Ela
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.
Quase nada. Apenas você.
A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.
Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.
Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.
Foi quando eu o vi.
Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.
Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.
Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.
Ele acelerou o passo.
Eu também.
Não vou descrever o que fiz com ele.
Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.
Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.
Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.
Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.
— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.
Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.
Eu o matei.
Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.
Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.
Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.
Matei por você.
Já nem sei quanto tempo passou.
Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.
Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.
Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.
Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.
A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.
A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
O Arvoredo
O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia, brilhante; quando a brisa vespertina tocava as águas cristalinas se assemelhava à prata. Pedras e galhos se espalhavam pela grama verde e caliginosa. Sob o lado esquerdo do riacho, um grande carvalho antigo exibia seus galhos robustos e vibrantes ao vento, sua casca era envelhecida, mostrando sua imponência em comparação aos outros.
Ali, era o santuário das jovens dríades amantes da natureza. Beladona, em especial, costumava visitar o carvalho antigo e sentar-se por longos períodos para observar o pôr do sol e o fim da tarde. Um dia, ao fim de uma tarde gélida, ela se recostou com languidez sobre o carvalho, com delicadeza, tocou a grama entre as raízes, enquanto observava a esfera solar descendo no horizonte. Seus olhos cor de mel estavam fixos no céu enquanto as folhas presas em seus cabelos dançavam junto aos fios de cobre cacheados.
Ela suspirou pesadamente, pensando se encontraria novamente aquela que seu coração tanto almejava encontrar. Quando estava perdida em seus pensamentos, uma doce e ébria voz alcançou seus ouvidos. Era ela — a dríade de cabelos brancos e olhos dourados como a esfera solar. As duas se entreolharam e um sorriso íntimo surgiu no rosto de Beladona. A outra estava de pé, aproximando-se dela, demonstrando uma expressão ávida e contente, mesmo com o olhar melancólico e usual que ela tinha, era como uma deusa da floresta em seu caminhar tranquilo, banhada pela luz amarela do entardecer.
Beladona convidou-a para se sentar ao seu lado, o que ela aceitou alegremente, mexendo nos cabelos brancos, bem perto do ouvido dela a jovem disse, sussurrando, que sentira saudade. Beladona respondeu sorrindo, dizendo que também tinha sentido falta dela e pronunciou seu nome baixinho: Astrid. O sol finalmente se pôs, deixando o ambiente acinzentado para trás, com um último lampejo avermelhado entre as nuvens. Diante da leve escuridão que se instaurou no arvoredo, aos poucos as duas se entrelaçaram. Beladona acariciou os cabelos brancos da outra com os dedos, elas se aproximaram ainda mais, selando um beijo apaixonado. A dríade de pele escura e cabelos brancos avançou aos poucos, os beijos cada vez mais intensos e apaixonados.
A respiração de Beladona estava acelerada sentindo o toque dela quando suas mãos desceram aos poucos pelo seu corpo, tocando carinhosamente seus seios e descendo cada vez mais as carícias, vagarosamente mudou de posição aproximando a boca do pescoço dela permitindo que a língua roçasse em sua pele causando-lhe um arrepio vibrante.
Com os lábios trêmulos e as pernas entrelaçadas entre as raízes sagradas, Beladona sentiu a boca da amante descer por seu colo com devoção. Havia entrega, mas também reverência. A língua dela desenhava trilhas lentas e úmidas sobre a pele, descendo lentamente até o ventre — naquele ponto já desnudo — de Beladona, e a brisa noturna entrava no corpo das duas, causando uma breve sensação de frio ao toque que se desmanchava a cada movimento ardente entre elas.
Recostada ao tronco, Beladona envolveu o pescoço de Astrid com os braços, entrelaçando as pernas ao redor de sua cintura com leveza. Seus corpos se uniram como se florescessem juntas acima de uma flor de lótus. Astrid, com a lentidão de um rito antigo, ergueu o fino vestido de Beladona — cor de folhas secas ao fim do outono, deslizando o tecido por sua coxa exposta. Ao toque, Beladona arfou, um suspiro úmido escapando por entre os lábios entreabertos. As duas se beijaram com doçura faminta, línguas se tocando como se reconhecessem o caminho de cada íntimo desejo.
