Lírio purpúreo
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Sintra, Portugal.
1713
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína. As cortinas de veludo púrpura pendiam pesadas sobre as janelas cerradas, impedindo que qualquer vestígio do mundo exterior penetrasse meus aposentos. Restavam apenas a luz vacilante de três velas sobre a penteadeira e o perfume adocicado dos lírios que eu mantinha em um vaso de prata ao lado da cama. Ou talvez já não fossem lírios.
Desde que ingerira o fungo, suas pétalas haviam escurecido nas extremidades. A antiga brancura transformara-se em manchas violáceas, semelhantes a hematomas florescendo sobre carne pútrida. Enquanto escrevo estas linhas, os lírios ainda repousam ao meu lado, tão vivos quanto no dia em que os colhi. Talvez este diário seja tudo o que restará de mim quando a história chegar ao fim.
Naquela manhã, quando adentrei o bosque que circundava a propriedade de minha família para realizar minha habitual caminhada, não poderia imaginar a descoberta nefasta que me aguardava. Entre os lírios que colhia para adornar meus aposentos, havia algo que meus olhos não reconheceram como pertencente à natureza comum. Parecia uma relíquia caída dos céus ou um artefato oriundo das histórias que minha ama contava para assustar-me durante a infância.
Ali, entre raízes retorcidas e pétalas alvas, brotava um fungo de coloração púrpura tão intensa que parecia concentrar em si toda a luz de uma lua refulgente. Suas lamelas imitavam as pétalas dos lírios ao redor, abertas como dedos infames emergindo das profundezas da terra. Gotículas viscosas brotavam de sua superfície, brilhando sob o amanhecer como lágrimas de vidro ou secreções de alguma criatura adormecida sob o solo. Sua presença destoava de tudo ao redor. Não havia beleza naquela forma, tampouco havia repulsa. Existia apenas uma estranha sensação de reconhecimento, como se eu finalmente houvesse encontrado algo que me aguardava havia muito tempo.
Aproximei-me. Sua superfície pulsava sob os raios do amanhecer, como se respirasse. Como se estivesse vivo. Uma sensação inexplicável tomou conta de mim. Eu precisava possuí-lo, como se o fungo púrpuro sussurrasse meu nome através do silêncio do bosque. Como se desejasse que nos tornássemos uma única coisa. Em um rompante desprovido de toda lucidez, arranquei-o da terra e o levei aos lábios. O gosto assemelhava-se ao de sangue envelhecido. Havia também algo de ferro oxidado, de moedas esquecidas sob a chuva e de água estagnada em criptas antigas. A textura era macia e úmida, desagradável à língua; ainda assim, engoli cada fragmento.
Por um instante, nada aconteceu. O vento cessou. Os pássaros silenciaram. Até mesmo o farfalhar das folhas pareceu abandonar o bosque. Então senti uma pulsação. Não em meu peito, mas atrás de meus olhos.
Uma vibração lenta e profunda percorreu meu corpo como dedos invisíveis deslizando sob minha pele. Cambaleei por um instante, e o mundo tornou-se mais vívido. Os verdes adquiriram tonalidades impossíveis, provenientes de algum lugar além das estrelas. As sombras pareceram ganhar profundidade, e os lírios à minha volta inclinaram-se suavemente em minha direção, como se observassem minha transformação.
Minutos transformaram-se em horas e, quando retornei à propriedade, trazia comigo um buquê de flores e uma estranha sensação de companhia. Não era uma presença definida. Era apenas a impressão persistente de que eu já não estava sozinha dentro de mim.
Naquela noite, ao passar diante do espelho de minha penteadeira, tive a impressão de que havia alguém parado atrás de mim. Virei-me imediatamente, mas encontrei apenas o vazio. Ri de minha própria imaginação e tentei afastar o desconforto. Ainda assim, ao deitar-me, senti que algo observava meu sono.
Os dias seguintes transcorreram envoltos em uma névoa de inquietação. Minha ama comentava frequentemente sobre minha palidez crescente e insistia para que eu saísse dos aposentos e respirasse o ar da manhã. Eu pouco respondia. A verdade era que algo mudara dentro de mim desde o dia em que encontrara o fungo no bosque. Eu apenas ainda não compreendia o quê.
O sono abandonou-me pouco a pouco. As noites tornaram-se longas vigílias diante das janelas fechadas. Eu observava os quadros pendurados nas paredes e tinha a impressão de que seus olhos me acompanhavam pela penumbra. Os lírios permaneciam sobre a mesa de cabeceira. A essa altura já deveriam estar secos, embora suas pétalas estivessem tingidas por um púrpura cada vez mais profundo.
Um mês havia se passado, e nada, exceto os lírios e este diário, lembrava o que ocorrera naquela manhã. Por vezes, eu me convencia de que tudo não passara de um devaneio provocado pelo calor do verão. Outras vezes, porém, despertava durante a madrugada com a sensação de que alguém me observava da escuridão.
