A Carta de Íris Cohen
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por todos aqueles quais amei um dia. Sei que o mundo não é mais como outrora e sei acerca de uma das razões por detrás do horror que acomete o momento; creio que aquilo que vivenciei, e que hei de descrever ― até quando me for possível ―, poderá acrescentar majestosas ― e medonhas ― compreensões a respeito de tudo, inclusive possíveis hipóteses de resolução.
Até hoje não sei o que de fato aconteceu, não a coisa em si, mas o verossímil sentido que a cinge, contudo o que sei ― e tenho uma certeza inegável ― é que desde então sou perturbada, terrivelmente, por meio da paralisia do sono que faz as imagens daqueles instantes confusos e sinistros retornarem ao meu presente infortúnio e, como se ocorressem no exato agora, eu vejo aquele homem obscuro outra vez, observando-me, parado na janela, olhando-me como o seu retrato antigo.
Peço desculpas se meu vocabulário se apresentar exageradamente extenso, é que a ninguém revelei este segredo e o guardo como um íntimo calvário; sinto-me, de fato, aplacada em poder segredar tudo o que sofri e não quero poupar meu léxico para tal, porque sei que isso há de aliviar um pouco esta intimidatória lembrança, de algum jeito, apesar de eu já estar velha e perto da morte.
Tudo aconteceu no ano de dois mil e setenta e três, quando eu já me afastava do convívio social pelo cansaço da existência miserável, pela lassidão solitária que fora, por tantos anos, minha única verdade. Vocês não sabiam e não souberam que me imergi em uma vil consternação e percebi estar curvada à depressão que, tão familiar, se achegava; por esse motivo tomei a decisão de ir embora daquele extenuante e monótono lugar onde passei todos os meus trinta anos de vida e onde a vida era vivida em conjunturas esmigalhadas, ano por ano e, sim, tão assaz frequente era a minha penúria, o meu desalento.
Dei nome às minhas melancolias e, sequer percebi, que se enraizaram como figueiras. Contudo, a desolação que me acometera nem de perto assemelha-se ao que supus estar prestes a vivenciar com o baixo humor contínuo, a fadiga e o isolamento; o horror que me acometera estava há um adeus de distância, o adeus de meu lar amarescente que era ― e eu não sabia ― suficientemente seguro.
Contextualizo-vos que era demasiado raro eu ter um momento de prazer, o vazio sufocava meu cerne e eu estava sempre naqueles cárceres cotidianos ― os quais soavam deveras como um hospício ― e no aproximar das confraternizações de dezembro eu me sentia, em grau superior, a um poço de aversão imutável, porque o perfume de hipocrisia irritava-me mais do que as luzes piscando em cada janela de cada maldita residência. Mas eu não odiava vocês, acreditem, o ódio pertencia apenas a mim, por mim e para mim, refletindo no mundo como um espelho. Esta é, enfim, a razão pela qual realizei a fuga para um espaço na terra desprovido, o quanto fosse possível, de pessoas. Eu sentia que para que o ato de meditar alcançasse o seu cume necessário, era crucial o afastamento, eu precisava refletir em como tomar certas atitudes quais, quiçá, poderiam me dar uma última esperança de vida ― e para tal, a mudança era inevitável.
Em poucas horas, depois de uma lancinante crise existencial, no crepúsculo mundano do dia vinte e três de dezembro, tomei as comuns doses de pessimismo após notar o quão errôneo era imaginar que meus planos seriam dignos de um plausível desfecho de realização plena, tudo isso porque eu estava prestes a ir embora da minha cidade até ser notificada de que o único trem daquela segunda-feira, único e último da semana para lugares distantes da capital, estava indisponível, sequer uma única vaga, por incrível que pareça.
Fiz o possível para que me permitissem entrar, implorei por um lugar, mínimo que fosse, ainda que no apertado núcleo ruidoso dos vagões menos tersos, pois eu não poderia apenas voltar para casa e esvair na agonia daqueles quartos, era meu último saldo de fé. Contudo não havia condescendência. Vi com meus olhos lacrimejantes a partida desesperadora do último trem e fiquei apenas inerte, observando seu vazio deixado na encantadora linha de cobre, desocupada em seus trilhos envelhecidos. Porém, perto de abandonar a estação, visualizei um novo comboio a se aproximar; de imediato açodei até a bilheteria e indaguei o destino do, aparentemente, verdadeiro último trem, mas não souberam me informar, a verdade é que, para eles, tratava-se de algum tipo de trem particular ― isso existe? Eu duvidei, mas observei que em poucos minutos algumas pessoas adentravam-no, entregando, ao que me parecia ser o condutor, bilhetes em um dourado-escuro deveras brilhante. Não hesitei em perscrutar.
O homem era velho, seus olhos fundos estavam distantes, no entanto a sua cordialidade ainda vívida apaziguou-me a ansiedade. Com serena voz dissera-me que o Aecqer ― este era o nome da comitiva ― partiria para Nehen, uma cidade muitíssimo afastada, além das cordilheiras de Ahvalanch. Segundo o ancião, tratava-se de uma cidade pouco conhecida, visitada particularmente por sujeitos de alto poder econômico que, com o objetivo de afastarem-se dos dias festivos, iam para Nehen usufruir dos seus belíssimos e caros chalés. Interessei-me, é evidente, mas desde a passagem até a hospedagem era preciso alguns rins de pagamento. Por sorte, ou não, o bom homem quis fazer a caridade natalina de me permitir ingressar sem bilhete ― já que eu estava em prantos incorpóreos, com a fronte franzina, cabisbaixa, demasiado abatida e profundamente símil a um ser moribundo. Além disso, o homem revelara-me que um velho chalé, o mais afastado do mais apartado centro de Nehen, pertencia à sua tia e ele poderia, pois, alugá-lo para mim com condições de pagamento menos sufocantes.
Apesar da suave alegria que dera, pois, o ar de sua graça nos segundos discorridos após o ato de compaixão, não senti o júbilo qual expectei e, talvez por isso, sequer contestei a revelação posterior do homem ― Jonathan D’orvalho ―, mas fremi em certo grau com ela ― o que agora entendo como um tipo de aviso intuitivo. Jonathan entornava recomendações acerca da hospedagem qual eu seria obrigada a permanecer por uma semana ou mais ― eis a revelação ―, uma vez que, afirmara, não há possibilidade de retorno de Nehen até que a nevasca cesse ― qual nevasca? Eu indagaria, mas o senhor D’orvalho antecipara sua resposta e explicou que há um dia havia iniciado uma grande nevasca em Nehen e, esta, em breve chegaria às cidades centrais de Ahvalanch.
— Aproveite, minha jovem, que há uma lindíssima biblioteca na vivenda de madeira e tire algumas horas para ler sobre Nehen. ― dissera-me no cortar de seu raciocínio; a tal nevasca estava demasiado intensa e a previsão não estava tão boa para os próximos dias, ela decerto acometeria todo o estado, impossibilitando que os trens galgassem principalmente no cruzamento do leste, a ponte estaiada, e outras linhas próximas das cordilheiras, uma vez que o congelamento da superfície poderia desnivelar os trilhos e comprometer o comboio ― o qual Jonathan não hesitou em enunciar, a cada segundo, sua tradicionalidade, fazendo questão de desvelar o regozijo que sentia por ser maquinista dos trens de Ahvalanch há mais de cinquenta anos.
Resolvemo-nos e pude acessar o interior de Aecqer. Era mesmo um trem mais luxuoso, verdadeira classe alta, com passageiros que, mesmo sozinhos, reservavam cabines grandes para o conforto egoísta que não hei de objetar, eu também preferiria a solidão. Por infortúnio maldito, minha insistência corroborou ao objetivo primevo, isto é, eu estava de partida. O corredor do comboio era belíssimo, embora eu tenha pouco vislumbrado a sua extensão, pois eu estava apressava em encontrar a minha cabine. Eu precisava de um descanso agradável e taciturno.
Ao adentrar a pequeníssima sala, avistei um homem sentado no sofá esquerdo, em silêncio; eu não esperava por isso e retrocedi alguns instantes na memória para lembrar das cruciais recomendações de Jonathan, em algum momento ele decerto dissera acerca do compartilhamento da cabine, acredito; eu e minha maldita incapacidade de prestar atenção, não por menos, pois eu estava profundamente sorumbática, como já vos disse, nada era mais digno de concentração do que minha própria soledade. Sorri tímida, seus olhos estupidamente claros fixaram-se em mim como duas joias raras cujo núcleo era dominado por um exíguo abismo nocivo.
— Íris? ― Indagara-me. Sim, alguma coisa eu perdi no meio do caminho entre a conversa com Jonathan e o encontro com aquele ser estupidamente belo ― não estou, pois, lhes revelando quaisquer sentimentos senão aqueles que permeiam a pura e simples estupefação, aquele homem era belo, belíssimo, demasiado bem-posto, amedrontadoramente venusto, eis a primeira ponta de verossímil desconfiança que fiquei. Nenhum ser humano, mesmo com toda a tecnologia possível, seria capaz de ter aquele aspecto tão esplêndido.
Meu sorriso emergido continha profundo incômodo e ao homem eu me apresentei, sim, apresentei-me e questionei-me o fato dele já saber o meu nome ― “não tire satisfações”, eu pensei, “isso não importa”, eu pensei. Eu preferia mesmo é que permanecêssemos em silêncio e, na medida do possível, distantes. Sentei-me à sua frente e nada mais lhe dirigi, desviei o olhar, pois, como um quadro, eu poderia olhá-lo pela eternidade ― e não é, pois, que estou a olhá-lo desde então? É o meu anátema, oh sim, a minha maldição.
Desconfiada e desolada, senti os segundos vastos como eternidades de meu completo desconforto, enquanto insistia em me convencer de que Jonathan havia sim falado sobre aquele homem, embora não houvesse nenhum resquício de lembrança, nem a ínfima reminiscência, a favor desta possível verdade; senti-me indisposta rapidamente, pela veemência que a timidez atravessava minhas entranhas, além do lapso mental e todas as minhas opressões internas.
A cabine era um cômodo pequeno com dois sofás, um de frente para o outro; a grande janela ao lado mostrava a paisagem noturna que surgia no horizonte abismal. Já do outro lado, à direita, havia apenas a porta de vidro escuro e ornamental, bem intacta, venerando o que acontecia no sepulcro daquele antro. Tentei cessar o pessimismo e o desalento até que fui novamente cingida por aquela voz; falei-vos da voz? Um grave-rouco, perturbador e instigante, de caráter unicamente persuasivo, peculiarmente imponente mesmo possuindo calma e suavidade em seu timbre. Entrevi-o sem desejar olhá-lo, mas fortemente ansiosa para.
— Edgard Venesthron, é um prazer conhecê-la ― ele disse. Sua mão à minha direção, mirei-a em completa ausência de reação até ser capaz de tocá-la. Era absurdamente álgida. Sorri mais uma vez, constrangida e com grande transtorno inexprimível. Voltei-me à minha mala e retirei dela uma revista qualquer para minha leitura desprovida de raciocínio e conhecimento. Diante daquele embaraço acentuado, tudo o que eu almejava era passar o tempo enquanto sentia a apática friagem invernal vagarosamente se estabelecendo ao redor. Assim como eu estava exausta naquela época, bem, eu continuo, embora um pouco mais.
Peço que me desculpem, eu não estou bem, enquanto escrevo sinto-me à deriva em um oceano de exaustão, este é o terceiro dia desde que decidi relatar-vos a experiência que tive com a sutileza vil do horrífico aquém, e agora acabo de acordar, estou sob o crepúsculo demoníaco e minhas instáveis visões estão perturbadoras, além do que estive há anos acostumada. Nesta noite aquele sonho retornara para ludibriar e decair todo o meu esforço de esquecimento, lá estava o homem na janela, como seu quadro, observando-me. Por vezes hesito em continuar a escrita desta carta, porque me pego continuamente descrevendo inúteis detalhes que não deveriam estar aqui, que tipo de relato estou fazendo? Isto não é ficção! Logro mais indulgência, quero ser mais concisa, entretanto, conforme adentro o cerne do horror, ele aparenta estar mais claro dentro de mim e não posso apenas destruir o que já foi redigido com tanta alma e que possui um caráter intensamente relevante, pelo menos para mim. Acabo de pedir para ser colocada esta noite na sala acolchoada, sei que estarei segura lá, fisicamente.
Quarto dia de escrita desta carta e agora eu volto ao dia vinte e três, ao comboio, ao homem na cabine. A minha leitura naquela noite, notei após alguns minutos, residia em assuntos de entretenimento pouco dignos, eis a razão pela qual me dispersei ainda mais, entretanto vi pela visão paralela de minhas retinas que Edgard movimentava-se e observava-me e, antes de ousar fitá-lo em retorno, uma moça batera lentamente à obscura porta cristalina, três vezes; foi Edgard que a atendeu, dissera-lhe para entrar. A moça abriu a porta da cabine e sorriu para o senhor Venesthron, foi um largo, extenso e sombrio sorriso, aquilo me enojou de modo irracional, contudo havia alguma coisa de horrendo naquele feitio, uma face estranha que incomodava tanto quanto a beleza de Edgard que me prendia tão cruel, porém antes do prolongar de minha racionalidade a respeito daquela cena, Edgard interrompeu meus pensamentos indagando-me se eu desejava algo, quem sabe um chá.
Nada, eu nada pedi, minha resposta esvaiu sem voz enquanto Edgard solicitava um tipo de vinho seco para a moça e lhe tratava com demasiada cortesia, algum clima acontecia ali e eu, ébria demais com a melancolia, fracassei em notar quaisquer atmosferas dissemelhantes à minha própria, que era densa e nebulosa. Isabelle se foi, sim, Isabelle ― vocês verão no futuro, caso investiguem, que ela nunca existiu, mas por hora eu vos posso afirmar que sim, tudo aquilo aconteceu, e ela foi em busca do pedido de Edgard enquanto ele ajustava seu casaco um pouco mais.
