O Abismo da Vigília

Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas, mas o asfalto ainda exalava o calor acumulado durante o dia. A cidade parecia viva, mas em um estado de convulsão, uma humanidade febril dividida por seus próprios abismos. Ele vagava entre os humanos como um espectador cínico, observando a banalidade e a tragédia de suas vidas.

Nos últimos dias, havia explorado os shoppings abarrotados, os corredores estéreis do aeroporto, os shows de rock onde os corpos se agitavam ao ritmo ensurdecedor da música. Cada lugar era um espelho fragmentado da humanidade: extremos de pobreza e riqueza coexistindo, separados por muros invisíveis, mas palpáveis. Velian percebia o desdém nos olhos dos privilegiados e a desesperança naqueles que lutavam para sobreviver. Humanos tinham nojo de outros humanos, e isso o fascinava e o enojava ao mesmo tempo.

Ele se sentia saturado. A degradação social, a superficialidade dos desejos e a hipocrisia das normas o exauriam. “Como pode eles se apegarem a algo tão vazio e, ainda assim, temerem o vazio verdadeiro?”, pensava. O que antes o atraía nos humanos — sua criatividade, seus impulsos, sua capacidade de amar e destruir com igual fervor — agora parecia reduzido a ecos de uma glória perdida. Velian ansiava por algo além da vigília, algo mais profundo do que essa realidade sufocante. Ele precisava escapar.

O Retorno ao Castelo

Naquela noite, recolheu-se à sua mansão à beira da Praia de Iracema. A casa era um refúgio de silêncio e sombra, isolada do barulho constante da cidade. Em seu quarto, onde a escuridão era absoluta, Velian sentou-se em uma poltrona forrada de veludo, fechou os olhos e começou a meditar. Ele não sabia ao certo o que buscava, mas seu desejo o guiava.

“Castelo Drácula” murmurou, como se invocasse um antigo pacto. “Leve-me de volta.”

E então, como se sua vontade fosse uma chave, sentiu o mundo mudar ao seu redor.

As Trevas Falam

O castelo o recebeu com o mesmo mistério de antes: vastos corredores de mármore negro, candelabros flutuando, o som distante de um piano. Mas desta vez, havia algo mais. Uma presença. As Trevas o envolveram como um véu pulsante, um manto vivo que parecia sussurrar diretamente em sua mente.

“Você voltou ao Castelo Drácula” disseram as Trevas, suas palavras ecoando como se viessem de todas as direções. “O que busca desta vez, Velian?”

Ele suspirou, mas sua resposta foi carregada de sarcasmo. “Talvez eu só queira me esconder da humanidade. Eles são tão... patéticos. Ou talvez eu queira me esconder de mim mesmo.”

As Trevas riram, um som profundo e reverberante. “Você não pode se esconder de nós. Somos as perguntas que você teme fazer, os desejos que não ousa admitir. Diga-me, Velian, o que você realmente quer?”

Ele hesitou, mas então respondeu: “Quero respostas. Sobre o que sou. Sobre o que é real. Sobre o que significa viver quando se está morto.”

“Ah, mas viver,” disseram as Trevas, “não é simplesmente desejar? O desejo, Velian, é a centelha que impulsiona o viver. Você deseja sangue, corpos, experiências. Deseja entender e ao mesmo tempo permanecer envolto em mistério. E ainda assim, teme seus próprios desejos, teme suas próprias dúvidas.”

Velian franziu o cenho. “E o que há para temer no desejo? Ele é tão natural quanto respirar.”

“Natural? Talvez,” responderam as Trevas. “Mas o que você diz do desejo que desafia todas as normas? Seu desejo pelo indefinido, pelo que transcende gênero, forma e limite? Você é atraído tanto pela carne quanto pela essência, tanto pelo masculino quanto pelo feminino — ou pelo que está entre, ou além. Isso o liberta, mas também o prende, não é?”

Ele sentiu as palavras como um golpe. “Eu não sou prisioneiro. Se há algo que sou, é livre.”

Livre?” questionaram as Trevas. “Livre para desejar, mas incapaz de compreender o que realmente deseja? Livre para existir em um corpo que transcende os limites humanos, mas ainda assim preso à dúvida sobre o que significa ser? E a liberdade, Velian, é realmente liberdade se está sempre acompanhada pelo medo do vazio?”

Reflexões Profundas

Velian ficou em silêncio, as palavras das Trevas ecoando em sua mente. Ele sempre se considerara livre — fluido em seus desejos, indefinível em sua identidade. Mas as Trevas estavam certas: essa liberdade vinha com um preço. Ele sentia a tensão entre a atração e a repulsa, o prazer e a culpa, o desejo de se fundir com algo maior e o medo de perder a si mesmo.

“Diga-me,” ele finalmente perguntou, “se viver é desejar, o que significa desejar algo que nunca pode ser alcançado?”

As Trevas pareceram sorrir, mesmo sem forma ou rosto. “Significa que você está vivo, Velian. Pois o desejo é a busca incessante, e a dúvida é o combustível dessa busca. Você busca a verdade, mas teme encontrá-la. Busca amor, mas teme a entrega. Busca a eternidade, mas se pergunta se ela não é apenas outro tipo de prisão.”

Ele fechou os olhos, tentando processar o turbilhão de pensamentos. “E a magia? – Não que Velian não soubesse dos grandes poderes da magia e conseguia executar até mesmo algumas grandes magias ancestrais em seus 700 anos de vida vampiresca, mas perguntava sobre a essência da magia – E os sonhos? Eles são reais ou apenas um reflexo do que queremos que seja real?”

“E se forem ambos?” disseram as Trevas. “O real e o irreal, o tangível e o etéreo. Como você, Velian, que é ao mesmo tempo carne e espírito, gênero e ausência, desejo e dúvida. Você não é um reflexo de sua própria magia?”

Velian sentiu uma onda de exaustão, mas também uma centelha de compreensão. As Trevas não davam respostas; elas apenas ampliavam as perguntas. E talvez fosse isso o que ele precisava.

De Volta à Vigília

Quando despertou, estava de volta ao seu quarto. O silêncio e a escuridão eram os mesmos, mas algo dentro dele havia mudado. As palavras das Trevas ainda ecoavam em sua mente, suas dúvidas e desejos pulsando como uma melodia interminável.

Levantou-se, caminhando até a janela que dava para o mar. A cidade estava viva, mas parecia tão distante quanto as estrelas apagadas no céu. Ele sabia que retornaria ao castelo, mas por agora, precisava se perder mais uma vez entre os humanos, entre suas luzes e sombras, entre seus próprios desejos e dúvidas.

“As Trevas estavam certas,” murmurou para si mesmo. “Viver é desejar, e talvez isso seja o bastante, por enquanto.”

E assim, Velian saiu para a noite, carregando consigo as perguntas sem respostas, as incertezas que o definiam, e o desejo incontrolável de continuar vivendo — e duvidando.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Onde as Névoas se Rompem

O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O peso do meu próprio corpo não mais existia; o turbilhão de pensamentos e a angústia pareciam nunca ter existido. Meus passos eram leves; quase poderia flutuar. Uma brisa fria, como antes do amanhecer, tocava meu rosto. Eu estava livre. 

Abri meus olhos; quase não podia enxergar. Encontrava-me entre névoas, envolta em um lilás etéreo que me fazia questionar que lugar seria aquele. Estaria eu sonhando? O silêncio era inebriante; se eu tivesse uma alma, com certeza ela estaria vibrante. 

— Ane, você veio! 

Esforcei-me para olhar entre as névoas que se abriam diante de mim. Lá estava ela, vestida de um branco tão puro que machucava meus olhos. 

— Carrie! — Minha irmã parecia um anjo. Corri a seu encontro e a abracei fortemente. — O que faz aqui? Onde estamos? 

— Quantas perguntas! Não sei se poderei responder a todas, mas precisava muito ver você. — A pequena que eu tanto amava se soltou do meu abraço e fez um gesto para que eu a seguisse. 

Seguimos por um caminho feito de algo que eu não saberia dizer. Estava descalça, mas nada sentia sob meus pés. Talvez andássemos sobre as nuvens, pensei. 

— Sim, são como as nuvens... — Carrie parecia adivinhar meus pensamentos. — Por aqui não há outro tipo de sentimento senão o vazio; a existência é uma quimera. 

— Aqui é o céu? — perguntei, interessada. 

Minha jovem e doce Carrie apenas sorriu. 

— Não sou digna de tanto, mas não consigo pensar que não seja. — Nunca havia me visto livre da dor terrena. Antes, o vazio machucava e me fazia ansiar por algo a mais; agora, ele é um deleite. De fato, tenho a companhia de um anjo... uma fada. 

— Não, Ane. Você não é digna! — Sua voz agora estava áspera, com um desprezo que eu nunca tinha ouvido antes. Sua fisionomia parecia diferente. 

— Carrie... — De maneira repentina, tudo o que antes sentia transformou-se em preocupação. 

— Ane, você é um monstro! — Sua face demonstrava medo. 

Tentei tocar em seu ombro, mas ela se esquivou de mim, dando um passo para trás. 

— Eu nunca tive a intenção... 

Não havia percebido, mas a atmosfera, antes tão acolhedora e tão clara, havia enegrecido. O único ponto de luz era uma garotinha de baixa estatura, minha irmã caçula, que agora parecia ter horror de mim. 

— Carrie, me perdoa! 

— Eu não posso te perdoar, Ane... não mais. 

Ela direcionou sua cabeça para o alto e gritou desesperadamente. Tentei mais uma vez me aproximar, mas paralisei diante da cena. Seu vestido branco foi bruscamente tingido de carmesim, enquanto todo o seu frágil corpo tornava-se cadavérico. 

Caí de joelhos sobre ela, mas já não havia mais nada além de um tecido branco-carmesim. Não, ali não era mesmo o céu, era o inferno. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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14. Castelo Vampírico: Todo aquele que pede recebe; o que busca encontra; e, àquele que bate, a porta será aberta.

07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

07 de Janeiro? - Fiquei paralisada ao vê-la, olhar para dentro dos seus olhos era como se perder em uma reflexão profunda, olhar para o mar a noite e sentir a sensação de paz, solitude e uma pitada de desamparo. Encarar de seus olhos me fazia sentir leves vertigens e uma profunda sensação de olhar para dentro de si e não encontrar respostas. Ela não me faria mal, isso me tranquilizava, o professor Monm já havia me dito que ela não faria, mas o que fazer agora? Afastei-me dela, ela também se afastou ficando encolhida no canto do quarto, como se estivesse perturbada. Sua voz, que eram muitas, ficavam falando uma por cima da outra como se alguém estivesse mexendo em um rádio procurando a estação certa. Imitava as vozes de Hadassa, a minha, a do homem que estava em meus sonhos e a do professor Monm. Era como se seu sistema tivesse entrado em curto e ela, em pânico, repetisse e repetisse tudo o que ouviu nos meus sonhos. Suas vozes não estavam mais dentro da minha mente, elas estavam saindo de sua boca, como um lamento, um choramingo estridente, a criatura parecia estar em pânico.

Ela estava tremendo e junto com as vozes emitia uma mistura de gemidos e sussurros estranhos que eu não conseguia compreender. Minha mente estava tão confusa por conta do pesadelo e desse despertar abrupto, que eu não sabia como reagir direito àquela situação. Aquela criatura parecia, de algum modo, ter sintonizado meus pesadelos e talvez isso explicasse seu pânico. Ela estava encolhida num canto, um emaranhado desajeitado se apertando na parede como se quisesse desaparecer. Meu primeiro pensamento foi fugir, mas algo em mim me impediu, acho que era curiosidade, eu não sabia o que fazer, o quarto parecia cada vez mais frio, eu não sabia se era o medo ou a criatura que estava provocando isso. Sem pensar demais, peguei uma coberta e joguei sobre ela, na hora os tremores da criatura pararam e o som que ela fazia foi se tornando um pouco mais baixo, mas ainda não era suficiente, minha presença no quarto parecia piorar a situação. Decidi correr para o professor Monm, talvez ele pudesse me ajudar, ele prometeu que viria hoje, eu apenas o faria vir mais cedo. O encontrei na biblioteca e expliquei a situação e minha voz oscilava entre o desespero e a urgência.

— Ela não me fez mal como você disse que não faria —  falei com pressa —  mas parece estar com medo e eu não sei o que fazer.

Ele não demonstrou surpresa, como se um evento como aquele fizesse parte de sua rotina. Pegou uns instrumentos estranhos dentro de um armário na biblioteca, uma lanterna, uma pequena ampola com um líquido âmbar e um caderno com capa de couro, e caminhamos juntos até o quarto. A criatura ainda estava lá coberta e agora parecia menos tensa, não tinha saído do lugar, nem se mexido. O professor se aproximou com cautela, a examinando com um olhar analítico. Se abaixou, se ajoelhando perto dela.

 — Interessante — ele murmurou, levantou devagar a coberta, passando a lanterna, que possuía uma luz azulada, pelo corpo encurvado da criatura. A luz azul revelou cicatrizes e marcas que pareciam runas que pulsavam de leve, utilizou um instrumento em formato de “y” que parecia com um diapasão na cor de bronze com uma pequena pedra lilás no seu centro, ele tocou o diapasão com um outro objeto que parecia uma haste com uma bola na ponta, fiquei a espera de um som que não veio, mas a criatura pareceu vibrar de leve, depois ele colocou a ampola próxima ao rosto da criatura e um cheiro forte e adocicado, que me lembrava frutas vermelhas, se espalhou pelo quarto, e a criatura ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os meus e eu senti uma onda de emoção que não era minha; medo, gratidão, confusão? Eu não sabia ao certo a emoção exata.

— Ela se ligou a você — disse o professor, com um tom de fascínio. —  De algum modo captou algo dentro de você. — Ele pegou o caderno de couro, abriu tirando um lápis do meio dele e fez algumas anotações, após isso se levantou e disse. —  Preciso investigar isso, ela ficara aqui por enquanto, não irei tocá-la até ter certeza, e te recomendo o mesmo.

Passei o resto da manhã mantendo distância, sem perturbar, mas sem tirá-la de vista. O professor prometeu voltar mais tarde trazendo mais respostas, mas eu só conseguia pensar que cada resposta traria consigo mais perguntas e agora só me restava esperar. A noite chegou mais depressa do que eu esperava. Durante o dia, enquanto eu olhava a criatura, me lembrei de algo que eu havia protelado demais: o livro que eu tinha que abrir. Aquela criatura talvez estivesse conectada ao livro, eu trouxe o livro e o livro a trouxe aqui. Eu senti que o livro era perigoso desde o momento que o vi, mas a ideia de trazer Hadassa de volta parecia mais forte ao pensar nele e eu não conseguia evitar esse pensamento, sentia medo de continuar com a ideia mesmo que eu necessitasse muito colocar ela em prática. Esperei o professor voltar, e meio hesitante, decidi contar tudo sobre o livro e o que eu planejava fazer, carregar isso comigo parecia me sufocar, pois no fundo eu sabia que, se algo desse errado, eu precisaria de ajuda. Ele ouviu tudo em silêncio, com um pesar visível em seu olhar. Assim que terminei, esperei que ele fosse me repreender ou me convencer a desistir desse plano maluco, mas ele apenas suspirou.

— Eu entendo, Rute. — ele disse com sua voz calma e firme. — Entendo, talvez até mais do que você imagina, o que é querer trazer alguém de volta. E eu não vou repreendê-la e muito menos te impedir, mas você precisa entender algo, você chegou até aqui porque o castelo permitiu, encontrou o livro porque ele quis que você encontrasse. Tudo o que aconteceu foi uma combinação das suas escolhas e a permissão e vontade desse lugar. — Ele fez uma pausa, como se escolhesse com cuidado as palavras. —  A partir daqui, qualquer coisa que vier será responsabilidade sua, o castelo te ofereceu todas as ferramentas, e você as aceitou, agora cabe a você decidir o que fazer com elas, mas recomendo cautela e muita reflexão, nada que este lugar oferece vem sem um preço.

Sua honestidade me desarmou, depois de ter dito o bastante para me fazer refletir muito antes de dormir, ele foi direto ao assunto em relação a criatura e suas pesquisas.

— Não precisei ir fundo demais em minhas pesquisas, como eu já suspeitava, essa criatura já foi um hóspede do castelo em algum momento, aquele local ao qual você me disse que encontrou o livro talvez fosse seu laboratório. Não posso confirmar com exatidão sua identidade, já que muitos fizeram uso daquele laboratório, só podemos esperar que ela se lembre de quem é. Eu a deixarei aqui com você, tenho outras coisas para resolver no momento, mas não deixe de me procurar se precisar de ajuda, mas acredito que ela não lhe causará problemas.

O professor Monm se foi e deixou a criatura ali, fiquei a olhar por alguns instantes e só conseguia pensar em como neste castelo nada nunca é simples, nem as escolhas e muito menos suas consequências. Os pensamentos me tomaram, as palavras do professor pesavam na minha mente, eu tinha revelado para ele meu plano maluco e agora eu precisava revelar à Ameritt. Era uma necessidade, depois dela ser tão boa comigo, sempre me ouvir e ser uma boa companhia, eu precisava confessar a ela tudo o que eu vinha omitindo em nossas conversas. Fui para o jardim e ela não estava lá, então tomei coragem e fui à casa de Ameritt, pelo menos eu imagino que seja dela, afastada do castelo bem aos fundos do jardim. Andei até os degraus de pedra, observando os musgos e rosa-trepadeiras na fachada da casa também de pedra. Subi os degraus e fui até a porta e me preparei para bater, ainda hesitante. Então aquele incômodo, que não sei explicar, se iniciou dentro de mim, aquele de quando acho que estou incomodando alguém. Bati uma vez e, antes que eu batesse uma segunda vez, a porta se abriu e Ameritt com um sorriso gentil me recebeu.

— Rute-besin, sabia que um dia você apareceria na minha porta. Vamos, entre, não fique aí parada, ou os besouros vão começar a cochichar sobre você.  — ela riu baixinho.

Não conseguia não parar de olhar para os pés, eu estava envergonhada e odiava esse sentimento, Ameritt era uma pessoa agradável e eu já tinha criado um certo vínculo com ela, me sentir tímida na sua presença me irritava, talvez o que eu tinha para contar a ela fosse o motivo da minha vergonha.

— Eu…eu espero que não esteja incomodando, eu só achei que deveria vir. — Falei com voz baixa.

— Incomodando? Oras, Rute-besin, você acha mesmo que me incomoda receber visitas? Esses degraus aqui — ela apontou para os degraus desgastados — Já carregaram bem mais peso do que esses seus passos hesitantes.

— Eu não sei por que demorei tanto para vir te visitar, mesmo suspeitando que essa casa era a sua, preferia sempre te esperar aparecer no jardim. Não é nada pessoal, entende? É só que eu às vezes acho que posso incomodar entrando no espaço pessoal de alguém.

— Ah, bobagem, a natureza nunca se incomoda com visitas, se o visitante vem em paz. Tudo encontra seu espaço no tempo certo e hoje é o seu tempo. — ela tocou meu braço de leve me conduzindo a entrar na sua casa.

Entrei olhando ao redor da casa, fascinada com aquele lugar que era tão Ameritt quanto possível. No interior da casa tudo parecia acolhedor como ela, a temperatura era morna, com um calor que vinha da lareira de pedra da sala de estar, decorada com vasos de flores e ervas. O cheiro era uma mistura de ervas, terra úmida e um odor amadeirado sutil. Talvez vindo da sopa que Ameritt sempre preparava. As paredes da sala eram cheias de estantes de madeira escura com alguns poucos frascos etiquetados com um caligrafia cuidadosa: “Óleo de lavanda”, “Besouro Agrilus triturado”, “Óleo de jasmim”, “Funghi seco” e outros que não conseguia enxergar a etiqueta. Havia livros antigos com lombadas desbotadas, herbologia, botânica, entomologia, fitoterapia, enciclopédia das ervas mágicas, muitos livros relacionados a plantas, insetos, fungos e magia. O teto da casa era baixo, sustentado por vigas de madeira grossa de onde estavam suspensos vasos de plantas, como samambaias, jiboia, peperomia e lambari roxo, em alguns cantos, no chão, havia mais plantas, espadas de São Jorge, comigo-ninguém-pode, cactos e outras tantas plantas que eu não conseguia identificar. O chão era de pedra, coberto por tapetes antigos, mas que ainda mantinham suas cores vibrantes. Amortecia os passos e parecia ter uma textura agradável para pisar descalço. Espalhados pela casa, havia móveis antigos de uma madeira bem escura: duas poltronas de veludo verde-musgo com almofadas estampadas de flores, uma mesa baixa de centro e, à frente, um sofá de três lugares, também verde-musgo, com almofadas florais combinando.

— É bonito aqui, tem cheiro de ervas e terra molhada. — respirei profundamente para conseguir guardar o cheiro daquele lar em minha memória.

— Claro que tem — ela disse rindo — Essa casa é teimosa como eu, está sempre cheirando à vida, mesmo que seja a uma vida peculiar. Agora sente naquela poltrona, eu vou preparar um chá e não adianta dizer que não quer, porque a água já está no fogo.

— Você é boa nisso, não é? Em fazer as pessoas se sentirem bem. — A pergunta saiu dos meus lábios sem motivo.

— Não sei te dizer se é talento ou prática que vem com a idade, passo tanto tempo conversando e cuidando de plantas e besouros que, quando aparece uma pessoa, parece fácil. — Ela sorriu para mim e logo saiu para pegar o chá.

Um besouro verde-esmeralda estava parado na mesa de centro me fazendo companhia enquanto Ameritt estava fazendo o chá. A casa parecia exalar segurança, conforto, mistério, algo nos seus objetos, seu cheiro, seus habitantes, pareciam querer contar uma boa história, algo que talvez Ameritt um dia estivesse disposta a compartilhar. Após alguns minutos, ela voltou com uma bandeja com chás e biscoitos, deixou na mesinha à nossa frente e se sentou.

— Pois bem, enquanto toma seu chá, me diga, o que a trouxe até aqui? Problemas para dormir? Tédio? Ou um besouro sussurrando em seu ouvido que era hora? Ou só queria me ver mesmo? — ela riu e tomou um gole de chá.

— Talvez um pouco de cada e uma confissão a fazer, algo que eu não sabia como dizer. — Segurei a xícara com as duas mãos sentindo o cheiro e o vapor do chá.

