente fugiam. Quando rompi a última tranca, um grito — não humano — explodiu pelos corredores.
Um corpo atravessou a penumbra e se chocou contra a parede atrás de mim, estalando ossos.
Silêncio.
Depois, outro grito — Grave, bruto como de uma fera selvagem.
O corpo estava dilacerado. Mordido. Cortado.
Os ecos do inferno haviam se soltado.
—Não estamos sozinhos... — Murmurei, erguendo a arma.
Anton S. Miahi XXIII
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem data — Ouvi. Um urro… ou seria um grunhido de alma profanada?
Veio como trovão sob terra húmida — grave, bestial — entrelaçado aos gritos lancinantes dos prisioneiros e ao estalar sinistro de ossos se partindo como galhos secos. Os passos, pesados, se aproximavam, um a um, como um relógio em contagem para a execução. E então... uma lufada de ar.
Não era brisa.
Era hálito.
Algo respirava sobre mim. Algo existia atrás daquele som.
Os cativos da última cela, em pânico cego, correram — tropeçando uns nos outros, ainda ensanguentados — e bateram a porta. Deixaram-me só, diante do inexprimível.
Não havia para onde fugir.
Um beco sem saída.
Eu, o tolo redentor, havia conduzido cordeiros ao altar de um lobo espectral.
— Oh, que infelicidade a minha... — murmurei, quase como prece amarga.
Sim, os mortos não mais se angustiarão com o presente... nem com o futuro.
Eles agora seriam as únicas testemunhas do meu fim — e, quem sabe, do nascimento de outra coisa, algo além do homem.
Assumi posição de combate. A mão esquerda empunhava a arma etérea de Arturo, ainda fria e desconhecida. A direita, o bastão de ferro — rudimentar, mas real.
Meus olhos varriam a penumbra, buscando um indício, uma forma, uma promessa de movimento.
Nada.
— Se vou falecer aqui, não será de joelhos... Ele sofrerá tanto quanto eu! — exclamei, mais para as pedras do que para o destino, fingindo haver dentro de mim algo além do medo.
A parede fria atrás de mim marcava o limite da existência.
O fim de qualquer tentativa de recuo.
E então…
Uma voz.
Sutil, suave, nas minhas costas.
— Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.
Aquelas palavras soaram como gelo escorrendo pela espinha.
Mas o que as seguiu... foi pior.
Risos.
Não gargalhadas humanas.
Era um som que se dobrava em si — sarcástico, lascivo, prenhe de uma crueldade antiga demais para nome.
Ao tentar me virar, algo me deteve.
Mãos — ou garras? — se fecharam sobre minha cabeça como grilhões invisíveis.
E então...
Dor.
Uma dor vívida, quase luminosa, que me cegou os olhos com sua intensidade.
Não somente física. Era como se memórias estivessem sendo arrancadas…
Como se minha identidade estivesse sendo extraída pelas unhas de um monstro que ria porque sabia:
O que ele queria não era meu corpo.
Era minha alma.
Anton S. Miahi XXIV
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem data, noite — O frio me cortava como navalhas silenciosas. Senti o açoite do vento contra o rosto, enquanto, debaixo das palmas, a textura gélida e arenosa denunciava que eu jazia sobre a neve. Abri os olhos com esforço e logo fui acometido por uma pontada lancinante na fronte. Levei a mão à testa — úmida, latejante. O sangue, espesso e quente, escorria pela pele pálida.
Ao redor, uma arquitetura de formas circulares e entradas múltiplas — como o interior de uma cripta aberta ao firmamento. Gárgulas esculpidas em pedra grotesca me espreitavam de todos os ângulos; estáticas, mas com um olhar de morte que parecia transcender o inanimado. Seus olhos ocos sondavam os cantos daquele espaço como centuriões de um inferno esculpido em mármore antigo.
Ao alçar os olhos, não encontrei teto. Apenas um céu de veludo negro crivado de estrelas — como se aquele tribunal estivesse suspenso entre o tempo e o abismo. Sob minhas mãos, reconheci enfim a neve. E então, como sussurro que rompe a espessura do próprio passado, a voz:
— “Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.”
Era uma lembrança. Mas não qualquer lembrança. Aquela voz... sim, era ele.
Nestor.
Ou... seria outra entidade ainda mais antiga?
Tateei a memória como quem rasteja entre ruínas. Lembrava do golpe traiçoeiro pelas costas.
A consciência esvaindo. O cheiro metálico. O chão fugindo sob meus pés. E agora ali estava eu, redivivo num palco ancestral.
E então, vieram os passos.
Lentos.
