Pigmeus — A Origem

Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”.
Marcos 5:9

Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas limitações não permitiriam fazer nada por ele — a não ser lhe fazer companhia —, após deixar todas as luzes da casa acesas, peguei um dos meus livros, sentei-me ao seu lado e iniciei uma interessante leitura na companhia de Hercule Poirot, que deveria desvendar um mistério sobre fantasmas, bruxas ou coisas do tipo. Talvez tenha sido a noite mais longa da minha vida. Em menos de duas horas de leitura, a estória já havia terminado; mesmo assim, a noite ainda continuava fria e bastante escura lá fora. A única coisa que poderia fazer era esperar o dia clarear para ir em busca de ajuda.

Vez por outra, eu ouvia barulhos estranhos, tanto no telhado sobre minha cabeça, como por sob o piso assoalhado abaixo de mim. Pareciam ser dezenas de pés correndo de um lado para outro no mais completo desassossego. Tentei me convencer de que era apenas um bando de ratos famintos, que sempre empesteiam velhas casas de fazenda, mas algo me dizia que eu estava redondamente enganado. Mesmo tentando afastar de meus pensamentos qualquer menção sobre terríveis criaturas da noite, eu ficava me lembrando das últimas palavras daquele inerte senhor, — que agora estava sobre a proteção das luzes acesas e, sabendo que havia alguém velando por ele, dormia pesadamente. Na verdade, nunca saberei se seu sono era devido à dose cavalar de calmante que eu havia lhe dado, ou pelo susto que tivera ao acordar e perceber que os tais “Pigmeus” o observavam na calada da noite. Algumas dúvidas me vieram à cabeça…

— Quem ou o que eram esses Pigmeus? Eram seres malignos? Que mal poderiam causar a um ser humano? Essas questões me atormentaram pelo restante da noite. De certo modo eu sabia que o termo “Pigmeu” se referia aos habitantes de uma nação imaginária onde as pessoas não tinham mais de um côvado de altura. Eu ainda me lembrava das esplêndidas aulas de História da África ministradas pelo professor Luís Carlos. Ele adorava mesclar fatos historiográficos com crenças populares que, segundo ele, eram tão válidos quanto qualquer fato científico. Mestre Luís dizia: “... A sabedoria popular é a mãe de todas as ciências. Antes da escrita, veio a fala. Há inúmeras verdades nos relatos dos mais velhos, suas estórias são carregadas de um velado misticismo que esconde inúmeros mistérios de um tempo a muito esquecido...”.

Decidi que assim que conseguisse ajuda para aquele pobre senhor, eu me encarregaria de fazer uma aprofundada pesquisa sobre esses tais pigmeus; quem sabe até mesmo fizesse uma visita ao meu velho e saudoso professor — isto é, se acaso ele ainda estivesse vivo. Quem sabe ele conseguisse me ajudar de alguma forma, com alguma informação que talvez eu não pudesse encontrar nos livros. Até aquele momento, — de uma forma bastante equivocada — eu me enxergava como uma pessoa que deveria ter algum tipo de problema em discernir a realidade com aquilo que minha cabeça pudesse criar. No entanto, o fato de conhecer alguém que temia tanto a noite quanto eu mesmo, e também saber que essa pessoa — um senhor de idade que parecia ter um caráter completamente ilibado — via coisas que outras pessoas não poderiam ver, mas que eu também vi; me fez perceber que o mundo é um lugar mais perigoso do que a maioria das pessoas possam acreditar, pois estamos rodeados de criaturas, fatos e fenômenos que estão bem acima de nossa humilde compreensão.

Assim que o sol raiou, abri todas as portas e janelas da casa; pude perceber que a casa estava toda iluminada pela luz da manhã, então fui em busca de socorro para aquele meu amigo que dava mostras de ter se desligado por completo do mundo. Antes de deixá-lo só, ainda tive o cuidado de verificar se ele ficaria em segurança, mas por mais que eu tentasse interagir com ele, não havia nenhum tipo de resposta de sua parte. Mesmo percebendo que eu me preparava para deixá-lo só, ele nem um pouco se inquietou, pois sabia que agora estava sob a segurança da luz do dia e nenhuma criatura da noite poderia vir a atormentá-lo. Senti em seu olhar — mesmo vazio — o mesmo desejo que eu tinha quando era criança: fazer a manhã durar para sempre, sem necessidade de um entardecer.

Querendo uma solução rápida para aquela situação, e sem mínima vontade de passar mais uma noite naquela casa, caminhei por alguns quilômetros e logo consegui ajuda numa casa às margens da estrada. O proprietário, que muito cortês veio me atender ainda na porta de entrada, disse-me que teria imenso prazer em ajudar. Convidou-me para entrar e tomar uma xícara de café, enquanto ele colocava uma veste mais adequada para ir até a cidade. Em menos de duas horas já estávamos dentro do pequeno hospital da cidade. Meu velho e recém-conhecido companheiro seria transferido para a capital, pois seu caso era grave. Mesmo com toda a deficiência de um hospital interiorano, fora possível — devido a abissal competência do médico que o atendeu — um diagnóstico de catatonismo crônico. Esse mesmo diagnóstico fora corroborado depois, por uma junta médica da capital após vários exames detalhados do paciente.

Em seu laudo dizia que o caso era bastante grave e momentaneamente irreversível, muito possivelmente o paciente jamais conseguiria discernir a realidade novamente. Um choque psicológico tinha o reduzido a quase um vegetal. Era triste ver o fim daquele tal amável senhor. De certo modo eu me sentia um pouco culpado, afinal fora eu que dera os comprimidos para ele beber. E também fora eu mesmo quem apagara as luzes que ele tinha todo o cuidado de manter sempre acesas. Sorte minha que ninguém mais sabia disso. De alguma forma o efeito do álcool em seu sangue potencializou o efeito do calmante sem deixar nenhum vestígio que pudesse ter sido identificado por algum exame. Sua própria filha me agradeceu pelo cuidado com seu pai e me tranquilizara dizendo que sabia que mais dia menos dia algo daquele tipo poderia acontecer. Segundo ela, seu pai bebia demais, exagerava no café e quase não dormia direito...

Depois de uma noite bastante tumultuada e de um dia que se iniciou com muitas desventuras, cheguei em casa completamente exausto. Eu que deveria retornar apenas duas semanas depois, em menos de cinco dias já estava de volta. Minha vizinha — uma viúva, solteirona e sem filhos, que vivia sempre me oferecendo mil favores — havia ficado responsável de olhar minha casa e regar minhas plantas enquanto eu estivesse fora; ela logo se assustou quando cheguei. Estava justamente, naquele momento, na varanda da frente, terminando de regar minhas samambaias quando eu abri o portão. Depois de um grito acompanhado de um risinho malicioso, ela me disse:

— Ora, ora, ora! Não é que esse reflexivo pensador retorna para o seio de sua amada... O que aconteceu? Dissesses-me que ficaria fora por duas semanas...

— Houve um acidente! O senhor que me contratara teve algum tipo de ataque, derrame ou coisa que o valha que me impossibilitou de terminar o serviço. Estou chegando agora do hospital, onde o deixei internado, agora sob a responsabilidade de sua filha. Parece-me que ele não conseguirá terminar essa obra nem qualquer outra sequer. Sua data de validade expirou...

— Diga-me uma coisa? Você não fora justamente substituir uma pessoa que havia também sofrido um acidente? — questionou-me ela, com olhar curioso...

— Sim! Havia sido seu ex-ajudante que havia caído do telhado sobre uma pilha de madeira.

— Eita! Que trabalho mais sinistro esse. Sendo assim, sua rápida aventura como carpinteiro terminou antes de começar? — disse ela, até com certo ar de galhofa.

— É! Parece que devo voltar às minhas profundas reflexões sobre as verdades do Universo, e deixar o ofício do pai de Nosso Senhor para aqueles que têm maior afinidade com o assunto.

Ela, que já estava terminando seus voluntariosos afazeres, ainda me questionou se eu precisava de algo mais. Agradeci profundamente sua boa vontade e disse que estava tudo bem. Tudo que eu mais queria era poder tomar um banho, fazer um lanche reforçado e depois tentar descansar um pouco. Ela, que certamente jamais desistiria de suas investidas, me questionou.

— Quer que eu esfregue suas costas? Também posso lhe preparar um jantar, se você quiser...

