⚜ Vantanúrida: Parte 1
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos se abriram vagarosos e demorei a me acostumar com a luz que, esplendorosa, irradiava na clareira. A cálida lagoa que se abençoava da linha pálida-solar, refletia em suas águas a cintilância iridescente dos céus de Opallihan e das flores de mesmo matiz. Quando distingui as cores e feixes, de imediato avistei, fora da clareira, certo tipo de eletricidade rasgando o espaço. Iniciara de um ponto absoluto em vazio, pairando no ar e expandindo-se célere para todos os lados. A princípio: fascínio! Era de beleza extraordinária como os fúlmens nuvieanos, porém, atraía-me sem temor. Pouco depois, as faíscas deram espaço ao que eu compreendi como “outro lado”, mostrando-me frondosa e azúlea floresta cingida por soturno mistério. Eu sequer podia piscar, pois estonteante era a experiência.
Levantei-me atenta, jamais vi algo tão extravagante. A eletricidade espargia sonidos, estalos e faíscas lívidas que se contorciam n’uma distorção atemporal. Andando envolta de tal “rasgo” — e somente d’esta maneira eu poderia apreendê-lo — nada havia além de sua existência possuída de duas únicas dimensões; símil a uma porta sem espessura. O turvo arvoredo azulescido estava dentro da fissura — embora fosse incabível haver intradimensão. Ousei aproximar-me, pois, ponderei tratar-se de algo deífico ou tão somente sonho de expressão lúcida causado pelo tempo de exposição ao perfume de lanuvenis. “No universo onírico, todo o horror é miragem e todo o enlevo é recordação.” — diz um antigo ditado.
Estendi minhas mãos; certa densidade opressiva as arrastara ao interior do fenômeno e a eletricidade nívea-faiscante alargou-se violenta. Assustei-me no rompante, clamei socorro. Um zumbido pujante e súbito ensurdeceu-me e, por mais insistente que eu fosse em apartar-me daquilo, minha força era ínfima perante o tragar da manifestação. Vi Saphihria aproximar-se, decerto ouvira meu chamar condoído, entretanto, a luz iridescente rarefez-se até pratear-se e... findar... antes que eu pudesse pronunciar quaisquer sílabas de alívio por encontrar minha irmã. A linha pálida-solar alterou-se ao breu amedrontador; descargas contínuas de energia contorceram-me o corpo, causaram-me dores exorbitantes nas veias e artérias — assim assimilei, nítido e legítimo, mesmo sendo tão breve e repentino.
Fui tragada para o cerne do fenômeno, caí d’outro lado — um outro lado de inominável conceber. Envolvi-me em terror que me trouxera hediondo abalo existencial e físico. Por átimos esperei despertar do pesadelo, mas quando senti exalar fragrâncias amarescentes... tão coercitivas... e respirei um ar de algidez inenarrável, ali compreendi que não se tratava de inócua ilusão.
Jamais cogitei sentir pavor — emoção residente tão só em lôbregas histórias sobre a lua noctígera —, entretanto, o sentimento expressou-se em meu espírito com ferocidade suficiente para fragmentar-me o equilíbrio; e apossou-se de mim, pois não havia retorno. E não havia retorno, pois o que vi... a eletricidade de beleza insondável que desejei demasiado tratar-se do contato de Deusas Iridescentes... infelizmente era uma grave, e lídima, armadilha. Desfez-se em sua centelha, a energia em lampejo, e tudo o que restou era azul-escuro e penumbra, e o arvoredo sombrífero, e os estranhos sons de naturezas hostis e... aquele céu vantanegro...