— Uma jovem agradável por sua bela tristeza ― ele expressou, e eu não consegui compreender o teor do que afirmara. Eu estava sã, creiam, e o caráter demoníaco intrínseco daquela situação que se iniciava em espúria inocência foi exatamente da forma que vos relato. Aproveito para expor que minha doença de memória, por infortúnio, não afetou em nada o que aconteceu naquela noite e a razão pela qual verão em minha ficha a condição de “possível suicida” é, pois, que eu tento destruir, com certa frequência, as memórias, sempre me ferindo no crânio para que cada lembrança se dissipe. Vocês fariam o mesmo, eu sei, se estivessem no meu lugar e passassem pelo que passei. Se estou aqui agora, na casa de repouso psiquiátrica, não é porque sou louca, tudo o que descrevo é real, vocês terão a oportunidade de compreender melhor os motivos que me trouxeram até aqui, mas tudo tem o seu devido tempo para ser dissertado. Eu não quis tornar esta carta em algo demasiado emocional, porém, é difícil, trabalho para que ela tenha uma lógica perfeitamente formulada de cada fato e cada tétrica verdade, assim acreditarão em mim, tenho certeza.
Prossigo, sem descanso, aquieto-me nesta casa, eu e a memória fumegante daquele momento em que olhei para o rosto de Edgard e imergi-me em sua face absurdamente perfeita ― perfeita, como um anjo, quão sinistra em sua agradabilidade, como um demônio. Não tivemos educação religiosa, vocês sabem, mas se tem alguma coisa que sei a respeito dos anjos é que alguns caíram na Terra, pelo menos dentro da mitologia cristã, e eu estou certa de que aquele homem não poderia ser humano, por vezes sei que paro para analisar hipóteses sobre a sua verdadeira origem, jamais chego à nobres conclusões.
— Está falando de mim? ― perguntei com certo fremir em meu baixo timbre. Edgard, o maldito, sorriu para ascender a sua gloriosa forma.
— Não, não, estou falando de Isabelle, mas, bem, você também beira as margens da consternação, então, posso afirmar o mesmo de você. ― Sua narrativa embrulhava meu estômago e eu tão rápido passei a sentir uma nascente gélida de suor em minha espinha dorsal. Voltei-me aos meus pertences, sem responder a Venesthron, em busca de uma garrafa de água esquecida para aliviar o que estava engasgado em minha garganta. O homem ainda me olhava, a sua desumana visão era tangível e tocava minha tez como se fosse as suas mãos galgazes.
O alívio, oh sim, o alívio da sede foi transmutado na agonia mais execrável; vocês pouco imaginariam, mesmo que suas mentes estivessem banhadas do azeite fétido do averno, ainda assim vocês não seriam suficientemente bárbaros de imaginar que aquela garrafa, naquela pequena abertura, na parte frontal da bolsa, estaria ― eu juro por tudo o que há de mais sacrossanto ― abundante no mais rubro e denso sangue, cheirando à ferro; era assim que estava, escoando como se crivada intencionalmente ― quem dera, quem dera fosse uma divagação.
Assustei-me com um furor tão descomunal que mais célere do que era possível prever, como um reflexo, um feixe de luz frenética, arremessei aquela coisa na janela e a vi espatifar... todo o sangue verteu e terrificou ao jorrar-se em nossos corpos. Fiquei atônita e imóvel; o sangue borbulhava e, como exprimir o inenarrável? Aquilo era... tão impossível..., mas ao mesmo tempo era nítido de modo intimamente infernal.
Uma eternidade de mudez pela paralisia perdurou até ouvirmos Isabelle novamente à porta, olhei-a na escuridão fugaz de minha visão estendida, provavelmente, pelo pavor. Isabelle adentrou a cabine, entregou ao homem o vinho seco e partiu. Desta vez sua feição era mais horrenda, como se ela estivesse sorumbática e fizesse, eu pressenti, o possível para não se virar para mim, portanto, não pude vê-la completamente, ela se foi mais apressada do que antes e aí está mais um sinal de que sua realidade não era a mesma que a minha e que a sua constituição não era a constituição humana. Ela simplesmente não notou o sangue e sequer questionara o estrondoso som, como pôde? Eu estava tão perturbada, posso sentir na minha língua agora enquanto discorro estas letras de infortúnio; mais do que isso, eu estava intrinsecamente inibida pelo horror, pela face do mais grotesco horror.
Mas... o sangue... Sangue? Não havia sangue, não havia água, não havia garrafa. Edgard bebia o seu vinho e olhava atentamente para mim com seu ar galanteador enquanto eu não encontrava nenhum vestígio da cena terrífica. Em um átimo... tudo se foi... nada do mórbido ebulir férreo sobre o rubro oxidante que tão há pouco fora apreendido, nada daquilo estava acessível na realidade. Eu... eu me desolei... minha alma pesou na difícil e funérea sensação de insanidade; tudo o que me faltava, pensei, era me tornar uma louca e, no íntimo mais soturno, depressiva; senti que em meus olhos as lamúrias brotariam como erva daninha e que, na relva aparada da angústia, as águas salgadas verteriam para alimentá-las e fazê-las proliferarem-se até cobrirem todo o meu corpo e me estrangular, mas eu as interrompi quando Edgard questionou-me:
— Está tudo bem? Parece assustada. Foi o que eu lhe contei? Se for, por favor, não tema, isso é tão somente uma coincidência ― alegou Edgard. Eu estava sim aterrada em pânico, no entanto fui capaz de questioná-lo ― de modo um tanto incivil, admito, o que o deixou sutilmente austero, seus ares triunfantes diminuíram, todavia eu simplesmente não sabia do que ele estava falando e a seiva do inferno respirava no meu intestino. A resposta de Edgard foi sensata e em absurda genialidade, não pelas palavras em si, mas porque o que ele dizia era irrefutável e por isso me acometeu ainda mais a sensação ordinária de ambiguidade meândrica.
“Você indagou sobre o que faço e eu lhe disse que sou escritor e lhe apresentei, em suma, um dos meus livros sobre uma mulher curiosamente chamada Íris” ― explicou. Eu não sei o que houve entre a busca por uma garrafa de água até o sutil instante não vivido de um diálogo tão perfeitamente formulado. A seiva gotejando da janela ao chão frígido ainda reluzia e cintilava como um astro no meu pensar. “Você também disse ser ilustradora” ― acrescentou. Levei minhas mãos à minha testa e tentei compreender o que acontecia, eu só podia não estar atenta aos horrores daquele momento por causa da maldita melancolia ― é isso, meus caros, a tristeza profunda, o vazio.
Que sirva de lição a todos que lerem este relato, a condição depressiva é o pior de todos os males, é como se o corpo rejeitasse quaisquer informações de caráter perigoso ou duvidoso e, portanto, não se qualificasse na tarefa de ativar seus instintos de proteção e sobrevivência; estar vulnerável ao mundo, sem filtro, sem cuidado, e com disposição contrária, é um erro, o pior de todos os erros inconscientes. Olhei para a janela de novo e pensei no cenário estendido em exagerado breu, nada além da obscura paisagem enquanto o pouco silêncio, que se propagava na cabine e acolhia-me em toda a aflição gélida, foi mais uma vez obstruído pelo meu sentir nauseante, suspirei a dor, quis me controlar, mas as grandes aguilhoadas em minha cabeça, como golpes bestiais, acometeram-me de modo inenarrável, era um tipo de enxaqueca nímia que me fez levantar e sair da cabine em busca de um banheiro que me permitisse a solidão. Levei comigo alguns de meus remédios, cujas receitas estão anexadas a esta carta para garantir-lhes que nenhum deles possuíam efeitos colaterais alucinógenos, sim elas estiveram comigo até hoje porque precisei delas muito mais, uma vez que as dores se estenderam continuamente dia após dia desde então. Não observei bem a reação de Edgard, mas, dentre as confusas e inconstantes visões causadas pelo sucessivo fechar de olhos como reflexo dos árduos espasmos, ele parecia incólume frente à minha reação febril e súbita.
Foi então que me vi no corredor, aquele corretor que outrora era magnífico e que naquele momento tornara-se análogo a uma dimensão de severo esconjuro insuportável, em certo nível de turvação eu observei as cabines pelas singelas frestas dos vidros das portas ornamentais e me vi mais do que espavorida diante daqueles corpos; as pessoas estavam apáticas, estáticas, secas e todas com um semblante de horrenda agonia; muito semelhante à Isabelle, embora cada indivíduo expressasse um suplício tão próprio. Aquele calvário insólito arrefecera-me, o abalo cerebral ainda pulsava quando me vi apressada em busca de um refúgio do cenário aziago que me vinha de encontro. E a cada passo, um agouro; e o som do trem em contínuo oscilar. Indago outra vez, seriam vocês capazes de conceber a ideia de um espaço subvertido, outrora tão admirável e então, em um átimo, um mofino átimo, integralmente enfermiço? Os rostos, os risos, as consternações mórbidas. Não era magia, não, sequer um tipo de trabalho pagão cuja oferenda era, pois, eu mesma; não, não se tratava disso, eu podia sentir por cada um dos meus cinco sentidos; era algo bem pior do que tudo o que já havia sido visto até então.
Encontrei um lavabo e fechei-me em seu antro estreito, de imediato coloquei dois comprimidos em minha boca e com a água da torneira tomei-os, mas, em desespero não a vi de imediato, só a vi quando fitei aquele espelho de moldura ornamental à minha frente, a água que eu bebia era imunda e negrume, embora de gosto neutro; ela tinha um aspecto esverdeado e nojento, sim, era como ter um pântano na língua, ó mais um pavor! Assustei-me tanto que abandonei o cubículo com mais pressa do que antes, para tentar despertar a mim mesma daquele pesadelo deletério. Quem dera fosse só um pesadelo de uma noite conturbada, quem me dera. Foi mais um daquele piscar tão singelo, a visão toldada, e eu estava de volta à cabine, não sei exatamente de que modo consegui passar pelo cemitério dos vivos, dos semblantes infelizes prostrados em perturbação e afetados na paralisia imortal de seus introspectivos desgostos, não sei como, todavia, consegui e eu estava na cabine, meu cérebro ainda pungente na agonia, e eu olhava para Edgard enquanto ele admirava um papel à sua frente, fascinado, com sua fronte em límpida formosura, tão diferente dos demais rostos enlutados na desgraça. Quis revelá-lo o meu horror por um segundo, mas esmaeci nas ondas de seu proferir.
“Está perfeito! Você é uma exímia artista!” ― Sem compreender e completamente espantada, recebi de Edgard um papel e eu o vi. Ali estava uma ilustração em grafite com o rosto de Edgard numa janela de um tipo de quarto numa casa rústica. Era uma ilustração perfeita, bem próxima as que eu fazia quando jovem ― hábito que perdi com escassez mundial de papel. “Sinto-me honrado por esse presente, mas, por favor, assine!” ― pediu. Onde estava todo o sangue e todo o horror da água negra? E os rostos e as intensas dores? Quis dizer-lhe que eu não havia desenhado aquilo, mas, a melancolia, o medo... entreguei-lhe o papel sem assinar, eu apenas queria fugir, mais uma vez fugir, fugir era a minha lei, o meu único possível, e eu pensei que estava salva quando o trem parou, havia se passado duas horas e a viagem chegou ao seu fim, não posso afirmar saber como todo aquele tempo passou, soava-me no máximo meia hora, eu não sabia se estivera mesmo em um sonho ou se tinha sido envenenada ou se algo entre o espaço-tempo trouxera a lacuna mais perturbadora de minha existência, eu não sabia e naquele momento como eu poderia saber?
“Eu... preciso ir” ― eu disse com dificuldade, Edgard apenas sorriu para mim, de novo, acenou com seu chapéu e viu-me deixar a cabine levando comigo todo aquele martírio. Eu não olhei ao redor, esbarrei naqueles corpos que se retiravam do comboio, mas eu não os fitei; fui o mais rápido que pude para fora daquele poço, mas ali eu já estava completamente submetida ao horror aspecto de Edgard Venesthron, sua imagem não esvaía, sua voz não se esquecia e se eu não estivesse tão assustada, voltaria para questioná-lo e para, estranhamente, só estar com ele. É isso que ele faz.
Cheguei até Jonathan, vocês podem imaginar o quanto fui rápida, eu queria descansar do caos que se repetia em minha psique ou, ao menos, entender um pouco de seu fundamento, algo me alertava que aquele homem quase inabitado por palavras não deveria ser real e esperei em Jonathan encontrar as respostas quais eu almejava. Lá estava ele, se preparando para deixar o ofício amado, embora provavelmente descansaria em alguns minutos e retornaria para a capital. Tão logo ao me encontrar, Jonathan questionara, solícito, sobre minha viagem e eu ainda mais inocente afirmei-lhe que o homem com o qual dividi a cabine era um tanto excêntrico. O homem qual eu dividi a cabine. Edgard Venesthron. Quem sabe alguma informação pertinente, não é mesmo? Algumas informações sobre a origem de Venesthron, porventura seu contato ou quiçá um reconhecimento singelo que me acalmasse ao afirmar, mesmo com astúcia, meu equilíbrio psíquico, entretanto, tal como eu imaginei, as expectativas caíram por terra. “Ó, não, deve haver algo errado” ― afirmou o senhor D’orvalho. “Eu a direcionei a uma cabine vazia e, pela lista de passageiros, tudo estava perfeitamente correto, era previsto que uma cabine estivesse vaga” ― declarou, eu não insisti... Edgard Venesthron... Edgard Venesthron estava lá, não pode se tratar de um delírio ― pensei ― tampouco de algum outro tipo de deslize mental, seja qual for, as cenas eram vívidas e indiscutíveis ― eu quis me convencer. Não fui capaz de indagá-lo, é verdade, sequer de dizer o nome de Edgard, pois, temi ter minha estabilidade questionada e, consequentemente, não ter mais minha estadia permitida nas vísceras de Nehen. “Minha querida Íris, vamos, venha, eu a levarei para o chalé agora, tenho pouco tempo para voltar à cidade depois disso” ― advertiu Jonathan.
Meia hora até a moradia mais afastada de Nehen. Pelo caminho aprendi que na historicidade daquele pequeno lugar-nenhum, havia, pois, uma estirpe que por séculos governou a restrita população da cidade lá no centro, onde casas populares se ergueram. Na época os chalés eram poucos, mas bem funcionais para o turismo que abençoou mesmo a população mais simples. A família-governo, aparentemente justa, sempre dividia de modo razoável todos os ganhos conseguidos com os aluguéis em temporada de inverno, de modo que todos os moradores mais simples puderam erguer seus próprios chalés e passaram a alugá-los pouco tempo depois. A população continuou morando no centro, com a fonte de renda principal vinda dos chalés e, claro, do comércio local. Embora essa história me soasse profundamente interessante, eu só conseguia pensar em Edgard, em sua face perfeita e o horror entorno de sua existência, entendo o esforço de Jonathan em entreter-me com aquelas explanações, eu quis dar-lhe atenção, mas fui incapaz.
