Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Aurollie está morta. Seu corpo esguio e pele seca, com rachaduras infindas que desvelam seu esqueleto putrefato; assim está, sob a luz d’uma noite cuja bioluminescência — reluzente, porém dessaturada — paira no denso e gélido ar. Aurollie está morta, pois lhe roubaram o coração pulsante — e não era pretendido lhe devolver. O sangue dela é negrume, vertendo de seus olhos sem esclera. No peito, como se pode prever: o vazio — orifício de entranhas, sem vestígios cardíacos. Aurollie está morta.

Enquanto seus mórbidos passos se arrastavam no jardim, deixava seu rastro de piche. Do que era feito? Não se sabe. Sangue ou seiva, chorume talvez — tinha odor de dama-da-noite. E o longo vestido, úmido, cor de escuridão-azúlea, estava ornado com ouro-bronze lapidado em acúleos, como o caule seco d’uma rosa rubra. E, em seu pescoço, uma jóia do mesmo material; igualmente lapidada em adornos pontiagudos, parecia segurar seu crânio sobre o pescoço franzino. Era de beleza núrida e terrível.

A lágrima negra morria em seus lábios profundamente violáceos. Um pranto imortal, merencório como a chuva gris no entardecer nublado e silencioso; podia ser ouvido se a ele alguém ousasse dedicar atenção — era quase inaudível e sempre rarefeito. Um violino morto, assim era Aurollie — violino apodrecido, tomado por fungos negros filamentosos, e capaz de produzir uma única melodia de soturnidade e desconsolo. “Cante, Aurollie, cante tua desolação”.

Ela vivia n’aquele jardim desde que saíra da cova abíssica, cavada às pressas por seu algoz. Nenhuma lápide havia para proteger seu epitáfio — o sepulcro era lar de ausência, sobretudo de solidão. Aurollie se lembrava de toda a dor — e dos olhos demoníacos que rasgaram sua tez de porcelana, chegando ao peito, arrancando-lhe o órgão vital. Entretanto, esquecera-se de que, na gaiola torácica, o pulsar resistiu invisível, pois na lôbrega noite seguinte, suas unhas cavaram à superfície.

Construíra um mausoléu para si — feito de vísceras de árvores mortas. Era preciso proteger-se do lume da vida e daqueles que o possuíam. O perigo respirava, tinha vitalidade e fé. Enquanto o tempo se exauria, a escuridão era a única disposta a escudar Aurollie — e a conduzi-la na valsa lamentosa de sua alma desgraçada. Quando podia, especialmente em luas sombrosas, cantava Aurollie; ela cantava sua desolação. Somente o Corvo a ouvia, e era ele quem dizia: “Cante, Aurollie, cante tua desolação”.

O Corvo a amava e seu amor putrefazia pétalas, emurchecia perenifólias, decompunha viridários. Outrora humano, teve seu coração navalhado... e eram tantos os cortes, e tão símeis aos mais insondáveis precipícios... parar de pulsar era preciso, por amor a si. N’um último suspiro, a promessa silente nascera em seu peito lacrimante: “Que agora eu voe como um pássaro livre, tal como nunca pude ser n’este mundo”. Retornara à vida n’outro dia, porém vinculado à noite lúgubre, amante incompreensível do mistério: Corvo negro, fadado à misantropia.

Aurollie estava morta e o Corvo a amava.

Dotado de um coração ferido, o Corvo dedicava-se à contemplação da melancolia de Aurollie — cello de agonia, plangor como cântico de inenarrável beleza. Almejava aproximar-se, entretanto, manifestações puras de sua inefável paixão putrefaziam pétalas, emurcheciam perenifólias e decompunham viridários. O Corvo a amava, porém detinha temor mórbido de causar-lhe o mesmo fim que causava, à flora, o seu amor. Por isso, dócil e inquieto, observava os passos de Aurollie — tão somente a contemplação. “Cante...” — proferia. A melancolia esquálida de Aurollie, entretanto, não lhe permitia ouvir aquilo que não fosse seu próprio lamento.

Certa lânguida noite, saíra Aurollie de seu perpétuo mausoléu. O Corvo, adormecido n’uma profundez digna dos mais extraordinários sonhos, sequer a notou. O negrume seco curvado no semblante dela provava à Ínsula da Morte que, n’aquela sôfrega madrugada, Aurollie não chorou. Seus olhos, tâmaras negras, fitavam o derredor — perscrutavam a origem dos batimentos lôbregos, tão longínquos, que alcançavam seus ouvidos tristemente — vívidos em esperança. Seguiu o exíguo som, em lentidão. E vinha do coração navalhado do Corvo. Aurollie pôs seu ouvido sobre o peito do pássaro — ela o sentiu, e o pulsar fez-se a Opus Nocturne nº 20 em Dó Sustenido Menor.

Notas lentas de introspecção, uma por uma, eram símeis às batidas cardíacas do Corvo. Moroso e enternecedor. Arfar musical e soturno. E quando ele abre seus pequenos olhos, ele a vê. Tão próxima. Seu perfume de dama-da-noite. A frialdade quente da sua tez. O ritmo do opus acelera, de repente n’uma alegria imersa em tristura; a euforia sorumbática elevando-lhe o ritmo em seu peito. O Corvo amava Aurollie e soube, naquele átimo, que lhe daria seu coração.

Aurollie sentiu o pássaro mover-se, mirou-o com admiração e afeto. Acarinhou-o nas penas e sorriu — como jamais sorrira. Todas as flores que os cingiam n’aquele venusto jardim, com célere horror, deterioraram-se. Úlceras perenes irreversíveis, ressequidas e mortas. O Corvo entrou em pavor inominável — tão grande era seu amor, tão intenso, tão insondável; não poderia controlá-lo e, portanto, como poderia protegê-la? Mas Aurollie sorria.

E o Corvo a viu. Tão bela como as manhãs de verão. Olhos âmbar-esmeraldinos. Bochechas coradas, pele de lume dourado. Mãos estendidas em sua direção: “Vem!” — elas diziam. O amor do Corvo putrefazia pétalas, emurchecia perenifólias, decompunha viridários e... dava sentido a Aurollie — e sentido é vida e vida é começar outra vez.

Aurollie estava viva e o Corvo a amava.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar.

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