— Obrigado mais uma vez! Você tem sido uma pessoa muito carismática comigo. Mas nesse momento tudo eu que preciso é apenas de um pouco de paz...

Assim que ela saiu pelo portão, busquei pela paz e a quietude do meu humilde lar. Como era bom estar em casa. Tomei um banho, fiz um lanche e iniciei algumas pesquisas. Primeiro eu gostaria de saber onde se encontrava meu venerável professor Luís Carlos. Através de uma sobrinha sua, que havia sido minha aluna, descobri que ele estava vivo e muito bem de saúde. Ela me disse que ele ficaria deslumbrado em me receber em sua casa, pois sempre falara muito bem de mim como um brilhante aluno, sempre muito curioso quanto a coisas inexplicáveis. Disse-me ainda que seu tio certa vez comentara o fato de sempre ter visto em mim um aluno curioso, alguém que via o mundo de uma forma diferente dos demais.

Além do endereço, ela também me deu a certeza que eu poderia visitá-lo sem precisar agendar nada com ele. Segundo ela, ele muito raramente saía de casa e ficaria bastante satisfeito com a surpresa de minha visita. Ainda procurei por uma coisa ou outra sobre os pigmeus na internet, mas como não consegui encontrar mais nada de tão interessante e como já era noite escura, decidi que daria aquela fastidioso dia por encerrado e logo fui me recolher. Fechei meus olhos, relaxando ao som profundo e ressoante da chuva que caía lá fora e só voltei a abri-los por volta das quatro horas da manhã, quando após a forte descarga de um relâmpago ter causado uma momentânea queda de energia. Em menos de dez segundo a luz havia retornado, mas foi tempo suficiente para que meus olhos se acostumassem às sombras espessas da madrugada e então pude ver que havia diversos pontos amarelados me espreitando dos cantos escuros do quarto. Percebi que aquelas mesmas criaturas que haviam lançando aquele bondoso senhor num lastimável estado vegetativo, haviam me seguido de alguma forma.

Levantei-me mais do que depressa e acendi todas as luzes da casa. Como a noite já se encaminhava para seu término — fato que era notório pelas primeiras luzes que despontavam no horizonte, trazidas por um sol que não tardaria a nascer —, decidi que já iniciaria minha jornada daquele dia, naquela mesma hora, e não voltaria mais para cama. Tomei um banho e, após preparar um café reforçado, iniciei minhas pesquisas novamente. Depois de quase duas horas em frente ao computador, entendi que aquilo tudo era uma grande perda de tempo. Não havia nada de substancial sobre aquilo que eu realmente queria saber. Todos os sites falavam dos Pigmeus como sendo de tribos de seres humanos de uma estatura um pouco abaixo de um ser humano comum. Não encontrei nenhuma menção sobre seres pequeninos de olhos amarelos incandescentes que vagueiam pelas trevas e temem qualquer tipo de luz.

Logo começaram os primeiros movimentos da manhã, com pessoas indo e vindo de um lado para o outro nas ruas. A cidade desapertava e trazia consigo seus inúmeros habitantes, cada um com seus problemas em busca de uma evolução espiritual e tentando dar respostas às suas questões existenciais, completamente alheios às dificuldades uns dos outros. Vivendo um dia após o outro, na ânsia de chegar a algum lugar, mesmo sem saber para onde ir. Depois de protelar por um longo tempo, me vesti adequadamente e decidi ir procurar a casa de meu antigo professor. Quando cheguei ao local que o endereço me indicava, imaginei que estivesse no lugar errado, mas para minha surpresa, Professor Luís estava na porta varrendo sua calçada — típico de um professor aposentado — e quando me viu ficou muito satisfeito, mesmo sem ainda saber que eu estava ali para visitá-lo, pois num primeiro momento ele pensou que eu estivesse apenas de passagem pela rua. Cumprimentou-me com bastante alegria dizendo:

— Bom dia! Mas vejam só, se não é meu curioso e destemido aluno. O que o trazes aqui para esses lados tão distantes da civilização, meu jovem?

Ele falava como se vivesse numa solitária cabana no meio do deserto e me tratava como se eu ainda tivesse uns dezessete anos. Sua casa parecia uma pequena floresta, com árvores de todos os tipos e cores, por isso a necessidade diária e continua de estar sempre varrendo a calçada, devido ao excesso constante de folhas caídas quase o tempo todo. Após dar uma olhada panorâmica pelo lado de fora daquela pitoresca moradia respondi ao seu cumprimento tentando ao máximo corresponder a alegria que ele demonstrava em me ver.

— Bom dia, Professor Luís! É um prazer imenso poder revê-lo e poder verificar com meus próprios olhos que gozas de plena saúde e muita disposição. Consegui seu endereço com sua sobrinha Letícia que, diga-se de passagem, foi minha aluna. Peço mil desculpas por vir sem avisar, mas ela me disse que o senhor não tem telefone e me garantiu que o senhor muito apreciaria minha visita. Estou precisando muito de seus sábios conhecimentos sobre alguns assuntos um tanto quanto particulares e obscuros. Talvez o senhor possa me ajudar...

— Letícia é uma menina de ouro, sempre que tem um tempo de sobra, vem aqui me visitar. Mas tratando de você, sim! Vamos entrar, venha conhecer meu humilde lar. Não sei se poderei ajudá-lo em alguma coisa, mas aquilo que estiver ao meu alcance, certamente o farei.

Respondeu ele com bastante alegria na voz. Ao entrarmos em sua casa, pensei que estivesse numa espécie de museu de antiguidades e objetos exóticos. Havia uma miscelânea de um tudo e mais um pouco. Dava para ver de imediato que ele vivia sozinho, pois havia somente uma xícara usada sobra a mesa e todo o resto levava a essa dedução. Contudo, mesmo com a imensa balburdia de inúmeros objetos espalhados pela casa e pelas paredes, tudo estava muito organizado e limpo, como se a qualquer momento ele fosse receber um turbilhão de visitantes ao seu museu particular. Fui convidado a me sentar e ele logo me serviu café com bolinhos fritos. Em nenhum momento pensei em recusar, pois sei que pessoas da idade dele se sentem bastante ofendidos se não puderem ser prestativos de alguma forma. A nuance entre o amargo do café e o doce dos bolinhos trazia um prazer indelével ao paladar.

Assim que me vi satisfeito e certamente ele também o estava, decidi que já era hora de usufruir um pouco de sua sabedoria. Contei-lhe em pormenores o motivo de minha visita, solicitando por fim sua ajuda. Fato que, de alguma forma, inflou seu ego, pois logo se levantou e disse que eu o aguardasse onde estava. Para me dar algum tipo de resposta ele queria me mostrar algo primeiro. Após alguns minutos, retornou com alguns livros velhos que logo foram colocados à minha frente. Um em especial, com capa de couro encerado, foi mantido consigo debaixo do braço e, apontando para as encadernações à minha frente, disse com bastante entusiasmo:

— Essas obras à sua frente são do tipo de literatura comum e estão disponíveis em qualquer sebo ou livraria do gênero. São livros rasos que, para serem publicados, têm um conteúdo prolixo, cheio de regras e fundamentações científicas com notas de rodapé e todas essas bobagens. Contudo, esse livro aqui é uma espécie de enciclopédia do obscurantismo. Seu autor ou autores são desconhecidos. O que se sabe realmente é que é uma obra jesuítica, muito utilizada pelos membros da Companhia de Jesus em suas inúmeras viagens às terras desconhecidas e nunca dantes desbravadas pelo homem civilizado. É uma obra que cita toda e qualquer criatura — deste mundo ou não — que se tenha notícia; para que se alguém, porventura, se deparar com algum desses seres, pelo menos saiba do que se trata. E talvez consiga tentar enfrentá-los.

Com bastante receio, como se estivesse me entregando um recém-nascido, ele colocou o livro em minhas mãos. Logo pude perceber que era um exemplar raríssimo, mas bastante conservado. Folhei o livro com cuidado e pude perceber que estava escrito em diversas línguas diferentes, como se fosse a união de inúmeros textos avulsos. Sorte minha que o índice estava em castelhano. Fui correndo o dedo pela ordem alfabética e me deparado com alguns seres não tão estranhos ao meu humilde conhecimento: Almajonas, Cuckoo, Kurupi e a lista era enorme e bastante curiosa; de repente meus olhos se depararam com um título inusitado: “Órfãos”. Antes de abrir na página indicada, perguntei ao professor Luís:

— Como assim? Órfãos? Órfãos de quem?

