Dois Sóis
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis.
Agarro-me a uma cansada luneta, ansiando ver o despir do espaço. A ferrugem descortina os meus sonhos, enquanto atravesso a senda galopando com meu cavalo biônico. Sobrevivente, astuto, de uma recém tempestade.
Enquanto isso, locomotivas nos agridem com a verdade de que a efemeridade não é exclusiva das rosas. Preciso, portanto, alertar a Camarilha, aos meus irmãos em sangue, de que os imortais também possuem prazo de validade.
Tudo graças a uma criatura que ousou brincar girando, insistentemente, a roleta do tempo. Preciso dar um jeito, pois nutro uma afetividade pela vida que me escorre entre os dedos como areia cósmica.
Os dois sois refletem-se em meus olhos vítreos enquanto contemplo o horizonte partido. É na confluência destes astros que percebo o quanto somos transitórios — até mesmo nós, os que bebemos da taça da eternidade.
A Camarilha não aceitará facilmente este prenúncio. Seremos perseguidos como heresias ambulantes, portadores de um evangelho que ninguém deseja ouvir. Mas a verdade é implacável.
Meu cavalo biônico relinchou três vezes quando avistou o fenômeno. Seria ele mais sensível que seus mestres? Talvez os mecanismos artificiais compreendam melhor as engrenagens do universo do que nós, presos à ilusão de nossa imortalidade.
Sigo adiante, com a luneta pendente do pescoço e o peso da revelação nas costas. Dois sois. Dois destinos. Uma única e irrefutável sentença: até os imortais são feitos de tempo.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Pergaminhos esfumaçados
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, | Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, | corações de cogs, reluzindo em pressa, |
pulsam mecânicos num tempo quebrado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Nos ermos turvos, sob a névoa espessa,
Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado,
corações de cogs, reluzindo em pressa,
pulsam mecânicos num tempo quebrado.
Óleo e fuligem tingem a alvorada,
Zepelins vagam por céus cor de chumbo,
na ruína que ao mundo foi dada,
heroína avança em um rastro profundo.
prateados fios caem sobre o aço,
sua cauda felina rasga a tormenta,
buscai o grimório do arcano nefasto,
A magia milenar que o tempo fomenta.
os homens são máquinas de fria ilusão,
ela é o sussurro da última oração.
escombros de ferro, urde-se a lenda,
entre válvulas rotas e estalidos vis,
heroína avança, garras em contenda,
sangrando entre sombras de fumos febris.
No peito dos homens, cogs reluzentes,
girando em delírios de cobre e vapor,
são máquinas mortas, de sonhos ausentes,
moldadas em fardos de graxa e torpor,
sob as ruínas de Londres caída,
câmara oculta de um templo profano,
Grimório pulsava – em runas, em vida,
Sorvendo dos tolos seu plasma insano.
com dedos feridos, no aço e no pus,
abrira suas páginas rubras de luz.
páginas vivas, trêmulas, sangrentas,
gravavam-se em fogo mistérios arcanos,
ritos profanos, promessas sedentas,
versos que outrora arruinaram humanos.
As engrenagens dos homens gemiam de medo,
giravam rangendo em preces de aço,
lendas diziam, num tom sem enredo,
que aquele grimório rasgava o espaço,
a felina de prata, sem receios,
sorriu ao sentir-lhe a febre imortal,
o sangue pingava em signos alheios,
A tinta vermelha selou o final,
no véu do vapor e da morte impiedosa,
renasce a magia—sombria e grandiosa.
o sangue, agora em chamas, se espalha,
num rio escarlate que corre sem fim,
a névoa densa se torna uma muralha,
uma barragem da magia que se afim.
Engrenagens, agora, começam a cantar,
ritmo insano de um mundo desfeito,
a heroína, sem medo, a desvendar,
Adentrai o portal se abrir no firmamento estreito.
O grimório, pulsando, desenha estrelas,
círculos sagrados, feitiços infinitos,
entre os ventos, exalam-se centelhas,
Fragmentos do passado, ecos de gritos.
ela avança, sua cauda serpenteia,
nos olhos, a chama da alma se enleia.
ao tocar o livro, o mundo se rasga,
a névoa se parte, o universo traga
novas realidades, horizontes de dor,
a magia toma forma de puro fervor.
Na fumaça, o sangue se entrelaça ao metal,
a heroína, agora, não é mais mortal.
no instante sombrio em que a carne se funde,
o grimório pulsa, a realidade implode,
e o céu se parte, a terra se afunde,
a magia em carne e engrenagem explode.
Cogs e ossos se entrelaçam em ruínas,
ventos cortam a pele como lâminas,
a fumaça dança em círculos infernais,
olhos da heroína, como cristais,
refletem o abismo que a tudo consome,
o sangue agora escorre, quente e negro,
derramando-se no abismo onde o nome
do passado ecoa, profundo e seguro.
Ela sente o peso das estrelas caídas,
suas garras dilaceram o véu do medo,
as correntes de ferro, agora perdidas,
rasgando o espaço, cantam o segredo.
com cada passo, o sangue é mais espesso,
o metal da alma, no instante, se confesso.
Em seu peito, os cogs gemem de agonia,
transformados em grilhões de pura alquimia.
no abraço final da magia e da dor,
ela transcende, num grito, o próprio terror.
o grimório, agora em sua mão sangrenta,
liberta o caos, a noite eterna e lenta,
o universo se quebra, se reinventa,
o sangue, em névoa, em nada se ausenta.
No vórtice da destruição, a carne se retorce,
o grimório clama, e a terra se desfez,
o grito da heroína é um rugido que torce
os céus e o inferno, tudo a seus pés.
o sangue que pulsa já não é mais seu,
mistura-se ao metal, à fumaça, so a lua,
em cada veia, o caos toma o troféu,
as engrenagens batem, como martelos
A névoa, agora densa e viscosa,
envolve tudo, sem alma e sem fim,
engolindo os homens, as máquinas, a rosa,
transformando em nada o que restou de mim.
olhos de prata, refletido o abismo,
O fim do mundo se torna uma dançarina,
garras afiadas, olhos sem raciocínio,
ela é a rainha de uma era divina.
Os céus, rasgados, exalam dor e fúria,
o sangue da heroína inunda os rios,
cada passo é um eco de pura loucura,
seu corpo, agora, já não sente os próprios fios.
A magia se torna carne, alma e choro,
As engrenagens se perdem, o tempo é quebrado,
nas sombras que brotam do ouro,
Ela se ergue, destroçando o passado.
O grimório ri, e o sangue se mistura,
um cântico ancestral,
um cântico de loucura.
O vapor sobe, quente como o inferno,
máquinas rugem em dor, sem piedade,
os pistões estalam, um som terno,
que quebra o coração da realidade.
Nos corredores de ferro e latão,
a heroína avança, seu corpo de aço,
cada passo é marcado pela tensão,
wm meio ao fumo, ao estrondo, ao fracasso.
engrenagens douradas, girando sem fim,
nos peitos dos homens, enredados em dor,
o som das engrenagens, como um clarim,
convoca a revolta de um mundo sem cor.
Zepelins de ferro cortam o céu de chumbo,
com hélices afiadas, cortando a névoa espessa,
são sombras imensas que ecoam no fundo,
onde o grimório sussurra, e a morte não cessa.
a cidade se ergue em ruínas de aço,
com tubos de vapor serpenteando o ar,
Vossa heroína, entre chamas e estalos,
buscai o poder perdido, o segredo a revelares.
Nos olhos prateados, a verdade não é suave,
Ela sente a fúria das rodas a girares,
O grimório, com letras antigas e graves.
É a chave para o futuro, a destruição dos lugares.
A névoa se espessa, o metal se corrompe,
Mas ela, com a cauda felina e o coração ferroso e enevoado,
Sabe que no fim, o mundo será seu campo de combate,
onde o vapor e o sangue dançarão em união,
quando a última engrenagem finalmente cair,
o vapor consumir tudo ao redor,
ela será a rainha do caos, pronta a seguir,
pelas ruas de ferro, em sua jornada sem cor,
O aço resplandece sob a luz trêmula,
Vapor sibilando por tubos que se torcem,
relógios batem, como pulsos, a mil por hora,
enquanto o céu de névoa em cinza se esconde,
nas fornalhas ardentes, o cobre se funde,
Ao som das marteladas ressoa em cada rua,
Zepelins flutuam em trajetórias profundas,
cortando os ventos com lâminas de lua.
engrenagens giram nos peitos dos homens de ferro,
chorando parafusos no ritmo de dor,
suas veias são fios, suas almas, um erro,
com corações mecânicos, sem nenhum fervor.
A heroína avança, olhos de prata em fúria,
sua cauda felina brilha entre fumaça e calor,
o chicote cósmico e alma de pura armadura,
ceifai o ar, desafiando o mundo, com ardor.
O grimório, preso entre chamas e carvão,
Desenha feitiços nos céus corroídos,
Palavras antigas, em alfabeto de metal,
Chamam as máquinas a se rebelar, em gritos perdidos.
Os pistões rugem, as caldeiras explodem,
ela, com garra, não teme o fim da linha,
dentro de seu peito, o fogo que não se apaga,
o espírito indomável de uma era antiga e divina.
becos sombrios, o vapor espesso se eleva,
ela, entre o caos, nunca perde a direção,
magia milenar agora se revela,
o grimório brilha, em um ato de redenção.
A cidade de cobre e ferro, em ruínas, ecoa,
o vapor e o sangue se tornam a canção,
Mas a heroína, com garras afiadas, corre,
pela neblina, onde a mágica e o aço se entrelaçam em união,
entre as chamas e a escuridão, surge a besta,
Uma máquina de escrever, com engrenagens cintilantes,
Suas teclas de cobre e ferro, como uma orquestra em festa,
Rangem em compasso, marcando o tempo a se quebrar.
O som das letras, em um clique ancestral,
Se mistura ao estrondo dos pistões girantes,
Cada palavra, uma sentença fatal,
Rasgando o véu da realidade a se distorcer no ar.
Ao lado da heroína, com passos silenciosos,
Um gato mecânico, de olhos dourados e frios,
Seu corpo forjado em aço e fios, misteriosos,
Gira como um relógio, em movimentos vazios.
Suas garras, afiadas como lâminas de prata,
São cogs dourados, ressoando em pura precisão,
Seu miado, agora, é um som de engrenagens, que desata
Os portões da magia, em busca de redenção.
A heroína, com cauda felina e alma de ferro,
Toca as teclas da máquina, sua voz sussurrando,
Palavras antigas, com a dor de um desespero,
Que ecoam pelo ar, e o mundo vai ruindo, tremendo, indo.
O gato, com suas engrenagens robóticas pulsante,
Move-se em espiral, como o eixo de um destino,
Observando a escrita que começa a se transformai,
Com seus olhos de aço, fitando o abismo divino,
o grimório se abre, as palavras ganham poder,
enquanto a máquina de escrever grita seu grito final,
névoa se espessa, o mundo começa a se perder,
a heroína, com coragem, corta o mal.
Em um último suspiro, o gato de metal ruge,
suas garras cortando o ar como lâminas de dor,
com o grimório nas mãos, a batalha surge,
entre o vapor e o sangue, onde tudo é terror.
na cidade de cobre e chuva ácida, onde os relógios morrem,
as engrenagens soam como lamentos perdidos,
vossa heroína e seu gato, juntos, desafiam os deuses,
ali, um mundo onde as palavras se tornam gritos esquecidos.
Através de uma meditação em que Drácula forneceu em agradecimento
pelo exício dos dêmonios em seus quadros e tomos,
Arale fora capaz de ver, seu passado, um pouco de sua origem
Sua ancestralidade, uma raiz nebulosa,
Na era vitoriana, a fumaça alça,
Entre engrenagens e ruídos do ferro,
Caminha a felina, em noite de prata falsa,
Caçadora de demônios, no silêncio do ermo.
Com cauda a brilhares, em sombras se entrosam,
Suas mãos comandam a máquina de escrever,
Cada palavra, um feitiço, a escuridão, despojam,
E a morte àqueles que ousam se erguer.
Banida da Igreja dos ossos de Yesh,
Por se aliar às letras negras, no abismo,
Sua alma é marcada, como um flagelo,
A ordem antiga a teme, e se faz prismo.
Na sua carne, sangue de uma linhagem rara,
Arale Fayax, herdeira de dor e guerra.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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18. Diário da Irmã da Ordem
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Data: 17 de novembro de 1373
Há os que dizem que aqueles pequenos momentos que antecedem a morte são os que mais trazem esclarecimento, mas para mim, a morte nunca foi um mistério, nunca temi como os outros, tampouco senti a inquietação que os outros sentiam diante dela, talvez apenas leves calafrios e só. Eu caminhava sem direção perdida em uma vida entediante e sem propósito, trazendo somente comigo um nome que me era um fardo pesado demais e um passado cheio de um desprazer que nunca terminava. Eu busquei o fim por conta própria, mas tropecei em algo que podia ser meu recomeço em um percurso sem significado. Aquele som vindo do meio da floresta foi o primeiro sinal, um canto gregoriano, que penetrava meus ouvidos, fazia tanto tempo que eu não ouvia algo tão belo e angustiante, que me dilacerava por dentro, me rasgando em camadas de emoções tão latentes que eu nem sabia que eu podia possuir, minhas pernas movidas por uma vontade que não era minha me conduziram ao som e assim encontrei a catedral, me percebi sorrindo diante dela.
Escura e imponente, uma silhueta contra um céu sem estrelas, não me recordo de ter aberto sua grandes portas, mas de algum modo eu já estava lá dentro sendo engolida por aquele grande salão onde figuras reunidas de frente ao altar entoavam um cântico, vozes femininas diversas e peculiares, algumas nem pareciam humanas ou talvez fossem, mas estavam além do que eu conhecia. Seus rostos alguns sérios e concentrados outros sem forma definida pelas sombras do véu que usavam. Cada nota que elas entoavam parecia arrancar com mais violência um pedaço do que eu era. No centro do altar havia uma grande imagem esculpida em pedra escura, com um manto negro que parecia um tecido desgatado até os seus peś, sua cabeça era coberta e havia uma coroa pontiaguda e ornamentada, o rosto oculto por um véu, em suas mãos um buquê de flores que dependendo da posição do observador, ele poderia conter flores vivas ou mortas, havia gravidade em sua postura, conforto e ameaça.
Ao longo das laterais da catedral, em nichos profundos, estavam outras imagens, cada uma retratando uma ceifadora distinta que eu soube mais tarde serem representações das várias faces da morte, cada uma com um propósito único. Todas seguravam uma foice em uma mão e na outra mão um lampião que emanava uma luz azulada que iluminava o interior da catedral. Havia uma atmosfera pesada, sufocante e ao mesmo tempo tão arrebatadora e calma, que me fazia sentir tudo. Foi então que chorei, não como uma jovem mulher que sente tudo, mas como uma criança perdida que se dá conta que está sozinha, eu que nunca senti nada antes, talvez só emoções rasas como pequenas comichões, então fui inundada por emoções que não conhecia. Meu soluços ecoavam dentro da catedral, era incrível o tanto de emoção que eu poderia sentir, quando meu choro foi se acalmando e minhas emoções se equilibraram, uma figura vestida com uma túnica e um véu escuro, desceu do altar e veio até mim.
— O canto da Senhora te atraiu até aqui, você deseja deixar tudo para trás? — ela disse com uma voz calma.
— Tudo? — murmurei.
— Sim, tudo que não for servir ao propósito da ordem, teu nome, teu passado, tuas dores, nada disso importa aqui. Apenas a Senhora da Morte, adore-a e ela te trará paz, sirva e ela te dará um propósito.
Aceitei sem hesitar, a vida que eu deixava para trás era um fardo que eu já estava cansada de carregar, eu era uma casca vazia, sem um propósito, assenti com a cabeça.
— Bem-vinda, irmã — ela disse me abraçando, eu senti conforto com esse abraço.
E assim deixei de ser, passei a me vestir como as outras irmãs. O vazio que sempre me acompanhou, começava a ser preenchido com um propósito, o de servir a Senhora da Morte, mas para isso eu deveria aprender com elas a levar conforto para os moribundos, caçar os que desonram o ciclo natural e resgatar as almas perdidas que clamam por liberdade, mas para isso, como disse irmã Teodora, eu precisava ser testada pela ordem e pela Senhora.
Data : 3 de dezembro de 1373
As madrugadas na abadia são silenciosas, mas se eu me concentrar bastante consigo ouvir o sussurrar do vento, o arranhar das aves necrofagas nas telhas, o som da madeira rangendo sozinha. Tudo isso um lembrete de que, indiferente a tudo, o mundo segue seu funcionamento. Rezei por horas esta manhã com as outras irmãs da ordem, repeti as palavras, copiei os gestos, estudei e treinei com elas. Elas observaram minha disciplina e vi nelas o que elas esperam de mim. Acho fascinante como parecer ter fé é tão convincente quanto a fé em si.
Data: 5 de dezembro de 1373
Irmã Teodora que me recebeu na Ordem, eu sei que deveria estar grata, mas só sinto que sai de uma jaula para cair em outra. Contei para ela algumas partes do meu passado e o quanto eu sentia raiva das pessoas da minha vila, Ela diz que serei útil, diz que essa minha raiva pode ser útil, se aprender controlá-la, ou com suas palavras: “Sua raiva pode ser uma boa lâmina, se você aprender a segurá-la pelo cabo.” O primeiro dia de treinamento físico se resumiu a dor, flexões até meus braços falharem, agachamentos até as pernas cederem, abdominais até meu tronco arder, golpes com as mãos nuas contra um boneco de palha até os nós dos dedos abrirem, não reclamei em voz alta, não pedi por descanso, mas irmã Teodora viu meu ódio e não tardou a me corrigir. “A raiva sem controle é como veneno mal dosado, mata tanto quem serve quanto quem bebe.” Ela disse com sua calma de sempre.
Data: 12 de dezembro de 1373
Minhas mãos estão cobertas de calos, por conta dos exercícios. Mas minha visão vem se acostumando à escuridão, treinamos nossa furtividade todas as noites, deslizando por pedras, prendendo a respiração quando outros passam, caminhando pela catedral, onde o menor ruído significa falha, que significa punição. As punições não são nada comparadas ao próprio treinamento. Hoje eu tropecei na borda do tapete, uma hora inteira ajoelhada meditando no sal grosso como castigo. “Você aprende melhor através da dor”. A irmã Teodora disse, estou começando a acreditar nela.
Data: 17 de dezembro de 1373
A lógica é que deve governar, é o que dizem aqui dentro, mas a lógica não acalma a fome quando se fica três dias sem comer para testar a resistência, e muito menos a lógica tira o gosto de sangue da boca depois de se levar um soco no rosto. Hoje cada uma de nós enfrentamos um prisioneiro, um ladrão que foi capturado pela ordem. Deram a ele uma faca e nos jogaram numa cela, eu venci e ele não saiu vivo. Fiz tudo sem hesitar, irmã Teodora aprovou.
Data: 2 de janeiro de 1374
O primeiro mês chegou ao fim e ainda estou viva, aprendi a matar com eficiência, a envenenar sem que me notem, e esconder minha presença, mas irmã Teodora diz que ainda sou previsível, que eu penso demais. “Se você pensa demais no que deve fazer durante uma missão mais rápido você tem chance de morrer, você não deve pensar demais no que
aprendeu senão morre.” Sei que ela está certa, mas ainda me pego pensando em tudo que aprendi, mas o treinamento constante talvez um dia silencie isso.
Data: 17 de janeiro de 1374
A dor é uma companhia constante, o treinamento diário não dá aos músculos tempo para descansarem, então eu apenas protesto em silêncio, mas a minha mente e meu corpo estão começando a se ajustar ao treinamento. Agora quando caminho meus pés sabem onde devem pisar para evitar ruídos, quando respiro meus pulmões não se expandem além do necessário, e quando ataco, não penso demais, e consigo prever os movimentos do inimigo. Hoje nós treinamos envenenamento, fui apresentada a novas substâncias usadas pela Ordem, extratos de plantas, venenos de animais, misturas ainda desconhecidas para mim. Provei algumas sob supervisão, é claro, apenas o suficiente para sentir o efeito antes de receber o antídoto, fomos orientadas a tomar pequenas doses de alguns deles para criar resistência, mas a lição foi clara, nunca experimentar nada que não seja preparado por mim. Irmã Teodora me elogiou para logo depois chamar minha atenção. “Você aprende rápido, mas ainda pensa demais, um veneno hesita antes de agir?” Ela perguntou calma, mas não achei necessário responder. “Então você também não deveria”. Não hesitaria contra a vida de ninguém, mas depois que entrei para Ordem hesitar quanto se trata da minha vida se tornou o lógico a ser feito.
Data: 1 de fevereiro de 1374
Elas nos testaram hoje, nos colocaram em um salão gigantesco, e soltaram três irmãs veteranas para nos caçar. Não podíamos lutar ou sermos vistas, apenas desaparecer. Eu passei horas lá dentro, me movendo silenciosamente entre as colunas, prendendo a minha respiração, sendo um nada apenas. Uma das veteranas passou a centímetros de mim e não me notou, outra parou ao meu lado e seguiu seu caminho sem sentir a minha presença. No fim consegui sair do salão sozinha sem que elas me encontrassem. Quando sai irmã Teodora sorriu pela primeira vez desde que cheguei aqui, é isso foi melhor do que qualquer palavra de “sabedoria” que ela pudesse me dizer.
Data: 16 de fevereiro de 1374
A lógica governa, sim ela governa, mas o corpo tem seus limites. Nos fizeram dormir em celas de pedra sem cobertas, nos fizeram nadar em lagos gelados nos deixando horas até que nossas peles ficassem roxas. Era para nos ensinar controle, saber que a dor vem, mas que
precisamos dominar. Foquei em lembrar da minha vida antes da ordem e como estar aqui era muito melhor. Pensei em números, sequências, padrões, eles distraem minha mente. Sai do lago tremendo, mas de pé, outras nao aguentaram, elas falharam, eu não podia falhar eu não tinha mais nada além disso.
Data: 3 de março de 1374
Irmã Teodora me deu a minha primeira missão esta noite, acompanhada de uma veterana. Um homem que fala demais, que pergunta demais, que não compreende que algumas portas precisam permanecer trancadas. Ela me explicou onde encontrá-lo, o que eu deveria fazer, as regras e dogmas que eu deveria seguir. Me explicou tudo com calma e lógica fria, eu gosto disso nela, não há rodeios, não há sentimentalismos, quando se trata de missões. Aceitei a missão, não por ser meu dever, mas porque estava ansiosa para saber como seria dessa vez, se o aperto no peito, a antecipação, se seriam diferentes depois de entrar para a ordem, se com essa missão eu conseguiria enxergar o mundo mais nítido por mais tempo. Foi limpo e eficiente. Ele olhou para mim com aqueles olhos confusos arregalados, tentando entender, encontrar um sentido naquilo, sentido onde não havia. Dei um tempo a ele, às vezes acontece de eles terem um vislumbre, uma revelação de algo que justifique tudo, que explique o motivo daquilo, mas não dessa vez, nenhum motivo havia para ele. Irmã Teodora perguntou se sentia culpa ou algo parecido, apenas olhei para ela e dei um breve sorriso. Acho que ela não espera culpa de mim, apenas eficiência. Eu não sentia culpa ou medo, eu sentia paz.
Data: 18 de abril de 1374
Já se foram quatro meses, aqui dentro o tempo parece se dissolver. Às vezes não sei se é dia ou noite, só sei que estou melhorando. Agora consigo ficar pendurada por horas sem sentir dor, meus golpes são mais limpos, rápidos e fatais. Aprendi a matar uma pessoa antes que ela perceba minha presença, mas irmã Teodora disse que ainda falta algo. “Você entende do silêncio e da morte, mas ainda pensa como uma pessoa viva.” Perguntei o que ela queria dizer com isso e ela apenas sorriu, sinto que a resposta não será agradável.
Data: 2 de maio de 1374
Acordei em uma cela vazia, sem roupas, sem armas, sem comida, apenas escuridão. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Sem saber se iriam me soltar, sem saber se era um teste ou se eu havia cometido algum erro. Eu sentia a fome me queimar, a sede me torturava aos poucos, e
eu murmurava para mim mesma que deveria aguentar que não poderia deixar elas me vencerem. Quando finalmente abriram a porta, a irmã Teodora estava à minha espera. Olhou para mim, me avaliou e então disse: “Agora sim, você entende e está pronta.” Eu não me curvei a necessidade, nem a vontade de desistir. Eu sobrevivi a isso e estava pronta para mais.
