Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ouvi, pelas vibrações sonoras das minhas cordas vocais, palavras estruturadas n’uma essência ancestral que eu somente intuía, impossível de compreender suas austeras sombras: “Vaehvor somnor nur ah” — não era a mesma voz que me pertencia… não. Era a voz dele… do escuro celeste, perpétuo e insondável, emergindo de minha faringe e vibrando em meu crânio. A música soturna de meu espírito dilacerado diante o poder da pupila.

O meu corpo estava atônito, estagnado sob a imensidão que se dilatava cada vez mais negra. Perdi o controle de mim. Agônico e vazio fez-se o meu cerne; e um orbe nascera em meu torso, amainando meus batimentos cardíacos e rompendo quaisquer fragmentos de alegrias que um dia possuí — a memória fora preservada, entretanto, como um abismo imortal, o enlevo fez-se nulidade. A ledice como nostalgia de nunca-mais. E o eco em mim era desnutrido de sentido. “Estou… condenada…” — proferi em absoluto silêncio.

Encontrei certo entendimento, de alguma forma interpretei aquilo tudo, era o poder da entidade vantanegra. Todavia, eu condenada, assim, no infinito de suas trevas, nas suas incomensuráveis pupilas que se uniam n’uma única cavidade profunda — ali, eu não podia responder à tamanha sublimidade. Assimilei verdades inconscientes que a luz nunca fora capaz de me revelar e que, desde então, sinto-as… vívidas… da tez às células…, porém…, minha ínfima expansão psíquica jamais me permitiria descrever ou pronunciar o que assimilei; exatamente como fora naquele momento ainda é hoje enquanto escrevo.

Então, uma lágrima quente, vinda da penetração umbrífera do ente em mim, verteu de meus olhos, cauterizando algo inacessível em minh’alma. Veemente, era pulso inominável de uma vida incabível… uma existência… nur ah… era isso… nur ah… como Ele mesmo profetizara… E tudo se expandia breu; enquanto a vertigem contornava-me em medo e devoção. De tal êxtase contemplativo, eu esperei a morte. “Ela vestirá um véu feito de flores negras?” — ponderei no perpétuo daquele instante. “A morte é um abraço lúgubre das sombras?”— solucei ao sussurrar emudecida.

E eu lembro de cada detalhe daquele momento, porque escolhi jamais esquecer. Entretanto, meu espírito não foi sorvido pela escuridão e pergunto-me... e se o tivesse sido?

— Perdida? — quebrantando a paralisia, uma indagação flutuante. Minhas retinas retornaram à realidade, e fitei o horizonte. Meu corpo enfraqueceu de súbito e eu vi uma criatura cuja cabeça assemelhava-se a um tipo de ave que não identifiquei. Ela olhava para mim, grandes olhos de apreensão; suas asas eram brancas, grandes e caídas sobre suas costas e ombros tal qual uma capa que abriga um corpo esguio. Suas mãos de dedos finos pousavam sobre mim, sem qualquer toque. Cabelos lisos e pálidos desciam de sua cabeça, em mechas suaves; a sutileza de seus movimentos e o silêncio entranhado neles era de uma natureza enigmática. Usava uma roupa negra, cobrindo-a por completo até seu pescoço, entretanto percebi tratar-se de um corpo feminino e tal percepção trouxera-me o alívio da identificação.

A princípio, não lhe respondi. Eu estava turva, tentava apropriar-me, com respaldos racionais, dos momentos precedentes — e não fui capaz de tal proeza. Os detalhes eram incertos, as sensações que remansavam tinham essência soturna, rarefeita. E… nenhum firmamento acima observava-me. Apenas copas frondosas de altas árvores expectavam a vida, sem aplausos. Certa aura insólita de inquietude e aflição era a única que estava presente desde que fui tragada pela eletricidade, não obstante, o céu vantanegro escondera-se sem porquê.

— E-estou… — murmurei, inquieta. A criatura estendeu-me as mãos.

— Ajudo-te, há perigos e proteger-se é necessário. — dissera. Sua voz era firme, tenra. Aceitei, confortável sob sua fraternal disponibilidade. Levantei-me, respirei como se pela primeira vez. — De onde vens tu? — questionara a criatura. Lembrei-me de Opallihan, meu lugar, meu lar.

