O pergaminho da Agonia

 Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ao cruzarem o limiar da floresta, o mundo transformou-se em uma pintura. A luz do luar agonizante cortava a copa das árvores em feixes geométricos, criando contrastes violentos entre o branco absoluto da folhagem e o negrume opaco das sombras. As Arbóreas Argênteas eram monumentos de um gótico vegetal: troncos esbofeteados pelo tempo, cascas que reluziam como prata polida, mas cujas seivas, agora corrompidas, pingavam no chão como piche. A floresta não sussurrava; ela gemia em uma frequência que fazia os dentes de Clariegra vibrarem. De repente, a escuridão se moveu.

Das sombras projetadas pelas raízes retorcidas, surgiram os Gobelinus, abominações esqueléticas, com peles cinzentas e úmidas que absorviam a pouca luz do ambiente. Seus olhos eram fendas de um amarelo biliar, e suas bocas, rasgadas de orelha a orelha, exibiam dentes de quartzo lascado. Eles portavam adagas feitas de galhos secos e ossos afiados, exalando o odor de carniça e clorofila podre.

— Eles sentem o cheiro do Códex — sibilou Leornn. — Fique atrás de mim!

O primeiro grupo de Gobelinus saltou das copas, como gárgulas desabando de uma catedral. O cano dourado da pistola de Leornn cuspiu um trovão de fogo purpúreo. O disparo rasgou a noite, e o impacto da bala mística expandiu-se no peito do Gobelinus líder, fazendo seu torso explodir em uma chuva de vísceras viscosas e fragmentos de cartilagem escura que salpicaram a casca prateada das árvores.

Clariegra, impulsionada pelo ódio que a morte de Platina deixara em seu peito, ergueu o grimório.

— Sanguis... Redemptio! — clamou ela.

O sangue coletado na gruta ferveu nas páginas e disparou na forma de agulhas cristalizadas, projéteis escarlates empalaram três criaturas contra as raízes. Os Gobelinus guinchavam, um som estridente que parecia metal retorcido, enquanto Leornn avançava como um espectro de destruição, não apenas atirava; usando a coronha pesada de sua arma e uma adaga rúnica, ele decapitava as criaturas em movimentos precisos. O sangue negro dos monstros jorrava em jorros violentos contra a palidez das árvores, criando um contraste brutal de sombras e luz — a assinatura visual da morte naquela floresta doente.

Abrindo caminho através da carnificina, o chão começou a tremer. Diante deles, erguia-se a Mekkur, a Árvore-Matriarca era uma montanha de madeira viva, cujas ramificações arranhavam as nuvens pretas. Contudo, seu esplendor decrépito estava tomado pela necrose. Uma bocarra natural abria-se em seu tronco principal, revelando um interior iluminado por pulsações de uma luz violeta e doentia.

Eles adentraram o ventre de Mekkur.

O interior era um labirinto claustrofóbico de artérias vegetais e fibras musculares de seiva.

No núcleo da árvore, suspenso por gavinhas enegrecidas, flutuava o horror: o Prisma-Núcleo de Garmonbozia, uma estrutura cristalina, multifacetada, que irradiava uma escuridão palpável.

O cristal parecia se alimentar da própria vida da Matriarca, necrosando suas paredes internas.

— É isso que atrai o flagelo — disse Leornn, a voz ecoando nas paredes úmidas do abdômen vegetal. — Destrua o núcleo, ou o cosmos engolirá este mundo.

O Prisma-Núcleo reagiu à presença deles, disparando chicotes de energia cósmica que dilaceravam as paredes de Mekkur. Leornn saltou, esquivando-se de um feixe purpúreo que derreteu a rocha abaixo dele. Ele descarregou três tiros consecutivos contra o cristal; faíscas de luz dourada e detritos violetas voaram no ar, mas a joia maldita regenerava-se instantaneamente.

— Clariegra! O grimório! Preciso de toda a energia rúnica que você possui! — gritou ele, enquanto um dos chicotes de energia cortava de raspão seu ombro, vertendo sangue escarlate que brilhava intensamente contra as sombras do antro.

Clariegra pressionou o Códex Sangria contra o peito, permitindo que as runas sugassem sua própria vitalidade. Seus olhos brilharam em um prata absoluto. Ela canalizou o fluxo de sangue dos Gobelinus mortos lá fora, trazendo a torrente escarlate para dentro do ventre de Mekkur, uma massa de sangue envolveu o Prisma-Núcleo, sufocando sua luz violeta.

— Agora, Leornn!

Com um rugido, Leornn cravou sua pistola rúnica diretamente no centro enfraquecido do cristal e puxou o gatilho.

A explosão subsequente foi ensurdecedora.

O Prisma-Núcleo de Garmonbozia estilhaçou-se em mil pedaços de vidro cósmico, que evaporaram em fumaça negra.

A corrupção que necrosava a árvore começou a recuar, mas o preço era alto. A estrutura interna de Mekkur começou a colapsar. A grande árvore gemeu, um som humano, carregado de um alívio melancólico. Uma luz tênue e dourada emanou do âmago do tronco, e a voz de Arale ecoou diretamente nas mentes de Clariegra e Leornn, suave como as folhas de outono:

— Pequenos mortais... vocês retardaram o inevitável. O que me corrompeu não foi uma doença da terra, mas o hálito de Necrus, o Flagelo Estelar. Eu caio... mas a semente da vida foi salva. Não há tempo, encontre a felina, ela se chama Arale Fayax.

"QUEM?" ele bradou...

 O homem de armadura escura marcha.

Corram... cruzem as Montanhas Fantasmagóricas... busquem o Condado de Ibex.

Mekkur...Mekkur ela gemia...

Com um último suspiro de seiva e luz, o interior de Mekkur desmoronou.

— Temos que sair daqui! — berrou Leornn, agarrando Clariegra pelo braço enquanto o teto vegetal desabava em pedaços gigantescos de madeira morta.

Eles correram, escapando por entre as fendas do tronco que se partia ao meio. Mekkur, a Matriarca, tombara quando os dois caíram de joelhos no solo da floresta, ofegantes e cobertos de fuligem e sangue, perceberam a transformação.