— Ah, não precisa dizer nada se não quiser, só aparecer aqui é o bastante. Agora tome o chá e não se preocupe com nada. Aliás, você não é um incômodo aqui, é uma visita esperada e sempre bem-vinda.

Respirei fundo, tomei um gole de chá, coloquei a xícara sobre a mesa e despejei nela a minha confissão, toda a verdade sobre o livro, sobre meu plano maluco de trazer Hadassa de volta, sobre a criatura que talvez tenha sido atraída pelo livro. Falei como me sentia culpada de não ter revelado tudo para ela antes, depois de ela ter sido boa comigo. Ela me ouviu em silêncio e, quando terminei, foi minha vez de ficar em silêncio e esperar sua reação, mas tudo o que ela fez foi sorrir de leve e segurar minhas mãos nas suas.

 — Oh, Rute-besin, já vi tantas coisas terríveis sendo feitas nesse castelo e também coisas boas. — sua voz estava tranquila — O que está planejando fazer, seja bom ou mal, não me surpreende, mas ouça bem, pense muito antes de agir. E qualquer que seja sua decisão, não hesite em me procurar para pedir ajuda.

As palavras de Ameritt sempre me trazem conforto. Junto com seus chás de ervas e, agora, o aroma acolhedor de sua casa, pela primeira vez me fizeram sentir que eu não precisava justificar minhas escolhas ou o motivo de estar ali. Senti alívio, mas também fiquei mais ciente do peso que minhas decisões teriam a partir de agora. Aproveitei para pedir que Ameritt ajudasse a criatura, que ainda parecia assustada, e pedi um de seus chás calmantes ou algo que pudesse ajudar. Ela concordou e insistiu em levar o chá à criatura. Então, me pediu que fosse para o quarto, prometendo que, após preparar o chá, logo viria.

Voltei para o quarto, sentei-me e fiquei observando a criatura, que ainda tremia levemente, enquanto esperava Ameritt. Quando ela chegou, a reação da criatura foi imediata. Ao vê-la, a criatura se acalmou, como se a reconhecesse. Ameritt se sentou ao lado dela, oferecendo o chá com todo cuidado. Murmurava palavras que eu não conseguia entender, o que só aumentava minha curiosidade. A criatura, que antes me causava desconforto, agora parecia vulnerável. Quando Ameritt foi embora, ela permaneceu imóvel, com o olhar fixo em algo debaixo da cama, como se visse algo que eu não podia enxergar. Não sentia mais medo, apenas curiosidade. Ao observá-la, não pude evitar compará-la a um animal abandonado que sofreu nas ruas ou a uma espécie rara e ainda não catalogada. No entanto, logo me esforcei para afastar esses pensamentos. Ela era mais do que isso. E, com o pouco conhecimento que eu tinha, sabia que não poderia compreender o que ela realmente era.

Decidi sair para espairecer e dar à criatura um pouco mais de tempo sozinha.

Caminhei pelos jardins do castelo por horas, sentindo o cheiro das flores, o vento sobre a minha pele, o silêncio. Apesar de tudo, a presença do castelo era constante, eu o senti me observar, à espera do meu próximo passo. Pensar nele como algo consciente não era mais absurdo, talvez ele sentisse que assim que eu voltasse ao quarto, a decisão que eu vinha adiando por tempo demais estaria tomada: era hora de abrir o livro, eu já havia protelado demais, pensado demais, temido demais. Eu não tinha mais o que perder, pois o que mais me importava já tinha sido perdido e eu agora só estava tentando recuperar. Ao retornar ao quarto, encontrei o espaço onde a criatura estava, vazio, ela não estava mais lá, apenas a coberta jogada no canto. Meu coração começou a acelerar, o professor pediu que eu ficasse de olho nela, e agora ela não estava mais aqui. Ouvi um som sutil vindo debaixo da cama, abaixei bem devagar e a encontrei lá, deitada, segurando pedaços de um velho lampião. Reconheci o objeto de imediato, era o mesmo que usei para atacar o monstro que me feriu no antebraço. A criatura estava concentrada juntando pedaço por pedaço do lampião quebrado.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Somníria, por Dantesca Nínmia

Somníria lar-origem, perfeição! | D’essência pulcra, nébula d’horror; | Anseios, medos: pulsa o coração, | Conduz à fé e ao morbo-arquitector…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Somníria lar-origem, perfeição!
D’essência pulcra, nébula d’horror;
Anseios, medos: pulsa o coração,
Conduz à fé e ao morbo-arquitector…

Somníria, factível imergir;
Aos deuses um fulgor-manifestar,
Se mortos aos seus mitos, impedir
Que o tempo na interface os vá apagar;

Somníria, tanto lôbrega e feliz,
Um fértil solo a tudo o que plantar;
Estreita-te os teus olhos, eis matriz:

Somníria, vida-código, ornar
Em bel fascinação a inconsciência,
E as sete dimensões, e ambivalência:
Real desperto ou lídimo ao sonhar?

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Guardiã de Somníria

— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.  — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Dantesca! — Clamou Therodriel. Dantesca observou-o se aproximar, silenciada.
 — Instabilidades afetaram pesadelos infantes, Emmyliliam está dedicando-se a cuidar como pode, todavia, receio que haja um olhar-aberto n’algures do reino. — Therodriel estava apreensivo e Dantesca olhou ao seu redor.
 — Onde está Lorrt? — Therodriel deu de ombros e Dantesca voou acima com tuas asas negras longas e sublimes.

~ ❦ ~

— Lorrt! — Dantesca desce, calma, pousa frente a Lorrt. O semblante de Lorrt induz à Dantesca uma compreensão intuitiva. — Quem é o olhar-aberto? Vejo em tua fronte que a resposta está disponível ao teu conhecimento. — Lorrt respirou com profundez silente.
 — Áurea Lihran… — Dantesca se enfureceu.
 — Como é possível? — Indagou incrédula.
 — O Castelo Drácula, Dantesca… este lugar ao limiar de tudo trará, não apenas Áurea, mas todos os olhares-abertos que desestabilizarão Somníria. — Dantesca ponderou ao ouvi-lo.
 — O que sentiste… ao encontrá-la? — A voz de Dantesca tremeu n’uma suavidade quase imperceptível, Lorrt examinou as expressões mais ínfimas e percebeu.
 — Amá-la-ei tal a jura feita em vida, amo-a mesmo que ela não mais possa retribuir este amor. — Lorrt tinha a voz tenra, mas, Dantesca respirou intensa, inconformada.
 — Tolo! Mantenha-a afastada de Somníria! — Interrompeu Dantesca, exausta das declarações amorosas de Lorrt. — Caso a instabilidade venha a perdurar em razão deste teu amor inconsequente por uma humana, sucumbirás à morte, regredirás ao chamado… — Ameaçou.
 — Não me ameace, Dantesca. — Ela voou, olhando-o com fúria.
 — Não é uma ameaça, Lorrt Dierchestein, é uma promessa. — Dantesca se foi, porém, Lorrt a seguiu.
 — Nunca prejudicarei Somníria, Dantesca! Por que persegues as minhas atitudes sem sabê-las de fato? — Discutiam à contravento.
 — Tu nunca compreendeste o chamado, senhor Dierchestein. E aquela qual chamas de amor-eterno, é, na verdade, o teu fardo-eterno. — Lorrt parou o seu voo, planando entre nuvens densas; olhando Dantesca que, estranhada, igualmente parou para olhá-lo.
 — Se devo morrer para continuar amando-a, o farei. Quer tu queiras ou não. Faça o requerimento, Dantesca; expulse-me de Somníria. Basta de ameaças. Basta! — Ficaram em silêncio.
 — Apenas quero te proteger… quero que… sintas o que significa ouvir ao chamado de Somníria… e abdicar de tudo… em nome dos pesadelos e sonhos…
 — E nunca o fiz? Jamais visitei os sonhos e pesadelos de Áurea. Tenho há incontáveis éons me dedicado à Somníria. Frígido como devo ser… — Lorrt hesitou, lembrou-se de Áurea. — Somníria a trouxe para mim, Dantesca… eu não a procurei. — Dantesca respirou fundo, aproximou-se de Lorrt.
 — Eu não… eu não desconfio de ti, querido. Apenas… proteja Somníria tal como o Nocturvo que foste destinado a ser? — Lorrt segurou as mãos de Dantesca.
 — Prometo protegê-la. Sucumbo à morte por Áurea, por Somníria e por ti, irmã. — Dantesca deixou escapar um singelo sorriso enfraquecido.
 — Não o faça por mim, eu não preciso. — Seu voo perfeito se fez nos ares lilás. Lorrt a observou esvanecer no horizonte.

~ ❦ ~

— E então, Lorrt soube as razões da instabilidade? — Indagou Therodriel. Dantesca pousou, novamente, com graça e beleza.
 — Um olhar-aberto, vindo do Castelo Drácula…
 — Esse lugar maldito! — Therodriel expressou-se em ódio profundo.
 — Acalma-te Therodriel. Lorrt lidou com o problema e lidaremos com os demais que vierem do Castelo. — Dantesca iniciou o evocar de um portal e Therodriel suspirou.
 — Farei o possível, porém pouco garanto ter sucesso em meu controle emocional. Esse lugar pode destruir Somníria.
 — Não irá! — Dantesca levantou seu tom de voz. — Nada destruirá Somníria. Nada, ninguém, coisa alguma! — Therodriel se assombrou, mas não questionou Dantesca que, em seguida, adentrou o recém-aberto umbral de obsidiana.

~ ❦ ~

— Diga-me, levaste Áurea até Lorrt? — Exprimiu Dantesca, na solidão do mais afastado lugar do reino de Somníria. — Revela-me se é tua vontade! Eu sei da tua consciência, Somníria. — Dantesca olhava para o alto. — Revela-me para que meu medo se dissipe, pois… tu és a razão do que sou… não posso suportar que alguém a ponha em risco… eu sou a tua guardiã, Somníria… — Dantesca fechou seus olhos, em lentidão profunda; um lume alvililás a envolveu, levando-a a um sono profundo.

A revelação em seu sonhar era refulgente: o amor de Lorrt atraiu Áurea, ainda que Lorrt resistisse, cumprindo o seu papel de Nocturvo. O amor não pode ser obstruído. Olhos alados, n’um pálido nada-além, dizem à Dantesca: “Guarda-me ao que guardas o saber das leis transcendentais; à tua intuição”. Dantesca entendeu que algumas leis dobram as sete dimensões e quebrantam os multiversos da vida e do verbo. 

— O amor… eu entendo… entretanto, não posso compreender…, pois nunca amei… — Sussurra Dantesca. O lume se dissipa tênue, Dantesca desperta e segue em direção aos portais que precisam de sua atenção.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 7 — Culpa e Proteção

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minha consciência era vívida e sólida. Todo o mobiliário ao redor era pálido e tal cor evidenciava, em maior perfeição, a riqueza dos detalhes vitorianos. A tapeçaria tinha nuances de um lilás rarefeito e pelas fenestras de seus vitrais outrora escarlates, residia um lume profundo e difuso cuja branca essência etérea se manifestava em sua própria condição de fulgor. “Eu... acordei?” — Indaguei em silêncio, aproximando-me devagar até a luz, observando pela janela o Castelo e seu abismo — era o que eu esperava ver. No entanto, confirmando o que eu já pressentia, tudo estava diferente. Vi uma inundação suave de nuvens como uma celestial verdade entre a vida e a morte; um alvililás se expandia na imensidão, e a serenidade silenciosa do derredor era estonteante em sua agradabilidade. Tinha o aspecto de um sonho profundo e belo, porém, sinto que era real, sinto que neste estranho lugar eu estava desperta tal como estou agora. 

Ao abrir os umbrais de meu aposento, não vi, pois não havia, o corredor derradeiro. Apenas nuvens. E por elas pude caminhar. A beleza plácida era tão vestal e mágica que, pela primeira vez, senti-me realmente protegida. Um aroma de lavanda cingia-me suave, mas as flores não eram visíveis. O horizonte era perpétuo, não havia sol ou lua, embora tudo estivesse clarificado tal como o dia mais vestal. Pouco depois, enquanto andejava sem rumo, avistei um portal de riqueza insondável. Esculpido no que julguei ser pedras de opalina com seu brilho irisado característico. Neste momento, senti-me instigada a atravessá-lo, como se um estranho chamado silente adviesse do seu interior, embora, aos meus olhos, nada houvesse além de nuvens do outro lado, tal como ali onde eu pisava e tal como em tudo o que havia em todas as direções. 

— Tu não pertences a este lugar. — Ouvi. Era um tom suave, embora intenso. Olhei na direção da voz ecoante e avistei uma mulher, de olhos fechados. Seus longos cabelos brancos pareciam movimentar-se suavemente pela brisa. O veemente contraste fascinara-me, pois, sua pele negra-acinzentada, beirando um intenso violeta-escuro, tinha uma perfeição destoante de tantas nuvens e tanta luz. Seus olhos, então, se abriram lentamente, e vi uma íris púrpura e brilhante. 

— Nem a este, nem a outro, acredito... — proferi. A mulher sorriu, tinha uma aura serena. Caminhou devagar até se aproximar um pouco mais. 

— Seja bem-vinda a Somníria. Se estás aqui, com teus olhos abertos, intriga-me saber de onde vens.  

— Não de muito longe — afirmei —, direto de meu leito em um antigo castelo. — Ela pareceu pensativa ao me ouvir. 

— O Castelo Drácula, eu suponho. — Eu a olhei com diligência. 

— Como sabes? — Minha curiosidade a respeito disto estava estampada em meu semblante. A mulher sorriu outra vez, tão estonteante aura emanava dela. 

— Não é fácil chegar a Somníria estando com os olhos abertos como tu estás. Olhos abertos, aqui, significa estar consciente e isso resulta em lembrar-se e lembrar-se resulta em saber que existe. — Ela se aproximou do portal de opalina irisada que, outrora, parecia me chamar e, dentre as plantas lilases ao seu envolto, retirou uma em especial, pálida e com pétalas leves e pequeninas. Entregou-me em seguida, apreciei o perfume doce e sutil da sua natureza. — Sempre-vivas guiarão teus passos em Somníria e, igualmente, por este sonho no portal que chama pela tua alma. — Com as mãos suavemente estiradas, como se indicassem um caminho a seguir, ela direcionava ao portal de opalina irisada. Desejei atravessá-lo outra vez, entretanto, havia mais a saber sobre aquele estranho paraíso. 

— Se meus olhos abertos fazem com que a lembrança não se perca de meu lembrar, diga-me teu nome para que o esquecimento seja ainda mais improvável. — Olhei-a e suas pupilas dilataram-se sutilmente. 

— Ihvia... — sussurrou. — Peço perdão por não me apresentar a ti, entenda que não há tantos despertos em Somníria e, em consequência, raramente vejo-me na necessidade de uma apresentação formal. 

— Não te preocupes, apenas não quero te esquecer... — Havia tanto já esquecido, por esta razão as memórias tornavam-se tudo para mim de modo que eu sentia estar, a cada nova vivência, me preparando para defender, com todas as forças, as minhas novas memórias. Ihvia ficou em silêncio, por um tempo. 

— O que tu buscas, Áurea, já está em ti. — Eu não esperava ouvir o que ouvi. — Olhe bem para dentro d’este portal, há algo que te espera no interior dele e, se ele te chama, é valioso que respondas. 

— Conheces-me, então? Diga-me como? — Tive esperanças, por instantes, de ter alguém próximo que soubesse quem eu era, ou melhor, quem fui. 

— Conheço teus sonhos. No entanto, levo algum tempo até lembrar-me deles e, consequentemente, lembrar de ti. É preciso mansidão para que as recordações aflorem sem dor e sem medo... — Silenciei. Ela parecia falar diretamente o que me tocava no mais íntimo do meu espírito. — Diga-me o que vês, aproxima-te do portal; revela-me o que ouves. — Os umbrais reluziam e o chamado era, não uma voz, mas uma intuição. Aproximei-me de sua esculpida forma e o que antes era apenas infindas nuvens, em sutileza se manifestava em formas e movimentos até transfigurar-se em uma cena esvanecida. 

— Uma... mulher... eu mesma... — Proferi em um murmúrio, estando atenta aos detalhes dissipados. Ihvia sorriu quando eu a olhei por um segundo. 

— Este é o teu sonho mais recorrente, Áurea. Contudo, ele emerge no teu sono profundo, no subconsciente. Talvez queiras encontrá-lo agora, com teus olhos abertos a ele. — Dissera enquanto eu me aproximava do portal. Sim, eu almejava olhar para o meu sonho recorrente e descobrir as verdades que o habitavam. Em especial pela paz que me trazia o simples aproximar. — Não temas. — Afirmou, no entanto, sua voz já estava longínqua e tão logo vi-me no interior do que outrora assemelhava-se a uma reminiscência. 

Tudo ao derredor era pálido, envolvido por uma névoa translúcida com nuances de marfim, era como estar num entardecer melancólico com o sol dourado no horizonte e a sua luz espargindo pelas nuvens no céu, criando esplêndidas matizes. Eu estava em uma casa de madeira, singela e confortável; o sofá com uma colcha de pequi sobre ele ornava com almofadas em tons de bege. Havia um vazo de flores na mesa de centro, neles estavam as sempre-vivas que Ihvia colhera para mim. Eu sabia que eram elas. À esquerda, uma cozinha singela e cuidada, nos mesmos tons, algo era cozido no fogo à lenha, uma panela cujo aroma agradável aquecia o coração. Tomates, talvez? Pimenta e limão? Segui em direção ao cozido, no entanto, um choro tenro me alcançara os ouvidos; um bebê em lamúrias — era um bebê, eu sentia. Segui as ondas do timbre tão delicado e cheguei a um quarto cujos enfeites transmitiam uma sensação macia. Tão logo, avistei um berço. 

Meu coração era um relógio cujo tempo contado era célere; meu coração pulsava de uma alegria contida, um amor insondável, uma estranheza precisa. Olhei para o leito e lá estava ele, o bebê; envolto em lã cor de areia, lamuriando como uma pequenina preciosidade. Guiei-me a segurá-lo, era tão petiz... seus olhos se abriam com tanta dificuldade; ainda assim, ao fazê-lo, viu-me admirá-lo e sorriu, sem nenhum dentinho, sem sequer uma expressão facial realmente formada e pronta para a vida. Frágil, tão sensível. Seu choro se foi e, de súbito, ouvi passos apressados e, antes que eu pudesse entendê-los, algo abraçou minha perna esquerda. Olhei para baixo. Uma menina. Decerto deveria ter por volta de quatro anos de idade. Ela sorria. “Mamãe, ele acordou?” — indagara olhando-me nos olhos. Eu era a mamãe, aquela cujo abraço sempre seria a segurança perene; aquela cuja dedicação se estendia pela eternidade. Abaixei-me, deixando o bebê às vistas da menina que, com lentidão e apreço, acariciou-o em sua miúda fronte. O bebê sorriu outra vez. 

Minhas lágrimas nasceram em meus olhos e uma dor sutil em meu peito conduziu-me ao choro mais intenso. Aquela cena era sublime... agradável. Um lar construído com amor. O meu lar. Os meus filhos. “O que foi, mamãe? Está emocionada?” — disse a doce criança. Sorri-lhe, tocando-lhe a bochecha n’um carinho verdadeiro. “Diga-me teu nome, pequena? Lembra-me, pois, esqueci-me de tudo...” — pedi, pois, sentia-me acolhida. A garotinha sorriu. “Millimor, mamãe! E esse é meu irmãozinho Ëllior. Promete não esquecer de novo, mamãe?”. Eu prometi. Abracei-a com todo o meu profundo e inalcançável amor. Senti-nos aquecer. Fechei meus olhos e aproveitei o que, talvez, jamais voltasse. Quando pude abrir fazer da visão um sentido ativo novamente, notei que alguém estava próximo, vi sapatos masculinos. Olhei para olhar em sua face, mas despertei antes que o pudesse fazer. Despertei em Somníria. 

Por um tempo, fiquei inerte. Lembrando-me. Depois, demasiado abalada, chorei com pesar, soluçando de tristura e angústia entre as límpidas nuvens. Permaneci pelo que me soou ser a eternidade, sozinha entre nuvens lilás, até iniciar uma caminhada que perdurou ainda mais tempo; imersa, porém, em meus pensamentos de saudade, medo e angústia, pouco importava-me a temporalidade das coisas. Desejei habitar o sonho familiar e deixar a vida humana; indaguei de Ihvia havia escolhido isso, pois, estava li em Somníria, porventura tivera uma experiência símil a minha. Por que deduzir que o sonho é de valor inferior à realidade? E por que a realidade seria, de fato, real e não o sonho? Eram dúvidas fidedignas de um ser exausto; imerso em saudades e pavores. 

Um murmúrio, todavia, quebrantou meu estado, vinha d’algures dentre aquele infinito. E, embora o local fosse esse contínuo pálido e celeste, não era plano. Assim, descobri aos poucos a origem do sussurro. “Áurea Lihran” — eu ouvia. Vinha de um mastodôntico e deslumbrante portal, constituído por diamantes negros, cingido por purpureanidas ao redor— uma flor que jamais vi pessoalmente, de pétalas n’um violeta-escuro, sépala negra, um degradê sombrio em seu interior, próximo ao óvulo; filetes espinhosos, anteras de uma penugem suave. É considerada uma espécie mágica, de raridade mística; associada à morte e ao medo, polinizada apenas por abelhas-basalto de Amorttam. No interior daquele obscuro umbral, as nuvens se dissipavam em uma escuridão perniciosa. Era... admirável e... amedrontador. 

Deslumbrada, aproximei-me e ao passo que o fazia, uma vertigem me acometia e o sussurro, outrora indistinguível, agora era agourento e grave, como a voz de um demônio, como as sete vozes do abismo. Temi e, trêmula, tentei recuar, porém, a energia mórbida do portal induzia-me a seguir até o seu interior; isso me causou uma estranheza e um horror inexplicáveis. No meu coração, parecia haver um violino macabro com acordes fugazes; um violino de mil volutas, em cor de sangue; pois emergia de mim um horror que não se podia medir. No antro daquela escuridão, senti que me aguardava a morte, ou algo pior do que ela; uma morte vertida à vida, impossibilitando que o verdadeiro descansar em paz fosse possível. Era utópico defender-me daquela gravidade infernal; então sucumbi ao seu âmago, mas, não só. 