— Da luz iridescente, pálida linha solar, o mundo onde a natureza é senciente e tudo é opalino. — respondi, decerto contaminada pela saudade, fui poética mais do que devia. Imaginei, logo em seguida, que poderia soar estranho para a criatura, senão estranho, então, um desatino; afinal, eu não conhecia a sua cultura e muito menos seu conhecimento a respeito de Opallihan.

— D’estas terras então não és. Impossível. — Silêncio. Ela observava o derredor, parecia pensar. — Luz? Senciência? Interessante. Attreliaren… — Proferira, calma. O último termo devolveu-me a lembrança de minhas cordas vocais pronunciando o que o céu vantanegro segredava-me.

— O que significa Attreliaren? De qual idioma advém este termo? — Perguntei e vi a criatura arrancar algumas flores símeis a olhos que se movimentavam no arbusto ao lado. Pisoteara-as com violência e um gunhir, quase um crocitar, vinha de suas pétalas.

Busco resposta desta há tempos desde que a tais terras chegarei. — Afirmara, porém, veio-me de maneira confusa.

— Desde que chegaste aqui tens buscado a resposta para a origem de um estranho idioma que tu mesma conhece?

— Sim. Desde que cheguei. Ainda há dificuldades em expressar-me pela fala. — respondera após longo silêncio. — Suinddáremis Mortállida chamo-me, perdão a falta de tratado. Há palavras que digo, compreendo, mas… ainda obscurecidas em relento permanecem. Outras, como estas similares às tuas, sei um tanto… estudo-as no Castelo. Grandiosa sala de livros. Grandioso saber.

— Perdão… o que tu és? Mulher? — Ousei dar voz à minha curiosidade. Suinddáremis caminhou, eu a segui. Mais e mais silêncio. Pensei tê-la ofendido.

— Ave classificada com o nome comum Coruja. Atravessei algo, compreendi meu próprio ser. Desvelo-me a mim mesma desde então. Mulher? Não. Não seria possível. Biologia insólita demais para pertencer ao homo sapiens sapiens.

— Atravessara a eletricidade? — investiguei.

— Faiscante. Perfeita. Entretanto, não por admiração. Como coruja não sou capaz de admirar. Atravessei-a porque ela emergiu no caminho que me era natural nas lôbregas noites do Nordeste.

— Noite? O que é noite? — Mortállida olhou-me desconfiada, embora parecesse neutra em suas expressões de tal modo que eu não podia lhe perceber com clareza. Paramos de caminhar. Eu estava concentrada nela e curiosa sobre tudo o que ela tinha de sabedoria.

— É lar... — respondera com imensa serenidade. — Tal como tua luz iridescente. Berço meu soturno. Escuridão de pertencimento. — Ela olhou para cima e notei que estávamos em um lugar completamente aberto e lá, nas alturas insondáveis, perdurava… ele… perfeito e magnânimo... o céu vantanegro.

            Tive vertigem, retrocedi... cerrei minhas pálpebras... eu ainda o temia.

— O ente da noite preencheu-me o coração pouco antes do teu encontro comigo... lá... paralisada... — expliquei, escondendo-me entre as árvores novamente. — Eu nunca vi tamanha escuridão. Opallihan, meu mundo, é pleniluz... e a única escuridão está naquilo que nomeamos “a pupila”, um fenômeno que por vezes via-se no céu esplendoroso... e depois sumia... era-nos mal agouro... — Mortállida observava-me.

— Vejo bem. Temor. O ente da noite impera violáceo quando em tempos de Agonihria. Ciclos residem neste lugar, raramente se repetem. Sazões de natureza desequilibrada por magia humana. — esmiuçara, entretanto, soou-me intricado demais. — Apenas continuar caminhando, devemos, sem elevar os olhos acima.

— Agonihria é o ciclo atual? — Busquei entendimento. Ela anuiu, taciturna. — Não há dia n’esta sazão?

— Dia esplendorado tal como em tua Opallihan? Não. Nem n’Agonihria, nem n’outro ciclo. Estas são Terras de Irihria, ad aeternum pertencente às trevas.

Um Castelo negrume se apresentava ao horizonte, parecíamos, naquele instante, passar por um jardim.

— Estou em Irihria? É um mundo? — perscrutei. A criatura fez-se tácita, como de costume.

— Uma passagem, não um mundo. — respondera.

— Passagem para onde? — prolonguei o diálogo, apesar do desconforto de seu silêncio. Suinddáremis parou, olhando-me. Eu estava próxima, porém atrás dela, seguindo seus passos.