— Quem sabe? O livro diz que são criaturas que ficavam vagando pelas cercanias dos cemitérios como se fossem pedintes na porta de uma igreja. Geralmente andam em forma de um casal com a aparência de duas crianças inocentes que estão em busca de seus pais. Segundo o livro, todo aquele que uma vez se encontrou com os órfãos e sobreviveu para contar a estória, jamais voltou a ser a mesma pessoa; a maioria findou seus dias na mais completa demência.

Após o nome dos órfãos, meu dedo indicador se deparou com aquilo que eu estava procurando — Pigmeus! Abri o local indicado pelo índice e me deparei com uma imagem bastante sinistra. Um humanoide com grandes olhos amarelos, sem nariz e sem orelhas, com uma enorme boca cheia de dentes serrilhados — que mesmo na imagem era possível constatar que seriam terrivelmente afiados. Abaixo da imagem havia uma breve descrição numa língua que não consegui identificar, mas logo minhas dúvidas foram sanadas, pois rapidamente professor Luis me explicou em pormenores do que se tratava o texto.

— O texto em si traz, em primeiro plano, várias descrições desses seres em diversas civilizações ao longo da História, desde o Egypto antigo, passando pelo mundo Greco-romano, Idade Média, até serem confundidos com algumas tribos de seres de baixa estatura do continente africano. Tais criaturas já foram confundidos com anões mineradores na antiga Núbia, onde trocavam enormes quantidades de ouro e pedras preciosas por crianças inocentes. Já estiveram no imaginário nórdico como duendes que viajavam através do arco-íris e trocavam potes de ouros por jovens ainda imberbes. E em muitos outros locais de variadas formas diferentes.

No entanto, os verdadeiros pigmeus que seu amigo alega ter visto e você também, talvez o tenha, — e não duvido de jeito algum — são seres maléficos tão antigos quanto a própria existência deste mundo. Certamente já habitavam os recônditos sóbrios do caos antes mesmo da luz ser criada. Esses terríveis seres sobrevivem do medo daqueles a quem eles perseguem, geralmente pessoas com problemas de insônia ou aqueles que de alguma forma padecem de nictofobia, pois para se alimentar do medo de suas vítimas, estas devem estar acordadas para liberarem a energia vital que se desprende em momentos de maior angústia de um indivíduo. Por serem criaturas propriamente das trevas, temem a luz acima de qualquer coisa e não há relatos que tenham atacado, quem quer que fosse, em plena luz do dia.

Infelizmente o texto não relata nenhuma forma concreta de como podem ser enfrentados, pois sua verdadeira força não se encontra neles mesmos, mas na fraqueza e aflição de suas vítimas que devem a todo custo tentar enfrentar seus próprios medos e encarar as trevas de frente. No texto, há algumas orações, certos encantamentos e disposições de certos itens pelo quarto da vítima que pode vir a afastá-los, mas não há relatos de algo que possa expulsá-los por completo de uma forma definitiva. Uma vez perseguido por um pigmeu, a vítima deverá se atentar a sempre dormir num ambiente iluminado e, se possível, na companhia de outras pessoas...

A imagem daquela horrenda criatura ficou gravado na minha memória e, as palavras de meu antigo professor, cravadas no meu peito. Por um momento fiquei bestificado com tudo aquilo. Saber que havia tantos seres que transitam entre nosso mundo e o outro bem além de nossa compreensão e que essas tais criaturas sempre foram de conhecimento da própria igreja, e o pior de tudo era pensar que pessoas como eu, quando relatam sobre a existência de tais seres, — até mesmo para alguma autoridade clerical — são tidos como mentalmente perturbados.

Sem deixar transparecer ao meu venerável professor meu profundo abalo emocional, agradeci a ele por sua ajuda e, ao demonstrar que estava de saída, antes de me despedir fui convencido a ficar em sua casa e lhe fazer companhia para um almoço que ele mesmo preparara. Foi um repasto simples, mas bastante saboroso. Nesse meio tempo ainda falamos bastante sobre vários outros assuntos, pois percebeu ele que a estória dos pigmeus havia relamente me abalado. Após o almoço, já um pouco mais calmo, assim que me despedi de meu antigo e sábio professor, decidi dar um passeio pelo centro da cidade e, no horário de visitas, passar pelo hospital para ver como estava meu companheiro de rápida experiência em carpintaria.

Para minha surpresa ele já não estava mais naquela instituição. Naquele momento, seu corpo estava sendo velado numa capela próxima de sua antiga casa. Ele havia falecido naquela mesma madrugada. Uma enfermeira da noite o havia encontrado já sem vida numa de suas rondas pela madrugada. Como eu não era da família, o havia conhecido a menos de um mês e não tive maiores intimidades com sua filha, achei melhor não me aproximar naquele momento tão íntimo. Depois eu levaria flores em seu túmulo. Bastante contrariado, cansado e até mesmo melancólico, decidi retornar para casa. Talvez com mais dúvidas ainda do que quando eu havia saído. Quando cheguei de frente ao meu portão de um lado da rua, minha vizinha também chegava do mercado pelo outro lado. Nos cumprimentamos e, naquele momento, pela primeira vez, eu a vi com outros olhos e percebi o quanto ela era atraente e sedutora. Decidi ser um pouco mais atrevido e me arrisquei a perguntar:

— Essas coisas são para aquele jantar que tens me prometido há tempos?

— Não necessariamente! Mas, se assim você o desejar, passaram a ser... — disse ela um tanto quanto assustada com minha atitude, mas bastante animada com a ideia.

Em poucas palavras ficou decidido entre nós que ela faria o jantar e que comeríamos na varanda de minha casa. Eu me encarregaria do vinho e das velas. Tudo correu de forma esplêndida. O tempo estava fresco, o céu limpo, e logo fomos agraciados pela magnificência de uma enorme lua cheia que abrilhantou ainda mais a beleza daquela noite. Depois de umas taças a mais de vinho, nos animamos além do que o normal e, quando dei por mim, já estávamos deitados um nos braços do outro em trajes de Eva após alguns momentos de louca euforia, onde pudemos acertar nossas diferenças. Ela, por ter exaurido suas forças numa insana cavalgada, que não parecia ter mais fim, estava ressonado em meus braços, fungando em meu pescoço um hálito doce com frescor de hortelã — até um pouco estranho para quem havia bebido quase uma garrafa de vinho. Devido aquela inebriante labuta vivida momentos antes, havia exigências em meu corpo que deveriam ser sanadas imediatamente. Com muito cuidado retirei meu braço de debaixo de sua cabeça e silenciosamente fui até o banheiro para me aliviar. Demorei um pouco mais do que o necessário e, quando estava retornando ao quarto, percebi que ela estava sentada no meio da cama em completo estado de choque, olhando para um dos cantos do quarto...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“... ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele...”.
Apocalipse 12:9

Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constante. Dentro daquele sonolento ambiente estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de início de semana. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do silencioso carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As antigas canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fosse um fúnebre fundo musical.

Sempre nas noites de segunda-feira — único dia de folga de Salatiel, em seu novo emprego de segurança noturno — ele buscava um lugar onde pudesse beber sossegadamente, ouvir um pouco de música e tentar se socializar um pouco, de forma que pudesse observar os outros ao seu redor, e se possível não ser notado. Nem sempre dava muito certo e havia a constante necessidade de ter de trocar de lugar de tempos em tempos. Havia certa peculiaridade nesse estranho ser, que o tornava um tanto quanto diferente; de certo modo parece que ele era perseguido pelo senso de fazer justiça e por onde andava sempre se deparava com uma irrecusável oportunidade de desfazer algum desagravo a uma alma inocente. Para tentar conviver num mundo tão hostil e covarde, buscava os lugares mais discretos possíveis.

Certamente não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente, nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentar se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a buscar o momento de paz para consigo mesmo. Da mesma forma que todo ser vivente tem os seus segredos mais profundos, Salatiel não era de todo diferente. Contudo, qualquer um que viesse a saber quem ele realmente era, certamente não viveria para contar a quem quer que seja, e se por acaso contasse, ninguém acreditaria.

Assim que entrou naquele ambiente, sentou-se num dos cantos mais afastados do balcão — onde a luz era praticamente insuficiente — e, logo, pediu uma bebida. A jovem que viera o servir era de uma beleza ímpar. Uma mulher de altura mediana, de corpo bem feito, com belos seios rijos e um agradável perfume com leves notas no odor de almíscar. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom de um tom carmim. Quando o cumprimentou, mostrou-lhe um inocente sorriso de dentes brancos como o mais puro marfim.

— Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Denise, quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?

— Boa noite! Traga-me por gentileza uma garrafa de conhaque. — disse de uma forma fria e até um tanto quanto ríspida. De cabeça baixa estava e assim continuou.

A bela jovem, acostumada àquele tipo de cliente, não deu muita atenção a toda aquela falta de delicadeza do belo cavalheiro que optava por se esconder naquele penumbroso canto do bar. Salatiel era um ser de uma beleza que poderia se dizer um tanto quanto... exótica. Mesmo escondido nas sombras, ainda assim era possível perceber que era um homem alto, másculo, de mãos fortes e ombros largos; cabelos negros como uma noite sem luar e uma face lisa desprovida de qualquer traço de barba ou bigode. Num primeiro momento, não foi possível ver a cor dos seus olhos nem mesmo o brilho de seu sorriso — se esse, porventura, viesse a existir —, mas tinha a leve aparência de ser um sujeito decente.

A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores, atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão — quase derrubando a garrafa de conhaque de Salatiel, que logo previu que aquilo não terminaria bem. Quando a jovem bartender, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela, em seguida, de forma bastante desrespeitosa:

Belezoca, quero uma bebida e uma beijoca.

– Boa noite, senhor. Qual bebida poderei lhe servir? — disse ela, muito educadamente.

– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.

– Peço perdão, senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo, se me disser o seu nome, terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? — disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno, sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.

– Quando eu lhe disser o meu nome, terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. — respondeu ele.

Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si, tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar, já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por passe de mágica, o estranho que estava no canto mais afastado do balcão, em um simples piscar de olhos já estava ao lado do valentão e lhe segurava o ombro dizendo, muito calmamente, para que ele soltasse a moça. Um silêncio se fez por completo naquele instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.  

Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, virou a arma na direção de Salatiel e apertou o gatilho várias vezes. O som que a arma emitiu, fez com que todos ficassem boquiabertos, inclusive o próprio valentão que não acreditava no que estava ouvindo, pois, por mais que insistisse em apertar o gatilho, a arma girava no vazio como se estivesse descarregada. Salatiel, com toda a serenidade que lhe cabia, tomou a arma do valentão como se tomasse um brinquedo de uma criança. Em seguida, o segurando pela mão direita, olhou profundamente nos olhos dele e disse algumas palavras que ninguém conseguiu entender ao certo, nem mesmo a jovem que estava próxima a eles dois. Denise também pôde ver que os olhos de Salatiel tinham mudado de um tom azulado bastante sedutor para um negro bastante sombrio. Naquele momento, ela teve a estranha impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos.

Em alguns poucos segundos, ao olhar nos dois abismos que se tornaram os belos olhos de Salatiel, o valentão fez uma longa viagem pelas terras onde a esperança não jaz e, acompanhado daquele estranho ser — que naquele lugar tinha outras feições bastante assustadoras —, pôde vislumbrar um lugar de dor e bastante sofrimento. Todas as estórias que ouvira sobre a terra da danação eterna se tornou real perante seus olhos. Num voo rápido pôde ver, com seus próprios olhos, centenas de milhares de pessoas em terrível padecer, clamando por piedade num incessante lamuriar. Tentou fechar os olhos, para não ver toda aquela dor, mas percebeu que, ao fazer esse gesto, uma ardente chama se acendeu logo atrás de seu globo ocular, como se sua cabeça estivesse pegando fogo. Assim que abriu os olhos novamente, a ardência desapareceu. Pôde então perceber que estava ali, justamente para ver toda aquela angústia.

Após presenciar todo aquele sofrimento que poderia levar qualquer um à loucura, sentiu seu peito se fechar num profundo pesar; mas o pior ainda estava por vir: quando viu seu falecido pai, preso ao chão com correntes incandescentes, ser estuprado por dois terríveis monstros com feições de crianças demoníacas. Essas crianças sodomizavam seu pai sem nenhuma piedade, como se aquilo fosse em exercício de uma função a ser executada de forma profissional. Mas havia prazer nos terríveis olhos daquelas duas criaturas que, para piorar ainda mais a situação, tinham um semblante que lembravam duas crianças inocentes. Seu pai, percebendo uma estranha presença próximo a ele, levantou sua cabeça e logo reconheceu a imagem do filho que estava a sua frente, ao lado de Salatiel. Num urro de tremendo remorso, gritou para o filho:

 — Jeremias, me perdoe! Eu era uma pessoa doente e agora sei todo o mal que lhe causei.

Jeremias soube, então, que tipo de lugar era aquele e porque seu pai estava sendo punido daquela forma. Lembrou-se, então, de tudo o que havia sofrido nas mãos de seu pai quando sua mãe não estava em casa. Após poder contemplar o castigo dos ímpios, um triste pesar tomou conta de todo o seu ser. Essa viagem de Jeremias durou, para ele, quase meia hora, mas no bar não se passara nem cinco segundos. Quando ele piscou os olhos, logo viu que todos estavam estupefatos, imaginando o que ele faria em seguida, mas para a surpresa geral, ele baixou sua cabeça e em seguida lançou as mãos no rosto e começou a chorar como uma criança.

Ninguém no bar entendera coisa alguma. Jeremias completamente tomado pela emoção, ainda pagou pela bebida que nem mesmo chegou a tomar e, com o rosto banhado em lágrimas, implorou pelo perdão de Denise; logo em seguida saiu correndo do bar, deixando para trás seu maço de cigarros, um pacote de dinheiro e a arma que lhe fora tomada. Denise olhou para o estranho cliente que viera em seu socorro e, sem entender nada daquilo, logo lhe questionou:

— O que foi aquilo? O que o senhor disse a ele?

— Nada demais, apenas disse a ele para que endireitasse suas veredas e que tivesse um pouco mais de respeito para com o seu próximo. Acho que daqui para frente ele será um homem um pouco mais educado e bem mais cuidadoso com suas atitudes.

Salatiel, após dizer essas palavras, pegou a arma que ainda estava sobre o balcão, a descarregou em seguida, guardando, tanto a arma quanto as munições, nos bolsos da jaqueta jeans que estava usando. Voltou para seu lugar e tomou mais uma satisfatória dose de seu conhaque. O restante da noite transcorreu de forma tranquila, sem mais nenhuma perturbação. O bar fechava em dias de segunda-feira, por volta de uma hora da madrugada. Antes de encerrar o trabalho, Denise muito gentilmente agradeceu seu salvador novamente, dizendo que seria um enorme prazer recebê-lo uma vez mais ali naquele humilde ambiente.

Assim que ela fechou o bar, seguiu seu caminho direto para casa que distava somente algumas quadras de seu trabalho. Salatiel, como era de costume, sempre levava consigo o restante da garrafa que sempre sobrava, e sentava-se num banco de uma praça qualquer; ainda ficava, até quase o dia amanhecer, sentado de face virada para cima, contemplando as estrelas e se lembrando de tempos de outrora. Estava ele caminhando em passos lentos quando ouviu gritos desesperados vindos de uma rua logo abaixo de onde ele estava. Rapidamente se encaminhou na direção dos gritos e, lá chegando, logo percebeu que pela segunda vez naquela noite, Denise necessitava de sua ajuda novamente, pois dois homens tentavam encantoá-la para um local escuro, possivelmente com a intenção de abusar de sua inocência.

Mais uma vez, com a calma de um pastor que tange suas ovelhas, Salatiel se aproximou dos dois agressores e parece que repetiu o mesmo que havia feito no bar, pois assim que tocou nos agressores, em alguns segundos os dois saíram correndo aos prantos, clamando que Deus tivesse piedade de suas almas. Denise, uma vez mais, achou tudo aquilo bastante estranho, mas, mesmo assim, o agradeceu novamente e pediu para que ele a acompanhasse até em casa. Sem poder dizer não, para uma jovem que se parecia por demais indefesa, assim ele o fez. Ao chegarem ao portão de sua casa, quando Denise já estava prestes a se despedir, um agradável rostinho apareceu na janela. E para surpresa ainda maior daquela batalhadora garçonete — que criava sozinha, com o parco salário que ganhava, uma filha adotiva que padecia de leucemia —, ouviu quando a menina disse que o convidasse para entrar.