Os dedos quentes e reverentes de Astrid adentraram os véus de tecido, ultrapassando o limite entre o desejo contido e a entrega. Por dentro dos vestidos, os toques se tornaram mais intensos, mais profundos, e os gemidos, entrecortados e sôfregos, ecoaram entre os galhos. Era amor, era fome, era devoção. Na fusão de suas respirações, os dedos de ambas encontraram o âmago uma da outra. Ali, sob a sombra das árvores e o brilho distante da lua cheia que nascia no céu, o desejo tomou forma e o tempo se dissolveu.
Tomada pelo êxtase, Beladona segurou o corpo de Astrid com ternura firme, erguendo os braços dela com um sorriso cínico. Removeu-lhe o vestido com reverência e, em seguida, despiu-se por completo, libertando a pele de suas amarras de tecido.
Despida, deitou Astrid suavemente sobre a grama fria, sentindo o contraste entre o frescor do chão e o ardor que irradiava de seus corpos. Ajoelhada entre as pernas de Astrid, Beladona inclinou-se com desejo, sua boca descendo com lentidão até encontrar o centro úmido de prazer da amante. Com os joelhos de Astrid apoiados em seus ombros, ela iniciou um movimento delicado e rítmico com a língua, traçando círculos, sentindo em sua boca um sabor semelhante ao que o vinho seco deixa na boca após descer pela garganta.
Os gemidos de Astrid ecoaram entre as copas altas, entrecortados, sôfregos e encantados. Beladona se deliciava com o som e o sabor — era como provar o orvalho que nasce nas folhas ao sereno. Cada reação da outra fazia seu próprio corpo tremer, e o prazer que brotava entre elas parecia impactar também o solo, as árvores e a noite.
Quando os corpos enfim cessaram seus movimentos febris, restaram apenas os sussurros, abafados pela brisa e o som do riacho correndo ao lado. As duas permaneceram despidas, unidas ainda pelo calor, pele com pele, desfrutando da companhia carinhosa e amorosa uma da outra.
Beladona repousou a cabeça sobre o peito de Astrid, ouvindo o coração da amada pulsar em ritmo lento. Os dedos de Astrid se enredavam nos cachos ruivos de Beladona ainda úmidos de suor, enquanto suas bocas não diziam mais nada, não havia mais palavras, apenas silêncio e pertencimento.
Acima delas, o céu se abria em tons profundos, salpicado de estrelas. A lua cheia, já alta, lançava um reflexo pálido e prateado sobre as águas do riacho. As duas dríades contemplaram a cena em quietude, como se o mundo houvesse parado por um instante apenas para que existisse aquele amor. E ali, sob a proteção dos carvalhos e da noite, seus corpos entrelaçados repousaram até o amanhecer.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Casa dos Quatro
Tinha uma bruxa na lua... | Eu sei, | Eu vi. | Subia, ao fim da rua, num ruído verdejante de poeira... poeira de livro velho. | Pó de cravo, sálvia do inverno…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Outro inverno, outro dia no inferno, outro nascer de fraco sol. Dói, Maria, a víscera dessa saudade... Apague o fogo! Abafe o chá; aonde vai, pai? Não é hora de ir descansar?... leve flor pra Elizabeth. Ao menos leve flor. Onde anda o passarinho?... Onde anda o meu amor?! “Dorme num canto de estrada, morto e mal enterrado...” – Cala-te, sombra maldita! Criatura nojenta que se esgueira... Oh, e Aninha? Já banhou? Pois vá! Tire essa lama velha do cabelo. Penteie a menina; já comeste a tangerina? A chuva... a chuva há de chegar.
Aonde vai, Pai? Mal voltou... puseste a flor de Beth? Leve, agora, a de Maria. Ora, onde foi Marta? Sem ela a casa para... onde foi a aurora?