— Para todos os lugares. — Retomou a caminhada. Demorei para fazer o mesmo. “Para todos os lugares” era a resposta, talvez isso indicasse que eu encontraria retorno à Opallihan.

— Podemos voltar? Tu para o Nordeste, eu para Opallihan? — O Castelo estava bem próximo.

— Desconheço como tal possibilidade se apresenta. As Terras de Irihria são símeis a sonhos profundos dentro de sonhos profundos dentro de mais sonhos profundos. — Mortállida tocou nos umbrais altos do Castelo que se apresentava imponente à nossa frente.

Era uma construção imensa; tanto nas estruturas verticais quanto horizontais. Pontiaguda, agressiva; feita para ser um propugnáculo — baluarte contra o quê? Eu não sabia. Adentramos n’uma penumbra. Velas longínquas iluminavam, com esforço mórbido, e pouco podiam contra o breu. Vi um mobiliário de veludo e madeira; havia diversas portas ornamentais. Escadas levavam a um andar acima e outras a outros mais acima. Era como um espiral eterno... abismo de alcantil cujo cume é o mesmo que o fim d’um hórrido precipício. Calei-me como Suinddáremis tanto fazia...

— Multiforme. Transmutações contínuas. — ela afirmou. Voltei meu olhar a ela. — Este Castelo se molda à tua consciência, portanto, podemos nos desencontrar. Pegue isto. — A criatura estendeu-me o que parecia, a princípio, um amuleto. Peguei o artefato. Era feito de madeira escura, tinha forma de uma coruja sem corpo de mulher, sem cabelos; somente penas. O mesmo rosto de Mortállida, porém, possuía e, portanto, era mais semelhante ao que eu conhecia como ave. — Totem estrigiforme de minha espécie Tyto furcata. Vincule-se ao totem mentalizando sua imagem enquanto o segura com as mãos. Acenda velas, se possível, e o faça dentro de um círculo feito de sal. Pronuncie, contínuo, palavras: Uriam sahbber, sahbber Uriam, prottehris sieh, örae clammehr.

— Isso a trará até mim? — questionei.

— Não. Invocará Uriam, espírito coruja de sabedoria e proteção. Uriam é estado consciencial, poder e egrégora. Significa necessitar crença e intuição direcionada. Compreende? — Pela primeira vez, Suinddáremis parecia preocupada com minha assimilação de suas palavras.

— S-sim... acredito que sim... Opalinas têm fé... fé na Linha Pálida-Solar e na Natureza Perfeita Senciente. Ver a noite, contudo, abalou esta fé que há tão pouco tempo me preenchia... e as palavras do ente vantanegro... “Vaehvor somnor nur ah”... ecoam, fazendo tremer minhas veias... arrepiar minha tez... esvaziar meu coração... enegrecer minh’alma...

— Repita! Repita as palavras da noite! — Mortállida pareceu em espanto.

— “Vaehvor somnor nur ah”. — Ela ouviu. Fechou seus olhos por instantes. — Consegues traduzir? — investiguei. Ela se manteve calada, pálpebras fechadas com leveza.

— Sentiste? — sondou, sem responder o que havia lhe indagado.

— Se senti? — quis ter certeza da pergunta.

— Sim. Sentiste ao ouvir? Sentiste algo? — Fiz um retorno à memória daquele momento.

— E-eu... n-não... não sei descrever... — Relembrar parecia trazer a escuridão da noite para meu ser... o medo e a devoção... a vertigem do inominável... a pupila dilatada na imensidão. Meus olhos se fecharam como os de Mortállida. “Nur ah” ecoou com a voz noturna de minhas cordas vocais preenchidas pelo poder vantanegro. Subitamente respirei, abrindo meus olhos, como se estivesse há pouco afogando-me nos mares mais torrenciais.

— Sentiste... percebo. E esta é a única tradução possível. — ela afirmou.

Vantanúrida
A ínfima compreensão impossibilita-me de descrever o escuro perpétuo; esta matéria enegrecida envolvendo os céus que outrora foram puro esplendor iridescente. Nunca vi tal opressivo e misterioso poder... é como pupila de insondável dimensão que observa, perfurante, minh'alma através de meu absorto olhar. Chamam-na de Noite..., e eu a sinto vantanúrida em meu ser...

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Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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