Pesados
Cerimoniais.
Não havia disfarce. O ser que se aproximava desejava ser ouvido, sentido, temido. Um rosnado grave ressoou, reverberando nas colunas e atravessando meu peito como trovão que desaba sob terra profanada.
Minha mente, ainda embaciada, sussurrava temores: “—É alucinação... é delírio...”
Tomei fôlego. E coragem — um farrapo dela.
— Que é que me observa da escuridão? — gritei, mas minha voz saiu rouca, trêmula, quase humana demais para aquele lugar.
Olhei para o alto da torre. Surgiram então duas asas descomunais, sombreadas contra o céu estrelado. A figura era uma silhueta até então dois pontos fulguravam — olhos de um azul etéreo, famintos, como dois fogos-fátuos no meio do nada.
Um anjo caído? Um espírito ancestral? Ou um juiz das almas tortas?
A criatura desceu com precisão bestial, traçando um mergulho mortal. Ao tocar o solo, as tochas espalhadas pelas colunas acenderam-se espontaneamente, iluminando-o em chamas de espectral laranja e púrpura.
Ele era... horrendo e sublime.
Corpo humanoide, esculpido como pedra viva — mármore que transpirava condenação. Asas negras como breu, mãos com garras longas que ansiavam por carne, e um rosto... um rosto que parecia feito da morte. Não do cadáver. Da morte.
— Pequena criatura... existência frágil... sabes tu onde te encontras? — sua voz soou como sinos tocados em um funeral ancestral. Grave, ecoante, cortante.
Tentei falar. A garganta ainda se fechava.
— N… não sei onde estou... e menos sei quem... ou o que... é você. — murmurei, ainda apoiado à uma coluna de pedra fria.
Ele caminhou em minha direção, com a solenidade de um algoz.
— Este é meu domínio, criaturinha. Aqui pesam teus erros. Aqui o destino se curva. Aqui os loucos e os orgulhosos são finalmente despidos de suas ilusões. Sou Var’Ghul, o Guardião das Almas, o Juiz dos Malditos. E é sob minha presença que as sentenças são proferidas.
Um riso irônico escapou-me, ainda que trêmulo.
— Depois de tudo… agora um juiz? Um tribunal? — ri, mas o som morreu na garganta.
Apoiei-me com esforço. Levantei-me. A tontura me assaltava como maré. Mas recusei-me a encarar o julgamento ajoelhado.
— Seja o que fores... não temo mais espectros. Já caminhei entre cadáveres... já ouvi preces no meio do fogo. Já morri mais de uma vez em alma. — minha voz se elevava, ainda que fragilmente.
Var’Ghul parou, avaliando-me com olhos de abismo.
— Nestor te trouxe aos meus domínios. O infame mordomo conhece bem os limites da ousadia... até mesmo ele se curva diante de mim. — sua voz, por um instante, transbordava escárnio e desprezo.
Senti uma estranha fagulha de esperança se acender — tênue, mas viva.
Talvez Var’Ghul não fosse somente juiz. Talvez, fosse também uma saída. Uma chave. Um limiar entre a danação e a redenção.
— “Então julgue-me. Se este é o fim... quero ouvir a sentença com olhos abertos.” — disse, agora em pé, mesmo trêmulo, como soldado diante da baioneta.
Ele sorriu. Pela primeira vez, sorriu.
E o frio na espinha tornou-se glacial.
— Ah... mas para julgar, Anton S. Miahi... preciso ver tudo. Cada lembrança. Cada pecado escondido nos porões de tua alma. E isso, meu filho, vai doer mais que mil mortes.
Var’Ghul ergueu a mão direita — os dedos ossudos se abriram como garras de um deus antigo — e então pronunciou com uma voz que ressoava em cada molécula do meu ser:
— “Que se rompam os selos do tempo… e que as memórias do condenado fluam diante do Julgador.”
Naquele instante, algo invisível me perfurou a fronte. Um estilhaço de dor, tão agudo, tão terrível, que me dobrou os joelhos. Não era uma dor física. Não. Era uma lâmina que atravessava minha alma, como se arrancassem, de um só golpe, os véus que eu mesmo havia colocado sobre meus próprios pecados.
Minhas pálpebras se fecharam — ou foram fechadas por alguma força que não reconhecia. E então vi.
A neve tingida de vermelho.
As trincheiras devoradas pelo frio.
Os olhos dos soldados — meninos, irmãos, monstros — fitando-me em seus últimos segundos.