Pouco antes, enquanto o sussurro vinha aos meus ouvidos, um de cada vez, soprando meu nome como uma carne dilacerada o faria se pudesse; como a terra de um cemitério de mortes hediondas, decerto diria se assim fosse capaz. Enquanto uma contagem regressiva longínqua estrangulava-me em pânico, ouvi o som de imensas asas a domar o ar e, em átimos, senti mãos viris segurarem meus braços em tentativas poderosas de impedir que o insalubre negrume engolisse meu corpo e ser. Fiz o possível para olhar para trás e reconhecer aquele que tentava me salvar; porém, fomos tragados e torturados na imensidão negra. Medo. Arrepio. Breu perpétuo e insalubre. Uma imersão em um pesadelo cruel. 

Vi-me caída em um lugar hostil e sôfrego, denso e escuro; um tipo de paisagem terrífica onde urros e bramidos de terror se alastravam por todos os lados; senti uma presença tétrica, macabra e perversa próxima a mim, em alguma direção. Até que vi o Piche do Oblívio, caminhando em sua lentidão, vindo até mim, com seu cantarolar moroso e horrendo. Quis correr em uma fuga célere e dediquei-me a isto, porém, quão bárbara era a densa atmosfera, o firmamento em nuvens cinzas e eletricidade em raios, trovões, tudo carmim; fendiam os céus enquanto debaixo deles as sombras e a destruição assombravam. Eu corria... mas, devagar; era contraditório, entretanto, o esforço para o fazer mostrava-me claramente o quão lenta eu estava. E ele, o Piche, vinha atrás de mim, caminhando e, desta vez, com seus olhos vermelhos, talvez sorrisse se tivesse expressão e semblante. 

Eu tive medo. Porém, quando ouvi as asas domando, novamente, o ar sufocante; olhei para cima e vi um homem em roupas negras e grandes asas de igual tom, ele descia da imensidão entre centelhas de cor escarlate e estrondos ensurdecedores; atrás de mim, frente ao demônio, ele pousou com elegância e poder; muito mais rápido do que eu, parecia imperar sobre todo o ambiente e ser capaz de agir para além do que a circunstância parecia impor. Vi com perfeição as suas asas, ainda não pude ver a sua face. O homem, portanto, ajoelhou-se no chão e proferiu o que não pude ouvir. Uma imensa marca pálida se materializou, um estigma, um enigma, um sigilo mágico; atravessando o chão de pedra fria e em seu âmago, tão somente, o Piche. O Piche ficou estático e eu senti um impacto em meu peito, como se o aprisionamento da criatura me afetasse, permitindo a minha liberdade. 

Enfurecido, o Piche demoníaco do Oblívio, estendeu seu lodo asqueroso, e o envolveu em meu pescoço; seu olhar rubro indicava com evidência a sua ira. O meu anjo protetor — é o que eu poderia pensar ser naquele átimo — desembainhou uma espada negra com lume lilás reluzente, a qual parecia ser etérea, imaterial. Extirpou o lodo sem piedade; e seu urro de dor espalhou-se pelos céus, e no horizonte ecoou. Trêmula e amedrontada, eu nada fazia — era-me impossível diante tamanho terror. O lodo do Piche que envolta de meu pescoço afligia, desfez-se no mesmo instante; e antes que qualquer coisa pudesse acontecer, fui pega pelo anjo e o vento quente colidiu com minha tez lívida, e voei com ele, mesmo mortificada; e vi o Piche do Oblívio na terra fria, dentro do círculo com infindáveis símbolos que pensei nunca ser capaz de compreender. 

Então atravessamos o portal e as nuvens brancas, e tons de lilás vestal, se apresentou aos meus sentidos novamente; bem como o aroma de lavanda. Fui colocada, gentilmente, em um amontoado de nuvens confortáveis. Com as mãos cujo toque ela tenro, fui acalmada. Palavras quais, desta vez, ouvi com mais compreensão, irradiou do anjo e fez com que o umbral de diamante negro desaparecesse; sucumbiu como se nunca tivessem existido. Alívio. Alívio em mim e, creio, no anjo; ele finalmente me olhou com seus olhos violeta e com uma ternura cândida que eu compreenderia, pois, no acalmar do meu coração espavorido, o semblante daquele anjo não me pareceu, em nenhuma instância, desconhecido. Levei alguns minutos, pois sentia que estava vasculhando todas as lembranças recuperadas até então; no entanto, seu falar direcionado a mim, trouxe o reconhecimento imediato. 

— Tu estás bem, Áurea? — Eu ouvi. Meu coração pulou no peito, causando uma ansiedade súbita. 

— Lorrt? — Era Lorrt, ou idêntico a ele? Ou muito parecido? Eu estava perplexa. Instante por instante, eu tinha certeza de que era ele; as lembranças que haviam em mim eram como um sonho vago, cujo sentido principal eu tinha total conhecimento, mas os detalhes vertiam, esvaíam; decerto por isso não notei, em primeira instância, que era Lorrt; contudo, não demorou para a certeza envolver minha alma. Ele fitava-me com um carinho infindo, inenarrável. Eu... entristeci-me, pois, eu não o amava mais como sei que o devo ter amado quando estávamos juntos, mas de tudo esqueci; como poderia revelar isso a ele? “É só um sonho” — eu pensava, tentando crer que tudo era uma criação de minha mente perturbada. 

— É... agradável... revê-la... — Ele disse. Um tom manso, viril, terno; uma expressão de paixão, respeito, carinho e saudade. Eu não conseguia retribuir. 

— Perdoa-me... eu... não consigo... eu perdi minhas memórias... eu não sinto mais a mesma coisa... — Expressei com uma culpa, uma angústia, sem perceber que talvez não fosse preciso dizer tudo aquilo. O semblante de Lorrt tornou-se infeliz, entretanto, era tão sutil; parecia-me que ele, com uma força profunda, mantinha, o máximo possível, suas emoções controladas. Ele se aproximou. 

— Acalme-se. Respire. Não há culpa, nenhuma culpa. — Ele segurou minhas mãos, ajudou-me a me sentir melhor. — Diga-me, tu reconheces o pesadelo que chamara teu nome naquele portal? Reconheces aquela criatura? 

— Eu o chamo de... o Piche do Oblívio; aparecera-me quando me doía a lembrança de minha amada mãe e minha família... eu estou amaldiçoada, Lorrt... — Lamuriei, tanto que o lacrimal emergiu com seu brilho cristalino em minhas retinas. 

— Maldição? — Lorrt estava visivelmente preocupado. 

— Em busca das minhas memórias, fiz um acordo com uma entidade; agora tenho um demônio ao meu lado, dentro de mim, e sinto a dor mais horrenda existente sempre que me vêm à memória novas lembranças. Esta dor materializou-se no Piche. 

— Respire devagar, Áurea... Tu sabes onde estás? — Indagou, plácido e sério. 

— Ihvia dissera-me que este é o reino de Somníria, e que tenho nele meus olhos abertos e, portanto, estou consciente e posso me lembrar do que acontecer aqui. Ihvia sabia que eu vinha do Castelo Drácula. Há tanto a contar... — Desabei em meu choro, agora translúcido. Lorrt tocou sutilmente meu queixo, levando-me a olhá-lo; no entanto, parecia hesitante em me tocar, assim que eu o olhei, ele se afastou. 

— Permita-me ensinar-te um ritual de exorcismo; use-o para manter este demônio afastado sempre que precisar. Não posso trazer ao teu conhecimento uma magia capaz de destruir o vínculo que possuem, pois, isso não é possível em Somníria. No entanto... — Lorrt passou a movimentar as nuvens ao redor. — A quebra temporária do elo, será suficiente para te levar à busca do conhecimento que precisas para realizar o ritual completo. — Olhei, atenta, para ele. E aprendi sobre cada símbolo que ele fazia ser visto com a manipulação das nuvens; cada verbo pronunciado, também fora guardado em minha mente com bastante esforço; compreendi os passos de um ritual mágico perfeito. Lorrt ensinava com brandura e apreço; todas as minhas dúvidas eram sanadas por ele. Em evidência, sucumbira todos os seus sentimentos de modo a priorizar minha proteção, eu percebia. 

— Se algo errado ocorrer, Lorrt? — Temi. 

— Este não é um ritual forte o suficiente para te causar danos; erros levarão apenas ao súbito desaparecimento dos sigilos em um fogo fátuo. — Compreendi e fiquei em silêncio. Observando-o. Ele fez o mesmo comigo. Olhá-lo acalmava-me, queria amá-lo como amei. Quis abraçá-lo como, decerto, um dia abracei. Porém, de repente, um abalo e um estrondo símil ao do pesadelo, destruiu a contemplação e, também, meus pensamentos, ecoando pela paisagem alvililás. 

— Está na hora de despertar, Áurea; quanto mais tu permaneces aqui, mais instável Somníria se torna. — Explicara Lorrt. Mas havia tanto para dizer e perguntar. 

— Eu te verei outra vez? Há tanto que eu gostaria de falar... de compreender... — Lorrt não pôde esconder sua tristeza naquele momento, seus olhos lacrimejaram. 

— Sim, se assim desejares... 

— Como? — Insisti. 

— Encontre-me em teus pesadelos, zelarei por eles... 

— Meus pesadelos? — Mais um estrondo, seguido de um tremular amedrontador, como se uma chuva se predissesse. Olhei ao redor, assustada. Lorrt se aproximou, segurando, com sutileza, os meus braços. Tocando a ponta de seus dedos em minha fronte. 

— Eu vou cuidar de ti, Áurea. — Senti uma dor, como se uma agulha perfurasse minha fronte. — Acorde! — Ouvi e vi, pela última vez, o semblante de Lorrt. E o dossel carmim ressurgiu embaçado; a visão ébria de um adormecer profundo. Toquei a seda negra. “Meu leito...” — sussurrei. Notei que anoitecia. “Eu não esqueci” — murmurei. Mantive-me deitada, apenas relembrando. Somente relembrando. Nada mais. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Anotação

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente, daqui a algumas horas. Por isso, acho inadiável anotar aqui mais uma das experiências inquietantes que venho tendo no castelo… 

Na noite anterior, antes de me deitar, nada de mais me sobressaltou. Desde aquela “festividade laranja” — quando observei, incrédulo, junto a Ameritt, o esvoaçar de abóboras pelo espaço do castelo — estou ainda mais “seguro”... acostumado às diferentes surpresas que o ambiente aqui venha me apresentar. Quanto muito, se bem me lembro, somente fui agitado pela recorrente tensão vinda dos corredores, dessa aparente, sensível suspeita de que algo sempre ronda e parece colocar-se por detrás da porta, como se para ouvir ou ter certeza de minha presença… 

Para não perder o fio da reflexão, escreverei agora sobre este sonho, essa coisa inédita e aterradora que me aconteceu… 

***

Estava eu numa paisagem bucólica, algo campestre — verdadeiro contraponto às paredes e ângulos retos de uma cidade ou mesmo da frieza obscura existente aqui no Castelo. 

Sozinho, sem sinal algum de outra presença que não a minha, via-me naquela sensação única de estar e não estar em posse dos meus voluntários movimentos. Olhando para os lados, desejava mesmo intentar saber até onde iam os limites da planície observável; quando dava por mim, lá estava, saltando como jamais poderia na realidade, quase como se me teletransportasse… 

O sonho parecia comum, daqueles que, quando menos esperasse, me despertaria e fugiria, para sempre, da lembrança. Porém, o que se seguiu foi o completo oposto. 

Diante de mim, logo após ter terminado aquele percurso mágico, instantâneo, deparei-me com uma natureza diferente: flores e ramos de uma vegetação densa, de cor arroxeada, tomavam conta do horizonte à frente e da minha vista. Aquilo não tinha fim; era de uma amplidão desconcertante e visualmente desproporcional ao vazio que eu havia percorrido até então. 

Sem poder ignorar a estranha atração da paisagem, pus-me logo a caminho. Lembro de ter chegado com a mesma rapidez aos limites daquele roxo jardim. 

As plantas, ali (quando pude confirmar que eram mesmo de natureza vegetal), tinham altura considerável, e, quanto mais mergulhava em direção ao centro da peculiar paisagem, mais eu desaparecia, percebendo claramente que a saída de tal labirinto se tornava cada vez mais difícil. 

Nesse momento do sonho, eu já imaginava ter o poder de me retirar dele, assim como sempre procedo em minhas horas de sono. No entanto, deu-se o contrário: completamente consciente, podendo até me dizer num estado súbito de vigília, vi-me como nunca antes em pleno poder de meus sentidos naquela vegetação — estando, também, plenamente ciente de que estava sonhando. 

Não posso dizer com absoluta certeza que meus gritos tenham ecoado pelas paredes do Castelo, no momento em que gritei desesperadamente naquele sonho… Caso alguém tenha passado pelo lado de fora do meu cômodo ou mesmo tenha parado por um tempo lá embaixo, pelo jardim, talvez sim… isso é algo que não tenho mesmo como saber. 

Motivo houve de tamanho susto.  

Convictamente consciente de mim, do meu corpo e do risco que sentia estar correndo, ver aquele chão tremendo, como se fosse abrir sob meus pés, e aquelas mãos enormes, titânicas, se erguerem no horizonte que meus olhos ainda podiam enxergar, fez com que eu me colocasse, como nunca antes, no lugar de um inexpressivo inseto... de um piolho, cujo medo e desespero mostram-se semelhantes ao humano quando em presença de um desconhecido ser maior do que nós. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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13. Castelo Vampírico: A ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito

05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

05 de janeiro? – Decidida a não atender à vontade da criatura, fechei a cortina e me preparei para dormir. Levantei-me umas três vezes para espiar a criatura pela cortina, e ela continuava lá, sentada no peitoril, encarando o horizonte laranja. A abóbora, como Ameritt havia recomendado, permanecia no lugar. Apenas a cortina nos separava. Mesmo que um incômodo insistisse em se mover por minhas entranhas, preferi confiar que a presença da abóbora dada por Ameritt pudesse me proteger. Então, deixei o cansaço me vencer depois de horas de vigilância inútil. 

06 de janeiro? – Despertei, e a primeira coisa que fiz foi verificar se a criatura permanecia na janela. E lá estava ela, admirando o horizonte, como se não tivesse mudado de posição em momento algum. A cena era sublime. Mesmo que um pouco assustadora, havia algo belo na forma como ela contemplava tudo à sua frente. Não perdi muito tempo e fui logo ao encontro de Ameritt. Estava ansiosa para compartilhar com ela o ocorrido. Lá estava ela, colhendo cogumelos, e me recebeu com um sorriso, ouvindo-me com paciência enquanto eu falava sobre a criatura e apontava para a janela do meu quarto, para que ela pudesse vê-la. 

Quando terminei de falar sobre a criatura, omitindo o livro, ela riu baixinho enquanto olhava para cima, protegendo os olhos da luz da manhã: 

— Há coisas nesse castelo, minha querida Rute-besin, que ultrapassam qualquer entendimento que possamos ter. Para certas respostas, talvez você deva procurar o professor Monm. Talvez ele tenha o conhecimento sobre isso que eu não tenho. Ele pode parecer meio estranho, perdido em pensamentos às vezes, mas sabe exatamente onde está. 

Então, com seu jeito peculiar, ao qual eu já havia me acostumado, ela voltou a colher os cogumelos, como se aquilo que eu havia contado fosse apenas mais um dia comum, algo trivial do castelo. Depois da conversa com Ameritt, decidi procurar o professor Monm. Nunca o tinha visto, não sabia sua aparência, mas me recordava um pouco de onde ficava sua sala de aula. Lembro-me do encontro impactante que tive com seus alunos depois de ser perseguida por uma criatura assustadora ao voltar de Séttimor. 

Fui àquela sala, mas estava vazia, assim como todas as outras ao redor. Aparentemente, o professor não é uma figura fácil de se encontrar pelos corredores do castelo. Ainda assim, estou aliviada por o castelo, às vezes, conspirar para que certos encontros aconteçam. Quando já sentia vontade de desistir da procura, encontrei-o no corredor. E, junto dele, encontrei a biblioteca que já havia visitado na outra versão do castelo, no dia do baile de máscaras. Um alívio duplo, se posso dizer. 

Ele estava parado à porta da biblioteca, como se estivesse à minha espera. Era um homem alto, de pele escura, cabelos e barba bem aparados, muito bem-vestido, com um blazer e uma calça de tweed em um verde bem escuro. Por dentro do blazer, usava uma camisa muito branca e segurava um relógio de bolso. 

— Conseguiu o que precisava? — perguntou ele assim que o vi, com um sorriso sutil. 

Fiquei confusa a ponto de olhar para trás, procurando algum de seus alunos que pudesse estar vindo atrás de mim. 

— Consegui o quê? — perguntei, sem entender. 

— Ah, sim, perdão — murmurou ele, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo. — Isso ainda não aconteceu. 

O comentário me perturbou, mas decidi ignorá-lo. Ameritt havia me prevenido de que o professor poderia parecer meio estranho, então foquei na razão que me levou a procurá-lo. Apresentei-me e disse que Ameritt tinha recomendado procurá-lo para sanar uma dúvida minha. Ao ouvir o nome de Ameritt, ele abriu um grande sorriso e me convidou a entrar na biblioteca e nos sentarmos. 

Quebrando meu constrangimento e minha timidez iniciais, fui direto ao assunto. Expliquei a ele sobre o estranho visitante sentado no peitoril da minha janela e mencionei brevemente o livro que havia encontrado. Não revelei muito e omiti o motivo real que me levou a guardar o livro comigo. Ele escutou em silêncio, paciente, esperando que eu terminasse. Respirou fundo, juntou as mãos e, depois de alguns instantes, começou a falar: 

— As criaturas desse castelo... Sim, elas nem sempre são simples visões ou espíritos. Algumas, como talvez essa que você descreveu, são fragmentos do castelo: lembranças, reflexos da própria arquitetura deste lugar. Esse castelo tem sua própria memória. 

Ele parou, pensativo, e me olhou com intensidade. 

— Esse livro que você encontrou talvez também seja uma memória. Cada objeto, cada criatura nesse lugar é um fragmento da memória do castelo. E aquelas que ainda não são, um dia serão. Acredito que essa criatura não irá lhe fazer mal. Se fosse assim, já teria feito. Prometo que irei verificar isso mais a fundo amanhã. 

Senti um arrepio com as palavras do professor. Elas não me ofereciam respostas diretas. Ele parecia saber mais do que estava disposto a compartilhar, mas suas palavras me faziam sentir o castelo mais vivo. Depois disso, perguntei a ele se poderia usar a biblioteca para algumas pesquisas que precisava realizar e se ele estaria disponível para tirar eventuais dúvidas. Ele pareceu se animar com o assunto e começou a falar sobre as mentes curiosas que já havia conhecido no castelo, sobre como pessoas movidas pela necessidade de conhecimento o extasiavam. 

Não havia dúvidas de que Monm era um ótimo professor. A forma como falava, como se encantava pelo conhecimento e pela partilha de saberes, era maravilhosa. Eu poderia ficar ouvindo-o por horas — e foi o que fiz. Enquanto conversávamos, por um breve momento em que olhei em seus olhos, senti como se algo neles revelasse uma dor antiga. Era uma sensação estranha. Sempre fui péssima em entender sentimentos alheios, mas consegui captar um fragmento de dor, uma dor semelhante à minha, só que amplificada, como se a minha perda fosse apenas uma sombra da dor que Monm vivenciara. 

Nunca imaginei que um dia poderia reconhecer em outra pessoa algo tão próximo do que eu sinto. Eu, que antes de fazer parte do castelo duvidava de tudo o que fugisse do alcance da minha lógica, encontrei-me diante de alguém com quem talvez compartilhe uma espécie de luto silencioso. Olhando para ele, o peso que carrego pareceu tornar-se mais claro. Por um momento, pensei em perguntar o que realmente o consumia e se era mesmo luto, talvez até compartilhar um pouco da minha própria história. Mas, assim como eu, ele parecia ter aprendido a manter a dor guardada, protegida dos olhares dos outros. 

Quando seus olhos perderam aquela sombra estranha, ele continuou a falar como se nada tivesse acontecido. Afinal, no castelo, talvez seja fácil perder-se — não apenas nos corredores e salas, mas também dentro de si mesmo. Monm e eu, cada um à sua forma, somos habitantes desse labirinto. 

07 de janeiro? – Nunca imaginei que, sendo hóspede do castelo, poderia conhecer tantos lugares diferentes como o que conheci à noite. Ontem à tarde, ao retornar ao meu quarto e perceber que a criatura ainda estava no peitoril, senti uma estranha vontade de apenas deixar para lá. Então, fiquei escrevendo até que o sono se tornasse difícil de vencer. Fui para a cama e me entreguei a ele sem resistência, deixando as palavras que ainda poderiam ser escritas soltas na minha mente. 

Assim que fechei os olhos, logo os abri e me vi em um lugar que não poderia chamar de sonho. Não era o castelo, e infelizmente também não era a Vila de Séttimor. Era como se eu estivesse em um espaço que escapava a qualquer definição lógica. Não consigo explicar com palavras exatas a sensação que me preenchia. 

Ao meu redor, flutuavam algumas bolhas que refletiam lembranças — algumas minhas, outras familiares, porém nubladas. Caminhei em meio a uma névoa lilás, com um perfume sutil de lavanda. Ao tocar minha pele, essa névoa parecia refrescar-me e, aos poucos, suspender minhas sensações. 

Logo à frente, havia um homem alto, de pele escura e cabelos e barba muito brancos. Seus olhos, de um branco translúcido, não possuíam íris nem pupilas. Ele usava vestes semelhantes às de um monge, todas brancas, e segurava uma chave. Parecia estar à minha espera. 

— Venha. — Ele disse como um sussurro. — É-me ordenado guiar-te para o sonho daquele que teu coração anseia. 

E meu coração ansiava, mas eu não tinha certeza de por quem ou pelo quê. Eu o segui por entre um campo de lavandas na direção de uma bela porta de madeira escura adornada de heras. Era apenas uma porta, sem nada: sem uma construção, paredes, nada que eu pudesse entrar. Ele a abriu, e me vi de frente a uma bolha, do tamanho de uma bola de basquete, onde havia uma lembrança. As nuvens que a cobriam se dissiparam, e vi o professor Monm. Ele segurava um relicário com firmeza, mas havia tristeza em seu rosto. 