Até aquela noite, quando a vi diante do espelho.
A princípio, pensei tratar-se de um reflexo tardio, uma ilusão causada pelo cansaço. Havia dormido pouco nas últimas semanas. O fungo roubara-me a capacidade de repousar. Minhas noites haviam se tornado longas vigílias preenchidas por pensamentos mórbidos e pela sensação constante de que algo me aguardava além da superfície das coisas.
A mulher surgiu diante de mim gradualmente. Primeiro um vulto indistinto, depois um contorno delicado emergindo da penumbra e, por fim, um rosto. O meu rosto, mas não exatamente o meu. Ela possuía a mesma curva delicada do nariz e os mesmos cabelos escuros derramados sobre os ombros. Os olhos, contudo, eram diferentes. Violetas. Brilhavam na escuridão com uma intensidade inquietante, semelhantes aos olhos de uma coruja espreitando a noite. Pareciam absorver toda a penumbra ao redor e devolvê-la transformada em algo vivo.
Havia nela uma perfeição impossível, como se eu contemplasse uma lembrança idealizada de mim mesma. Parecia mais jovem, mais bela e mais viva.
Ela sorriu, e naquele instante senti o odor. Não vinha dos lírios. Era o cheiro dela. O cheiro do fungo. Sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida após a chuva. Algo doce e pútrido ao mesmo tempo, algo que despertou em meu peito uma repulsa tão intensa quanto a necessidade de continuar olhando.
Piscar tornou-se difícil. Desviar o olhar, impossível. Senti meus dedos enrijecerem sobre a madeira da penteadeira enquanto meu coração martelava o peito em descompasso. Ainda assim, uma parte de mim desejava que ela permanecesse ali. Desejava observá-la por mais alguns instantes, por mais alguns minutos, por toda a noite. Quando finalmente reuni coragem para sair daquele transe febril, o quarto estava vazio. Restava apenas o espelho da penteadeira e meu reflexo, sorrindo um segundo depois de mim.
Permaneci imóvel durante vários minutos. Meus olhos percorriam cada centímetro do espelho, procurando qualquer vestígio daquela aparição. Nada. Apenas meu próprio reflexo me encarava do outro lado do vidro, tão comum e imperfeito quanto sempre fora. Ainda assim, não consegui abandonar a penteadeira naquela noite.
As velas consumiram-se lentamente enquanto eu permanecia sentada diante do espelho. Por vezes, julgava perceber um movimento no canto da superfície prateada, uma sombra ou o esboço de um sorriso. Contudo, sempre que me aproximava, encontrava apenas minha própria imagem. Quando a luz do amanhecer infiltrou-se pelas frestas das cortinas, uma tristeza profunda apoderou-se de mim. Não era alívio o que sentia pela partida da criatura. Era melancolia.
Os dias seguintes transformaram-se em um suplício silencioso. Eu mal conseguia concentrar-me nas leituras, nas refeições ou nas conversas com os criados. Minha atenção retornava constantemente ao espelho de minha penteadeira e à lembrança daquele rosto impossível. Por mais que tentasse ocupar-me com tarefas cotidianas, acabava retornando aos meus aposentos antes do anoitecer, aguardando ansiosamente a chegada da escuridão.
Passei a evitar a luz do sol. Mantinha as cortinas fechadas durante grande parte do dia e aguardava com impaciência a chegada da noite. Os lírios continuavam sobre a mesa de cabeceira, estranhamente vivos, enquanto eu me tornava cada vez mais abatida.
À medida que os dias passavam, minha obsessão crescia. Eu examinava meu rosto por longos períodos, comparando-o à lembrança daquela mulher. Observava a curva de meus lábios, a palidez de minha pele e a forma de meus olhos. Havia algo nela que me escapava, algo que a tornava infinitamente superior. Mais bela, mais graciosa, mais digna de ser amada. Quanto mais tentava identificar a diferença entre nós, mais me convencia de que ela era tudo aquilo que eu jamais conseguiria ser.
Por vezes, surpreendia-me perguntando se aquela criatura ainda habitava o espelho ou se tudo não passara de uma alucinação provocada pelo fungo. Mas, em meu íntimo, eu sabia a verdade. Nenhuma alucinação poderia fazer alguém sentir tanta falta.
Desde o dia em que encontrara o fungo no bosque, passei a registrar cada acontecimento neste diário. A escrita tornara-se meu único consolo diante da crescente sensação de que algo escapava à minha compreensão. Se minha sanidade me abandonasse, ao menos estas páginas permaneceriam como testemunhas do que vivi.
Certa tarde, enquanto as criadas preparavam o chá, ouvi-as comentar sobre rumores inquietantes que haviam chegado à Feira de Agualva. Entre bancas e carroças, viajantes narravam uma chuva de meteoros que iluminara os céus semanas antes, exatamente na mesma época em que eu encontrara o fungo entre os lírios do bosque. Diziam que as estrelas haviam rasgado a noite como lanças incandescentes e que fragmentos luminosos foram vistos caindo além das colinas.