Data: 21 de junho de 1374
Hoje recebi meu novo nome, “Esse é o nome que a Senhora da Morte escolheu para você, não serás mais Lucila, ela morreu, hoje nasce Mara.” Me olhei no reflexo da lâmina que me entregaram, meu rosto era o mesmo, mas meus olhos não pertenciam mais à menina que entrou aqui há seis meses. Aceitei meu novo nome, afinal Lucila não teria sobrevivido, mas Mara sim. Agora sou uma irmã da ordem, sem nome real, apenas uma missão, com um passado sepultado, andando entre os vivos e os mortos, uma serva da morte e pela primeira vez, sinto uma paz e compreendo o significado de existir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 6: Engrenagens do destino
Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens — “‘roupagens’, de onde tirei essa expressão?!”. — Como vês, o meu linguajar foi uma das mudanças, não me lembro nem de pensar... Agora falo.
Tenho lembranças envoltas em uma névoa penumbral, como se as memórias não me pertencessem e eu as tivesse tomado de seres cósmicos. Meu contato com todos à minha volta ficou intenso e sinto apetites insaciáveis, mas ao menos ela está mais feliz do que nunca.
Assim que proferi a primeira palavra causei um espanto imenso, principalmente nela, mas aos poucos foi se acostumando com as minhas novas habilidades.
Dizem que somos sarcásticos, egoístas e que não zelamos por nossos pais humanos ou que não gostamos de suas companhias, mas isso é mentira. Eu daria a minha vida por ela novamente, ela é o ser que ilumina meus caminhos, todos dias e noites. Ela também está diferente, menos ferida e preocupada e isso me deixa muito feliz.
***
Ela dormia. Eu ouvia barulhos irreconhecíveis, imaginava ser efeitos colaterais da viagem que percorri por instinto de volta à vida. “Será que tenho alma?”. Os barulhos me irritaram tanto que tive que ir procurar o que diabos causava aquilo. Neste ponto, estão certos sobre nós: gostamos de sossego e ambientes aconchegantes.
Não me lembro qual caminho segui, mas cheguei ao lugar que havia selado — ao menos temporariamente — meu destino. Engraçado a forma alucinada com que desenvolvo minha habilidade de comunicação, deve ser influência de todas as lorotas que ouvi durante minha vida. “Será que agora sou imortal?”. Não sei se quero descobrir, talvez eu tenha de fato sete vidas e já gastei uma... Mas não pretendo decifrar tais segredos tão cedo.
O barulho aumentou. Um som de ferragens, acompanhado de uma claridade anormal para o período noturno. Quando olhei para o alto fitei duas bolas de fogo e, de alguma forma, já naquele momento tive a certeza de que me olhavam de volta... Ouvi sussurros lamuriosos, ou assim eu pensei. Essa parte ainda é turva para mim.
Descobri que tenho conexão com seres de outras dimensões. Conheci meu antepassado. Ele é o passado, o presente, o futuro e tudo o que há entre eles. Seu corpo colossal é um monumento de eras fundidas: engrenagens ancestrais e circuitos modernos pulsando em um coração preenchido do éter puro.
Seus olhos — ou o que se pode chamar de olhos — são como dois sóis ardentes, esferas de plasma incandescente, irradiando calor e segredos que poderiam queimar a própria realidade. Fulguram como brasas eternas, com filamentos de fogo líquido que giram como tempestades solares.
A armadura que cobre seu corpo é um mosaico de eras e estilos: peças de ferro entrelaçadas com filetes de ouro, que brilham como astros em um céu simétrico, mecânico. Tubos de vidro transpassam seus membros, conduzindo um éter luminescente que serpenteia como relâmpagos aprisionados. Do interior de suas articulações saem estalos de vapor e silvos de válvulas, como se o próprio tempo fosse seu combustível. Os barulhos que eu ouvi provinham dessas válvulas e das enormes engrenagens que simulavam uma rótula de joelhos humanos.
Das costas de Listheron — Sim, este é seu nome —, também saem engrenagens, como asas mecânicas que giram lentamente, produzindo um som profundo, semelhante ao eco de um relógio marcando o fim e o recomeço de todas as coisas.
Em sua presença, o espaço vibrava e o ar se preenchia com o aroma metálico do ferro queimado e da eletricidade que percorria seus dutos-veias.
Sua voz é tal qual um trovão filtrado por alto-falantes, misturando chiados, estalos e profecias. Suas palavras são códigos, fórmulas e segredos do universo, compreendidas apenas pelos que atravessam as brumas entre ciência e magia.
Listheron é o guardião dos ciclos cósmicos — o eterno tic-tac entre criação e colapso. Buscá-lo é arriscar-se a ser desintegrado por seus sóis flamejantes... ou ser reconstruído, peça por peça, com engrenagens feitas de estrelas e alma.
É... parece que as minhas habilidades estão evoluindo, não imaginava ser capaz de descrever a beleza daquele ser ancestral.
Ainda não sei se tenho alma, mas Listheron me disse que isso era irrelevante e que eu poderia experimentar coisas inimagináveis se eu aceitasse a minha forma verdadeira, assim como ele o fez. O tempo atual seria dobrado como um lençol recém passado e todos iriam sumir feito poeira da estrada.
O convite era tentador, mas eu tinha alguém para proteger... Não podia fazer isso com ela, que deu seu sangue por mim... Sei que ela não sobreviveria com essa perda.
No instante em que recusei, meu ancestral se dissolveu no ar, tão enigmático quanto havia surgido. Mas não houve hesitação em meu coração — eu sabia que minha escolha era a correta.
Então, ouvi uma voz trêmula, desesperada, rasgando o silêncio:
“Lisa! Lisa!”
Sem pensar, sem olhar para trás, corri. Corri para os braços da Alana, para o lar que escolhi.
PS: Imagino que estejam curiosos sobre quem escreveu esse relato. Se eu aprendi a falar, por que não poderia datilografar? Ah, ainda ouço o chamado, mas ainda não é o momento de partir...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 8 — O Presságio do Adeus
“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na…
“Cautela; à dor pertence tudo o que se é — e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura. Ainda assim, há contento ao sentido. Veja-me, desvele-me na clareira da densa floresta; um poder inominável aguarda a lua cheia dos olhos que veem, se capazes. Sempre dourados. Encontre o que há de valor e o que há de valor há de encontrar quem o procura. O emergir da distância é parte de uma inestimável boa ventura.” — Ouvi, como se imersa em um delíquio e não em um sonho; um lapso de tempo, uma prostração infinitesimal em duração e de uma expansão significativa e misteriosa. A voz era minha, mas não era eu quem dizia. Era eu quem dizia, mas a voz não era minha. Levantei-me com o coração frenético e o corpo trêmulo, escrevi palavra por palavra. Respeirei fundo. “O que isso quer dizer?” — eu pensei.
De súbito, à minha mente, viera a verdade dos símbolos ensinados por Lorrt e do ritual de exorcismo. Isso me levara a um levante célere, de modo que meu damanoute parecera pairar no ar em sua leveza agradável. Sobre o assoalho de madeira, usei a tinta que banhava a pena, para traçar os detalhes dos sigilos. Passei a repetir em minha mente, o verbo sombrio para conjurar a magia e temi que Seth se personificasse para me impedir de concluir o ritual. Eu estava certa de como realizá-lo, algo que, se adviesse apenas de um sonho comum, eu não poderia compreender com tamanhos detalhes.
Ainda mais repentino, com o último verbo proferido, derramando meu sangue para selar o ritual — o que me fazia compreender o quanto algo em meu âmago confiava cegamente em Lorrt; Seth emergiu dentro do círculo, com seu semblante assustado e em meio a uma névoa carmesim que tão logo se esvaneceu. Eu estava um pouco distante do sigilo, para não ser diretamente afetada; os olhos de Seth, assim que fitaram os meus, possuíam uma aura de raiva e pesar. Seth segurava em suas mãos uma flor, símil à sua descrição das noctúrnias. A cena me levou a uma dor no coração, não literalmente, uma tristura por fazer aquilo daquela maneira, afetando-o sem aviso prévio… Eu não conseguia compreender minha existência, pois, se eu era, de fato, uma vampira, como poderia não estar completamente refém de minha luxúria? Ao invés disso, apenas queria respostas e sentia-me íntima da desolação e da empatia.
— O que… tu fizeste? — Ouvi. Seu tom era grave e colérico, seus olhos fixos em minha face. Ele tentou dar um passo à frente, mas o círculo o prendia. — Não… — Murmurou. Eu me afastei em direção aos umbrais do aposento. — Não me deixe aqui, Áurea!
— Eu… volto… prometo… eu só preciso… — O olhar de Seth deixava-me inquieta e ansiosa.
— Áurea… eu não sinto mais a tua alma… eu não poderei proteger-te… Não faça isso! — Insistiu. Parecia tentar manejar seu tom, no entanto, a ira em seus olhos não podia ser manipulada, eu a notava em evidência.
— Eu só… preciso de respostas… eu volto… será breve… — Sussurrei, abrindo as portas e deixando, rapidamente, o aposento. Não olhei para trás, pois, se olhasse, me arrependeria…
Um susto, no entanto, fez-me cessar os passos mesmo assim.
— Olá, Áurea. — A presença de Olga era, de forma absurda, densa e amedrontadora, embora ela fosse sempre cuidadosa e simpática. Sua voz persuasiva conduzia algo dentro de mim, era hipnotizante.
— Olga! — Minha face decerto estava um tanto atônita.
— Estás bem? — Ela indagara, incólume.
— S-sim… — Sentia-me aluída.
— E Seth? — Fiquei atordoada com a pergunta. Imersa em pensamentos fugazes sobre como Olga sabia sobre Seth, um assombro apossou-se de mim por notar que, talvez, ela teria conhecimento do ritual que realizei. Não consegui respondê-la. — Pherhesí sempre desvela a si mesma para mim n’este alcácer, querida residente. Instigo-me a questioná-la quem poderia ter ensinado-te tamanho poder, sem relevar o teu desconhecimento pulcro… — Permaneci em silêncio ao ouvi-la, porém, o olhar daquela mulher… não era, tão somente, um olhar…
— E-eu… precisava… de… li-liberdade… — Foi o máximo que fui capaz de explicar.
— Hum… eu compreendo… Não preocupes a ti, pois não abscindirei teu ritual; cuidarei para que Seth permaneça sob Loccullaessatt até que retornes. Entretanto, estes sigilos não serão capazes de encarcerá-lo inn perpehctua. Estejas ciente, símil, de que Pherhesí, isto é, a Magia do Sangue, pode conduzir tua alma ao verossímil olvidar que tanto te atormenta. — Ela se aproximou dos umbrais de meu aposento, abrindo-os sutilmente, com elegância mórbida. —E se Pherhesí determina a decadência mortífera d’um Igual, pela insolência de manipulá-la desprovido de ciência, eu não hei de interferir. — Senti minha saliva descer em minha garganta como se engolisse um caule espinhoso de Rosaemori.
Era difícil compreender Olga… parecia-me que ela advinha de uma civilização arcana desconhecida e oculta; suas palavras e a mistura entre um idioma e outro atordoava meus sentidos; no entanto, era evidente o seu poder e o tanto que ela sabia a respeito daqueles que residiam no Castelo Drácula. Eu sabia, além disso, mesmo com a dificuldade em entender com maestria a sua fala, que ela estava me ameaçando.
— Vá… — Disse, com um sorriso suave que mais alimentou meu receio sob a sensação intimidatória de suas palavras. — Lëvri está fora do Castelo, um errante a caminho do jardim.
Olga fechou-se em meu aposento. Sua presença perturbadora já não existia e, consequentemente, não conduzia minhas emoções. Respeirei com alívio e, por instantes, pensei em espiá-la, espiar Seth... ouvi-los...., entretanto, meu objetivo maior era saber da verdade, lembrar-me do que era preciso para honrar minha história e, da mesma forma, a história de Lorrt — que tanto me ajudara com aquele ritual; aliás, eu sabia que eu não poderia mais realizá-lo, pois eu temia Olga... então aquela era a minha única oportunidade.
Corri, assim, pelos mesmos corredores sombrios; com o coração em pulso frenético, segui em direção aos jardins do Castelo sob clarões soturnos e coercitivos que lumiavam por segundos a escuridão eviterna; eles vinham com estrondos majestosos e eu avistava, das fenestras, uma tempestade ciano-acinzentada se formando no horizonte. Era, em profundez, estranho; mas, eu não era capaz de questionar que a neve esquálida não poderia perdurar com tamanha intensidade enquanto a chuva vertesse de densas nuvens e da escuridão. Assim vi com perfeição o firmamento tão metamorfo e a palidez sepulcral dos arredores do Castelo; estes, por sua vez, estavam cobertos por casas góticas e pontiagudas, feitas de pedra e madeira — levou-me ao questionamento de ser, pois, Séttimor, todavia, em nada se assemelhava a ela. Eu, contudo, não tinha tempo de saber.
O jardim tinha, em congelamento mórbido, todas as plantas, com exceção das tulipas negra, das nnivealiz e um tipo de morango negro silvestre — se destacavam na cândida invernia; do céu vertia, de fato, uma fina chuva cristalina e os raios, em perigo eminente, tomavam a totalidade da imensidão acima. Então, eu o vi; seu amplo dorso, seus cabelos escuros... suas mãos que acariciavam as pétalas de uma negra tulipa. Era... sufocante... minhas mãos tremiam e meu corpo se lembrava... Era Lëvri... tudo ao derredor parecia silenciar à medida em que me aproximava dele; um longínquo violino triste conduzia meu coração. Sussurrei seu nome tal como um ser fantasmagórico o faria e vi seus dedos tornarem-se estáticos; deixando de afagar as pétalas e, da mesma forma, vi teu corpo imóvel, tencionado. E levou um tempo até que, por fim, ele se virasse para me olhar.
Seus olhos negros, sem esclera. Um semblante tênue em mágoa com seriedade indene. Seu silêncio... um abismo entre minha paixão outrora vívida e vibrante. Quis tocá-lo, mas hesitei; ele matou Lorrt, eu sentia, eu sabia... matou Lorrt com o intuito de me conduzir ao desertificado chão onde os joelhos de Ohropo se fendem na esperança mórbida de reencontrar Sepulcro. Não quero viver como Ohropo, não quero ser conduzida aos braços de Exício tal como Sepulcro. Assim eu sentia... e sentia demais... um medo e uma aflição solitária que apertava meus pulmões, meus órgãos, minha alma. Eu não podia mais esperar...
— Tu mataste Lorrt... o último Illitan... tu e outros como tu... a Rosaemori em teu dorso é a autenticidade d’este fato... Quem és tu, Lëvri? Por que me enganaste com tamanha frialdade? E por que me tomaste com tamanha paixão sob a noite índigo mesmo tendo o sangue do meu único amor em tuas mãos? Mesmo sabendo que dele me olvidei em razão da tua maldade que fizera com que o ritual de transmutação vampírica se transfigurasse em uma cena terrífica? Sabes o que o veneno pernicioso da Rosaemori causa? A morte lenta... dolorosa... solitária... amedrontadora... angustiante... Por quê? — Meus olhos já lacrimejavam, cristais se formavam nas lágrimas que escorriam e congelavam em meu rosto; os cílios em meus olhos acumulavam infinitesimais flocos de neve; nunca senti um frio tão pernicioso como aquele que se difundia nos arredores do Castelo. E fitava Lëvri, ainda inalterado. Pensei que ele nada diria.
— Eu não te vi, Áurea. No entanto, vi Rahstemur fincar a Rosaemori em Lorrt e deixei o local assim que Lorrt, em absurda cólera, arrancou de seu próprio peito a haste espinhosa e cravou-a na boca de Rahstemur. A força de teu único amor era amedrontadora; éramos em seis, somente eu sobrevivi porque... me acovardei... Lorrt destruiu a todos e levou teu corpo coberto por um manto ensanguentado; fiquei à espreita e vi... levou-te para algum lugar que eu não sei. Mesmo envenenado, ele fez tudo isso e eu, pouco tempo depois, vagando sem rumo, com absurdo medo de ser questionado por Krvier, eu... encontrei este Castelo... — Ouvi atenta e abalada; na surpresa de que lembranças vieram à minha mente sem que a dor me corrompesse, conforme ele as narrava, e na comoção absurda de saber que Lëvri não foi aniquilador mor de Lorrt.
— Como... soubes... se nunca... me viste...? — Lëvri aproximou-se.
— Teus olhos, ora rubros ora áureos; trouxeram-me a dedução de que tu tinhas algum elo com os Illitan, em razão da criatura mítica que sustenta o poder que lhes foi dado. Entretanto, eu não poderia supor... exceto quando soube teu verdadeiro nome, dito por alguém n’algures; e soube, portanto, quem tu eras.
— E quem é Krvier? Por que o temes? — Lëvri demonstrou-se irritado.
— Eu não direi.
— Não? O que queres? Cumprir o que outrora acovardou-se a fazer? — Aproximei-me com uma ira aterradora.
— Eu já o teria feito se assim quisesse; não há razões para te dizer mais nada.
— Diga-me quem é Krvier! Aquele por detrás de todas as tuas ações tolas, por detrás do teu temor, por detrás do que és? Aliás, quem és? Vamos, tenha coragem uma única vez. — Ele silenciou, imerso em ira e contendo-se, eu percebia.
— Eu... — Ele abaixou seu tom de voz, suas veias ficaram mais aparentes. — Eu sou fraco... iguais a mim há outros tantos em um exército... mas eu sou o mais fraco... sou uma criatura destinada à reprodução, ao sofrimento e ao assassinato. Minha natureza é mórbida, meu instinto é violento... e... minha covardia é a única coisa que me difere daqueles que são como eu... então eu a manterei comigo... — Ficamos em silêncio. Queria compreendê-lo, mas, não era possível.
— Se não me falares sobre Krvier, eu descobrirei... eu o encontrarei... e me vingarei... — Lëvri se afastou, tênue.
— Quando uma criatura se torna criador, somente outro criador é capaz de detê-lo e nunca uma criatura...
— Seja claro, Lëvri! Estes enigmas estão insuportáveis! Este lugar, estes segredos... eu quero a verdade! Eu quero me lembrar! — Vociferei, ouvindo minha voz atravessar a neve mais longínqua e alcançar o tom dos trovões sombrios.
— Deixe-me voltar a sentir a textura das pétalas... deixe-me em silêncio... diferente de ti, não quero lembrar... e tu... tu sempre serás a minha Ennehris, pois, o que senti por ti diferiu-se tanto quanto minha covardia... manterei ambos... como relíquias em meu peito... não exija mais que eu fale do meu cruel criador... eu já lhe esclareci o que me era possível...
— Como podes... almejar o esquecimento... e tornar-se um dos perdidos... sem nome... sem uma bússola no coração...
— Talvez tenhas desejado isso antes de perder tua memória... — Ele murmurou e mais silêncio nos envolveu. Eu percebi, então, a dor no ser de Lëvri, não posso dizer como percebi, mas o fiz.
— Eu nunca desejaria esquecer... — Proferi, um pouco mais triste... queria mostrar que olvidar não é o melhor caminho, mas Lëvri fechou seus olhos, como se implorasse pela morte e, ao abri-los novamente, apenas virou-se e seguiu caminhando entre as tulipas, tocando suas pétalas. Em meu peito descansava um coração partido, a sangrar, lacrimejando. Perdida, esquecida... em busca de uma pequena esperança, uma singela salvação de algo que não se podia evidenciar. A chuva fina sobre meu corpo assemelhava-se ao meu próprio pranto... e Lëvri se distanciava como se nunca tivesse estado próximo... — Diga... — Sussurrei, impossível ser ouvida por ele. — Diga meu verdadeiro nome, Lëvri... — Ele continuava se afastando.
“O emergir da distância é parte de uma inestimável boa ventura.” — Lembrei-me. Um presságio? Era um adeus velado, nas sombras de nossas divergências... e toda a imensidão nívea, frígida, inóspita... as torres de pedra de um Castelo misterioso... os raios violentos e a chuva calmante em contraste. Minha esperança protegida no relicário de meu ser. “Encontre o que há de valor e o que há de valor há de encontrar quem o procura”. Caminhei, lânguida, observando as construções; eu sabia de meu dever de voltar ao Arcanjo-Maldição, entretanto, almejei novamente a fuga; encontrar Liliana, talvez, uma verdadeira amizade a qual descansar minha tristura — “à dor pertence tudo o que se é, e nas sombras do ser há uma angústia imorredoura”. Eu estava na profunda expectativa de sonhar com Lorrt... reencontrá-lo... questioná-lo... entender nossa história..., eu gostaria de adormecer livre, sem o Piche do Oblívio aterrando meu plano onírico, sem a culpa prensando-me como um ataúde à sete palmos. Uma aspiração, espreitada pela intuição de que eu não encontraria nada naquele lugar.
Eu... não esperava fitar o abandono; ou talvez soubesse... sem gotas de força. E a astenia estava naquele corpo que, outrora, em profunda significância, toquei. Olhos negros exaustos de uma dedicação possível ao que poderia tornar-se um amor... não era ainda, muito cedo para dizer. Uma paixão derradeira? Ao destino que há de me consumir na eternidade do meu lamento, meu esquecimento e, principalmente, minha solidão? Eu não queria me repetir; como um eterno retorno de languidez e melancolia — as mesmas dores, os mesmos prantos; ainda havia muita humanidade no que residia em meu peito: uma alma ou uma existência vazia. Na verdade, eu não sabia o que eu era, se estava morta ou viva, então, como saber se havia mesmo a paixão? Apenas um momento, estranho e obscuro momento, de entrega, de vínculo... por que isso eu não podia esquecer? Talvez ele estivesse certo, algumas coisas precisam deixar nossa memória em paz.
Colossais dúvidas afligiam-me enquanto caminhava pelo jardim, na lentidão sombria, estavam meus passos arrastados, embora silentes; os raios reluziam perigosos e não desejei retornar ao Castelo. Acolhi-me no arbusto de nnivealiz, com seus papilhos repousados ainda intactos, embora o vento estivesse feroz. Nascidos em uma grama macia, à leste do jardim, apesar da neve. Deitei-me ali, observando o firmamento nublado e chuvoso. As gotículas de água sobre meu rosto caíam, congelando-se em cristais tênues, fazendo o papel das lágrimas de outrora. Minha tez reconhecia. Meu corpo frígido pela neve abaixo, entre o aconchego da gramínea. Tudo isso, de modo estranho, me serenava. “Ainda assim, há contento ao sentido.” — lembrei, como se acolhido na imensidão do ar, de repente, por mim mesma. Então fechei meus olhos e esperei acordar n’outra realidade, no meu verdadeiro lugar para, então, dizer aos que aguardam meu retorno, que tive um sonho perturbador e que senti aguda falta de cada um deles, mesmo sem me lembrar de quem são...
“Veja-me, desvele-me na clareira da densa floresta; um poder inominável aguarda a lua cheia dos olhos que veem, se capazes. Sempre dourados.”
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Diário de Anton Stefan Miahi — VIII
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Ivan Molchanov
(Cartas guardadas)
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários dias, forçando-me a uma travessia lenta e extenuante. Quando enfim pisei novamente nesta terra esquecida, vi-me obrigado a dedicar um tempo à readequação. Os arredores do castelo haviam mudado, não tanto em sua natureza lúgubre, mas em detalhes sutis—trilhas deslocadas, edificações em ruínas, presenças que antes não existiam. Investiguei. Observei. E, numa das noites em que perambulava entre as sombras da fortaleza, meus olhos captaram dois vultos. Um deles, masculino, exibia o andar hesitante de um intruso. Suponho que seja este o homem ao qual Nestor deseja que eu elimine.
O tempo não dissipou as trevas desta região. As montanhas escarpadas continuam assombrosamente solitárias, e a silhueta do castelo, cravada na penumbra das alturas, permanece um lembrete incontestável da ausência de divindades que ousem reivindicar este domínio profano. Recordo-me das paredes sóbrias e cinzentas, impregnadas com um odor peculiar—morte, químicos e algo de essência inominável.