A atmosfera melancólica de uma aquarela triste deu lugar a uma aurora mágica.

As Arbóreas Argênteas ao redor não estavam mais morrendo.

Suas cascas de prata agora pulsavam em um verde-esmeralda místico, mas um verde que carregava veios purpúreos — resquícios do sangue derramado no combate, agora assimilado como adubo e vida.

Ao retornarem correndo em direção ao vilarejo, a visão os fez parar. A névoa maldita da vêsffera sensiflora havia desaparecido. O rio Magöhorror brilhava com uma água cristalina e pura. As almas atormentadas que antes vagavam como carniçais haviam sumido; em seus lugares, pequenas esferas de luz prateada — as sementes mencionadas por Mekkur — flutuavam suavemente no ar, descendo coreograficamente até o solo e enterrando-se na terra fértil.

Daquela terra infundida de magia e sacrifício, as criaturas começaram a renascer.

Eles eram os Sylvaníreos.

Rompendo o solo como brotos que se transformavam em carne e fibra, os Sylvaníreos ergueram-se. Eram seres de uma imponência titânica e beleza severa. Seus corpos eram esculpidos em carvalho branco e ébano macio, mas suas articulações eram feitas de músculos de trepadeiras flexíveis que brilhavam com a seiva verde-esmeralda. Não possuíam rostos humanos, mas máscaras de marfim vegetal, onde olhos de fogo fátuo prateado queimavam com uma sabedoria ancestral. Portavam chifres feitos de galhos floridos e, em seus peitos expostos, podia-se ver o pulsar de um coração de madeira que batia em uníssono com a própria terra. Eram os guardiões eternos, os filhos da floresta, renascidos para povoar e proteger o vilarejo que outrora fora cinzas.

Os Sylvaníreos curvaram suas cabeças majestosas na direção de Clariegra e Leornn, em um agradecimento silencioso que fez o vento soprar caloroso pela primeira vez em meses.

Contudo, Leornn não relaxou os ombros. Ele olhou para o horizonte, onde as silhuetas cortantes e brancas das Montanhas Fantasmagóricas rasgavam o céu.

— A vila está salva, Clariegra. Mas nós não estamos. Necrus sabe que destruímos o prisma, e o homem de armadura escura não vai parar.

Ele ajustou o cinto de munições e estendeu a mão para a garota de cabelos prateados.

— Próxima parada: as Montanhas Fantasmagóricas. E que os deuses nos guiem até o Condado de Ibex.

Clariegra então observa seu Códex sangria absorvendo todo o sangue derramado e escrevendo um pergaminho...

 

"— A Floresta de Silvamargor — murmurou Leornn, a esmeralda de seus olhos brilhando sob a penumbra carmesim do crepúsculo. — O lar das Arbóreas Argênteas, as entidades místicas que outrora ergueram este vilarejo.

Clariegra. É a Matriarca. A Árvore-Mãe sustenta o equilíbrio deste plano. Ela está morrendo.

Eles não enterraram Platina; o solo da vila, saturado pela vêsffera sensiflora, a devoraria antes do anoitecer.

 Em silêncio, os dois marcharam em direção às franjas da mata...."

 

"Leornn" ela bradou, leia isto. Então Clariegra lhe mostra o pergaminho récem escrito...

"Como isso é possível?" É como se fosse o passado, acabamos de eximar eles em uma exímia purificação, e então o desenho de uma felina de cabelos foi desenhado na folha seguinte...

O que significaria tudo isso?

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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30. Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo é o caminho que leva à perdição

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida, onde havia símbolos antigos riscados sobre o que parecia inscrições mais recentes, como se muitas crenças disputassem aquele espaço durante muito tempo. Eu ainda sentia o peso do sonho no meu corpo, aqueles sonhos ou memórias que não eram meus, mas insistiam em ranger dentro da cabeça.

— Aqui. — ela disse e pude reconhecer a voz da líder da Ordem.

Havia uma porta de metal, grossa, enferrujada, com sinais de solda recente; quando ela bateu, não foi com força, foram três toques exatos, musicais e bem calculados. Demorou, mas o som que ouvi vindo lá de dentro não foi de passos, mas de engrenagens. A porta se abriu só o suficiente para um olho nos observar, um olhar frio, contido e avaliador. Mara falou o nome.

— Arturio?!

A porta foi aberta por completo, ele estava diferente, mais seco, mais rígido. E o mesmo corpo que um dia fora humano agora parecia um esboço de máquina que ainda não decidira em qual lado terminar. Seus braços estavam reforçados por placas mecânicas discretas e o seu olhar, aquele olhar parecia ter presenciado mais funerais do que eu poderia contar.

— Você voltou a existir — ele disse para Mara, sem surpresa alguma. — Então minhas premonições ainda estão mal calibradas.

Entramos e o interior era um santuário de aço, ossos mecânicos pendurados pelas paredes, exoesqueletos incompletos suspensos. Havia algo de quase religioso na organização daquele lugar. Algo de necromântico na engenharia. "Necromântico" essa palavra parecia dançar na minha cabeça.

— Precisamos de ajuda. — a líder da Ordem disse. — E ela está marcada.

Arturio me observou com mais cuidado agora, mas não como quem olha para uma pessoa, mas como uma máquina com defeito.

— Parece que alguém tentou reescrever as memórias dela à força. — ele disse.

Engoli seco.

— Eu só sonhei.

Ele inclinou a cabeça.

— “Sonho” é o nome que você dá quando não sabe que está sofrendo uma invasão.

Mara ficou tensa.

— Dá para algo ser feito?

Ele caminhou até uma mesa cheia de mapas estranhos.

— Talvez, mas tudo o que eu crio cobra algo — disse. — Até mesmo quando salva.

Ele me olhou de novo.

— E geralmente o preço é a alma.

Nesse momento percebi nele um cansaço que não vinha do corpo, como se ele estivesse sempre chegando atrasado à própria vida.

— Você ainda anda tendo as visões? — perguntou a líder da Ordem.

Silêncio.