Ela sorriu e pediu que ele entrasse somente um pouquinho, para que a menina não se contrariasse. Salatiel jogou, a garrafa que trazia nas mãos, na lixeira; e seguiu Denise. Assim que entraram na casa, ele logo pôde perceber que havia uma menina de uns nove anos, sentada numa cadeira de rodas. Tinha a pele pálida como a neve — a ponto de deixar visíveis quase todas as suas veias. Na cabeça nua, não tinha nenhum fio de cabelo sequer. Era tal magra, que dava a leve sensação de que não duraria muito tempo. Contudo, para surpresa tanto de sua mãe, bem como para o próprio Salatiel, a menina se direcionou a ele como se o conhecesse há muito tempo.

— Boa noite, Salatiel. Como tem passado? Não reconhece mais um de seus irmãos quando vê um? Pelo que vejo tem se adaptado bem à sua nova vida...

Para não restar nenhuma dúvida, Salatiel respondeu na língua dos anjos.

— Boa noite, Galalel. Agora se disfarça de menininhas doentes para andar entre os seres humanos? Ele já foi mais criativo para nos enviar entre os seus preferidos.

— Não há preferidos para Ele! Somente aqueles que o obedecem e os que, por escolha própria, são rebeldes. Estou aqui por uma causa nobre. Denise é muito preciosa para ele e precisa ser testada em sua fé. Respondeu Galalel, também na língua dos anjos...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Relíquia

Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“O mundo parece cheio de bons homens, mesmo que existam monstros nele”. — Bram Stoker

Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a segurança da água corrente. Essa secular construção é um pequeno palacete assobradado, construído por monges ainda nos tempos medievais. Uma lenda sobre o local remonta a um período onde ainda havia uma fé fervorosa entre os homens. Segundo essa lenda, o Arcanjo Miguel – o Guerreiro de Deus – havia aparecido para dois pescadores na margem do rio e, apontando para uma ilha que ficava no meio das águas daquele caudaloso rio, lhes ordenara que construíssem uma fortaleza, que posteriormente serviria de abrigo a todos aqueles que buscassem a proteção da luz. São Miguel dissera ainda que aquele santuário, estando entre águas correntes, jamais poderia ser transposto por criaturas das trevas.

Esses dois pescadores buscaram auxílio entre os monges pedintes e, em menos de cinco anos, uma resistente fortaleza estava pronta. Contudo, a conselho dos Franciscanos, nenhuma ponte deveria ser construída, ligando as margens do rio àquela protegida ilha, onde agora havia o Santuário de São Miguel Arcanjo. Qualquer acesso a essa fortaleza só poderia ser feito através de barco ou a nado – para algum aventureiro que ousasse enfrentar as fortes correntezas do rio. Somente no final do século XIX, quando aquela fortaleza – abandonada há décadas – foi adquirida por um abastado comerciante inglês, é que uma robusta ponte foi construída, ligando a ilha às margens do rio. Esse rico burguês fez do antigo santuário uma aconchegante pousada e residência própria, para si e sua recém-formada família.

Esse comerciante falecera há alguns anos, deixando a pousada nas mãos de sua esposa e sua única filha. Há rumores que, além da suntuosa estalagem, deixara como herança uma faustosa fortuna para a esposa e a filha. A esposa, mesmo depois de mais de vinte anos de viuvez – e a cada dia com uma aparência mais juvenil – jamais tivera outro relacionamento, mesmo sendo cortejada por diversos homens de toda e qualquer tipo de classe socioeconômica. Com muita seriedade, mantinha sua castidade e o pleno respeito ao luto de uma forma literal, pois, além de sua moral inquestionavelmente ilibada, vestia negro dos pés à cabeça. Cecília era realmente um modelo exemplar de viúva. Talvez devido à sua idoneidade, ou quem sabe em respeito à memória do falecido marido, ninguém jamais a vira fora da estalagem desde que ficara viúva – alguns desocupados mais antigos asseguravam que nem mesmo antes –.

A pousada Eclipse era um lugar quente e confortável, desprovida de luz elétrica devido à sua posição geográfica; mantinha sua iluminação à moda antiga, à luz de velas e lampiões, o que dava ao ambiente um aspecto bastante lúgubre. Além dos odores comuns a todo e qualquer estabelecimento comercial do tipo, cheirava a fumaça de madeira de lei que queimava constantemente numa lareira, acesa a noite toda. Havia também no ar um agradável cheiro de flores silvestres. Era o tipo de estabelecimento que funcionava todas as noites sem exceção, servindo cama e comida, atendendo a qualquer um que pudesse pagar. Havia apenas uma peculiaridade estranha naquela estalagem: nenhum hóspede, independentemente de sua classe social, jamais era convidado a entrar. Quem quisesse adentrar em suas portas deveria fazê-lo livremente.

Aquela era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades. No céu, uma lua nova se despedia no horizonte, deixando atrás de si um céu sem nuvens, bastante estrelado. Com a ausência de seu mais nobre luminar, a noite se tornara escura e bastante traiçoeira para quem andasse às escuras sem conhecer o caminho a ser seguido, ou sem o auxílio de alguma luz artificial. A sorte de qualquer um que ousasse ir até a Pousada Eclipse era a luz dos vários lampiões ao longo da ponte, que iluminavam todo o caminho. Devido ao bom atendimento e à qualidade dos serviços oferecidos, a estalagem era sempre muito movimentada.

O homem no umbral da porta era alto, forte, mas com traços um tanto quanto melancólicos. Tinha olhos claros e distantes. Parecia um sujeito que havia tido uma vida inteira de infelicidade. Trajava vestes surradas, que em outros tempos teriam sido o ápice da moda; entretanto, pareciam estar carecendo urgentemente de uma lavagem há tempos. Essas vestes davam-lhe a aparência de ser um viajante de terras bem longínquas. Sem pedir licença, foi logo entrando e, quando se pronunciou pela primeira vez, percebeu-se que tinha uma voz cavernosa e sussurrante, com um acentuado sotaque das terras do Leste. Para quem conhecia, logo foi fácil perceber que seu principal idioma era o romani – antiga língua dos ciganos –. Contudo, sem muitas dificuldades, conseguia se fazer entender muito bem e foi logo dizendo:

– Boa noite, senhoras! – disse ele, dirigindo-se diretamente a Cecile e sua filha, como se já soubesse que ambas eram as proprietárias do local –. Gostaria de algo forte para beber. E se não for muito tarde e nem muito incômodo, um jantar seria muito bem-vindo.

Rapidamente, um conhaque fora-lhe servido. Após tomar de um único gole a dose oferecida, pediu que a garrafa – mesmo que já pela metade – fosse deixada sobre a mesa. Antes que a garçonete lhe pudesse dizer qualquer coisa, lançou sobre a mesa uma moeda de ouro, pagando adiantado um valor bem acima daquele que imaginava ser por uma garrafa lacrada. A jovem que lhe servira a bebida recolheu a moeda e disse-lhe:

– Seja bem-vindo à nossa humilde casa, cavalheiro! Meu nome é Lilian Leblanc. Aquela que atende no balcão é minha mãe. Seu nome é Cecile Leblanc. Estamos ao seu dispor para atendê-lo da melhor forma possível. Seu jantar será logo servido, nossa cozinha funciona durante toda a noite. O que mais duas humildes estalajadeiras podem lhe ser úteis? Senhor...?

– Rubens! Muito prazer. Eu estou bastante atrasado, terminando de jantar eu já vou embora. Como as coisas estão indo por aqui, madame?

– Alguns reclamam da crise aqui; outros, da seca acolá, e muitos comentam sobre uma tal de Depressão econômica. Mamãe e eu não nos importamos muito com o que acontece lá fora. Temos nossos fregueses cativos e nosso movimento é sempre o mesmo em todas as épocas do ano. Aqui, em nossa humilde casa, tudo ocorre na mais absoluta paz e quietude. Nossos fornecedores nos abastecem continuamente com tudo o que precisamos. Na verdade, há tempos que nem mesmo saímos daqui dessa ilha. Temos sempre muito trabalho por aqui.

– Depressão econômica! Mesmo que seja longa e castigante, não se deve, de forma alguma, ser comparada ao que foi a Peste Negra, a Átila, o Huno, ou a qualquer uma das Cruzadas. Independentemente dos flagelos, o ser humano tem um dom a resistir a qualquer coisa – disse ele, sorvendo mais uma dose do conhaque.