Tão logo ao chegarmos no Chalé da família D’orvalho, percebi que havia muitos quadros antigos, pinturas clássicas de rostos e pessoas desconhecidas; segundo Jonathan aqueles eram da estirpe governante de Nehen e aquele chalé pertencera a eles até que o último herdeiro conhecido o doou, ficando apenas com o castelo das montanhas; o indivíduo faleceu ainda lá e dizem, pois, que sua alma vagante permanece nos cômodos obscuros do alcácer ― esta foi a explicação de Jonathan.
“Quem foi o último herdeiro?” ― perguntei e a sua resposta misteriosa poderia ter me atiçado a curiosidade se não fosse pelo meu estado de espírito tão débil.
“Você saberá quem é, está no belíssimo quadro fixado à parede frontal da suíte” ― explicara.
Fui deixada na casa com os quadros e os rostos, a madeira escurecida e o frio. A lareira estava acesa e eu analisei cada espaço dos cômodos de meu atual lar. Para o meu infortúnio havia mesmo uma imensa moldura no quarto e, imaginem, ela carregava o rosto de Edgard pintado em tinta óleo. Eu não dormiria naquele antro ou assassinaria aquela maldita pintura, foi o que pensei, mas aquela beleza chamava-me e observá-la era uma sede imoral que me acometia com furor, ó, e que furor! Acomodei-me na sala por um tempo, mas tão logo retornei ao quarto e por ali permaneci, com o rosto de Edgard observando-me cuidadosamente como uma negra coruja à espreita, acima dos altos galhos de um carvalho seco. Os olhos azuis, a perfeição.
Eu apenas o fitava, demorando-me a piscar, para contemplar toda a sua graça inenarrável e assim se estendia a noite lúgubre e a cada segundo eu me envolvia mais à sua simetria; foi neste contínuo admirar que um tormento se revelou em assombro perturbador, taciturno e hediondo. Levantei-me da cama com lassidão exacerbada ― com meu corpo tão ártico e minha alma dilacerada na ilusão do encanto ― e aproximei-me do quadro, sem tirar minha visão de sua inquietante sublimidade. Assim ousei tocá-lo e ao fazê-lo uma vaga sombra acomodou-se pelo quarto, sim, de modo indizível, desalumiada atmosfera; como se uma névoa alvacenta viesse devagar pelas frestas, nas janelas e portas, em quaisquer tênues lacunas. Era como se todas as luzes diminuíssem e se tornassem estranhamente rarefeitas. Toquei-lhe toda a extensão do rosto e não me apeguei ao horror de estar, pois, da mesma estatura que eu, sim, o quadro, não estava imenso como estivera se observado em distância considerável; ao me aproximar toda a sua dimensão foi afetada, era como vislumbrar Edgard em sua real constituição, bem à minha frente, separado tão somente por uma camada de óleo, pigmentos e tela.
Toda a experiência macabra do sangue e das águas negrumes e dos rostos sorumbáticos que estivera até então singularmente inexpressiva em mim ― como forma de privação do que achei ser minha loucura ―, retornou vívida quando meus níveos dedos harpejaram os lábios enrubescidos do quadro, com o cuidado de quem toca um instrumento divino pela primeira vez. Hesitei, levei minhas mãos ao meu rosto suado, a dor de cabeça volveu e eu ouvi, claro que ouvi, era a voz de Edgard vindo da biblioteca já mencionada por Jonathan antes mesmo de minha viagem. Olhei imediatamente para a porta e vislumbrei o corredor, caminhei devagar, ó como era nítida a sua voz clamando meu nome como música fúnebre; eu tive a esperança de vê-lo, uma tétrica esperança de intransigente autenticidade que posso descrever-vos como uma reza ― eu jamais havia rezado antes daquela viagem, entretanto tive de aprender e agora eu sei que me acometia, pois, uma sensação de prece ao mais bondoso de todos os deuses enquanto, no íntimo, eu almejava e esperava com afinco o perturbar do mais feral demônio.
Cheguei ao recanto, abri suavemente sua porta maciça e barroca que rangia insalubre, e adentrei. As estantes eram altas e perfeitamente arrumadas, embora com bastante poeira, senti-me instigada com o conhecimento que jazia ali, pois os títulos dos exemplares ressoavam a antiguidade de suas histórias rompendo a barreira do tempo, muito mais do que eu poderia prever. Tateei devagar cada um deles nas imensas prateleiras ― muito embora eu estivesse tensa e ainda com aquela enxaqueca dos precipícios de meu averno. Eram obras raras, percebia-se pelos títulos, muitos em latim e outras línguas quase mortas. Observei por minutos longos todos os abandonados papéis na escrivaninha também, documentos perdidos ― indaguei-me sobre quantos anos alguém não inspecionava aquele recôndito, era tão grandioso. A grandiosidade daquele lugar, entretanto, não trazia sentires fleumáticos, sua aura agoniava e minha abominação renascia das covas, reencarnado em estranheza e medo, muito mais quando os dois candeeiros próximos à escrivaninha se acenderam em chamas negras e, ainda, reluzentes, trouxeram a voz de Edgard outra vez.
Se não fosse o seu valor, para mim, tão estranhamente fascinante, eu decerto teria fugido daquele lugar no momento seguinte de sua voz ter, pois, espargido pela primeira vez na densa neblina que cobria cômodo a cômodo; ou ainda o teria feito logo ao ver o quadro na parede; contudo Edgard era fascinante, deslumbrava-me, horrorizava-me e seduzia-me. As circunstâncias favoreciam a permanência, além de meu completo abandono aos recursos primitivos de autocuidado, o feitiço daquele ser já morto ― e revivido por algum tipo de patogênica alquimia ― conseguia cativar toda a minha atenção e assim me fazer estar ali. Foi por isso que não fugi ― tal como me era ordinário fazer ― e, por consequência, as escuras chamas, em um paradoxo inconcebível, iluminaram um livro na estante e, neste livro, eu não sabia, o feitiço fúnebre habitava do mesmo modo que a tragédia e a agonia me habitavam.
A obra estava na segunda prateleira atrás da escrivaninha, era a única de capa cor gaultéria, escrito em dourado rústico. Acerquei o exemplar com todo o desvelo que a mim mesma jamais doei, sem esforço notei que meu nome era proferido bem ali, aquela era a fonte da voz de Edgard e que harmonizava com a ansiedade que me sorvia: “Íris... Íris” ao passo que segurei o livro, finalmente, muito apreensiva, e li seu título cursivo: “Minha Íris” escrito por Edgard Vanesthron, todas as agulhadas em minha fronte esvaíram como chuva de verão assim que li aquele título, e o vazio deixado pela dor ocupou-se de sua lembrança, para me oprimir silenciosamente; junto dela, uma expectativa infesta de encontrar na leitura compulsiva, sob a rédea do extraordinário, algo próximo a um vínculo sentimental, além, claro, da avidez desvelar o que havia nas páginas daquele livro e por que ele me chamava e por que encontrei Edgard ― ou o seu espírito ― em meu caminho. Pelas indagações e pela diabólica atração, decidi lê-lo, inda que debaixo da angústia que advinha da asfixia, do pesar árduo que me consumia e da afronta que me esperava, serena, para o xeque-mate.
Vislumbrei as primeiras folhas de seu interior, e admirei-me ao ter a consciência de que eu estava mesmo ludibriada, o apego na possibilidade de estar frente uma majestosa, romântica, ― e mais ainda ―, mágica e cálida história, repercutia em meu espírito sigilosamente, por conseguinte comecei a ler cada singela sílaba em voz alta e nítida, ato este que cessara sem que eu percebesse e não poderia ser diferente, toda a formosura exacerbada protege uma verdade dantesca vinda de suas entranhas e eu comecei a notá-la assim que me embrenhei na primeira estrofe. O bálsamo daquela simetria de Edgard, a ambição por seu tom, a ganância por suas retinas, a vasta relevância de seu enigma e, por fim, o meu caos afetivo, chocavam-se com a factualidade coexistencial, tão mundana, discorrida naquelas folhas cor de pólen, arfando-me frente a tal medonha malignidade.
Edgard escrevera cada coisa ― repito, cada coisa ― acontecida no período da viagem que fiz em Aecqer, acreditem ou não, estava escrito e possuía detalhes meus que nem mesmo eu poderia saber; como se não bastasse, a dissertação incluía os pormenores funestos da mente daquele sujeito ― quem me dera nunca os ter conhecido. A assustadora narração do amaldiçoado romance transtornou-me a um pânico umbrífero, paralisei, a verdade era-me intimamente aterradora, minha sepulcral condição anterior a tudo aquilo jamais seria símil à mediocridade da vulnerabilidade que compreendi estar sujeita sabe-se lá desde quando, pois, se a narração se iniciava no trem, como julgar que tais presságios terríveis não vieram de outras histórias absconsas? Quais eram as magias ocultas invocadas por Edgard? Que tipo de diabólica premonição era aquela? Sua sombra estava sobre mim e como eu me lembro... lembro-me tão bem e posso, e irei, transcrever agora até onde minha mente suportar.
“Eu estou morto ― onnomapherhesí ― todavia, pelo antro de Pherhesí, veem-me ressurgir como anima, tão consciente, como se vivo; em vida redigi a beleza execrável do que acontece ― onnomapherhesí ― no futuro, no dia vinte e três de dezembro do ano dois mil e setenta e três. Ela, de nome Íris, com agradável aspecto, está digna e pronta ― onnomapherhesí ― para os horrores que estou cometendo, a começar pela angústia lôbrega que faço jorrar aos seus lábios de sepulcral-escarlate. Eu a escolhi e ela é minha, pertence à fonte primeva de Pherhesí, esta fonte que eu sou, assim, ― onnomashryos ― por meio da permutação, fazemo-nos uno espectro das sombras de modo a germinar o primogênito do vigésimo segundo século, o século da soberania ― onnoma ehret ― de Pherhesí. Meus planos são incontáveis, minha sede é a sede de Pherhesí e eu estou em Aecqer, o comboio, e eu espero Íris pacientemente ― Aecqer phrephahen ― tenho o poder de ludibriar estes seres da terceira dimensão, pois já não faço parte dela e, mediante Pherhesí, eu sou imortal, eu ― onnomashryos ― abismo o novo mundo com o meu eterno retorno. Íris alcançara a languidez precisa para o meu desvelar como anima e, por isso, não há dúvidas de que eu a conduzo pelas palavras originárias.” ― escrevera.
Como eu gostaria de olvidar aquilo tudo. Cada frase daquela primeira estrofe ressoava em meus ouvidos, minha voz não tinha vigor algum para ler, mas o quadro lia, ó sim, mesmo estático, mesmo no quarto, mesmo distante, ele lia ao pé de meu ouvido, tão limítrofe à minha cerviz com sua névoa agora opaca a incensar o ambiente de madeira; o seu vil poder fulgurava e eu, apenas e por demais, lia. Nenhum tipo de oxigênio parecia ser capaz de alcançar meus pulmões, tudo isso no parágrafo exordial; meus olhos, no entanto, transitaram frenéticos na alínea seguinte e eu não pude contê-los. Compreendam que a dificuldade de transcrever a memória tão estável daquelas páginas crescera, pois agora absorvo Edgard se aproximando de mim outra vez, posso assimilar sua presença prestímana como há tempos não apreendia e, por isso, minha dúvida a respeito de conseguir continuar a redigir esta missiva arde bem mais do que outrora, arde tanto que já não durmo porque eu sei, ele estará lá para me aprisionar. Tenho certeza de que as palavras ― as malditas palavras impronunciáveis e repetitivas ― são a razão do que agora me acomete, deste intrínseco desespero, desta medonha sensação de companhia. Sempre que penso naquelas palavras, uma consumição emerge insípida e se demora a esvair; não seria diferente agora em que as escrevo, aliás, talvez por escrevê-las, tenham mais poder sobre mim.
“Quão bela, minha bela, minha Íris; sinto seu choro, ouço o seu pesar; cada passo seu conta-me um desespero singular que traz cálido conforto ao predomínio de Pherhesí. Quando o corpo de Íris adentra a cabine de Aecqer, eu vislumbro a sua sujeição ― onnomashryos onnomapherhesí ―; profiro seu nome para deixá-la perturbada e ela está perturbada tal como aprecio, possuída de uma soturnidade nímia cujo perfume declina-me ao fogo do inferno profano. Seus pensamentos são estes ― onnomapherhesí ― de angústia e incerteza: “Jonathan dissera-me a respeito deste homem? Que beleza estupidamente fascinante! Estes olhos, parece que posso fitá-lo pela eternidade.”; assim ela se senta e promove cada um de seus questionamentos ao obscuro de sua melancolia, é assim que eu a quero e por isso é assim que acontece, mesmo no furor de sua razão, toda a autopreservação há tempos lhe foi tirada, para ser digna e estar pronta ― onnomashryos onnomapherhesí.
Apresento-me, embora todo o seu corpo já me reconheça; ela sorri no embaraço de seu incômodo ardiloso. Isabelle surge, tal como previ, para trazer-me um pouco de vinho; nada disso é real, mas sei que envolve Íris de modo a apaziguá-la para o que há de vir, seu desconforto é a minha morada, de fato, e traz as pujanças cruciais para o efetivar da primeira das suaves ilusões que tramei há muitos anos, desde quando sua elementar treva formou-se no cerne da sua desgraça, eu poderia achegar-me na realidade tangível que a cinge sem os jogos quais aprecio, mas sou em demasia admirador da beleza fúnebre, por isso oscilo a serenidade com o pavor, o horror com a angústia, a agonia com a quietude, ó quão aprazível. Aqui está, minha Íris, em busca de alívio, vejo-a e faço a minha seiva viva em suas mãos, a reação de seu rosto tristonho, ó, tão delicada, tão deslumbrante lutuosa constituição, transforma-se em pavor atônito partindo de uma reação súbita. O sangue que ferve tão logo se orvalha sobre nós, admiro-a na repugnância e ascendo o poder de sohmphorhen”.