— Todas as noites, as mortes primeiro, os detalhes depois. Às vezes eu acerto, outras eu erro por minutos, outras por anos. Ainda não sei se vejo o futuro ou se estou preso revendo algo que já aconteceu em alguma dobra errada do mundo.

Ele abriu uma gaveta e retirou um objeto pequeno envolto em um metal escuro.

— Vou precisar introduzir esse mecanismo na base do seu crânio — disse para mim. — Vai ser rápido, você não irá sentir nada.

Meu estômago se contraiu ao ouvir aquilo.

Ele pegou uma pistola, que parecia de ar comprimido, que parecia mais uma pistola para abate; colocou o artefato dentro e pediu que eu me virasse, então ele disse, quase gentil:

— Se você sobreviver a esse limbo de memórias, Rute, não será por acaso.

Senti um frio a percorrer a espinha.

— Nada neste lugar é por acaso — completou.

E colocou a pistola em minha nuca; eu apenas ouvi um som oco e desmaiei. Cada passo meu de volta ao castelo e eu só estava trocando um tipo de perigo por outro

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Hoje acordei sabendo amarrar nós que nunca aprendi, minhas mãos se moveram sozinhas ao prender o laço do manto que Siehiffar deu a Mara. Os dedos sabiam exatamente onde puxar, onde tensionar, não pensei, apenas fiz. Quando percebi, estava com o coração acelerado, como se tivesse feito algo errado. Mara notou.

— Quem te ensinou isso?

Abri a boca para responder, mas nenhum nome veio, só o cheiro de ferrugem, madeira molhada, um canto antigo em língua que não reconheço, mas que minha garganta quase repetiu. Balancei a cabeça.

— Não sei.

Ela não insistiu na pergunta, mas ficou me observando. As memórias não chegavam completas, eram mais como sensações, às vezes boa, às vezes neutras e muitas vezes incômodas, como o peso de uma arma na cintura que nunca carreguei, o orgulho de um juramento que não fiz, a certeza de um afogamento que não foi o meu. E, às vezes, a sensação mais terrível de todas é a de ter amado alguém que nunca existiu para mim.

Hoje, enquanto Mara discutia com uma das mulheres da Ordem, eu me distraí contando as janelas da torre, sete, oito, nove. Interrompi ao perceber que já sabia qual delas escondia o alçapão secreto e apontei sem pensar. Algumas das mulheres se viraram para mim e o silêncio foi imediato.

— Como você sabia? — uma delas perguntou.

Eu não sabia, mas alguém em mim sabia e isso me incomodava. À noite, enquanto escrevo, minhas frases mudam de caligrafia sozinhas, algumas linhas ficam mais retas, mais técnicas, mais frias, como se outra pessoa estivesse usando minha mão com cuidado, não para me possuir, mas para se esconder através de mim.

O pior lapso aconteceu agora há pouco, olhei para Mara, que dormia sentada, exausta, e por um instante absoluto eu não vi Mara, vi um corpo translúcido, depois ossos e carne refeita; vi mãos pressionando um crânio ainda quente, vi Drácula sorrindo. Minha respiração travou. Quando o mundo voltou ao normal, eu estava chorando em silêncio, com a mão cobrindo a boca para não acordá-la, mas a única certeza que eu tinha era que essa memória me pertencia.

Tenho medo, não de enlouquecer, mas de me tornar uma colagem de vidas alheias, e se continuarem arrancando e costurando minhas lembranças? Se cada perda vier acompanhada de um enxerto? Será que talvez "eu" ainda caminhe, que talvez "eu" ainda escreva? Mas não saberei mais quem está fazendo isso dentro de mim, não sei mais dizer com certeza onde termina o que sou, o que fui e onde começam os que agora me habitam.

E então, novamente antes de dormir, mais uma memória terrível. O corpo não parecia dela, era essa a primeira coisa que não fazia sentido, não o rosto, pois ele ainda era o mesmo, ou uma versão silenciosa dele. A boca, que sempre tinha algo a dizer, agora estava fechada de um jeito definitivo, mas o resto, o resto estava errado.

As mãos, eu conhecia aquelas mãos melhor do que qualquer outra coisa no mundo, sabia o peso delas sobre a minha pele, a forma como seguravam uma caneca quente, o jeito distraído de afastar o cabelo do rosto. Agora estavam imóveis sobre o próprio corpo, rígidas, como se tivessem sido colocadas ali por alguém que só tinha visto as mãos dela uma vez. Não eram dela ou talvez fossem, e isso era ainda pior.

O velório estava silencioso demais, um silêncio cansado, pesado. Algumas pessoas choravam, outras apenas olhavam e muitos que nem deveriam estar ali, julgavam. Eu só observava, esperando por alguma coisa que eu não saberia reconhecer mesmo que acontecesse.

— Você quer ficar um pouco sozinha?

A voz veio de algum lugar atrás de mim, eu não me virei. Se eu me movesse, talvez tudo se tornasse real e eu ainda não tinha decidido se queria que aquilo fosse real.

— Não — respondi como se eu me importasse.

O caixão estava aberto, eu não sabia quem tinha tomado essa decisão, talvez a família dela ou alguém que acreditasse que despedidas precisavam de evidência; como se saber não fosse suficiente para aceitar, não era, e dei um passo à frente e depois outro e cada movimento meu parecia deslocado, errado, como se meu corpo estivesse se movimentando com um pequeno atraso, em relação ao resto das pessoas presentes ali.

Parei ao lado dela e de perto, era pior. Havia algo na pele, não era a cor, pois isso eu já esperava, mas a falta de algo. Tudo estava completo, correto e ainda assim estava faltando, perfeitamente mobiliada como uma casa, onde ninguém vive nela.

Estendi a mão antes de perceber o que estava fazendo, eu a toquei, estava fria, minha respiração falhou por um segundo. E, naquele intervalo, algo aconteceu, não fora, mas dentro de mim, uma ideia, não, não uma ideia, ideias são construídas. Aquilo veio pronto para mim, inteiro e errado. Isso não precisa ser o fim.

Retirei a mão como se tivesse sido queimada e olhei ao redor, ninguém parecia ter notado ou escutado nada, pois ninguém nunca nota. Voltei os olhos para ela, imóvel e ausente e ainda assim...