— Éramos… inseparáveis… — murmurou Monm. Sua voz parecia estar distante, cada palavra carregada de dor. — Mas, o tempo… em seu esplendor e perfeição… — Ele olhou para o relicário em suas mãos. — Tornou-se minha obsessão… pois… eu não podia… eu não podia perdê-la… 

A imagem dele ali, perdido em sua própria dor, era como olhar para um espelho daquilo que também me feriu por dentro. Amor, culpa, desespero, tudo isso me tomou de maneira violenta: a dor semelhante, o eco suave do que eu sinto por Hadassa. A lembrança dela encheu minha mente, e logo fui sugada para um cenário diferente. Comecei a sentir demais, senti uma vertigem e percebi que algo estava errado. Comecei a ouvir sussurros, vários deles, numa língua que eu não conseguia identificar. 

Me vi sozinha, de frente a um grande portão escuro, com criaturas aladas me observando com olhos profundos. O portão se abriu, e fui levada através dele sem ter escolha. Eu queria recuar, acordar, mas estava sendo levada, atraída, indo além de sabe-se-lá-o-quê. Uma grande bolha escura veio até mim, fui tragada por ela, e arrastada para uma das minhas piores memórias. Eu estava como uma observadora: me vi parada, sem reação, olhando para Hadassa. Ela segurava o celular com mãos trêmulas, suas mãos e roupas ensanguentadas. Ela estava chorando e me implorando para ajudá-la. 

— Rute, me ajude, eu não quero ir para o inferno. Me ajude, por favor, eu quero morrer, mas não quero ir para o inferno. — Ela gritava enquanto abraçava a minha versão da lembrança, que começou a chorar junto com ela, sem saber o que fazer. 

As palavras dela ainda me atormentam quando me distraio e deixo meus pensamentos irem. Comecei a sentir meu coração bater mais depressa, minha respiração estava ofegante. Senti como se uma carga elétrica fluísse por minhas veias e vasos. Queria que aquela lembrança parasse, eu não queria vivenciar aquela cena novamente. Me debati, gritei, mas parecia inútil. Eu não queria sentir tudo aquilo de novo, eu só queria sair dali. 

Acordei com um sobressalto, e lá estava a criatura da janela, me sacudindo. Mais próxima que antes, próxima demais. De algum modo, ela havia atravessado a proteção da abóbora de Ameritt e agora me olhava com aqueles olhos que pareciam enxergar através de mim. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Conexões de sangue poético

Arale Fa´yax, | Com passos furtivos como a névoa da manhã, | Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios | Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Arale Fa´yax,
Com passos furtivos como a névoa da manhã,
Carrega consigo, nas dobras de sua capa de sombras e mistérios
Os pergaminhos de sangue, que são mais do que palavras,
São o pulsar do destino, a assinatura do universo no fio da existência.
Cada rolo, cada pedaço de carne redigido, identidade cruzada,
É um véu que se rasga diante dos olhos dos deuses e dos monstros,
Cada página transpirando o vermelho das profundezas,
Escarlate, fervente como o coração de uma estrela moribunda.

A máquina de escrever, feita de ossos quebrados e reconstituídos,
Brilha com a luz de uma lua sangrenta,    
Em seus teclados, o sangue pulsa com vida própria,
Vibrando, dançando, como se as palavras que ela escreve,
Fossem mais que ecos de dor, fossem orações que rasgam os véus.
Um sangue que flui das páginas é mais do que mero fluído,
Destino que escorre, é o mapa que guia a caçadora da ceifadora.

Oh, pergaminhos de sangue, amarrados com fios de terror e desejo,
Onde a tinta é o próprio sangue do universo,
Revelando as verdades ocultas nos recessos das almas,
Nomes dos que se aventuram por este castelo sombrio.
Um nome, em particular, surge com a gravidade das estrelas caídas:

"Gaia?"..."Terra?"
A filha da brasa, de uma madeira que sangra uma tinta vermelha
Uma terra do dourado doente do verde, da raiz,
Uma índia de arco e flechas, de olhos como a terra escura,
Onde o verde se mistura com o preto da noite,
Sua pele, um espelho do solo que abraça a vida e a morte.
Suas mãos, marcadas pela terra, pelas raízes,
Carregam o peso do que é ancestral,
E sua presença é uma tempestade de sabedoria,
De um povo que não é de uma terra, mas do próprio coração de Gaia.

O avatar da nação da Brasa é o da serpente e da árvore,
Onde os galhos se entrelaçam com os dedos,
Os olhos, como esferas de obsidiana,
Vêm não do rosto, mas da alma da terra,
Guardiana do segredo, do ciclo eterno do renascimento.
Ela pisa nas pedras, mas sua alma voa com as aves ancestrais,
Vossa voz é o canto que ecoa nas florestas e rios,
Nos ventos que sussurram histórias de um tempo antes do tempo.

O pergaminho, com sangue que agora flui como um rio celestial,
Revela sua jornada – uma peregrinação em busca da verdade.
Ela vem, a guerreira de pele que nunca se apaga,
Com a força das raízes e a suavidade das folhas ao vento,
Sua missão é clara, como o brilho das estrelas sobre a selva noturna,
A extirpar as feridas que o homem e a besta causaram ao planeta,
A tecer o feitiço do equilíbrio, onde os homens falharam.

Mas a máquina de ossos não se detém,
Ela continua a escrever, e o sangue é a chave para o futuro,
Para cada ser que adentra o castelo – com a alma marcada,
Com seus passados e destinos entrelaçados como fios de uma tapeçaria
Cada nome que ela escreve, cada imagem que ela evoca
É uma jornada, uma história, um eco que se perde nas trevas,
Mas também se ergue na luz, como a chama da vela que ilumina os caminhos.

E tu, Arale Fa´yax, filha das estrelas e da sombra,
Carregas esses pergaminhos como os segredos dos mundos,
Com olhos que sabem, que veem, que interpretam o invisível.
A máquina de ossos brilha, pulsando como o coração do castelo,
E o sangue, fluido e quente, revela as verdades que só tu podes entender.
Pois tu és a guardiã das palavras e das criaturas,
os pergaminhos de sangue serão sempre teu guia,
Na eterna caçada ao que se esconde, ao que se alimenta da vida alheia.
Filha da terra, eco do passado,
Teu avatar se reflete no sangue, mas também na floresta,
Onde a natureza ainda canta a canção do equilíbrio perdido,
Guerreiras de raízes e ventos, és a esperança de um novo amanhecer.

Anelly, de traços como sonhos que não se dissipam,
Astrid, cuja mente afiada esculpe o invisível.
Maria, entre a ciência e os mistérios das ervas,
guarda segredos que tanto curam quanto destroem.
Há também Nauärah, guardiã de silêncios e flechas,
uma guerreira cujo espírito se ergue como torres ocultas.

Olga, enigma em carne, uma beleza avassaladora,
tece entre seus passos o fio da verdade e da dúvida.
E tu, Rute, sob o signo das orquídeas roxas,
tens o mundo a descobrir, mas também a temer.
Caminhas entre os espectros, vislumbre das estrelas,
e o que é visível nem sempre é o que deves tocar.

A Sinfonia do Castelo que minha máquina de ossos compõe para vossos honrados companheiros; lhes entrego a minha poesia de sangue,    

Ó Drácula, maestro de formas e sombras,
teu castelo não é mero edifício,
mas uma partitura onde cada hóspede é nota viva
Com mãos invisíveis moldas a estrutura,
mas é nas mentes que esculpes o eterno.

O tempo aqui não obedece ao sino,
mas pulsa ao ritmo da alma coletiva.
Cada corredor guarda histórias,
e em cada aposento, enigmas aguardam o destemor.   

Concluo estas linhas com o coração em vertigem,
pois vejo que não sou mais quem entrou,
mas parte de algo maior, algo inominável.
Que mistérios ainda esperam, ocultos nas névoas?
Ó, diário, sê tu minha âncora,
e guia-me nas trilhas de um castelo que é tanto destino quanto perdição.

Eis que tua jornada se faz trilha obscura,
um verso de trevas entoa aos teus pés.
A ladeira íngreme, mergulhada em negrume,
te acolhe, não com braços de mãe, mas garras.
Oh, espírito inquieto, que força te guia?
Que ânsia mordaz te faz seguir ao abismo
onde o luar se esconde e o vento murmura
segredos que os vivos não ousam ouvir?

O castelo ergue-se, soberbo, em silêncio,
mais alto que sonhos, mais frio que tumbas.
Sua face é esculpida em pedra que chora,
e os vitrais, como olhos, espelham tormentos.
As portas — que brilham em rubro carmim —
parecem pulsar como corações vivos.
Oh, que ironia! Na madeira calada,
ecoam promessas de fim ou começo.

Teus pés hesitam; tua alma vacila.
Deverias, mortal, adentrar o mistério?
Ouvirás os murmúrios dos que foram antes?
Sentirás o sopro do passado sombrio
que percorre os corredores como sombra?
Mas a aldrava convida com firme apelo.
Não são as mãos que decidem, mas o peito,
e no peito há um grito que exige resposta.

Eis então, que escolha farás, ó caminhante?
Tens a coragem de golpear a porta
ou o silêncio da noite será teu refúgio?
Lembra-te: o que repousa atrás do portal
não retorna ao mundo da luz sem cicatriz.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Velian – Sombras de Somníria

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da humanidade, encontrou-se em Fortaleza, no calor abrasador do nordeste brasileiro. A cidade lhe parecia irônica: seus habitantes pulsavam com uma vitalidade quase insultuosa, como se a própria existência fosse uma celebração ininterrupta. Mas Velian, sarcástico e introspectivo, via naquela energia um desgaste constante, como se todos ao seu redor consumissem suas próprias almas sem perceber. 

Ele vagara pelos ambientes underground da cidade, observando os humanos em suas ilusórias liberdades noturnas, buscando esquecer sua própria natureza em prazeres fugazes. A superfície de Fortaleza o distraiu por um tempo, mas em cada olhar ou gesto de despreocupação ele percebia um teatro de máscaras. Por mais que se esforçassem, aquelas pessoas, em suas próprias misérias e êxtases, pareciam tão aprisionadas quanto ele. Ao retornar, sua mente ainda ocupada por aquelas imagens, Velian deitou-se em seu caixão luxuoso, cravejado com detalhes prateados, e, finalmente, entregou-se ao repouso. 

Enquanto seus pensamentos desvaneciam, Velian foi atraído por uma névoa densa e misteriosa que o levou de volta ao Castelo Drácula, ou assim ele pensou. Porém, este não era o castelo de pedra e penumbra que visitara anteriormente; era um lugar entre dimensões, onde o concreto dissolvia-se no efêmero. Ele flutuava em Somníria, uma extensão onírica do Castelo Drácula, e ali, o mundo parecia existir entre o real e o irreal, como se cada fragmento do ambiente fosse uma pintura inacabada, uma sombra do que poderia ser. Havia ali uma estranha familiaridade; um eco do castelo, mas em tons mais suaves e etéreos, como se Somníria fosse apenas uma das tantas faces ocultas do Castelo Drácula, uma dimensão onde realidades coexistiam de forma tênue. 

Foi ali que ele encontrou Nívian. A figura exalava uma presença distinta, uma autoridade calma e distante. Suas palavras eram medidas, mas carregadas de uma sabedoria inabalável. Seu rosto, belo e firme, contrastava com uma seriedade quase trágica. 

— Sou Nívian, Arqelua em Somníria — disse ela com uma voz doce, mas imersa em um toque de austeridade. — Isso significa… entre outras verdades… que jamais me desvencilharei do mundo dos sonhos. 

 

Velian a observou com interesse, um sorriso cético e irônico se formando em seu rosto: 

— E o que isso significa para alguém como eu? Estaria preso também a este… reino, como você? — Ele fez uma pausa, gesticulando com a graça de um predador calculista. — Um castelo dentro de outro castelo, dimensões sobrepostas… isso tudo parece a piada final para um ser como eu, que já viu a profundidade e a vaidade das máscaras humanas. 

Nívian sorriu de leve, seus olhos refletindo um misto de entendimento e desafio. 

— Talvez você esteja preso a muito mais do que imagina, Velian. Aqui, em Somníria, os conceitos rígidos que o mundo desperto exige se dissipam. A realidade e o sonho coexistem sem fronteiras. E, diferente de nós, os humanos, ao menos em seus sonhos, podem vivenciar uma liberdade que a vigília nunca lhes permite. 

Ele riu, uma risada leve e amarga. 

— Então, você sugere que até mesmo nós vampiros, que devoramos os mortais e ultrapassamos suas limitações, ainda assim estamos acorrentados a seus conceitos? Diga-me, Nívian, onde fica a nossa liberdade, então? Se até neste castelo que nos promete abismos e mistérios, ainda estamos sujeitos aos mesmos… parâmetros humanos? 

— Nos sonhos, e apenas neles, reside a verdadeira liberdade — respondeu Nívian. — Quando sonham, os mortais podem transcender suas próprias barreiras, as limitações impostas por sociedades e seus julgamentos. Podem ser qualquer coisa que desejam, mesmo que na vigília essas mesmas vontades precisem ser enterradas em segredo. 

Velian considerou as palavras, sentindo-se vagamente atingido por elas. Ele, um ser que se orgulhava de sua liberdade, de escapar das leis e costumes humanos, percebia-se agora confrontado. A liberdade que ele pensava possuir era, talvez, apenas mais uma forma de prisão. 

— Então você afirma que o que vivenciamos agora é tão real quanto a própria vigília? E que este mundo onírico, tal como o que deixamos ao adormecer, é só mais uma camada? — Ele fez a pergunta como um desafio, mas havia nela uma admissão relutante. 

Nívian respondeu, seu olhar assumindo uma intensidade que Velian não esperava. 

— A realidade é como as camadas de um sonho, Velian. E os sonhos são reflexos da nossa verdade mais íntima, daquilo que o mundo desperto reprime. Nas vigílias, homens e mulheres reprimem seus desejos, se aprisionam em normas, se anulam em papéis. Você, mesmo entre nós, ainda carrega máscaras, acredita no seu próprio personagem… mas aqui, nos sonhos, o que somos é puro e destituído dessas molduras. 

O vampiro sentiu um arrepio ao perceber a profundidade daquilo que Nívian lhe mostrava. Ali, no etéreo, ele se sentia menos restrito, menos… coagido a um papel. Ele reconhecia em si algo que sempre temera reconhecer plenamente: uma fluidez que jamais admitira aos outros nem a si mesmo. 

— Então, diz-me, Nívian — disse ele, os olhos brilhando com um misto de sarcasmo e genuíno interesse —, o que se é, afinal? Um monstro? Um ser humano? Ou nada? Essas camadas, esses papéis… têm algum sentido real? Ou são apenas ecos de uma sociedade que insiste em moldar todos, até mesmo os monstros, ao seu jeito? 

Ela observou Velian por um longo momento, como se medisse sua resposta. 

— Somos aquilo que nos permitimos ser, Velian. Mas o mundo desperto aprisiona, nos obriga a seguir as regras de uma humanidade que insiste em formatar e restringir. A fluidez da identidade, tão natural aqui, é temida na vigília. E essa fluidez, mesmo para você, não deve ser algo a esconder. Você é, afinal, tanto o que os outros esperam quanto o que você ainda não ousou reconhecer. 

Ele soltou um riso seco, mas algo em seu olhar havia mudado, uma sombra de compreensão em meio à sua usual descrença. Como um vampiro, já possuía uma vida fora das normas, um ser que deveria transitar entre o mundano e o imortal sem limitações. Contudo, ali em Somníria, entendia que ainda estava preso a noções que jamais haviam sido completamente dele. 

— E onde tudo isso termina, então? Em mais sonhos e em mais realidades sobrepostas, até que tudo o que sou se torne apenas… vazio? 

Nívian balançou a cabeça, seus olhos refletindo uma sabedoria que o deixava inquieto. 

— Termina onde você se permite que termine. Talvez no entendimento de que a realidade é uma ilusão; talvez na aceitação de que tanto o sonho quanto a vigília são partes do todo. Um ciclo constante entre o que você é e o que poderia ser. 

Velian se sentiu como se houvesse tocado a superfície de algo vasto e incompreensível. Quando percebeu, Somníria já começava a se dissolver ao seu redor. Despertou com a última visão de Nívian em sua mente, seu rosto austero e a voz firme dizendo: "Você tem a eternidade, Velian. Use-a para ser livre." 

Ao abrir os olhos, de volta ao mundo desperto, ele ponderou sobre tudo aquilo. A fluidez da identidade, a liberdade que sempre julgara ter. Talvez a própria existência fosse uma camada indefinida, onde os sonhos e a vigília se entrelaçavam. Sentiu um desejo repentino de caminhar pela Fortaleza de seu tempo, observar os humanos e refletir sobre o que realmente significava ser livre. A noite o aguardava, e o Castelo Drácula, ele sabia, o chamaria de volta. 

Mas, por ora, Velian desejava apenas misturar-se entre aqueles que, com toda a sua humanidade, ainda tinham tanto a lhe ensinar. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 3: Tratamento onírico

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas. 

Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali. 

A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma. 

*** 

Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível. 

Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar. 

A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta. 

Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta. 

Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei. 

— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu. 

Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo? 

Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos! 

Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação. 

— Lisa, o que está acontecendo? 

— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada. 

— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não! 

E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira. 

Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite. 

Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados: 

— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar. 

Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse: 

— Acorda! 

Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Do outro lado da tela

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão. 

Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita. 

Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo? 

Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me. 

A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local. 

Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me. 

Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados. 

Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”. 

Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então: 

Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
 

A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina). 

Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria. 

O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força. 

Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz. 

Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Diário de Anton S. Miahi VI

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

De Narcís Nestor
(Telegrama para “O Caçador”)
Atenção: Ivan Molchanov
Castelo de Lúgubre, Data: 11, de julho de 1871
 

Prezado Ivan, 

Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo. É vital estar aqui para discutirmos assuntos de extrema urgência. 

Aguardo sua confirmação imediata. 
Atenciosamente, 
Narcís Nestor 

~

De Ivan Molchanov
(Telegrama para Narscis Nestor)
Oldemburgo, 03 de agosto de 1871
Atenção: Narcís Nestor 

Recebi seu telegrama.  
Comparecerei ao castelo, não se preocupe. Estou no meio de uma caçada no norte da Alemanha em nome dos Romanov, mas assim que acabar, partirei direto para aí. 
Prepare-se. Estou chegando o mais breve que puder. 

 ~

Ivan Molchanov
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871

Meu querido e estimado amigo, 

Ao receber a convocatória da polícia parisiense, um calafrio percorreu minha espinha, não era nada comum convocarem um psiquiatra. Meu retorno da Inglaterra havia sido marcado por uma aura de mistério e inquietação, mas nada poderia me preparar para o que encontraria no salão onde aconteciam a aula magna de medicina da Universidade de Paris. Ao cruzar a porta, uma sensação pesada se abateu sobre mim, como se o próprio ar estivesse saturado de desespero, em minha mente pairava apenas a dúvida quanto a toda aquela celeuma. 

A atmosfera tornou-se ainda mais densa quando me deparei com o investigador Jules Moreau, que estava examinado o local com seu olhar curioso. Moreau era um homem, na casa dos 30 anos, de cabelos castanhos curtos repartidos no lado direito, um bigode farto que balançava com cada palavra, e um nariz redondo que parecia sempre à procura de algo. Ele era um pouco acima do peso, e suas vestes estavam desalinhadas, como se ele tivesse se apressado ao sair de casa. Sua voz de barítono, embora imponente, era interrompida por um leve tom fanho que tornava suas declarações quase cômicas, se não fossem tão graves. O investigador aparentava uma jovialidade fora do normal em sua expressão, esboçando um sorriso cordial baixo aquele bigode. 

— Dr. Walker! — exclamou, gesticulando descontroladamente e quase derrubando um caderno que segurava sob o braço. — Precisamos discutir as condições em que encontramos os corpos. Eles foram… bem, transladados pelos carros da polícia, você sabe, direto para cá. 

Enquanto ele falava, eu tentava focar na gravidade do momento, mas o jeito desajeitado de Moreau dificultava manter a compostura. Ele se ajeitou as roupas, como se tentasse, sem sucesso, desamassar as dobras que pareciam se reproduzir a cada movimento. 

— A situação em La Cité… — ele continuou, limpando a garganta de maneira atrapalhada. — Está gerando incômodos. Os moradores estão em alvoroço! Mencionam coisas como vampiros e… bem, até fantasmas! — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com um ar conspiratório, como se esperasse que algo sobrenatural aparecesse entre nós. 

— O que importa — prosseguiu, tentando recuperar o foco — é que precisamos resolver isso com o máximo de sigilo possível. Ninguém pode saber que os corpos foram trazidos aqui. A reputação da universidade, você entende? — Ele gesticulou com a mão, quase acertando o próprio rosto. 

A tensão do ambiente se misturava ao seu jeito desengonçado, e não pude evitar um sorriso diante da cena. Moreau parecia genuinamente preocupado, mas sua atrapalhada sinceridade trazia uma leveza inesperada ao momento sombrio. 

— Precisamos evitar que o pânico se espalhe. Se a notícia vazar… bem, você sabe como Paris é — disse, abrindo os braços em um gesto exagerado que quase o fez perder o equilíbrio. 

Os corpos jazeram ali, dispostos de maneira que sugeria uma cena de pesadelo. As luzes tremeluzentes das lamparinas projetavam sombras dançantes, criando uma atmosfera que tornava cada canto do salão um esconderijo de segredos. Eu sabia que precisava realizar uma análise cuidadosa, documentar as feridas nas jugulares, mas a realidade do momento era opressiva, como se uma força invisível me impedisse de pensar com clareza. 

Enquanto observava os rostos das vítimas, uma análise superficial começou a tomar forma em minha mente. A expressão de terror estampada em suas faces era inegável, um reflexo de um horror tão profundo que poderia ser palpável. As marcas no pulso direito, evidentes sinais de resistência, contavam a história de um desespero que ecoava nas paredes do salão. Embora já tivesse participado de análises em outros casos e aprendido a entender a mente criminal, essa cena me deixou inquieto. Era uma brutalidade que transcendia o mero ato de assassinar; era uma tentativa de controlar, de dominar, uma pulsão obscura que instigava minha curiosidade e aversão. 