Ao chegar, busquei Nestor. O acesso ao castelo foi feito pela entrada oculta na base da montanha, um caminho de outrora, com o qual me habituei nos anos de serviço obscuro sob o estandarte de Drácula.
Nestor aguardava-me nas profundezas do castelo. Seu vulto emergiu da penumbra, envolto na penumbra lamacenta das tochas trêmulas. Seus olhos brilharam, avaliando-me.
— Molchanov… — Sua voz cortou o silêncio, grave e deliberada. — O tempo não tocou tua essência. Sempre um soldado.
Fixei-o com um olhar firme.
— O dever não permite espaço para mutabilidade vã. Vim a teu chamado.
Nestor assentiu lentamente, um espectro de satisfação perpassando-lhe o rosto.
— Tens um alvo, — Declarou, aproximando-se. O cheiro de cera derretida e pedra úmida misturava-se ao aroma ferroso no ar. — Anton. Tem andado por lugares onde não deveria. Há segredos que devoram os curiosos.
Eu já sabia o que seguiria.
— Se ele não aceitar o Abraço da Noite, — prosseguiu, a voz sem qualquer traço de hesitação, — então deve desaparecer.
Meus dedos roçaram instintivamente a empunhadura da adaga sob o sobretudo. Um gesto automático, um reflexo do instinto de execução.
— Compreendo. E qual será o veredicto? Sangue ou trevas?
— Se resistir, finda-o. Tua lâmina será seu último horizonte.
Assenti. Sem hesitação. Sem perguntas.
— Assim será.
A conversa findara, mas o peso da tarefa já se assentava sobre meus ombros como uma mortalha invisível.
Deixei a sala, caminhando pelos corredores úmidos do castelo. O chão de pedra reverberava sob minhas botas, um eco solitário que se desfazia nas arcadas sombrias. O ar era frio, carregado com o cheiro rançoso de cera e poeira antiga. Ao cruzar um arco em ruínas, a vastidão do salão principal abriu-se diante de mim, seu teto sustentado por colunas grotescas, esculpidas em formas disformes—rostos angustiados, corpos entrelaçados, como se artistas dementes tivessem imortalizado almas atormentadas na própria estrutura do castelo.
No alto, além dos vitrais estilhaçados, a lua espreitava com seu olhar cínico, testemunha silenciosa de pactos e traições.
Continuei meu caminho, descendo pelo labirinto de corredores até emergir na passagem oculta ao sopé da montanha. A trilha era traiçoeira, serpenteando por entre pedras escorregadias e raízes retorcidas. O vento sussurrava nas árvores, trazendo consigo o cheiro de lenha queimada, um resquício da civilização à distância.
Ao longe, as luzes mortiças da cidade tremeluziam como vaga-lumes prestes a se extinguir. Um mundo diferente do castelo, mas não menos condenado.
A vila me esperava.
E Anton não veria o amanhecer.
Horas mais tarde — A cidade abaixo do castelo me é estranha, um detalhe novo que não reconheço de outrora. No entanto, a atmosfera permanece imutável. Há algo nesta terra que persiste, um odor espectral que não se dissipa. O castelo sempre foi um palco de anomalias: sombras que se movem sem fonte, espectros inquietos, aposentos que se deslocam como se fossem dotados de consciência.
Nestor advertira-me sobre tais ocorrências, mas o que testemunhei nas últimas noites desafia qualquer aviso.
O céu e a névoa ostentam tons ciano-azinhavres, como um prenúncio de morte. Raios rasgam a escuridão com luzes espectrais, trovões retumbam como tambores de guerra, e o vento... o vento ruge como uma matilha em frenesi. A neve, tingida em um gradiente sombrio, cai lenta, mas sem suavidade.
Então veio a noite passada.
A lua ergueu-se, titânica e dominadora, uma deusa silenciosa entre nuvens disformes. Caminhava pela floresta, atento aos sussurros do vento entre os galhos nus, quando vi—a primeira fissura.
Uma linha no ar, trêmula, pulsante. Então outra. E outra.
Até que se abriu um rasgo maior diante de mim.
O ar que emanava daquela fenda não pertencia a este mundo. Um odor de carne pútrida rastejou até minhas narinas. Algo se movia no outro lado, uma silhueta deformada oscilava entre a névoa espessa. Primeiro vieram os sons: grunhidos abafados, o estalar de ossos partidos. Então a luz pálida cresceu.
E eu vi.
A criatura rastejou da abertura. Sua pele era um tecido flácido e esbranquiçado, esticado sobre ossos retorcidos, veias arroxeadas pulsando sob a derme translúcida. Olhos sem íris, sem pupilas, apenas globos vazios, brilhando como pálidas esferas de morte. Sua boca se abriu num sorriso de presas finas como agulhas, e entre elas... restos humanos ainda gotejavam.
— Deixe de observar...— Uma risada gutural, profunda, ressoou em meus ouvidos. — Não gosto… que testemunhem meu deleite carnal e mundano. Sou… Ttyphrssett.
Meus músculos enrijeceram. Garras se projetaram. O instinto de sobrevivência rugiu dentro de mim.
A criatura avançou. Rápida, como um borrão espectral.
Saltei para o lado, girando o corpo. Minhas garras rasparam o vazio onde sua carne estivera há meros instantes. O vento sibilou quando ela girou, desferindo um golpe.
Levantei o antebraço a tempo—o impacto reverberou pelos ossos.
Ela riu, uma cacofonia de vozes sobrepostas.
— Fome é a minha eternidade… Estranho ser… deste mundo. — Sibilou sua voz estranha.
A voz era um sussurro, um grito, um eco de algo ancestral.
— E se te oferecesse uma presa melhor… Ttyp…Ttyphrssett? — Cuspi as palavras, desviando-me de mais uma investida.
A criatura parou. O vazio em seus olhos se contraiu levemente.
— Carne fresca. Alma quente.—
Ela inspirou o ar.
— Fala...— Seus dentes brilharam sob a luz difusa. — Mas que não seja engodo, ou devorar-te-ei antes do amanhecer.
Mantive a postura firme, a voz tão cortante quanto minha lâmina.
— Anton. Um mortal intruso nos domínios de Drácula. Um erro que precisa ser corrigido.
O ser inclinou a cabeça, avaliando-me.
— E como o entregarias a mim? — Gotas vermelhas gotejaram de sua boca cheia de dentes filosos e finos.
Um plano já se desenhava em minha mente.
— Um espelho. Na igreja central. — Minha voz era uma promessa de aço. — A armadilha será sutil. Ele não suspeitará até ser tarde demais.
A criatura lambeu os lábios maculados de sangue.
— Se tua promessa falhar, tua carne substituirá a dele.
Inclinei a cabeça levemente, um gesto de assentimento.
— Se falhar, nem mesmo merecerei sobreviver.
Tenho pouco tempo. Anton deve perecer. Sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável. Não há hesitação.
Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor.
A escuridão desta terra exige tributos constantes, e hoje… Anton será o sacrificado.
A floresta estava silenciosa quando deixei aquele lugar profano. A criatura desaparecera, dissolvendo-se na noite como um espectro faminto. Minhas mãos ainda tremulavam com a adrenalina do confronto, mas meu pensamento já estava focado no próximo passo.
Caminhei em direção à cidade, ocultando-me entre as sombras das vielas. As ruas estavam desertas, a névoa rastejava como uma criatura viva, esgueirando-se entre as construções de madeira decrépitas. A poucos passos, uma das casas abandonadas se tornou meu refúgio temporário.
Empurrei a porta com cuidado. O interior estava empoeirado, com móveis gastos e uma lareira apagada há muito tempo. Um antigo lampião sobre a mesa me forneceu a luz necessária para registrar o que se sucedeu.
Sentei-me, puxando um pedaço de papel envelhecido. Minha caligrafia firme começou a preencher a página.
Larguei a pena sobre a mesa, observando a tinta escorrer lentamente.
Antes do dia fatídico, no entanto, precisaria encontrar Nestor novamente. Informá-lo do plano recém-forjado. Anton não poderia escapar... e eu deveria me certificar de que cada peça estava devidamente posicionada no tabuleiro antes que a noite de caça se iniciasse.
De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)
25 de agosto de 1871 —Ivan, sempre fiel à sua frieza militar, deixou-me uma carta em sua entrada habitual, como um cão de caça que deposita sua presa aos pés do mestre. A despeito de sua natureza imperturbável, até mesmo ele parece ter se assombrado com os eventos recentes. A ironia disso quase me diverte. Nos últimos tempos, o castelo tem sido palco de fenômenos tão frequentes e diversos que sua mera enumeração tornar-se-ia cansativa. Mas sigamos ao que realmente importa, ao haver um jogo a ser concluído, e o tempo é um luxo que não podemos nos dar. E o que ele relatou foi isto:
“Tenho pouco tempo para executar meu plano. Anton deve perecer, sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável, Ttyphrssett. Não haverá trégua nem hesitação. Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor, e que ele decida o destino final dos restos mortais. A escuridão desta terra exige tributos constantes, e em três noites, Anton será o sacrificado.”
Tão direto e eficiente quanto um relatório de campanha. Há algo de quase tocante nessa disciplina militar com que Ivan trata até mesmo as monstruosidades mais abjetas. No entanto, como eu suspeitava, sua descrição não omite a repugnante participação de Ttyphrssett — aquela aberração execrável, escarrada das mãos da estimada senhora Olga. Como é peculiar que sua fome cega e primitiva venha, enfim, a ter um propósito. Ironia refinada.
Entretanto, antes que a peça final seja disposta no tabuleiro, há ainda um último e irritante dever a cumprir. Devo tratar com os Santos Dominadores. Ah, que nome pomposo para um bando de degenerados cuja “santidade” não passa de um véu esgarçado cobrindo vícios e ambições. Eles me causam repulsa, confesso. No entanto, são um mal necessário, mais profanos em sua falsa fé do que Ttyphrssett jamais será em sua fome animalesca.
O jogo se aproxima do xeque-mate. Restam três noites.
De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)
27 de agosto de 1871 — Nesta noite, pela discreta entrada ao pé da montanha, encontrei-me com um dos clérigos que infiltramos entre os patéticos Dominadores. Pobres almas iludidas por sua própria grandiloquência, sempre tão ávidas por acreditar que detêm o domínio sobre aquilo que mal compreendem. Mas que sigam em sua ilusão, pois essa nos serve.
O emissário desta vez foi um jovem chamado Luca — dezesseis anos apenas, mas já contaminado por uma ambição que me diverte. Há nele um brilho voraz nos olhos, não de fé, mas de algo muito mais interessante: um desejo de ascensão, de poder. Veremos até onde suas próprias ambições o conduzirão antes que o devorem.
Entreguei-lhe a mensagem destinada a Ivan, informando-lhe que o espelho necessário para a armadilha estará oculto dentro da nave da igreja, velado sob um grande pano negro. Detalhes importam. A simbologia importa. Um véu negro sobre o instrumento de condenação — quase poético.
Acrescentei ainda que Anton será devidamente instigado a dirigir-se à cidade a nordeste do castelo. O resto acontecerá como deve. Uma carta será deixada para Anton. Ele estará na igreja, às dezenove horas em ponto.
Resta ver se Ivan desempenhará bem seu papel.
Anton S. Miahi XIX
(Escrito em meu Caderno)
28 de agosto de 1871 — Os eventos que pude relatar foram demasiadamente assombrosos e perturbadores em níveis que jamais concebi ou sequer encontrei descritos nas páginas dos volumes mais soturnos que estudei. Suponho não viver um sonho, mas um tormento desperto, um pesadelo onde o próprio tempo parece corrompido. Meu peito se aperta, e por vezes me falta o ar. Tento desesperadamente organizar meus pensamentos, amarrar a razão ao que meus olhos testemunham, buscar um ponto de ancoragem para não ser tragado pelo abismo da loucura que habita estas paredes.
Nesta manhã, por primeira vez, despertei sem sobressaltos, sem os suspiros entrecortados de quem tem os nervos castigados pelo desconhecido. Houve uma calmaria incomum que me tranquilizou. Arrumei minhas coisas, limpei minhas botas com a atenção meticulosa de um soldado e observei a janela. Por algumas horas, a ilusão de normalidade me envolveu como um véu frágil. Mas, como tudo entre os vivos, a paz é efêmera.
O céu, antes cinzento e imóvel, começou a se transmutar. Primeiro, as nuvens espessas formaram um manto opressor sobre o vale. A chuva caiu pesada e súbita, e então, como uma guinada grotesca da natureza, deu lugar à neve. O frio invadiu o aposento, e a neblina rastejou pelas encostas como uma criatura faminta. Dirigi-me à janela, e, ao fitar a clareira de Séttimor, vi as luzes outra vez. Clarões de tons roxos e azul-acinzentados pulsavam na floresta como lanternas espectrais. Já as notara antes, mas hoje me pareceram mais próximas, mais intensas.
E então, um som.
Passos abafados no corredor. Um deslizar breve, contido, como se quem estivesse do outro lado hesitasse antes de agir. Girei nos calcanhares, fitando o vão da porta. Uma sombra estacionou diante dela, e sem que a madeira rangesse sob seu peso, um envelope foi deslizado por baixo. Permaneci imóvel por um instante, prestando atenção. Nenhum som de passos se afastando. Apenas o eco da minha própria respiração.
Aproximei-me. A carta jazia ali, pálida sobre o assoalho. Peguei-a com hesitação. O papel era espesso, amarelado, com um selo partido, como se tivesse sido aberta e lacrada novamente. Deslizei os dedos sobre sua superfície, sentindo um perfume antigo, amadeirado, quase espectral.
Ao desdobrá-la, li:
"A morte não é silêncio, Anton S. Miahi. Nem o tempo é um cárcere impenetrável.
O sangue derramado sempre busca seu reflexo, e ecos do que foi se enlaçam ao que ainda será.
A sombra do passado repousa sobre teu nome, e os fios que te ligam àqueles que se foram não foram cortados—apenas esquecidos. Olga tece as teias e cria caminhos, como sempre fez, e em meio ao lamento das pedras, há um nome que insiste em se erguer entre os mortos. O nome de teu irmão.
Se anseias pela verdade, procura-me onde os sinos dormem e as velas tremem ao menor sopro de vento. Onde o solo foi profanado e os juramentos, quebrados.
A noite de hoje te aguarda na cidade ao nordeste do castelo."
O ar no aposento pareceu tornar-se mais pesado. Olga. O nome que eu desejava sepultar no esquecimento ressurgia como um cadáver reanimado. E meu jovem irmão... há muito tempo morto, longe dos meus braços, mas jamais do meu espírito.
Quem escrevera tais palavras? Como sabia de coisas que poucos poderiam conhecer?
A cidade ao nordeste do castelo... um convite ou uma armadilha?
Independentemente da resposta, eu sabia que não poderia ignorá-lo.
Naquela noite — o que me ocorre ao recordar os eventos que nela se sucederam não é simplesmente uma lembrança indesejável, mas um terror que se assemelha, em sua intensidade e gravidade, aos próprios horrores vividos nos campos de batalha. O que testemunhei, no entanto, não se limita a um mero vislumbre de pesadelo: é uma marca indelével, profundamente gravada nas paredes de minha mente, que jamais se apagará.
Permitam-me, no entanto, oferecer-lhes o relato o mais fiel e acurado possível, como é meu dever como homem de ciência.
Em minha preparação para o que seria uma jornada incerta, vesti-me com o habitual cuidado de um oficial acostumado a respeitar os caprichos da natureza e os rigores do clima. Coloquei sobre meus ombros uma capa espessa de lã, resistente aos ventos cortantes daquela região desolada. A bota de couro, que se estendia até os joelhos, selava minha caminhada com firmeza e austeridade. O chapéu negro, de aba larga, e o sabre, meu fiel companheiro, completaram a indumentária, que, mais do que proteger-me da intempérie, era uma armadura psicológica contra as incertezas do desconhecido. O peso da experiência de combate, forjado nos campos de guerra, incitava-me à cautela, e, por isso, embora o temor de um desafio oculto pairasse sobre mim, minha razão ainda prevalecia, guiando-me através da escuridão.
O dilema que me atormentava não era pequeno. Deveria eu seguir os conselhos da lógica, da razão pura e das lições adquiridas em meu labor como historiador, ou ceder à tentação da descoberta, ao risco de me lançar em uma jornada cujos contornos eram, por ora, indiscerníveis? A dúvida pairava como uma sombra inquietante, mas a experiência adquirida nos campos de batalha me fazia permanecer firme, pois, como sempre, a razão deveria prevalecer sobre o instinto.
Felizmente, o tempo que dediquei ao estudo das cartas e dos mapas do Conde, documentos que o próprio me confiara, revelou-se, de maneira inusitada, como uma arma poderosa. Através deles, pude traçar o percurso, conhecendo os meandros daquele terreno que, embora familiar, ainda me era enigmático. O estudo intenso, por tanto, mostrou-se não apenas uma fonte de prazer intelectual, mas uma ferramenta de sobrevivência.
Ao sair de meu aposento, fechei a porta atrás de mim com um leve e contido estalo, como se o som não fosse mais do que o eco de minha decisão. O corredor do castelo se estendia à minha frente, envolto pela penumbra das tochas tremeluzentes, cujas chamas dançavam sobre as pedras e as paredes de pedra fria. O ar estava carregado, pesado, como se o próprio castelo estivesse respirando, aguardando a minha partida. Segui até a porta leste, a única que dava para o exterior, e ali, ao abrir a pesada folha de madeira, senti o impacto do ar gelado. A noite estava envolta em uma espessa camada de névoa, e o silêncio, profundo e solitário, me acolheu como uma capa de luto.
Antes de avançar, um impulso me fez olhar para trás, e foi quando, ao longe, através de uma janela turva e empoeirada, avistei uma silhueta. A luz tênue que emanava de dentro do castelo projetava sombras longas e desconcertantes, e, naquele instante, compreendi: era Nestor, observando-me daquelas alturas. O pressentimento que ele me causou não se limitava à mera curiosidade; algo em seus olhos me alertava para que a jornada que eu estava prestes a empreender era mais perigosa do que imaginava.
Decidi, no entanto, não hesitar. Tinha um destino, e era para ele que eu me dirigia. A carta que recebera indicava-me o caminho, e como um cavaleiro indo à sua cruzada, eu avançava, agora movido não apenas pela razão, mas por uma força que parecia transcender minha compreensão.
O percurso até a cidade mencionada na missiva foi árduo, e a densa vegetação, com árvores de pinheiro que se erguiam como sentinelas sombrias, parecia absorver a luz da lua, tornando cada passo mais difícil e incerto. O chão estava coberto de lama, que, a cada passo, grudava às solas de minhas botas, tornando a caminhada ainda mais extenuante. A neve voltou a cair, fina como pó de prata, e o vento, agora mais forte, parecia sussurrar palavras que não consegui compreender. As árvores, cujos troncos retorcidos pareciam lamentar sua própria existência, eram um cenário perfeito para o pesadelo que se desenrolava em minha mente.
Após uma caminhada de quase quarenta minutos, finalmente avistei o que procurava. Uma pequena cidade, erguida sobre uma elevação, com mais de vinte casas, se estendia à minha frente. No ponto mais alto, erguia-se uma igreja de duas torres pontiagudas, cujos contornos negros pareciam rasgar o céu nublado, como se estivessem conectados a algum poder obscuro. Uma sensação de estranheza me envolveu ao perceber a proximidade daquela cidade, uma cidade que não deveria existir, não tão perto do castelo, não tão afastada de Séttimor.
— "Então, este lugar realmente existe?" — A pergunta surgia involuntária, como uma súplica ao destino. Não podia acreditar que uma cidade assim pudesse estar oculta, a apenas quatro ou cinco horas de caminhada forçada, mas ali estava ela, desafiando toda a lógica.
O muro de meia altura que cercava a cidade não era mais do que um amparo inútil contra o mundo exterior, e o portão de madeira rústica parecia, mais do que uma entrada, uma brecha para outro mundo. Não havia uma alma viva na rua, mas as luzes tremeluzentes das casas indicavam que, pelo menos, havia algum tipo de vida. O silêncio, no entanto, era ensurdecedor, e o som distante de animais de fazenda acrescentava uma camada de inquietação à quietude sobrenatural que pairava sobre o local.
Ao cruzar o portão, algo alterou a realidade ao meu redor. Foi como se o próprio tecido do espaço se distorcesse, como se uma película invisível tivesse se rasgado, e eu fosse lançado em outra dimensão. O ar parecia se fragmentar, e eu, em um estado de confusão, apoiei-me no portão, sentindo minha cabeça girar. Quando finalmente consegui abrir os olhos, tudo havia mudado. O mundo ao meu redor se tornava maleável, ondulante, como se estivesse imerso em um rio sereno. Bolhas surgiam, flutuando diante de mim, e dentro delas, imagens que se desfocavam antes de revelar cenas de lugares nunca antes vistos — mas que, inexplicavelmente, se assemelhavam a minhas próprias memórias.
Dentre essas bolhas, uma se formou diante de meus olhos, e ao tocá-la, a cena que se revelou fez meu coração parar. Meu irmão, em meus braços, sangrando. O sangue se espalhava sobre suas roupas, escorrendo pelas minhas mãos e caindo sobre minhas pernas. Um grito, abafado pela memória, ecoou em minha mente, e uma sensação de angústia imensurável tomou conta de meu ser. A bolha explodiu, e outras começaram a se formar, distorcidas e caóticas.
Foi neste momento que tomei minha decisão: eu precisava entender o que estava acontecendo. Eu precisava desvendar os mistérios que aquele lugar ocultava.
Avancei, com a determinação que só a dor pode conceder, em direção à igreja. Porém, a uma curta distância das portas, uma barreira invisível parecia me deter, como se o próprio espaço estivesse rejeitando minha presença. Respirei profundamente, voltei a me concentrar, e apertei o punho ao redor do sabre. Estava resoluto, mais do que nunca.
A porta da igreja, que parecia aguardando minha chegada, estava escancarada, como se me convidasse a adentrar seu domínio. Não queria ser impetuoso, pois sabia que a cultura local talvez exigisse mais respeito. Então, entrei com o maior cuidado possível.
Foi quando fui tomado pela estranha melodia que preenchia o interior. Um canto singular, que me remeteu aos cânticos gregorianos da Notre-Dame. Sua beleza não ocultava a estranheza de sua origem. Não sabia se aqueles monges eram católicos, anglicanos ou luteranos, mas sabia que algo em sua música ressoava com a obscuridade daquele lugar.
A arquitetura da igreja era como uma sinfonia de sombras, com colunas robustas adornadas por desenhos que pareciam antigos demais para serem identificados. O altar, elevado e macabro, estava coberto por símbolos que não se assemelhavam a nada que eu já tivesse visto. No altar, o sacerdote se destacava, um homem de barba grisalha, vestindo um manto negro com uma faixa cinza no peito. O ambiente todo emanava uma aura de segredo, e, no lado esquerdo, uma cortina cobrindo algo… algo que eu sabia que não deveria ver, mas que, mesmo assim, me atraía como uma força magnética.
Aquela noite, tão aguardada e temida, chegou com a promessa de revelar mistérios que jamais poderia imaginar. Adentrei a igreja com a diligência habitual de um homem de armas, mas também com a mente de um historiador. Eu sabia que a verdade, em sua forma mais pura e aterradora, seria revelada ali, entre aqueles muros ancestrais.
O ambiente, imerso numa quietude sagrada, parecia reverberar com a história das eras passadas. As paredes de pedra estavam adornadas com inscrições em latim e símbolos antigos que pareciam pulsar com uma energia quase tangível. O canto dos monges, profundo e doloroso, era a alma daquele lugar — seus ecos tocavam minha alma, como se estivessem chamando não apenas à reflexão, mas ao despertar de algo profundo e sombrio.
Gradualmente, meus olhos se adaptaram à penumbra da nave. Eu estava ali, mas não como nenhum homem comum, não como um simples soldado ou professor. Eu era um espectador, aguardando o momento certo para agir, para confrontar o desconhecido que se ocultava por trás dos véus daquele culto sombrio. No entanto, o que me aguardava não era mera informação, mas uma experiência que desafiaria todos os meus princípios.
Foi quando me sentei, num banco distante, que senti a presença de um monge ao meu lado. Ele não disse nada de imediato, mas sua presença era inegável. Um pequeno monge de semblante pacífico, mas cuja aura emanava algo indescritível.