Os relatos tornavam-se ainda mais inquietantes conforme se espalhavam entre os viajantes. Alguns afirmavam que animais foram encontrados mortos sem qualquer sinal de ferimentos. Havia até quem jurasse ter visto uma luminosidade púrpura persistir durante dias sobre as colinas, como se parte do firmamento houvesse permanecido presa ao solo.
As criadas riam dessas histórias e atribuíam tudo à imaginação dos camponeses. Eu não consegui rir. Pela primeira vez, considerei a possibilidade de que o fungo não pertencesse verdadeiramente àquela terra.
As aparições tornaram-se mais frequentes. A mulher já não surgia apenas por breves instantes. Permanecia diante de mim durante horas, observando-me através do espelho. Nunca pronunciava uma palavra. Limitava-se a sorrir. Com o passar das semanas, seus movimentos tornaram-se estranhamente independentes dos meus. Por vezes eu permanecia imóvel enquanto ela inclinava a cabeça. Em outras ocasiões, percebia seu sorriso surgir antes do meu.
Numa noite, ela ergueu lentamente a mão. Eu não havia me movido. O terror que senti durou apenas um instante. Logo foi substituído por fascínio.
Meu estado piorava a cada dia. As refeições permaneciam intocadas. Correspondências acumulavam-se sobre minha escrivaninha, sem resposta. Livros que outrora me encantavam passaram a reunir poeira. Nada parecia possuir importância diante da perspectiva de revê-la.
Minha ama tornou-se a única pessoa a notar minha lenta transformação. Comentava frequentemente sobre minha palidez, insistia para que eu abrisse as cortinas e censurava os longos períodos que eu passava trancada em meus aposentos. Eu respondia pouco. Como poderia explicar-lhe que a luz do dia tornara-se insuportável diante da promessa da noite? Como poderia confessar que ansiava pela escuridão da mesma forma que outros aguardam a chegada de um amante?
Certa manhã despertei com a estranha sensação de estar sendo observada. Ao aproximar-me da penteadeira, encontrei um pequeno fungo púrpura repousando sobre sua superfície. Permaneci imóvel durante longos minutos. Eu não o havia colhido. Não na noite anterior. Não conscientemente. Ainda assim, ali estava ele, pulsando suavemente à luz do amanhecer.
Aproximei a mão, mas hesitei antes de tocá-lo. Algo em sua presença despertava uma memória desagradável, como um sonho esquecido que insiste em retornar. Chamei uma criada para confirmar que não se tratava de imaginação. Contudo, quando ela entrou no aposento, o fungo já não estava mais lá. A mulher limitou-se a olhar-me com preocupação, perguntando se eu estava me sentindo bem. Menti. Disse que fora apenas cansaço. Ela pareceu não acreditar inteiramente, mas nada respondeu. Durante o restante do dia, não consegui afastar a sensação de que algo se movia dentro de mim.
À noite, quando voltei a encarar o espelho, a mulher aguardava do outro lado do vidro e sorria como se conhecesse um segredo que eu ainda não era capaz de compreender.
Dormia cada vez menos e, quando finalmente o sono me vencia, era acometida por sonhos inquietantes. Caminhava por florestas cobertas de neblina púrpura, guiada por uma figura feminina cuja silhueta desaparecia sempre que eu tentava alcançá-la. Havia algo profundamente familiar nela, algo que despertava em mim uma mistura dolorosa de fascínio e melancolia.
Ao despertar, encontrava terra sob minhas unhas, folhas presas aos cabelos e manchas de lama na barra de minha camisola. Inicialmente atribuí esses sinais ao cansaço ou aos efeitos persistentes do fungo. Contudo, conforme as semanas avançavam, tornou-se impossível ignorar a frequência com que tais acontecimentos se repetiam.
Certa manhã, minha ama encontrou pegadas de pés descalços na escadaria dos fundos da propriedade. A princípio acreditamos tratar-se de algum invasor ou de um criado imprudente. Apenas eu percebi que as marcas possuíam exatamente o tamanho dos meus pés. Não disse nada. Limitei-me a observá-las até que apagassem os vestígios.
Na noite seguinte, tranquei a porta de meu aposento e escondi a chave sob o travesseiro. Estava determinada a provar a mim mesma que os estranhos acontecimentos eram fruto de minha imaginação. Entretanto, quando despertei na manhã seguinte, encontrei a chave repousando sobre a penteadeira, ao lado de um lírio púrpura recém-colhido. Não havia qualquer explicação possível para aquilo e, pela primeira vez, percebi que já não conseguia ignorar a verdade.
Decidi permanecer acordada naquela noite. Sentei-me diante do espelho e esperei. As velas consumiram-se lentamente enquanto a mulher me observava do outro lado do vidro. Pela primeira vez, tive a impressão de que ela parecia satisfeita. Quando o relógio anunciou a meia-noite, seus lábios curvaram-se em um sorriso sereno, quase afetuoso. Havia reconhecimento naquele gesto, como se ela soubesse algo que eu ainda desconhecia. Então tudo escureceu.