Devorei suas palavras como um demônio devora um ser vulnerável, como Edgard devorara-me e devora novamente pelo seu retorno hediondo. Sinto-me nas anuviadas ojerizas, possuída de fraqueza e aversão. Acreditem, o que li perfurou-me tão inerente que, como posso explicar, toda a índole lúbrica, a feição mortífera, o traço indigno comprimiam meus órgãos e impediam-me de sustentar vida. Estava, igualmente, cada vez mais árduo sustentar o corpo; as minhas pernas trepidavam tal como minhas mãos vibravam, todo o meu equilíbrio se desestabilizava e meus sentidos alçavam cumes opostos, de minuto a minuto; eu era capaz de ouvir o crepitar da lenha na sala e a efemeridade das percepções queimavam no meu calvário. Eu gostaria de ainda ter aquele livro e eu o teria em minhas mãos se não fosse pela fúria de queimá-lo, instigada pelo crepitar, na busca pela sanidade e pelo aprumo, apenas queimá-lo e assim vê-lo desfazer-se na magia tétrica das chamas umbrosas. Demorara a, para a minha infelicidade, advir este esforço de coragem, uma ou, quiçá, sete mil eternidades ― assim soava para mim, pois o afã, ah, o afã em ler as palavras daquele ser inumano, o afã era o flúmen das veias minhas, a torrente de minha paixão inconcepta e de minha aversão conjecturável. Se não fosse tal híbrido afã ― não importa, essa é a verdade, sem a avidez ou com ela, o destino seria o mesmo, minha via-crúcis esteve sempre consumada.
“Íris, ó, minha Íris, tão estática, aproximo-me de seu corpo e perfuro o portal para o seu espírito, delicadamente, seu eflúvio é agradável e quente; introduzo ali, em êxtase, a minha figura pelo fragmento de minha alma; minha infeliz adorável se assusta e está mais pálida, contudo ainda imóvel pelo pavor, porque o poder de sohmphorhen faz ― onnomapherhesí ― conservar-se a condição inerte de minha desventurada e de todos os pobres infelizes que estão sob o controle pérfido e magnífico de Pherhesí. Ssahmqenehr, Ssahmqenehr Pherhesí, seu poder conduz a humanidade através do espelho de mim sobre o corpo de Íris e sobre o ser do primogênito; tudo o que desvelei e desvelo de sua consciência é a chave etérea, ó Ssahmqenehr Pherhesí, crio mundos com o seu poder, destruo dimensões que se negarem a perpassar a sua grandiosidade ― onnoma ehret. Agora em minhas mãos está Íris, sorrio porque isso a amedronta, a noite é obscura, pois esta é a reação universal diante Pherhesí, o fundamento responde ao poder do fundamento quando este é exposto pela fundação; a criatura é maior agora, e está acima do criador. ― Escute, minha Íris, na eternidade de sua subjugação, retirarei o único fragmento de júbilo que descansa em sua alma, retirarei através de seus olhos pulcros ― digo-lhe, suas lágrimas esvaem em pavor; sorvo-a e sua feição se torna fantasmagórica, sorvo-a pois que foi essa a minha atração desde o princípio, a troca de almas, a eternidade em lembrança e melancolia; neste plano eu a destruo devagar para que refulja sempre e tão somente o seu merencório ser, para a efetivação do perfeito devir do primogênito”.
Porventura haja uma desconfiança, eu sei, estes relatos seriam mesmo reais? Sem o livro de Edgard, provar sua existência é laborioso, mas, tenham certeza de que nada disso viera de uma criatividade bestial, reviver verso por verso, eternizando-os na escrita outra vez tem me destruído, minhas crises pioraram, as paralisias se estendem a pequenos comas obscuros; foram duas paradas respiratórias nos últimos dois dias, está tudo relatado e a tudo isso vocês terão acesso, esteja eu viva ou não. Sabe, reside em minha natureza um imensurável medo de morrer, desde que vi e li Edgard, a morte é o palco de meu drama e, jamais, as cortinas; será que encontrarei ele, o escritor, em algum outro lugar além? Sinto que sim, algum outro lugar além de minha própria alma. Edgard espera-me e eu temo, porém, entrego-me, porque não há circunstâncias suficientemente nobres que signifiquem a vida para mim, ele tirou tudo, toda a ledice, toda a esperança; era mesmo demasiado raro eu ter um momento de prazer, agora é apenas impossível.
“Ordeno a vinda de Isabelle, a alma vagante que encontrei ao vagar minha própria alma jamais desvinculada do que foi, em vida, redigido por meio de Pherhesí. Denomino-a Isabelle para fazê-la real, nomear energias perdidas, eis um inquestionável fato, enleia-as àquele qual as nomearam. Portanto posso moldar, e moldo, a face de Isabelle no horror que me convém, seu corpo é também a minha criação desde que proferi: ‘sehsqor phrephahen’, e sua estrutura humana instituiu-se. Ela adentra para quebrantar a híbrida realidade que transmutei, para abrandar a paralisia sublime de sohmphorhen e trazer meu ilusório líquido. Ordeno que se achegue disposta, sempre apaixonada, e assim apreendo as nuances do encanto de Íris por mim. Íris está no êxtase da melancolia, o apagar da chama frágil de sua alacridade demonstra o efeito esperado, além disso, está estarrecida e confusa com a ausência de todos os elementos sanguinolentos que ludibriei para terrificá-la, é assim que deve ser; digo-lhe sobre nosso diálogo jamais existido, pois não é preciso haver, de fato, já que sei tudo sobre Íris e a manipulo devagar, conforme sua abertura natural chama por mim; sinto-a mais intricada, tanto que suas dores floreiam tal como previ ― suas dores indicam o efeito de estar, pois, em elo com o que está do outro lado, isto é, comigo. Ah, o outro lado, a morada de todos no pós-vida, somente eu, contudo, sou capaz de fazer o que almejo neste lugar-nenhum, só eu possuo Pherhesí. Íris guardará um abismo, assim a preparo, este abismo a deixará no futuro para o vir a ser do primogênito, no entanto, ela jamais se esquecerá deste abismo, pois ele sou eu; hoje ouve minha voz e vê minha face e se deleita e se terrifica, amanhã há de odiar e amar a lembrança.”
Mas há muito, há muito o que vos segredar ― que naquela noite eu desvaneci na agonia mais pútrida, sim, dentro do silêncio mais violento e sem saber como respirar, ó sim, decerto pela alma de Edgard em meu âmago eu fui afetada; ele sabia tudo o que fiz e deve saber o que faço, ele escreve-me desde então, e talvez guie assim minhas próprias ações. Não sei quantas noites passei imersa naquela atrocidade inenarrável, e a escuridão sombria aos olhos vinha como lapsos de imobilidade e tempo, semelhantes ao que acontecera no trem, cenas de indescritível aflição de minhas próprias mãos contra meu próprio corpo, tudo tão frequente e febril, como se eu tentasse destruir tudo o que Edgard penetrara em meu espírito; assim não vi brilhar dia algum; todo o tempo estive com cada uma de suas frases que li se repetindo como um sempiterno sino de mortuário, em especial aquelas que estruturavam a última estrofe que fui capaz de ler; aquela hediondez que no mais inconsciente de mim, eu sei, compreendi, pois foram elas que me levaram à fúria.
“Há de beber sempre este meu dissabor ― eu digo ao vê-la de joelhos com suas escleras fulgurantes enquanto me ilustra com seu grafite a cena que há de se repetir para sempre em seus pesadelos ― abri-lhe os lábios trêmulos e dei-lhe o licor do infortúnio, da blasfêmia, do mais horrífico vazio perturbador que eu sou; e ela bebeu, sua ébria mente tornou-se ainda mais sã sobre sua absurda desolação; agora cada noite mais escura ser-lhe-á e sendo mais escura, há de verter-lhe a solidão e o desconsolo, prostrada ao soturno que eu sou, e ela assina seu eviterno elo comigo, porque toma agora minha essência desta fonte primeva, e ergue-nos ao novo gênesis de um nascimento. Toco-lhe o rosto frígido ― Você pertence ao meu aflito pranto agora, às minhas trevas e à minha atra luz, e chamarás, pela eternidade, o nome de meu fundamento, para que eu lhe afogue no mais côncavo de meu oceano elegíaco e guie todos os seus rumos. O primogênito há de tomar o meu reino e abrir as portas dos últimos abismos ― sussurro-lhe e preceituo, ela obedece e diz, para manar-lhe, por fim, toda a nequícia cruciante: Srhyos ― ela diz por que há de sempre dizer ― Srhyos.”
Não sei bem quando fui encontrada, mas eu estava franzina, violácea e sem forças, em meio à branquidão, e só sei disso porque os médicos me revelaram. Fui levada às pressas para o hospital por um lenhador e permaneci desde então entre o horror da lembrança e a vida que perdi, e como perdi, mais inacreditável do que vocês possam devanear, eu fiquei um ano desaparecida. Do dia que narrei em perfeição de detalhes, vinte e três de dezembro de dois mil e setenta e três, ao dia vinte três de dezembro de dois mil e setenta e quatro. Um ano de fragmentos. A maldição e meu martírio são infinitos; desnutrida, fantasmagórica e sozinha, após ondas bárbaras de demência ― só podia ser loucura, não é?
A perturbação do mais hediondo, a tortura da não-morte e do não-morrer, tudo era minha insânia, eis a resposta do mundo, insânia, nada além dela, alienação e desatino, mesmo que as cenas ditem o contrário e revelam minha luta para sobreviver naquele lugar. Pouco depois de me ver no hospital, consciente, um escândalo floresceu no meu imo, o caos por uma busca: o bebê. Sim, eu só conseguia vociferar sobre o bebê, eu o resgatei na lembrança das cenas vividas naquele ano extraviado e que me vinham em clarões, como reminiscências de um sonho. Doutora Paole contara-me com uma delicadeza indizível: “Os exames revelam uma gravidez, mas, infelizmente, você estava sozinha quando foi encontrada”. Foi entre os pinheiros densos das cordilheiras de Ahvalanch que sangrei, mas não morri, por uma fuga em busca de salvação e, sim, a morte daquele ser vindo de uma imunda concepção de almas, apenas almas, quão horrífico! Não sei como, dei-lhe à luz na neve esquálida e o perdi para a escuridão.
Fui encaminhada para o hospício porque as paralisias traziam sempre alucinações e eu, como um explosivo, buscava a morte súbita ― não queiram conceber a ideia de um eterno nascimento maldito em seu útero, dia após dia. Permaneço aqui porque é preciso... eu sei, eu sei que deveria lutar para defender minha sanidade e talvez retornar àquela mansão tétrica e encontrar aquela criança... eu sei. Mas a confusão que me toma é o maior obstáculo e as crises são nefandas, eu não compreendo o porquê de tudo isso e sei que não hei de compreender, talvez se eu tivesse lido o livro até o fim, para saber meu exício e o começo da vida da criança, talvez. Eu nunca fui uma heroína, eu sinto muito, sou o soturno medo, dominada pelas lembranças, refém de palavras impronunciáveis; eu sou o fundo de um abismo sem fim. Quando miro esta minha face apavorada e aponto a mim mesma a possibilidade de eu ser só mais uma pobre sujeita acometida de patologias mentais, logo me lembro, as cenas, os clarões, as sensações, as emoções, a luta, o bebê, os olhos de Edgard, o licor, o sangue. Não é, não, não é uma desordem da minha psique, eu estava lá e eu sei o que eu vivi.
Eu também sei que sou menos desgraçada por não ter total consciência de cada vivência naquele lugar que não era o chalé, ó não, pois ainda no dia de minha chegada, após a leitura daquele livro ominoso, eu saí transtornada em meu delírio para o meio da nevasca e andei longas horas até encontrar aquele castelo. O Castelo de Venesthron. Seria impossível se o impossível não caísse por terra desde o dia nefando, o dia vinte e três. Ainda tenho minha razão questionada, em qualquer instância, por todos ao redor mesmo depois de tantos anos, eu menti minha identidade para preservar cada pessoa que um dia conheci, pois decerto morreriam de desgosto se soubessem, pois que ouviriam as más línguas que acreditam que eu fui para as cordilheiras para matar aquele pobre recém-nascido e o abandonei no manto do arvoredo; isto não é verdade, não era um pobre ser, era o ser concebido pelo diabo, pelo horrífico, o ser que decerto está por detrás do caos dos nossos dias, da névoa que esparge sempre às dezoito horas e do sol que já não brilha como antes, a ele pertence toda a culpa, que estejam cientes e em alerta, pois se aquela coisa veio a ser de dentro de mim e sumiu naquela escuridão gélida, decerto está viva e abre, desde então, os portais do inferno.2
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Lotus Aqua Obscura
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão.
Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”.
Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”.
Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ― juro aos santos e profanos ― eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila.
Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Alice: No Denso Arvoredo
A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha…
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Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha, pairava, porém, rarefeita, como um gás envenenado em tom alizarina e marsala. O céu era um deserto amarfinzado, aquecido com um malva envelhecido, quase abronzeado. A brisa contornava as folhas ressequidas e, mesmo caindo, muitas permaneciam em seus frondosos galhos, mostrando a grandeza imensurável do arvoredo, com copas gigantes e altas como um titã. Alice despertou sabendo quem ela era, entretanto, pouco depois, quando ergueu seus olhos à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora e, então, se esqueceu.
A grama terracotta, pó de flor emurchecida, parecia abraçar intencionalmente os pés descalços de Alice; conforme ela se movimentava, lentamente a relva a envolvia. “Não… não consigo me lembrar… como posso estar aqui? O que é este lugar?” — Sussurrara quando seus olhos pousaram no horizonte pálido e no oceano que, brando, parecia enegrecido. Sob a guarda de um céu rosa-empoeirado e sob um sol vermelho-pastel, Alice tentava entender a razão pela qual ela estava ali, naquele longínquo e ameno oásis. Um grande veleiro parecia atracado na costa, onde mais havia areia do que relva; parecia perto, entretanto, estava embaçado à visão como uma miragem. O coração de Alice apertou-se de emoção por algo incompreendível, porém, de súbito, algo lhe chamou a atenção.