Ele se virou para mim com uma suavidade calculada e falou em tom baixo, quase sussurrante, mas ainda assim carregado de uma autoridade que não pude ignorar:
— Anton S. Miahi, o oficial da cavalaria? Eu sabia que você viria. Seu destino está entrelaçado com o que aqui acontece. Sou Luca.
Eu o olhei com desconfiança, não compreendendo o que queria dizer com aquilo. Mas havia algo em sua fala que me fez hesitar. Ele sabia meu nome. Mais ainda, sabia do meu propósito ali. Esse conhecimento não era comum, e era isso que me inquietava.
— Como sabe quem sou? O que sabe sobre meu irmão? — Minha voz saiu quase imperceptível, mas o monge ouviu.
Luca baixou a cabeça ligeiramente, como se ponderasse suas palavras, e então se inclinou mais perto, falando com uma confiança perturbadora:
— O que você busca aqui, Anton, não é apenas justiça. Você está buscando a verdade sobre seu irmão, o que aconteceu com ele. Sei onde ele está, mas o que posso lhe oferecer será além daquilo que você pode compreender no momento. Imploro: espere até o fim do canto. Quando os monges cessarem, sua resposta estará diante de você.
Suas palavras eram enigmáticas, mas algo em meu íntimo me dizia que ele falava a verdade. O medo, que em outros tempos teria me paralisado, agora se transformava em uma força incognoscível, uma determinação que me impulsionava a continuar, a esperar.
Mas a verdade, como sempre acontece com as trevas, chegou mais cedo do que imaginava.
Os cânticos interromperam-se abruptamente, e o silêncio se abateu sobre a igreja, como uma tempestade prestes a romper os céus. Olhei para o altar, e então percebi o que se desenrolava à minha frente. Um monge tirou o capuz e olhou-me com um sorriso cruel, um sorriso que denotava algo além da simples perversidade. Ele tinha uma cicatriz que cortava o lado direito de seu rosto, uma marca que falava de guerra, dor e sacrifício. Seus olhos, os olhos de um homem que já havia visto o inferno, fixaram-se em mim. Um arrepio percorreu minha espinha.
Ele foi até a cortina, com um gesto quase ritualístico. Movendo-a, ele recitou palavras em uma língua estranha, e, quando a cortina foi retirada, um espelho apareceu. Não era um espelho comum. Suas bordas estavam adornadas com símbolos que emitiam um brilho obscuro, uma luz azul-acinzentada, quase sobrenatural. E, então, a névoa começou a se formar. Um cheiro de carne apodrecida e sangue se espalhou pelo ambiente. Todos os presentes começaram a se agitar, mas ninguém ousou se mover.
Uma risada gutural e grotesca ecoou pela igreja, reverberando em meus ossos, como se o próprio ar estivesse rindo da nossa impotência.
E então, a criatura apareceu.
Ela não era humana. Suas formas, distorcidas e contra-natura, eram algo que eu nunca poderia ter descrito em palavras. Sua pele era pálida, esticada sobre ossos frágeis, como uma tela de carne que se retorcia com cada movimento. Seus olhos, ou melhor, os buracos onde os olhos deveriam estar, estavam vazios, sem íris, sem pupilas. Mas havia algo ali — uma presença, uma malícia que me cortava mais profundamente do que qualquer espada. O sorriso que ela mostrou era o de um predador — dentes finos e afiados como agulhas, dentes que brilhavam sob a luz fraca. Seus membros, longos e elásticos, pareciam ter vida própria, prontos para envolver e esmagar qualquer um que ousasse enfrentá-la.
A voz esganiçada dela cortou o silêncio, uma voz que parecia ecoar de todas as direções ao mesmo tempo:
— Criaturinha… Pequeno coelho… você é a próxima vítima. Venha, venha e seja consumido!
Os monges ao redor começaram a recitar preces freneticamente, mas não havia proteção ali. A criatura avançou, seus passos rápidos e pesados, esmagando a paz que até então reinava. Puxei minha espada, o metal reluzindo sob a luz sombria. Mas antes que pudesse reagir, a criatura avançou sobre mim com uma velocidade sobrenatural.
A luta foi um turbilhão de movimentos. Meus golpes, treinados por anos de batalha, eram rápidos e precisos, mas a criatura esquivava-se com uma agilidade impossível. Ela me atingiu com uma força esmagadora, um golpe brutal que fez com que minhas costelas se rompessem com um estalo doloroso, uma dor que fez tudo ao meu redor desaparecer em uma névoa de dor pura. Antes que pudesse me recuperar, ela saltou sobre mim, mordeu meu braço direito com uma força aterradora. A dor foi tão intensa que me fez quase perder os sentidos, mas, com um esforço desesperado, mantive minha espada firme.
A criatura recuou momentaneamente, e foi quando aproveitei a chance. Em um movimento rápido e preciso, cruzei minha espada e acertei o pescoço da criatura, rasgando sua carne podre. Ela gritou, uma gritaria grotesca e cheia de fúria, mas não recuou.
Com um último esforço, criei uma abertura e, com a força que me restava, cruzei o aço da lâmina contra a sua garganta. O sangue negro jorrou, e a criatura desabou no chão, sem vida. Eu estava exausto, sangrando, a dor consumindo cada fibra do meu ser.
Mas antes que pudesse dar um passo, a escuridão me tomou. Caí ao chão, meu corpo um emaranhado de dor. Senti meu sangue sair, quente e espesso, a dor alucinante do meu braço direito e das minhas costelas rompidas. Minha cabeça girava suavemente, mas pude reconhecer o velho monge barbudo, ainda com seu manto negro e cinza. Ele se aproximou, murmurando preces enquanto me tocava.
Eu mal conseguia entender suas palavras, mas o tom dele me trouxe uma sensação de alívio, mesmo em meio ao caos.
— Cavalheiro, você está no limiar entre a vida e a morte. Mas há algo que posso lhe oferecer… Se você aceitar a salvação, se desejar seguir a verdade da Igreja, sua vida será preservada.
Meu corpo, debilitado e atormentado pela dor, resistiu a essa oferta. Mas minha mente, naquele momento, sentiu o peso da escuridão que se aproximava. Eu, com um esforço sobre-humano, olhei para o monge e disse, com a voz embargada pela dor:
— Eu aceito…
A escuridão tomou conta de mim.
Quando acordei, estava em uma sala estranha, cheia de vapores e luzes opacas. O ar estava quente e úmido. Algo acontecera, algo além da compreensão humana. Mas o quê? O que havia mudado em mim? Eu não sabia, mas o temor tomou conta do meu ser. Algo estava diferente… algo em mim tinha sido alterado.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
O Reflexo da Bruxa
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.
No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.
Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.
A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.
Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.
Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.
Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.
Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.
Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.
Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.
Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.
Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.
Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.
Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.
Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.
Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.
Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.
Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.
Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.
Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!
Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.
Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.
Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.
Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.
Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?
A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.
O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.
Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.
O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda. A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.
Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.
O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.
A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.
Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.
Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.
A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.
Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.
A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.
Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.
Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.
Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Pergaminhos do caos sangrento
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na penumbra úmida do Castelo Drácula, Arale Fayax, a felina xamã viajante e hospedeira do alcácer noturno, debruçou-se sobre um diário poeirento, oculto no subsolo de uma livraria decrépita.
As páginas sussurravam segredos selados, e ao folheá-las, sentiu um torpor gelado.
De súbito, o papel dissolveu-se em névoa, e ela foi tragada por um vórtice de palavras e símbolos arcanos.
Ao emergir, viu-se diante de uma ponte tecida de arco-íris manchado de rubi. O solo fremia, e trovões retumbavam em um firmamento tingido de azul-acinzentado. Adiante, numa sala selada, repousava uma ânfora de cristal, onde um líquido rosa e espesso pulsava, reminiscente do sangue corrompido de sua linhagem ancestral.
No exílio de eras, um presságio bradava:
A xamã eleita, em rosa consumida,
Foi pela treva impura convertida,
No sangue selado, em sombra escrava.
Os ancestrais de Arale buscavam pela criatura nefasta que possuíra sua oráculo predestinada, subvertendo-lhe a alma pura. Seu sangue, antes sagrado, tornara-se néctar maldito, e nele a entidade foi selada. Agora, ali diante da ânfora, Arale sentiu um murmúrio vibrar no éter.
As sombras se contorceram, e um espelho velado se ergueu ao fundo. O manto negro que o cobria deslizou por conta própria, revelando o horror do Ttyphrssett. A criatura exsudava a essência pútrida dos famintos, sua pele lacerada por incontáveis dentes que lhe rasgavam a boca por dentro. O fenômeno Nemonium se fazia presente—o tempo quebrava-se, realidades se chocavam.
Com seu machado e lâminas em punho, Arale avançou.
Sua máquina de escrever, ela a cravou no solo enquanto ela pulsava pergaminhos de sangue e registrava a criatura em seu bestiário cósmico e de ossos...
O monstro, ágil como um trovão em queda, deslizou pelo salão, buscando envolvê-la em seus longos membros. Suas veias púrpuras pulsavam com fome ancestral.
Em riste, Arale investiu.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria. Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho. Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou sua adaga rubra no coração pútrido da besta.
Os rugidos da criatura eram a sinfonia da ruína. Seus membros se contorceram, estilhaçando o vidro do espelho em um turbilhão de trevas e ecos de gritos esquecidos. A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
De aço e chamas, dançou com a fera,
Cortando sombras, desafiando a espera,
O fim sangrento, escrito e previsto.
A lâmina rasgou a carne do ser, mas a dor era combustível para sua fúria.
Num assalto cruel, Ttyphrssett enlaçou-a, puxando-a para a superfície gélida do espelho.
Arale sentiu sua carne arder, a barreira entre mundos prestes a consumi-la. Mas com um último fôlego, cravou seu machado com sua lâmina rubra no coração pútrido da besta.
O espelho explodiu em fragmentos de sombras e ecos de gritos.
A ânfora ressoou, vibrando como se as próprias trevas tentassem eclodir.
Arale sabia que o lacre se enfraquecia, o ar estava pútrido e pesado, enguias, águas vivas de sangue e bolhas de veneno e dor e escuridão pulsavam com relâmpagos de sangue pulsantes...
Um tremor abissal eclodia, a terra gritava,
o ar sufocava, o céu derretia...
Fora do castelo, uma cidade impossível erguia-se.
Figuras pálidas caminhavam entre cabras de olhos sombrios.
O canto dos Doutrinadores ecoava de uma catedral sepulcral, oferecendo-lhe absolvição.
Mas Arale não buscava salvação....
Ela buscava a verdade.
Adiante, a Ponte Sem Fim surgia em meio à tempestade.
Se a cruzasse, enfrentaria seus maiores arrependimentos.
Mas era um preço que estava disposta a pagar.
Sob o céu fendido pelo Nemonium,
Arale seguiu,
sabedora de que o véu entre realidades
jamais se fechava para aqueles que ousavam conhecer seus segredos.
Na fenda do tempo, onde a sombra jaz,
O sangue selado em ânfora persiste,
O horror renasce, o ciclo insiste,
E só a lâmina audaz a ruína traz.
Na ponte insana, o vento entoa um pranto,
Lamento frio de almas esquecidas,
São vozes tristes, dores divididas,
Segredos mortos que retornam tanto.
Avança Arale, o olhar de ferro e encanto,
A sombra ao pé, as chagas não dormidas,
No peito, as mágoas são feridas
Que sangram a cada suspiro e canto.
Mas eis que surge um vulto espectral,
Da fenda antiga, um rosto conhecido,
Olhos vazios, do pranto infernal.
A xamã caída, outrora luz, perdida,
Ergue a mão em chamado desleal,
A ânfora pulsa, sedenta, esquecida...
Em tom soturno, o vento traz um nome,
Sussurra em brisa o fado e a perdição,
Arale treme, entre dor e visão,
Pois sente a ânfora chamá-la ao seu tome.
O líquido rosa escorre em puro dome,
Goteja lento, em mágica atração,
O tempo sangra, em cruel perdição,
A felina xamã sorri, selando a fome.
Recolhe do solo sua máquina de escrever de ossos
Mágica o tomo, o machado pulsa o elixir,
Mas se beber, cairá na ruína,
Se recusar, a ponte ruirá,
Ao coexistir, mortos cantarão sua sina.
Eis o dilema, entre luz e os pesares,
Os horrores, as cores, de um obscuro passado que alumia,
Nas sombras do éter, ela há de permanecer,
Criogenia dos pergaminhos do caos sangrento...
Há de eximir tal perigrinação?
Um coração que brada sepulcral,
A neve dança em véu de funeral,
Turva o olhar em névoa carmesim,
Na noite gélida, cântico abismal,
Ergue-se ao vento, soturno e sem fim.
Trepida o solo sob o passo vil,
A sombra ri em eco abissal,
Lâminas brilham em duelo febril,
A ruína espreita em jugo infernal.
Sangue na neve, um rubro espectral,
A xamã clama, a fúria a devora,
No abraço da morte, laço mortal.
Por entre as fendas, o tempo implora,
Arale ruge, em queda final,
O gelo a cobre, a treva a chora.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 5: Renascimento
O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
5º relato
O desassossego noturno retornou para açoitar-me.
Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais, pois esse texto reflete meu estado de espírito perturbado — o registro começou minutos após os eventos.
Eu, notívaga inata e teimosa em semelhante proporção, insistia em lutar contra a minha natureza. Contudo, compreendi que a noite não me trará descanso, mas poderá ser aliada nas minhas aventuras por lugares desconhecidos, internos ou externos a mim.
Contarei sobre um evento terrível e curioso, onde tive que enfrentar os limites da realidade. Novidade! Escavei coragem de um solo árido, até então, nunca regado por mim.
***
Algumas horas antes
Os sonhos arrastavam e sugavam-me para um oceano revolto por correntezas perfurantes. O despertar foi acompanhado de um grito. Gélido ar aspergia lâminas que perfuravam minha pele desnuda, mas as janelas estavam, hermeticamente, fechadas. De onde provinham?
Gritei por Lisa. Nada. Onde ela estava? Já prevendo outra incursão pelos recônditos do Castelo à procura da gata que tinha paixão por entrar em enrascadas, apoiei meu pé direito para levantar-me e o chão quase me paralisou, tamanha frieza com que me recebera.
Estranho. Não lembro de ter presenciado frio tão intenso desde que chegara aqui, mas imaginei ser normal. O chão estava coberto com uma textura peculiar. Ao passar suavemente o pé naquela superfície, ouvi um farfalhar, algo macio, gelado... Neve! O assoalho era um campo nevado!
Não confiei estritamente no tato, meus sentidos estavam diferentes. Não era? NÃO ERA?! Poderia confiar nos meus olhos? Acendi o abajur e a luz iluminava o tapete de gelo, entretanto, permanecia não acreditando no que estava vendo, sentindo.
Estabilizei meus pensamentos. Óbvio que eventos bizarros acontecem no Castelo, por que eu estou surpresa? Vesti um casaco longo de lã em tom de caramelo e uma calça preta justa em um tecido quente e escuro; para aquecer o pescoço, enrolei um lindo cachecol xadrez macio e completei o look calçando as botas de couro preto de cano alto. A quem pertencia aquelas roupas? Saí do quarto e embrenhei-me pelo corredor, cujo chão também estava revestido de neve límpida.
Enquanto percorria os imensos corredores do Castelo, recordava o último encontro com o Drácula: o momento que estava diante das três portas, que ele havia me ofertado, mas nas quais não adentrei. Será que ele havia ficado chateado com a minha rejeição? O que ele poderia fazer com Lisa? Vampiros podem alimentar-se do sangue de animais? Afastei o último pensamento, bobagem pensar que a criatura elegante poderia agir de forma tão vil.
Afligida pela dúvida, segui em direção àquele salão. Tudo estava diferente. Não era mais um salão de festas suntuoso, adornado de luxos e enfeites dourados. Diante da frustração de não encontrar a minha Lisa, nem as portas ou o Drácula, fechei os olhos e, ao abri-los, percebi estar na área externa do Castelo, no jardim!
Guiada pela maldita curiosidade, vasculhei ao redor. O luar iluminava a vegetação esverdeada, sem vestígios de que ali houvera caído neve. Passei pela estradinha com pedras âmbar, a mesma que havia utilizado quando cheguei aqui, mas agora descendo em direção ao portão principal. A temperatura estava amena e senti tanto calor que retirei o casaco e o cachecol.
A caminhada seguia perturbada por pensamentos terríveis, cuja racionalidade insistia em questionar o porquê daquelas alterações bruscas de temperatura e condições climáticas. Calei essa voz que gritava por explicações, pois este local não segue leis e princípios conhecidos.
Cheguei ao portal. Suas folhas eram como espelhos retangulares preenchidos por uma substância semelhante à névoa negra, pulsava e parecia ferver. Aproximei-me, sussurros incompreensíveis me instigaram a tocar na cascata nebulosa. Deveria? Óbvio que não! Mas eu me permiti ir além.
A névoa envolveu-me por completo, preencheu cada centímetro do meu rosto, cabelo, membros e tronco, e sentia-me levitar. Meu corpo, tomado por aquela força ficou em posição horizontal, flutuando. Primeiro foi a minha cabeça que passou por um dos retângulos-folha. Ao longe avistei uma criatura horrível, sem olhos, pele translúcida e com tantos dentes pequenos e afiados que mal podia contá-los.
Sustentada pelo medo-força atravessei, sem de fato mover nenhum músculo, o limiar que separava o Castelo do “Nenomium”, um lugar onde coisas ainda mais impossíveis poderiam acontecer. Amaldiçoei, novamente, a minha curiosidade!
Terminada a transição, percebi que a única coisa que me pertencia era o amálgama de sentimentos, mas agradeci por não ter largado o casaco e o cachecol, pois do outro lado estava deveras frio.
A criatura horrível permanecia inerte, mas sorria de forma a gerar um insensato desconforto, e em fração de segundos, devido sua agilidade excessiva, locomoveu-se e parou frente a mim. O fato de não conseguir sondar seus olhos inexistentes aumentou meu receio.
Agarrou-me pelo pescoço com tanta brutalidade que pensei ser o meu fim. Foi quando ela apareceu, alta, esguia e coberta com longo manto negro, que conferia-lhe um aspecto misterioso, imponente. Uma mulher, acompanhada de dezenas de cabras negras, surgida do além para livrar-me das garras da criatura sem olhos. Com voz firme ordenou para que ele me soltasse. E tal como um servo fiel e obediente abriu de imediato as mãos constituídas de dedos compridos e pele descamadas. Fui ao chão.
Havia sido por pouco. Ao contrário do que costumam dizer, talvez como forma de romantizar a partida, o desespero causado pela aproximação da morte não te faz recordar nada, eu lutava tanto pela minha vida que não tinha tempo hábil para pensar nas coisas passadas. Arrependimentos não foram companheiros.
Recobrei o ar e o pouco de dignidade que ainda me restava. Em todo momento a mulher permaneceu quieta, observando-me. Quando consegui reconstruir a minha eu interior, perguntei seu nome e recebi um silêncio constrangedor como resposta. Teci mais algumas perguntas, as quais nenhuma resposta recebia. Perguntei por Lisa, e ela apontou para o portal, entendi que ela estava no Castelo. Quase morri por uma missão inútil!
Agora, pensando com calma, pergunto-me se eu realmente iria morrer. Tudo aqui é fantástico, não seria a morte uma possibilidade de viver outras vidas, um renascimento carnal e espiritual? Por que eu ainda tenho medo?
Voltemos ao relato. Explicou-me o que era o “Nenomium”. Por fim, disse-me que eu tinha duas opções: ficar naquele local e descobrir verdades almejadas ou voltar para o Castelo e para Lisa. Eu estava realmente preparada para enfrentar situações adversas e desconhecidas? Não! Eu não estava pronta, e não ignorei os meus instintos de sobrevivência, aquela noite já havia me proporcionado emoções intensas e meu pescoço ainda doía. Levantei-me e segui com passos firmes em direção ao portal para retornar ao Castelo. No entanto, ao recordar-me de me despedir, virei-me, mas a mulher misteriosa já não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha e então corri. Não podia depender da sorte novamente: encontrar outra vez aquela criatura voraz não era algo que eu pretendia arriscar.
Do outro lado, de fato, encontrei Lisa. Jazia em frente à porta principal. Seu corpinho estava retorcido, aproximei-me e vi o fio vermelho da vida escorrendo de sua boca. Quem a machucou? Aquela maldita criatura?
Gritei por ajuda. Após muitos gritos e lamentos, Drácula veio ao meu encontro. O rosto impassível emoldurava um sorriso aterrador, imaginei que por culpa e o impedi de se aproximar. Ele ficou me olhando, sem mover um músculo, como que a contemplar meu sofrimento. Esperou eu ficar mais calma e então disse que meu sangue poderia curá-la. À princípio, hesitei, isso era absurdo! Depois refleti:
Que mal poderia fazer? O sangue poderia sim ser a corda com a qual eu a salvaria do abismo que sugara sua frágil vida...
Procurei por um material pontiagudo nos meus bolsos, e é claro que não encontrei nada. Aquelas roupas nem eram minhas! Drácula fitava-me com um olhar que agora entendi ser de compaixão. Na incerteza da sua culpa, cedi. Aceitei os dentes dele cravados em meu pulso, uma leve fisgada seguida de um frenesi instantâneo e indescritível. Não era prazer, orgasmo ou euforia, mas ao mesmo tempo era tudo isso.
Eu o deixaria sugar toda a minha energia, a sensação de não sentir dor, agonia ou tristeza mantinha-me em posição servil, silente. Mas ele cumpriu o combinado, parou o ritual a tempo. O braço perfurado liberou o líquido, o elixir salvador foi vertido na boca da indefesa Lisa. Ela, como quem desperta de um sonho profundo, abriu os olhinhos brilhantes como um céu estrelado. Aproximou-se de mim, delicada, esfregando-se em meu peito, como se pudesse sussurrar um agradecimento mudo pelo sacrifício. Eu chorava e sorria, um turbilhão de emoções dançava em meu ser, enquanto meus olhos buscavam os dele — Drácula!
O que ele fez comigo? Seus olhos, um enigma sombrio, carregavam segredos que eu não podia decifrar, mas havia algo diferente, algo que atravessava o silêncio entre nós. Um laço invisível, inquebrável, parecia nascer ali, conectando-nos de forma mais profunda do que jamais imaginei. Éramos agora partes de um mesmo destino, entrelaçados pela eternidade.
E Lisa, como um raio de sol após a tempestade, está linda e melhor do que nunca.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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17. Castelo Vampírico: O bem que eu quero, esse eu não faço; o mal que não quero, esse faço
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
07 de janeiro? - Fiquei olhando por um tempo, ela deitada em meio a pedaços de vários tamanhos do lampião quebrado e ela já não era aquela criatura assustada de alguns momentos atrás, estava diferente. Ela percebeu que eu a estava observando, mas continuou a montar o lampião bem concentrada em sua tarefa. Me levantei e fui me sentar na cadeira de frente a escrivaninha, cansada do dia de hoje, cansada de tanta coisa que eu ainda teria que fazer e pensar em fazer, e esperei até que ela terminasse, ouvindo os sons sutis que ela fazia. Logo depois, saiu debaixo da cama devagar, trazendo o lampião consigo completamente montado e se sentou no chão de pernas cruzadas, parecia já se sentir à vontade no quarto e na minha presença. Me olhou com aqueles olhos profundos e falou:
— Eu sinto que isso é sagrado, mas não me recordo o que seja, apenas senti que precisava consertá-lo. — sua boca não se mexia, ela tinha voltado a falar dentro da minha cabeça de novo.
Ela levantou o lampião, intacto, sem ranhuras ou partes faltando, e o estendeu em minha direção para que eu pegasse. Seus olhos não se mexiam ou piscavam enquanto me observava, peguei o lampião e eu não sabia se deveria agradecê-la pelo conserto, mas ela esperava por alguma coisa. A situação já era estranha o suficiente para que eu enrolasse demais e não fosse direto ao assunto.
— Escute, você quer eu abra o livro não é, para que suas memórias voltem? — eu disse logo.
Ela confirmou com a cabeça.
— Mas pensando agora, você já esteve junto do livro antes, lá no laboratório, por que não o abriu?
Ela desviou o olhar e me respondeu:
— Há algo nesse livro que me impede de tocá-lo. Só sei que, por mais que eu tente, ele me rejeita, por isso preciso que alguém faça isso por mim.