Despertei no bosque. A lua pairava alta sobre as árvores, iluminando fracamente o solo coberto de folhas úmidas. Meus pés estavam descalços e cobertos de lama. Em minhas mãos repousava um cesto repleto de fungos púrpura. Ao meu redor, dezenas deles brotavam da terra como flores malignas. Alguns cresciam junto às raízes das árvores, enquanto outros espalhavam-se entre os lírios silvestres. Havia tantos que o solo parecia pulsar sob sua presença.
Permaneci imóvel durante vários minutos, incapaz de compreender como chegara até ali. O silêncio era absoluto. Nem mesmo os insetos ousavam interromper aquela estranha quietude. Foi então que vi meu reflexo em uma poça formada pela chuva recente. Os olhos violetas que me observavam eram os mesmos da mulher do espelho.
Um arrepio percorreu minha espinha. Levei as mãos ao rosto numa tentativa desesperada de recuperar a razão. Foi nesse instante que senti novamente o odor: sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida. O cheiro acompanhava-me. Impregnava meus cabelos, minhas roupas e minha pele. Pela primeira vez compreendi uma verdade que me encheu de horror. O cheiro jamais viera do espelho, jamais viera da mulher e jamais viera do fungo. Vinha de mim.
Meu olhar retornou à superfície da água. Não havia ninguém ao meu lado. Nenhuma criatura oculta entre as árvores. Nenhuma figura observando-me da escuridão. Apenas eu, meu reflexo e aquele sorriso impossível. Foi então que compreendi. A mulher do espelho nunca estivera presa atrás do vidro. Nunca habitara a superfície prateada da penteadeira. Nunca existira separada de mim. Habitava-me.
O horror da descoberta quase me levou à loucura. Cambaleei para trás e deixei o cesto cair. Os fungos espalharam-se pelo chão da floresta como órgãos arrancados de um corpo. Ao observá-los, compreendi algo ainda mais terrível: aquela não era a primeira vez que eu estivera ali.
Ao retornar para casa, encontrei outro cesto que havia sido levado para a cozinha. Fungos secavam próximos ao fogão. Em vários deles reconheci marcas de terra idênticas às que cobriam minhas mãos. A criatura não desejava apenas a mim. Desejava minha família. Desejava espalhar-se. E eu havia me tornado seu instrumento.
Compreendi que não me restava muito tempo. A mulher do espelho não precisava mais aparecer. Eu sentia sua presença em cada pensamento, em cada impulso e em cada respiração. Pela primeira vez desde que tudo começara, tive medo de adormecer. Passei aquela madrugada vasculhando a propriedade. Recordei-me das histórias sobre os meteoros e dos animais encontrados mortos próximos aos locais de impacto. Pela primeira vez, tudo pareceu encaixar-se numa única e terrível verdade. O fungo não era uma criatura do bosque. Não era uma maldição. Não era sequer uma entidade sobrenatural. Era uma semente. Uma semente caída dos céus. E eu havia permitido que ela germinasse dentro de mim.
Tomada pelo desespero, reuni todos os fungos que consegui encontrar no bosque e na propriedade. Carreguei cestos cheio deles até a sala principal da propriedade. Minhas mãos tremiam. Meus músculos doíam. Ainda assim, continuei. A cada novo cesto depositado na lareira sentia a presença da criatura tornar-se mais agitada dentro de minha mente, como se ela finalmente compreendesse minhas intenções.
Quando a última cesta foi despejada diante da lareira, risquei o fósforo. As chamas espalharam-se lentamente. Então os fungos começaram a arder. O fogo adquiriu uma coloração púrpura profunda. As sombras dançaram pelas paredes como figuras distorcidas. O odor espalhou-se pela casa com violência: sangue envelhecido, ferrugem, terra úmida e algo mais, algo que lembrava carne esquecida em um túmulo recém-aberto. Por um instante, tive a impressão de ouvir um som. Não exatamente um grito, mas algo próximo disso, como se milhares de vozes muito distantes lamentassem a própria destruição. Observei as chamas até que o último fragmento fosse reduzido a cinzas negras. Minha família estava salva. Quanto a mim, já não possuía a mesma certeza.
Agora escrevo estas linhas à luz de uma única vela. Minha ama dorme no aposento ao lado. Percebo o quanto fui egoísta e imprudente. Durante semanas afastei-me dela. Ignorei sua preocupação. Recusei seus conselhos. Ainda assim, foi a única pessoa que permaneceu ao meu lado quando minha própria razão começou a abandonar-me.