Var’Ghul narrou como se lesse um códice sagrado, impiedoso, mas não cruel:
— “Tu estavas entre os sobreviventes do cerco de Mitrova. Foste o único a ordenar a retirada. Ordenaste, sim… mas deixaste para trás três homens. Um ferido. Dois perecendo. Salvaste doze. Traíste três. Calculaste o sangue.
Eu gritava por dentro, mas minha boca estava muda. Meus olhos jorravam lágrimas sem que eu os controlasse.
— E naquele dia… após incendiar os corpos dos que jaziam sob o gelo… teus próprios soldados te chamaram de herói.
Var’Ghul deu um passo adiante. A cada palavra sua, meu peito ardia como se brasas fossem enterradas sob minhas costelas.
— Na floresta de Drovnik… ataste explosivos ao ventre de um prisioneiro. Usaste-o como armadilha. Foi eficaz. Salvou a tua vida. Mas deixaste o terror escorrer pelas folhas como uma maldição.
— Chega... — murmurei, a garganta cravada de espinhos.
— Na cidade devastada de Petrowska... alimentaste uma criança com tua própria ração. Depois, a deixaste dormir ao teu lado no frio... e ela sobreviveu. Mas jamais soube teu nome.
A lembrança daquela menina — olhos grandes, cabelos como carvão molhado — me desarmou. Caí ao chão. Var’Ghul se ajoelhou diante de mim, os olhos faiscando com um azul ainda mais profundo.
Sua mão tocou meu peito.
E então, ele mergulhou mais fundo.
Vi o castelo.
As celas.
O sangue nas paredes.
Meus gritos contidos.
Minha fúria.
Meu desejo de libertar, mesmo quando tudo indicava ruína.
Ele viu.
Ele sentiu.
— A ti, Anton, coube a escolha de destruir a chave para fugir... e usá-la para libertar outros. Mesmo sabendo que te deixaria à mercê da besta.
Vi os rostos dos prisioneiros. Os mesmos que me deixaram para trás. E senti... que mesmo o bem que eu praticava era consumido por sombras.
Var’Ghul se ergueu. Um silêncio sepulcral tomou o recinto. Até as tochas pareceram se calar.
— Anton S. Miahi… teus pecados são muitos. Tuas mãos manchadas de sangue e cálculo. Mas... tua alma não é covarde. Fizeste escolhas entre abismos. E ainda assim, salvaste outros. Mesmo quando ninguém mais te via.
Ele estendeu a mão. Uma luz tênue, azulada, cintilou entre seus dedos — como se acendesse uma chama que nunca morrera de fato.
— Teu julgamento... é favorável. Ainda que não sejas puro, és digno. Seguirás adiante. Pois tua história... ainda não terminou.”
Meu corpo tombou, exausto.
Mas algo dentro de mim — algo ancestral, algo esquecido — se reacendeu.
Var’Ghul desapareceu na penumbra como fumaça que retorna à lareira dos mortos. As tochas se apagaram, uma a uma. E a última imagem que vi foi o céu estrelado, testemunha muda do veredito.
Então, silêncio.
E depois… uma nova respiração.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 12: Seu Raro Rubi — Rubi Áurea
O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além, n’um mistério lôbrego. O vento soprava apenas no alto, ondulando as nuvens e distorcendo os astros. Gotas de orvalhos límpidos e luminescentes flutuavam no silêncio, como se pairassem à espera de um instante preciso para se desfazerem em si mesmos. Observei, do alto vitral de minha alcova, uma paisagem de névoa índigo-gris e tão logo vi que a escuridão em seu interior era grave, tornando as velas e suas flamas em pobres pontos oscilantes, símeis aos orvalhos que pairavam. O breu daquele antro, era causado por mim, eu sentia; entretanto, lá fora, estava tão símil... ou será que as trevas estão em meus olhos?
Sentei-me; meu corpo nu sobre o veludo negro e a nutrúrnia em meu peito, vívida. Sob tamanho êxtase... fui capaz d’esta insanidade? Por quê? Eu me lembro, mas não compreendo. Eu me questionava enquanto mantinha meus olhos nas veias que se criaram entorno do caule sob minha tez; tocava-as e sentia pulsar o que poderia ser sangue ou a seiva da planta. Sob tal estranha luz anil-acinzentada, a pele tomava um tom símil, embora mais escuro, demarcava o hematoma do corpo estranho que se alojava no meu torso. A respiração melhorara, porém, ainda era mais parca do que outrora.