Sua fala me deixou com um pouco de suspeita. Que tipo de coisa seria tão específica para mantê-la longe do livro?
— Você vai abrir o livro? — ela perguntou sem emoção nenhuma.
— Vou, mas com uma condição. Tem algo que eu preciso fazer, eu vou abrir o livro e te ajudar a lembrar, mas você tem que prometer que vai me ajudar também.
— Eu prometo te ajudar — ela disse e eu queria acreditar que ela falava a verdade, pois não conseguia interpretar suas intenções.
— Ótimo, então vamos começar — respondi.
Virei a cadeira de frente à escrivaninha e peguei o livro por baixo de uns papéis que utilizei para escondê-lo, a criatura se levantou e ficou em pé atrás de mim, esperando o livro ser aberto. A sensação de ansiedade, a vontade de escondê-lo novamente e deixá-lo pra lá, voltou, mas abri o livro. Algo estranho vibrava dentro de mim, e eu não sabia definir o que era. As páginas do livro amareladas, desbotadas, letras e imagens que pareciam vivas, comecei a sentir um desconforto se formar, uma dor que latejava e dava um gosto metálico à minha boca. As palavras não faziam sentido, tudo estava embaralhado, mesmo que eu tentasse focar nas palavras, elas pareciam dançar à minha vista e eram impossíveis de serem entendidas ou lidas. Pude sentir a frustração crescer dentro de mim, me preparei tanto para abrir esse maldito livro e agora não podia compreendê-lo, eu estava irritada.
— Você consegue lê-lo? — a criatura perguntou.
— Não, as palavras mudam, se misturam, parecem não querer ser lidas. — eu disse frustrada, e parecia que falar isso em voz alta para a criatura parecia me irritar ainda mais. — Preciso pensar no que fazer, prometi que iria te ajudar a recuperar suas lembranças e vou encontrar um jeito de fazer isso. Só que quero parar por hoje, o dia foi cansativo e um pouco frustrante, amanhã eu resolvo isso.
A criatura concordou com um leve inclinar de cabeça. Eu estava cansada, frustrada e algo dentro de minhas entranhas se movimentava. Fui dormir e a criatura se sentou na cadeira na frente da escrivaninha com o olhar fixo no livro que ela também não conseguia ler, ficou assim por horas enquanto eu me deixava ser vencida pelo sono.
08 de janeiro? — Fui acordada bem cedo por um som estrondoso, parecia que viria um temporal. Sem demora fui ao encontro do professor Monm, levando o livro. Eu precisava da ajuda dele, então fui incomodá-lo mais uma vez. Fiquei feliz por encontrá-lo, sentado em meio a livros. Quando me viu entrar, não vi surpresa em seu olhar, parecia que já me esperava. Dei bom dia a ele que me respondeu com sua cordialidade de costume, sentei-me em uma cadeira à sua frente e dei a ele o livro.
— Então, esse é o livro que tem tirado o seu sono? — ele murmurou, passando a mão na capa de couro velha.
— Sim, eu tentei ler, mas as palavras se embolam. — disse, gesticulando ansiosa demais para me controlar.
O professor Monm abriu o livro e seu rosto ficou sério, concentrado. Os olhos correndo sobre as páginas. Então ele fechou o livro, olhou para mim e disse:
— Também não consigo lê-lo, Rute.
Eu fiquei irritada, eu sabia que não era culpa dele não conseguir ler o livro, mas acabei sendo hostil com o professor.
— Mas como? Você é o mais qualificado para isso, não é? — a irritação na minha voz me surpreendeu.
O professor esfregou o rosto e pude notar desconforto na sua expressão.
— Não é questão de ser ou não qualificado, o livro está protegido por alguma magia. Há duas forças agindo sobre esse livro, uma que a bloqueia para que seu conteúdo não seja compreendido e a outra é a alma de quem criou o livro, esta alma influencia o portador a manter o livro neste castelo.
— E como só de olhar para ele você consegue saber tudo isso? — disse confusa.
— Bom, não é a primeira vez que dou essa informação a alguém. — ele disse com um quase rir.
— Então o que pode ser feito? — eu disse respirando fundo e tentando manter a calma e já envergonhada por falar com o professor daquela forma grosseira.
— Talvez a criatura saiba a forma de desbloquear o livro, ela parece estar conectada a ele, talvez precisemos de magia para trazer suas memórias de volta, um ritual talvez? — ele disse isso olhando para criatura, parecia esperar uma reação dela.
— Um ritual? — eu disse aquilo quase sem acreditar que saía da minha boca, mas o que eu esperava agora senão mais coisas sobrenaturais fora do meu campo de experiência.
— Sim, um ritual, pode ser arriscado, já que não tem como prever a intenção da criatura, mas como você está tão convicta disso, acredito que vá querer arriscar? — ele me perguntou, mas parecia já saber a resposta.
— Sim, eu vou arriscar, mas quem realizaria esse ritual, não entendo nada de magia.
— A criatura é a única que tem uma real ligação com esse livro, se ela fizer esse ritual com você, talvez você consiga acessar as memórias dela e consiga desbloquear esse livro. — Monm disse.
Olhei para o livro e para a criatura, que ficou sentada em um canto da biblioteca apenas observando e esperando.
— Tudo bem, se é o que precisa ser feito, então vamos fazer. — me levantei já pegando o livro. O professor Monm concordou com a cabeça, sua expressão demonstrava preocupação.
— Eu posso te ajudar com isso sim, Rute, e encontrar alguém que faça o ritual, Ameritt talvez, se ela concordar, mas recomendo fortemente que espere, deixe que eu fale com ela, para saber se este é o momento propício para rituais.
— Mas por que preciso esperar? — falei me sentando de novo.
— Um fenômeno complexo vai se iniciar no castelo, Rute, o nemonium. E não tem como prever o que pode ocorrer se um ritual for iniciado durante esse fenômeno, consigo visualizar diversos resultados, mas não consigo prever com exatidão qual deles irá ocorrer. Ele é um lapso temporal, tudo fica fora de lugar, o castelo e tudo que há nele é levado para fora do seu limiar, tudo é realocado, fendas se abrem nas realidades infinitas dos multiversos e de todos os tempos e isso pode trazer seres desconhecidos. Então me ouça Rute, me deixe conversar com Ameritt primeiro, ela saberá o melhor a ser feito.
Professor Monm foi de encontro à Ameritt me deixando na biblioteca na companhia da criatura, sei que não deveria questionar a ajuda do professor Monm ou mesmo de Ameritt, mas às vezes penso se eles não teriam coisas melhores a fazer do que me ajudar nessas tarefas fora do comum. Alguns minutos depois ele voltou na companhia de Ameritt, o professor me disse que já havia explicado à Ameritt sobre o bloqueio do livro e da alma que estava nele. Ameritt então disse:
— Você sabe o que está pedindo, Rute-besin, entende o perigo disso?
— Sim, eu sei do nemonium. — respondi depressa — O professor Monm me explicou.
— Você entende que talvez o livro não possa ser lido? Que as lembranças da criatura podem não voltar, que se voltarem ela pode não ser o que você espera? E que a alma presa ao livro pode ser perigosa? Vai valer o risco?
— Só tem uma maneira de descobrir. — eu disse convicta. Ameritt me olhou por um tempo, me examinando. Parecia esperar que eu hesitasse, que eu desistisse da ideia.
— Eu farei o ritual, Rute-besin, não quero que sozinha você mexa com coisas que não entende, mas tenho algumas condições, você vai ouvir e fazer cada coisa que eu disser para ser feita.— sua voz estava calma, mas seu rosto tinha uma expressão dura. — Você concorda com as condições?
— Sim — concordei logo.
— Esse ritual de ligação é simples em teoria, porém bastante complexo na prática, isso vai requerer que você e a criatura se conectem mais profundamente, unindo a intenção de ambas, é bastante arriscado, Rute-besin, vocês vão estar vulneráveis a qualquer coisa. Você tem certeza de que quer continuar com isso?
Olhei para criatura e seu olhar não transmitia nada. Concordei com a cabeça.
— Então me siga, tenho um lugar perfeito para isso. — disse Ameritt, fazendo sinal para que seguíssemos ela.
Eu, a criatura e o professor fomos com ela até a estufa onde eu tinha encontrado o livro. Ameritt começou a pegar diversos itens em diferentes prateleiras, velas, sal grosso e ervas secas.
— Vou traçar um círculo de proteção, vocês ficarão dentro dele, esse círculo vai impedir que qualquer coisa entre ou saia do círculo. — ela disse isso enquanto organizava os materiais no chão. Ela colocou o livro no centro do círculo e explicou:
— Você precisa tocar o livro, então você será uma ponte para que as lembranças se revelem. A criatura irá te tocar, eu recitarei um encantamento que vai forçar o livro a revelar as lembranças para vocês.
Ameritt acendeu as velas ao redor do círculo de sal e ervas, murmurando palavras em uma língua que eu não entendia. O professor Monm, no canto perto da porta, estava calmo; verificando, de tempos em tempos, seu relógio de bolso. O ar começou a ficar mais denso, Ameritt pediu para que entrássemos dentro do círculo, eu me sentei, a criatura se ajoelhou na minha frente e o livro entre nós.
— Coloque suas mãos no livro, Rute-besin — ela ordenou, olhou para criatura. — E você toque nela.
Coloquei as mãos sobre o livro, sua capa fria e áspera, a criatura ajoelhada de frente a mim, estendeu as mãos e a pôs devagar sobre a minha cabeça. Ameritt começou a recitar o encantamento, sua voz ia ganhando ritmo e vibrava dentro daquele local, o livro começou a aquecer. Olhei para a criatura e seus olhos começaram a brilhar com uma luz dourada e intensa. Fechei meus olhos e senti algo dentro de mim ser puxado para fora, como se algo externo estivesse tentando fazer o que estivesse dentro de mim sair para que tomasse seu lugar.
— Concentre-se, Rute-besin, mantenha o controle. — gritou Ameritt.
Mantive meus olhos fechados e me concentrei na voz de Ameritt, me concentrei em trazer as memórias da criatura de volta. E de repente o mundo a minha volta desapareceu, minha mente se tornou vazia, apenas trevas e silêncio; depois sussurros, vozes, gritos de horror e lamentos. Mantive minhas mãos sobre o livro, e senti uma energia me atravessar como um soco no estomago, tão forte que parecia me ultrapassar. Minha mente foi preenchida de lembranças que não eram minhas, sons que iam aumentando de intensidade até se tornarem imagens bem vividas, florestas escuras, sangue, medo, morte, assassinato, um desejo incontrolável de fazer o mal, uma grande figura esculpida em pedra escura vestindo um manto negro. Eu sentia a criatura vibrar, suas mãos apertando minha cabeça, seus dedos entre meus cabelos pressionando e vibrando, eu ouvia palavras incompressíveis. As imagens pareciam ficar mais claras, eu via uma mulher correr para dentro de uma catedral imponente e escura.
As imagens ficaram mais rápidas, como se jogadas no meu cérebro uma atrás da outra, algumas rápidas demais para que eu pudesse acompanhar e guardá-las em minha mente. Eu via a mulher vestida de preto, vi sua alegria enquanto tirava a vida dos que cruzavam seu caminho, eu vi o livro, depois ela entrando no castelo Drácula, ela tirando a vida de outras criaturas com um olhar impassível. A última imagem era a mulher falando palavras que eu não conseguia entender e depois somente vazio, o nada. As imagens se dissiparam e finalmente eu consegui abrir meus olhos, olhei para criatura e seus olhos bem abertos brilhavam com uma luz azul muito forte que também saía de sua boca escancarada. A única coisa que eu conseguia sentir ao olhar para ela era medo e repulsa, me desvencilhei dela, me levantei e sai correndo, Ameritt continuou proferindo o encantamento e Monm, em vão, gritou para que eu continuasse dentro do círculo.
Corri para fugir daquela vontade de fazer o mal, e me vi dentro do castelo, a temperatura despencava com violência, e o frio que eu estava sentindo naquele momento era incômodo e devastador. Caminhei pelos corredores do castelo, me arrastando, eu estava perdida em lembranças que não eram minhas, pensamentos e vozes que eu não conseguia controlar. Os fragmentos de lembranças da criatura queimaram a minha mente, desesperança, desprezo, raiva, um vazio que eu não conseguia preencher, eu me sentia um nada, um sussurro sem uma origem, um ser sem forma, apenas uma vontade vazia de sentir. Pelas janelas do castelo eu via uma tempestade de neve a cada minuto ficar mais agressiva, junto com sons de trovões que pareciam fazer meu interior vibrar, escorada nas paredes do castelo eu conseguia sentir ele também vibrar.
Um trovão ressoou e o som da ventania parecia um lamento, eu sentia estar perdendo a sanidade, eu não conseguia me controlar e voltar ao ponto de equilíbrio dentro da minha cabeça. Os corredores pareciam ficar mais escuros e dentro de mim eu desejava que fosse a falta de iluminação e não um princípio de desmaio, a escuridão começou a ser tingida de uma azul acinzentado, ganhando cada vez mais intensidade. A cada corredor que eu passava para chegar ao meu quarto, comecei a observar que todos os quadros e espelhos estavam cobertos por um manto negro. Tudo parecia tão sufocante, tão odioso e desprezível! Um estrondo cortou o ar, que fez meu coração disparar, meu olhar foi atraído para um dos espelhos cobertos que estava à minha esquerda, parecia pulsar como um coração assustado, e eu juro que eu ouvi minha própria voz sussurrar dentro daquele espelho, as palavras no início não pareciam claras, o som da nevasca lá fora parecia impedir que eu entendesse, até que a voz aumentou e eu a ouvi soltar essas palavras:
“Você não suportou o sofrimento dela, não é? A infelicidade dela te fazia infeliz e você deu um fim a isso.”, “Você queria matá-la, você desejava isso tão profundamente que não conseguiu resistir ao impulso, não foi? E agora não consegue lidar com a culpa.”, “O amor sujo e indigno que ela tinha por você foi o que a enlouqueceu, você não soube lidar e deu fim a isso, não foi?”, “Você a fez pecar, prometendo que sempre estariam juntas, e agora ela está morta e você ficou feliz por isso, confesse!”
Eu não conseguia me afastar, e um impulso tão visceral quanto o desconforto que eu estava sentindo me fez ir até o espelho. “É apenas um espelho, não há nada lá.” eu disse pra mim mesma, tentando me convencer da lógica, tentando colocar a razão no controle. Eu ergui o manto e a criatura que apareceu no espelho era um pesadelo esculpido em carne, sua pele pálida e bastante esticada sobre seu corpo grande, veias pulsantes, olhos sem íris e retina. E o seu sorriso horrendo com dentes, muitos finos feito agulhas, que me fez congelar. Por uma questão de segundos, achei que aquilo era o meu reflexo, que o ritual, as lembranças, toda aquela confusão e ódio, tinha me transformado naquela criatura horrenda, e não nego que seria um castigo muito bem-merecido por todo mal, que naquele momento, eu estava desejando fazer. Aquele ser cheirou o ar em minha direção, ainda dentro do espelho. Joguei o espelho no chão, que ficou em pedaços, respirei aliviada apenas para logo depois sentir algo apertar meu calcanhar, o que me fez cair no chão com um som abafado e batendo minha cabeça na queda. Eu estava sendo puxada para dentro dos fragmentos do espelho por um braço longo, eu não tinha forças para me desprender, estava tonta e fraca, não tinha forças para lutar contra. Um brilho, então, azulado e muito forte, preencheu o local onde eu estava, fazendo a criatura do espelho guinchar e soltar meu calcanhar. Alguém tinha vindo em meu socorro.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Velian: No Limite do Vazio
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual de prazer e sobrevivência, tornara-se algo mais sombrio e impulsivo. Ele matava mais que o necessário, mas nunca de forma descuidada. Como um predador meticuloso, seduzia homens e mulheres com sua presença magnética, arrastando-os para noites de prazer e promessa, apenas para desaparecer sem deixar vestígios. Para alguns, deixava apenas um vácuo insuportável de paixão não correspondida; para outros, um destino mais definitivo, corpos drenados em quartos de motéis baratos, em vielas abafadas ou em apartamentos frios onde apenas o cheiro do sangue indicava que algo terrível havia acontecido.
Ele queria se sentir vivo, queria encontrar sentido em sua fome, em seu jogo de sedução e destruição, mas tudo o que encontrava era mais vazio. A paixão ardente dos amantes logo se tornava uma poeira esquecida, o terror dos moribundos se dissipava na banalidade da rotina da cidade. O caos que ele causava não lhe trazia nenhuma epifania, apenas uma sensação crescente de que estava fugindo de algo que nem mesmo compreendia.
Numa noite particularmente abafada, Velian se viu em seu quarto, um refúgio de sombras e silêncio, onde apenas a cidade distante, viva e indiferente, pulsava lá fora. Sentia-se cansado, exausto de sua própria existência. Estava farto das promessas de prazer e do gosto do sangue quente. Farto da imortalidade que não lhe trazia respostas, apenas mais perguntas sem solução. Ele se deitou dentro de seu caixão, não para descansar, mas para escapar.
Então, o chamado veio.
Ele sentiu o ar mudar, a realidade tremer. A grande cidade de Fortaleza ficou para trás, e, quando abriu os olhos novamente, estava no Castelo Drácula, envolto em névoa e frio. Os ventos obscuros rugiam contra as muralhas ancestrais, e flocos de neve dançavam no ar gélido, trazendo uma sensação de deslocamento impossível. O tempo havia se partido. O mundo, por um instante, parecia outra coisa, algo entre o real e o inexistente.
Ele caminhou lentamente pelos corredores da fortaleza até os portões exteriores, onde encontrou um mundo que não deveria estar ali. Casas estendiam-se ao horizonte, como se um lapso do tempo e do espaço tivesse arrastado toda uma civilização para dentro do limiar do Castelo. E foi ali, no meio desse cenário de distorção e silêncio, que a viu.
Uma mulher de manto negro, segurando um cajado de carvalho com uma pedra negra incrustada na voluta, guiava um pequeno rebanho de cabras negras. Seus olhos refletiam algo ancestral, algo que Velian não sabia nomear. Ela não parecia pertencer a esse mundo, mas tampouco destoava dele. Algo em seus olhos lhe diziam que ela conhecia a natureza vampírica, mas também não era um deles, parecia ser também uma magista poderosa e Velian já tinha conhecido bruxas e magistas grandiosas, mas era algo que não só dominava, mas que parecia possuir toda a magia conhecida e desconhecida do universo. Ela era como uma sombra que sempre estivera ali, pairando, apenas esperando que ele a notasse.
Ele se aproximou, sentindo um misto de irritação e fascínio.
— Quem é você? — Sua voz era baixa, arrastada, como se cada palavra fosse um peso que carregava há séculos.
A mulher ergueu os olhos para ele e sorriu levemente, um sorriso que era tão antigo quanto a noite.
— Sou a pergunta que nunca terá resposta, Velian.
Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo, não de medo, mas de algo mais profundo, um reconhecimento involuntário. Por meio de suas várias leituras ao longo dos anos sobre mitologias, deusas e deuses antigos, parecia que o vampiro estava diante da deusa da própria noite, conhecida pelos gregos pelo nome de Nix, uma deusa que até o própria Zeus temia. Mas Velian desejou continuar o diálogo com esse ser tão desconhecido, primordial e poderoso e em seu tom desafiador, crítico e sarcástico de vampiro secular respondeu:
— Eu já tive todas as respostas — murmurou, desviando como o olhar. — Mas nenhuma delas valeu de nada.
— Porque você fez as perguntas erradas.
O vampiro soltou uma risada irônica e amarga.
— Então me diga, qual é a pergunta certa?
A mulher tocou o cajado no chão, e a realidade ao redor deles pareceu oscilar, como se estivessem flutuando entre mundos.
— Por que você continua?
Velian ficou em silêncio.
— Você bebe sangue para sobreviver, mas não sente mais prazer nisso. Seduz humanos, mas não se importa com eles. Provoca paixões e abandona-as, mas isso não preenche nada. Mata, mas a morte se tornou banal. Então, por que você continua?
Ele sentiu a irritação crescer dentro de si.
— Porque não há outra opção. Eu existo, e essa existência tem um preço.
— Mas quem lhe disse que você precisa pagar esse preço assim?
O silêncio caiu entre eles. A mulher parecia esperá-lo chegar a uma conclusão por si mesmo.
Velian respirou fundo, um hábito humano que ele nunca abandonara.
— Eu sinto... como se estivesse abandonado pelo próprio universo. Como se nada importasse. Mas eu não quero desaparecer.
A mulher assentiu.
— É essa a verdade. Você não quer desaparecer. Você tem medo do vazio, mas também tem medo da existência. Então fica preso na dúvida, na monotonia, na repetição. Mas as dúvidas são sua única salvação.
Ele olhou para ela com um misto de desconfiança e curiosidade.
— Por que você diz isso?
— Porque são as dúvidas que o fazem continuar. O desejo morre, o prazer desaparece, as paixões são efêmeras. Mas a dúvida... essa nunca o abandona. É ela que o mantém de pé, mesmo quando você acredita que não há mais sentido. É ela que o faz buscar algo, mesmo sem saber o quê.
Velian sentiu um frio estranho percorrer seu corpo. Havia algo certo nas palavras dela. Algo incômodo, mas verdadeiro.
— Eu achei que espalhar caos e destruição me fizesse sentir vivo — admitiu, quase para si mesmo.
— Mas só o deixou mais vazio.
— Sim.
A mulher se aproximou, sua voz tornando-se um sussurro antigo, um eco de algo perdido no tempo.
— Então, pare de buscar sentido em fins e comece a buscar sentido no próprio caminho.
Velian sentiu um peso deixar seu peito, mas não sabia o que isso significava. Ele olhou para a mulher, mas ela já estava se afastando, desaparecendo na névoa.
— Espere. Quem é você, de verdade?
Ela virou-se uma última vez, e seus olhos brilharam como estrelas distantes.
— Eu sou o que você sempre soube, mas nunca quis aceitar.
E então, ela sumiu.
O Castelo Drácula retornou ao seu estado habitual, e Velian sentiu-se sozinho novamente. Mas, desta vez, a solidão parecia diferente. Ele não sabia explicar o que havia aprendido, mas sabia que algo dentro dele havia mudado.
Velian voltou para seu quarto, na cidade de Fortaleza, nordeste do Brasil e lembrou por que decidiu habitar ali, os costumes nordestinos e cearenses eram hilários, engraçados e as pessoas eram mais simpáticas e possuíam um animo para a vida diária que o fascinava, diferente da frieza europeia, e isso o despertou por um tempo, mas o vampiro também percebeu a pouca força, consciência e vontade de organização social para enfrentar problemas coletivos que a raça humana enfrentava ali naquela região e isso junto de todas as mazelas que já existiam também na antiga Europa e em outras partes do mundo.
Assim, mais uma vez, o vampiro entendeu seu tédio, sua chateação e medo do vasto mundo que parecia não parar de crescer de forma caótica sem uma finalidade e um sentido e Velian percebeu o quando ainda se apegava a essa ideia mortal de sentido e de coerência no vasto mundo e decidiu dormir um sono longo. Não porque estivesse cansado, mas porque precisava de introspecção. Apenas o Castelo poderia acalentá-lo, e ele esperaria até que fosse chamado novamente.
E, enquanto o vento soprava lá fora, trazendo consigo os sussurros da noite, Velian fechou os olhos, mergulhando na escuridão não apenas de seu quarto e seu caixão, mas também de seus próprios pensamentos.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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O retorno de Cernunnos
A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A matéria que suavemente vela o meu corpo, fora feita da suprema energia que permeia o universo. Sou um navegante do tempo a brindar com esferas, no Limiar sou fragmento, sou aquele que as criaturas desperta…
O sucumbido grito meu, tentou alertá-los sobre a travessia, todavia, o Limiar rejeita e castiga aquele que não estiver em sintonia, pois o tempo sob o comando teu, é navalha a gerir carnificina.
Na fenda mais profunda, criaturas se gladiam, são deuses de suas histórias, imbuídos em prol da glória, de tecer seus destinos, com o sangue que agora jorra.