— Não — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa. — Não é assim.

O pensamento voltou, só que mais forte dessa vez.

Você sabe que não é.

Eu não sabia, a verdade é que eu não sabia de nada, mas queria saber, e naquele momento, isso foi suficiente; fiquei ali por mais alguns minutos ou horas. O tempo tinha se tornado irrelevante, algo que acontecia com outras pessoas e, antes de sair, olhei pela última vez, tentei memorizar. Não o rosto morto, pois isso seria fácil demais de lembrar, mas o erro, a ausência, a coisa invisível que transformava tudo aquilo em algo inaceitável, porque se havia algo errado, então talvez eu pudesse corrigir. Naquela noite, não chorei. Abri o caderno e comecei a escrever. E com isso as minhas memórias comprovam que nem sempre fui sincera em tudo que escrevi, pois há vozes em mim que me obrigam agora a ser sincera no que escrevo. Então a escuridão veio e meu corpo começou a tremer, e eu tive uma convulsão.

Não me chamaram de paciente, me chamaram de campo instável; fui levada para uma sala que ficava abaixo da torre inclinada, onde as pedras eram mais úmidas e mornas, e as velas tinham chamas azuladas, pareciam queimar alguma substância que não era deste mundo ou melhor do meu mundo. Mara foi obrigada a ficar do lado de fora, disseram que ela atrapalharia, não gostei da forma como disseram isso. Me deitaram sobre uma mesa de metal antigo, cheia de ranhuras e símbolos sobrepostos, alguns religiosos, outros matemáticos, outros que eu não reconhecia, mas o meu corpo respondia a eles com náusea. Arturio estava lá e não falou muito, só me observava como quem avalia um motor quebrado.

— Suas memórias não estão apenas sendo roubadas — ele disse. — Estão sendo sobrepostas em frequências erradas.

Uma das freiras explicou que eu estava em ressonância involuntária, que parte de mim estava sintonizada com o mesmo campo onde alguns seres operam. Que não era possessão, mas algo pior. Eu apenas ouvia tudo aquilo em silêncio, sem entender nada realmente. Então prenderam meus pulsos e tornozelos. As correntes estavam frias demais... colocaram na minha testa um artefato circular de metal escuro, cravejado de cristais vermelhos. Quando encostou na minha pele, ouvi vozes sussurrando algo que eu não conseguia entender. Depois vieram as agulhas, não entraram no corpo, mas nas minhas memórias, cada perfuração era uma lembrança organizada à força, não as minhas. E eu via flashes desconexos enquanto gritava sem som: Um menino correndo num deserto que não existe, uma mulher ensanguentada sorrindo, um mapa sendo desenhado sozinho, um rosto em espiral se desfazendo em poeira branca. Meu corpo tremia, mas minha mente parecia ser organizada em camadas, como páginas arrancadas de vários livros e reorganizadas com muita violência. Em algum ponto, comecei a rezar, não sei exatamente para quem, talvez para Siehiffar, talvez para o seu Deus sem forma ou para Drácula. O procedimento durou tempo demais para caber no tempo e quando terminou, senti algo fechar dentro de mim, não curar, mas fechar como se fecha uma ferida profunda com grampos, um pouco segura, mas ainda infeccionada. Arturio foi direto.

— Você foi estabilizada apenas no eixo consciente, porém os rastros continuam no inconsciente.

Claro que traduziram para mim em termos mais simples, não vou mais apagar no meio do dia, não vou perder o controle repentinamente, não vou atravessar realidades andando. Quando me soltaram, eu mal conseguia ficar de pé. Mara entrou correndo e segurou meu rosto com força demais, como se tivesse medo de que eu escorresse pelos dedos.

— Você está aqui? — perguntou.

Demorei um segundo a mais do que devia para responder:

— Estou.

O procedimento que eles fizeram não me devolveu inteira, mas apenas impediu que eu continuasse me despedaçando rápido demais, porém agora eu só me desfaço devagar. Mara me ajudou a caminhar até o quarto e logo desceu, fiquei lá analisando pensamentos que no momento eu sabia que eram meus. Alguns minutos se passaram então uma discussão começou antes que eu percebesse que ainda estava fraca demais para sair do quarto. Eu ouvia as vozes do andar superior atravessarem as pedras da torre. Arturio foi o primeiro a falar em tom alto.

— Vocês brincam com símbolos e magia como se fossem crianças, o que ela sofreu é perigoso, é um colapso das camadas de memória que são incompatíveis.

A resposta veio em coro contido, feminino, duro:

— Você não entende o que fala, Ferreiro, há coisas que não se consertam com suas ferramentas.

Ouvi passos, muitos passos, o som de metal leve escondido sob tecido e, quando enfim consegui me erguer e abrir a porta para olhar o que acontecia, encontrei os dois mundos frente a frente. Arturio estava com o sobretudo aberto, revelando partes de um exoesqueleto inativo sob as roupas. As freiras o cercavam em meia-lua, algumas com os vestidos rasgados, outras adornadas com amuletos e sigilos tatuados na pele e Mara estava entre eles, tensa com sua lâmina.

— Vocês me chamaram de traidora — disse ela. — Mas foram vocês que me forçaram a usar Rute como entrada para o castelo.

Uma das líderes deu um passo à frente.

— E você aceitou vir ao castelo. Você acha que não sabemos quem você é? Mara e Isolda, as líderes da revolução da Ordem; bem que dizem para não conhecermos nossos ídolos, só espero que o que Isolda construiu em seu nome não tenha sido em vão.

Silêncio, então Arturio falou de novo:

— Vocês querem lutar para manter o castelo vivo, mas Drácula não precisa de vocês para isso. E ela — apontou para mim — é a única que sobreviveu aos mecanismos internos do castelo sem se tornar totalmente parte dele.

A líder sorriu.

— E isso a torna quase uma mártir.

Outra freira avançou um pouco demais.

— Se ela romper de novo, nós a eliminamos, mas enquanto ela servir como entrada para o castelo ela fica viva.

Foi quando Mara sacou a lâmina e nunca esquecerei o som seco.