Eu estava ali, sem direções. Prensei minhas pálpebras. “Acorde, Írides!” — sussurrei ininterrupta por infindável duração e, somente quando toda a adrenalina se dissolveu em lágrimas, ousei abrir meus olhos. A primeva imagem — embaçada por gotículas salinas — fora de minha pele que, sob a escuridão intolerável, perdera seu tom castanho-profundo e tornara-se parte indissociável do breu azúleo — entretanto, de alguma estranha forma, produzia ou cintilava pontos douradiços. Senti-me instigada a fitar a floresta, por questões íntimas à sobrevivência e ao conhecimento de um devir indistinto, porém, havia aquele céu amedrontador... receei pela possibilidade de erguer minhas retinas a ele ao me deslumbrar, ou me estarrecer, com o que habitava sob ele.
Era preciso coragem e eu a desenterrei do jazigo de meu horror.
Ao derredor, tons de bronze-áureo esplendoravam em plantas, flores e insetos alados; por causa disso, minha tez lumiava naquele matiz como pelo reflexo desta fauna e flora, além do anil difuso que parecia penetrar os poros e invadir o ser. Levantei-me aturdida e notei que me encolhia sobre relva mediana e frígida — gélida como nunca senti. Respirei fundo. Em silêncio busquei em mim a paz iridescente das pérolas lunares e observei tudo, menos o céu vantanegro — e confesso que sua presença me oprimia. A imensurável pupila celeste era o terror mais insuportável já idealizado — antes fábula... e, de repente, concreta sobre mim...
A linha pálida-solar fenecera; o portal elétrico fechara-se. Nenhum orvalho bendizia a floresta e a única fonte de iridescência vinha de minha memória, protegida no meu coração. A pulsante vida lucífera de Opallihan — agora reminiscência — era guia dos meus sentidos diante do anseio de reencontrá-la, por isso restitui a fé; meus passos se iniciaram contidos, e andei mesmo sem Norte ou Sul. “Não... não estou só... elas me resgatarão... Deusas criadoras do cosmo plenicores... clamo a vós... que esta azulínea natureza insólita tenha senciência... e me devolva ao meu lar... Restitua, eu rogo, o pleniluzir dos céus... amanhã e para sempre... afasta-me d’horror d’esta pupila e do agouro que a precede...” — rezei, murmurante.
— Afasssta-me... d’horror d’essssta... pupila.... — ouvi sussurrarem...
Terrifiquei-me, tão próxima ao estupor catatônico. Um altar de árvores frondosas, nada além disso vinha ao encontro de minha visão.
— Agouro... agouro que precede... — espargira outro sussurro, agudo e distorcido.
— Q-quem me replica? Mostra-se! Mostra-se de uma vez! — bradei como pude, a voz ainda embargada pelo pânico ensandecido.
— Mossstra-se... mosssstra-se... — Horrifiquei-me ao ouvir e, apressada em abrigar-me de tamanha perturbação, fui desbravando a selva azulescida em trevas, gritando aos prantos lacrimais: “Vá embora! Afasta-te de mim!” — Até a fadiga obrigar-me à pausa, e a respiração ofegante calar-me.
Sozinha... exausta... afogada...
E então, um rosto longínquo... vários deles... todos calcificados... eu vi... dentre arbustos frondejantes... eles observavam-me em expressão de espanto e de seus orifícios oculares ocos e das bocas ovais vertia sangue vívido em tom escarlate intenso. Todos eles... inclinados... iníquos... sussurravam minhas palavras em uníssono. Meu cérebro pulsou em opressão irrefletida; era símil a dores pontiagudas, entretanto, carregava densidade agônica vinda da inconcebível constituição que possuía tais plantíferas criaturas.
Só podia ser pesadelo... inaceitável que o terrífico pudesse existir com grandiosa perfeição tangível... soterrando-me em suas vísceras bestiais... era inadmissível...
N’um surto de suplício atormentador, fitei a imensidão acima em sua pupila eterna, o vantanegro dos horrores mais martirizantes. Caí de joelhos na relva, sem afastar minhas retinas do betume celeste. “Por favor...” — roguei em lamúrias, contudo, os sussurros impediam-me de ouvir minha própria voz e meu pedido direcionava-se ao meu maior temor, pois, seu poder era o único capaz — e eu intuía essa verdade — de me amparar; ainda que fenecer em seu pélago infindável fosse a única saída.