No âmago da fenda, repousa o ancestral vampírico, semente adormecida no ventre do caos. Das essências derramadas, serpenteia a força primitiva - Cernunnos desperta, sua coroa de chifres tecendo sombras no limite do real. Em Lencastre, receptáculo da noite eterna, fundem-se as energias prístinas... O Limiar estremece, pois nas veias do imortal corre agora o poder do deus selvagem, e do sacrifício nasce a aliança sagrada, entidade que carrega em si a sabedoria das eras, onde predador e protetor são um só no tecer dos destinos.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Diário de Áurea Lihran — Trecho nº1
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Elas se calaram… as vozes do meu abismo. E agora perduro em Selenoor como quem a ela pertence, uma rainha índigo de sangue e solidão. Em uma profunda tristura, vejo-me irreconhecível em meu âmago, perdida no esquecimento. Vejo Rosaemoris congeladas no tempo, aguardam-me em uma paciência serena. Ouço corvos brancos próximos, nos céus de tom azul-marinho, eles crocitam minha angústia. Eles são como o triste piano em meu peito, o agouro da minha condição.
Mesmo sem lembrar do que vivi, a saudade é a lágrima que verte em um carmesim profundo, dos meus olhos aos meus lábios. “Selenoor é esta lua lúgubre que vês, doce vestal, ela te irriga como planta rara; ouça-a azulescida em teu peito…” — Cantara Lahgura até desaparecer como miragem. Como é sê-la? Poderosa, mágica… quem é Lahgura? Quem sou? Esta anil atmosfera enternece-me… é sopro de melancolia e temo que redigir essa abíssica verdade, leva-me ainda mais em sua silente imersão hostil.
Alguém bate à porta, suave como mãos femininas… creio ser uma visitante disposta a me salvar do meu azúleo afogamento interior.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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O Memórum de Olga Nivïttz: Masqarilla
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
— Por que tão irreconhecível, caríssima Olga? — Dissera Drácula, tomando seu liquor-carmesim. Sorri ao ouvi-lo, sempre me agradava a sua presença, entretanto a máscara dourada e ornamentada impedia-o de saber de minhas expressões faciais. Meu longo vestido escarlate em veludo, possuía um fardo pouco hostil, com detalhes em cetim e renda negra. Era de beleza estonteante, melancólico como quem o vestia.
— Prefiro a discrição, meu querido. — Respondi-lhe com voz suave, aproximando-me dele enquanto observava-me no espelho do aposento, magnífico espelho com adornos em voluta.
— Hum… deixas o fardo de anfitrião em meu dorso para que possas usufruir do anonimato. — Proferiu com suave escárnio. Toquei-lhe a face, sutilmente.
— És um sui generis anfitrião, amável Conde. Sabes que quanto mais pessoas souberem quem sou, mais risco há de vir sobre este alcácer atemporal. — Relembrei. Drácula apenas assentiu. Meu lar vincula-se a mim; minha dor é sua dor, tanto quanto meu prazer e meu pensar; o fim da minha existência sucumbiria cada torre que fora aqui, um dia, erguida; a cruz da consciência pelos que residem n’este imo, no antro de sangue vivo e scripta manent, não é apenas um adorno. Espíritos e corpos, criaturas e entidades; sob minha proteção, pelo meu Castelo. Embora, em sua ironia e humor característicos, Drácula impulsione em verbo a verdade de seu encargo de Anfitrião, ele sabe que sem tal ventura sob si — e sem a minha solidão por cautela e dever, os males que podem emergir externo ao meu controle serão, decerto, fatais a todos e, em especial, a ele.
Entretanto tais pensares não afloraram em meu ser naquele instante. Ver-me o reflexo tão gracioso em ouro e veludo escarlate, trouxe-me uma sutil languidez advinda d’outros males. Ouvia ao fundo a valsa do salão e os risos longínquo dos tantos convivas. Vi, quebrantando minha distração emocional, Drácula levantar-se, aproximando-se de mim; o espelho de Sirenniha era o único capaz de refleti-lo. Atrás de mim, envolveu-me com seus braços e pôs em meu pescoço um belíssimo colar.
— Para que, mesmo irreconhecível, sejas a mais bela d’este fabuloso evento. — Sussurrara acariciando-me os ombros. Toquei o colar.
— Fascinante… do que é feito? — Indaguei encantada pelo lume dourado profundo, quase enegrecido e envelhecido, daquela joia rara.
— Chamo de nithiurium. Há de sedar as tuas angústias pelo período que usá-lo; reluz em dourado arcano, pois há um sigilo em seu fecho. É o mesmo sigilo que há de prensar sutilmente o teu pescoço, se assim desejares. — Toquei o fermoir, senti a energia de Pherhesí.
— Como tu poderás salvar-me da morte por asfixia? — Drácula sorriu.
— Tomei as necessárias precauções, minha Dama. — Olhou-me, então, somente como teus olhos o poderiam fazer. — Teu fascínio pela dor não alcançará a capacidade suave d’este pequeno artefato. A lapidação e seu poder estão na medida para o teu prazer, não para tua morte.
Toquei a face de Drácula, acariciando-o em agradecimento.
— Permita-me… — Disse, beijando-me o dorso de minha mão esquerda. — Uma primeira dança. — Assenti, reverenciando-o. Iniciamos os movimentos calmos e sincronizados. Sem palavras a pronunciar, pois, não era preciso. Drácula sempre fora meu confidente, sabendo minhas dores e amores, meus pecados mais sombrios; a cor viva de meu sangue amaldiçoado. No fim da dança, beijou-me a fronte e, depois, meus lábios — sobre a máscara que cobria toda a face. Ergueu-me sua taça vazia, indicando que buscaria mais liquor para sua bel fascinação. Dei-lhe adeus e o vi sair pelos umbrais. Tal como pressenti e intui ao dar-lhe minha seiva de vida, Drácula, quando próximo, é uma companhia intrigante e agradável, capaz de quebrantar minha catatônica introspecção, permitindo clareiras abrirem-se sobre a densa floresta que me sou, todavia, sob familiar circundante solitude, segui para meu destino: o salão da Masqarilla.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 4: Da selva de pedras e espectros do passado
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
4º relato
“Nascida na selva de pedra,
poluição e concreto, vis companhias,
na prisão onde a alma se quebra,
vivo e morro em rígidas galerias.”
Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei, o local que era a extensão do que eu sentia, vivia. Era uma criatura da cidade, nasci em meio à cacofonia de ruas lotadas de pessoas que se embarravam, e não se conheciam. Era mais uma na multidão, minhas questões só importavam para mim. Grandes poetas exaltavam a natureza, por suas belezas e capacidade de recomeçar, respeitando os ciclos e estações — em contraste com a nossa existência caótica e perturbada. Não ouso dizer que eles não tiveram suas dificuldades, mas para mim é extremamente difícil falar sobre essas belezas e sobre os sentimentos bonitinhos. Eu somente salvo a mim quando mergulho nas águas turvas e inóspitas das palavras brutas e sentimentos controversos.
A atmosfera lúgubre do Castelo aflora esses sentimentos, mas não estou infeliz. Sinto-me cada vez mais impulsionada a criar. As palavras escorrem das minhas mãos e encontram abrigo no papel límpido, agora desvirtuado pela tinta magenta ou negra. Na tela, fenômenos semelhantes ocorrem, e as pinceladas dançam na superfície como se fossemos a completude um do outro.
Após horas de criações, muitas das quais foram descartadas, pois estou cada vez mais exigente — o tempo me é amigo, e eu posso me dar ao luxo de recriar sem me preocupar com prazos ou com pagamentos batendo à porta.
***
Não sei precisar se estava acordada ou dormindo, mas sentia-me num estado de semiconsciência, como se houvesse ingerido alguma substância alucinógena (O que será que Ameritt colocou naquele chá que trouxera para mim?), mas percebi estar a contemplar a minha última obra: era o infinito, o fundo negro com degradê de tons diferentes do negro mais brilhante que já pude ver em uma tinta. As estrelas brilhavam, causando impressão de estarem se mexendo e pulsando no ritmo das batidas do meu coração. As luzes-estrelas se aproximavam e cresciam de tamanho, estavam em velocidades distintas, cada uma seguindo o ritmo autoimposto.
Não conseguia parar de fitar aqueles belos pontos brancos brilhantes. Minha visão não ficou totalmente enuviada, mas ao passar os olhos por cada uma delas sentia um leve desconforto, semelhante ao que se sente em uma montanha russa: um incômodo que você não recusa, pois diverte, e aceita todas as vezes que lhe oferecem.
Fiquei naquela posição por um tempo que não soube determinar. As luzes perfuraram o limiar infinito-tela e romperam a barreira da realidade: as luzes projetaram-se para fora, como hologramas e tornaram-se espectros das pessoas do meu passado, justamente aquelas que não queria encontrar novamente. Gritei. Virei-me para sair do quarto, não podia permanecer naquele local com aqueles execráveis.
— Siga-me — disse Meia-noite.
— Você novamente... então estou sonhando?
— Vamos!
Eu o acompanhei, não me importava para onde ele iria me levar dessa vez, mas qualquer lugar seria menos aterrorizante do que permanecer ali, com eles.
Corríamos por caminhos e corredores, novamente, nunca percorridos anteriormente por mim. Os corredores eram iluminados por luzes violetas, cujo reflexos nas paredes pareciam recriar seres etéreos, ora divinos, ora fantasmagóricos. Será que novamente eu seria obrigada a entrar naquela banheira?
Parei. Exigi que Meia-noite me dissesse para onde iríamos.
— Não, eu não a levarei novamente para a banheira. Mas você precisa enfrentar seus demônios, senão ficará sendo constantemente assombrada por eles.
— Não há alguma forma de esquecer tudo isso? Eu não aguento mais!
— Há uma forma, mas você estará disposta a entregar-se?
— Eu não sei, depende do que me será exigido...
— Você irá descobrir...
Um frio gélido lambeu minha espinha. Meia-noite esboçou um sorriso enigmático, mas que me assombrou. Continuamos seguindo um destino incerto para mim, mas agora andávamos calmamente. Aos poucos as luzes do ambiente foram transmutando-se de violeta para leves tons de escarlate. Ouvia sussurros entrecortados e sôfregos concediam ao local aspecto dantesco.
Chegamos a um salão amplo. Os lustres transbordavam luzes vermelhas. Havia estantes recheadas de livros clássicos, com capas vermelhas, verdes e azuis belíssimas e estilizadas com letras douradas, que reluziam como se feitas de ouro (e provavelmente eram, pois o luxo não era problema naquele Castelo). Os vastos móveis, mesas, armários e cristaleiras eram adornados de objetos metálicos de prata e ouro envelhecido, cujos reflexos enuviavam minha visão. As poltronas e cortinas eram de veludo vermelho, similar as que tinham no meu quarto. Enquanto observava maravilhada cada detalhe, nos móveis, teto e paredes, percebi que ao fundo havia quatro portas, e Meia-noite, antevendo a minha pergunta, começou a proferir:
— Atrás de cada porta haverá um acontecimento de sua vida, uma violência que foi causada por um daqueles que estiveram em seu quarto. Você poderá interferir, poderá eliminá-lo da forma que quiser. Mas saiba que qualquer alteração do seu passado irá reverberar no presente: Novas versões suas serão criadas. A sua versão atual será a principal e continuará aqui no Castelo, em segurança, mas não terá consciência das outras, elas também não saberão sobre você. Elas terão novos destinos, outras pessoas irão cruzar os caminhos delas. Elas poderão passar por situações muito piores que as suas, mas você irá se livrar das suas dores, pois todas as memórias tristes que envolviam o eliminado serão apagadas, como se nunca tivessem ocorrido.
— Todas?
— Sim, todas. Mas as suas outras versões poderão continuar o tormento...
Eu nunca me considerei uma pessoa altruísta. Não fazia trabalho voluntário ou doações, não porque não considerava importante, mas porque gastava meu tempo tentando sobreviver na selva de pedras e, sendo sincera, não queria me esforçar para deixar os outros bem. Mas eu nunca fiz o mal para os outros de forma deliberada. A ideia de condenar outra pessoa — ainda que versões de mim — à uma vida miserável me incomodou extremamente.
Quando virei para falar para Meia-noite que iria recusar a tal proposta, deparei-me com uma figura enigmática. Esse Castelo ainda me deixará entregue à loucura!
Permaneci inerte enquanto fitava-o, e ele retribuía minha hesitação com um olhar cortante. Era alto, belo e trazia sobre os ombros uma capa negra com finos entalhes dourados, conferindo-lhe um ar altivo. Alguém que já havia encontrado anteriormente.
— Drácula? — Perguntei com voz quase inaudível.
— Sim... Fiquei intrigado com a vossa escolha. Faz eras que não cruzo o caminho de um mortal cujo coração, embora puro, pulsa dissabores e destila amargura.
— Eu não tenho o coração puro...
— Quero lhe mostrar algo... — disse ele, com o olhar sombrio e hipnotizante, enquanto apontava para uma estreita passagem entre as estantes, onde antes havia quatro portas, agora desaparecidas.
— Eu não sei se quero entrar...
— Compreendo... Passastes por experiências incompreensíveis neste Castelo, e é natural que as descobertas lhe causem inquietações. Deves adentrar a passagem por tua própria vontade. Aguardarei a tua vinda... Venha quando estiveres preparada.
E, sem aguardar minha resposta, envolveu o rosto com a longa capa e desvaneceu no ar, como se atravessasse um portal oculto para as sombras.
Quais descobertas me aguardam através da passagem? O que Drácula reserva para mim? Espero em breve descobrir.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Sinfonia noturna das palavras
Sob o manto negro da Lua Túrgida, | onde os mistérios nascem das sombras, | você, alma peregrina, ousa encarar o abismo? | O céu tinge-se de azul profundo,…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
I.
Sob o manto negro da Lua Túrgida,
onde os mistérios nascem das sombras,
você, alma peregrina, ousa encarar o abismo?
O céu tinge-se de azul profundo,
uma tinta escura que escorre do próprio coração do universo,
e o castelo, desfeito e distante, chora
sob a penumbra rubra de seus terrores antigos.
Ali, entre as paredes de pedra que sussurram,
as criaturas que espreitam nas sombras se erguem,
monstros que não são de carne,
mas do medo que habita as profundezas da alma humana..."
Arale, a felina da noite, a escriba das sombras,
pulsando com a força ancestral das estrelas que se esgueiravam pelas cortinas de veludo negro.
Seus passos eram ecos distantes de uma era esquecida,
onde a própria biblioteca se alimentava do seu silêncio,
onde livros sussurravam, não mais palavras, mas segredos,
não mais histórias, mas destinos que não estavam escritos.
Arale encontra algumas páginas queimadas pelo solo de pedra e algumas folhas voando
próximo às velas de um azul cobalto tingidas pela luz da lua que rasga o vitral próximo à torre da janela do alto do Castelo...
Enquanto andava entre os corredores, foi absorvida pela abissal força da Biblioteca como uma osmose de sangue ali, uma caçadora de pesadelos,
seu machado dourado, refletindo o ouro de um sol que nunca nascera
nem se punha no horizonte daquele castelo desfeito pelo tempo.
As páginas dos livros se abriam, mas suas palavras
não eram mais compostas de tinta e papel. Não, eram entidades,
sombra e carne, ganhando forma sob o olhar atento da felina.
II.
"A Lua Túrgida, pálida e inclemente,
desvenda os segredos ancestrais enterrados nas raízes do tempo,
seus olhos ardentes refletem os horrores do passado,
aqueles que foram esquecidos, mas jamais perdoados.
E você, ser imortal, sente em sua carne
a presença de algo que não pode ser nomeado,
uma fome que reside em seus ossos,
um monstro feito de sombras e silêncio,
buscando a luz que nunca será..."
Um livro se ergue, e do seu interior uma mão sai,
mãos de páginas que se entrelaçam como raízes,
tentando agarrar sua garganta.
Mas Arale, com a fúria da lua cheia,
afasta com um golpe preciso, o machado dourado cortando o vazio
como um fio de lâmina cortando o próprio destino.
— Aqui é o domínio do além, mas ainda sou eu quem escolho o meu caminho —
pensou ela, com seus olhos dourados que ardiam
como se o sol vivesse ali dentro...
III.
"O inverno avassalador surge como uma onda de gelo,
engolindo tudo o que tocou, tudo o que é vivo.
As árvores, curvadas sob o peso da neve,
se transformam em esqueletos de sua própria existência.
Os ventos cortam a carne e a alma,
e a escuridão se estende como um véu eterno.
Mas é nas sombras que a verdade se esconde,
nas cavernas profundas do castelo onde os pesadelos dançam,
onde cada suspiro é um eco do que foi,
do que nunca será..."
Nos quadros das paredes, os rostos antigos
assistiam em silêncio, esperando para se desfazer em sombras.
Mas Arale não se deixou enganar,
sabia que atrás de cada pincelada estava uma criatura à espreita,
silenciosa como os ventos que passavam pela torre do castelo.
Uma figura, um espelho. Da superfície prateada, algo se contorce,
uma figura que a olha como um espelho distorcido.
Arale avança, e no momento em que o machado toca o vidro,
uma explosão de luz e trevas se entrelaça, como se o tempo fosse rasgado.
IV.
"Rosa sangrenta, mandíbula do amor,
tingida pelo sangue da Morte,
um amuleto que pulsa com a energia do fim.
A cada passo, a rosa arde em sua mão,
uma chama vermelha que não se apaga,
um lembrete do abismo que aguarda,
do fim que se esconde atrás das estrelas apagadas.
Se o horror do fim te alcançar,
entregue a rosa à Morte,
pois ela, em sua sabedoria sombria,
te devolverá à vida com um vigor que não pode ser explicado,
um renascimento que é ao mesmo tempo condenação e libertação."
—Eu não sou o reflexo, eu sou o desfecho.
pensou, e o espelho se quebrou, espalhando em pedaços,
não vidro, mas carne e alma que jaziam no fundo de uma realidade
onde o refletido era o predador e o predador o reflexo.
As velas tremeluzem. Mas não são chama,
são olhos, pequenos olhos que queimam com desejo de devorar.
Lá fora, a noite parecia se esticar em um limbo de estrelas apagadas,
mas ali, nas profundezas do castelo, tudo era eternamente noite.
As velas falavam, sussurravam segredos de um mundo
onde o medo se encarnava em formas monstruosas.
Arale levanta o machado,
um golpe certeiro apaga a chama e faz os olhos se desvanecerem
como fumaça no vento do próprio medo.
V.
"Os monstros que habitam o castelo não são apenas de carne,
mas de história, de memórias que ainda sangram,
de pecados que nunca se redimiram.
Eles buscam a luz da Lua Túrgida,
o pálido lume que ilumina o caminho da consciência.
E você, caminhante, está pronto para ver o que eles revelam?
Está pronto para enfrentar os horrores que despertarão dentro de você,
os monstros que estavam sempre ali,
esperando na escuridão do seu ser,
e, quando a Lua Túrgida brilhar,
eles sairão para te encontrar."
Por trás das cortinas, um movimento.
Uma sombra que se arrasta, um vulto no fundo da biblioteca,
onde os livros eram mais vivos que os seres que os liam.
Ela caminha até a estante, suas garras traçando círculos no ar,
e, de repente, um livro se abre, e uma sombra,
uma criatura que jamais deveria nascer de tinta e papel,
salta para o espaço, um monstro de letras disformes.
Com um grito que não mais ecoa,
Arale mergulha na luta, seu machado cortando e perfurando
a carne do monstro que se dissolve em palavras
enquanto ela avança, até o fim de sua missão.
VI.
"Mas não tema, querido leitor, pois você não está sozinho.
Carregue a rosa, com seus espinhos tingidos de carmim,
e saiba que, enquanto o horror te rodeia,
a luz da Lua Túrgida não é só escuridão,
mas uma revelação de quem você realmente é.
Pois dentro de você, nas profundezas mais sombrias,
está a força de enfrentar o abismo,
e, se necessário, se tornar um com ele.
A Lua Túrgida não é uma sentença,
mas um convite, uma jornada sem fim,
onde a morte e a vida dançam juntas
em um ciclo eterno de renovação e destruição..."
Mas no fundo, ela sabe. Ela sempre soubera.
Este não é seu fim, nem seu começo.
A caçadora de palavras, a escriba de garras de aço,
não está ali por uma razão única. Ela busca.
Busca não só o conhecimento que habita aquelas páginas,
mas algo mais, algo que se esconde nas entrelinhas do castelo,
algo que a prende ali, mas a faz sentir-se, ao mesmo tempo, estranha.
O desejo, a fome de um toque humano, um calor vivo,
além das criaturas que caçam e morrem,
além das páginas que ardem e se curvam.
Arale, a felina entre as sombras e os espelhos,
cai de joelhos no chão de pedra fria,
a sua jornada apenas começando,
uma missão espiritual, um ciclo interminável,
mas no final, uma pergunta:
"Onde estão aqueles que podem ver o que sou?"
VII.
"E no fim, quando a penumbra da Lua Túrgida
te envolver como um manto de névoa,
lembre-se: o medo não é o fim,
mas o começo de algo mais profundo,
mais antigo, mais verdadeiro.
A rosa, teu guia, teu guardião,
brilhará na escuridão,
um farol no abismo,
um sinal de que, mesmo no final,
há sempre uma nova página a ser virada,
uma nova história a ser escrita
sob a luz eterna da Lua Túrgida."
Uma resposta desfragmentada se perde, no vento que sopra,
no mesmo instante em que ela ergue a lâmina dourada,
todos os pergaminhos que flertam com a chama e a luz pálida
do luar como uma sinfonia de palavras são de autoria do Drácula,
pronta para o próximo passo e fascinada aos cânticos da Lua Túrgida
sabendo que, no fundo, o castelo era seu espelho,
e ela, mais que uma caçadora, era a alma que fugia de si mesma.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Sonial
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo, que tremia, desperto com o insistente menear.
De olhos abertos, permaneço deitada sob um infindável jardim de lavandas. Seu aroma adocicado e suave me abraça. Os galhos eram altos o suficiente para envolver meu corpo. Seu leve toque em meu rosto extraiu de mim cócegas e uma lembrança.
Vejo-me deitada preguiçosamente em suas pernas, no nosso sofá da sala. Estamos assistindo a um dos seus filmes preferidos, “Um Corpo que Cai”. Eu amava os filmes do Hitchcock. Minha mãe acabara de passar creme para as mãos. Enquanto meus olhos estavam na televisão, sinto seus dedos macios e cheirosos sobre meu rosto, deixando o aroma marcante de lavanda.
Mas antes que eu me torne melancólica, devolvo-a, o quanto antes, ao cemitério abandonado de memórias. É melhor assim, digo para mim mesma: “Esqueça isto!”. Em seguida, viro a cabeça para a esquerda, e meus olhos se perdem perante os galhos.
A grandiosidade daquele lugar é, sem dúvidas, arrebatadora. Existe uma aura quase celestial. O silêncio sagrado me causa arrepios. Acima de mim, contemplo algo magnífico: trajando um manto alvo está o firmamento e sua imensidão. Um temor se apoderou de mim. Adoto a posição fetal, como forma de me proteger, pois um mísero raio de sol poderia me exterminar. Mas, de alguma forma, nada aconteceu. Apesar de toda vastidão nívea, a luz parecia inofensiva. Não havia nuvens, nem sol nem lua, apenas o vazio opressor.
Decidi me levantar. Limpei as folhas presentes em minhas roupas. Em pé, pude ter a verdadeira dimensão daquele lugar. Caminho, e as lavandas se destacam. Seu balançar é hipnotizante. Será que estou fora do Castelo? Será o fim da minha mísera existência? Será algum efeito alucinógeno daquele preparo feito por Ameritt? O repugnante gosto ainda faz morada em minha boca.
Cuidadosa, caminho enquanto dúvidas pairam sobre minha mente. Olhar em volta e ver apenas o vazio abissal é angustiante. Será que irei parar na vila de Séttimor? Agora, a menção de Ameritt me causa tremor, porém continuo.
Após muito andar, noto algo perturbador. Um horror indescritível dominava meus ossos e entranhas. Meus membros tornaram-se rígidos, como se alguma força de proporções inimagináveis agisse sobre mim.
Elevo meus olhos, e não posso acreditar. Em meio àquela intensa nívea, um colossal e belíssimo umbral, mais escuro que a própria noite, erguia-se no vazio níveo. Trazia adornos vitorianos esculpidos pelos deuses de outra era. Assemelhava-se a um portal. Ao seu lado, havia também uma criatura tão misteriosa quanto aquele lugar. Sua aparência angelical me deixava confortável. Obedeci à sua reverência e, cautelosa, fui ao seu encontro. Estou a dois passos. Sem dúvidas, estava diante de algo grandioso.
