Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Anfêmero de Lillymor, dia 145— Livro de Sonuras

É magnífico este recôndito de livros que encontrei. Tudo estava deveras organizado, com absoluto cuidado; não há hipótese alguma de que esteja ao léu do tempo. Sentei-me para escrever, e comigo estava o livro de nome “Sonuras de Oanna'om" — o encontrei após admirar cada singelo recanto d'aquele lugar; a obra descansava n'uma prateleira cuja etiqueta indicava: "Narradores". A biblioteca parecia organizada de maneira bastante peculiar; deveria ser por temas, mas era por termos — conhecidos e arcanos — que não se vinculam.

Não tem tido alvor nos últimos dias… nuances de atropúrpura se espargem como névoa silente, uso de meu sono para controle do tempo. Busco inspirações para novas perspectivas terríficas à história de Dandeliz. Daeron se recusa a compartilhar suas ideias, parte porque sente-se turvo quando o faz — ação obscura da maldição; e, parte porque guardara certa mágoa de mim desde aquele dia em que o céu ainda era azuléo e o brilho douradiço pairava como vagalumes.

Sinto-me inquieta, pois tive outra visão. E o mais absurdo é que, dentro daquele livro de poemas — o qual trouxe comigo para meu aposento —, surgira uma página do além, como na entrega de missivas pelos tubos de comunicação de Sihren — entretanto, sem os tubos. Pergunto-me se este lugar se fundamenta na Sirehnersí. De alguma forma, entretanto, acredito que o livro se vincula àquele que o segura, pois a página desvelada a partir de fragmentos insondáveis da minha vivência revelava a visão que tive, o ambiente, e tudo o que ocorrera naquele instante. Tudo n'uma única Sonura. Decidi reescrevê-la abaixo, para o caso de desaparecer após desvincular-se de mim — caso eu esteja correta em minha dedução. O livro estava comigo no momento do acontecido, eu o carregava em minha bolsa lateral, a qual não deixo longe de mim em hipótese alguma — quiçá por isso a Sonura tenha se redigido.

Enquanto ela espreitava da janela,
Ouvindo umas conversas tão estranhas,
Su’água já fervendo na panela…
De súbito resplande a joia acanha!

E a névoa carmesim volta-se asinha
De gosto férreo-sangue, aterradora!
Porém dentre ela havia escrivaninha,
Madeira negra, velha, dissuasora…

Pensara: “O que se trata este lugar?”
“Por que me sinto orbívaga, mas presa?”
Desliga o fogo, tenta se acalmar…

Mas logo entre visões, bem de surpresa,
Aquele de sorriso largo surge
E vendo-o no recanto, ela urge,
Porém era só sombra em profundeza.

Eu preparava uma infusão com flores e frutas secas quando ouvi diálogos vindos do jardim; observei pelos vitrais da cozinha. Recordo-me de uma mulher de cabelos e pele negra e, ao seu lado, uma criatura-coruja. Falavam das Terras de Irihria — a coruja explicava que este mundo é, na verdade, uma passagem para todo e qualquer lugar existente; e que é como um sonho dentro de um sonho, entretanto, retornar de onde viemos é algo difícil de realizar.

Foi então que a joia em meu dedo resplandecera n'um fulvo ofuscante e à minha visão revelaram-se cenas de névoa sangrenta em exíguos segundos... de novo... e a escrivaninha parecera-me tão familiar... tão íntima. No findar das imagens afogadas no escarlate, jurei ter visto o homem de pontiagudo sorriso observando-me na cozinha, nas sombras d'um recanto. Célere olhei e… nada além de escuridão.

Sinto-me desconfortável diante da lembrança daqueles instantes... daquele homem à espreita... Cogito retirar o anel, embora tenha receio de que algo pior me ocorra. Ele dissera sobre cinco atos, portanto, creio ser este o segundo... talvez seja mais sábio de minha parte pedir a opinião de Aphran e Daeron — embora meu irmão não vá perdoar meu erro em, mais uma vez, acreditar n'um ser desconhecido...

É… eu… eu não vou contar para Daeron.

Fraghvora
Histórias fragmentadas e envenenadas pelos fenômenos sombrios de um longínquo lugar chamado Castelo Drácula. Romances proibidos, maldições perversas, medos abismais e melancolias perenes, esta é a alma de Fraghvora. Acompanhe protagonistas cujas histórias se cruzam e vivencie com eles experiências insondáveis. Do mesmo universo de “Histórias de Sihren” e “As Crônicas do Castelo Drácula”. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar.

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