Essas feridas tão estranhas que foram provocadas por Deus sabem o quê, ou quem, não eram apenas marcas físicas; eram indicadores de uma luta desesperada contra um predador invisível. A resistência manifesta nos pulsos poderia sugerir que as vítimas lutaram contra o que não podiam entender, e isso, por sua vez, reflete o que muitos temem: a incapacidade de escapar do destino. Minha reflexão aponta para uma inquietante verdade: a mente humana consegue tolerar horrores inimagináveis, mas essa resistência pode ser quebrada, transformando-se em um grito mudo que ecoa em nossos subconscientes. 

Enquanto escrevia, a caneta tremia em minha mão, refletindo a agitação que sentia no fundo, de minha alma. Sabia que precisava alertá-lo sobre a escuridão que se aproximava, uma sombra que ameaçava engolir não apenas aqueles corpos, mas a própria cidade. 

Nesse momento, a porta do salão se abriu e um jovem médico legista entrou. Thomas Simon, com seus cabelos negros e olhos de águia, tinha uma expressão carrancuda e um humor ácido que logo se tornou evidente. Ele se aproximou, sua presença quase imponente no espaço carregado de tensão. 

— Dr. Walker, investigador Moreau — disse, com uma voz firme. — Precisamos discutir algo sério. O sangue das vítimas foi completamente extraído. —Enquanto ele se aproximava da mesa e descobri o homem que estava mais distante de nós, nos forçando a ter-mos que nos aproximar dele. 

Essas palavras pairaram no ar, e uma onda de incredulidade me percorreu. Moreau arqueou uma sobrancelha, o semblante preocupado, enquanto a seriedade da situação se intensificava. 

— Como isso poderia ter acontecido? — perguntei, minha mente correndo para cenários impossíveis. 

Thomas cruzou os braços, o olhar penetrante como se pudesse desnudar a alma humana, examinando o ambiente antes de responder. — Pode ser algum culto estranho, uma prática ritual. O fato de estarmos lidando com corpos assim sugere que alguém se sentiu à vontade para realizar tal ato em pleno coração de Paris. 

Moreau franziu a testa, coçando a cabeça. 

— Cultos, você diz? Não estou surpreso. Ouvi rumores sobre atividades estranhas na região, mas pensei serem apenas lendas. 

— Lendas que parecem ter ganhado vida, talvez — completou Thomas, seu tom ácido intensificando a gravidade das palavras. — É o tipo de história que faz os moradores falarem sobre vampiros ou criaturas da noite. O povo gosta de fantasias, mas a realidade pode ser ainda mais assustadora. 

Moreau, que até então havia tentado manter a compostura, soltou uma risada nervosa. 

— Paris, a cidade das luzes, agora se torna a da escuridão. Acredito que os mitos estão mais vivos do que nunca. 

A atmosfera parecia pulsar, e a ideia de que a cidade poderia abrigar tal horror me deixou inquieto. Era como se uma sombra antiga estivesse despertando, e eu sentia que precisaria mergulhar nas profundezas desse mistério. Eu me via cercado por um labirinto de medos e pressentimentos, e a única coisa que podia fazer era preparar-me para o que seguiria. 

Anton S. Miahi XIII
(Escrito em meu Caderno) 

25 de agosto de 1871 —Esta noite, tive um sonho – ou talvez fosse um pesadelo, mas ele lateja em minha mente como algo mais denso, quase tangível. 

Eu me lembro de ter deitado, os músculos ainda enrijecidos do dia, sem sequer trocar de roupa. O mundo cedeu aos poucos, e o véu da inconsciência foi me cobrindo. Então, uma queda... A sensação visceral de descer, de ser tragado por uma força invisível. E lá estava eu, imóvel, os olhos piscando contra uma luminosidade suave e envolvente que parecia emanar do próprio ar, como se a atmosfera estivesse impregnada de luz líquida. 

Tateei ao redor, a superfície áspera de um chão desconhecido, e me vi rodeado por lavandas que se erguiam delicadas, seu perfume doce invadindo cada canto de meus sentidos. À minha volta, bolhas flutuavam, translúcidas e peculiares. Dentro de cada uma, vislumbres de lembranças – minha mãe, meu irmão, dias dourados na universidade. A nostalgia e o calor dessas imagens pareciam tão vivos, tão próximos... mas logo uma certeza fria atravessou-me: eu não estava em meu mundo. 

Uma névoa lilás cobria o ambiente como um véu leve, enquanto uma luz branca preenchia cada canto, uma presença calma, quase etérea. Então, uma voz conhecida perfurou o silêncio. 

— Bem-vindo, Anton. 

Virei-me rapidamente, o coração disparado. Mas ao ver Monm, com aquele olhar sábio e expressão tranquila, uma calma familiar substituiu o susto. 

— Isso é real? – perguntei, sentindo a incerteza tremer em minha voz. 

Ele respondeu com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que antecede uma revelação, ou um segredo. 

— E o que é real, senão o que acreditamos ser? — ele indagou, os olhos brilhando com uma intensidade contida, como se sua mente percorresse mundos além deste. — Aqui, Anton, estamos num campo onde as realidades se entrelaçam. Poderíamos dizer que é um sonho... ou um fragmento dele, um lugar de memórias, desejos e arrependimentos de muitos. 

Andamos lentamente pelo campo de lavanda, e um perfume suave se misturava à névoa, impregnando o ar. A cada passo, bolhas flutuavam ao nosso redor, translúcidas e frágeis, como se fossem tocadas por uma brisa inexistente. Dentro de cada bolha, imagens — momentos — de vidas diferentes, de pessoas desconhecidas. 

Monm seguiu ao meu lado, o olhar fixo numa bolha que passava. Em seu interior, vi o rosto de uma jovem, com cabelos tão escuros quanto a noite, um sorriso leve, mas com um olhar profundo e conhecedor. Era um olhar que parecia fitar além do espaço e do tempo. 

Ele suspirou, um som tão sutil que quase se dissolveu no ar. 

— Quem é ela? – perguntei. 

Por um instante, Monm hesitou, e sua expressão, sempre controlada, se partiu numa fração de segundo, revelando uma dor silenciosa. 

— Ela... — ele começou, mas parou, desviando o olhar. — Chamava-se Lysianne. Foi... — ele inspirou fundo, as palavras quase lhe escapando. — Foi meu único amor verdadeiro. Mas, sabe, Anton, para se aventurar no tempo, é preciso um preço, um sacrifício. E eu, com minha ânsia em desvendar os segredos deste universo, escolhi um caminho que me afastou dela.  

Houve uma pausa, e o campo de lavanda parecia mais silencioso, como se respeitasse sua lembrança. 

— Ela também era fascinada pelo tempo? — arrisquei. 

Monm sorriu, mas era um sorriso manchado de nostalgia e tristeza. 

— Não como eu. — Ele fitou uma bolha próxima, onde ela estava rindo ao lado de uma árvore sob um céu ensolarado. — Ela gostava de viver o presente, de encontrar beleza no instante. Para ela, um momento... era eterno. 

Ele passou a mão suavemente pela bolha, e a imagem tremeluziu antes de se dissipar na névoa lilás. 

— Então por que essa busca insaciável, Monm? — perguntei. — Por que sacrificar algo tão precioso? 

Ele se voltou para mim, o olhar ainda mais sério, um fogo intenso em seus olhos.  

— Porque, Anton, o tempo é uma ilusão, uma corrente que tenta nos prender. E a verdade é que... — ele hesitou, a voz baixa. — Eu queria libertá-la, encontrar uma realidade onde pudéssemos viver sem limites, sem essa cruel imposição do tempo que devora tudo. 

— Mas isso não é impossível? — insisti. 

Ele balançou a cabeça, um ar sombrio em seu semblante. 

— Ah, meu caro, o impossível é uma mera palavra. Mas há consequências, há fissuras. E quanto mais fundo cavamos, mais nos deparamos com realidades em que os sonhos e pesadelos se entrelaçam. É por isso que este lugar existe — apontou ao redor. — Aqui repousam fragmentos de vidas, de desejos que nunca se realizaram, de amores que nunca floresceram. 

Paramos diante de uma bolha mais próxima, onde vi a imagem de uma mulher abraçando uma criança. A cena pulsava de ternura, mas também de tristeza, como se ambos soubessem que aquele momento era breve. 

Monm fitou a cena, absorto, e por um momento, notei algo raro nele: arrependimento. 

— Esses são ecos de outros sonhos? — perguntei, tentando entender. 

— Sim, sonhos de outros, de vidas que jamais cruzaremos. Aqui, Anton, reside o que todos carregamos no inconsciente. Nossas sombras, nossas esperanças. Somos apenas viajantes. Quando olhamos para um sonho alheio, nos encontramos também, por um segundo, refletidos nas ambições e medos do outro. 

Ficamos em silêncio, observando a cena. Monm suspirou novamente. 

— Você já sonhou em encontrar algo, Anton, mas que sempre parece fugir? Como se existisse um vazio em cada linha do tempo, uma distância que nunca pode ser percorrida? 

— Às vezes — respondi. — Como uma lembrança fugidia, uma sensação de algo perdido, mas que nunca conheci. 

Monm assentiu, os olhos voltando à lavanda. 

— É a essência do tempo. E somos prisioneiros de algo que pensamos dominar. 

Antes que pudesse responder, ele tocou levemente meu ombro. 

— Vamos, há ainda muito a caminhar. 

Antes que eu pudesse responder, uma sombra se formou ao longe, desenhando-se lentamente em um contorno familiar. À medida que se aproximava, a figura de um homem magro e sereno emergiu da névoa lilás, vestindo-se de branco, com um cavanhaque bem aparado e olhos profundos como dois lagos plácidos. Em uma das mãos, ele segurava uma chave dourada e adornada, que brilhava mesmo na penumbra. 

— Sou Lieran — disse ele, sua voz grave e suave, como um sopro de vento antigo. — O guardião deste entre-mundos, o reino de Somníria. 

— O que você está fazendo aqui, Lieran? — Monm perguntou, o tom de sua voz mesclando uma ironia sutil com a seriedade do momento. — Veio discutir novamente a futilidade dos sonhos? 

Lieran sorriu, mas não havia alegria em seu sorriso. Era uma expressão de compreensão triste. 

— Os sonhos não são fúteis, Monm. Eles são portais. É por meio deles que as verdades ocultas se revelam, não apenas sobre nós, mas sobre a própria essência do tempo. Você insiste em vê-los como meras ilusões. 

— E você — Monm retrucou — vê a realidade como uma prisão, acreditando que os sonhos podem libertar aqueles que se perdem em suas correntes. Mas não é assim que funciona. Os sonhos podem se tornar labirintos, Lieran. Labirintos que aprisionam mais do que libertam. 

Anton, sentado entre eles, sentia-se como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava. Seus pensamentos eram um turbilhão. 

— Esperem — eu interrompi, tentando entender. — O que exatamente significa sonhar para vocês? Estou confuso. Não é tudo apenas... um escapismo? Ou há algo mais? 

Lieran se voltou para mim, os olhos profundos como lagos refletindo uma sabedoria antiga. 

— Os sonhos, Anton, são a linguagem do inconsciente. Eles são ecos de nossas emoções, medos e esperanças. Quando sonhamos, temos a oportunidade de revisitar nossos anseios mais profundos e confrontar verdades que muitas vezes ignoramos. O tempo em sonhos é elástico, permitindo que revisitemos momentos que acreditamos perdidos. 

— Mas não são apenas ilusões? — retrucou Monm, gesticulando como se estivesse tentando desvendar uma teia invisível. — Lieran, você se esquece de que os sonhos podem distorcer nossa percepção. Eles nos enganam, nos iludem com promessas de um futuro que nunca pode ser, enquanto a realidade continua a ser intransigente e cruel. 

—  Que é a realidade, senão uma construção dos nossos sonhos? — Lieran desafiou, a chave dourada balançando suavemente em sua mão. — As escolhas que fazemos no mundo dos sonhos reverberam na realidade. Não subestime o poder que eles têm. O que sonhamos pode, de fato, moldar o que vivemos. 

Eu olhei de um para o outro, a tensão crescendo. A cada palavra, o ar se tornava mais carregado, como se o próprio espaço entre eles estivesse se comprimindo. 

— Mas então — perguntei, hesitante — se os sonhos moldam a realidade, como podemos confiar no que vivemos? E se o que acreditamos ser real for apenas mais um sonho? Como discernir entre o que é verdade e o que é ilusão? 

Monm olhou para mim, um brilho de reconhecimento nos olhos. Era como se ele tivesse sido lembrado de um passado distante que ainda o assombrava. 

— Essa é a questão que todos enfrentamos, Anton — disse ele, sua voz agora tingida de uma vulnerabilidade inesperada. — O que fazemos com as verdades que descobrimos? E o que acontece quando esses sonhos se tornam pesadelos? 

— Você deveria se perguntar, Monm, o que realmente está buscando em suas viagens no tempo — Lieran retorquiu, sua voz firme como o aço. — O que você está disposto a sacrificar para alcançar seus objetivos? Cada escolha tem um custo. E esse custo pode muito bem ser mais do que você está preparado para enfrentar. 

A tensão pairava, e o silêncio se estendeu por um momento, uma respiração compartilhada entre os três. Anton sentiu que, de algum modo, estava no centro de uma tempestade, onde cada palavra era um relâmpago iluminando verdades obscuras. 

— E se o que eu procuro — eu murmurei, mais para mim mesmo — for o que estou destinado a perder? 

Ambos se voltaram para mim, e, por um breve momento, o campo de lavanda pareceu ecoar a pergunta, as flores balançando suavemente como se estivessem escutando. 

O impacto de suas palavras reverberou em mim, mas antes que pudesse refletir, o chão se abriu sob meus pés, e fui lançado novamente na escuridão. Despenquei, a queda me envolveu, e senti uma nova transformação no ar ao meu redor – mais densa, mais fria, como se sombras me acolhessem. 

Despertei num ambiente muito diferente, a claridade suave substituída por uma escuridão quase sólida. Levantei-me cauteloso, e ao meu redor, o chão era coberto por rosas negras com delicados tons de roxo degradê, uma paisagem sombria que exalava um cheiro doce e nauseante. Um ruído distante, como o bater de asas, chamou minha atenção para cima. 

Uma criatura desceu do céu negro, o ar em volta dele se dispersando em uma lufada fria. Ele tinha um corpo humanoide, mas as asas – negras e largas como as de um corvo – traziam uma imponência animalesca. Quando pousou, observei de longe, quase sem respirar, os olhos límpidos e profundamente lilás, as orelhas pontudas, a pele tão branca que lembrava marfim. 

A figura reunia algumas daquelas bolhas, mas as imagens que continham eram diferentes – rostos distorcidos pelo terror, fragmentos de dor e desespero. Senti um calafrio. Ele murmurava algo que não pude distinguir e começou a se afastar, carregando as bolhas em direção a um umbral negro. 

Um vulto pendia sobre seu ombro. Um gato negro, seus olhos de um branco frio que pareciam atravessar minha alma. Algo me puxava para aquele ser, uma curiosidade perigosa, irresistível. 

O ser cruzou o umbral, e quando percebi, estava me erguendo, seguindo-o, como que guiado por uma força misteriosa. 

— Anton... – uma voz macia e sombria ecoou. 

Era o gato, agora sobre uma mesa em uma sala grandiosa e fria. Ele me fitou, um brilho irônico em seus olhos. 

— Chamam-me de Meia-Noite, e meu companheiro, Uor. Vejo que chegou até aqui por acaso ou talvez… por curiosidade. 

Fui tomado pelo instinto, endireitando-me, tentando parecer seguro. 

— Anton Stephan Miahi, Sargento da Cavalaria – minha voz ecoou no salão vazio. 

Uor sorriu com uma ironia afiada. 

— Sei muito bem quem é você. 

Aquelas palavras perfuraram-me como uma lâmina, e o salão pareceu fechar-se ao meu redor. No fundo, uma nova suspeita brotava – eu não estava mais no reino dos sonhos, nem tampouco no inferno. Estaria eu no próprio limiar do inconsciente, num lugar onde medos e mistérios coexistem? 

No mesmo dia mais tarde — O encontro com Meia-Noite e Uor me deixou inquieto, como se uma névoa densa tivesse se instalado em meu ser. Fui recebido não como um convidado, mas como um prisioneiro que, mesmo sem saber, tinha uma dívida a pagar. Eles se apresentaram como mestres de um jogo cujas regras eu ainda não compreendia. A presença deles sugeria um peso no ar, e suas palavras flutuavam como sombras, dançando ao redor de nós, pulsando com a energia de verdades ocultas. 

— A ambição de Olga — começou Meia-Noite, quebrando o silêncio pesado — transcende o que você pode imaginar, Anton. Ela não é apenas uma mulher sedenta por poder, mas uma criatura que busca controlar o sobrenatural em busca de algo maior. 

Uor balançou a cabeça, seus olhos cintilando com uma luz gelada. — Você a vê como uma mera mortal, mas há mais em Olga do que o que se revela. Ela toca as cordas do invisível e manipula a escuridão ao seu redor. É por isso que Drácula a atrai. 

Meu coração acelerou. Para mim, Drácula sempre fora apenas um conde do interior da Europa, uma figura envolta em mistério e lendas. No entanto, a ideia de que sua conexão com Olga era mais do que mera coincidência começou a se enraizar em minha mente. 

— O que você quer dizer? — eu perguntei, a tensão entre nós era quase palpável. — Como você pode ter certeza disso? 

— O Conde — continuou Meia-Noite, a voz profunda reverberando no ar — não é apenas um homem, Anton. Ele é um símbolo, um ícone do que se perdeu e do que se busca no abismo. Atraído pela ambição de Olga, ele representa a eternidade e o horror que ela deseja controlar. 

Uor fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras antes de continuar. — Mas a verdadeira natureza de Drácula é mais sombria do que você imagina. Eu conheço um jovem que presenciou o ataque em Paris, uma cena que se desenrolou sob a luz da lua, onde a morte dançou no sangue fresco. 

As palavras de Uor me prenderam, como uma teia invisível envolvendo meu corpo. Eu me via forçado a imaginar a cena horrenda, uma jovem sendo devorada, sua vida esvaindo-se sob as garras do Conde. 

— Ela morreu — Uor continuou, seu tom sombrio, quase reverente — até a última gota de sangue, Anton. A cidade de Settimor foi erguida para acolher as almas perdidas, aquelas que foram atraídas pela sedução de um castelo obscuro, onde as promessas se tornam pesadelos. A ambição de Olga não é apenas por poder; é por controle sobre essa escuridão que a cerca. 

A ansiedade começou a consumir-me, como uma maré crescente. Era como se as revelações se tornassem gélidas, arrastando-me para um abismo de dúvidas e temores. Eu estava cercado por verdades que não conseguia ignorar, e a ideia de que tudo isso poderia ser real era sufocante. 

— E se ela estiver certa? — perguntei, a voz tremendo. — E se Olga conseguir realmente o que deseja? O que isso significaria para nós? 

Meia-Noite trocou olhares significativos com Uor.  

— O desejo dela de transcender é uma busca sem fim — respondeu Uor. — Se ela dominar o sobrenatural, você e todos ao seu redor não passarão de peças em seu tabuleiro. A verdadeira questão é: até onde você está disposto a ir para impedir que isso aconteça? 

Monm, que até então permanecera em silêncio, soltou uma risada baixa, quase amarga. — Uma escolha sempre tem um preço, Anton. E o que você está disposto a sacrificar? 

As palavras deles ecoaram em minha mente, pesadas como pedras. O clima tornava-se cada vez mais tenso, e a incerteza me envolvia. Como poderia enfrentar um ser como Drácula, com Olga ao seu lado, manipulando os fios invisíveis que regem nossas vidas? 

De repente, antes que pudesse processar tudo, uma luz intensa irrompeu à nossa frente. Um portal se abriu, revelando o contorno familiar da chave dourada de Lieran. 

Monm e Lieran emergiram do brilho, seus rostos sérios, como se trouxessem consigo o peso de um novo destino. 

— O que vocês fizeram? — Monm exclamou, seus olhos fixos em mim, preocupados. — O que foi revelado? 

Lieran, com um gesto fluido, apontou para o espaço nebuloso que nos cercava. — A verdade não deve ser ignorada, mas nem todos estão prontos para enfrentá-la. Venham, devemos ir. 

Eu olhei para Meia-Noite e Uor, suas figuras agora quase etéreas diante da luz pulsante. A sensação de que algo maior estava em jogo tornou-se uma realidade indiscutível. Eu havia sido lançado em um ciclo de eventos que apenas começava a se desenrolar, e a única certeza era que o caminho à frente estava repleto de sombras e revelações. 

Atravessando o portal, percebi que não havia como voltar. O que me aguardava era um futuro indefinido, onde a linha entre sonhos e realidade continuava a se desvanecer, e eu me via cada vez mais entrelaçado no destino que me aguardava. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 1: Uma criatura disforme

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia. A memória, tal qual um inquisidor implacável, empurrava-me contra os pregos da dama de ferro que eram os meus traumas, num abraço frio e mortal, enclausurando-me dentro de mim. “Deveria eu continuar lidando com essa tortura?”

Parei. Nada de útil surgiria daquele amálgama disforme e colorido. Frustração. Também não conseguira escrever nada naquele último mês: “Ah, quão maldito é o trabalho que exige criatividade extrema, por que raios me enfio nessas empreitadas?”, flagelava-me quando não tentava, castigava-me quando pensava em desistir. Minha vida era essa constante luta interna do eu contra mim.

Enquanto saía do meu ateliê, Lisa, minha gatinha preta e carente, esfregava-se em meio às minhas pernas, ronronando e derretendo as geleiras que esmagavam meu coração. Lembro-me que perdi o equilíbrio e quase fui ao chão.

— Ah Lisa, para com isso. — disse-lhe, mas só para reforçar a minha necessidade por reclamar. Agradeço por ela ser teimosa e determinada, porquanto nunca irá parar. Sim, ela está aqui comigo. O Castelo Drácula abriga todo tipo de criatura, por que não uma gata?

Um banho. As águas calorosas tinham propriedades curativas, o vapor, poder de reorganizar e remontar minha psiquê, deixando-me próximo a um ser humano que não havia sido quebrado.