Dentro de algumas horas, quando terminar este relato, irei acordá-la. Entregar-lhe-ei este diário. Pedirei que o esconda. Pedirei também que faça aquilo que eu mesma já não possuo forças para realizar. Há algo crescendo dentro de mim. Posso senti-lo mover-se sob minha pele. Posso senti-lo pulsar atrás dos meus olhos. Enquanto escrevo estas palavras, meus dedos tremem involuntariamente. Por vezes, as letras parecem mover-se sobre a página. Por vezes, vejo raízes púrpuras surgirem nos cantos de minha visão apenas para desaparecer quando tento focá-las.
Se estas páginas sobreviverem ao tempo, que sirvam ao menos como advertência. Algumas flores não pertencem à Terra. Algumas sementes jamais deveriam encontrar solo fértil. E alguns amores, por mais belos que pareçam, não desejam ser correspondidos. Desejam apenas consumir.
Quando o sol nascer, se ainda existir algo de humano em mim, talvez Deus tenha misericórdia. Caso contrário, espero que minha ama tenha coragem e melhor pontaria do que eu.
Lilium Batista
Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Oásis de Ossos Vivos
A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo. Não era apenas areia que se levantava, mas fragmentos de algo mais antigo, partículas que carregavam um brilho opaco, resquícios de uma luz que não deveria existir fora da água, mas que agora se misturava ao ar, criando um véu espesso e iridescente.
Amira já havia atravessado desertos antes, já conhecia a lógica da escassez e do silêncio, mas aquilo não seguia nenhuma lógica conhecida. O vento não apenas empurrava; ele guiava, moldava trajetórias, fechava caminhos que haviam sido abertos segundos antes, e quando ela tentou usar o sol como referência, percebeu que o céu havia sido completamente tomado por aquele azul pálido que não indicava direção alguma.
As dunas erguiam-se como ondas congeladas, e por um instante, Amira teve a impressão de estar caminhando sobre um oceano imóvel, um pélago de areia que escondia algo em suas profundezas. Foi então que ela tropeçou.
O que pensou ser uma pedra revelou-se, ao toque, como algo macio demais para ser mineral e rígido demais para ser carne viva. Ao afastar a areia, encontrou o primeiro corpo. Não estava decomposto, tampouco intacto; encontrava-se em um estado intermediário, como se a morte tivesse sido interrompida em algum ponto do processo. A pele apresentava um tom marfim retorcido, com áreas que refletiam a luz de forma metálica, enquanto outras permaneciam opacas, quase ressecadas.
E então o corpo respirou.
Não foi um movimento completo, apenas um leve expandir do tórax, seguido por um som que não chegava a ser um suspiro, mas que carregava uma intenção, um esforço. Amira recuou, mas ao olhar ao redor, percebeu que não estava diante de um único corpo, mas de centenas, talvez milhares, parcialmente enterrados sob a areia negra, formando um vasto campo que se estendia até onde a visão permitia.
A tempestade cessou tão abruptamente quanto havia começado.
E, no silêncio que se seguiu, ela viu o oásis.
Não era grande, mas destacava-se como uma anomalia perfeita no meio daquele cenário de morte suspensa. Um pequeno lago de águas cristalinas refletia o azul do céu com uma intensidade quase hipnótica, e ao seu redor, estruturas que lembravam árvores se erguiam, seus troncos formados por aquilo que só poderia ser descrito como ossos entrelaçados, organizados em padrões que sugeriam crescimento, como se estivessem vivos.
A sede falou mais alto.
Amira caminhou em direção à água, ignorando os corpos que, agora, pareciam reagir à sua presença, movimentos sutis percorrendo suas superfícies, como se estivessem despertando de um sono profundo. Ao ajoelhar-se à beira do lago, viu seu reflexo, mas não o reconheceu completamente. Seus olhos pareciam mais escuros, mais fundos, e havia uma leve luminescência em sua pele, quase imperceptível, mas suficiente para alterar a maneira como a luz se comportava ao seu redor.
Ela tocou a água. E sentiu fome.
Não uma fome comum, mas uma necessidade profunda, primitiva, que não se dirigia à água, mas ao que estava sob ela. Porque, ao mergulhar a mão, percebeu que o lago não era vazio. Havia movimento ali, formas que se deslocavam lentamente, roçando sua pele com uma suavidade enganosa.
Quando retirou a mão, algo veio junto.
Não era uma criatura completa, mas um fragmento, uma estrutura que lembrava uma mandíbula translúcida, cujos dentes finíssimos se moviam de forma independente, como se testassem o ar. Antes que pudesse reagir, a estrutura aderiu à sua pele, e imediatamente começou a emitir uma luz azulada, pulsante.
O contato foi suficiente. Os corpos ao redor começaram a se erguer. Não de forma abrupta, mas gradual, como se a própria areia estivesse liberando-os, permitindo que emergissem em um estado de vigília incompleta. Seus olhos se abriram, revelando cavidades preenchidas por aquela mesma luz bioluminescente, e quando suas bocas se moveram, o som que emergiu não era um grito, mas um chamado.