Madame Cecile, que servia outros fregueses no balcão, mas a todo o tempo prestava zelosa atenção naquele sinistro forasteiro, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez, o questionando:

– Que tipo de homem é o senhor? O que o traz à nossa humilde casa, senhor Rubens?

– Peço perdão se disse algo errado, senhora. Sou um humilde viajante em uma importante missão, a serviço de pessoas poderosas do lugar de onde venho. Não sou do tipo de homem perigoso. Sou apenas um viajante. Se o que eu disse ofendeu a senhora ou a essa casa de alguma forma, eu revogo imediatamente. Às vezes me excedo um pouco nas palavras, talvez porque ainda trago na lembrança os velhos costumes de quando eu ainda era professor de História em meu país. Por falar em História, gostaria de lhes contar uma bastante interessante, se permitirem. Quem sabe se, depois de ouvirem o que tenho para dizer, possam me ajudar de alguma forma.

Cecile, que era estalajadeira desde que conseguira alcançar a parte de cima do balcão, sempre acostumada às esquisitices de seus fregueses, deu de ombros, como se, para ela, alguém falando ou ficando em silêncio fosse totalmente irrelevante. Contudo, sabia que o que mais agradava a um viajante, além de uma cama macia, boa comida e bebida farta, era poder compartilhar suas estórias a quem quisesse ouvir. Naquela noite, havia uma dúzia de pessoas presentes, talvez até um pouco mais. Entretanto, a estória seria de maior interesse de mãe e filha.

O forasteiro enchera seu copo até a borda e o emborcou de um único trago. Após limpar a garganta, pediu licença aos presentes e principiou a seguinte narrativa.

– Antes de qualquer coisa ser dita, devo preveni-los que o que tenho a dizer possa parecer uma estória de viajante, ou até mesmo algum desvario de alguém desprovido de suas capacidades mentais. Mas quero que saibam que, da mesma forma que há a luz, também existem as trevas. E, se porventura acreditam em Deus e todas as hostes celestiais, também devem acreditar que haja o príncipe das trevas e seus seguidores – sendo também eles, anjos – que, junto com seu mestre, foram lançados no abismo e reinam naquele lugar onde a esperança não jaz...

... Alguns dizem que o primeiro deles foi Caim, por ter derramado o sangue de seu irmão na terra ainda virgem do pecado. A punição de Deus para esse primeiro homicida havia sido algo severo e exemplar. “... é maldito na terra e que esta não mais lhe dará frutos, sendo, portanto, fugitivo e errante...” Caim fora marcado e condenado a vagar pela terra, sendo eternamente perseguido pelos demais filhos de Adão. Pelo assassínio covarde de seu irmão, a Luz Divina abandonara sua fronte. Caim, uma vez órfão, havia sido adotado pelas trevas, sendo obrigado a viver nas sombras, tendo o sangue como seu único alimento. Uma vez que dera o sangue de seu irmão para que a terra bebesse, Caim e sua prole também assim o faria.

Outros, no entanto, defendem que o primeiro nosferatu foi Judas Iscariotes – o traidor. Aqueles que defendem essa teoria se baseiam nas próprias Escrituras Sagradas, que, ao mesmo tempo que está escrito que Judas, estando amargamente arrependido por ter vendido seu próprio Mestre, atentara contra sua própria vida, há rumores de que a morte – privilégio para todos aqueles que buscam conforto no sono eterno – lhe fora negada. De forma bastante obscura, as Escrituras relatam que o traidor passou a viver num lugar chamado “Aceldama”, ou seja, campo de sangue. Ninguém sabe ao certo o que fora feito do traidor, apenas que desapareceu nas sombras do esquecimento, sem deixar nenhum tipo de vestígio.

Durante séculos, as estórias sobre mortos-vivos caíram no esquecimento, até virarem lendas, e as lendas virarem mitos. Quase uma era se passara sem ninguém mais ouvir falar sobre os filhos das trevas que caminhavam na noite e se alimentavam de sangue, até surgir o príncipe da Valáquia, Vlad Tepes – o Empalador. Contudo, seus súditos o chamavam de Vlad Dracul – o “filho do dragão” – ou, simplesmente, Drácula. Esse príncipe, após perceber que sua imagem se envolvera em diversas estórias de horror e sangue e que certamente chamaria a atenção da Igreja, para evitar que uma Cruzada fosse convocada contra ele, forjara sua própria morte, e seus restos mortais teriam sido levados para a igreja de Santa Maria la Nova, em Nápoles, na Itália.

O que de fato ocorrera é que, com auxílio de alguns súditos mais fiéis que o ajudaram a forjar sua própria morte, se recolhera nas ruínas de um de seus castelos e, usufruindo de sua imortalidade, escondido nas sombras da escuridão, esperou que um longo tempo passasse, até que, por mais uma vez, sua existência caísse por completo no esquecimento.

Em fins do século XIX, essa sinistra criatura emerge mais uma vez na figura de um abastado e temido Conde, que, devido à importância de sua linhagem, não quisera abandonar nem o nome, muito menos o símbolo de seus antepassados. Esse Conde, após séculos e séculos sobrevivendo do sangue e do medo de camponeses inocentes, encontrou seu fim nas mãos de um sábio e destemido cientista holandês, que, além de médico, também era um grande estudioso das ciências ocultas e sabia como poderia colocar um fim ao reinado de terror do Conde...

O forasteiro interrompera sua narrativa, para molhar a garganta com mais uma dose de conhaque. Secou a garrafa e pediu outra, que muito rapidamente lhe fora servida. Empolgado pela atenção que recaíra sobre si e sua inverossímil narrativa, nem mesmo se dera conta de que o sabor da bebida havia mudado. Em seu momentâneo silêncio, percebeu que havia vários sussurros entre os demais presentes. Madame Cecile, sem ser indelicada e aproveitando que o viajante se calara por um momento, aproveitou a ocasião e disse:

– Certamente que o senhor fosse um ótimo professor. Mas, se não estiver enganada, pensei ter ouvido dizer que era um historiador e não um professor de Literatura...

– Ainda não terminei minha história, madame. O melhor ainda está por vir.

... O Conde Drácula, cansado de sua vida monótona em seu castelo – se alimentando de camponeses rudes e donzelas simplórias – decidira partir para a Inglaterra para expandir seu reino de terror em terras civilizadas. Seu corpo e alguns de seus bens pessoais foram transportados em um navio mercante chamado Deméter. Porém, quando esse navio chegou à costa da Inglaterra, todos os tripulantes haviam morrido durante a viagem. Os dois únicos corpos encontrados a bordo – o capitão amarrado ao leme e seu imediato crucificado de cabeça para baixo no mastro principal – estavam com suas veias vazias, sem uma única gota de sangue.

Junto ao capitão, escondido entre suas vestes íntimas, fora encontrado o Diário de bordo do navio, que, além de informações de praxe sobre a viagem e a carga transportada, também relatava a presença de um grande mal a bordo. Nesse diário estava registrada a presença de nove tripulantes a bordo em sua origem, quando o navio partiu do porto de Varna, na Romênia. Contudo, no decorrer da viagem, surgiu a presença de uma passageira clandestina, uma bela mulher que estava escondida entre a carga no porão do navio. Constava nesse mesmo diário que, desses nove primeiros tripulantes, seis deles haviam perecido de forma misteriosa durante a viagem. Um dos tripulantes e a passageira clandestina haviam desaparecido.

Pelos registros, era o médico de bordo, o doutor Clement, um médico desempregado – estudioso de astronomia, filosofia e também especialista em doenças obscuras, segundo ele mesmo – que havia ficado obcecado em caçar e matar o monstro a bordo, que, segundo ele, estava se alimentando do sangue dos tripulantes. Numa das páginas do diário, o capitão relatara que houvera uma terrível luta entre o doutor e um enorme morcego. O doutor tivera vários ferimentos graves, mas também conseguira, com uma cruz de madeira, tendo uma de suas pontas afiadas, ferir seriamente o monstro, que derramara bastante de seu sangue pelo convés do navio. Parte desse sangue fora recolhido pelo doutor, que, segundo ele, seria para análise posterior. Esse foi o último registro da presença do médico a bordo. Após o desaparecimento do médico, a passageira clandestina também não foi mais citada no diário.