Morreste o céu do dia?... Amanhã, lava amanhã a roupa e o chão da casa. Bater bolo, no canto açucarado da cozinha, pra dormir de bucho alegre. Pro dia surgir novo. Volta ele, morno em cachaça. Fecha a porta. Aquele outro vagabundo não vem. Hoje não... que fechem, com ele dentro, as portas do bar; amanhã o bolo espera.
- E tu, menina, comeste tangerina?
- Comi não, Marta. Aonde foi?... Por que demorou pra voltar?
- Fui porque ainda não brota a comida no chão da casa, mas diga, por que chora? Sei que chora. Não tenhas tu a esperteza de me enganar.
- Nada... nada. Outro dia frio; tô cansada do inverno. Tô é sendo boba, nem tem por que chorar. – Há a vida de banhar de sol esse pinheiro, tão mirrado. Há de corar a bochecha do dia... há de brotar a begônia num outro luar.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Ladrinha de Retrato
Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia!…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Abria os relicários das casas em que entrava, remexia fotografias e roubava pedaços de carta. Amaria tanto o mar... e quão bela era a Macedônia! Morria de medo do altar, e ria à virgem, medonha, sempre em vigília no canto do corredor. Morria de medo de alma, corria do escuro à cama e cobria-se de lençol. Lascivo horror...
“Menina travessa, menina ruim!”
Quebrara outra louça de herança... e como lhe odiaria sua avó! Se ao menos conhecesse...
Fervilha a noite, mexe com ela o demônio da indignação... Cansada de ser menina velha, cansada de ser trapo. Miserável e, ainda assim, vestida em tecido de qualidade, pendurada, todo dia, num urso pardo. De pano, é claro!
— Não quero, não, senhor. Tenho medo de ir pro inferno — E deságua a cachoeira, volta de sapato sujo, vestidinho ensopado. Crueldade com a empregada, “menina ruim, criatura da minha raiva.”
Vigia, vigia a janela, Emilinha, que é pra nenhum bicho entrar; vêm lhe buscar, vêm comer os vestidos e rasgar as novelas. Vêm-te punir, pois tu és melindrosa! Vêm buscar-te a alma.
E corria, outra vez, pra debaixo do lençol.
“É a última vez que roubo retrato! É a última, senhor!”
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Asas nos pés da fugitiva
Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus!…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Se opuseram, senhora.”
Vestiu-se, apressada, do manto grosseiro rumo ao ôco do inverno. Cavalarias, praguejos, convites de funeral… o inferno a incendiar os céus! “Era tão jovem… era tão belo…” Retirou do armário quatro ou cinco frascos da valeriana, dois de olíbano e um da mais búlgara rosa. Lavandas, folhas em branco, água de laranjeira; velas que, segundo bisbilhoteiros transeuntes, eram feitas de gordura humana e ambarada. Mais livros que roupa, arames no fecho das bolsas, estatuetas de Héstia; colares de rubi; três ou quatro casacos.
“Basta!”
Tudo tinha. E nada deixava a ser encontrado. “Dê tudo às meninas do cais, distribua entre suas amigas. Fique com o que quiser, também.” ternamente, agradecia-a com olhos e pulseiras de brilhante que, àquela altura, já não lhe traziam serventia. Partia, rumo à terra dos exilados. “Bruxa maldosa”, “fera fugida do submundo”, a “eterna mal-amada”, repetiam. Esperavam-na na praça, os vendedores e as costureiras, políticos e patrícias, todos para assistir ao rolar daquela cabeça, toda feita da ventania. E tanto queriam ver, num sopapo de lâmina, o cabelo voar… quão deliciosamente odiavam… e seguiam, a praguejar.