Amira tentou fugir, mas seus pés afundaram na areia, que agora parecia mais densa, mais aderente, como se respondesse à presença daquela luz que se espalhava por seu corpo. A mandíbula presa à sua mão começou a expandir-se, ramificando-se em filamentos que penetravam sua pele sem dor, mas com uma finalidade clara.
Ela olhou novamente para o lago.
E compreendeu.
O oásis não era uma fonte de vida, mas um núcleo de transformação, um ponto onde o que restava das criaturas do deserto era reciclado, reorganizado, devolvido ao ciclo daquele horror luminoso. A sede que a havia guiado até ali não era sua; era deles.
Os corpos continuavam a se aproximar, seus movimentos agora mais coordenados, mais intencionais, e Amira percebeu que não havia predador ou presa naquele lugar, apenas um sistema que assimilava tudo o que entrava em seu domínio.
Quando finalmente caiu, não sentiu dor. Apenas a expansão da luz, preenchendo cada espaço, cada pensamento, até que não houvesse mais distinção entre ela e o deserto. E, sob a superfície do lago, algo novo começou a se formar, aguardando o próximo viajante sedento.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Mente Assombrada
Era mais um dia de brigas. Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era mais um dia de brigas.
Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas… existir.
Esse mundo podre e corrompido. Escondendo absurdos à vista de todos que fingem não olhar. Esse mundo que destrói sonhos e enterra potencial. Sempre querendo acabar com quem somos, sempre querendo destruir quem é diferente.
Mas eu sou assim.
E não vou mudar para ser aceito.
O ciclo começa como sempre.
Despertador gritando, meu corpo pesado demais para se levantar. Minha mente cansada antes mesmo do dia começar.
E levantar da cama é uma tortura que envolve cálculos para entender se vale a pena. E cada movimento exige uma negociação silenciosa com os fantasmas que me prendem — “só mais cinco minutos”, e depois mais cinco, e mais cinco, até que, por fim, a culpa me levanta.
O banho é uma vitória. Escovar os dentes é mais demorado do que deveria.
E eu não comemoro nenhuma ação. Pode ser difícil para mim, mas para os outros é o mínimo e ninguém comemora o mínimo.
O dia se arrasta como areia no deserto. As pessoas falam alto demais, e eu escuto mais do que gostaria. Sorrio quando preciso sorrir. Respondo o suficiente para não ser notado.
Seria esforço demais ficar com essa máscara, se olhassem muito para mim.
Mas ninguém vê o esforço. Ninguém vê o cansaço nos ossos. As pessoas não me veem.
E eu…
Eu finjo que está tudo bem.
Mas sempre tem alguém para tirar minha paz.
E foi então que ela chegou. Sorrindo com os olhos.
Olhava para mim como se eu fosse a sombra imperfeita do seu dia.
Ela desfilou até mim, com uma mistura de ódio e preocupação, e sem saber o quanto aquilo iria me ferir, perguntou:
— Por que está triste?
Aquela pergunta. Mais uma vez. Ouvia ela todos os dias desde que me lembro. Ouvia dos meus pais, na escola, na faculdade, no trabalho. Ninguém me deixava em paz. E eu só queria gritar para eles: “ME DEIXEM FICAR EM PAZ!”
Eu não quero que se preocupem. Não quero que me ajudem. Não quero nada. Só quero ficar sozinho.
Mas ela ainda se incomodava, como se eu devesse ser grato por sua preocupação; que deveria ser feliz apenas por viver. E então, com impaciência no olhar, continuou, com um sorriso que tentava ser doce:
— Nada aconteceu, então fique feliz!
“Fique feliz”, repeti para mim mesmo. Como se felicidade fosse um botão que eu gostava de manter desligado. Como se fosse escolha. Como se já não tentasse todos os dias.
Podia sentir meus punhos se fechando. A raiva subindo pelo meu corpo. Mas consegui me controlar. Respirei fundo e comecei a sair dali. Comecei a ir embora.
Mas…
Algo aconteceu ali. Quando ela segurou meu braço e me impediu de ir embora.
Ela segurou em mim, e eu me virei para protestar. E naquele momento… aquilo fez o mundo parar por um segundo.
E eu vi em seus olhos horrorizados uma lágrima caindo.
Não era por mim. Não ainda. Era por ela. Pelo que ela viu ao me tocar e não sabia como nomear.
Pelo vazio que de repente ficou visível, como se por um segundo ela entrasse na minha mente e entendesse que felicidade era mais difícil para quem lutava pra se manter de pé.
Eu a olhei por mais tempo do que pareceu. E então percebi que já não estávamos no mesmo lugar.
Olhei para os lados e vi que o mundo parou de fazer sentido.
Pra cima era pra baixo. Pra baixo era pra cima. Corredores de escadas em labirintos que não levavam a lugar nenhum. Algumas portas tinham maçanetas quentes. Outras, frias. Algumas, sabia que não deveria abrir. Elas gemiam baixo quando prestava atenção demais.