Ao velutum cabinet guiei-me na lentidão própria do tempo frígido que espargia ao derredor; em seu interior, observei as roupas que não eram minhas, a quem pertenceram afinal? Meus tecidos, eu acreditava, jaziam sob a terra úmida ou protegidos na solidão da saudade por aqueles que um dia amei. Vasculhei as peças, nenhuma me parecia correta diante da necessidade de manter exposta a nutrúrnia de meu torso e, ainda, proteger-me do álgido clima. Em um lance tênue de segundos silentes, senti profunda sede. Sede? Era-me tão rara, entretanto, emergiu como exigência imediata. Quiçá pela nutrúrnia... consumindo-me o sangue...
Escolhi uma peça negra, com ornamentos em ouro envelhecido; tive, no entanto, de rasgá-la sutilmente no torso, de modo a permitir que a nutrúrnia permanecesse livre. Havia mais espinhos do que o comum em suas pétalas, entretanto, pareciam curvar-se diante de meu toque; impedindo que uma ferida se abrisse em meus dedos. Pouco antes de libertá-la da renda, ouvi algumas batidas em meus umbrais, as quais ressoaram no tangível silêncio. Um adequado e quente cálice de sangue humano? Um alguém desconhecido para um banquete ao deleite da besta obscura que me tornei? Tão só mais um enigma d’este lugar terrífico? Abri a porta, pesada e rangente.
— Liliana! — Surpreendi-me. Convidei-a para adentrar meu lúgubre recôndito e a abracei, com carinho; sua pele se translucidava, eu via todas as suas veias e artérias.
— Amada Áurea, demorei para encontrar-te n’este mausoléu! — Senti-me turva enquanto sua mélea voz se alastrava. — Quão escuro está aqui! Ah... uma.... flor? — Segurei em uma das mãos de Liliana.
— Venha... — Segui para fora d’alcova, precisava de sangue... embora não soubesse como consegui-lo. Meus olhos transmutavam o azul-gris em um escarlate mórbido conforme meus passos apressados percorriam os corredores. Levava comigo parte da luz que adentrava os vitrais e parte das que queimavam nas flamas das velas nos candelabros. Eu evitava olhar para Lil, eu sabia do grave risco que pendia entre nós. Entretanto, ela estava firme em minhas mãos, céleres, seguíamos. — Hohrriss esstt! — Murmurei, uma interjeição diabólica que amaldiçoava a condição que eu me encontrava; um murmúrio baixo como um rosnar intrínseco. O rubro morbígero se acentuava.
“À direita” ouvi, era minha própria voz... em minha mente. “Quarta porta” ela disse... eu disse... eu sabia que era a Corphidrae... ou eu mesma. Um tipo de sala-de-estar se apresentou aos meus olhos; um cravum cabinet próximo tão logo chamou minha atenção. Deixei a mão de Liliana e segui ao móvel, abrindo-o. Havia cálices e taças; nos rótulos, títulos inelegíveis; frascos e vidros com seiva carmim. Dentre tantos, um deles reluziu aos meus olhos, n’um era vivo e parecia possuir nuances em dourado. Sem pensar, apenas o verti sobre o cálice e bebi até o fim de todo o frasco. Era docílimo, poderoso, mel aos lábios, fascínio e prazer rapidamente s’ergueram no meu âmago. Minha visão entorpecida se alinhava à sanidade e, no rótulo, um único nome: Olga Nivïttz {RHNulo}.
— Áurea? — Ouvi. Olhei para Liliana que parecia assustada.
— Perdoe-me, Lil; eu estava precisando de... sangue... — Eu já havia contado a ela o mais importante sobre mim, um resumo, enquanto seguíamos para o Oráculo. Dentre as minhas verdades, o vampirismo ela soube sem delongas. Algo entre nós se estabelecia, um emocional identificatório; não sei se pela gratidão dela em receber uma previsão de morte; se pela verdade de meu olhar sobre seu semblante encantador; se por alguma outra razão além do tempo...
O escarlate ao derredor minguou-se, portanto, dando lugar ao cinéreo-azulescido que outrora ordenou meus sentidos à melancolia sepulcral do silêncio e do orvalho luminescente que pairava somo poeira. Meus batimentos cardíacos amansaram.
— Muito ocorreu desde que nos vimos sob os cinco olhos do Oráculo... — Sentei-me no sofá próximo, Liliana fez o mesmo.
— Vim trazer esperança aos teus olhos tristes, minha Áurea. Antes que tudo me reveles, deixe-me dizer quem conheci. — Ela parecia empolgada, seus olhos eram dois esplendores âmbar. Mantive-me atenta e Liliana segurou minhas mãos nas suas. — Uma sublime mulher veio ao meu encontro, estava a refletir sobre o ocorrido no Oráculo, bem como a cerca de Luíre... enfim... esta mulher, de nome Morgana, tem estudado sobre os sonhos e, porventura, ela possa levar-te à Somníria outra vez! — Respirei fundo diante da revelação. Soltei das mãos de Lil e levantei-me, caminhando à esmo pelo cômodo. Fui à fenestra semiaberta, observei o horizonte enevoado.