— Vocês não tocam nela — disse. — Nem para salvá-la, nem para sacrificá-la.

A ameaça era real e Arturio, então, fez o movimento com seu braço mecânico.

O ar da sala mudou.

— Se vocês a matarem — disse ele com a voz finalmente sem controle — eu abro cada torre de amuleto que esconde vocês da visão da Ordem, uma por uma.

Um suspiro coletivo percorreu a sala e a líder da Ordem estreitou os olhos:

— Você nos exterminaria.

— Eu apenas deixaria que elas enxergassem vocês — respondeu Arturio.

Mara olhou para mim.

— Se vocês tentarem tocar nela de novo — disse Mara — vocês vão descobrir que eu aprendi mais no castelo do que nos seus templos.

Silêncio absoluto e a líder, por fim, recuou meio passo.

— Ela permanece fora dos planos, por enquanto.

Arturio abaixou lentamente o braço mecânico. A tensão não cessou, ela foi apenas arquivada. Quando todos saíram, eu ainda tremia. Arturo passou por mim.

— Você é o campo de batalha agora, garota — disse, sem crueldade. — Não se esqueça disso.

Mara me acompanhou ao quarto logo depois, como se quisesse me esconder do mundo inteiro. A Ordem não confia mais em mim, Arturio não confia mais na Ordem e Drácula... bom, ele deve estar se divertindo com tudo isso em algum lugar.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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31. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança

Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha, era só um vazio, como quando se passa a língua num dente que foi arrancado há anos e a ausência incomoda; então eu forcei a lembrança, com vontade, fechei os olhos no meio do corredor da torre, encostada na parede úmida. Me concentrei no rosto dela como quem cutuca uma ferida que não cicatrizou por inteiro. No início, nada; depois náusea e depois sangue, mas não da memória e sim do meu corpo. O gosto metálico subiu rápido pela garganta e quando cuspi no chão de pedra, veio escuro demais para ser só saliva. E então a imagem abriu: minha mãe estava de costas, diante da pia da cozinha antiga, o cabelo preso errado, o barulho da água, o cheiro de café passado, uma rachadura na parede que eu tinha esquecido da existência, tudo perfeito demais. E logo veio a dor, como uma agulha quente enfiada na base do meu crânio; minhas pernas falharam e eu caí sentada, ainda vendo a cena, ainda presa nela. Eu estava tendo uma leve convulsão e mesmo assim eu não queria soltar, porque entre um espasmo e outro, eu percebi que tentar lembrar me custava algo, mas funcionava. Quando finalmente perdi o acesso, o corredor voltou em golpes, pedras úmidas, sombras, luzes trêmulas e meu próprio sangue escorrendo pelo queixo. Eu ri, uma risada curta e quebrada, pois isso só podia ser castigo.

Depois disso, testei de novo dias depois, mas outra memória, outro preço e, às vezes, era um apagão de horas; às vezes febre, às vezes uma tristeza tão densa que eu passava o dia inteiro olhando para a parede, com vontade de pedir desculpa para pessoas que eu não sabia quem eram. As lembranças vinham inteiras, nítidas e absurdas de tão claras e, junto delas, a certeza insuportável de que eu não merecia tê-las de volta. E por vezes eu chorei sem saber exatamente por quem. Eu não contei a ninguém no início, nem a Arturio e muito menos a Mara, porque se eles soubessem que eu posso acessar, vão querer regular e talvez explorar e eu já tinha sido explorada o bastante. As recaídas começaram a vazar para o cotidiano, eu perdia palavras no meio das frases, confundia nomes, respondia a perguntas que ninguém tinha feito. Uma vez chamei Mara pelo nome da minha amada, ela não me corrigiu, mas também não esqueceu e o pior não era a dor era a tentação. Saber que tudo que eu perdi ainda está lá, trancado atrás de um mecanismo que cobra em carne, em sanidade, em culpa, em sangue, isso é uma forma lenta de tortura. Eu não estou apenas revisitando memórias, eu estou ficando viciada nelas.

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Fui em minha primeira missão, e elas não chamaram de missão, chamaram de treinamento de campo. A palavra “treinamento” me deu mais medo do que qualquer outra coisa que já ouvi naquele lugar. Fui acordada sem toque, apenas abriram a porta e ficaram paradas no escuro; três silhuetas vestidas com o mesmo tecido pesado que parecia absorver a pouca luz do corredor.

 — Levante-se, Rute.

E eu apenas obedeci por inércia. Enquanto eu me vestia, senti uma sensação sob a pele, senti que alguma coisa em mim já estava sendo preparada para algo que eu não tinha escolhido. No corredor, vi Mara encostada na parede, braços cruzados, o rosto fechado demais até para o padrão dela, foi a única que não desviou o olhar quando passei. Descemos, então entendi o objetivo quando chegamos ao limite do vilarejo, havia uma casa isolada, velha demais até para aquele lugar e, dentro dela, algo que elas chamaram apenas de eco.

— Não é uma entidade — disse uma das mulheres. — Não exatamente.

Ninguém explicou melhor, porque não era necessário, eu já sentia, a memória que não era minha começou a se agitar no fundo do meu crânio, como um animal preso. Aparentemente eu só estava ali para reagir ao que quer que aquilo fosse.

— Se aproximar demais, ela vai ativar — disse outra. — Se não chegar perto o suficiente, ela não morde.

Fiquei parada.

— “Ela” quem? — perguntei.

A mulher apontou para mim.

— Você.

A porta da casa se abriu sozinha ou alguém por dentro a abriu, não faz diferença; um cheiro de poeira, coisa antiga, veio. Dei dois passos e já senti as pernas pesarem, algo lá dentro reconhecia algo em mim e isso era exatamente o que elas queriam. O eco se manifestou como uma distorção no ar, não tinha forma definida, era como um erro na continuidade do espaço e quando me aproximei demais, uma dor explodiu; memória, não a minha.