E ele era... terrificamente belo...
A escuridão... a pupila dilatada no infinito...
Meu medo perturbador tornou-se atônito êxtase e, de repente... a quietude circundou-me. O breu desmesurado, insondável... como um manto parecera descer sobre mim. Eu o senti... e todo o arvoredo tornou-se silhueta... todo o anil atrovioleara... os fulvos lumes dealvaram... e o céu obsidiano — insigne... magnânimo... — olhou-me de volta, alcançando a profundez de minha alma irisada...
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Glossário da autora:
Atroviolear: Tornar roxo-escuro.
Azulíneo, Azulescer, Azúleo, Azulear: De cor azul. Tornar azul. Azular.
Douradiço: Que possui cor dourada.
Esplendorar: Fazer brilhar. Resplandecer.
Intradimensão: Espaço tridimensional no interior de alguma coisa bidimensional.
Plantífero: Relativo a plantas. Corpo vegetal. Que possui características de plantas.
Plenicor: Iridescente. Todas as cores. Furta-cor.
Pleniluzir: Luz intensa espargida. Esplendor. Plena luz.
Vantanegro: Uma adaptação de “vantablack”. Vantablack é uma substância feita de nanotubos de carbono. É a substância mais preta conhecida, absorvendo até 99,965% de radiação.
Vantanúrida
A ínfima compreensão impossibilita-me de descrever o escuro perpétuo; esta matéria enegrecida envolvendo os céus que outrora foram puro esplendor iridescente. Nunca vi tal opressivo e misterioso poder... é como pupila de insondável dimensão que observa, perfurante, minh'alma através de meu absorto olhar. Chamam-na de Noite..., e eu a sinto vantanúrida em meu ser... » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
⚜ Pálida Seda: Parte 1
Um mórbido crocitar grotesco rompera minha plácida solidão. Meu torso fora tomado por súbita gelidez e espargia-se, no mesmo instante, um tipo de som em baixa…
Capítulo I:
Retorne à tua matriz, besta pervurme¹!
Jamais vi coisa atroz como este horror!
E como a Trama ousara te compor?
Afronta à Vida! Monstro de chorume!
Um mórbido crocitar grotesco rompera minha plácida solidão. Meu torso fora tomado por súbita gelidez e espargia-se, no mesmo instante, certo tipo de som em baixa frequência como zumbido contínuo. Segurei minha adaga — foi meu único movimento possível. Um violino ríspido ressoou sobre o zunido; minha tez arrepiara-se e meu sangue, pálido e álgido, tornara esquálido, quase translúcido, meu semblante atormentado.
De repente, eu já estava na Trama. Olhei para os lados, em desespero. Buscava, respirando ofegante, a seda de sangue dentre o emaranhado — ela sempre estava lá, gotejando, agonizando aquele que, perdido, clamava por libertação. Entretanto, ser algum se desvelava e carmim algum salientava-se na imensidão de palor. Tão só lamentava em meu cerne a única, e medonha, sensação: eu estava sendo observada.
Célere, entornou sobre mim um odor pútrido de morte. Senti-me sufocada. Elevei meu olhar: sedas de betume vibravam. Incontáveis. Gotejando gosma preta pegajosa e fétida. Quando vi, todo o zumbido fez silêncio. Oco e mefítico silêncio. Sussurros emergiram no ouvido esquerdo, murmúrios esfuziaram no ouvido direito. Respiração. Medo. Dali, daquelas artérias negras oscilantes, uma criatura terrífica se fez vista, avançando rapidamente sobre mim. Ela tinha corpo humanoide; todavia, seu rosto era feito de carne viva e exibia só única e imensa cavidade bucal com incontáveis presas retorcidas. Pústulas marcavam-lhe todo o corpo esguio, e suas centenas de membros pareciam-me um amálgama deplorável de tendões com decomposto tecido adiposo.