Um coelho branco de três olhos escarlate e corpo esguio, emergiu da frondejante floresta mastodôntica, enquanto a curiosa Alice o observava, percebeu que adentrar a floresta não só seria uma aventura, mas, talvez, um labirinto pernicioso. O coelho era um pouco mais alto que Alice e bem mais baixo que as copas de folhas vermelhas hexagonais. Ele parecia apressado, era bípede, embora encurvado em sua coluna; seus grandes dentes afiados eram terríficos e o pêlo macio, níveo e fino, era como a gramínea. A criatura saiu da floresta, cavoucou n’uma parte de terra úmida, onde a gramínea era frágil e, dali, retirou um relógio de bolso. Fugaz, adentrou à floresta em seguida — parecia não ter visto Alice.
A aparição de tal animal sinistro, embora assustadora, deu à Alice uma sensação de que a criatura tinha tanta pressa que, certamente, pouco se importava com intrusos iguais à Alice e, portanto, não lha faria mal. Além disso, a fez pressentir que, se é possível que o coelho de três olhos vermelhos saia do bosque colossal e para ele retorne quando bem entender, então, decerto, ela também poderia — em especial se seguisse o rastro do bicho. E assim o fez.
Como o coelho era alto, ao afastar os arbustos e pisar, finalmente, no bosque; ainda era possível enxergá-lo ao longe, pois, por seus passos tão fugazes, ele alcançava uma distância considerável em átimos de tempo. Suas brancas orelhas peludas se destacavam, em especial, por causa das cores outonais opacas e rúbidas de toda a floresta. Deste modo, Alice o acompanhava, porém, por infortúnio, a criatura era, de fato, muito mais rápida que ela e, em segundos, Alice viu-se no arbóreo denso, sem nenhum tipo de sentido para guiá-la. O coelho desaparecera. Os sons florestais eram brandos e as copas altíssimas, tanto que nem mesmo o céu era visto de baixo; Alice sentiu-se minúscula.
— Certo... quão estranho... continuo sem compreender! — Conversara consigo. — Algo me falta, no peito; como se meu coração pulsasse diferente ao qual pulsara desde que nasci... entretanto... como posso distinguir essa pulsação se nem me recordo onde nasci? Pareço não saber quem sou e, ao mesmo tempo, algo sou capaz de intuir... uma pena que esse algo não seja o caminho certo. — Alice olhou para o derredor, buscando o rastro do coelho sinistro. — Nenhum rastro, nem para retornar à costa, nem para seguir adiante... e o que é o “adiante” nesta vasta catedral perenifólia? Intrusa, eu mesma, em um labirinto de fauna e flora, sem nenhuma clareira, sem céu e estrelas que indiquem sul e norte... Parece-me que não sou necessária aqui... ouço pássaros, porém, nenhum pousa próximo; ouço criaturas indistinguíveis, contudo, cá estou, sozinha; nenhuma delas rasteja na gramínea que acolhe meus pés.
Alice estava sentada naquele instante enquanto se afogava em seus infindos pensamentos. E continuava: — Talvez, como intrusa, deva ser expulsa. Entretanto, ó, quão irrelevante eu sou que sequer faz diferença que eu cá esteja ou não. E se sou irrelevante para a vida entorno, por que vivo? Por que há vida em mim? Sem um sentido para caminhar no bosque titã, sem importância, sem valor... sabemos o valor que temos somente quando alguém nos diz, é isso! — Alice olhou para cima. — Alguém pode me dizer o sentido e o valor que eu tenho? — Gritou o mais alto que pôde. Seu brado causou algum alvoroço, porém, apenas para que um fruto, já muito maduro, vibrasse com as ondas sonoras e, então, caísse lá do alto da copa de alguma das árvores gigânticas. Demorou um pouco para cair ao lado de Alice e espatifar-se no chão, banhando-a com seu méleo caldo.
Alice assustou-se profundamente; suas roupas, pele e cabelos, mancharam-se de uma cor carmim-abismal e antes, pálidas como o Anti-Ártico, agora mesclavam-se em um escarlate-ferroso e bege. “Que horror!” — Bradara pelo susto. Sentiu-se instigada, entretanto, a experimentar o fruto, cujo aroma era embalsamado de dulçor cítrico. Assim o fez, embora se questionasse sobre tratar-se de um fruto venenoso. “Se assim o fosse” ela respondeu à sua própria pergunta “não seria realmente sedutor aos meus olhos, certo?” perguntou a si mesma.
— Se fosse um fruto perigoso, eu não seria cativada... a menos que o fruto fosse capaz de mentir... se assim o fosse, como o faria estando espatifado assim? Não vejo espinhos em sua casca, como os abacaxis. Na verdade, vejo lanugem, como um pêssego. Embora seja tão maior que um pêssego, na verdade, é maior do que minha cabeça! — Alice tocou com seu dedo indicador na carne do fruto espatifado e, logo, levou aos seus lábios. Era delicioso.
— Méleo... adorável... cítrico... suave... meio ameixa... meio caqui... meio...— Fechou seus olhos e apreciou um pouco mais. Quando os abriu novamente, algo havia mudado. — Um rio? — Questionou à sua solidão. Alice ouviu algo como um rio ou uma cachoeira; águas correntes que outrora não havia prestado atenção, talvez porque estava demasiado dentro de si mesma. Só pelo som, sentiu-se com intensa sede. Levantou-se e caminhou em busca da fonte, uma nascente cristalina. E encontrou. Um riacho sutil embargava águas translúcidas, embora, com sutileza, enrubescidas pelos tons florestais; as águas cursavam um caminho tortuoso e, pelo seu rastro, pedras foram se formando ao longo de incontáveis anos.
— Tem gosto de água... — Dissera, sentando-se à beira do córrego. Respirou fundo enquanto ouvia a sinfonia líquida — Agora que comi o que me parecia comível e bebi o que bebível me soava, voltei à infeliz verdade... não tenho nenhum sentido que me mostre o que fazer, como fazer, para onde seguir. Posso caminhar à beira erma d’esta corrente, sem propósitos definidos, entretanto, estaria desperdiçando meu tempo com algo sem nenhuma razão de ser. Se eu encontrar uma lógica para fazê-lo, então, o farei. — Silenciou-se esperando que a lógica de materializasse à sua frente, entretanto, o contrário é que foi visto aos seus olhos âmbar.
Uma porta ornamental e dourada estava escondida na escuridão de uma parte ainda mais densa em arbustos avultados e complexos; o que não tinha lógica alguma, decerto, muito menos razão de ser. Sendo Alice a menor das criaturas, até então, naquele santuário de fauna e flora ancestral, como pode a porta ser do tamanho de Alice? — Ou cresci ou estou delirando... — Sussurrara. Caminhou se esgueirando nos arbustos e notou que, aquela espécie de planta tinha folhas e galhos que se faziam como um muro ao redor do umbral, se contorciam entre si formando um imenso bloco intranspassável. Diante à primeira porta, Alice tentou abri-la e... abriu facilmente. Porém, havia outra porta e, depois, outra e, mais umas e outras tantas.
Depois de um túnel de portas, quando o lume da floresta atrás de Alice já estava dilatado e ela estava exausta de girar maçanetas, uma das portas estava trancada. “Que ótimo” ela ironizou “tudo isso para nada... ora... eu bem sabia que não havia nenhuma lógica nisso tudo e, portanto, eu não poderia e não devia gastar meu tempo...” reclamara. Com profunda exaustão em retornar ao bosque denso, sentou-se ali mesmo, de frente ao umbral trancado e, então, segurou suas pernas para conseguir sentar-se, pois, era um túnel bem estreito.
— Não adianta... não vale fingir que há um rumo para seguir; tudo se faz de forma aleatória e vazia, não há profundidade em nenhuma decisão que se pauta sobre um talvez e mesmo se formos motivados pela esperança, esta é, sem dúvida, a maior das mentiras; com esperança vim aqui e com ela me estorvei. De que adianta caminhar sem rumo, só por caminhar, insistindo na ausência de sentido real, para chegar a um fim que é, pois, uma porta trancada? — Alice esperou uma resposta e silenciou. Suas lágrimas nasceram como o córrego que, de súbito, ouvira há pouco. E caíram salgadas sobre o chão de terra. Alice chorou de olhos fechados, uma cachoeira se fazia em seu semblante; e ela soluçava.
Assim que se cansou de chorar, abriu seus olhos âmbar e viu que, onde a terra umedeceu-se pelas lágrimas, brotos verdejantes germinaram. Tinham caules pequeninos e duas pequenas folhas no cimo, às vezes três, curiosamente uma acima da outra, formando um estranho padrão. Eram rígidos, porém, macios; um pouco porosos e, tal como o fruto que caíra, tinham lanugem. Ao tocar em um dos caules, ele se quebrou; era frágil e, na mão de Alice, ressequiu em segundos. Era um de três folhas. Por pareidolia, parecera uma chave de carvalho assim que murchou. Alice, então, adicionou o caule na fechadura e a porta se abriu.
— Isso não faz sentido... — Murmurou, tocando na maçaneta. Detrás da porta: mais floresta, entretanto, ainda mais fechada e nebulosa que antes. Havia quatro caminhos, feitos de ardósia vermelha, à disposição de Alice. Para lados diferentes e, por vezes, opostos. Pareciam longos e, portanto, impossível escolher mais de um para saber o que esperaria no fim. Alice sentou-se sobre uma pequena rocha na divisa entre todas as estradas e esperou sem saber o que esperava. — Estou ficando cada vez mais triste... por que há tantos caminhos? Não seria mais simples apenas um? Por que não colocar placas que indiquem o que haverá no fim de cada estrada? Assim a escolha será justa e ponderada!
Enquanto falava, um gato preto, com listras marfim em sua fronte, grandes olhos pálidos, um cachecol de folhas secas e um imenso sorriso, com dentes pontiagudos, de ponta a ponta em seu semblante, apareceu entre os galhos de uma árvore anã. Alice o olhou e, por segundos, teve a sensação de que ele não pulou nos ramos para ser visto, ele simplesmente apareceu após estar translúcido, de alguma forma. Tudo ao redor estava estranho e meio embaçado. Ele sorria de maneira macabra, mas Alice estava sem perspectivas, portanto, não se intimidou com a presença ilustre do felino — ela pensava que, se ele fosse alguma criatura má e violenta, ao menos acabaria com a ausência de sentido que ela tanto sentia em sua alma, libertando-a por fim, com a morte.
— Olá, Alice. — Disse o gato. Os olhos dela se arregalaram ao ouvir aquela grave voz falando o seu idioma.
— Gatos não falam! — Proferiu, esfregando seus olhos.
— Estou falando, não estou?
— Sim, está, mas é loucura, é claro que é loucura!
— Se tu estás me ouvindo, então tu és, decerto, completamente louca. — O gato lambeu-se.
— Não! — Gritou Alice. — Tu que és o louco! Pois estás falando! A culpa não é minha por ouvir o que dizes! — O gato sorriu ainda mais e silenciou, voltando a lamber seus pêlos lustrosos. Alice percebeu que, se não falasse com o gato, não poderia saber o que fazer e para onde ir. A ideia a conturbava e a irritava, falar com um gato lhe era constrangedor. Mas, de fato, aquele felino era diferente dos outros; ainda assim, Alice odiava a ideia de estar enlouquecendo e isso a impedia de retomar a conversa com o gato. Seu esforço para mudar de opinião foi tão grande que, somente no desespero da sua falta de sentido, ela foi capaz de ir contra todas as suas angústias.
— Ah, tudo bem. — Ela disse, bufando. — Por favor, me ajude... qual dos caminhos de ardósia rubra eu devo seguir? — O gato deitou-se, olhando para Alice.
— Depende, onde queres chegar?
— Não tenho sentido, não sei para onde ir e muito menos onde quero chegar.
— Neste caso, qualquer caminho serve.
— Não é verdade! Se escolho este — Alice apontou para o caminho à direita — posso chegar a um lugar desagradável e ter perdido meu tempo caminhando.
— Então, tu só podes escolher um caminho se souber o que há no final dele?
— Exatamente! — Disse, orgulhosa. O gato gargalhou.
— Isso é coisa de louco! — Disse o gato. Alice se enraiveceu. — Ora, é loucura caminhar apenas se houver uma certeza; toda a certeza é inútil e falsa, logo, tu nunca poderias escolher um caminho, pois, mesmo que tivesses certeza de onde chegaria, não sabes absolutamente nada do que encontrará enquanto andas.
— Mas... — Respondeu Alice, nervosa. — Se sei que chegarei em um lugar agradável, consigo suportar os caminhos difíceis, não? Guiada pela esperança.
— Hum... achei que a esperança era uma mentira... — Parafraseou o gato que, agora Alice sabia, escutava-a a todo o momento.
— Bisbilhoteiro! Se me ouvias, por que não se manifestara? — O gato apenas se lambeu e sorriu. — Olha, a esperança é uma mentira quando acreditamos nela sem nenhum filtro; quero dizer, acredito que nesse caminho há algo bom, e durante todo o trajeto, por mais angustioso que seja, continuarei acreditando. Logo, chegando ao fim dele, descubro que não era bom. A esperança destruiu tudo! Sem ela eu poderia ter desistido e me guiado para uma direção menos amarga. Agora, se tenho certeza de que há algo bom, a esperança faz sentido!
— Que chatice... — Ele disse, irritando Alice. — Viver baseando-se em sentidos e certezas é a coisa mais chata que já ouvi.
— Ah, é mesmo? E como tu vives, senhor Gato? — Ela cruzou os braços e ergueu seu rosto, duvidando do gato sorridente.
— Eu? Vivo pelo que me cativa. — Ele respondeu sem hesitação e bastante concentrado em lamber seus pêlos.
— E o que te cativa? — Insistiu Alice.
— Viver. — Respondeu o gato, sem alardes, enquanto espreguiçava. Alice ficou em silêncio.
— Como é possível se cativar pela vida em si mesma? Principalmente se os arredores são hórridos e decadentes? Se os caminhos são tortuosos, se não há nada que signifique algo em seu coração?