Uma mulher correndo por um corredor que não existia, sangue na parede, uma escada em espiral que parecia crescer enquanto ela descia, vozes chamando por um nome que não era o dela. Meu corpo travou, a Ordem avançou enquanto eu não podia me mover. Elas passaram por mim como quem passa por uma porta aberta e o eco reagiu e reagiu em mim. Uma imagem se sobrepôs ao mundo e a casa virou o corredor, o chão virou os degraus, então eu gritei, não de medo, mas do excesso, era uma memória dolorosa demais para uma mente só. Senti algo sendo arrancado, ouvi o som do impacto ao longe — algo foi contido e depois, só depois entendi que a missão tinha sido bem-sucedida para elas; para mim sobrou o chão frio, o gosto de ferrugem na boca e a certeza horrível de que agora havia mais de uma vida circulando dentro da minha cabeça. Quando voltei a conseguir respirar direito, vi Mara de joelhos na minha frente.

— Elas já estão indo longe demais — sussurrou ela. Eu assenti uma única vez.

— Acho que desde o começo.

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Não foi um sonho, isso não. Eu estava sentada, tentando lavar o sangue seco das mãos, um sangue que eu não lembrava de ter derramado quando o mundo simplesmente perdeu a continuidade e o chão se tornou escada em espiral. As paredes não eram paredes, eram superfícies úmidas, orgânicas, algo que respirava lentamente demais para estar vivo, rápido demais para estar morto. Um cheiro doce e apodrecido tomava conta de tudo, como flores deixadas tempo demais num quarto fechado. Eu estava descendo; eu não queria, mas minhas pernas se moviam sozinhas. Minhas mãos agora estavam sujas de sangue fresco e eu sabia que aquilo não era meu corpo, mas era o meu agora; então ouvi vozes, algumas distantes e outras perto demais.

— Volte.

— Ainda dá tempo.

— Você irá ser vista.

Um nome era repetido entre as vozes, um nome que se acumulava nas paredes como mofo e eu não vou escrever esse nome, pois algo em mim diz que ele não merece existir de novo. Quanto mais eu descia, mais a escada se estreitava, as paredes começaram a tocar meus ombros, meus braços, meu rosto, me esmagando, me reconhecendo como parte da estrutura. Vi corpos presos entre as dobras da parede, absorvidos, rostos ainda conscientes, olhos abertos, bocas presas no meio de um pedido de ajuda, talvez; e alguns deles sussurravam comigo.

— Não lembra.

— Não abre.

— Não aceita.

— Não escreva.

Mas eu já tinha feito tudo isso, já tinha descido até o fundo, e no centro da espiral havia uma sala circular, o chão era coberto por símbolos. No centro, uma mulher ajoelhada, eu a conhecia, mas não pelo nome; ela levantou o rosto que começou a girar, carne se reorganizando em espiral, os olhos sendo puxados para dentro, a boca sendo torcida até virar um poço e ainda assim ela olhou para mim. E algo saiu dela e entrou em mim: uma memória comprimida demais para existir inteira em um só corpo. Eu acordei assustada, ou pensei que havia acordado, o quarto estava lá, o teto estava lá e minhas mãos estavam limpas, mas meu corpo estava quente demais e no fundo da minha cabeça agora havia uma nova presença, então voltei a dormir logo depois. Mara me acordou e sussurrou no meu ouvido que tínhamos que ir, pois Arturio nos esperava na entrada.

Saímos antes do amanhecer, Arturio disse que impediria que a Ordem nos seguisse e ficou para trás. Mara não explicou muito, uma passagem nos levou para fora do vilarejo e para uma região onde a luz parecia envelhecida. O primeiro sinal disso foi a cor, não era azul comum, era uma palidez azúlea que parecia roubar calor da pele; o céu, a areia, até o ar tinham tonalidades que iam do azul pálido ao anil profundo, como se a noite tivesse sido moída e espalhada sobre o mundo. Quando chegamos à margem, vi o rio. O rio brilhava com uma bioluminescência pulsante, parecia que organismos dentro dele acendiam e apagavam num ritmo próprio. O brilho subia da superfície em vapores luminosos que flutuavam pelo ar antes de desaparecer, foi então que percebi a flora, as flores cresciam nas margens do rio, translúcidas e finas, cada uma tinha um rosto moldado na pétala, formado pela própria anatomia da planta. Um rosto abriu os olhos e sangue escorreu, uma lamúria saiu de dentro da flor, e eu congelei.

— Não olhe muito tempo — disse Mara.

Mas era tarde, aquela coisa estava olhando de volta. O vento que soprava era suave e atravessava a areia produzindo um ruído baixo, contínuo; o deserto se estendia além do rio, as dunas pareciam se mover lentamente, cada rajada revelava formas efêmeras, mãos, rostos, corpos emergindo por um segundo antes de voltarem a ser apenas areia de novo. Caminhamos pela margem até vermos algo no centro das dunas: um oásis, água negra, calma demais, palmeiras esqueléticas inclinadas como velas de um barco deteriorado. O lugar parecia convidativo, mas de um jeito errado. E foi ali que o vimos um homem alto, ele estava parado perto da água, usando um manto negro bordado com fios de ouro-bronze que refletiam a luz azul do rio. O sorriso dele era largo demais, quase pontiagudo e ao lado dele, uma criança, o menino segurava sua mão com naturalidade, ele usava roupas simples, claras, e tinha olhos pálidos que refletiam a bioluminescência do rio como se fossem feitos da mesma substância, então o homem falou antes que perguntássemos qualquer coisa:

— Vocês chegaram cedo demais.

Sua voz era tranquila, cordial.

— Quem é você? — perguntou Mara.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Um viajante, talvez um observador, alguns já me chamaram de vidente. Outros acreditam que venho de um mosteiro antigo onde aprendemos a ler o tempo como se fosse um texto mal escrito.

Ele olhou diretamente para mim.

O sorriso não mudou.

— E você, já começou a ler páginas que não são suas?

Senti o peso de uma memória vibrar dentro do meu crânio.

— O Castelo Drácula está prestes a atravessar cinco atos temporais — continuou ele.

Mara cruzou os braços.

— E por que deveríamos acreditar em você?

Ele não respondeu imediatamente, o vento das dunas soprou mais forte.

— Porque, se não se prepararem, vocês experimentarão algo chamado sofrimento-carmim.