O teto não existia. Ou existia, mas mudava de altura. O chão às vezes inclinava sem aviso, e o pé afundava como se pisasse em areia fofa, e no próximo passo o chão era pedra dura, e no próximo, algo pegajoso que não queria soltar.
Um relógio sem ponteiros flutuava no centro de um salão vazio. E o som das engrenagens ecoava pelo ambiente, fazia tudo parecer urgente, mas sem importância, fazia tudo ser tarde demais, tudo ser perigoso, tudo precisar de atenção.
Meu corpo quente reclamava do frio. E o peso da dor parecia triplicar ali. Mas não era uma dor de machucado. Era uma dor de existir. Uma dor surda, velha, encostada nos ossos como um inquilino que se recusa a sair. Eu já nem lembrava como era antes dela. Talvez nunca tenha existido um antes.
E a mulher estava comigo. Gritava e chorava como uma criança. Olhou para mim tentando entender.
E então eu respondi:
— Meu lar.
Ela, ainda mais horrorizada, não entendia.
Para ela, estar ali era como estar coberta de agulhas que tentam rasgar sua pele e corroer seus ossos, mas eu parecia tranquilo.
— Minha mente. É onde estamos.
Ela olhou ao redor. Viu os corredores infinitos. Ouviu, pela primeira vez, os ecos. Vozes que não estavam ali, mas enchiam o espaço. “Você está exagerando.”, “É só preguiça.”, “Você tem tudo pra ser feliz.” — As frases batiam nas paredes, voltavam, batiam de novo. Ela tapou os ouvidos, mas eu já sabia que era inútil, não havia como escapar.
E ainda horrorizada, com os olhos fechados e os ouvidos tapados, ela me perguntou:
— Como você consegue…
Ela não conseguiu terminar, a dor era pesada demais. Mas eu já sabia o que ela iria perguntar: “Como viver com a mente assim?”.
— Estou vivo, e morto ao mesmo tempo. Como se tivesse tomado do Magöhorror minha sina. Eu sobrevivo. Todo dia. — eu disse, me ajeitando no conforto desse caos. — Mas você não precisa entender. Ninguém entende. E está tudo bem. Só… não me diga que nada aconteceu. Porque tudo aconteceu. Tudo acontece. O tempo todo. Dentro de mim. E eu não posso desligar. Então me deixa ficar em paz, pelo menos do lado de fora.
E ela começou a chorar. Porque já não aguentava. Porque cinco minutos ali dentro já eram mais peso do que ela suportava.
Mas eu sabia. Sempre soube. Por isso nunca deixei ninguém entrar.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Silêncio — Uma Fábula
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça. “A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali, não há quietude…
“Os pináculos das montanhas entorpecem-se;
vales, penhascos, e cavernas imergem no silêncio.” — Álcman
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça.
“A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali, não há quietude… nem silêncio.”
“As águas do rio possuem uma tonalidade doentia de açafrão; e não fluem rumo ao mar, mas palpitam para sempre — para sempre — sob o olho rubro do sol, em um movimento tumultuoso e convulsivo. Por incontáveis milhas, de cada lado do leito viscoso do rio, estende-se um pálido deserto de nenúfares gigantescos. Eles suspiram uns para os outros naquela solidão; estendem para o alto seus longos e espectrais pescoços; e balançam suas cabeças eternas de um lado para o outro. E há um murmúrio indistinto que emerge do meio deles, como o ímpeto de águas subterrâneas. E eles suspiram uns para os outros.
“Mas há uma fronteira para o seu domínio — a fronteira da floresta sombria, horrível e elevada. Ali, como as ondas ao redor das Hébridas, os arbustos rasteiros agitam-se incessantemente. Mas vento algum respira nos céus. E as altas árvores primevas balançam-se eternamente de um lado para o outro, com um som estrondoso e poderoso. E de seus altos cumes, um a um, gotejam orvalhos eternos. E junto às raízes, estranhas flores venenosas jazem, contorcendo-se em um sono perturbado. E acima, com um farfalhar áspero e clamoroso, as nuvens cinéreas precipitam-se rumo ao ocidente para sempre, até rolarem, em catarata, sobre a muralha em chamas do horizonte. Mas vento algum respira nos céus. E às margens do rio Zaire não há quietude, nem silêncio.
“Era noite, e a chuva caía; e, caindo, era chuva — mas, tendo caído, era sangue. E eu permaneci no pântano, entre os altos nenúfares — e a chuva tombava sobre minha cabeça — e os nenúfares suspiravam uns para os outros, na solenidade de sua desolação.
“E, de repente, a lua surgiu através da névoa fina e espectral, e era de cor escarlate. E meus olhos recaíram sobre uma enorme rocha cinérea que se erguia à beira do rio, resplandecendo sob o luar. E a rocha era cinérea, espectral e alta — e a rocha era cinérea. Em sua fachada havia sinais gravados na pedra; e caminhei por entre os nenúfares até chegar perto da margem, para poder ler os sinais na pedra. Mas não consegui decifrá-los. E eu estava voltando para o palude, quando a lua cintilou com um escarlate ainda mais pungente; e me virei, e olhei novamente para a rocha e para os sinais — e os sinais diziam: DESOLAÇÃO.