— Justamente. Se a vida em si mesma é suficiente, por mais que lhe venha de encontro no pior de suas manifestações, ainda assim, tu encontrarás algo de valor nela, pois tu a compreende e, sendo a vida instável, variável e efêmera, e admirando-a por tudo isso que ela é, não esperarás que ela seja diferente do que é e lidarás com suas características com bastante empolgação.
— Mas... aceitar em silêncio as condições hórridas da vida, é um martírio! Caçar preciosidades na lama dos porcos, é humilhante!
— Alice, nem uma árvore aceita em silêncio as condições precárias da vida! Ela sempre encontra novas formas de burlar as turbulências, isso é uma característica que só é possível na vida. Cativar-se pela vida é aprender a conviver com ela, ajustando-se e sabendo lidar com suas manifestações. Por exemplo, digo-te que, vá à direta; e encontre o Artesão de Aspecto. Ou à esquerda, para a toca do Láparo Esguio. E tu, agora, cativada pela vida, vais não pelo Artesão, tampouco pelo Láparo, vais pela descoberta do que há no caminho até lá; ruim ou bom, difícil ou fácil. A graça está em saber lidar com a surpresa do que há de vir.
Alice ponderou por um tempo.
— O Artesão e o Láparo são confiáveis? — O gato gargalhou por notar a insegurança que Alice ainda possuía.
— São malucos como tu és, como eu sou.
— Eu não sou louca! — Lamuriou Alice, outra vez.
— É o que dizem os mais loucos. — Afirmou o gato, sorrindo e translucidando, sumindo como poeira cósmica.
— Ei! Volte! — Bradou Alice, sozinha outra vez. — Não entendo...
Na bifurcação dos caminhos feitos de ardósia escarlate, Alice observava. Ao além, na perspectiva de cada rumo, apenas a névoa rosé. A escolha deveria ser feita de qualquer maneira, mas, para Alice, o que mais pesava eram os seus pensamentos e não as decisões que precisava tomar. Mesmo e apesar dos conselhos do gato sorridente, algo sobre o sentido da vida ainda lhe perturbava e encontrar uma lógica perfeita para suas ações era-lhe sempre a única opção plausível.
— Vou para o Artesão porque já vi o Láparo e ele sequer notou minha presença. — Murmurou para si, enquanto caminhava. — Mas não sei o que direi ao encontrá-lo e esse caminho parece-me maior do que previ. Sinto falta de ver o céu. — Alice olhou para cima, parando de andar por um instante. As copas altíssimas continuavam ocupando todo o firmamento, como se as constelações fossem folhas e, muitas delas, caíam com profunda lentidão, desprendendo-se das árvores e levadas pela brisa vaporosa. Por olhar para tão altas estruturas, sentiu-se um pouco inquieta. — É assim que se sente uma formiga? Posso ser pisada a qualquer momento... — Alice voltou a caminhar. — Se não tenho sentido, tanto faz ser pisada. — Disse e logo lembrou-se das palavras do gato. — A diversão está mesmo no caminho? Olhe só para isso, uma longa estrada com essa névoa baixa, sem nada acontecendo. É bem tedioso e solitário. Qual é a graça? Nada aqui é capaz de cativar! E, pior, meus pensamentos parecem mais altos aqui.
— Ei! — Alice ouviu e, de imediato, parou e olhou para trás, para os lados, ninguém. — Aqui embaixo! — Disse a voz envelhecida e fina. Ao olhar para baixo, Alice viu um rato deveras estranho; um longo rabo bege, dentes humanos, sete orelhas, 4 patas com seis dedinhos finos em cada; seus pêlos cinzas não completavam todo o seu corpo, pareciam falhos em partes. A verdade é que Alice achou a criatura horrível. — Oi, olá! É... te importarias em nos dar uma carona? — Disse o rato. Detrás dele, dois outros ratos surgiram, um deles era um pouco menor; o outro tinha uns caules de trepadeira presa à cabeça, dando-lhe um aspecto de cabelo cacheado. Alice odiaria segurá-los em suas mãos.
— Ah... eu... não me sentiria confortável... sinto muito... — Explicou, sendo a mais delicada que pôde.
— Teu vestido é enorme! Ponha-nos na barra e nem sentirás nossa presença. — Disse a voz rouca do rato de cabelo de caule. De fato, o vestido de Alice era longo e arrastava-se pelo chão. Mas os ratos pareciam sujos e isso a incomodava.
— Eu não posso, o vestido pode rasgar.... ah... para onde ireis? — Tentou mudar de assunto para evitar o conflito.
— Precisamos achar uma nova casa.
— Nós esquecemos onde estava a última...
— É... esquecemos... — Disse o rato menor, pela primeira vez, bastante frustrado.
— Como se esquece onde está sua própria casa? — Alice estava incrédula.
— Ora, tu sabes onde está a tua? — Ao tentar se lembrar de sua casa, Alice sentiu-se triste como um abismo que lacrimeja solitário por sempre levar à morte aqueles que nele se aprofundam.
— Eu não sei... mas... eu não a perdi... apenas não me recordo... — Os ratos riram.
— Isso é esquecer, oras! — Caçoou um deles.
— Por que sois tão vis? — Indagou Alice, com a voz trêmula.
— Não somos vis... não precisa se preocupar, tu podes criar, como nós, um lar novo! Basta que encontres um lugar à sombra, bem arejado.
— É, bem arejado.
— E que tenha comida próxima! — Alice se irritou ao ouvi-los.
— Não é assim tão simples quanto respirar! Encontro um lugar bem arejado e ele se torna imediatamente a minha casa? Então posso dizer que essa estrada é minha casa? Uma casa precisa de algo a mais... — Os ratos se entreolharam.
— Uma casa é só uma casa... o que tu estás dizendo, altíssima?
— Digo que uma casa é, essencialmente, um lugar em que o sentimento de segurança e pertencimento estão.
— Eu me sinto seguro comigo... e pertenço a mim! — Disse o primeiro rato.
— É, eu também! — Falaram, em uníssono, os outros dois.
— Então somos nossa própria casa?
— Guardamos a comida na pança! — Zombou o rato menor, levando seus familiares à gargalhada. Alice respirou fundo e voltou a caminhar, apressada. — Ei, espere! Altíssima! Dê-nos uma carona!
— Darei se me alcançarem! — Alice correu sem olhar para trás e, em poucos instantes, os ratos a perderam de vista e ela pôde voltar a caminhar. — Que criaturinhas insolentes! — Reclamou Alice, ela odiava o fato de saber, no fundo, bem no fundo, que aqueles ratos sujos estavam certos. — Voltarei para meu lar... em algum momento... deixarei esse lugar e voltarei e me lembrarei. Um recôndito onde há os sentimentos que serenam a alma e significam a existência. Esse alarde de que não precisamos de sentido e que qualquer lugar pode ser uma casa, prova tão somente o quão superficiais são esses animais falantes! — Alice esforçava-se para argumentar conta os ratos e o gato, mesmo eles não estando mais presentes. — De que adianta ser capaz de pronunciar palavras, mas só pronunciar palavras tolas? Que superpoder inútil! — Alice começou a imitar a voz rouca e fina dos ratos. — Olha, olha, eu posso falar, eu estou falando, mas só sei dizer asneiras; eu só falo bobagem, mas ouça, ouça, ouça-me! Eu falo alto, meu falatório irritante, palavras gastas, perdidas, amassadas! — Alice gargalhou de si mesma por imitar os ratos falantes e após rir por bons minutos, pensou que não se sentia segura consigo mesma tal como os ratos e, da mesma forma, parecia não pertencer a si. Perceber isso a deixou bastante magoada. Quando ela avistou o que lhe parecia, pois, uma casa, distraiu seus pensamento merencórios.
O clima transfigurou-se estranhamente; como se um peso pairasse, densificando e enegrecendo o derredor. Próxima à casa, Alice notou a névoa mais vermelha e um aroma peculiar de queimado lhe atordoou célere. Por um momento, hesitou em bater à porta da casa de madeira escura, pois, algo de fato lhe parecia errado ou, talvez, apenas pouco convidativo. A verdade, no entanto, era que seus pensamentos lhe convenciam de que, se Alice não se lembra de sua casa, não pertence a si e tampouco possui um sentido, então, por que não arriscar sua própria vida? Eles diziam: “Vá, Alice! Não há nada a perder, não há a quem voltar”. E Alice os ouvia, pois estava acostumada a ouvi-los.
Dois toques na aldrava e, pouco depois, o que parecia um homem, um pouco mais alto que Alice, surgiu. Ele vestia uma grande cartola, roupas estravagantes, e seu rosto era amedrontador; parecia usar uma máscara com retalhos de pele. O odor tostado vinha do interior da casa e mesclou-se ao bálsamo do homem, algo que beirava a sândalo, âmbar em notas de fundo, talvez algo mais terroso e sanguíneo nas notas de coração — até provável haver uma tênue exposição nicotinoide. Era embriagante e, ao mesmo tempo, perturbador.
— Uma dama aos meus umbrais?! — A voz do homem era como um cello fundido ao canto gregoriano. Alice reverenciou-o, abaixando-se; e logo voltou a fitá-lo. O homem a cumprimentou, beijando o dorso da delicada mão de Alice. — Por favor... — Convidou o Artesão, mas Alice fitou o interior escuro da casa e logo hesitou.
— Eu agradeço... a gentileza... senhor Artesão, entretanto, vim tão só de passagem, para compreender um pouco mais sobre este estranho lugar. — O homem pareceu compreendê-la.
— Então sente-se. — Indicou para Alice as cadeiras à mesa, próximas da casa, dispostas no jardim murcho e seco. Sentaram-se. — Não és daqui, pelo que vejo. Então de onde és? — Alice ouviu e, tão logo, notou que de fato se tratava de uma máscara, pois, os lábios não se mexiam quando o homem falava.
— Não sei ao certo... lembro-me de despertar na costa, ter uma visão estranha de um veleiro... — Lembrar do veleiro embaçado, trouxe o aperto ao coração de Alice. — E, depois, adentrei à floresta logo que vi um coelho esguio de três olhos...
— Hum... claro... e o que buscas, senhorita? Um corvo empalhado? Uma escrivaninha perfeita? Ou talvez... um sentido? — Alice arrepiou-se, tanto pela voz tétrica, quanto, essencialmente, pela última indagação do homem. Os olhos dela se arregalaram de súbito. — Sou um Artesão raro, posso te ajudar com tudo e... muito mais.
— O... o gato... te contou? — Proferiu Alice, inócua.
— Chesir? Não o vejo há um tempo. Tu encontraste a criatura? — O homem conversava como um Dom e mantinha-se bastante estático.
— Ele se chama “Chesir”? — Alice questionou mais a si mesma, enquanto ponderava a razão pela qual o gato não se apresentara a ela.
— Sim... E eu sou Thez, o Artesão de Aspecto.
— Eu sou Alice... — Revelou.
— Alice... — Sussurrou o homem, aproximando-se um pouco mais. Alice sentiu-se incômoda, pois a presença do Artesão era persuasiva e densa como o derredor e o interior em breu daquela casa de madeira. Ela não saberia descrever o que sentira, mas eu sei bem, uma atração pelo Artesão a envolveu de súbito. — Belíssimo nome...
— Se não falas com Chesir há tempos, como sabes sobre o sentido? — Thez encostou-se novamente no espaldar da cadeira e Alice sentiu-se tímida.
— Todos buscam um sentido, senhorita; é previsível daqueles que pensam, sentem e, em especial, desejam. Sou capaz de moldar um rosto para a Dama, esta face lhe trará sentimentos e pensamentos, emoções e razões para uma vida completa, sem que tenhas que escolher, sem que tenhas que aprender.
— Mas... eu gosto de minha face! Não quero trocá-la, embora não me lembre ao certo como ela é.
— De fato, teu rosto é... encantador. — As bochechas de Alice coraram. — Não te preocupes, entretanto, senhorita; sou capaz de dar-te um aspecto sem que sua aparência seja ofuscada. Basta confiares em mim. — O aroma capitoso do homem, não proporcionava confiança para Alice, embora fosse agradável de sentir, suas notas continuavam a inquietá-la.
— Como isso é possível? — Ela duvidou.
— Dar-te um aspecto ou ser, a ti, confiável? — Embora o rosto de Thez não pudesse ser visto, ele parecia sorrir.
— Ambos, senhor. Sobre dar-me um aspecto, embora eu seja uma mulher adulta e ciente de minhas decisões, sei que este lugar até então foi contra tudo o que é racional e, portanto, não há como não questionar essas verdades. Sobre confiar em ti... pois... é impossível! Eu não vejo sequer o teu rosto. — Alice aguardou uma resposta, mas Thez ficou uns minutos em silêncio até que, então, decidiu levar sua mão ao rosto e logo retirou sua máscara de pele retalhada. O Artesão era mesmo um homem, entretanto, seus olhos eram de um tom malva-empoeira brilhante, tão símil a tudo naquela floresta; sua barba era delineada em um cavanhaque, arredondada no queixo e pontiaguda próxima aos cantos dos lábios. Contornava seu maxilar em destaque. Seu semblante era sério e sua beleza era inquestionável, muito diferente da bizarra máscara que usava, porém, ainda capitoso, sutilmente, impudico.
— Tu... tu és mesmo um homem! — Exclamou Alice, perplexa e instigada.
— Há muitas formas de provar-te que sou um homem, senhorita Alice; retirar minha máscara é a mais... decorosa... das formas; entretanto, receio que não seja o suficiente para que confies em adentrar meu Ateliê; por isso proponho que tragas um conviva contigo. — Alice ponderou. Thez não parecia louco como dissera Chesir e, àquela altura, para Alice, talvez ele não fosse tão perigoso quanto aparentava.
— Não sei se poderia; desde que adentrei esta frondosa floresta, vi o coelho, o gato Chesir, um trio de ratos enfadonhos e nojentos... e por fim... um Artesão. — Thez semissorriu e, antes que alguém continuasse o diálogo, uma raposa surge, com um vestido de gala; ao seu lado: Uma fuinha marrom e muito, mais muito, muito mesmo, muito peluda.
— Aem! — Saldou a fuinha, para Thez. Parecia uma saldação e Alice compreendeu assim. Sua voz era doce e muito fina, como a superfície de uma nuvem.
— Eu estava dormindo, acredite ou não. Estes tempos loucos estão bagunçando meu ciclo de sono. — Tagarelou a Raposa. Alice estava profundamente confusa.