— Não sei se quero retornar à Somníria... — Confessei. Liliana levantou-se, um tanto incrédula.
— Como não? Lorrt é a chave de tudo, Áurea! Ele sabe de tua vida, do teu poder...
— Eu o traí, Lili... eu não... não saberia fitá-lo em seus olhos... eu não saberia ficar outra vez em frente ao amor que ele externa a mim com seu semblante gentil e austero. — Um silêncio espargiu, sôfrego... Liliana se aproximou.
— Como assim? — Indagou e eu a fitei no mais profundo de seus olhos âmbar. Senti a tristeza, íntima, nascendo como garoa na imensidão.
— Eu... encontrei Seth... no entardecer de ontem... quando um carmesim-opaco e escuro direcionava a luz do pôr-do-sol às folhas secas... e eu... — Era impossível desvelar com as palavras que cabiam dizer. — Senti... eu o senti... no inominável prazer... da carne e do cerne... uma intensidade lasciva que traz o tremor às minhas entranhas só de recuperar a lembrança... — Voltei-me à janela, deixando de olhar para Lili e ela, por sua vez, afagou meus cabelos e abraçou-me, delicada.
— Tu ainda amas o Dom Lorrt? — Questionou, serena.
— Não... — Respondi, precípite. — Quero dizer... eu acho que não... entretanto... sinto culpa.
— Estranhas que a culpa advenha sem haver, pois, amor?
— Estranho... — Voltei-me a Liliana e ela afagou meu rosto. — Talvez, em alguma instância profunda, o amor ainda exista e, quiçá, eu saiba... no plano intuicional, talvez... eu... eu sinto içar um caos hórrido em meus sentires, Liliana... outrora estive desperta, buscando tão somente minhas memórias... até este tempo... onde laços tornaram-se nós e nós se quebrantaram na estranheza e no desejo... — Suspirei, deitando-me no abraço de Liliana. — Quão injusto é dar uma traição àquele que tanto me respeita... lembro-me do sonho... o sonho recorrente que escapara de mim desde que me despertei este monstro que sou... no sonho... as crianças aos meus pés... e os pés de um homem... eu sei que era Lorrt, eu sinto... eu sonhava com ele... formando ao seu lado uma família. Agora, contudo, vês? Dormi com dois homens e nenhum deles era o homem que habitava meus sonhos mais próprios...
— Áurea, não te culpes. Teu oblívio adveio em razão do mau acaso. Nem Lorrt, nem ti, decerto que até mesmo nem Lëvri, detém a culpa pelo acaso em sua manifestação orgânica, ainda que um tanto perverso e obscuro seja tais vicissitudes. Mesmo assim, tu não podes permitir que estas contingências te façam ficar contra ti mesma. Guarda no peito o que te aflige, minha doce, mulheres sempre possuem segredos em seu coração e não devem revelá-los aos homens, pois, eles não entenderiam.
— E Seth? — Era agradável e apaziguador deitar-me daquela forma, n’um amável abraço aquecido.
— O Demônio? Bem... ele não me soa confiável, querida.
— Eu sei... — Soltei-me de Liliana, sem bruscos movimentos. Voltei-me à janela, as nuvens volutais e o azul-gris ainda despertavam minha melancolia. — Ele é, porém, tão intenso... ele me aquecera com a calidez de seu inferno. Eu não o amo... entretanto, como um súbito clarão na tempestade mórbida, eis a minha paixão manifesta; ora fere, ora cura, brincando com a minha mente.
— Mais razões eu vejo para que reencontres Lorrt, minha amada. Para que tenhas certezas sobre teus sentires. Se a paixão por Seth machuca e se desvela sempre na veemência atordoante, esteja atenta. Amor é paz e, portanto, pode ser perene. Paixão é volátil demais para perdurar... e pode ser até mesmo perigosa.
Ao seu lado, fiquei por um tempo em silêncio. E entre afagos nos cabelos e mãos, fui ajustando meus pensamentos conturbados. Era inegável que fugir de Lorrt resultaria em mais angústias e, de fato, havia tanto o que ele sabia sobre mim... talvez do lugar de onde vim, das coisas que eu apreciava. E saber dele resultaria em compreender o vampirismo Illitam, algo que me pertencia, portanto.