Com um mínimo de bom humor restabelecido, resolvi ir ao pub, uns goles do amargo gin afogariam os sentimentos claustrofóbicos. Ah, as propriedades lisérgicas das bebidas etílicas!

Eu adorava aquele local. Tinha uma fachada discreta e paredes de tijolos escuros, o típico lugar onde um desavisado não entraria, pois não parecia ser um bar. Essa sensação de entrar em algo secreto e exclusivo me apetecia. Viva a curiosidade. Lá dentro, as luzes baixas, emulavam a ideia de um sonho sombrio, atmosférico e intimista, onde cada canto parecia envolto em uma penumbra vermelha, verde e roxa, realçada por velas e luzes de néon.

Os bancos eram de couro preto, ligeiramente rasgados pelo tempo e uso, mas ao aconchegar-me ali sentia que o mundo parava ao meu redor. Nas paredes, pôsteres de bandas lendárias como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer se misturavam a quadros de arte sombria e psicodélica, muitos criados por artistas locais, inclusive por mim. Ah, como almejava resgatar os tempos áureos, onde minha inspiração quase não me cabia.

Uma jukebox tocava uma seleção pesada e interessante, variando entre black metal, doom metal, sludge metal e alguns clássicos do heavy metal, que faziam todos cantarem juntos. Às vezes, bandas ao vivo tocavam em um pequeno palco no fundo, iluminado por luzes vermelhas e verdes, com espaço suficiente para àqueles que queriam aproveitar o som e aquela atmosfera inebriante.

No balcão, as bebidas eram diversas: cervejas artesanais escuras, drinks com nomes inspirados em mitologia nórdica e shots que queimavam a garganta. As prateleiras atrás do bar exibiam garrafas de rum, whisky e absinto. Quantas vezes saí de lá arrastando-me, mas nunca carregada, encontrava forças que nem sabia existir para manter a minha suposta dignidade.

No banheiro, as paredes eram cobertas de grafites e adesivos de bandas, como se cada pessoa que tivesse passado por ali tivesse deixado sua marca. Era um espaço onde todos eram livres para ser quem eram, cercados pela energia sombria e autêntica do metal e do álcool. Sinto saudades desses momentos.

Bebi. Já que as águas anteriores não quiseram lavar minhas dores, eu as sufocaria com os líquidos, música e tola autocomiseração. Não me recordo do nome da banda que tocava naquela noite, mas ainda guardo a boa sensação despertada a cada acorde, os meus pesares sendo levados a cada gutural ostensivo do frontman.

Retornei para casa em estado de evidente embriaguez, mas sentia-me quase levitar sob o céu que eu mesma concebi. Meu lar recebeu-me com silente afago, e eu me rendi ao seu cálido abraço. Transcorrido um tempo que não mensurei, de repente, senti correr em minhas veias a vitalidade de uma artista em ascensão, poderosa – como se uma entidade houvesse adentrado e possuído meu corpo.

Corri para o ateliê, dentro das possibilidades de locomoção que aquele estado me permitia, mas corri, como se minha vida dependesse daquele ato sem propósito. O que avistei fez-me questionar minha frágil sanidade, entretanto, sua presença imagética imobilizou-me.

À meia-luz, um movimento sutil tomou forma na tela. O contorno difuso se agitou, e uma figura começou a emergir, como se o quadro estivesse se dissolvendo em sombras. Lentamente, revelou-se — uma entidade envolta em um manto de trevas, os contornos do rosto delineados apenas por um brilho espectral. Seus olhos eram como fendas de névoa prateada que parecem absorver um pouco da luz da sala, hipnotizando-me. Estendeu uma mão fina e esquelética, atravessando os limites entre o quadro e o mundo real. Era meu chamado.

Com uma voz baixa e aveludada, que parecia ecoar em minha mente, convidou-me para morar no Castelo Drácula. As palavras pareciam feitiço. Um calafrio percorreu minha pele, mas não era medo — mas uma curiosidade irresistível, uma necessidade profunda e incontrolável de segui-lo. Sem hesitar, deixei-me guiar para dentro da tela, desaparecendo na escuridão que a envolvia. Lisa não se atreveria a me deixar só e saltou comigo rumo a um destino incerto.

Quem era, afinal, a tal criatura disforme, oriunda das pinceladas na tela profana, criadas em meio ao meu desvario? Hoje, pronuncio seu lindo nome sem medo, encontrei beleza no estranho e serenidade no desconhecido: Espectumbral.

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Pergaminho de sangue cósmico

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, | Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, | Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No limiar entre mundos, onde o nevoeiro se estende, 
Ergue-se Arale Fa´yax, filha de uma felina raça distante, 
Com a cauda prateada, fina como a lua em sua ascensão, 
Olhos oblíquos de safira tão profundos quanto as cavernas do abismo ou um mar de ressaca.  

Sua pele, pálida como a neve, caindo em silêncio, sinfônica voz, 
Reflete o brilho das estrelas apagadas no vasto céu negro. 
Cabelos platinados, com fios de esmeralda entrelaçados, 
Dançam ao vento, como fios de uma tapeçaria celestial mística.  

Mas a beleza é forjada em dor, em sangue como a forja do destino, 
Onde sua carne, marcada por uma cicatriz que serpenteia, 
Revela a luta que o mundo não pode ver, sua assinatura e fardo, 
O duelo contra o último xamã de sua tribo lhe custou o exílio que a alma sofreu.  

Um sacrifício, uma missão, um braço se perdeu, apenas o vazio, um espaço que clama por cura, 
em seu lugar, a prótese cibernética de protoplasmas, biogenesis felina, futura, 
Uma obra de metal e circuito, luz fria, pulsante, seu punho de vida, sua recordação, 
um de seus legados, de sangue e promessa, 
Que brilha com a promessa de poder e de destruição.  

Na outra mão da guerreira com garras de leão, ela agarra uma máquina de escrever, feita de ossos, 
Fiel companheira de estrada galática, jornada de eras e herança amaldiçoada, 
Cada tecla, cada golpe, um feitiço de morte e destino, 
Sangue é tinta, e o papel, papiro como carne dilacerada de uma criatura do mal ali ceifada, 
Onde palavras de extermínio surgem, traçando caminhos de pulverização e purificação.  

E é neste mundo de sombras e crueldade que ela caminha e expurga, 
Onde o portal da sua dimensão se abriu, revelando um jardim, berço do Castelo Drácula. 
Entre as pedras do castelo, onde a noite nunca cede à luz, 
Ela caminha, a caça, a caçadora, armada com a verdade. 
Suas vestes, uma fusão de couro e névoa, uma vitoriana felina cyberpunk, 
Negra como a noite e dourada como o mel, a aurora de um novo mal, 
Protegem o corpo, mas não a alma, pois ela já está selada, 
Em um pacto com as forças que andam nas trevas, mas não a dominam. 
Em questão de segundos, desliza de suas costas para seu punho, uma espingarda também de ossos que em um instante se torna machado, 
Transforma-se como ela mesma, fluida, imprevisível, mortal. 
Com a lâmina cortante, como o vento no inverno sem fim, 
Ela vai à caça, onde os monstros se escondem e os demônios se amparam.  

Oh, Arale Fa´yax, filha do além, do cataclismo e da lua minguante, 
Teus passos ressoam nas cavernas do castelo, pegadas do silêncio dominante 
Onde cada palavra escrita é um feitiço antigo,  um rugido de tua ancestralidade, 
Cada página sangrenta, o próximo passo da jornada ao vazio da eternidade, 
Que o sangue que flui seja a chave, o sangue que é o guia, 
Tua missão, marcada pela dor e pela força, o amanhã ruge, 
Extirpe as ameaças que se ocultam, que se alimentam da vida, 
Que o destino de tua lâmina e tua escrita sejam o selo do exício de toda sombra.  

Oh, filha da noite e da penumbra, Clã Fa´yax, guardiã do véu, 
Teus passos ecoam pelos corredores de um castelo orgânico, 
Assim como onde vivia, uma árvore vitalícia que apodreceu, 
Onde a morte sussurra como um vento gelado,  
as almas perdidas vagam, em busca de redenção, 
Mas tu, minha guerreira, já não precisas de salvação.  
[Talvez sempre precisará, de si mesma...]  

A máquina de escrever de ossos manchados, 
de ossos amaldiçoados, seremos nós todos apenas ossos esquecidos pelo tempo vitalício e nossas ações prosperam além do osso esqueletal que nos sustenta?  
Brilhai, pungente, lacrimosa, ela grita e sangra, 
Cada tecla que tocas é um eco de um destino antigo, 
Escreves não com tinta, mas com a essência do sofrimento, 
Teus dedos dançam entre as linhas da eternidade, 
Onde o caminho se revela como um rio de sangue.  

O papel, um papiro cósmico, mágico de pó de estrelas e carne e dor, 
desvela-se diante de ti, em cada página escrita, um grito de agonia, 
Mas também um passo em direção à vitória da luz da poesia, 
Pois as páginas não mentem, Arale Fa´yax, da raça felina de tua tribo extirpada, 
Elas mostram o que a escuridão tenta esconder.  

Espingarda que se torna machado com uma lâmina tribal de ossos cravejados, 
Escorrido e manchado, 
Tu és a lâmina...  
Que ceifa e que rasga o véu do além, 
Que corta as garras das criaturas que surgem das sombras, 
Que quebra o grilhão do medo e da morte. 
Em tuas mãos, o destino é forjado em aço e vingança.  

Veste-te, guerreira de pele tão clara como a lua, 
Com o manto de veludo negro que beija o vento, 
O sangue de mil criaturas, já banhou teus pés, 
Feroz, imortal, desvaneces os sustentos de terror. 
Tuas roupas, como o silêncio do túmulo, não dizem, mas sabem.  

A cauda de prata, tão leve quanto a brisa de inverno, 
Move-se com graça, e mesmo nas trevas, ela brilha, 
Oh, criatura etérea, filha das estrelas caídas, 
Tu és o reflexo do que não pode ser tocado, 
O espírito que dança entre o real e o etéreo, 
Entre as dimensões e os reinos que o homem nunca verá. 
Nos corredores de pedra, onde as velas tremem, 
Onde os retratos dos antigos se tornam olhos, 
Tu és o caçador e a presa, o monstro e o salvador, 
Com os dedos manchados de sangue, mas o coração puro, 
Segues adiante, sem medo do que há à frente, 
Pois teu destino já está escrito nas páginas da morte.  

Arale Fa´yax, guerreira sem fim, fantasmagórica escriba da morte, 
A marcha da eternidade é a tua única música,  tua foice espiritual, 
Onde o som do teu machado cortando a escuridão, corteja o nulo, 
É mais doce que o canto dos anjos, cortejai o umbral de sangue, 
Mais profundo que os abismos que te chamam, te clamam, suspiram, 
Fatídico o horizonte que nunca se vê. 

Teu braço biônico, feito de circuitos e relâmpagos, 
Brilha na noite, como uma estrela fugaz, um punho destroçador, 
Uma cicatriz de herança, de legado, de lembrança,  
Que teu rosto carrega,  teu coração sabe o peso de tua insanidade, 
É o selo de uma alma que não pode ser quebrada. 
Para ti, Arale, não há morte que te detenha, 
Nem sombra que apague o brilho de tua jornada. 
Oh, guerreira da máquina e da carne, 
Teus olhos são espelhos da verdade que ninguém ousa olhar, 
E a escuridão se curva à tua vontade, 
Pois no abismo, tu és a luz que se ergue, 
Onde a treva reina, tu és a sentença. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 6 — O Piche do Oblívio

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

As sombras eram solecismos factuais; um ruído medrava-se horrífico. Algo físico entre nós inibia-nos, impedindo quaisquer aproximações; uma divisão vítrea, perceptível aos nossos olhos, tinha um agudo e longínquo sonido, contínuo como as nódoas negras enervantes, símeis ao nanquim aguado nos recônditos do olhar, tecendo um manuscrito de horror. As chamas da lareira, que eram, pouco antes, fogo lúcido, criavam oscilações além de sua estrutura de pedra, acendendo um fogo estirado pelas trevas, como o lume do sol radiante em raios de sua grandeza e poder; porém, contornado pela escureza hostil, desafiava a lógica da constituição primordial da própria natureza da luz. Parecia-me que aquele lugar, uma adega de raros vinhos e licores, outrora fora uma sala aconchegante ou, quiçá, há de ser, pois o tempo ali era apenas um pêndulo tardio de um nada além. 

— O que é isso...? — ouvi de Anton. Sua voz era firme e baixa, ecoava pela dimensão, pois esta se tornara uma dimensão entre dimensões; eu sentia e admirava o derredor. No soturno de minh’alma, como se houvesse um pássaro morto entre os meus pulmões, fleumática em fascínio, eu sentia... enquanto a realidade se desestruturava. Havia apenas eu e os olhos atentos de Anton, embaçados pela vítrea fragmentação. Meu corpo era a leveza de um rio, mas o medo não perdoava, e em sua verdade não habitava clemência. 

— Tu sentes também, não sentes? — indaguei-lhe, fragilizada. — Anton... — chamei-o outra vez. — Nada aqui é o que nos parece ser. — Confuso, com a fronte crispada, ele tentara tocar a divisão que nos separava; foi em vão. 

— Quem é você, Áurea? — Dissera, com tal amaro timbre, firme e tenso. — E por que estou aqui, ao seu lado, mas tão distante? — As dúvidas eram os vultos que emergiam no breu que expandia; vi, entre os barris de vinho e a antessala com a lareira, um frondente piche n’uma cinesia mórbida. Almejei responder à Anton o que eu era de fato, mas o piche... tinha forma humanoide e a sua inominável presença adulterava minhas ações, inibia-me em quaisquer desejos, sufocava minhas cordas vocais. Olhei para Anton, devagar. Tudo se paralisou, o recuar das águas antes do dilúvio. E o silêncio, outra vez. O piche era o símbolo do eterno retorno do que não ocorrera; eu intuía, pois, vi o diário de Anton em suas mãos e o vi, igualmente, na poltrona que outrora me sentei. Dois diários, dois tempos. Havia, nas paredes, fissuras imemoriais, condenando um fim perpétuo de algo, em alguma instância, e no vítreo, rachado símil, ainda nos separando, eu vi... a mim mesma... refletindo... 

— Talvez, — Minha voz falhava, pois o temor ascendia pútrido e instável. — Não sejamos mais do que reflexos de algo imensurável, o qual está além da compreensão. Temo que… estejamos confinados em uma armadilha incorpórea… — Proferi, fraca. Quase não via mais Anton e o piche voltou a se mover em minha direção; quebrando a quietude, grunhindo algo similar a um poço de águas pútridas. Só eu o via...? Não sei dizer. Quiçá o seu horror e as suas correntes que se arrastavam pelo assoalho fossem tudo criações ilusórias do meu oblívio... e o cheiro hórrido... a consistência... apenas mais um falso murmúrio.  

Inerte, então, ouvi o solfejar do piche do oblívio... entre a voz doce de uma criança que, longínqua, conversava, remansada, sobre frutos. Um bombo grave carregava um peso sôfrego enquanto o piche cantarolava ao tilintar de suas correntes mortíferas. Cada vez mais próximo. Eu não podia me mover. “Às vezes.... as coisas mais... estranhas... podem ser as mais...” — Ouvi, entre ruídos. “As mais...” — Repetia-se. “As coisas... estranhas...” — Repetia-se. “Estranhas... Às vezes...” — E o bombo mais e mais violento. O piche alcançou-me a pele pálida. “Nunca vi uma fruta tão estranha!” — A criança indagara. Olhei, aterrorizada, para a criatura, e seu piche manchava-me o corpo, caindo sobre mim. O bombo transfigurou-se em um zumbido agudo e distorcido no instante cruel em que a dor... aquela dor... me acometeu impiedosa. 

Abaixei-me, levando minhas mãos à cabeça e ao peito; a dor alastrada como gritos de pavor de centenas de pessoas em um amontoado vil e repulsivo; gritos e ruídos... gemidos de agonia e tortura, tudo no âmago meu, na carne minha, nos órgãos e entranhas. Dor. A pior de todas as dores. Ausência de ar, falta, falta, falta de ar... e dor... dor... sobre a imagem de um mercado, crianças e Anton, segurando um fruto. Ao seu lado uma mulher de rosto rosáceo e tenro. “Minha Áurea, o amor pode nos levar por apavorantes veredas... e mesmo assim... ainda será amor...” — Mesmo longe, o sussurro da mulher viera aos meus ouvidos. Eu apenas pude gritar, toda a algia levava-me a tremer e meus olhos vibravam, eu nada mais via além da memória. 

Entardecer laranjim... uma respiração viril advinha do piche... entre o presente e o passado. A mulher era símil a mim, porém, envelhecida; seus cabelos eram grisalhos e estar ao lado dela me aprazia. “Uma torta de romã, Áurea” — Dissera. E vi-me uma petiz menina, caminhando descalça por uma casa de madeira até encontrar um homem de olhos negros, sem esclera. Sua mão em meu pescoço e eu já não era mais juvenil; ele tinha ódio de mim, ódio enraizado e pulsante como uma artéria. “Morra, traidor!” — Vociferara. Traidor? De súbito, uma criatura única, símil a um dragão, mas com corpo de cobra e crânio de corvo, a mesma criatura refletida nas águas pertencentes à Lahgura, olhava-me com ternura e eu a acariciava, dando-lhe, em seguida, pétalas de Cestrum Nocturnum. Ela parecia degustar da iguaria, em gáudio. “Ela sofrerá?” — Vi-me questionar, olhando para Lorrt cuja face era perfeita e os olhos intensos em carmim. “Eu prometo que não.” — Respondera, beijando-me os lábios em seguida; sua voz era paternal. “Eu... não queria vê-la morrer...” — Confessei, com lágrimas nascentes e já tão célere vertidas, eu as sentia aquecer meu rosto, como um orvalho de verão. “Tu não verás, estarás adormecida e protegida. Confie em mim, pequena luz.” — Ainda paternal, Lorrt segurara minha mão, caminhando comigo pelo jardim. A criatura mítica nos seguia, como se soubesse o seu destino. 

— Por favor... me diga o que fazer! — A voz agora era de Anton, em inominável frustração, contudo, a dor vinha do piche que me cingia respirando, e eu não podia falar, pois meu coração palpitava em frenesim enquanto todo o meu corpo congelava em sofrimento e temor; a agonia da dor era como uma tortura da morte, brincando de rasgar minha tez com sua foice envenenada. Olhei para Anton, minha decadência eclipsava sua imagem. “Não... posso... compreender... Anton.... por quê...?” — Lamuriei, sobretudo, o piche penetrara-me os olhos e sussurrara-me meu nome... “Áurea... Lihran...”; meu grito de desespero tinha sabor de barbárie, pois o horror do martírio tornou-se atrocidade desumana. Asfixia outra vez, o torso oprimido; meus olhos ardendo pelas correntes que o invadiam e, quando as lembranças vívidas se tornaram sangue, tudo se desfez a uma adega frígida e escura. E a minha vestal solidão. 

— Áurea! — Ouvi. Seth, com sua voz grave, indicava uma aflição sobre mim. Senti suas mãos em meu corpo; no dorso e no colo. Mantive-me olhando para o chão, lacrimuriando. 

— Era... Aborom... — Sussurrei, pois, lembrava-me. — Nós... festejávamos... — Insisti. Na lembrança, o sol era a grande pupila do infinito, como um eclipse amornado na imensidão laranjosa. Reuníamos para cozinhar com grãos rústicos. Parte de uma cultura que pertencia a mim, parte de meu lar. — Ela estava lá... minha querida mãe... — Lágrimas na entreluz do cômodo gélido. Pranto entre soluços de uma tristura irremediável. Seth abraçara-me. 

— Está tudo bem, estou aqui... — dissera, contudo, doía no peito; nas emoções dilaceradas pelo piche do oblívio quebrantado no horror de uma vivência pavorosa. Fui levada aos braços de Seth, por ele, envolvida e acalentada, enquanto a voz de minha mãe ressoava e a saudade era a pior de todas as angústias que, desde meu despertar, vivenciei. 

— Eu não os verei novamente... — Murmurei. Lorrt sorria em minhas visões profundas; mamãe servia-me um pedaço de sua torta de romã. Almejei sucumbir à Rosaemori, para não lembrar. A chuva fina era uma cortina natural às janelas, aguando os jardins que em âmbar refletiam. Rostos opacos, semblantes apagados, no entanto, um júbilo aprazível envolvia-os todos, todos nós; e quanto afeto residia no aroma de abóbora-doce com canela, abóbora-cabotiã e cumaru, abóbora-moranga e leite de coco! Saladas frescas com manjericão igualmente... crianças correndo entre os móveis de cedro. “Doces ou travessuras?” — Eu ouvia... eles brincavam enquanto eu colhia algumas calêndulas na estufa. “Travessuras, é claro!” — Dizia-lhes e logo, sob distrações com as pétalas perfumadas, eu era assustada por suas máscaras grotescas, pintadas com óleo de linhaça e cúrcuma seca e moída. Eles gargalhavam... pequenas criaturas inocentes... tão só meninos e meninas... tão só pequenos rebentos da vida em... Numnura... 

— Verás sempre, na lembrança... — Respondera Seth. Então o olhei. Seus olhos eram azuis. 

— Onde está o pretume de teus olhos de arcanjo? — Indaguei. Teu sorriso emergiu como um cândido sol no horizonte. 

— Creio que nunca olhaste, de verdade, para mim... — Redarguiu cordial. Então o olhei. Havia uma cesura próxima ao seu olho esquerdo; sua pele era bela. Duas curvas no centro de sua fronte assemelhavam-se às hastes de um cervo. Havia outra cicatriz em seus lábios e nela toquei com a ponta de meus dedos trêmulos. — A queda... é sempre dolorosa... — Proferiu enquanto em seus lábios repousava meu toque tenro. 

— Arcanjo caído... — Sussurrei. Seth segurou minha mão, afastando-a de seus lábios e acariciando-as lentamente. — Por onde esteves? — Ponderei. 

— Estive no inferno...— Dissera em seu ninho de pensamentos. Acarinhou-me a maçã do rosto. 

— Como é lá? — Meus olhos exaustos piscavam na lentidão de meu coração não mais frenético, embalado pela tristura da saudade e o ardor do corpo de Seth. 