O então médico, que ousara enfrentar o suposto monstro de frente, fora dado como desaparecido pela justiça inglesa. A história do Deméter fora logo esquecida – afinal, era apenas mais um navio, dentre tantos, que todos os anos a força da tempestade destruía e lançava seus destroços junto à praia. Doutor Clement, uma vez que juridicamente fora dado como desaparecido ou morto, lançado ao léu do esquecimento, de posse de parte do ouro que era transportado no Deméter e também de algo de um valor inestimável, decidira deixar de vez sua antiga vida de médico – quase todo o tempo desempregado – para trás.

Doutor Clement, sabendo que nenhuma autoridade em Londres, nem mesmo na Inglaterra – ou em qualquer outro lugar que fosse –, o levaria a sério sobre estórias de homens que se alimentam de sangue e poderiam se transformar em enormes morcegos, decidiu que o melhor a se fazer era seguir o exemplo de seu algoz e também ele mesmo, esconder-se nas sombras do esquecimento. Conseguiu novos documentos, trocou de nome e de origem, e após se mudar para o continente, iniciou uma nova vida comprando uma antiga e abandonada fortaleza, que, por séculos, funcionara como uma espécie de leprosário franciscano. Doutor Clement, durante o dia, era um simples estalajadeiro, recebendo em sua pousada viajantes de todos os cantos do mundo, sempre muito atento a todo tipo de estória contada sobre monstros e criaturas estranhas. Entretanto, durante a noite, era um incansável estudioso das ciências ocultas, enquanto sua bela e jovial esposa fazia as vezes de anfitriã do local...

Lilian, que estava próxima ao clandestino, muito interessada na estória que ele contava, após essa última parte da narrativa, se afastara sorrateiramente dele e se aproximara de sua mãe, que estava atrás do balcão com toda sua atenção voltada para o forasteiro, que, após se servir de mais uma satisfatória dose de seu conhaque, continuou:

– Segundo informações muito seguras, Maurice Leblanc – antigo doutor Clement – após ter dado um fim em sua antiga identidade, se mudara para o continente, casando-se em seguida com a estranha passageira que viajara clandestinamente na última viagem do Deméter. Essa mesma fonte me assegurara que o antigo doutor tivera uma filha, que, nos dias atuais, deveria estar com 40 anos ou talvez até um pouco mais. Pelo que ouvi, sua aparência é de alguém com vinte anos apenas. Contudo, o mais estranho de tudo isso seria o fato de sua mãe, a mesma clandestina do Deméter, nunca ter envelhecido um único dia desde o dia em que fora vista pela última vez, quando zarpara do porto de Varna.

Não tenho nenhum interesse com o que acontecera ao doutor Clement, muito menos em sua família, mas tão logo, naquilo que ele retirou do navio, quando, de uma forma bastante inteligente, tanto ele como sua futura esposa saltaram do barco na primeira oportunidade que tiveram após a hercúlea luta travada contra o monstro a bordo. Estou aqui para recuperar aquilo que as pessoas que me contrataram chamam de “Relíquia”. Ou seja, um frasco contendo parte do sangue do Conde Drácula. Essas pessoas a quem me refiro são bastante poderosas e, há tempos, investigam o paradeiro do doutor Clement. Após décadas de sigilosas investigações, suas informações, obtidas por fontes bastante seguras, me trouxeram até aqui.

Há rumores de que, com a morte do Conde, os outros de sua espécie perderam parte de seus poderes. Não conseguem mais transformar outros seres humanos, já não possuem o poder do rejuvenescimento e muito menos o de autorregeneração. São decrépitas criaturas se escondendo nas sombras, sobrevivendo como ratos nos esgotos. Contudo, acreditam que, com o sangue do Conde, qualquer um que o possua poderá tornar-se um mestre vampiro com todos os poderes de outrora. Ou quem sabe, até mesmo, trazer o próprio Conde de volta das profundezas do inferno.

Não tenho certeza se isso seja possível. Mas, por todas as coisas que já vi e ouvi nesse mundo, já não sei se a palavra "impossível" tem mais algum significado. Apenas tenho a plena certeza de que, se Drácula conseguir retornar ao nosso mundo, virá mais forte do que nunca e arrastará todo o ódio dos anjos caídos consigo. Alguns imaginam que, quando Drácula foi morto, assim que chegou àquele lugar onde a esperança não existe, fora recepcionado com honras de Estado, e o lugar à direita do Príncipe das Trevas lhe fora oferecido...

O forasteiro se calara e ficara observando qual seria a reação dos que estavam ali presentes. Seu maior interesse era como mãe e filha agiriam ao ouvir sua história. O que viu e ouviu o deixou bastante irritado, pois toda a estalagem caíra numa grande algazarra. Gargalhadas e gracejos por todos os lados. Uma das mulheres dentre a clientela se molhou de tanto rir. Madame Cecile, após conseguir com muita dificuldade conter o riso, disse ao forasteiro:

– Prezado senhor Rubens, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome. Sua história foi realmente fantástica. Nesses dias em que qualquer escrito vira uma obra literária, o senhor bem que poderia virar escritor e, quem sabe, até ganhar aquele prêmio... Como é mesmo o nome?

Alguém dentre os presentes gritara do fundo do salão:

– Nobel!

– Isso mesmo! Prêmio Nobel. Realmente sua imaginação é muito fértil, senhor. Mas, como sou uma boa anfitriã e busco sempre agradar a todos os meus fregueses da melhor maneira possível, não o deixarei vagando sozinho ao léu, como se fosse uma pessoa desequilibrada. Tentarei, dentro de minhas faculdades mentais limitadas, participar de seus devaneios.

Houve mais um turbilhão de gargalhadas por todo o salão.

– Quanto à então "Relíquia", não se preocupe, ela está bem segura aqui dentro dessas paredes. Neste antigo Santuário, nenhuma criatura das trevas pode entrar livremente, exceto se for transportada por um ser inocente. Nenhuma alma viva ou qualquer coisa que caminhe na luz ou nas sombras jamais colocará suas mãos nessa tal Relíquia. Dou-lhe minha palavra...

Ainda bastante irritado, após tentar se levantar e suas pernas não responderem ao seu comando, questionou ele a madame Cecile:

– Como pode ter tanta certeza disso?

Após dar uma gargalhada tão alta que chegou a abalar todas as estruturas da estalagem, causando um silêncio geral em toda a casa, ela lhe respondeu:

– Qualquer coisa, para ser tocada, antes precisa existir. Garanto-lhe que tal coisa, se um dia existiu, não existe mais. Se essa tal Relíquia tivesse existido de fato, com todo esse poder que o senhor imagina, certamente eu já o teria usado em meu benefício há muito tempo...

Alguns dias depois, um destacamento da polícia fez uma batida na Pousada Eclipse à procura de um viajante que fora dado como desaparecido e fora visto pela última vez entrando naquele estabelecimento. Madame Cecília alegara que nada sabia sobre esse fato. Autorizara que toda sua casa fosse revistada e, com um sorriso muito inocente na face, oferecera aos policiais uma rodada de bebidas por conta da casa. O chefe daquela operação, encantado com a beleza e simpatia de Madame Cecília, não apenas aceitara a bebida oferecida, bem como solicitara humildemente mil perdões por tão inconveniente incômodo, ordenando que aquela missão fosse imediatamente dada por encerrada...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Vidente

Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios...”.
I Coríntios 13,2

Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava regularmente todos os domingos, Odete, a dedicada esposa, participara ao marido seu desejo de consultar as cartas para ver o que o futuro reservava para eles três — estava esperando a chegada de um novo integrante da família antes que aquele ano terminasse. No caminho entre a igreja e sua casa, havia uma loja esotérica onde uma velha cigana atendia regularmente todos os dias, pois, nos fundos da loja, também ficava sua residência. Quem a conhecia — e até mesmo quem tenha usufruído de seus serviços — atestava que ela era uma pessoa de sabedoria incomparável e vidência inquestionável.

— Meu amor... Tenha piedade de minha falta de paciência e de meu suado ordenado. Quantas vezes já falamos sobre esses charlatães, que sobrevivem como parasitas da inocência de pessoas de mentes influenciáveis? Até onde se sabe, ninguém pode viajar no tempo — seja no passado ou no futuro —, sendo assim, prever o que está por vir é algo impossível. Não duvido de forma alguma que aqueles que vivem de fazer previsões o tempo todo, uma vez ou outra, venham a acertar alguma coisa. É como jogar na loteria: quem insiste em suas apostas um dia tende a tirar a sorte grande. — Disse Adalberto de forma bastante carinhosa, para não aborrecer a esposa, que estava vivendo dias bastante delicados para ter qualquer tipo de contrariedade.