A fuinha se sentou em uma das cadeiras, mas, como era pequena — menor bem menor que Alice — ficava apenas com seus olhinhos à vista na mesa. Thez que era o mais alto, com um metro e noventa. A raposa sentou-se ao lado de Alice, elegante e calma, como uma dama, todavia, antes mesmo que ela pudesse se acomodar, o Lápago Esguio colocou três coelhos pequenos, mortos e ensanguentados sobre a mesa; assustando a todos, em especial Alice. A seiva rubra esguichou em todos os rostos. Alice sequer viu de onde veio o Láparo.
— Ah! Que deselegante! Por todos os corações empalhados, tenha mais educação! — A raposa levantou-se, segurou os coelhos e caminhou em direção à casa de Thez. — Vá buscar a pimenta, ande! — Os coelhos pingavam sangue pelo caminho. A fuinha pensou que o pedido de pimenta se direcionava a ela, então decidiu partir, embora não quisesse, pois, a figura de Alice lhe parecera interessante. Além disso, era timida demais para contestar a raposa. O Láparo, incompreensível e apressado, apenas foi embora. — Iniciarei o cozimento do jantar. — A raposa disse e, logo, fechou a porta. Alice estava sozinha com Thez outra vez; ambos demoraram para iniciar o diálogo e Alice compreendeu o porquê todos pareciam loucos. Quão estranho era todo aquele movimento e ninguém sequer perguntou quem era ela.
— Vulpia prepara as refeições noturnas aqui... — Proferiu o Artesão. — Pegue isto. — Ele ofereceu um lenço para Alice que, tão logo, o aceitou, para limpar o sangue de seu rosto. — O Láparo não é muito atento ao que faz... — Amenizou Thez. — Além de estar sempre apressado... — Pouco depois, o Artesão se levantou. — E a fuinha é bem tímida. — Explicou. — Venha. Deixe-me mostrar-te meu ateliê; Vulpia estará na cozinha, portanto, não precisas temer... não estaremos à sós.
A casa era escura, entretanto, Vulpia parecia destinada a manter o local mais aceso, pois, abriu todas as janelas e acendeu mais velas. Alice seguiu ao lado de Thez e logo foram ao quarto-ateliê, um aposento artístico e sinistro. Em seu interior, incontáveis máscaras pendiam na parede, como quadros. O cômodo era frígido e Alice tremia. O Artesão a cobriu com seu casaco, explicando que, em razão do poder fascinante das máscaras, o ambiente arrefecia de forma natural. Alice não conseguia compreender, mas estava atenta.
— Todos os rostos possuem parte das almas das criaturas mortas. — Explicara.
— Tu... mataste todos? — Alice temia indagar, todavia, sua espontaneidade falava mais alto.
— Não. A rainha o fez. Tome, experimente esta e sinta. — Proferiu, instigante. Alice não compreendia; queria questionar sobre quem é a rainha, mas viu-se segurando a máscara e tão logo a pôs em seu rosto, sem saber ao certo o porquê. A máscara era de uma cobra, ao que parecia; assim que a vestiu, Alice imediatamente desejou a morte de alguém que ela não sabia dizer. Sentiu um gosto agre na boca, como se ingerisse veneno; estava com uma certeza de que viveria até o fim de sua vida para vingar-se de todos que lhe fizessem mal. Ao mesmo tempo, ela sabia que aquilo não pertencia a ela. Thez retirou a máscara da atônita Alice. — E então? — Interrogou o Artesão. Alice não sabia o que dizer. — Talvez esta seja demasiado intensa para a tua sensibilidade feminil. Vista esta aqui!
Mais uma vez, sem que pudesse recuperar-se do horror anterior; Alice viu-se com a máscara do que lhe parecia um pássaro dourado. Sentiu-se leve, com a certeza de que a vida assopraria em seu rosto e que o sentido primevo para tudo era a liberdade. Estava disposta a ser livre, acima de tudo; nunca se apegar a nada, a ninguém. Aquilo era, sem dúvidas, um sentido belo e até poético, entretanto, não era Alice. No fundo de si mesma, perdia-se em si a cada máscara que vestia e o poder, das almas encarceradas nos artefatos, invadia o espírito de Alice como uma descarga energética. Sentiu angústia, medo, horror, êxtase, prazer e amargura; sentiu-se ser duas, três e até quatro; entretanto, em meio a tudo, havia sempre um resquício de nada, um nada perturbador e cada vez mais sufocante. Alice atordoou-se e caiu sobre o assoalho do cômodo.
— É fascinante, não? — Dissera Thez, ajudando Alice a se levantar.
— Isso... parece-me perigoso demais, senhor Artesão... sinto que... — Alice levou suas mãos ao seu tórax, como se acariciasse seu próprio coração. — Perdi partes de mim que jamais se recuperarão. Thez a olhou profundamente, tocando-lhe seu sedoso rosto. O ambiente ficara mais frígido.
— Posso fazer um sentido sob medida para o teu belo rosto, senhorita... — Alice arrepiara-se outra vez e se afastou do Artesão;
— Agradeço, senhor Thez... — Ela retirou o casaco que vestia. — Está tarde, preciso ir embora, se me permites. — Ela o reverenciou rapidamente e não aguardou resposta, entretanto, Thez retirou sua cartola em respeito ao adeus de Alice, mesmo que ela não o visse. Era certo que Alice estava com medo, pois, perder-se quando se tem tão pouco de si mesma é arrancar sua vida de si, sem que a morte venha lhe buscar.
Ela correu sem direção; seus olhos âmbar choravam outra vez. O vazio no peito era tangível, o medo de nunca mais ser Alice, amargurava-a. “Volta-te a mim, Alice. Sou Annae? Mariah? Elizabella? Ó, céus... por favor... Alice... das águas que lhe agradam, da curiosidade do seu ser... Posso agir como Nillah? Lillymor? Ehlen? De onde vêm esses nomes? De Alice? Alice se recorda de algo além? Mas se foge de si, de mim, como se lembra?” — Pensava enquanto corria e só parou de pensar quando tropeçou, quando não reparara que uma densa fumaça acastanhada pairava no ar e, portanto, impossibilitou a visão das pedras mais altas do caminho.
— Quem está aí? — Alice ouviu, após o tombo que fez arranhões doloridos em suas mãos.
— Sou eu... — Respondeu, um pouco confusa com a queda.
— Mas o “eu” também sou! — Respondera o que Alice pensou ser a fumaça.
— Não é isso que eu quis dizer... — Alice levantou-se, limpando a terra e as folhas de suas mãos e de seu vestido. — Meu nome é Alice, embora eu sinta que perdi a Alice de mim... — Tudo ficou em silêncio. — Senhora? Onde estás? Por que há tanta fumaça? — Alice olhava para todos os lados; o eflúvio do fumo era doce e amendoado. De súbito, um bater de asas grandes zumbiu nos céus e de lá descera uma mariposa cujo tamanho assemelhava-se a uma criança de dez anos de idade. Era alabastrina e felpuda, com duas antenas cheias de bifurcações em tom amarronzado; grandes olhos negros ela tinha e trazia consigo um tipo de incenso aromático.
— Quem és tu? — Indagou a mariposa; Alice ficou encantada com a beleza pálida e felpuda da criatura.
— Eu deveria ser Alice, mas estou confusa... — Respondeu, com inocência.
—Quem és tu? — Insistiu a mariposa. Alice respirou fundo.
— Eu achei que sabia, quero dizer; quando despertei, eu sabia que antes, em algum momento, eu era eu, mas, desde então, já mudei diversas vezes.
— Mudou como? — Perscrutou a mariposa. Alice sentou-se, suspirante.
— Queria um sentido para a vida, tentei alguns, mas perdi-me em todos; agora estou mais longe de mim do que outrora.
— O que achas desta pedra? — A mariposa falava da pedra que Alice usava como assento.
— Está confortável, na verdade.
— O que achas d’esta pedra? — A mariposa parecia não satisfeita com algumas respostas. Alice pensou bem.
— Eu gosto.
— Então já sabes que Alice gosta d’esta pedra.
— Sim, eu sei; mas, isso ainda não traz sentido para minha existência; tu podes gostar desta pedra igualmente e tu não és Alice.
— Não, a pedra não me agrada.
— Tu não compreendes! — Alice levantou-se, pretendia continuar seu caminho sem rumo.
— Ouça. Se o sentido de tua vida fosse encontrar esta pedra, o que farias agora? — Alice pensou mais uma vez; não lhe parecia incrível ter este sentido para a vida, entretanto esforçou-se para compreender a mariposa.
— Bem... eu estaria eternamente feliz? — Alice duvidou de sua própria frase.
— Certamente que não.
— Estás dizendo que a cada novo sentido, preciso de um novo sentido? — A mariposa fez silêncio e Alice a acompanhou.
— Todo o sentido é uma pedra no final... — Afirmou a mariposa. — E toda pedra pode ser um sentido...
— Por que precisa ser difícil? — Alice bocejou e caminhou até uma pilha de folhas secas. — Por que não posso apenas saber e pronto? Eu poderia ter nascido para colher maçãs e estar feliz colhendo maçãs eternamente. Mas, não, preciso estar com esse vácuo no coração, esse enigma no espírito. Eu pensei que tudo precisava de um sentido e o sentido precisava de lógica; agora perdi-me de mim mesma, sem sentido, sem lógica, sem fragmentos da minha alma. E agora o sentido é uma pedra e toda a pedra é um sentido... o que isso significa, afinal? — A Mariposa sumira e Alice pensou que havia importunado a criatura; olhou, então para cima, observando a floresta acastanhada. — Se deixo este lugar, vou a outro para sentir as mesmas ausências. Se decido um novo caminho, preciso decidir outro e, na maioria das vezes, estou na solidão que é capaz de aparecer mesmo quando há alguém próximo a mim. O que me parece é que a solidão e a ausência são os únicos e verdadeiros sentidos, o que faz tudo ficar extremamente angustiante. Por que eu viveria para isso? Quem poderia ter sido tão perverso a ponto de dar vida a uma criatura que não pode ser feliz?
— Senhorita... — Disse uma grave voz aveludada e Alice olhou em direção ao som. Ela imediatamente viu um Antílope negro com grandes e longos chifres. Era um animal forte e alto, não parecia um Antílope como qualquer outro. — Teu falatório inconclusivo está atrapalhando o sono de meus filhos.
— P-perdoa-me, senhor; já estou de saída... — Alice sentiu-se perturbada por perturbar outrem.
— Com tantas indagações, talvez devas encontrar a Rainha, pois ela sempre tem uma resposta para tudo.
— Não sei ao certo se quero respostas... bastar-me-ia a morte, neste caso...
— Duvido muito que anseies pela morte, senhorita. Se mal sabes lidar com a vida, como lidarás com algo tão mais enigmático? Por acaso sabes o que é a morte?
— Pensei que fosse o descanso eterno...
— É o que dizem, entretanto, se te apegas nisso com tanto vigor, como ousas não ver razão para se apegar em qualquer coisa na vida? A vida está ao teu dispor e a morte é o mistério indomável, ainda assim, preferes a morte? Estando sujeita aos horrores que desconheces ou aos prazeres abundantes ou, ainda, estando sujeita ao limbo, onde a ausência é ainda mais colossal do que essa mísera solidão que guardas em teu peito... ainda assim, queres a morte? Isso é estúpido, para não dizer outra coisa... — O Antílope arquejou, um pouco irritado. — Seja o que for, senhorita; se queres a morte ou se anseias por resposta, visite a Rainha. Ela é capaz de te dar tanto um quanto outro.
Alice sentiu-se bastante afetada pelos dizeres do Antílope; sentiu-se humilhada, em certo aspecto, pelas palavras agressivas disfarçadas de educação. A criatura foi embora, sem esperar um adeus e sem dar um. Alice decidiu caminhar no sentido que o Antílope olhava sempre que mencionava a tal rainha e, com receio de quebrar a lei do silêncio e importunar outras famílias, apenas ficou pensando, sem proferir uma única sílaba. As palavras do Antílope a deixaram sensível e ansiosa, então, mesmo sozinha e mesmo estando obrigada a calar-se por completo, nas profundezas de seu ser, ela buscou se acalmar da única maneira que sabia poder: recitando alguns versos. Por infortúnio, ela não conseguia se lembrar de nenhum e isso a deixou ainda mais aflita. "Esqueci-me de todos os poemas?” pensou “Que atrocidade sem tamanho... as musicalidades foram soterradas, as rimas perdidas, a beleza afogada no esquecimento...” — Alice percebeu que se aproximava um estranho medo.
— Envolta em névoa onírica estive — ela recitou
— Pensares sobre tantas incertezas — Voz trêmula no segundo verso.
— No peito uma saudade ali mantive — Imersa por completa em seu poema.
— Proste-se, criatura, à Vossa Alteza! — Vociferou alguém e Alice sentiu uma pancada em sua cabeça. Ao buscar entender o que ocorrera, em um galho baixo estava uma simiesca criatura segurando um tipo de báculo curvado com uma maçã, a verter um licor escarlate, cravada na ponta. Ao tocar sua própria cabeça, onde sentira a pancada, Alice tateou em algo úmido e, ao olhar seus dedos, estavam carmim. De imediato entendeu o que se passara.
— Por que me feriste sem razão? — Ela bradou, em cólera. O símio sorriu, fazendo sons estranhos e desordeiros. Ele tinha uma cabeça amassada e minúsculas orelhas; era todo despelado, sua pele dobrava-se rosada e seu rosto era pálido. Tinha sete membros, três pernas e quatro braços.
— Estás entrando no reino da Rainha, portanto, deves cumprir os protocolos. — Grunhiu a criatura.
— Quem és tu? — Alice perguntou, irritadíssima.
— Sou o Sagui mais fiel à rainha.
— Não pareces um Sagui...
— É porque... tive de servir à fascinante Majestade e... como um bom súdito... eu... fui abençoado... Veja só! Agora tenho vários braços e mãos para segurar todas as maçãs que eu quiser. — Alice achou aquilo bastante pavoroso.