Almejei a fuga imediata, mas não há como correr quando se é sorvida pela Trama. Alcei minha adaga e amputei a primeira seda de piche. A criatura grunhiu como um porco do mais profundo inferno. Meus tímpanos sentiram dor agônica. Rescindi outra seda feita de pez repugnante — evidentemente eram sedas contaminadas, decerto pertenciam a outros seres; porém, nada havia a ser feito senão rompê-las, e era preciso extrema velocidade, pois se alastravam em minha direção.
Voltei-me à criatura, resistindo ao betume obstinado a extrair-me de minha seda vital; contudo, antes que eu fosse amargamente tragada por aquela morbígera besta, visualizei a distensa seda vital que a pertencia. E esse era o momento mais importante; eu acabaria com aquilo.
Avancei sob o açoite de um pavor ancestral, desviando-me da criatura, e toquei a sua seda vital como se dedilhasse harpa sublime, fazendo-a vibrar em oitavas profundas, fortificando-a. A seda, longíssima linha perfeitamente tecida, reluzira de imediato em lume argênteo que fustigava a nívea neblina da Trama, engrossando-se em vestal luminura. Era magnífico e ressonante. Rasguei, abrupta, mais três sedas corrompidas pelo invólucro de enegrecido muco, elas vieram, sorrateiras, me coagir enquanto eu tocava a seda vital da besta. A coisa esbravejava a cada corte e todos eles liberavam irroração negra que fedia a vísceras expostas.
Isso foi o bastante, dando-lhe a libertação final. A abominação nefanda, entretanto, ainda logrou um último fôlego de malícia: rasgou-me o vestido com suas presas aduncas, sulcando a derme em rasgo obsceno que expunha a alvura das costelas; o fluido vital borbulhou com escuma negrume, violentando a palidez do meu sangue com estigma de dor lancinante; mas, no instante seguinte, a besta foi chicoteada para longe, tragada pela força da sua própria seda vital, retesada e fortificada pelo meu toque. Ao destruir os fios de betume que mantinham a criatura na Trama, a seda vital pôde puxá-la de volta ao lugar que a pertencia, semelhante ao mecanismo de estilingue.
A Trama desvaneceu-se em estalido seco, como vidro quebrado. Vi dissipar-se a sua pálida névoa. A quietude natural de sua constituição, por fim, pousou-me de volta à minha morada. Encontrei-me turva no silêncio, sentada à mesma mesa de outrora; o vapor do quente chá de pétalas de Vaeöllen ainda se rarefazia preguiçoso à minha frente, ignorante ao horror que me precedera. Contudo, o tremor em minhas mãos não era ilusório: o vestido rasgado, a dor pungente do corte na costela; e a substância estígia, apodrecida, que ainda sibilava estridulante sobre a lâmina da minha adaga — eram estas as inequívocas e atrozes provas de que a Trama demandava minha proteção, e de que este meu fado, irrevogável, exigir-me-ia dedicação perpétua, ainda que ao custo de minha própria vida.
Glossário da autora:
¹Pervurme: de caráter asqueroso, perverso, repugnante. Palavras inspiradas: perversão, verme, vurmo.
Pálida Seda
A Trama é a verdade por detrás da interface: um emaranhado de seda pálida que vincula tudo o que existe à algo de insondável nomear. Nuhria Scehlartt nasceu destinada a proteger este âmago da realidade e esteve sempre consciente de sua missão, ainda que não tivesse total compreensão de seu significado. Após ser tragada por um imenso coração de intrusiva seda negrume e escarlate — as mesmas que continuamente Nuhria destrói para proteger a Trama, indagações e medos passam a afetá-la, impedindo-a de seguir o seu destino e forçando-a a ultrapassar seus limites. Um enredo de terror, horror, drama, melancolia e poder, do mesmo universo de "Histórias de Sihren" e "As Crônicas do Castelo Drácula". » Leia todos os capítulos (em breve).
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;