— Bem-vinda à Somníria, Rose. Permita que eu me apresente. Meu nome é Lieran, sou o guardião Arquelua do primeiro umbral. Foi-me ordenado guiar-te pelo sonho daquele que teu coração mais anseia.
Sua voz era como um imponente e doce quarteto de vozes cantando em uníssono, algum canto gregoriano secreto que fora esquecido pelo impiedoso tempo. Seu semblante quase angelical me acalmava. Ele tinha cabelos alvos como a neve, e, mesmo com os olhos fechados, parecia saber exatamente quem eu era. Posteriormente, ele me explicou que Somníria é um reino extrafísico que está além da compreensão. Este lugar cuida do plano onírico daqueles que ainda estão vivos, assim como dos que já desencarnaram.
Lieran contou que, em Somníria, tanto os umbrais quanto os guardiões são infindos. Explicou que existem diferentes espécies de guardiões: alguns cuidam dos sonhos, sendo chamados de Arquelua, enquanto outros se dedicam a vigiar pesadelos — os Nocturnos. Disse ainda que há tipos de Nocturnos especializados em pesadelos densos, enquanto outros vagam por pesadelos fúnebres.
Amortecida pelo que acabara de ouvir, observei mais uma vez aquela criatura. Ele se assemelhava a uma escultura de um deus grego esculpido em mármore. Seus traços delicados e marcantes me prendiam, e a possibilidade de entrar em um sonho era intrigante e muito me interessava.
Antes que eu dissesse qualquer palavra, ele fez um gesto para que eu atravessasse o umbral e disse:
— Por favor, tenha cuidado. Visitar sonhos pode ser mortal. Vi que tens alguém em mente. Concentre-se e atravesse. Lembre-se: para retornar, basta dizer meu nome.
Agradeci, respirei fundo e, assim que atravessei, senti uma forte vertigem, como se caísse em queda livre no vazio. Ainda enjoada, abri os olhos e não pude acreditar que funcionara.
Acordei em meu quarto de infância. Tudo estava intacto: os pôsteres de filmes de horror, como Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, O Exorcista, O Iluminado, entre outros. Minha estante preta decorada com livros, incluindo romances como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, O Morro dos Ventos Uivantes — em vida, eu acreditava no amor. Minha escrivaninha estava cheia de cadernos e canetas espalhados. Ao folhear um deles, deparei-me com anotações sobre magia e ocultismo.
Ao vê-las, lembrei-me de um certo livro que está no Castelo. Ele ainda me causa fascínio e repulsa. Recordei sua capa feita de pele, num tom viscoso de carmim quase vivo, suas páginas puídas e o cheiro pútrido que senti ao abri-lo, bem como o toque repulsivo.
Lembro que o livro estava no final da biblioteca, sobre uma mesa redonda vitoriana, coberto por um manto negro. Ele não saiu da minha cabeça: sua natureza desconhecida e o modo como foi confeccionado me intrigavam. Que segredos infindáveis aquelas páginas escondiam? Recordo vagamente ter visto o desenho de um ramalhete naquela terrível noite de nevoeiro.
O Castelo tem me proporcionado experiências inexplicáveis. Aquele baile aterrorizante foi muito marcante. Preciso continuar. Olhei para a direita: algumas roupas estavam empilhadas sobre uma cadeira. É verdade que prometi enterrar estas lembranças, mas decidi fazer este último passeio e despedir-me para sempre.
Tristezas e sorrisos me acompanham. Encosto na maçaneta e sinto um tremor. Ao abrir uma fresta da porta, vejo minha mãe deitada no sofá da sala, como costumava ficar. Mas havia algo perturbador em seu semblante. Seus olhos inertes assistiam à televisão, e o cansaço era visível em suas pálpebras. Seus braços estavam imóveis, e, na palma da mão direita, notei uma marca que parecia um pequeno terço. Deduzi que, em algum momento, ela o segurara com tanto fervor que provocara um ferimento. Após um tempo, uma lágrima caiu de seu rosto, e um sussurro ecoou pela casa:
— Ainda tenho esperanças de que minha filha voltará um dia.
Isso quase arrancou um grito de mim, mas silenciei com as mãos. Não posso mais ficar aqui. A culpa parecia deliciar-se com meu sofrimento. Na cozinha, meu pai preparava o almoço. O cheiro de bife com cebolas fritas me causou enjoo.
Tomada por uma profunda tristeza, murmurei:
— Se não tivesse aceitado aquele convite, talvez estivesse em seu colo, mãe. Eu sinto muito pelas minhas escolhas.
As inevitáveis lágrimas escorreram. Fechei a porta e sussurrei:
— Lieran.
Após isso, senti uma forte sensação de sono até que, finalmente, meu corpo encontrou o solo.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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15. Jardim da Morte: Hadassa
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Em uma sala de cinema que parecia saída dos anos 40, com lustres antigos que projetavam pouca luz nas paredes, um cheiro de pipoca velha que se misturava a um aroma adocicado que possivelmente vinha das figuras que ali entravam. As poltronas velhas de veludo vermelho, que rangiram sob o peso das duas figuras que ali se sentaram no centro, uma do lado da outra. A ceifadora dos que tiram a vida vestia um sobretudo escuro e um chapéu inclinado sobre um dos olhos, enquanto a ceifadora dos apaixonados usava um vestido preto justo, nos lábios um batom vermelho vibrante que contrastava com sua pele na cor de grafite acinzentado, cabelos bem pretos com leves ondas, segurava entre os dedos um cigarro que jamais seria aceso, como uma femme fatale saída de um filme noir. A ceifadora dos que tiram a vida ajeitou a gola de seu sobretudo, seus olhos brancos sem pupilas sob o chapéu de abas largas que lançava uma sombra em seu rosto cinzento, ela parecia deslocada ali, tentando fazer o seu papel, como se aquele tipo de análise fosse de menor gravidade em seu trabalho.
— Esse caso poderia ser resolvido com uma partida de xadrez — ela falou em tom seco.
— Poderia, mas estou testando outras abordagens, uma mistura de LARP com jogo de detetive. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, com um sorriso enigmático. — E, aliás, você está perfeita no seu papel de detetive autodestrutivo.
A outra arqueou a sobrancelha.
— Você também está incrível, bem fatal se posso dizer.
Elas riram brevemente.
— Espero que seja direto, detesto enredos sem propósito. — murmurou a ceifadora dos que tiram a vida, cruzando as pernas.
— Calma, apenas assista e depois critique. — respondeu a ceifadora dos apaixonados, sem sair do personagem.
A pouca luz dos candelabros foi se extinguindo e a tela acendeu com um estalo iluminando a escuridão, um nome em letras grandes e brancas surgiu sobre uma imagem em preto e branco de um vaso de flores mortas.
HADASSA
O filme em preto e branco com uma trilha sonora de suspense se inicia, Hadassa em uma cozinha pouco iluminada, ela estava sozinha, esperando a água ferver em uma chaleira. Sentada, perdida em pensamentos, acariciava cicatrizes em seus pulsos. O chiado irritante a desperta de seus devaneios e ela volta a atenção à chaleira, se levanta e prepara o chá. A cena seguinte, ainda na cozinha, a câmera mostra um close do líquido quente sendo derramado na xícara. Uma narração começa suave, enquanto ela em silêncio volta à mesa, a voz de Hadassa ecoando pelos alto-falantes do cinema como se ela estivesse lendo algo:
“Muitas vezes o amor parece um abraço aconchegante, outras vezes, um peso que não conseguimos soltar.”
A narração pausa, Rute aparece na porta da cozinha, um vulto na escuridão, seu rosto calmo, mas sua postura inquieta e seus dedos rígidos no batente da porta, denunciavam sua ansiedade.
— Ainda acordada? — A voz era gentil, mas com uma nota de ansiedade. — E essa água no fogo? Ouvi o chiado da chaleira — ela apontou para a chaleira.
— É que eu fiz chá, para dormir melhor. — Hadassa olhou pensativa para xícara.
Rute foi caminhando até a mesa, seus passos abafados pelo tapete velho e olhou o líquido da xícara e depois para Hadassa.
— Esse chá você encontrou onde?
Hadassa hesitou.
— Uma amiga me recomendou. É natural, sabe?
O silêncio que se formou parecia pesado demais, Rute pegou uma colher.
— Posso experimentar?
Hadassa confirmou que sim com a cabeça. Rute mexeu o chá provando uma gota em seus lábios. Seus olhos ficaram sombrios por um instante, olhou Hadassa, e ficou em silêncio. Em sua cabeça uma lembrança se formou. Uma música mais tensa começa.
— Hadassa, cheguei, trouxe a torta que você pediu. — Rute entra pela porta da frente, com uma sacola na mão.
A câmera segue cada movimento seu, revelando o cansaço em seu rosto de um dia de trabalho exaustivo. Quando chega à sala, ela para de repente, os olhos arregalados, no chão ajoelhada, estava Hadassa, com mãos e roupas manchadas de sangue. Hadassa soluçava, o celular escorregando em sua mão.
— Rute, por favor... me ajude... eu quero conseguir morrer, mas eu não quero ir para o inferno.
Rute ficou paralisada por alguns segundos, mas logo seu instinto tomou o controle, pegou seu celular no bolso da calça e ligou para emergência enquanto procurava algo para estancar o sangramento. A câmera se move lentamente, e foca no rosto de Rute enquanto ela volta para onde Hadassa está, as duas se sentam no sofá, e Rute pressiona o pano no ferimento de Hadassa. Rute abraça a mulher ensanguentada, sua expressão é uma mistura de confusão e um medo avassalador.
Hadassa soluça, as palavras saem de sua boca como se fossem arrancadas.
— Desculpa, eu não queria isso, mas as vozes, elas não param, achei que assim eu teria paz, mas eu senti o inferno dentro de mim e desisti, eu só queria a paz que a morte traz.
A câmera volta para o rosto de Rute, ela fecha os olhos, as lágrimas correndo livre pelo seu rosto, segura Hadassa em seus braços como se pudesse protegê-la dela mesma. O som de batidas na porta preenche a cena, a ajuda havia chegado, mas a sensação de algo irreversível pairava sobre as duas. A cena é trocada, uma trilha sonora mais melancólica, outra cena do passado, Hadassa pegando um envelope pardo que continha algumas ervas, se desfaz do envelope no lixo da cozinha. Logo após, Rute era mostrada examinando o mesmo envelope, com as sobrancelhas franzidas, antes de escondê-lo em uma gaveta. As cenas seguintes eram fragmentos de uma rotina que se tornava cada vez mais comum. Rute agora preparava o chá todas as noites, e oferecia a Hadassa.
— Para sua insônia. — ela dizia, mas seu olhar a traía, talvez culpa ou preocupação, ou outro sentimento que não dava para ser nomeado ainda.
Hadassa parecia cada vez mais frágil, olheiras escurecidas, movimentos lentos, mas seu rosto exibia uma estranha paz. A cena muda, Hadassa em uma pequena sala de estar iluminada por uma lâmpada oscilante, o relógio marcando meia-noite e ela escrevia algo. A câmera focava em sua expressão cansada e em suas mãos trêmulas segurando a caneta. Uma narração se inicia com sua voz:
“Eu sei que você não queria isso, mas você fez o que era preciso. Agora, só espero que consiga conviver com isso...”
A cena é cortada antes que ela terminasse a narração. A próxima cena tomava um tom mais sombrio e a música se torna também mais sombria, Hadassa deitada na cama com o rosto pálido, Rute ao seu lado segurando sua mão. Uma narração com a voz de Hadassa se inicia:
“Você me amou o suficiente para me libertar, mas será que eu a fiz carregar algo que você não merecia?”
A câmera corta para Rute com uma expressão sombria, e então para uma visão de sua mão apertando o punho da xícara que Hadassa usara. A última cena do filme, a música melancólica mais lenta, Rute sentada sozinha à mesa da cozinha, a chaleira estava no fogão, mas vazia. Em suas mãos ela segurava a carta de Hadassa. A câmera se aproxima lentamente enquanto ela lê. A voz de Hadassa narra:
“Eu precisava que fosse você, precisava que fosse por amor, porque só por amor você faria uma escolha que eu não tive coragem de fazer, não lhe pedi nada, mas mesmo assim você me ajudou a encontrar a paz.”
Rute solta a carta, e encara a câmera, seu olhar perdido, seu rosto é uma mistura de dor e cansaço. Ela se levanta e sai andando para outro cômodo deixando a carta sobre a mesa e a câmera foca em uma xícara vazia.
FIM
A ceifadora dos apaixonados se inclina perto da outra ceifadora e sussurra:
— O que achou? Estou aberta às críticas. — disse a ceifadora dos apaixonados.
— Gostei, direto ao ponto. — falou a ceifadora dos que tiram a vida, descruzando as pernas.
— Poético, não acha? O amor transformado em arma, mas sem deixar claro quem das duas puxou o gatilho, romances trágicos sempre me comovem.
A ceifadora dos que tiram a vida deu uma risada seca seguida de um suspiro.
— Poético, não. Eu diria prático, alguém precisava decidir, e parece que Hadassa passou o fardo para Rute, não foi um romance, foi um crime — a ceifadora dos que tiram a vida falou ajeitando o chapéu. — A única pergunta é: quem segurava a arma?
— Ou talvez Rute sempre soubesse que seria o fardo dela. — a ceifadora dos apaixonados deu de ombros. — Hadassa não conseguiria nunca ir até o fim, ela tinha medo. — Ela suspirou e cruzou as pernas.
— Então ela manipulou Rute para alcançar o que queria? — A ceifadora dos que tiram a vida estreitou os olhos.
— Manipular? Não sei, ou apenas confiou que Rute faria, mesmo que não tenha dito uma só palavra. — A ceifadora dos apaixonados tocou o queixo e ficou pensativa. — Talvez Hadassa confiasse que o amor de Rute era maior que o medo que ambas tinham, ainda acredito que foi uma morte por amor. Quando mostrei uma cópia da carta de Hadassa para a ceifadora dos assassinados, ela também disse que era manipulação de Hadassa, por esse motivo ela não quis participar da análise do filme.
— Acho que a hipótese dela talvez esteja certa, Rute quem deu o golpe final, amor ou não, mas ela agiu influenciada por Hadassa.
— Rute sabia o que o chá continha, uma infusão sutil de uma planta tóxica, discreta o suficiente para passar despercebida. Hadassa havia comprado as folhas, mas foi Rute quem decidiu terminar a tarefa, irônico, não é? Evitar que Hadassa se matasse, matando-a lentamente. Ainda acredito que ela fez isso por amor.
— Rute não me parece uma mulher de meias medidas, quando Hadassa disse aquelas palavras, fez aquele pedido de ajuda, algo dentro dela clicou, ela amava Hadassa, mas amor às vezes também é controle, e controle pode ser fatal, então ela abriu mão do controle para que Hadassa pudesse ter paz. — A ceifadora dos que tiram a vida cruzou os braços e ficou pensativa. — Tem a chance de Rute apenas ter matado ela por amor dando o que Hadassa queria, mas também tem a chance de ela ter levado aquele pedido de ajuda ao pé da letra e agido, manipulada por Hadassa que já queria se matar. — parou de falar e ficou refletindo por um tempo. — Vamos deixar ela no jardim à espera até que possamos decidir. — disse a ceifadora dos que tiram a vida, rompendo o silêncio.
— E se nada for concluído? — perguntou a ceifadora dos apaixonados, olhando para a tela vazia.
— Então você ficará responsável por ela até que possamos decidir o que fazer.
— Sempre tão prática, não é? — A ceifadora dos apaixonados deu um sorriso debochado.
— Confio que você vai manter ela entretida, além disso você terá companhia por tempo indeterminado para seus jogos e talvez consiga com ela mais informações.
As duas levantaram juntas ainda discutindo o caso, deixando a sala de cinema na escuridão. A ceifadora dos apaixonados coloca o cigarro na boca, intocado, um movimento encenado, e dá uma risadinha, a outra ceifadora coloca as mãos nos bolsos do sobretudo, caminham em direção à saída, suas sombras projetadas na tela vazia. No fundo da sala, o projetor piscou uma última vez, mostrando o jardim onde Hadassa aguardava, envolta em névoas.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Um brinde aos Vivos
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Isabel acordou com o coração na boca, a mente pesada e turva. No silêncio da catedral, um grande anjo de mármore a observava do púlpito, de seus olhos escorria um líquido vermelho e grosso como lágrimas. Como um véu, o tom vermelho emitido pela lua tocava tudo o que escapava da escuridão da noite.
Com força e desenvoltura que nunca sentira, sentou-se e ouviu os ossos estalarem, como se estivessem sendo usados pela primeira vez na vida. Os estalos secos ecoaram pela nave de forma lúgubre.
O lugar era uma paródia do que um dia fora: depredado e imundo, com um cheiro forte de metal que tomava suas narinas. Estava sentada em um dos vários bancos de madeira maciça, arremessados ou largados de qualquer forma.
— Boa noite, princesa. Dormiu bem? — disse uma voz doce como um canto de sereia.
A alguns metros de distância, estava uma mulher muito magra e alta, com uma palidez disfarçada pelo luar carmesim. O olhar de escárnio e o semblante sério diminuíam Isabel, que se sentia uma pequena presa diante de uma caçadora que ela não teria como enfrentar.
— Quem é você? Onde estou? — perguntou Isabel, a voz trêmula.
Um sorriso amplo tomou a face perfeitamente esculpida da mulher, deformando-a. Ela bateu duas palmas, lembrando Isabel de como os duques das vilas chamavam seus serviçais.
— Creio que você tem razão, menina. As apresentações estão em ordem. Pode me chamar de Marishka. — O sorriso da mulher alva derreteu. — Você está no Castelo Drácula, o inferno de uns e o paraíso de outros.
Um homem raquítico e com tufos parcos de cabelo adentrou a nave por uma discreta porta aos fundos. Ele mirou Isabel à distância, feliz por vê-la viva e inteira. “O mestre ficará satisfeito comigo” cochichou para si mesmo, abrindo um sorriso de poucos dentes avermelhados. O volume da barriga, coberta por roupas de fino trato, ajudava as mãos tortas a segurarem uma bandeja dourada com três taças de tamanhos distintos, preenchidas com um líquido viscoso, de vermelhidão exaltada no brilho da estranha lua. Ele se aproximou, olhando para o chão, com os braços estendidos para a mulher.
— Como solicitou, madame. Uma taça de tenra idade, uma taça de virgem e uma de nobreza.
Usando uma delicadeza sobrenatural, ela apanhou a primeira e menor das taças. Parecia satisfeita e ansiosa. O homenzinho deixou a bandeja no banco e se escondeu em um canto escuro da nave, observando-as.
Marishka cheirou o líquido com júbilo e bebeu um discreto gole. Um brilho de êxtase muito específico atravessou os olhos dela, um brilho que Isabel, em sua juventude, ainda não havia experimentado. Claramente alterada pela estranha bebida, ela cravou as unhas longas e afiadas no braço do banco.
— Fui escolhida para lhe informar que você está noiva de nosso mestre… de nosso marido, na verdade. — Com facilidade, as unhas dela deslizaram pela madeira, arrancando lascas grossas. — Você foi selecionada para ser a quarta entre nós. Suponho que ele esteja entediado com três.
A cena já era louca o suficiente para Isabel. O assunto do noivado foi a certeza que ela precisava para saber que tinha que sair de lá com urgência, mas sentia que algo alertava sobre o perigo iminente de sair correndo — talvez o braço destruído do banco.
— Marishka, eu agradeço a recepção… calorosa, e a oferta, mas só busco encontrar meu pai e voltar para minha vila.
— Seu pai? Não se preocupe, ele estará presente no seu noivado. — Uma risada discreta seguiu, mas anos de saúde debilitada tornaram Isabel alheia às malícias das conversas mundanas. — Querida, sei da sua frágil saúde. Me conte, não deseja ser exímia em todas as áreas da vida? Forte como um urso, sem limites ao que pode fazer e jamais ficar doente novamente?
A mulher sabia o que falar, e a ênfase no "jamais" teve o peso de uma vida na mente de Isabel.
— Jamais ficar doente novamente? — repetiu ela, débil. O dedo indicador da mão esquerda bateu ferozmente na madeira, ansiosa e sedenta por paz. O cheiro inexistente de doença que sempre a acompanhou invadiu sua mente, trazendo memórias de um passado não tão distante.
— Sim… Sim. Nosso mestre irá lhe propiciar um presente digno de reis e rainhas. Sua saúde atual é a de um plebeu comum. Estamos lhe oferecendo saúde… eterna, e mais… — Ela deu um grande gole na bebida, terminando-a de uma vez. Deixou o silêncio retomar o ambiente, a menina já estava pressionada o suficiente.
Isabel só queria sair daquele lugar horrendo, ficar o mais longe possível da mulher. Se levantou, pronta para correr, e viu, para seu horror, um esqueleto onde estava o homenzinho. A caveira a observava, o corpo ósseo coberto por um manto negro e longo. Uma enorme foice em mãos era a única coisa realmente visível no breu.
Ela sempre soube que a morte a viria buscar, sempre caminhou ao lado dela, mas agora a via pela primeira vez. O horror das memórias da tosse de sangue a tomaram novamente; ela tremia vigorosamente.
— Eu… vou considerar sua oferta, Marishka. Há algum local mais apropriado onde eu possa descansar?
— Igor, leve a pequena aos aposentos dela, onde ela possa se recompor. Obrigada pela saborosa companhia. — Novamente, um sorriso surreal, desta vez com caninos longos e afiados como facas.
O homenzinho veio correndo, lambendo a gengiva pelos vãos entre os dentes, saliva escorrendo pelo canto de seus lábios. Ele apanhou a mão da jovem e a arrastou para fora da catedral, na noite banhada em sangue.
— Obrigada a você também, querida amiga. Facilitou muito o meu trabalho. — Ela olhou de lado, observando a morte. O mórbido esqueleto a observou de volta, silencioso e sedento por aquilo que queria, mas não teria ali…
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Diário de Anton S. Miahi VII
Meu inestimável, Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871
Meu inestimável,
Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque de horror que a ciência, por mais que avance, parece incapaz de elucidar.
Eu me encontrava na sala de medicina da Universidade de Paris, acompanhado pelo investigador Jules de Moreau e quatro guardas, enquanto outros seis permaneciam atentos nos corredores. A noite estava turbulenta; lá fora, uma tempestade varria Paris com raios e trovões, e mesmo sob a luz das lâmpadas a óleo, cada clarão projetava sombras que dançavam ao redor dos corpos dispostos sobre as macas. O cheiro de chuva e sangue enchia o ar, misturado ao óleo queimado, impregnando o local de um mal-estar indescritível.
— Diga-me, doutor, — começou Jules, com sua voz grave ressoando pela sala, — qual é a sua teoria? Esses corpos, encontrados nas margens do rio, exangues e com sinais de resistência apenas em um dos braços… é como se algo se alimentasse neles.
Parei ao lado de um corpo, o de uma jovem dama, notando algo que até então havia escapado à nossa análise. Havia uma mancha negra se espalhando ao redor das perfurações em seu pescoço, como um mapa macabro de venenos rastejantes.
— Jules, aproxime-se, veja isto! — murmurei, sentindo uma urgência terrível. — A mancha negra parecia pulsar como algo vivo.
Estávamos ambos petrificados diante daquele detalhe perturbador, até que um trovão estourou sobre nós, silenciando a sala. E então, quase como um sussurro ecoante, uma voz profunda reverberou ao redor.
— “Levantem-se, criaturas da noite…”
Os guardas se aglomeraram na porta, enquanto eu, hipnotizado pela voz, me mantive imóvel junto ao corpo. Foi quando ouvi um som molhado e denso: gotas caíam do corpo da jovem para o chão, formando poças negras e viscosas. De repente, os corpos ao redor começaram a se debater, com espasmos horripilantes, como se tivessem sido tomados por uma força oculta.
Os guardas, tomados pelo medo, sacaram as armas e avançaram, mas mal puderam dar mais que alguns passos antes que um novo trovão apagasse todas as luzes, mergulhando-nos na escuridão. Os relâmpagos entravam pela janela, iluminando uma visão aterradora: os corpos já não estavam sobre as macas.