— O que é isso? — perguntei.

O homem fez um gesto breve de impaciência, como se o tempo realmente estivesse curto.

— Não tenho tempo de explicar tudo, minha tarefa é apenas advertir os residentes do castelo.

Ele tirou algo do bolso do manto: uma joia, era um pingente de metal escuro, com um símbolo gravado com algo entre espiral, estrela e rachadura — estendeu- em sua a mão.

— Use isto.

— Por quê? — perguntei.

— Porque quando o primeiro ato temporal começar, vocês vão precisar de âncoras.

O menino ao lado dele me observava fixamente, seus olhos pálidos eram inquietantes por parecerem antigos demais para uma criança. Aceitei o pingente, assim que ele tocou minha pele, senti uma leve pressão na cabeça, quando levantei os olhos novamente, o homem e o menino já estavam caminhando para longe pelas dunas e o vento apagava as pegadas deles quase instantaneamente. Mara olhou para mim. Segurei o pingente, ele estava quente, e tive a sensação clara de que alguém, ou alguma coisa, estava tentando nos preparar para algo muito pior do que o castelo. Eu aceitei a joia por instinto e Mara não gostou.

— Você aceitou rápido demais.

— Ele disse que precisamos de âncoras.

— Homens que aparecem no meio do nada raramente oferecem algo sem cobrar depois.

Não respondi e de repente tudo ficou vermelho, uma névoa espessa cobriu completamente minha visão e tinha gosto metálico, cheiro de sangue quente, recém derramado. O ar ficou denso, durou um segundo, mas dentro desse segundo havia coisas demais. Eu vi o castelo, não como ele é agora, torres quebradas em ângulos impossíveis, corredores que se dobravam sobre si mesmos, pessoas caminhando repetindo os mesmos movimentos eternamente. Vi Mara e ela estava ajoelhada diante de uma estátua que eu não conseguia olhar diretamente, o corpo de Hadassa petrificado como de uma mártir. Seu rosto estava coberto de lágrimas, mas ela sorria de um jeito que me deu medo. Vi muitos rostos observando, esperando e no centro de tudo o castelo sangrava, sangrava de verdade, o vermelho escorria pelas paredes como um organismo vivo, descendo pelas escadas, enchendo salas, invadindo a terra ao redor; então a visão terminou, o mundo voltou de uma vez só em azúleo e marfim fosco. Mara segurou meu braço.

— O que foi?

Levei um momento para responder.

Minha boca ainda tinha gosto de sangue.

— A joia funciona.

— Como você sabe?

Olhei para o pingente.

— Porque talvez ela tenha me mostrado um segundo do que vem depois.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Pergaminho de Pesach

Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Na calada da noite, Arale Fa’yax se viu diante de um pergaminho envelhecido, encontrado casualmente próximo à cenoura do jardim do Castelo Dracula. O pergaminho, em suas mãos delicadas, parecia pulsar com uma energia antiga, como se carregasse o peso de mil segredos esquecidos. Ela o desenrolou e leu, recitando as palavras enigmáticas que dançavam entre as linhas. 

"Fluideco sangvinen en Esperanto..." 

Aquelas palavras antigas e sombrias reverberaram em sua mente, atravessando o véu entre mundos. O chão abaixo de seus pés cedeu, e ela caiu em um abismo profundo, onde os ecos de sua própria respiração eram a única companhia. Quando finalmente abriu os olhos, não estava mais no jardim, mas em uma terra estranha e perturbadora. 

Diante de Arale, uma vila festiva celebrava a Páscoa, com danças e risos. Mas havia algo errado — as máscaras, o brilho nascendo da dor, os olhares vazios. Tudo era uma fachada. Ela não entendia ainda, mas sabia que estava diante de algo terrível. A sensação de pesadelo era palpável entre as sombras. 

Surgiu um ser: Laparus, o coelho amaldiçoado, com seus olhos de ébano refletindo a escuridão do próprio universo. Ele a encarava — a foice em suas patas trêmulas, pronta para a batalha. 

A luta foi brutal, sangrenta. Laparus avançou com fúria, os golpes de sua foice cortando o ar com um som metálico. Arale, com reflexos rápidos, desviava, esquivando-se das lâminas afiadas que quase a rasgavam. Cada golpe de Laparus era uma explosão de fúria primal, enquanto Arale, com seus movimentos ágeis e mortais, procurava um ponto fraco, defendendo-se com seu machado. O solo estava coberto de sangue, a atmosfera saturada com o cheiro da morte. 

— Você não me conhece! — gritou Laparus, sua voz um eco de sofrimento. 

— Não pode me entender! 

Mas Arale não recuou. Ela sabia que aquela luta não era apenas sobre vencer, mas sobre quebrar as correntes que prendiam os dois. O combate se tornou uma dança de pura violência, um turbilhão de raios e sombras. Laparus, exausto e ferido, começou a vacilar. Sua foice, antes certeira, perdeu o ritmo. 

Foi quando a verdade se revelou: o espólio de suas almas entrelaçadas, como destinos torturados, tornou-se claro — não eram inimigos, mas vítimas de um mesmo ciclo de sofrimento, maldição e dor. 

Elyni, a guardiã dos láparos, apareceu nas sombras. De semblante sério, porém gentil, olhou para Arale e Laparus com um misto de tristeza e entendimento. 

Ela estendeu a mão, e os dois, exaustos e sujos de sangue, a olharam sem palavras. 

— A verdadeira luta não é entre vocês — disse Elyni, sua voz suave como o vento. 
— É contra o mal que corrompe este lugar. O Ovo Cósmico, aquele que vocês estão lutando para encontrar, é a chave. A criatura que o protege, Azgalor, devorador de almas, não será vencida em batalha, mas com união e compreensão. 

Arale e Laparus trocaram olhares de dúvida, mas algo os uniu — algo que foi além do instinto de luta. Avançaram em direção à caverna de ametista, onde a criatura diabólica os aguardava. Ali, um abismo se abria diante deles — tão profundo que a escuridão parecia devorar até a luz das estrelas. 