— Grandioso... uma eterna noite carmesim em névoa negra; há rubi nas frestas ornamentais das residências e, muito mais, no alcácer de Lúcifer. Há um flúmen de lava cujo curso se esparge por todo o reino e o mármore bruto se forma às margens deste tórrido caudal, matéria-prima que esculpe as estátuas de beleza núrida — as quais estão por todo o reino — e o alcácer, de perfeição inenarrável, do A Estela da Manhã. A flora é seca, exceto pelos arbustos de nutrúrnias, flor símil às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; são leves, abrem-se ao soprá-las. São brilhantes em cor negra-etérea com nuances rubras. Espinhosas como as rosas. 

— Belo... e tão... sui generis... — Respirei fundo. — Traga-me uma nutrúrnia de lá? — Sussurrei com a voz embriagada de sono. 

— Farei o possível... — Aproximou-se de mim e beijou-me os lábios que há pouco tocara com seus dedos. Sua boca era aquecida, quiçá como parte da aura do inferno. Seu beijo demorou-se à suavidade do toque de nossos lábios. Fechei meus olhos e senti. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss. Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss...”  — Ouvi, como centenas de vozes sibilantes. Em uníssono. Arrepiaram-me a tez de imediato dada a assombrosa essência que possuíam. Não eram as mesmas de Seth em minha mente. O beijo cessou logo depois do estranho idioma murmurado, acabou por me despertar do relento. Olhei para Seth e pensei em indagá-lo, mas, silenciei, pois, seus olhos cerúleos pediam contemplação. Seth veio aos meus lábios outra vez. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss.”  — As vozes. E o beijo se intensificara. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss” — mais uma vez. Lamuriei, indo contra o corpo de Seth, sentando-me sobre ele, cruzando minhas pernas ao seu redor. Um beijo de ardor profundo. “Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura” — Os sussurros pareciam queimar-me a tez. Seth gemia um prazer único e eu sentia sua rigidez. “Ssaeiva enssnura voluass”.  

— Áurea... — Murmurou, afastando-me de si. Olhamo-nos, ofegantes. As vozes cessaram, elas sobrestavam quando não nos beijávamos. — Preciso ir... — Revelou. 

— Para onde, Seth? — Temi a solidão e o quanto minhas novas memórias se alastrariam nela. 

— Para o inferno... 

— Por quê? Por que agora? — Supliquei. 

— Buscarei tua nutrúrnia. — Dissera com a voz tenra e assim fez-me sorrir, todavia, a tristeza era como um piano ao fundo de todo o horizonte de meus sentimentos. Fui levada para meu aposento, nos braços de Seth; posta ao leito confortável em veludo negro após ser despida pelas mãos de meu arcanjo, devagar, senti-o afagar, em silêncio, a minha pálida pele, e fui vestida, em seguida, com um damanoute carmesim — escolhido por Seth, que olhava para as janelas de minh’alma a quase todo instante, exceto quando abaixara-se para retirar minhas vestes, onde pôde apreciar cada detalhe de minha estrutura física, ao menos por instantes. Beijou-me, por fim, no centro de minha fronte e esvaiu-se em sombras após um salaz “até breve”. Eu estava só. E adormeci só. E sonhei. 

Afundavam-se os meus pés nas rubras areias de uma paisagem desértica; dunas infindas d’esta areia concebiam um horizonte estonteante e sombrio. Sopravam-se os ventos frígidos em contraste com o que, sob meus pés, era cálido, pois, sobre mim e sobre as areias carmim, um sol no firmamento conduzia-nos seu mormaço tão característico. Entre espessas nuvens negras, clareiras de seu luzir invadiam as dunas que refletiam a vermelhidão transfigurando o céu numa celestial cinesia entre escuridão, sangue e luz. Neste vertiginoso cenário, eu caminhava em busca de sentido e, admirada com tamanha perfeição, quis compreender aquilo que somente a intuição é capaz de assimilar. 

Aos poucos, formava-se a calima, pois a inclemência da aragem era real, tanto que revoava meus cabelos de modo a dar-lhes nós em suas pontas; contudo, ainda que ébria de um medo puro — pois, percebia fenômeno grandioso ser composto por um perigo inominável — eu andejava, guiada pela mesma busca eviterna. Foi então que vi aquela mulher, tão semelhante a mim, em seu vestido negro que, feito de renda e cetim, esvoaçava como seus e meus cabelos; ela estava parada em uma alta duna, observando um homem que, ao seu lado, semi-ajoelhado, lhe oferecia um anel de ônix com um rubi lapidado em prisma. Corri como pude, tentando alcançá-los; pensei que poderia ser mamãe, no entanto, já bem próxima, vi que era, pois, eu mesma; e o homem era Lorrt. E o que se assemelhava rubi, era sirenniha diamantada, com o vermelho das dunas refletido; e o ônix era, na verdade, obsidiana em cortes geométricos. Não sei como soube disso, mas eu soube. “Lorrt!” — Vociferei ao notá-los, ambos, desaparecendo como miragem. Não chamei por mim. 

Caí sobre as dunas escarlates e chorei; um pranto de licor rubi-áureo que vertia em minhas mãos pálidas e areadas pelas partículas. “Eu te amei...” — Sussurrei, como se ele pudesse ouvir. Quando tive forças para fitar o horizonte da outrora miragem, o que vi foi mamãe; agora sim era ela e não havia outra de mim; era ela, olhando-me de longe, sorrindo com dulcífera candura. Levantei-me aos tropeços, a calima se intensificava e meus olhos semicerravam. Mamãe, cujo nome eu não lembrava, segurava em suas mãos uma romã partida e vestia-se com vestes marfim, suaves como o seu semblante; transmitia-me a paz que tão somente uma mãe o poderia fazer. “Mãe...” — Murmurei. — “Mãe!” — Bradei. Levantei-me com dificuldade, a areia acumulava-se no meu envolto; corri como pude, outra vez; chamando por ela. Clamando pelo seu amor vestal. No entanto, quão previsível... outra miragem; esvanecida enquanto tão próxima eu estava. “Áurea... minha menina Áurea...” — Ela dizia e eu a ouvia, doce voz, voz de estévia. Tocá-la intensificou a calima pouco antes do seu esvanecer. 

Então fui consumida pela areia escarlate que, ao vento, levantava-se em seus infinitesimais grãos que outrora à superfície volátil se acumularam. Chorei sobre a areia, soterrando-me aos poucos; foram lágrimas secas, como meu corpo e meus lábios. Pouco depois, enquanto sentia a saudade arrancar-me toda a fé; um silêncio contrapôs o sopro agressivo do vendaval e, assim, chamou-me a atenção. Esforcei-me para sair da areia carmim e caminhei entre seixos de vidro natural e rochas do mesmo material que se formaram onduladas e com imensos orifícios orbiculares. Guiada pelo caminho de vidro, alcancei uma floresta morta. Contínuas árvores e arbustos de galhos secos jaziam ali e, a areia, antes abundante, aos poucos se dissipava. Doía-me a solidão que emergia, todavia, pressentia que algo valioso viria ao meu encontro se eu apenas continuasse a caminhar. E continuei. O mirrado arvoredo se densificava e uma estrada de magma frio moldado como ardósia surgiu aos meus pés quando toda a areia se foi. Durante a caminhada eu ouvia, no âmago do silencim, aquele sonido conhecido... da criatura mítica... agora eu sabia que era dela, mas ainda não a via. 

Avistei, porém, uma casa; a minha casa; mas, sem o jardim. Escura em seu interior. Sem os vizinhos ou as abóboras ou o festim... sem as crianças e suas máscaras grotescas pintadas em açafrão... sem mamãe... sem romãs... ainda assim, senti que em seu interior eu estaria protegida em minha tristura; um lugar para fazer meu ninho de saudade, medo e melancolia. Fui à porta de cedro já envelhecida e abri-a desapressada. “O que... houve aqui?” — Expressei minha dor de ver as ruínas da casa que vivi por éons; fragmentos do tempo que passa e aniquila tudo o que temos de inestimável. Adentrei sua sala cuja luz era contida, vinda das janelas danificadas e das frestas da estrutura corroída. Meu coração se acalmou. Toquei a margem da lareira empoeirada... mamãe acendia seu interior nas noites frias e permitia-me observar o fogo tenro enquanto a ouvia cantarolar. Pouco depois, na semiescuridão, vi Seth. Sentado na cadeira de balanço, esperando com paciência, era o mesmo assento que amei por anos quando mais jovem, sentando-me para ler poemas ancestrais. Ver Seth trouxe-me serenidade, entretanto, por outro lado, temi algo que não sei. Seth levantou-se e se aproximou com cuidado e estendeu-me sua mão. 

— É preciso aquiescer à finitude, minha Aesatt, para desfrutar da eternidade...— Segurei o braço de Seth e ele beijou minha fronte; caminhamos juntos para fora do lar em decadência, mas doeu deixá-lo, uma dor lânguida e demorada. No insípido cenário, flores negra, com nuances carmim, símeis às dálias floresciam por onde nossos pés caminhavam e, então, seguimos juntos dentre elas; era um brotar de beleza etérea que suscitara em minh’alma uma esperança luzidia de algures, e algum dia, ter um lar outra vez, mesmo debaixo do amargo sabor dos tantos fins que hei de colecionar tendo a imortalidade como pilar de meu existir. Mas, não era apenas tal veracidade que contornava a simbologia do sonho; Seth em meu lar arruinado, presente no vazio decadente de minha história olvidada; Lorrt a amar um outro eu... e mamãe... apaziguando-me ainda que como um espectro no deserto. É mesmo preciso aquiescer à finitude para desfrutar da eternidade. 

Meus olhos abriram-se lacrimejantes. Eu compreendi muito e tão pouco... tão pouco e o que foi preciso. Senti a energia em minhas entranhas, uma disposição de enfrentar as dores, horrores e verdades, em meu nome, por mim, por Áurea Lihran morta, por Áurea Lihran de um devir e, acima de tudo, por Áurea Lihran que, naquele átimo solitário, tinha em suas mãos o poder de criar, ao mesmo tempo, o seu passado e o seu futuro. Eu sabia que árduo seria o enfrentamento do tempo que poderia, de fato, não existir naquele Castelo, mas existia no imo daqueles que possuíam a dádiva da vida, seja qual fosse sua forma de vida. Então sentei-me à beira de meu leito e vi de imediato o derredor em um branco puro; profundamente níveo — das paredes de pedra aos móveis vitorianos e à tapeçaria. À princípio pareceu-me normal, como se tudo já assim o fosse desde sempre, porém, soube pouco depois que eu ainda sonhava e, mais do que isso, eu estava em um sonho que não era apenas meu. 

Personagens neste capítulo:

Livro:

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Gênesis I

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Segui as noites na companhia de Ameritt, sempre auxiliando em tudo que ela precisasse que fosse feito para abastecer e alimentar os hóspedes do castelo. A quantidade de alimento — na maior parte das vezes o caldo esverdeado — era sazonal. O caldo vermelho normalmente era preparado em uma panela média, duas vezes ao dia. Certamente, além de mim e do homem de cabelos negros, eu não sabia ao certo quantos mais se alimentavam daquilo, pois tão pouco eu tinha acesso aos outros andares do castelo e não conhecia os outros que habitavam por ali. Por um médio período, que já não sei precisar, minhas únicas funções eram preparar a comida, ler pergaminhos em outros idiomas, entender a fisiologia e os componentes que formavam os insetos servidos no caldo esverdeado. 

Certa vez, antes de ir até a câmara mais isolada do porão do castelo, onde haviam alocado meu caixão, senti uma forte curiosidade em adentrar uma das câmaras que ficavam entre a cozinha-laboratório de Ameritt e minha câmara isolada; algo me instigava a entrar ali. Por duas vezes, antes de ir dormir, pouco antes que chegasse o amanhecer, me vi tentado a abrir o tal aposento, até que, na terceira vez, não resisti e proferi as palavras: “Apertum Loculum”, a fim de tentar abrir a porta local. Para minha grande surpresa, a porta se abriu, e eu me vi sem reação; já não sabia se deveria entrar no local ou fugir dali, intuindo que poderia ser perigoso estar em uma câmara que vivia trancafiada. 

Naquele momento, minha curiosidade havia me vencido, e eu, por fim, adentrei a câmara. Era um cômodo completamente diferente dos que eu já havia tido acesso dentro do castelo; eu estava dentro de uma espécie de biblioteca que reunia diversos pergaminhos e livros, e a dimensão daquela habitação nem se comparava com a biblioteca que havia no navio, nem com a minibiblioteca onde eu estudava latim, grego e a anatomia dos insetos — que era anexa à cozinha-laboratório de Ameritt —, pois era muito maior. 

Dentre os muitos livros que a biblioteca possuía, um em específico, de capa dura na cor cinza escuro, quase preto, com um dragão vermelho como símbolo na capa e com mais de quinhentas páginas, me chamou muita atenção. No canto direito, havia escrito: Genesis. O livro não quis se abrir por vontade própria; tive que mencionar “Apertum Loculum” para conseguir acessá-lo. Assim que a primeira página se abriu, percebi que ali se identificava um mapa; ao lê-lo, consegui reconhecer as regiões com os nomes: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. A região da Moldávia parecia ter uma cor diferente das outras duas (hoje sei que as outras duas regiões, junto com mais seis regiões conquistadas no período do Império Romano e Otomano, compreendem a totalidade do mapa da Romênia atual). Eu não era um indivíduo que lia muito no período em que vivi minha vida mortal; começar a ter o hábito da leitura era algo novo para mim. O fato de ser uma aberração, e com isso ter adquirido poderes para absorver rapidamente a leitura, me trouxe uma sensação maior de satisfação por esse novo hábito, confesso, pois antes me faltava paciência e foco. 

À medida que eu saboreava uma a uma as páginas do livro de capa de dragão, parecia que eu lia uma história que me conectava à minha; algo do que eu lia fazia sentido para as minhas origens vampirescas. A parte textual do livro era escrita em primeira pessoa, como se fosse uma espécie de diário, e começava assim: 

 Brasnov, de 1448 a 1476 
O primeiro de nós 

Após a morte de Vlad Tepes, o Príncipe Empalador, em 1476, devido à traição por cobiça ao trono da Valáquia por seu próprio irmão, Radu, eu, Igor Dracul, seu primo, recebi o título de Conde Dracul pelo próprio Vlad em seu leito de morte. Após receber seu anel do dragão como último presente, o que firmava meu pacto de confiança com o Empalador — pacto este que Vlad não tinha confiança em estabelecer com o próprio filho, Mihnea —, uma vez que o filho tinha caráter duvidoso e, além disso, não era iniciado na Ordem do Dragão, como eu e seu pai, Vlad III. 

Além de todos esses fatores, eu era comandante das tropas de Vlad, seu amigo confidente e o único que presenciara e guardara em segredo dois fatos que mais tarde comprovariam a lenda que nomeava Vlad como Conde Drácula, ‘O Demônio da Transilvânia’. 

Vlad e eu pertencíamos à Casa de Basarab (Câmara dos Drăculești) e, devido à escassez de homens vivos na família, fomos os únicos iniciados na Ordem do Dragão que permaneciam vivos. Os povos valaquianos e transilvanos da época disputavam territórios invadidos e tomados pelos otomanos, e muitos homens haviam morrido na guerra. 

Vlad realmente tomou a última decisão de sua vida de forma pensada em seus últimos minutos, após a batalha no mosteiro de Voronet, onde os turcos descobriram que o Empalador e seu exército se escondiam (invadiram em uma manhã de verão para capturar e decapitar o líder que mais havia empalado soldados otomanos e saxões). 

Antes da morte de Tepes, por algum motivo que a maioria da população valaquiana, amigos próximos e familiares não entendiam, Vlad deixou de circular pelas manhãs e inícios de tarde. O Empalador passou a ter hábitos noturnos desde que se mudara para o mosteiro, e somente eu cheguei perto de descobrir o verdadeiro motivo. 

Em uma noite invernal do ano de 1458, Vlad convocou-me, a seu filho Mihnea e a mais dois soldados de sua guarda pessoal para irem a uma grande floresta, abaixo do Monte Cárpatos. Ao chegarmos perto de uma gruta, Tepes pediu a todos os quatro que o acompanhavam que esperassem do lado de fora enquanto ele explorava a alcova sozinho. Passado um tempo, os quatro cavaleiros que o aguardavam ouviram um grito agonizante ecoando da gruta; entreolharam-se no mesmo instante. Assustado, resolvi adentrar o buraco assombrado e, ao invadir o local, logo senti uma presença macabra que vinha de um vulto grotesco, que parecia esvair-se para dentro do chão da gruta, dizendo em uma voz de barítono: 

— Sua alma é minha, e, em troca de poder, você agora é das trevas. 

No mesmo momento em que identifiquei o corpo de Vlad caído ao chão, percebi que Mihnea estava na caverna em estado de choque, sem entender o que havia acontecido ali. Corri até meu senhor imediatamente e verifiquei se ele ainda estava vivo. Os dois soldados entraram na gruta em seguida e ajudaram a socorrer Vlad Tepes. O Empalador ainda vivia, mas estava fraco e pálido; no lado esquerdo do pescoço surgiram duas marcas de onde esvaía sangue. Um dos dedos da mão direita estava queimado e, da parte que o ligava à mão, nascia uma crosta vermelha, ainda com sinais de fumaça no local, como se tivessem tostado um dos dedos de Tepes. 

À medida que os dois soldados se adiantavam para levar o corpo de Vlad para fora da caverna maldita, Mihnea continuava parado na gruta, sem fazer qualquer movimento. 

Enquanto os outros dois cavaleiros ajustavam Tepes em um dos cavalos, percebi a ausência de Mihnea e lembrei que o filho de Vlad permanecia na alcova. Ao avistar o rapaz, ainda perplexo na caverna, o chamei, mas não obtive resposta. Resolvi sacudi-lo aos gritos e, ainda assim, não obtive reação. Então, decidi estapeá-lo, berrando, e, ao despertar do transe com tal violência, o garoto questionou: 

— Lorde Igor, o que aconteceu? 

Em resposta, lhe disse: 

— Nada que devamos lembrar. Vamos embora deste lugar sombrio. Meu senhor, seu pai, precisa de maiores cuidados. 

Ao chegarem aos aposentos do mosteiro com Vlad, os quatro cavaleiros logo propagaram os rumores de que o corpo do Empalador chegara sem vida. Alguns criados suspeitaram que poderia ser algum tipo de peste; outros imaginavam que seu senhor houvesse caído em uma emboscada feita pelos turcos enquanto caçava cervos à noite, mas a verdade somente eu sabia. 

Durante muitos dias e muitas noites, Vlad permaneceu trancafiado em seu quarto. Nos primeiros dias, ficou acamado, pois ainda não havia recuperado parte de suas forças. Sua pele permanecia incolor, e a ferida que cicatrizava em seu dedo queimado agora parecia metal — como se da casca do ferimento surgisse uma capa de cobre. No entanto, a ferida no pescoço permanecia, como se houvessem sido feitos dois pequenos buracos negros, como se o sangue de Tepes estivesse apodrecido ao ser mordido por uma serpente do mal. Vlad já não possuía mais alma. 

Após ler e refletir sobre as palavras escritas por Igor Dracul, lembrei-me da fatídica viagem que fiz naquele navio assombrado até aqui. O que mais me chamou a atenção até agora foi que o tal anel, que parecia ter surgido como uma espécie de herança no dedo necrosado de Vlad Tepes, era o mesmo que o senhor que me guiava e criara portava: um anel de cor avermelhada, parecendo ser de cobre, com uma insígnia de dragão no centro. Seria, o meu senhor, aquele descrito nas palavras do livro de capa de dragão, ou será que Vlad Tepes despertara mais uma vez de algum tipo de torpor e agora nos espreitava e comandava no castelo? De uma coisa eu tinha certeza até então: o senhor que portava o anel e fora meu criador era o atual Drácula, dono do navio e de tudo o mais. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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12. Castelo Vampírico: Não sabeis o que acontecerá amanhã

Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

04 de janeiro? - Finalmente comecei a ter boas noites de sono; fazia tempo que eu não dormia bem. Os chás que tomei com Ameritt estavam fazendo o bem prometido por ela. Cheguei até a sonhar, e, na maioria deles, eu me via sentada à escrivaninha à frente da janela, lendo o livro e fazendo anotações. Sentia-me distante de mim mesma e, ao mesmo tempo, ligada ao livro. Voltei à rotina habitual no castelo, à qual eu já havia me acostumado, agora que meus nervos pareciam ter se acalmado. Via sempre o livro sobre a mesa, apenas esperando para ser lido, e ia em sua direção. Lembrava do seu peso, de sua textura, tão próxima à minha pele quando o coloquei por baixo da blusa para protegê-lo da chuva. Às vezes, meus dedos quase o tocavam enquanto eu estava perdida em pensamentos, mas logo sentia um frio percorrer minha espinha e recuava. Respirava fundo e sussurrava “Hoje não” para mim mesma; algo dentro de mim dizia que eu não estava pronta. Então, coloquei alguns papéis sobre o livro para que eu não ficasse olhando para ele a todo momento.

A manhã trouxe uma mudança na atmosfera do exterior do castelo; a chuva havia cessado, deixando um clima mais ameno. Olhei pela janela, vi o jardim e me senti disposta a fazer mais uma visita a Ameritt — isso se tornara rotineiro. Antes de sair do quarto, passei a pomada em minha ferida, como eu havia prometido a ela. Meus dias e minhas noites no castelo pareciam estar voltando aos eixos: dormia bem, acordava disposta, visitava Ameritt. Ficávamos conversando sobre entomologia, botânica, qualquer assunto relacionado às ciências da natureza, e me permiti ouvi-la falar sobre misticismo, esoterismo, alquimia e todas as pseudociências possíveis. Eu não estava mais num mundo onde a razão fazia sentido; depois de tudo que passei no castelo, presenciar algo e tentar explicar tudo apenas com fatos faria minha mente colapsar. Eu tinha que entender que não estava mais no “Kansas” e, como Dorothy, deveria apenas aceitar esse caminho e continuar na estrada sombria dos tijolos amarelos.