“E ergui meu olhar, e lá estava um homem no alcantil daquela rocha; e escondi-me entre os nenúfares, para poder espreitar as ações do homem. E o homem era alto e imponente, e estava envolto, dos ombros aos pés, na toga da Roma Antiga. E os contornos de sua figura eram indistintos — mas suas feições eram as de uma divindade; pois o manto da noite, da névoa, da lua e do orvalho havia deixado descoberto o semblante de seu rosto. E sua fronte erguia-se, altiva de pensamento, e seu olhar era selvagem de preocupação; e, nos poucos sulcos que lhe marcavam o rosto, li as fábulas da tristeza, do cansaço, do desgosto pela humanidade, e do anseio pela solidão.
“E o homem sentou-se sobre a rocha, apoiou a cabeça em sua mão, e contemplou a desolação. Olhou para baixo, para a vegetação rasteira e inquieta; olhou para cima, para as altas árvores primevas; olhou mais acima, para o céu farfalhante, e para a lua escarlate. E eu me deitei, abrigado entre os nenúfares, e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite s extinguiu, e ele sentou-se sobre a rocha.
“E o homem desviou a atenção do céu e contemplou o lúgubre rio Zaire, as águas áureas e espectrais, e as lívidas legiões de nenúfares. E o homem escutou os suspiros dos nenúfares, e o murmúrio que se erguia do meio deles. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então desci aos recessos do palude, e caminhei para longe através da vastidão dos nenúfares, e chamei os hipopótamos que viviam entre os pântanos, nos recessos do palude. E os hipopótamos ouviram meu chamado, e vieram, junto com o beemote, até o pé da rocha, e rugiram de maneira hórrida e estridente sob a lua. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da balbúrdia; e uma tempestade mórbida se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade — e as pancadas de chuva caíram na cabeça do homem — e as águas do rio desceram — e o rio em tormenta espumosa — e os nenúfares na sínfora de seus leitos — e a floresta cedeu diante do vento — e o trovão rompeu — e o relâmpago ruiu — e a rocha oscilou até seus fulcros. E eu me deitei em meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então me cingi em cólera e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, os nenúfares, o vento, a floresta, o céu, o trovão e os suspiros dos nenúfares. E eles se tornaram amaldiçoados e amansaram-se. E a lua cessou de ascender, vacilante, em seu caminho para o céu — e o trovão arrefeceu — e o relâmpago não mais cintilou — e as nuvens pairaram imóveis — e as águas afundaram até seu nível e repousaram — e as árvores cessaram de balançar — e os nenúfares não suspiraram mais — e o murmúrio não foi mais ouvido entre eles, nem qualquer sombra de som por todo o vasto deserto ilimitado. E olhei para os sinais gravados na rocha, e eles haviam mudado; — e os sinais diziam: SILÊNCIO.
“E meus olhos recaíram sobre o semblante do homem, e seu semblante estava lívido de horror. E, célere, ele ergueu a cabeça da mão onde se apoiava, pôs-se de pé sobre a rocha e escutou. Mas nenhuma voz ressoou em todo o vasto e ilimitado deserto, e os sinais na rocha eram: SILÊNCIO. E o homem estremeceu, virou o rosto e fugiu para longe, às pressas, de modo que não mais o vi.”
Ora, há belas histórias nos volumes dos Magos — nos volumes melancólicos e encadernados em ferro dos Magos. Neles, digo, repousam histórias gloriosas do Céu, da Terra e do poderoso mar — e dos Gênios que governavam o mar, a terra e o sublime firmamento. Havia também muita sabedoria nos ditos das Sibilas; e coisas sagradas, sagradas, eram ouvidas outrora pelas folhas sombrias que tremulavam ao redor de Dodona — mas, como Alá vive, aquela fábula que o Demônio me contou enquanto se sentava ao meu lado, à sombra do túmulo, considero-a a mais maravilhosa de todas! E quando o Demônio concluiu sua história, tombou de volta para a cavidade do túmulo e riu. E eu não pude rir com o Demônio, e ele me amaldiçoou porque eu não conseguia rir. E o lince, que habita eternamente no túmulo, saiu de lá, deitou-se aos pés do Demônio e olhou-o fixamente no rosto.
Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe (1809–1849) foi um escritor, poeta, editor e crítico literário norte-americano, conhecido por ter elevado o conto gótico à excelência e por ser um dos precursores da literatura de mistério e do terror psicológico. Com uma vida marcada por perdas trágicas, pobreza e doenças, sua escrita é como um espelho trincado da alma humana — revelando o abismo do medo, da culpa, da obsessão e da morte... » leia mais
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Lotus Aqua Obscura
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão.
Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”.
Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”.
Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ― juro aos santos e profanos ― eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila.
Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
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