“Sem direito a defesa, por escolha do conselho.” Queriam a cabeça, o pescoço e toda a honra que um dia tivera. “Maldita seja!” gritava um ou outro, e muitos eram os nomes que recebia. Pouco se importava que falassem os amigos da família, as mulheres que sempre tivera de cumprimentar, o marido de sabe-se lá quem... Bem sabia que o conselho era pago para pensar. “Não há oráculo, não tem sabedoria nesses velhos, que raio de substância compõe este conselho, afinal?!”
“É a ordem, querida. É como funciona a vida.”
Na escrivaninha, o fumo que não terminaria, cartas que não seriam entregues e a procuração, em horrendo estrelismo ao centro da mesa. “A quem tentam enganar?... Com que balança pesam a escolha da vida e da morte? Como conseguem enfiar o peso de oitocentos cavalos numa decisão?... Sem direito à defesa. Como bicho.” e certo é que bicho se sentia. Rangia os dentes e dizia-se — fitando no espelho o amargo dos olhos — que seria sua, a vida. Não mais de um homem! Não mais do amor. Seria sua!
— Dois soldados passaram na rua da frente… mais trinta ou quarenta minutos até que passem novamente.
E aprontava, a si e às malas. “Não precisaria fugir se não o tivesse matado… não o mataria se não tivesse tentado matar-me primeiro.” E seguia, desnaturada. Caminhante vulcão, deserdada por Hera, terrivelmente distanciada de tudo aquilo que era. De tudo que existia até o último mês.
Dizia a carta que claras são as leis. A envenenadora deveria vir a público e enfrentar o peso da justiça. Matara Mateo, afinal! Como justificaria a crueldade infeliz de assassinar o único filho do procurador? Como explicaria à pobre mãe o porquê de impor, a seu doce menino, tamanha dor? Vomitara parte das vísceras, eles sabem. Ah, amargo cianeto… alega a menina que ouviu, somente, o conselho de uma bruxa mesopotâmica que passava. “A tudo se dá, a todos escuta!”, dizia o procurador ao investigador principal.
Mais falaria se soubesse, mais falaria, se conhecesse, à peça. Cantava com lamúria profunda, “voz de enterro”, repetiam os vizinhos; chamava a chuva sempre que queria empatar o andar da cidade e nunca, nunca abaixava a cabeça aos generais que passavam. Agora, condenada… Condenada! Mas não havia de dar o gosto àqueles que criaram um monstro, alimentado com ambrosia e endossado sua desonestidade. Não havia de render espetáculo à deglutição funesta dessa gente ruim.
— Queime esta porcaria de procuração… diga a mamãe que eu parti.
— E se perguntar-me para onde?
— Conte o que sabe.
— Mas, Isolda, eu não sei para onde está indo!
— Exatamente, querida! Conte o que sabe.
Fugiria, viveria na Itália, escondendo-se num convento e fingindo rezar. Abençoaria, noite e dia, a vida que fica; soterrando com terra de jardim o amargo daquelas feridas. Vingaria a primavera daquela pele febril. “Dane-se Saturnália! Danem-se os parentes daquele mesquinho, dane-se a vida que tive na Grécia! Não existe mais Grécia para mim… perdoe-me, Athena, por não ser como as boas… Por não enfrentar a morte… perdoe-me…”
E num levantar de folhas, as árvores contavam — em pleno silêncio — que honra alguma há em sacrificar-se. Matara para viver, e viveria.
A tempestade rugia, feroz, em tortuosa melodia, lembrando-a, a todo instante, do sino e do lodo das rochas; fervia o leite e temperava de especiaria. Eruptiva garganta, estômago inflamado… morta por dentro, morta para esta terra e morta para eles; tão longe de ser compreendida… “apressa-te, menina, ou vai perder o barco!”
Bebia, hora ou outra, do frasco de lavanda francesa, fugindo do ópio dos ingleses. A tormenta vinha mansa, maldosa, no seio do sono. Inquieta passagem de estrelas, estranho burburinho dos viajantes que seguiam, tão pouco interessantes. Paralisava-se no remoer constante das raladuras de sua alma, outrora luminosa. Outrora feliz. E, por segundos, congelava em divagação, tornando por interrupção, “uma água, madame?”