— Atrás de vocês! — apontei, ao ver o brilho fantasmagórico do relâmpago. No mezanino acima de nossas cabeças, pendia o corpo de um dos guardas, os olhos abertos, agora vazios. O que o segurava era uma criatura de pele pálida, olhos vermelhos como brasas e dentes longos e afiados. O som de sua respiração era como o ranger de ossos.
Sem hesitar, as criaturas lançaram-se sobre nós, e a sala virou um campo de batalha. Os guardas disparavam suas armas, mas cada tiro parecia apenas irritar aquelas coisas. Ouvi os gritos, o som de carne sendo dilacerada, e o sangue começava a escorrer pelo chão em filetes escuros.
Caído ao chão, observava aquele pandemônio, até que senti uma mão forte me puxar. Era Jules, com o rosto contorcido em uma expressão de pura adrenalina.
— Rápido, Walker! Vamos! — Gritou o investigador para mim.
Corremos. Deixamos a sala para trás, os gritos de nossos companheiros ecoando enquanto os guardas do lado de fora, ao ouvir os disparos e os uivos das criaturas, corriam para a sala. Mas nós seguimos na direção oposta, tomando os corredores tortuosos da universidade. Meus passos ressoavam junto aos de Jules, cada batida de nossos pés acompanhada pelo eco do horror que deixávamos para trás.
Os corredores, que antes pareciam frios e vazios, haviam se transformado em um labirinto sinistro, cada sombra, uma ameaça, cada passo um desafio à sobrevivência
Enquanto escrevo, ainda sinto os ecos daquela madrugada sombria pulsarem em minha mente, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Nossa fuga pelos corredores da universidade foi marcada por gritos, tiros e o som metálico de garras raspando as paredes. Os policiais que enfrentaram aquelas criaturas, mesmo armados, não tinham chance. O som dos disparos era abafado por gemidos, estalos e súplicas – uma cacofonia de morte e terror.
O coração martelava no peito; a respiração, pesada, tornava-se uma tortura. A cada passo, a exaustão aumentava, mas era impossível parar. Jules estava ao meu lado, o rosto pálido e os olhos arregalados, sua mente oscilando entre incredulidade e pavor.
— Doutor, o que eram aquelas… coisas? Por que os mortos voltaram para caçar os vivos? — ele sussurrava, a voz trêmula, quase suplicante.
Fizemos uma curva e avistamos uma porta entreaberta. Sem hesitar, atravessamos o limiar e a fechamos atrás de nós, encostando-se pesadamente contra ela. Jules continuava com suas perguntas, o Colt .36 tremendo em suas mãos. Eu, por minha vez, lutava para organizar meus pensamentos, mas só pude murmurar:
— Meu amigo, é como se todos os conhecimentos médicos e científicos que acumulamos se tornassem inúteis diante dessa aberração…
Naquele momento, Anton, devo confessar que me senti apanhado em uma teia de forças que escapavam ao domínio humano. Devo ter irritado algo ou alguém com minhas investigações, pois aquele mal parecia ter um propósito que me escapava, uma inteligência sinistra e calculista. Senti a urgência de procurar ajuda espiritual. Talvez eu devesse ter passado na Abadia de Saint-Germain-des-Prés, conversado com o padre Bastien antes de continuar esses estudos macabros. Mas não, minha curiosidade foi minha única guia.
Os ponteiros do relógio pendurado na parede indicavam que era quase cinco e meia da manhã. Notei então uma fina linha de fumaça entrando pela fresta sob a porta e avisei a Jules. Em seguida, ouvimos passos pesados se aproximando, e algo arranhando as paredes com um som que fazia o sangue gelar.
— Prepare-se…. — murmurei, agarrando um mancebo de madeira que achei ao lado. Jules verificou o tambor de seu revólver com mãos trêmulas e o ergueu, firmando-se no centro da sala.
As pancadas na porta ficaram cada vez mais violentas, cada golpe fazendo as dobradiças rangerem. Até que, com um guincho arrepiante, a porta foi escancarada, revelando aquela criatura bestial que nos perseguia. Era uma visão saindo dos pesadelos mais profundos: olhos brilhantes e inumanos, dentes longos e afiados como os de um predador, e uma postura arqueada, como se cada movimento fosse uma ameaça.
A coisa avançou, e em um ímpeto, Jules disparou. O tiro atingiu o peito da criatura, mas ela sequer hesitou. Atingiu-o com uma força descomunal, lançando-o ao chão. Girei o mancebo e golpeei a coisa nas costas, mas foi como acertar pedra – ela se voltou contra mim, o olhar faminto e cruel, e senti suas garras arranharem minha pele.
Jules, ferido e sangrando, conseguiu erguer o Colt novamente e disparou contra o rosto da criatura. Ela recuou, emitindo um urro bestial, mas ainda estava longe de ser vencida. Eu, com uma energia que não sabia possuir, desferi mais um golpe, e ela caiu por um instante. Mas o tempo não estava a nosso favor, pois, em breve, ela se ergueria novamente.
Uma última vez, olhei para o relógio – eram seis horas da manhã. Do alto das janelas quebradas, o primeiro raio dourado do sol irrompeu, cortando a escuridão e tocando o chão. Com um novo grito, a criatura recuou, e ao ser tocada pelo feixe de luz, seu corpo começou a se contorcer e emitir um uivo horrível. Ela fugiu para o corredor, mas já não restava dúvida: a luz do sol parecia ser a única coisa que a deteria.
Corremos atrás, mas ao virarmos o corredor, ela já havia desaparecido, como se a noite a tivesse engolido de volta.
Decidimos retornar à sala onde tudo começara. O caminho estava repleto de sangue, corpos e destroços; o cheiro metálico impregnava o ar. Ao chegar, avistei o cadáver da jovem dama ainda sobre a mesa de dissecação. Sobre seus pés, uma poça de líquido negro, denso e fétido, repousava. Olhei para Jules, ambos entendendo que aquela visão era o epítome de tudo que tínhamos presenciado.
Foi quando, mediante um vitral intocado, o sol invadiu o recinto. Um feixe de luz pousou sobre o cadáver da moça. Em instantes, como por um fogo divino, seu corpo começou a arder translúcido, reduzindo-se a cinzas em um espetáculo silencioso e terrível.
O que seria essa essência negra e pútrida, esse sopro de morte que não mais reconheço, Anton?
De Anton S. Miahi V
(Carta para Dr. Christopher)
De Anton S. Miahi V
Bram, 10 de agosto de 1871
Meu querido e estimado amigo,
Recebo a notícia do ataque que sofreu com um assombro que mal consigo expressar. É como se uma sombra imensa houvesse se arrastado das profundezas até nós. Que esses horrores tenham cruzado a fronteira da nossa França, e ainda mais que tenham se voltado contra você, Christopher — um homem de ciência, um pensador! Tais eventos são de uma natureza tão grotesca, tão inumana, que mais se assemelham à obra de criaturas infernais, daquela maldita estirpe que apenas o próprio Diabo poderia conceber. Sua descrição, vívida e apavorante, fez com que a imagem tomasse forma em minha mente: uma cena tão infernal que me pergunto se aqueles corpos não foram possuídos por demônios.
O jornal que me enviou já me havia deixado intrigado e preocupado. No entanto, esta última carta trouxe uma inquietação que atravessa o mero temor — diria até que roça o desespero. Meu amigo, começo a me perguntar se fiz bem em aceitar este convite para cá. Em minha ignorância, pensei que seria uma aventura entre velhos manuscritos e o pó da História, mas me vejo agora questionando a própria essência do que creio real. Imagino o que meu irmão, cuja ausência ainda sinto como uma sombra em meu peito, pensaria disso tudo. Ele sempre teve um senso prático que, talvez, tivesse me feito ver o que agora não posso ignorar. Ele, em sua racionalidade serena, certamente evitaria esse pântano de incertezas que sinto crescer ao meu redor.
Você sabe, Christopher, que prezo a razão acima de tudo. Marcel bem conhece minha mente cética, minha preferência pela lógica. No entanto, aqui estou, numa terra onde a realidade parece brincar com nossas percepções, onde sombras parecem ganhar vida e as portas dos corredores nunca permanecem exatamente onde as deixei. Sinto-me empurrado, atraído como uma marionete, para dentro de uma rede negra e pegajosa que me envolve cada vez mais.
Pior ainda, sou assombrado por visões e criaturas que desafiam o natural, entidades que parecem emergir de histórias que antes eu teria desdenhado, as lendas ciganas que outrora escutamos com ironia entre copos de vinho. Aqueles contos, amigo meu, me rondam agora como presságios, e uma parte de mim teme descobrir o quanto das palavras deles era verdade.
Cada dia que passa me sinto mais enredado neste lugar. É como um abraço apertado, uma serpente invisível que me envolve em laços escuros, me puxando lentamente para um abismo do qual, temo, já não poderei escapar. É com essa sombra que encerro esta carta, esperando que, ao lê-la, encontre alguma solução que me liberte deste feitiço infernal.
Com gratidão e afeto,
Anton S. Miahi
Anton S. Miahi XIV
(Escrito em meu Caderno)
26 de agosto de 1871 — Acordei num sobressalto. O peito arfava, e a mente, desordenada, lutava para discernir o que era realidade e o que era apenas um delírio fugaz da madrugada. Havia... algo. Como uma sombra de lembrança — ou seria uma ilusão? Um rosto... não, era mais uma presença. Monm. O nome veio como um sussurro em minha mente, trazendo um peso indefinível e uma estranha familiaridade. Sinto que falamos, mas os detalhes se dispersam como bolhas de sabão ao vento, frágeis e transparentes.
Levantei-me, ainda vestido com as roupas do dia anterior e com as botas pesadas nos pés. Não me recordo de como cheguei ao quarto, tampouco lembro de ter caído no sono. Caminhei até a janela, puxei as cortinas, e um relâmpago cortou o céu, revelando o cenário montanhoso, áspero e sombrio. O relógio no canto indicava que mal passavam das sete da manhã, mas meu corpo, exausto e enrijecido, teimava em permanecer no torpor da noite.
A cada lampejo de luz, o quarto oscilava entre sombras densas e tons estranhos de lilás. Tudo parecia imóvel, congelado. Os detalhes ao meu redor eram meros espectros de cor: preto, branco e lilás. Como se o próprio tempo hesitasse, mantendo-me aprisionado em uma madrugada eterna.
Então, o som de passos ecoou pelo corredor. Femininos, leves, mas decididos. Uma presença fria pareceu invadir o ar. Virei-me, fixando o olhar na porta entreaberta, e lá, no vão, uma luz amarelada oscilava. Fiquei paralisado. Um aroma de lavanda começou a invadir o quarto, um cheiro familiar, trazendo de volta uma lembrança distante: minha tenda no exército, o pequeno altar de um oficial ao meu lado... "Para concentração, meu amigo. Uma questão de fé", ele sussurrava, queimando aquelas flores secas. O aroma era intenso, mas a lembrança, frágil. Pisquei e tudo se desfez. O aroma se dissipou; a luz, sumira.
Movido por um ímpeto irracional, dei um passo adiante e abri a porta com violência, encarando o corredor vazio. Olhei em ambas as direções, tentando entender para onde poderia ter ido aquele vulto, aquela luz... aquela presença. E foi então que uma voz rasgou o silêncio.
— Senhor Anton! O que diabos você está fazendo saindo assim?
O susto me fez virar rapidamente, encontrando Nestor, meio escondido nas sombras do corredor. Ele me olhava com uma sobrancelha arqueada, e sua expressão oscilava entre o escárnio e a irritação.
— Procurando... alguma coisa, Nestor? — minha voz saiu estranhamente rouca, como se eu mesmo não acreditasse no que estava dizendo.
E então me indaguei em minha mente, — “Como ele chegou ali, sem fazer qualquer som?”.
Ele riu, aquele riso ácido que poderia conduzir qualquer um ao desconforto e tirar do sério.
— Procurando? Ou apenas vagando como um louco? A essa hora, senhor Anton? E pelo que exatamente?
Suspirei, tentando recompor o pouco de sanidade que me restava.
— Eu... ouvi passos. E havia uma luz, um perfume de lavanda...
— Lavanda? Ora, cavalheiro, agora estamos vendo e sentido fantasmas perfumados? — aquele mordomo esboçou um suave sorriso no canto dos lábios com clara intenção de deboche.
— Nestor… — repliquei, com um tom mais firme — Estou falando sério. Não era minha imaginação. Houve algo, ou alguém, aqui.
Ele se aproximou, e a luz mortiça do corredor destacou o brilho sarcástico em seus olhos.
— "Algo ou alguém", você diz... Como Monm, quem sabe? Que de tão... peculiar, deixou você assim, num estado deplorável.
Meu corpo se enrijeceu ao ouvir o nome. Ele havia dito aquilo de propósito. Monm... Sim, fora ele. Ou algo de sua presença em minha memória. É certo que estive com ele e mais alguém... Um misto de inquietação e confusão revolvia meu estômago.
— O que sabe sobre ele, Nestor? Você sempre fala como se soubesse mais do que diz.
O mordomo inclinou a cabeça, os olhos faiscando com um brilho que mesclava curiosidade e desprezo.
— Talvez eu saiba, caro senhor Anton. Mas cabe ao senhor descobrir até onde consegue ir com essas... suspeitas — Ele se virou lentamente, num sussurro gélido, carregado de um peso sombrio. — Ou essas alucinações, você decide!
A frieza em suas palavras ecoava na penumbra. Minha mão tremia, e meu coração pulsava forte, o odor da lavanda ainda parecia impregnar o ar. Mas antes que pudesse argumentar, Nestor já se afastava, o som de seus passos desaparecendo ao dobrar o corredor.
Permaneci ali, estático. Aquele jogo de provocações e segredos estava corroendo o que restava de minha sanidade. Envolto naquela atmosfera densa e carregada de mistérios, me perguntei, mais uma vez, se eu não era, de fato, o louco que Nestor insinuava.
Ouvi um último eco da voz dele, como se a própria sombra das palavras fosse real:
— Cuidado com o que procura, Anton. Às vezes, as respostas nos encontram primeiro.
Naquela tarde — O sussurro final de Nestor ainda flutua em minha mente, como uma sentença envolta em trevas: "No salão de jantar haverá alguém que o acompanhe desta vez. Ela é a que divide o senhorio deste castelo." Suas palavras cortaram o ar, carregadas de algo indizível. Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu, engolido pela penumbra do corredor, como uma sombra esvaída no limiar da visão.
Fiquei ali, imóvel, o coração pulsando, a mente embotada. A imagem de Nestor sumindo na escuridão misturava-se às lembranças confusas da noite anterior... Meia-Noite, Uor, Olga Nivïttz. Nomes que ecoavam em minha cabeça, fragmentos de uma realidade que se desintegrava como papel queimado.
— Então... hoje a verei — murmurei, sem saber a quem dirigia minhas palavras, como se a própria escuridão ouvisse e absorvesse minha incerteza.
O silêncio me sufocava. Havia meses que eu residia neste castelo, vagando por seus corredores sombrios, sentindo a presença do próprio Conde Drácula como uma sombra que nunca se dissipa. Mas esta seria minha primeira vez diante dela. Ela, a senhora oculta das muralhas de pedra e das câmaras seladas por mistérios. O que poderiam Monm, Uor e Meia-Noite saber que eu não sabia? E até onde as palavras deles eram dignas de confiança?
Quando dei por mim, já estava em meu quarto, movido por uma vontade instintiva de me preparar. Vasculhei o guarda-roupa, tirando do cabide uma camisa de linho branco — tão claro que quase parecia uma afronta em meio àquela penumbra. Escolhi também um colete de couro negro, a cor das noites eternas que cercam o castelo. Vestindo-me com rapidez, ajustei a camisa, passei a mão pelas botas para livrá-las do pó acumulado, e me pus diante do espelho. Os espelhos, sempre tão traiçoeiros...
— Esta é a imagem que levarei para a presença dela... — sussurrei, observando-me atentamente. Meus próprios olhos pareciam me desafiar, como se escondessem um segredo que até eu desconhecia.
Arrumei o colarinho, alisei a frente do colete e dei um passo para trás, inspecionando o alinhamento de cada peça. Meus dedos estavam frios, mas o espírito... O espírito, eu tentava preparar o melhor que podia. Inspirando fundo, virei-me e saí, meus passos ecoando pelo chão de pedras. Marchava em direção ao inevitável, como um soldado destinado ao sacrifício.
O corredor principal me esperava, longo, sombrio, um túnel de madeira e pedra, iluminado apenas por candelabros de metal corroído que lançavam sombras deformadas nas paredes. Cada vela tremulava com uma leve brisa, como se uma presença invisível me seguisse, ansiosa por ver o que eu descobriria no final desse percurso.
Enquanto avançava, o ar parecia pesar mais, preenchendo meus pulmões com uma umidade densa, como se até o próprio oxigénio carregasse o cheiro de tempos passados. De repente, a decoração do castelo, antes apenas uma extensão da escuridão, pareceu ganhar vida. Paredes adornadas com tapeçarias desbotadas, desenhos de batalhas antigas e figuras de seres esquecidos pelo tempo. Quase podia ouvir os gritos abafados e os sussurros ancestrais que emanavam de cada trama.
Cheguei ao portal principal que me conduziria ao salão de jantar. As portas pesadas de carvalho negro, decoradas com entalhes de criaturas míticas e rostos que observavam com um olhar quase humano, destacavam-se como os guardiões de um segredo profundo. Toquei a madeira fria, hesitando.
"Anton..." minha própria voz soou estranha, como se fosse um eco que retornava de um lugar distante. — O que espera encontrar? E se... se aquilo que lhe disseram for verdade?
Sacudi a cabeça. Não havia mais volta. Empurrei as portas e, de súbito, o salão se revelou, banhado em uma luz mortiça e trêmula. O espaço era vasto, com teto arqueado, decorado com lustres de cristal que pendiam como lágrimas de uma noite eternamente suspensa. O chão era de mármore escuro, onde sombras dançavam, movendo-se como entidades de uma realidade à parte.
No centro do salão, uma mesa imensa, ladeada por candelabros de prata altos e pesados, cujas chamas tímidas lançavam uma luz que não chegava às extremidades da sala. Ali, em uma das cadeiras ao centro, uma figura feminina esperava, imóvel, o olhar fixo e atento.
— É ela. — sussurrei entre dentes.
Meu corpo hesitou, uma mistura de curiosidade e temor congelando cada músculo. Forcei um passo à frente, e foi nesse momento que sua voz rompeu o silêncio.
— Senhor Anton Stefan Miahi... quão fascinante é receber-te n’este momento singular... — proferiu ela, em um tom que parecia dançar entre a formalidade cortês e a introspecção calculada, cada palavra carregando um peso que transcendia o momento. — Revela-me, somos frutos do acaso ou a predestinação trouxera tua calorosa presença à minha neste alvor silente?
— Senhora Nivïttz, eu... não esperava tamanha... hospitalidade — respondi, sentindo o peso de cada palavra enquanto me aproximava.
Ela sorriu com uma seriedade única, e havia algo em sua postura que combinava elegância natural e uma presença quase etérea. Uma mulher de olhar profundo e enigmático, cuja força de personalidade transparecia em cada gesto. Seu modo de falar era impecavelmente rebuscado, como se cada palavra fosse uma peça trabalhada por um artesão.
– É-me um insólito prazer, Senhor Anton. Algumas recepções, devo, entretanto, advertir, são conjecturadas para além da congruente psyché. – disse ela, inclinando a cabeça ligeiramente, como quem pondera a profundidade do desconhecido. – Esta é a seiva rubra e viva d'este meu Castelo: uma reflexão, decerto, da mórbida inquietação dos que sob seu teto residem.
A mesa diante de mim estava repleta de alimentos, alguns familiares, mas muitos outros exóticos, de origem desconhecida. Fome e receio se misturavam em meu estômago.
— Senta-te, Anton, se assim me concedes a ousadia de ordenar — ela me convidou, indicando a cadeira ao seu lado, com um gesto que era, ao mesmo tempo, gracioso e autoritário, como uma monarca distribuindo favores. — Raríssimo sopro de serenidade é este, como uma lacuna dentre o caos; um momento sublime que nos permite apreciar sem pressa... — Um silêncio se alastrou sufocante. — Deleita-se, pois, a efemeridade é o orvalho sob o sol nascente.
Engoli em seco e tomei o assento. O ambiente carregava uma tensão que parecia se solidificar a cada momento. Ela me observava, trazia uma sutileza persuasiva que oscilava com uma seriedade perturbadora e enigmática, uma pista de seus pensamentos complexos.
— Diga-me, Anton… — ela retomou, sua voz envolta em uma cadência quase musical, como se cada palavra fosse selecionada com uma precisão cirúrgica. — O que encontraste, caríssimo, dentre os claustros ocultos e os aposentos sombrios de meu lar, despertara as estranhas de tua inibida curiosidade?
— Pode-se dizer que há muito que me intriga, senhora Nivïttz.. — Respondi, cauteloso. — Mas não sei até onde as descobertas são minhas... ou foram deixadas para que eu as encontrasse.
Ela inclinou-se ligeiramente, os olhos agora com um brilho intensamente curioso.
— O desvelar, em sua quintessência, não se realiza à ínsula de si mesmo. Ao contrário, o buscador e o buscado entrelaçam-se, como se regidos por uma indissociável força, sob silencioso acordo. A seiva que irriga as profundezas d’este alcácer, prezado Anton, tanto quanto o verbo que o fundamenta, possuem anseios e intenções verossímeis, seus arcanos não se manifestam à parte do consciente subjetivo.
Suas palavras caíram sobre mim como um manto pesado, e percebi que ela sabia mais do que demonstrava, que cada frase, cada olhar, escondia significados ocultos, camadas de intenções que não me eram reveladas.
— Como se o castelo tivesse vida própria? — murmurei, mais para mim mesmo.
O frio subiu pela minha espinha, e percebi o quão exposto eu me sentia. Mas Olga mantinha uma postura acolhedora, sincera em sua complexidade.
Ela sorriu, e sua expressão suavizou, mas sem perder o mistério.
— Para um ínfimo resumo, quiçá... Mais que um mero observador, Anton, o Castelo é um anfiteatro mórbido e egrégio, bem como é uma personagem, um narrador e uma testemunha. A sabedoria silente que o habita, acolhe a todos como parte de seu sui generis enredo.
Foi nesse momento que ela inclinou levemente a cabeça, como se observasse algo invisível ao meu lado, e seus olhos ganharam uma profundidade incomum. Ela abriu os lábios, e sua voz veio baixa, quase um sussurro:
— Lilaenatt somnien...— Quase não a compreendi e não sei se este seria a grafia correta do que foi dito por ela, apenas senti um estranho sentimento ao ouvir suas palavras. Parecia um latim arcaico. — Algo ao teu derredor, caro Anton, emana-se e esparge como nódoa instável. — Seus olhos pareciam observa algo além de mim, o que me forçou a revistar minha própria pessoa e os arredores com algum resquício de ceticismo e resistência. — Esta aura... —retomou ela. — Enraíza-se em teus passos pretéritos... um eco de laços ancestrais? Interessante expressão do Atemporal. Vejo alvililás... Pode ser tal vínculo uma sugestão d’um elo inexorável ao teu destino?
Ela estava absorta em sua própria análise daquilo que ela parecia ver e eu não, enquanto este professor apenas buscava entender o que ela dizia.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, a tensão na minha voz evidente. — O que você viu?
De um momento a outro ela se levantou lentamente, o olhar ainda fixo em mim, mas agora impenetrável. Algo claramente parecia haver chamado sua atenção. Por um momento, pensei que fosse responder, mas Olga apenas ajeitou o vestido com um gesto meticuloso e recuou um passo.
— Perdoe-me, Anton… — disse ela, suavemente. — Parece que algo requer minha imediata atenção. Hórrido é não mais aprazer-me d’este momento tão interessante. — Sua expressão ficou marmórea.
E assim, em silêncio, ela se retirou. Seus passos eram firmes e ligeiros. Deixando-me sozinho com minhas dúvidas e o eco de suas palavras. Sentia que havia algo mais no que dissera, algo que escapava à minha compreensão, mas que me perseguiria enquanto eu vivesse. Ou, além disso.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Diálogos de Olga Nivïttz por:
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…