— É hora, querida. Vou te levar à Morgana. — Liliana me olhou com um sorriso único e eu concordei em seguir os seus planos. Eu não sabia o que esperar, entretanto, estava disposta. Enquanto percorríamos o destino incerto, foi compartilhado comigo algumas das angústias de Lil, acabei por não lhe revelar sobre os poderes demoníacos, permite-me apenas ouvi-la. — Chegamos. — Era um dos quartos do Castelo. Liliana adentrou, sem precisar bater à porta.
Dois olhos verdes lumiaram em nossa direção, vindos de um rosto feminino. Ela se levantou com elegância. O cômodo era menor, símil ao de Monm. Vestia uma peça sublime, negra como a noite de lua nova, com detalhes em alguma pedra escura, talvez ônix. Ela tinha os cabelos presos em um véu sútil que recaía até os seus ombros. Sua pele era de um marrom intenso, sim, marrom; castanho-escuro, pouco mais claro que seus cabelos.
— Prazer, sou Morgana Sttrattan. — Cumprimentei-a e me apresentei. — Sentem-se, por favor. — Assim o fizemos nas poltronas próximas à escrivaninha que Morgana estava ao chegarmos. Além destes móveis, um velutum cabinet e um leito de cedro escuro complementavam o aposento. Uma tapeçaria ornamental no mesmo tom cobria o assoalho. Do vitral à direita, para o oeste, uma vista para o precipício.
A partir daquele ponto, Morgana relatou sobre a sua vida e a razão pela qual buscava Somníria. “Em minhas pesquisas” ela disse “eu soube de uma lenda a respeito desse lugar e tinha o intuito de encontrá-lo forçando o sonho lúcido. Era a única maneira possível de saber se era real ou apenas uma fábula”. Eu a ouvia com uma admiração irrefutável, até que vi seu corpo sutilmente desvanecer, como se fantasmagórico. “O que viste, Áurea, é a instabilidade da minha atual condição. Eu estou dormindo. Forçada por um aparelho de nome soníer, capaz de captar e traduzir ondas oníricas. Coloquei-me vinculada ao aparelho, com algumas modificações e, crendo alcançar Somníria, encontrei este Castelo umbrífero”. Eu ouvi e fiquei incrédula.
— Como é possível? — Indaguei.
— Não sei como, entretanto, na noite anterior, decidi replicar soníer n’este plano, acreditando ser possível haver níveis de sono REM. Para minha surpresa, eu o encontrei em um dos cômodos enquanto perscrutava o local. Não posso vos afirmar tratar-se de um item pertencente a outrem ou se foi construído através da minha intenção...
— Sugere que estamos adormecidas? Pertencemos a um sonho teu? — Interrompi-a.
— Creio ser improvável. A imersão de vossas histórias pessoais, conduzem-me à percepção de que, ao induzir meu sono com o aparelho modificado, usando-me como a cobaia do experimento, fui levada a outra realidade. Estou adormecida, entretanto, projetada, de forma astral, aqui. Talvez, com soníer acionado, em nós três, possamos induzir um sonho lúcido para o local, pois, já estou no sono REM, em hipótese, e tu, Áurea, já estivesse em Somníria. — Ficamos em silêncio. Eu pensava sobre aquela insanidade narrada com tamanho fundamento. — Eu não tenho muito tempo, devo dizer. — Morgana continuou. — Meu corpo tem desvanecido cada vez mais, pois o tempo está passando lá onde estou sobre o meu leito, ligada ao soníer. Uma profunda instabilidade, além disso, rege minha condição astral n’este plano. Eu despertarei, a qualquer momento.
— Eu... pouco compreendi, entretanto, devemos tentar, certo, Áurea? — Perguntou Liliana. Eu a fitei, hesitante.
— Sim. — Eu não poderia discordar.
Assim, iniciamos o processo. Morgana compreendia muito sobre o que estava fazendo, sobre soníer e seu universo onírico. Enquanto nos preparava, contou-nos sobre Morgion Sttrattan, seu pai, que sofrera com sonhos lúcidos bizarros desde sua infância e, quando adulto, passou a estudar os fenômenos vinculados ao âmbito sonial. Morgana nasceu cingida por um ambiente de estudos acentuados e seu pai fora uma figura de extremo exemplo e imoderada admiração, por isso, ela seguiu seus passos, embora fizesse tudo o que Dom Morgion considerava perigoso e arriscado. O contexto de sua vivência pessoal, trouxe-me uma saudade que sequer imaginei pertencer ao cerne que possuo; eu decerto tenho ou tive uma família e, talvez, um pai para admirar. Senti que a determinação de Morgana me atravessava como um indício de que era preciso continuar tentando encontrar-me em mim mesma.