De repente, uma horda de animais de todos os tipos, eles carregavam galhos afiados nas pontas; estavam vestindo máscaras horrendas que lumiavam sob a luz do dia, feitas do que parecia ser fragmentos de vidro e pétalas de um tipo bizarro de planta coralina. Quatro grandes rinocerontes mascarados carregavam um tipo de trono feito de flores e, nele, uma mulher se assentava. Ela tinha os olhos fundos, um tanto cadavéricos; usava uma coroa de pinhas e galhos, tinha ressequidas folhas ao redor do pescoço, alongando-o e, por fim, vestia-se em um vestido na cor vinho, longo, régio e com corações... corações empalhados, de vários tamanhos, de inúmeras criaturas diferentes, como ornamentos em seu vestido. Seus cabelos eram rubros e uma tinta negrume contornava a linha do que seria seu sorriso e ao redor dos seus olhos de precipício. O Sagui escondeu-se atrás de Alice assim que viu a Rainha. Alice, amedrontada, ficou prostrada, em reverência, torcendo, na verdade, para não ser vista abaixada.
— Parem agora! — Gritou a Rainha. — O que é essa coisa? — Alice demorou um pouco para levantar seu olhar e perceber que a horda terrífica a olhava, embora não tivessem olhos de fato. Alice ergueu-se, apavorada e contida.
— Sou Alice... — Um silêncio pairou.
— Arranquem-lhe o coração! — Gritou a mulher, sua voz era estridente e com um fundo agourento.
— Mas por quê? Eu nada fiz! Não faz sentido! — Os animais se aproximavam, apontando suas lanças. — Vossa Majestade, eu posso lhe ser útil, não?
— Parem! — Mais um brado da mulher. — Útil?
— S-sim... Posso ser útil para... — Alice não sabia ao certo o que estava fazendo, tampouco sabia se daria certo.
— Alice sabe sair do arvoredo — murmurou o Sagui, interrompendo-a. Antes que Alice o contestasse, pois ela não sabia o caminho de volta para à costa, a rainha voltou a praguejar.
— Isso é útil de fato... a razão da minha existência se pauta em deixar essa floresta imunda! Vá! — Ordenou — Vá à frente, mostrando-nos o caminho. Alice ficou em silêncio enquanto caminhava para liderar à horda. Por sorte, ou não, mais à frente a rainha e seus súditos não podiam ouvi-la, apenas a viam. O Sagui a acompanhou.
— Por que mentiste? — Sussurrou Alice.
— Eu não minto! — Retrucou o Sagui e logo Alice percebeu que se tinha algo que aquele símio fazia, este algo era, decerto, mentir. Alice pensou em correr, mas, sentiu que não seria capaz de ir mais rápido que os rinocerontes. Depois, ponderou em como guiá-los todos para um abismo, entretanto, Alice não era uma pessoa má. Notou que as máscaras que as criaturas usavam eram semelhantes às do Ateliê do Artesão e isso a levou a imaginar que os animais estavam dominados por algo que não era eles mesmos. Alice parou seus passos e tomou uma decisão por impulso. Voltou à rainha, deixando o Sagui (que era um medroso) boquiaberto. Mesmo medroso, ele a seguiu.
— Para que possamos continuar, a Rainha precisara responder às indagações da floresta; eu as escuto e a ti repito. A floresta exige isso, para que o caminho se mostre. — Disse Alice com toda a sua coragem. Um silêncio pairou novamente.
— Interessante... — Disse o Gato, assustando Alice. Ao olhá-lo, todos ficaram estáticos, exceto ela e gato.
— Chesir? Como tu... — Alice estava confusa.
— Estou curioso, quais perguntas tu farás à Rainha dos Corações? — O gato sorria como outrora, um sorriso imenso e sinistro; seus olhos pálidos atentavam-se à Alice.
— Tu paraste o tempo? — É verdade que quando Chesir se aproximara da primeira vez, tudo parecera diferente e embaçado; uma densidade hialina envolveu tudo e as árvores pareciam mais lentas no encontro com a brisa da floresta; exatamente como acontecia naquele momento! Os sons ficaram rarefeitos, Alice sentiu-se estranha, todavia, ela não imaginara que todos esses sintomas eram culpa do gato, tanto daquela vez quando desta.
— Péssima pergunta! — Respondeu Chesir.
— Não, eu não farei essa pergunta para a Rainha. Quero saber como um gato pode parar o tempo! — Chesir ronronou, esfregando-se na árvore em que estava.
— Ora, todos os gatos fazer isso, não? — Ele sorriu ainda mais e, com uma voz embargada de beleza e astúcia, respondera: — Eu não paro o tempo, Alice.
— Como não? — Alice estava chocada. Chesir lambeu seu pelo límpido e expressou uma indiferença única, em tom solene.
— Ele é quem para quando chego. — Afirmara e não havia como dizer que ele não estava certo. Alice sabia o quanto aquele felino era astucioso. — Parece-me que tu não sabes o que perguntará à Rainha.
— Sei sim! — Alice afirmou, convicta, embora sua voz tenha ficado um tanto trêmula ao lado da exclamação (se, claro, isso fosse uma história escrita). — “Qual é o sentido da vida!” é a primeira pergunta. — O gato apenas a observava. — “Qual é o sentido da morte?” é a segunda pergunta. — Alice esperou uma reação do gato, mas ele continuava observando. — “Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê?” é a última pergunta. — Chesir continuava com seu sorriso inalterado. — O Antílope disse que ela tinha todas as respostas... — Justificou Alice. O felino espreguiçou-se e se aconchegou, preparando-se para uma soneca.
— Lembre-se, Alice, não importa a resposta, importa apenas a pergunta. — Ele disse, carinhosamente. — Faça-me um favor, se possível. — Chesir, embora sorridente como sempre, parecia um pouco mais sério e menos debochado. — Pergunte-a por que a máscara que ela usa pesa mais que sua coroa. — Alice estremeceu e o gato deu-lhe uma piscadela com o olho direito. Ela sentiu-se profundamente instigada a perguntar àquilo para a Rainha.
— Vamos, mulherzinha, faça as perguntas! — A voz agourenta ressurgindo, fazendo Alice sentir dor nos tímpanos.
— Qual é o sentido da vida? — Alice iniciou.
— Sair dessa floresta imunda! — Respondeu a Rainha, como uma lâmina afiada. Alice começou a perceber profundamente o que o gato quis dizer com sua pergunta à Rainha, pois, além de não haver nenhuma máscara na face da Majestade, ela ainda parecia envenenada com sua própria índole, como as máscaras do Artesão que envenenavam a alma, levando-a a se fragmentar e se perder.
— Qual é o sentido da morte? — Indagou Alice, mas, naquele ponto, ela realmente não se importava com a resposta.
— Ser uma ferramenta para me guiar para fora desse mausoléu nojento! — Alice achava a floresta amedrontadora e, de fato, desejou deixá-la o mais rápido possível, porém, havia ali uma beleza estonteante e, por isso, ela não compreendia por que a Rainha dizia aquelas palavras violentas.
— Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê? — “Penúltima pergunta” Alice pensou.
— Odiei essa pergunta, próxima! — Alice, que estava perto do trono ambulante, sentiu gotículas de saliva em sua face, tanto foi a impetuosidade da resposta da Rainha. E era chegada a hora. Alice respirou fundo.
— Por que a tua máscara pesa mais que tua coroa? — Questionou Alice. O olhar da Rainha tornou-se fúria absoluta.
— Arranquem-lhe o coração, agora! — Gritou a rainha. Os animais mascarados começaram a perseguir Alice que tão logo correu o mais depressa que pôde. A gramínea, que outrora envolvia seus pés com cuidado, agora parecia impulsioná-la para que pudesse fugir com a velocidade precisa. Mas esta ajuda não fora suficiente. Alice sobre uma pilha de folhas secas, caiu em um buraco profundo e infindável. Havia se livrado de ter seu coração empalhado pela rainha, mas agora se via caindo e caindo. Era como um poço profundo e sem sim, símil a um abismo sombrio; ela gritava em desespero e, amedrontada, fechou seus olhos com intensidade e jurou abri-los apenas quando algo acontecesse. É uma pena, pois perdera o espetáculo das fotografias na parede do poço.
Quando sentiu seu corpo colidir com algo macio, Alice abriu seus olhos lacrimejantes e quando ergueu seu olhar à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora de uma frondosa floresta colossal e, à sua frente, um oceano escurecido e plácido sob um céu rosa-empoeirado. A visão de um veleiro embaçado, atracado à costa, imediatamente a fez se lembrar de tudo o que vivenciara na floresta. O veleiro ainda apertava seu coração, era a mesma cena, o mesmo instante, a mesma visão e, agora, poderia ser uma boa hora para ir até o que lhe parecera uma miragem da primeira vez, pois, talvez não fosse ilusão. Ela poderia pedir ajuda e ser salva de perder-se eternamente no bosque imensurável... era o seu desejo, não era? Ela queria deixar o que lhe parecia uma ilha encantada em maravilhas e horrores, entretanto, Alice viu o esguio coelho de dentes afiados, igualzinho da primeira vez. Ele, com os mesmos movimentos, aparecera, mas, dessa vez, ele enterrou um relógio de bolso.
Para Alice, tudo fora idêntico ao início de seu estranho despertar, exceto pelo coelho enterrando um relógio. Essa sutil diferença mexeu, profundamente, com Alice. Por que ele desenterrou o relógio no início? Por que o enterrava naquele momento? E se as cenas eram idênticas, como pôde haver uma diferença? Havia tanto o que saber, tantas perguntas, tantos porquês. Como ficaria o Artesão? A Rainha arrancaria quantos corações para empalhar? E a fuinha encontraria ou não a pimenta que a raposa pediu?
Alice pensava e logo viu o coelho entrando, bastante apressado, para dentro do denso arvoredo. Ela não tinha muito tempo, ela precisava escolher. O que outrora era ausente, ali tornou-se um verdadeiro sentido; Alice queria saber mais sobre a magnífica floresta que lhe parecia tão íntima... tão familiar... Então, tomou a difícil decisão: deu adeus ao veleiro e foi, pela segunda vez, atrás do láparo esguio.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Mortt, de Alva: Capítulo 1
Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no âmago da vida. Aromantada em jasmim, Alva Ttelihllen lacrimante está sobre o corpo de sua mãe, cujo lânguido coração pulsara pela última vez na colheita de fungos para o desjejum. Uma cesta deles está caída ao lado do cadáver e o silêncio é a profecia d’um perpétuo adeus. Um oblivinum mórbido pode ser ouvindo, no fundo do ser de Alva, pois ela se recorda de tocar o instrumento à sua mãe, quando era pequenina.
Entretanto, no horizonte, caminhando; Alva observa surgir um cavaleiro com armadura ornamental de ferro negro e uma imensa foice cortante. Ele se aproxima silente e, já bem perto, observa os cristais lacrimais de Alva que o fitam. Intrigado por tê-los ao seu dispor, o Cavaleiro paralisa. Alva levanta-se devagar e, dos arbustos rosais ao derredor, colhe uma rosa rubra e a coloca no torso do cavaleiro, próximo ao seu coração vazio. “Seja bondoso com a alma de minha mãe… ela era gentil e amável… esta foice a causará dor?” — Por assimilação, Alva compreendeu que ele era o Ceifador.
Logo após o abalo primevo, o Cavaleiro da Morte fez florir um crisântemo em suas mãos enluvadas e, ao colocá-lo sobre a fronte da falecida Grascie, fez com que su’alma se esvaísse do manto da vida. Alva o abraçou, delicada. “Obrigada…” — agradeceu, pois compreendeu que o Cavaleiro não apenas a ouviu, mas honrou o seu pedido. Diante do abraço, diante do envolver das mãos lhanas em sua armadura árida, o Cavaleiro encostou seu rosto no rosto de Alva, cuidadosamente; segurou-lhe em sua cintura e, pouco a pouco, tornou-se incorpóreo em névoa negra, até desaparecer.
Ele tinha de ceifar uma nova alma e, portanto, precisava partir. Alva colheu os cogumelos e voltou para seu lar solitário. O Coveiro foi chamado para cumprir com seu lavor, entretanto, Alva permaneceu em seu recôndito, observando o dia perecer; sua demasiada sensibilidade a impedia de comparecer ao enterro da senhora Grascie. Alva, em lágrimas, adormeceu no crepúsculo e despertou à meia-noite, destinada a cumprir o que se revelara em seus sonhos: escrever uma carta ao Cavaleiro da Morte.
“Caríssimo Cavaleiro da Morte… ou Ceifador… Ou tão só um cultor de crisântemos…
Confesso-te não ter sido afável ter te encontrado n’esta melancólica aurora, sob o céu vestal da vida, com a brisa horizontal rarefeita. Vivenciei, senhor, a dor mais augúria possível àqueles que, com estima profunda, caminham descalços sobre a gramínea da vida, sem cultivar rancores, sem cometer uma única injustiça… entretanto, acalenta-me que levaras a alma de minha amável mãe, com o respeito que lhe era merecida.
Escrevo-te, não obstante, por ser submissa à solidão desde então e ninguém há de compreender minha dor tal como tu podes, sendo o Ceifador das almas d’esta doce, e cruel, Lacrimur. Tu vês para além do que reside em meu semblante, eu sei, eu sinto. E mesmo que esta carta não alcance a tua sublimidade obscura, e tu venhas visitar-me tão só no meu fim, peço-te que, então, me escrevas; para que eu compreenda haver, n’este derredor misterioso que constitui a vida em si mesma, uma razão para que seja devolvido o sorrir à minha feição magoada.
Diga-me, Cavaleiro, o que pode defrontar o sôfrego luto, com adagas de alívio, e vencer?
Com carinho e dor…
Ao Cavaleiro,
de Alva Ttelihllen”
A missiva, n’um envelope de seda enegrecida, fora colocada aos pés do rio no bosque próximo à casa de Alva, lá onde frequente se avista Morpho Cisseis em crisálidas e em voos ornamentais. A espécime é conhecida pelo seu vínculo com a Morte, dada a efemeridade de sua existência, a beleza sublime de sua constituição e, acima de tudo, a fleuma de suas transmutações. Alva espera que o símbolo vestal da borboleta azulescida resulte no vir do Cavaleiro ao seu encontro, entretanto, reside em seu âmago uma fé de que as borboletas sussurrarão as palavras da carta ao Cavaleiro e ele versará uma resposta gentil antes de sua próxima visita.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.