⚜ Fraghvora: Parte 2 | História Morlírica em Capítulos
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anfêmero de Lillymor, dia 125 — Desentendimento
— Uma fábula... fascinante. Um capítulo de fábula. Muitas contingências podem se desvelar à Dandeliz a partir deste ponto — proferira Daeron. Seus olhos de lua-nova rutilavam, esporadicamente, um lume argênteo sob a oscilante chama das velas no candelabro. Sua dicção era densa, sepulcral; ele não parecia minimamente impressionado. — Entretanto, algo nesta narrativa parece-me ausente... algo de mais tenebroso e... agonírico... — asseverou, ratificando o que prenunciei em silêncio.
— Não te apraz que a chuva a circunde violenta? Ou que o remoto Alcácer lhe desperte calafrios? — inquiri, impaciente. Daeron manteve o semblante incólume, como lhe era habitual.
— É exíguo, Lilly... pouco para o que minh’alma consome — sussurrou, achegando-se junto à fresta da janela que emoldurava a soturnidade da noite azúlea.
— Então escreva! Redige tu mesmo a fábula de Dandeliz! — vociferei, com certa crueza, largando a pena na escrivaninha. Irritava-me que minhas ideias lhe soassem sempre lacunares... indignas. Daeron perscrutou o horizonte do balcedo; a nulidade da lua, a vastidão ignota das estrelas exangues. Imediatamente, o peso da minha imprudência travou-se em minha garganta.
— Perdão, Daeron... — O remorso emergiu da memória: meu lúgubre irmão fora amaldiçoado desde que encontramos este lugar e, por conseguinte, a escrita lhe fora amputada — sem anestesia. Tudo por minha culpa.
Aguardei quaisquer sinais de compaixão, mas Daeron apenas exalou um suspiro profundo, manteve-se em silêncio e logo cruzou pela porta; desvaneceu-se na escuridão dos corredores sem olhar para mim. Não ousei articular um pedido para que ficasse, tampouco quaisquer palavras de consolo; o que restaria dizer? Eu o ferira no cerne e eu bem sabia.
Eu estava já perturbada, confesso... se posso dizer como desculpa. Horas antes, fui cingida por uma visão terrífica que, decerto, fez-me refém de uma hostilidade banhada em medo. Aos meus olhos uma névoa densa, de cor escarlate, emergira e envolvera-me por completo, sufocando meus pulmões. Aquele odor de sangue... por único segundo esteve vívido em mim e logo se dissipou. Parece, entretanto, enraizado em meu crânio... não consigo esquecer. Viera pouco depois daquele estranho sujeito de sorriso largo e pontiagudo revelar-me que algo hediondo, em cinco atos temporais, atravessaria os recônditos do Castelo.
Eu sei, eu sei que já confiei n’aquela maldita entidade... e que por razão de sua vil astúcia, eu deveria desconfiar até mesmo da minha sombra no assoalho em que piso... mas... não pude, pois, embora vestisse um capuz cobrindo seu olhar, o sujeito convencera-me a pôr um anel de ouro límpido, um artefato que, segundo suas explicações prolixas, protegeria eu e Aphran de quaisquer perigos advindos de tal tétrico evento. Acreditei, pois, como faria mal o uso de uma joia? E a criança ao lado do homem dissera-me, com sua excelsa inocência, que eu precisava me abrigar do caos que viria... Eu fiquei tensa, e como não ficaria? Agora receio tirar a joia e sofrer consequências bizarras.
Como se não bastasse, confesso ser-me incompreensível a veneração de Daeron pela escrita, mesmo reconhecendo meu múnus em empunhar a pena em seu lugar ainda que tal encargo não me tenha sido obrigado. Esta incompreensão me assola. Quando a abominação daquele lago me ofertou a revivescência de Aphran mediante o aceite de um agouro, jurei que o opróbrio recairia sobre mim, e jamais sobre Daeron. Mero devaneio... uma entidade dotada de tal vazio profundo no olhar, decerto haveria de ser, inevitavelmente, perversa.
Temo por mim; a saúde da mente e coração, perfuradas pelas aflições d’este lugar, pelas manifestações estranhas soterradas n’um pungente mistério. Indago-me a quem pertence este Castelo; o que “Drácula” significa? Por que nos é vedado, em silêncio soturno, retornar à Sihren? Pareço adormecida, prometida ao onírico sem meu consentimento; e as noites infindas perduram e o céu, antes estrelado e anil, agora parece aprofundar-se n’um negror morbígero, como a pupila de uma besta cósmica.
Aphran toca os umbrais, sei que se trata de sua magnífica pessoa, pois, a batida é tenra. Adentra o cômodo e deita-se ao leito, agraciando-me com um beijo de ternura à distância. Jamais lhe confessei sobre a maldição; não o fiz porque ele não possui vestígios de lembrança, logo, não discerne a própria ressurreição — para ele, foi apenas um sono prolongado e sem sonhos. Observo-o daqui: perenemente belo, imperturbável. Sem a mácula da culpa, sem o fardo da tinta. Pela graciosidade da sua existência e por amor ao meu irmão, aceito o meu destino.
Fraghvora
Histórias fragmentadas e envenenadas pelos fenômenos sombrios de um longínquo lugar chamado Castelo Drácula. Romances proibidos, maldições perversas, medos abismais e melancolias perenes, esta é a alma de Fraghvora. Acompanhe protagonistas cujas histórias se cruzam e vivencie com eles experiências insondáveis. Do mesmo universo de “Histórias de Sihren” e “As Crônicas do Castelo Drácula”. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…