Como doía a vida… quão ingrato era o amante que achara de ter… Velha prosa em desmantelo… torrente aguda que insistia em desaguar — queria não ter memória, e queria limpar-se daquele homem maldito, e, por horas, queria não mais ser gente... E sorria, em busca de confundir o enfado, no rumo da doce Itália. “Talvez uma fuga ou outra, talvez uma tarde na cidade...”
Manhãs em prosa com os panos de chão, túnicas a remendar, baldes cheirosos… comida quente; sabor algum, exceto nas noites de vinho — pouco e às escondidas —. E o pão… “deixa passar, Amália, deixa passar.” — Mais ainda fermentava. Comíamos, e quão bom era o estrago; deitar à luz do luar, procurando constelação e zombando das idiotices do passado. Todo mundo tinha história, todo mundo tinha alguma vergonha a contar. Morríamos de rir das de quedas, mais ainda das brigas por meninos e das tias, com seus romances clérigos. E a conversa sempre findava num quarto escuro, sob a sombra de um pai desprotetor, ou de um irmão malvado. E de tanto remendar os panos, aprendia a remendar a si e às outras, tão quanto, feridas.
“Paciência com o amargo das mais velhas… nunca se sabe o porquê de estarem aqui.” “Tantas não chegam pela fé, mas em fuga, dos outros ou de si.”
E perdoava a grosseria, a bronca, a piadela. Perdoava o que se podia perdoar. E dentre elas, a irmã Zélia, bruxa oculta e curandeira, a quem sempre recorria quando precisava chorar. “Reze em mim, irmã… mas reze com folha e flor…” e ela rezava. Amornava a água que, por dentro, fervia e espantava os miasmas com palavras d’outro lugar. “E que tua mãe te abençoe”, dizia a voz, de fumo e camélia.
E no descarrilho da noite, atormentava-lhe o fel da alma. “Por quanto tempo fingirá ser freira neste convento? Como viverá sem liberdade?” Perguntava-lhe a sombra esgueirosa que em toda parte se fazia presença — a voz do desprezo, entoada das cavernas de dentro. “Ao contrário.” respondia-lhe. E sabia, viveria Athena e o lago, viveria Artemis, as ninfas e os sátiros no véu de cada madrugada. “Aquosas são as formas da liberdade.”, repetia, e muito acreditava. Ficaria o tempo que precisasse. Pouco seria.
O tempo engolia, à farta colherada, a dor daquela que encontrou no amor a inominável deslealdade. A face que não se mostra; o avesso monstruoso. Pouca gente sabia que trazia, Mateo, feridas de lepra em seu caráter, e tão bem fingia que era bom... Tão bem forjava o amor… risonho, juvenil… carne macia e preenchida da vaidade mais vazia. Seguia, ela, lavando os panos. Mãozinhas embebidas de toda a culpa que não era sua. “deixa lavar, deixe que a água leve embora esse sofrer…” — E não mais questionava o curso dos rios. Não chorava pecado algum, e grande esforço fazia para não perder um único acordar daquele céu, de alaranjada explosão — algodão a abafar a melodia chorosa das iniquidades e da miséria escondida, num pequeno bolso de sua mala.
Acostumou-se às pedras — à memória, ao fantasma —. Embriagava-se de valeriana e plantava lavandas no canteiro lateral. O doce rapaz apodrecia, numa cova de família. Reinavam as flores, no solo acima, com beleza magistral.
Na Grécia, procuravam por Isolda. Na Itália, Leonora escrevia versos e cantava, com o ar que persistia nos pulmões. Cantava, para espantar toda maldade que, um dia, cruzou a estrada. Louvava à sorte, à ventania e ao coração.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O Céu das Alfazemas
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles.
Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome?
Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida.
Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–...
Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes.
Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar.
E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar.
O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Sepulte-me, Ana
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Prometeram,
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?!
Não há morte, não há honra, não há sono...
Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar.
Bate o peito, Ana...
Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou...
Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta.
É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar.
A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens.
Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada.
Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar.
Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar.
Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Delírio Azul
Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido aquele para a morte. Uma música triste pode tocar no interno dos meus ouvidos — aquela música que nós ouvimos aqui mesmo nesta pilastra onde estou sutilmente encostada.
A lua tem um tom cobalto ao seu redor e está imersa nas alturas, como se flutuasse num céu em tom marinho. As nuvens passeiam vagarosas e provocativas, me fazendo flutuar em pensamentos que são suficientes para que a primeira lágrima caia dos meus olhos.
Quando a minha lágrima cai, a doce e rouca voz sussurra em minha mente:
“Vês, estimada Nathállia, o céu azul. As nuvens passeiam claras e pacientes, enquanto a lua ilumina e nos encoraja a amar.”
Suspiro forte, ao ponto de sentir o meu vestido vitoriano apertando firme o meu busto. Por que não estás, Pierre? Por que não estás mais? A sua morte me dói, convidando-me, também, a fenecer com ele.
Lembro-me das manhãs em que ele me despertava da janela barroca do meu quarto, das tardes em que íamos tomar um banho de rio, escondidos, sem nunca nos tocarmos. E a noite? Era aqui mesmo onde admirávamos a tal lua. Lua maldita — me faz lembrar dele toda vez em que ela surge. Esse anil do luar é o que mais me mata. Anil é a cor que Pierre usava nos bailes onde valsamos por saudosos anos.
De tanto refletir na dor dessa perda, encosto a minha cabeça na pilastra e sento-me na baixa balaustrada, quando sinto em meu ombro a suave mão, a tão carinhosa mão... Será Pierre? Sorrio. Sorrio e olho para trás, mas é apenas a candura de Marta, que vem me recolher do grande pátio.
— Senhorita, precisa descansar. — Marta me acaricia o ombro, de maneira carinhosa. — Eu sinto em lhe dizer: O jovem Pierre não vem. Ele não vai voltar, senhorita.
Marta sabe que nas noites de lua sempre venho o esperar... sempre. Engulo seco e quando quase me conformo, a enfrento:
— Ele vai voltar, sim! Nem que eu precise morrer para encontrar-me com ele. Nem que eu finja que ele está aqui. Nem que eu sonhe com ele todas as noites. — Caminhamos até o meu quarto enquanto me perco no que eu digo. — Ele era o meu melhor amigo, ele era mais que um amigo, ele era...
— O seu amor, não era? — Pergunta sorrindo leve.
— Era não. É. Pierre É o meu amor! E sempre vai ser.
Deito-me, como a única alternativa.
— A senhorita não vai se trocar? Vestir um damanoute para dormir...
— Não quero. Eu quero dormir assim, do jeito que eu costumava ficar na presença dele.
Marta não diz mais nada. Pede licença e se retira do meu quarto. Do meu dossel, a maldita lua, a bendita lua, lumiando o meu quarto e me trazendo a sensação de estar sendo tocada por Pierre. Sim, eu o sinto. E posso ouvir a sua voz grave e serena agora.
“Estou aqui, minha estimada Nathállia. Eu sempre estarei aqui no gélido anoitecer e no azul do luar. Estarei vertendo em tua face, junto às tuas lágrimas azuis que vertem agora.”
Constato dois fatos: eu enlouqueci e consegui acessar o mundo do outro lado onde o meu eterno estimado está. O seu corpo é esbelto, forte e, vestido em trajes clássicas, ele me segura contra o seu torso, acarinhando-me a face e os cabelos. E o frio da noite nos faz ficarmos mui próximos e aquecidos, envoltos aos lençóis do meu espaçoso dossel.
ASelenoor que acontece na região é raro. E é isso que me conforta. Porque a noite é perpétua, bem como a lua tão anil que me proporciona o melhor delírio real com o meu Pierre, e que nunca mais irá se findar.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…