Ameritt me fazia experimentar diversos chás e me mostrou ervas que cresciam somente no castelo, além de me explicar o efeito de cada uma no corpo humano, oferecendo-me somente aquelas que pudessem me acalmar, nunca me dopar. Explicou-me o significado de besin, e fiquei surpresa ao saber que era uma palavra do idioma dos Séttimôros, um povo pelo qual passei a ter certa afeição; a palavra significava "besouro". Depois da visita, voltava para o quarto e focava na escrita. Os dias iam ficando mais calmos, mais rotineiros. Vez ou outra, eu me lembrava do livro, mas logo voltava minha atenção ao que eu estava fazendo. O ambiente ao redor do castelo parecia se tingir de um tom laranja: as folhas nas árvores, o céu da manhã, abóboras em profusão cresciam no jardim, cogumelos em tons de laranja e outros terrosos. Tudo tinha uma tonalidade vibrante, e à noite, com uma lua laranja contrastando com o céu escuro.

Tudo fora do castelo e dentro de mim aparentava outono, simulava uma lenta mudança, mas eu sabia que não era totalmente assim. O castelo parecia despertar para uma nova fase, mais viva e inquietante, como se estivesse sendo alimentado de forma constante, com muito mais inspiração. Eu esperava que fosse assim dentro de mim também; sentia algo diferente no ar e dentro de mim, de forma que despertava meus sentidos. Como uma comichão que eu sentia por todo o meu corpo e me fazia sentar em frente à escrivaninha e apenas escrever todas as imagens, sons e palavras que vinham em abundância à minha mente. Era como se o castelo me desafiasse a apenas aproveitar essa atmosfera peculiar para pôr as ideias que borbulhavam em minha cabeça no papel. Então, me deixei levar, e, como se inspirada divinamente, eu escrevi até altas horas.

05 de janeiro? - Acordei um pouco mais tarde que o habitual, fui até o jardim, e me encontrei mais uma vez com Ameritt, curvada sobre uma fileira de cogumelos em tons terrosos, tão belos, parecendo pequenos guarda-chuvas, que ela colhia com cuidado. O aroma da terra úmida e da vegetação se espalhava ao redor; era tão agradável estar naquele jardim. Ameritt sorriu quando me viu, e senti aquele calor confortável no peito, o que sentimos ao ver alguém a quem temos grande afeto.

— Rute-besin, parece que o castelo te deixou dormir um pouco mais esta noite — disse ela com sua voz carinhosa de sempre, embora com um leve traço de inquietação.

— Não exatamente, fui bem tarde para a cama. Passei a noite escrevendo — respondi, admirando aquele horizonte alaranjado. — Este lugar parece estar mais cheio de vida, como uma entidade bem alimentada, não é?

Ameritt soltou um riso suave, que tirou minha atenção do horizonte. Olhei para ela, e seus olhos brilhavam, como já era habitual, pois aquele era o momento em que ela compartilharia mais conhecimento comigo.

— Rute-besin, esse castelo é vivo, como você já sabe. Isso é por causa da estação Aborom, a meia estação primavera-verão. Bem, é a época em que tudo se intensifica. Veja as abóboras e esses cogumelos; é essa magia que não se pode nomear que os mantém tão vibrantes nessa época. E há as criaturas da noite, que, em época de Aborom, podem ser hostis, especialmente quando a lua negrume surge no firmamento laranjim. Elas despertam em cólera, parecem famintas; creio que sejam morbidades criadas pelo caráter próprio deste lugar.

Ela se ajoelhou perto de um grupo de cogumelos, colhendo alguns com cuidado.

— Esses são Obomitas — disse, apontando para pequenos guarda-chuvas de uma tonalidade alaranjada. — Em noites como esta, eles podem ser perigosos se manipulados sem o devido cuidado. — Ela se pôs de pé e foi andando em direção a grandes abóboras de um laranja vibrante. — Essas abóboras são venenosas, mas com elas se pode produzir elixires perturbadores, dependendo do uso.

Caminhou até outras abóboras, apontando para elas.

— Essas são especiais; além de produzirem doces e tortas maravilhosos, servem para proteção também. Esse provérbio, você já ouviu? — Ela começou a recitar de maneira quase ritualística: — “Quando estiverdes em vossos aposentos, mantenham as fenestras aldravadas e ponham uma vela de abóbora-doce à porta, no chão. Pois eles se erguerão de seus túmulos e mancharão vossos umbrais com macabros infortúnios, caso não sejam expulsos pela trêmula luz aromantada.”

Balancei a cabeça, indicando que não conhecia o provérbio. As palavras pararam entre nós, cheias de advertência.

— As noites de Aborom trazem mais do que mudanças na atmosfera do castelo e na vegetação, Rute-besin. Há uma passagem belíssima de um pergaminho antigo, escrito por uma poetisa murmura: “Ouça o cântico das almas, nesta noite de lua negrume; ouça-o no manto do horror, almas que buscam vingança, paixão e dulcíferas frutas de meia-estação.” Terrivelmente belo, não é?

Um calafrio percorreu meu corpo enquanto ela recitava aquela bela passagem, e olhei para ela, confusa.

— Acho que não estou pronta para enfrentar o que o castelo tem para revelar nessa época. Dessa vez vou seguir as regras e ficarei dentro do meu quarto, escrevendo — confessei, com um ligeiro medo na voz.

Ela sorriu, com aquele sorriso quase maternal.

— Ninguém nunca está, Rute-besin, porém o castelo tem a sua maneira de preparar os que vivem sob seu teto. Então, descanse, besin, cuide de sua mente. Quando estiver pronta, você saberá. E, quando isso acontecer, bem… espero que você esteja disposta a enfrentar o que encontrar.

O fim da tarde se aproximava, e nuvens laranjas pairavam sobre nós como um manto. Olhei para Ameritt me observando. Por mais perturbador que esse lugar fosse, algo em mim estava irremediavelmente ligado a ele; talvez minha alma, a qual nunca acreditei existir, agora fosse parte do castelo. A questão era: o que ele esperava de mim, além da escrita?

— A senhora acha que devo ficar trancada no quarto? — perguntei.

— Só se for da sua vontade — respondeu ela, enquanto colhia alguns Obomitas. — Mas, para se proteger, recomendo que leve aquela abóbora que separei para você. Coloque-a na porta do seu quarto ou na janela; ela deve ser iluminada por dentro com esta vela — disse, mostrando-me uma vela de um laranja claro. — Isso afastará os que se levantam de seus túmulos, espíritos inquietos e todas as criaturas que não desejam nada além de manchar os umbrais dos vivos de infortúnios. Eles são atraídos por este lugar nessa época de Aborom, por vingança, paixão ou até mesmo por um pouco de consolo ou companhia. Se sentirem sua presença, poderão tentar se aproximar, especialmente se perceberem que está mexendo com algo que os afeta.

Essas palavras ecoaram em mim, e logo a imagem do livro que encontrei se formou em minha mente. Eu ainda não havia mencionado o livro a Ameritt, mas sentia que ela sabia sobre ele. O peso de seu conteúdo, ainda não revelado, parecia dobrar meus ombros. Após uma agradável conversa acompanhada de chá, voltei ao meu quarto. Seguindo a recomendação de Ameritt, coloquei uma vela dentro da abóbora e a pus sobre o parapeito da janela. Tranquei a porta e as janelas e me sentei para escrever. Enquanto escrevia, sentia-me inspirada a rascunhar algumas poesias. Fazia tempo que não tentava nada. Talvez o que me faltava fosse motivação, ou talvez uma boa noite de sono. As palavras fluíam com tanta facilidade, que era como se o próprio castelo estivesse ditando as palavras exatas que eu deveria escrever. Estava tão absorta na escrita que não percebi o som suave que veio da janela.

Foi um bater suave, dado três vezes, bem distinto. Levantei devagar meus olhos do papel e fui surpreendida. Do lado de fora, pressionado contra o vidro, havia algo ou alguém. Seu rosto era indefinido, sem traços, olhos escuros e vazios olhando através da janela e de mim. Sua pele, de um branco translúcido, era lisa, sem marcas ou qualquer coisa que definisse seu gênero. Dedos longos e finos, rosto anguloso, sem qualquer expressão; sem sobrancelhas, cílios ou cabelos, apenas o vazio liso. Os lábios finos, quase invisíveis, não se moviam. Seu corpo, alto e magro, apesar de translúcido, parecia denso, e o espaço ao redor dele parecia se curvar ligeiramente. Sua voz, quando falava, estava dentro da minha mente, como um sussurro dobrado.

— Você pegou o livro — sua voz soava como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo.

Paralisada e sentindo calafrios percorrerem o meu corpo, apertei a caneta com força, sem saber se deveria responder ou correr.

— O livro… — repetiu a criatura, estendendo um dedo por trás da vidraça em direção ao livro. — Por favor, abra-o.

Falava sem emoção, mas sua voz parecia repuxar minhas entranhas. Levantei-me e dei um passo para trás, sem tirar os olhos da criatura. Olhei para onde o livro estava, coberto de papéis, mas eu ainda assim o sentia, como algo à espreita.

— Se você o abrir — a voz da criatura vibrava em minha mente —, eu poderei descansar, ou talvez, me lembrar. Por favor, abra o livro — sua voz estava mais alta em minha cabeça.

— O que é você? — perguntei, olhando aqueles olhos vazios.

— Um nome esquecido — murmurou, sua voz reverberando como uma onda dentro da minha cabeça. — Mas o livro guarda o que resta de mim. Ele deve ser lido para que eu me lembre.

— Mas e se isso for perigoso? — perguntei.

— Todo conhecimento o é, mas a ignorância também não? Por favor, eu só preciso lembrar — a voz voltou a ecoar em minha cabeça.

Suspirei e tentei me acalmar. Não podia ceder a uma criatura desconhecida. Talvez amanhã, pensei, talvez quando eu estivesse mais preparada. Hoje, eu só poderia prometer à criatura que aguardava do outro lado do vidro:

— Eu vou pensar sobre isso — falei.

A criatura pareceu entender. Sentou-se no peitoril da janela, enquanto a abóbora continuava a iluminar com sua luz trêmula. A criatura, ou o que quer que fosse, parecia estar à espera.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Um convite especial

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca por inspirações (as exigências de escrita não param!), quando percebi o sinal que ela enviou. Na beirada de minha janela — onde o que se vê não passa de um horizonte quieto e quase vazio, bordejado de mata —, seu curioso besouro batia as asas, fazendo um barulho que prontamente me tirou a concentração… 

De modo apressado e curioso, larguei o livro que folheava e me pus na direção da janela; chegando lá, o prometido: Ameritt, com toda sua peculiar maneira, me exibia uma abóbora, uma imensa abóbora sobre sua cabeça. Chegando a segurar um riso, olhei para ela e acenei, garantindo com isso que iria acompanhá-la, como havia prometido em nosso último encontro. 

Qual não foi a estranheza de me ver seguindo um pequeno inseto, aparentemente ciente de sua missão, me guiando pelas descidas do castelo e quase me obrigando a pedir que esperasse… Sujeitei-me àquilo com a aceitação já típica das experiências tidas aqui. 

Chegando ao pórtico de entrada do casarão, diante do jardim amplo e tomado de plantas, outra surpresa. De tamanhos variados e até maiores do que a abóbora exibida sobre a cabeça de Ameritt, o espaço estava tomado por elas, com uma iluminação que só poderia ser feita por algum artefato no interior de suas rotundas massas. Aquela visão era um espetáculo, como minha imobilidade e estupefação puderam confirmar… 

Ultrapassei aquele labirinto de abóboras enquanto tentava não perder a visão do besouro de Ameritt. Por um minuto, lembro que sumira de vez da minha perspectiva aquele apressado inseto. Estando já anoitecendo, tudo o que pude fazer foi tentar localizar em meio ao brilho laranja dos legumes (ou frutas?) o ponto preto e vacilante do alado bichinho. Pensando mesmo em desistir da perseguição, estava a ponto de gritar para minha anfitriã, avisando de minha situação, quando me dei conta do ridículo: eu bem sabia onde ela morava, vivia… 

*

Ameritt me recebeu com a simpatia de sempre. Servindo-me pratos, doces, receitas que eu não fazia ideia se deveria ou não simplesmente aceitar, fui me dar conta de seus sabores quando já tinha repetido a porção de três ou quatro refeições... 

A percepção de estar daquela maneira, sentado junto a ela numa sala relativamente escura e cercado de objetos que meus olhos não conseguiam captar, me deixou levemente preocupado. Não que eu suspeitasse das intenções de Ameritt, até então uma queridíssima descoberta, gentilmente aberta para minhas perguntas e respostas; acontece que, da forma com que eu “automaticamente” cheguei ao seu recinto, sentindo-me no mínimo tomado por alguma estranheza, naquele momento minhas primeiras impressões de dúvida e até receio voltaram à tona. 

Eu ainda não sabia nada do que se escondia por trás daquela fortaleza de pedras, a verdadeira face do que governava os acontecimentos ali... Pronto para me levantar e pedir para ir embora (confesso que certo pavor ia me preenchendo, ao passo que a satisfação pela comida desaparecia aos poucos), Ameritt deu a volta na mesa e pareceu adivinhar minha apreensão. 

Pedindo-me “calma”, fui sorvido por sua voz lenta e acolhedora — de certa maneira, doce como os quitutes que eu provara. Sem enxergar seus olhos, que eu já havia notado serem de um brilho enigmático e atraente, tudo o que pude prever era minha total integridade sob os braços daquela que me recebera em sua sala, estando ali à mercê do que suas mãos pretendiam ou não me fazer... 

*

— Conte-me, Wallacebesin... O que faz aqui no Castelo?... 

Tudo o que lembro, tudo o que me vem à mente ao recordar essa pergunta de Ameritt, gira em volta de minha pertença ao Castelo, desde minha chegada até a súbita tensão ao me servir dos pratos misteriosos daquela anfitriã... 

Comecei falando de meus textos, meus poemas e sonetos, que volta e meia eram instigados a serem escritos por conta da atmosfera do lugar. Depois, falei dos outros habitantes do Castelo, pessoas que eu via, mas com quem raramente trocava alguma relação (exceto os comentários deixados como notas em seus originais escritos). Não pude contornar o assunto do Baile, aquela dança misteriosa com a também obscura dama que me acompanhara na noite... Até o episódio do ataque, aquela provável ocasião ainda em xeque na minha cabeça... 

— Tudo isso acontecendo em menos de um ano, Wallacebesin? 

Um ano?! Quase um ano que tudo aquilo havia ocupado de minha jornada! O choque com aquela pergunta foi como um puxão para a realidade. Jamais eu havia me dado conta de que, ao fazer parte daquele ambiente de experimentação artística e fenômenos extraordinários, também o calendário era sujeito a seus insondáveis efeitos... 

Talvez eu tenha desmaiado, ficado fora de mim por alguns segundos, enquanto tentava processar aquela insuspeitada informação trazida por Ameritt. Ela própria (se minha memória não me prega alguma peça neste momento em que escrevo) — estou certo de que tenha me envolvido com seus braços e me “trazido de volta”, usando de algum artifício, com toda a certeza, de sua lavra. 

Erguendo-me da cadeira, guardo uma imagem de vê-la me guiando em direção à janela de sua humilde e misteriosa sala. Ali, com o céu completamente aberto e limpo, ela me pediu que olhasse, aceitasse os fatos (que os acontecimentos anteriores, por mais absurdos que fossem, se explicariam) e que não duvidasse, a partir de agora, do que minha visão deparava... 

— Quase um ano de sua estadia aqui, Wallacebesin... e esta é a primeira vez que vê isso... 

Isso que ela indicava, com toda a calma do mundo: a abóbada celeste, naquela noite inquietante, sendo visitada por abóboras flutuantes, decorando o céu ao redor do Castelo de um laranja espectral... 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Conselhos Doces e Sombrios

Enquanto eu me afasto da biblioteca, as sombras parecem se fechar atrás de mim, como se o lugar estivesse lamentando a minha partida. No entanto, não há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Enquanto eu me afasto da biblioteca, as sombras parecem se fechar atrás de mim, como se o lugar estivesse lamentando a minha partida. No entanto, não há despedidas. Logo, encontro o meu aposento e me troco, vestindo-me bem confortável e carregando apenas uma lança pendurada, algo que se torna um acessório que dá lugar à minha vaidade. Ao sair da minha alcova, o eco de gargalhadas infantis ainda ressoa, agora mais próximo, e a minha curiosidade me empurra para frente, em direção ao desconhecido. 

Ao ser levada para a biblioteca novamente e contornar uma estante, me deparo com uma figura peculiar: uma anciã com cabelos brancos como nuvens, que se mistura ao ambiente com seu manto de cores terrosas e verdosas. Em suas mãos, há um frasco com uma poção brilhante e um pequeno caderno, onde são visíveis desenhos de besouros. 

— Nauärah-besin, vejo que a dança a trouxe até nós! — a senhora diz, com um sorriso que revela dentes que parecem ter visto muitos segredos. — O movimento é a linguagem da terra, e você, minha filha, fala fluentemente. 

— Eu… — hesito, intrigada, abaixando a cabeça e curvando-me quase. — Muito agradecida, mas como sabe o meu nome? Por que me chama por Besin? E quem é a senhora? 

Apesar das dúvidas, aquela figura me traz paz, como se me confortasse e me tranquilizasse de algo. Ela me transmite sabedoria. E como ela lembra a minha avó...! Essa parece ser a resposta de que preciso baixar a guarda. E as armas. Ela olha em direção à minha lança, como quem julga-me tola e desnecessária por carregar isso dentro do castelo. Por outro lado, o seu olhar é terno, compreensivo e parece entender o meu motivo com a sua intuição. 

— Ameritt. Me chamo assim. E sobre o seu nome, eu simplesmente sei. 

A senhora Ameritt não precisa se explicar. Compreendo bem que ela tem uma sabedoria peculiar e profunda, até pela sua idade. 

— Que paz me trouxe, senhora Ameritt! Mas o meu sobrenome é Tupiniquim. 

— Eu sei. Conheço os Tupiniquim de longe, pelo olor, trejeito e fala. 

Percebo que essa senhora sabe muito. Talvez conhecesse o meu povo ou seus costumes por sua sabedoria notável de anciã. 

— É uma satisfação imensa! Bem, fico aliviada em ver mais damas neste recinto. 

— Senti a senhorita leve e confiante quando me viu. Dançaste como a brisa, como a chuva! 

— Espera, a senhora me viu dançar além de outras presenças que senti? 

— Eu vejo muitas coisas, ou quase tudo. 

— É bom conhecer pessoas sábias como a senhora. Eu senti algo ao dançar. Uma conexão com a minha essência, talvez. Mas o lugar aqui ainda parece estranho, embora seja mágico e encantador. 

Ameritt inclina a cabeça para admirar a minha fala, e seus olhos brilham como se guardassem as chaves para os mistérios do castelo. 

— Este castelo tem suas próprias histórias, e você, por acaso, está fazendo parte disso — ela profere, e o meu olhar se fixa naquela espécie de grimório que ela carrega, com besouros desenhados e anotações incompreensíveis. — E os besouros que a senhorita vê em minhas folhas… ó, eles são mensageiros, sempre. Eles vão e vêm com as verdades ocultas. 

Nesse momento, um movimento fora da sala atrai a minha atenção e logo eu toco a minha lança, num instinto selvagem de defesa, embora a senhora Ameritt esteja por perto. Um homem com tom de pele similar à minha surge ao longe, por trás de alguma pilastra que é possível visualizarmos de dentro da biblioteca, o que me faz relaxar os músculos, talvez por sentir semelhança e identificação com as características físicas dele. 

— Se eu fosse a senhorita, não sairia do meu aposento com lanças — a senhora Ameritt tranquiliza-me, com sua voz serena. — Eu compreendo a sua bravura; por outro lado, não há necessidade alguma de vagar por aqui armada, a não ser que saia do castelo e vá explorar a Vila Séttimor. Aí eu lhe darei razão. — ela sorri sabiamente, com um brilho nos olhos. 

— Certamente ando munida por aí afora. Mas irei me tranquilizar aqui dentro. Vou ouvir o conselho da senhora. A minha avó sempre me dava conselhos utilizando a mesma frase. 

— Mas também não vacile... Este castelo guarda segredos que podem ser tanto um presente quanto uma maldição. Você deve escolher como vai usá-los. 

Antes que eu pudesse respondê-la, ela novamente dispara: 

— Nauärah-besin, eu preciso realizar algo muito importante agora, mas eu te espero em algum canto bonito e sombrio do castelo a qualquer outra hora para um longo e saboroso chá. 

— Espera, senhora Ameritt...! A senhora sabe quem é o homem que apareceu atrás das pilastras? 

— As respostas vêm quando você menos esperar, muitas vezes em forma de besouros! 

Ela diz e desaparece com uma espécie de magia, como quem paira por entre uma fumaça mágica e colorida, dando-me as costas. No mesmo momento, eu imagino que tive uma visão, um vislumbre por saudade da minha avó, mas não. A senhora Ameritt é tão real quanto eu, e, além da sua sabedoria e amorosidade, ela é esperta e safa. A sua última frase não sai da minha cabeça, e a conversa com tal anciã me faz refletir sobre minha própria jornada, sobre o autoconhecimento que preciso construir a cada dia, sobre a minha dança, e as portas da imaginação se abrem em minha mente. Com a companhia dessa alma intrigante, ainda que fugitiva da minha presença, sinto-me menos sozinha, pois é ela uma das residentes. 

Novamente, ouço da parte externa risos de crianças, que agora se misturam com choros. Respiro fundo, tiro a lança da minha longa roupa e a deixo em uma mesa próxima. Seguro firme o meu amuleto, rogando a Tupã por proteção e lucidez, porque, além de ouvir vozes e onomatopeias, pela primeira vez, eu quero ir atrás de uma figura masculina para saber quem é. Dias atrás, eu correria para o meu quarto, rogando para que ele não me descobrisse. Por vezes, imagino que estou louca, mas esta é uma loucura que eu preciso ter. Algo me diz que aquele não é qualquer homem; é confiável, se parece um pouco biologicamente comigo, parcialmente. Para quem se esbarrou com dois homens neste recinto e tudo correu bem, aparentemente, desse eu não preciso temer. Se ele fosse ameaçador, a senhora Ameritt me alertaria. 

Decidida a explorar não apenas a biblioteca, mas também as pessoas que me cercam, olho para o lado de fora, tendo a certeza para onde vou agora.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

 
 

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