Sorvemos de um líquido hialino com nuances escuras, era doce e enjoativo. Tratava-se de um indutor de sono profundo. Adesivos com um tipo de metal frígido, um metal de nome unorom, foi adicionado em nossas têmporas e conectados, por cabos, à máquina soníer. Morgana fizera questão de explicar as minúcias. Fui instruída a focar meus pensamentos e lembranças no instante em que estive em Somníria, portanto recordei de cada detalhe. Confesso que Lorrt era a principal imagem à minha mente... seus olhos amáveis, suas palavras afáveis... sua tristeza. Queria amá-lo, queria tanto amá-lo... e o sono vinha sólido a mim, meus olhos se fecharam, permitindo a lágrima velada verter, morrendo sobre o travesseiro qual repousava minha cabeça.
Aos poucos, a imagem de Lorrt se estabelecida com mais nitidez; a escuridão granulada das pálpebras cerradas se expandia em palidez, pouco a pouco, onde nuvens impassíveis conduziam uma brisa que aclarava um céu alvililás em todo o entorno. Senti o toque dele, em meu rosto, n’uma carícia tenra e amorosa. “Encontre-me em teus pesadelos... zelarei por eles...” — ouvi, num murmúrio pertencente a ele, sua viril voz se expandia... eu estava recordando e, ao mesmo tempo, buscando pelos umbrais que precisava atravessar para alcançar o reino dos sonhos. “Eu vou cuidar de ti, Áurea...” — Ouvi, dessa vez com mais limpidez sonora. A visão estava mais refúlgida, entretanto, toda a paisagem enegrecia em súbitos átimos, a partir do ponto em que eu estava mais adentro daquele onírico plano.
Nos instantes que esta escuridão, n’um índigo opaco, se distendia entre as nuvens, nos átimos de segundos, um piscar de olhos, meu coração doía e eu sentia medo outra vez. Quando o tato se tornou o sentido mais claro, entendi que estava em Somníria. Senti meus pés caminharem sobre as nuvens e a brisa arrepiar a minha tez. A visão, outrora embaçada e rarefeita, tornou-se explícita em seus detalhes mais infinitesimais... assim vi imensos cristais negros e belíssimas ametistas, pairando na imensidão como ínsulas. Senti-me profundamente vinculada ao lugar e, portanto, sussurrei o nome de Lorrt, fechando os olhos. Assim que os abri novamente, estava em frente ao homem que amei.
Seus olhos estavam n’um tom violeta escurecido, não tão vívido como da primeira vez. Seu semblante estava um pouco mais melancólico, embora um lumiar tímido lhe tenha envolvido quando eu proferi seu nome. Era lindo... um anjo de asas negras, com austeridade em sua fronte. “Eu precisava...” — murmurei. Queria explicar-lhe que minha intenção não era desestabilizar Somníria, entretanto, era inestimável encontrá-lo outra vez. A sensação de fraqueza foi apaziguando e, após um silêncio acolhedor, eu senti que, finalmente, eu estava consciente em Somníria. Olhei para os arredores, buscando Lil e Morgana, mas apenas eu e Lorrt estávamos na paisagem alvililás.
— Eu... precisava te ver outra vez... — Proferi, tímida e hesitante. — Espero não estar... perturbando demais...
— Tu não és uma perturbação para mim... — A voz de Lorrt não era feita de som: era feita de reminiscências. Parecia emergir de mim poeiras de lembranças jamais acessadas. Era grave, sim, mas de uma gravidade que não pesava; antes, ascendia, tal qual a sombra de uma constelação inalcançável e colossal que, ao invés de lançar temor, imerge o âmago n’um anseio irreprimível, por admiração e fascínio. Um tecido de som entrançado de saudade e soberania, tão profundo que nem os mortos teriam coragem de esquecê-lo.
— Sinto que estou errando em todas as minhas escolhas... e não recordei mais de minha vida antes do despertar... estou abraçada às sombras hostis... — Confessei, lacrimosa. Lorrt ia tocar minha face, entretanto, não o fez. Pareceu-me consternado e olhou para o lado, talvez desejasse um alívio da visão que tinha de mim. Senti receio. — Ainda... reside amor por mim... no teu peito? — Seus olhos se voltaram aos meus, pareciam menos violeta. Fitaram meus lábios. Lorrt se aproximou.
— Intenso como fogo... fluído como o oceano... profundo como um abismo... sempre. Sempre aqui. — Sussurrou, próximo. Meu coração se comprimiu, embora eu sentisse uma quietude plácida em meu ser.