Dentro da caverna de ametista, Azgalor os aguardava. Sua forma monstruosa era retorcida, uma amalgama de sombras, ossos e olhos vermelhos como brasas, que brilhavam com um ódio imensurável. A batalha foi feroz, a terra tremendo sob seus pés enquanto Azgalor os atacava com garras afiadas como lâminas de aço. 

Mas Arale, Elyni e Laparus — unidos por um vínculo de destino — enfrentaram o monstro com força renovada. Cada golpe, cada movimento, era um passo em direção à liberdade. Eles perceberam que, ao trabalharem juntos, suas habilidades e forças se complementavam de maneira perfeita: Laparus com sua foice, Arale com seus rápidos reflexos, e Elyni com suas garras e sabedoria ancestral. 

Finalmente, após uma luta sangrenta e desesperada, o Devorador de Almas foi derrotado. Azgalor caiu, seu corpo se desfazendo em poeira negra — e, com ele, a maldição que aprisionava a vila. A realidade desmanchou todas as correntes daquela sofrida vila desértica. 

Elyni, Arale e Laparus, exaustos mas vitoriosos, se abraçaram, compartilhando um momento de silêncio profundo. A realidade ao seu redor começou a mudar — as máscaras caíam, e a vila era iluminada pela verdadeira luz do renascimento. 

Quando a batalha acabou, Arale, com uma expressão de paz no rosto, olhou para o céu. 

Após a batalha, quando o último vestígio da escuridão foi dissipado, uma luz suave e radiante envolveu os três heróis — Arale, Elyni e Laparus. O céu, antes opaco e sombrio, se abriu em tons dourados, e uma figura imponente apareceu diante deles, flutuando acima da terra agora purificada. Era Ostara, a Deusa da Primavera, da Fertilidade, do Renascimento e do Amor. 

Ela surgiu como um raio de luz divina, com cabelos dourados que pareciam capturar os primeiros raios de sol da estação que nascia. Ostara, com seu manto verde e florido, simbolizava a renovação da vida, a abundância da terra e a promessa de que, após a morte e o sofrimento, sempre viria o florescer. 

Seus olhos, azuis como o céu de um amanhecer primaveril, se fixaram nos três heróis que, embora exaustos, ainda estavam imersos no poder da vitória. 

Ostara levantou suas mãos, e do solo brotaram flores, árvores frutíferas e riachos frescos, como uma bênção direta para o povo da vila. O aroma doce das flores invadiu o ar, misturando-se à brisa suave que espalhava a promessa de uma nova era. 

— Vocês, que lutaram contra a escuridão e a tirania, agora têm a minha bênção — disse Ostara, com voz suave e cheia de poder. — Eu sou a Deusa que celebra o equinócio da primavera, o equilíbrio entre luz e sombra, e a ascensão da vida. Através de vocês, a liberdade foi trazida àqueles que sofriam. Agora, meus filhos, tomem o meu presente. 

Em suas mãos, Ostara segurava um ovo brilhante, ornamentado com símbolos de fertilidade e ressurreição. O ovo foi oferecido a Arale, que o recebeu com reverência. Ela sabia que aquele ovo era mais do que um simples símbolo — ele carregava o poder da deusa, capaz de regenerar e restaurar a vida para aqueles que mais precisavam. 

— Este ovo — continuou Ostara — é a chave para a fertilização das terras e dos corações daqueles que estavam sob a tirania. Ele trará uma nova era de prosperidade, liberdade e abundância para o povo desta vila. Que a primavera floresça onde antes havia fome e escuridão! 

A vila, antes desolada e oprimida pela fome e pela escravidão, começou a mudar diante dos olhos dos heróis. Os campos de terra árida começaram a florescer, os rios que haviam secado voltaram a se encher, e os habitantes da vila, libertos do jugo da opressão, se reuniram em festa, celebrando o milagre que acontecia diante deles. Rios de alegria e gratidão se derramaram por toda a vila, enquanto danças e cânticos se espalhavam pelos campos agora verdes. Havia, sobre um tronco ao lado da deusa, uma coroa de espinhos sobre o altar. 

Ostara, com um sorriso terno e acolhedor, tocou as cabeças de Arale, Elyni e Laparus, e uma luz cálida os envolveu. 

— Que sua jornada continue com coragem e sabedoria, e que a primavera sempre os acompanhe. 

E, como se a própria terra tivesse absorvido a bênção da Deusa, Arale, Elyni e Laparus sentiram uma renovada energia interior. Eles sabiam que não estavam mais sozinhos. A Deusa Ostara os havia marcado com sua bênção, guiando-os para novos desafios, para novas lutas — mas sempre com a certeza de que, após a escuridão, a luz sempre retorna. 

Assim, com o ovo em mãos, Arale retornou ao jardim do Castelo Dracula, sabendo que o verdadeiro renascimento não era apenas sobre florescer na primavera, mas sobre transformar a terra onde pisamos e as almas que tocamos. 

Ela observava o ovo, ainda quente com o poder da Deusa, refletindo sobre a luta, a amizade e a força do renascimento. Era a promessa de que, como Ostara, a vida sempre encontraria um caminho para florescer, mesmo nos lugares mais sombrios. 

Ela sabia que a luta contra as sombras nunca terminaria, mas, naquele momento, no silêncio da noite, ela tinha vencido. Tinha encontrado a força — não em sua luta sozinha, mas na amizade, na confiança e na união. 

E o ovo de chocolate que ela segurava, doce e perfeito, era a promessa de que, apesar da dor, sempre haveria renascimento. 

Lembrando que, no epicentro da festividade onde antes havia trevas, agora surgia uma aura de esperança: uma chama azul e violeta brilhava, e ela tinha em mãos um ovo de chocolate — o símbolo do ciclo de vida e renascimento. O vilarejo estava a salvo, e a realidade restaurada. 

Mas o caminho de Arale ainda não estava concluído. Ela retornou ao jardim do Castelo Dracula, o pergaminho em suas mãos, o ovo de chocolate como prova de sua jornada. Seu coração batia com a mesma energia da vida que fluía através de suas veias — pronta para o que viria a seguir, selando mais um pergaminho em sua máquina de escrever de ossos. 

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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