— Aquela que fui ou a que sou? — Indaguei, abaixando a cabeça. Fitando suas grandes mãos, firmes como as de um cavaleiro da morte, capaz de carregar a foice do destino e, ao mesmo tempo, segurar um crisântemo sem despedaçá-lo.
— Aquela que serás... carregando a que foste e a que és, com o fascínio do que há de ser... — Respondeu, inabalável. Eu estremeci pela beleza de suas palavras.
— Apesar do quanto eu possa errar? Dos pecados que eu possa cometer? Das dores que eu possa te causar? — Eu não entendia minhas perguntas, elas vinham de mim sem nenhum vínculo racional... tudo o que pensei em saber, sobre minha história e sobre os Illitan, parecia nunca ter sido pensado, parecia irrelevante. Lorrt respirou fundo, fechando seus olhos por alguns segundos e abrindo-os em seguida. Parecia pensar em algo muito além da minha indagação.
— Teu amor por mim foi sempre vestal. Qualquer pecado, erro ou dor que dele advenha, é por descuido recíproco, pois não há falha de caráter em ti. — Disse, um pouco frio, um pouco mais distante, mas ainda atento.
— Estou desestabilizando Somníria? — Perguntei, pois, sua sutil frialdade me sugeriu que uma preocupação o estivesse envolvendo.
— Não só Somníria... — Revelou, e ficamos em silêncio por um tempo. Senti uma tristura implacável... eu certamente o estava machucando, com minha presença e minhas perguntas.
— Então me acorde... eu compreendo... eu sei que não posso ficar aqui... — Murmurei, mesmo querendo falar mais, ouvi-lo mais.
— Eu... não posso... — Murmurou Lorrt. Eu o olhei, surpresa.
— Por que não? — Intriguei-me. Ele se aproximou um pouco mais.
— Porque, Áurea, teu perfume me agrada... — A voz de Lorrt tornou-se mais intensa. — Porque prefiro manter meus olhos em teu belo semblante... — Senti meu rosto aquecer, o olhar de Lorrt era de profunda paixão; envergonhava-me um pouco.
— Sempre me chamaste de Áurea? — Sem saber a razão, continuava lhe indagando o que não fazia sentido... talvez eu acreditasse que, me aproximando do que vivi ao lado dele, as lembranças aflorassem. Para o meu deleite, Lorrt sorriu... O sorriso de Lorrt era uma fratura no rigor de sua existência: uma fissura pela qual, brevemente, se vislumbrava o homem que ele poderia ter sido se o mundo lhe houvesse sido mais justo. Eu não compreendia, mas sentia, intuía... seu sorriso contornava sua face austera com uma suavidade viril, revelava-me em silêncio a sua essência que me fora outrora tão familiar...
— Não... Preferia chamar-te de Meu Raro Rubi. — Desvelou. Eu sorri e meu sorriso o fez sorrir um pouco mais.
— Raro Rubi? Por quê? — Indaguei, com uma felicidade inenarrável em meu coração vazio. Era quente poder ver a mesma alegria no olhar de Lorrt, e saber que ele não se abrigava tão somente em insondáveis mágoas.
— Porque nos conh...
Eu... daria tudo para ouvir a história por detrás de tal alcunha tão gentil... eu senti que daria minha vida, naquele átimo, quando minha pele começou a queimar tal qual papel em brasa e meu corpo era absorvido por um fogo crepitante.
Fogo... intenso. Meu corpo estava queimando.
Eu faria tudo tão só para ouvir Lorrt... e vê-lo sorrir... mesmo que não, o amasse mais... mesmo não me recordando do amor; havia algo... sabe? Apesar dos pesares, havia algo que me envolvia em alento, algo que vinha dele... da presença e da voz de Lorrt. Contudo, eu fui queimada viva naquele momento — assim eu sentia — meu corpo em brasas fulgurantes, meu rosto desaparecendo no estalar de nímias flamas, uma combustão. Olhei em desespero para Lorrt. Não doía, entretanto, assustava de modo terrível. E queimava... eu sentia o fogo no meu cerne.
— Não... não... ajuda-me Lorrt... eu não quero ir... deixe-me ficar aqui... deixe-me te ouvir... — Segurei no casaco negro que Lorrt vestia, pois no impacto da súbita combustão, abaixei-me de horror apavorante. Lorrt segurou minhas mãos, sua feição era de profundo tormento.
— Áurea!!! — Ele clamou por mim... Abraçou meu corpo e sentiu o fogo queimar sua tez. Gemeu de dor repentina e, por instinto, se afastou...
— Não... não... por favor... Lorrt... — Foram minhas últimas palavras...
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…