— Não estou dizendo que seja verdade, meu bem. Nem mesmo que eu vá acreditar em nada do que ela disser. Estou apenas curiosa. E não se preocupe com seu suado ordenado, eu mesma pagarei pela consulta. — Disse, um tanto quanto irritada com a avareza do marido.

Adalberto, percebendo que a esposa mudara suas feições, mais do que depressa se desculpou e, conduzindo-a pelo braço, logo se dirigiu à porta da loja. O estabelecimento seguia os rígidos padrões desses tais locais de ocultismo: uma fachada em madeira escura, portas de vidraças com cortinas de miçangas e outros penduricalhos servindo de cortina, e um forte cheiro de incenso impregnado no ar. Assim que abriu a porta da frente para que a esposa entrasse, um sino tocou sinistramente sobre o umbral, avisando à cigana a entrada de novos clientes.

A mulher que veio atendê-los era uma impressionante criatura de prateados cabelos, presos numa bela e volumosa trança toda adornada de miçangas e algumas joias. Sua face exibia uma caprichada maquiagem que lhe dava uma aparência bem jovial, apesar de que suas mãos — bastante enrugadas — dissessem o contrário quanto à sua verdadeira idade. Diferente das mulheres mais velhas que Adalberto conhecia, com seus desagradáveis odores de vários tipos de cremes com cheiros diferentes, todos usados ao mesmo tempo, para sua surpresa, ela usava um agradável perfume com suaves notas de flores silvestres e, quando se dirigiu a eles, não tinha o tipo de voz rascante que ele imaginava que todas as videntes teriam, devido ao uso indiscriminado de tabaco.

— Bom dia, adorável casal. Sejam muito bem-vindos à minha humilde casa. Todos me conhecem como Madame Simone, mas podem me chamar da forma que melhor lhes agradar. Em que poderei ser útil a vocês?

— Bom dia, Madame Simone. Se não for incômodo, gostaríamos que consultasse as cartas sobre o que o futuro reserva para nós três. — Disse Odete, alisando sua enorme barriga.

A cigana lhe dirigiu um sorriso encantador e, como soubesse do ceticismo do marido, quis deixar claro a lisura de seu trabalho, dizendo de forma bastante convincente:

— Posso lhes atender de muito boa vontade, com conselhos espirituais, indicações de ervas e pós medicinais para o alívio de algum mal-estar ou até mesmo lhes vender alguma mercadoria de minha humilde loja. Contudo, prever o futuro, infelizmente, não sou capaz, e acredito que ninguém o seja. Não vou negar que, vez por outra, consultamos as cartas, as linhas do destino que todos têm nas mãos e outras coisas mais. No entanto, jamais podemos nos deixar levar por esses presságios; afinal, nosso futuro é fruto de nossas escolhas aqui no presente.

Odete ficou bastante maravilhada com a retórica de Madame Simone; quanto a Adalberto, ficou sem palavras, pois esperava que ela fosse imediatamente lhes extorquir uma substancial quantidade de dinheiro com sinistras profecias de um obscuro e trágico futuro. Completamente desarmado quanto às intenções da cigana, começou a olhar sem muito interesse para uma mercadoria e outra, pegando uma coisa aqui e outra acolá, quando ouviu Odete dizer que, mesmo assim, se não fosse incomodá-la, gostaria que ela lhe tirasse a sorte, fosse essa verdadeira ou não.

Madame Simone pediu que eles a acompanhassem até uma saleta contígua. Era um ambiente odorífero bastante agradável, com uma iluminação leve, quase em penumbra, que trazia certo obscuro charme ao lugar. No centro desse pequeno ambiente havia uma mesa redonda forrada com um belo pano escarlate, com um sorridente sol dourado bordado no meio. Ao redor dessa mesa havia quatro cadeiras em madeira trabalhada, de encosto baixo, na altura da metade das costas, com assento em veludo verde, que dava um toque de requinte ao conjunto da mobília. Assim que Odete e o marido entraram na pequena saleta, a cigana fechou a porta atrás de si e solicitou que os dois se sentassem, também se acomodando de frente a eles.

Uma vez sentados, Madame Simone pegou um baralho e, após uma breve prece com o conjunto de cartas encostado em sua fronte, mais uma vez lhes avisara que não levassem ao pé da letra o que fosse dito ali naquela mesa. De olhos fechados, baralhou as cartas, sussurrando algumas irreconhecíveis palavras num dialeto muito estranho e num tom praticamente inaudível, mesmo para o casal que estava à sua frente, que só sabia que ela estava dizendo alguma coisa pelo fato de seus lábios se moverem, como se ela entoasse uma canção. Logo que as cartas pareciam estar prontas, entregou o baralho para Odete e pediu que ela cortasse o pacote e escolhesse qual das partes gostaria de ver. Com as mãos um tanto quanto trêmulas, Odete partiu o monte ao meio e entregou a parte da esquerda à cigana, dizendo de forma maliciosa:

— Quero essa parte por ser o mesmo lado que fica o coração e também por representar nós, as mulheres, únicas criaturas no universo com possibilidade de dar continuidade à perpetuação da nossa espécie.

Madame Simone deu um leve sorriso, como se concordasse totalmente com ela e, assim que pegou as cartas, distribuiu sete delas sobre a mesa, o que fez com que Adalberto se manifestasse de imediato:

— Por que apenas sete?

— Além de ser um número celestial citado em várias partes das Escrituras Sagradas, como as sete trombetas, os sete selos etc., é também considerado o número da Perfeição Divina, pois no sétimo dia Deus descansou de todas as suas obras. Para nós, os ciganos, representa a sabedoria, a intuição e a capacidade de se adaptar a todas as situações. Sete cartas são mais do que suficientes para aquilo que pode ser mostrado, porque nem tudo nos é revelado. — Disse ela de forma bastante fria, demonstrando estar desapontada por ter sido interrompida.

Assim que a cigana foi desvirando as cartas uma por uma, explicava o significado de cada uma delas. Ao final, estavam viradas sobre a mesa: O Louco, A Roda da Fortuna, A Sacerdotisa, O Julgamento, A Torre, O Enforcado e O Carro. Odete ficou intrigada, pois a maioria trazia em si como significado viagem e mudanças repentinas. A cigana, tentando deixá-la mais tranquila, disse-lhe que as mensagens muitas vezes eram metafóricas, mas, estando ela grávida, certamente haveria mudanças radicais em sua vida e possivelmente algumas viagens também. Disse ainda que ela ficasse tranquila, pois as cartas demonstravam que tanto ela quanto sua filha estariam bem por um longo período de sossego e muita prosperidade.

— E quanto a mim? — questionou Adalberto, curioso.

— As cartas não foram tiradas para você; mesmo assim, uma delas diz que você estará em paz. — Disse a cigana com um ar bastante irritado, primeiro por achar que ele estivesse zombando dela, pois, a cada carta virada, ele dava um sorriso debochado e revirava os olhos; segundo, porque sabia de seu ceticismo; e, por último, por sua evidenciada sovinice, mesmo sendo ele um homem rico e muito bem-sucedido.

Odete pareceu se dar por satisfeita em saber que tudo estaria bem, tanto com ela mesma como com sua amada família. Seu temor era se deparar com algum tipo de profecia aos moldes das peças de Sófocles. Como forma de demonstrar sua gratidão pelos serviços prestados pela cigana, comprou uma sacola cheia de toda espécie de bugigangas e, quando quis pagar pela consulta às cartas, Madame Simone de forma alguma quisera receber, dizendo, por fim:

— Sua satisfação já é uma grande paga pelos meus serviços e, como disse seu gentil esposo: “... não passam de charlatães e parasitas quem vive da boa-fé alheia...”.

Tanto Odete como o próprio Adalberto ficaram boquiabertos quando ela dissera aquelas últimas palavras, já na porta, despedindo-os. Saíram os dois de cabeça baixa, bastante envergonhados pela conduta do marido, que, segundo Odete, sempre falava mais do que devia. Depois de caminharem certa distância da loja, como se temessem que a cigana ainda pudesse ouvi-los, Adalberto, num sussurro quase inaudível, dissera:

— Como ela poderia saber o que eu disse ou deixei de dizer, uma vez que ainda estávamos fora da loja?

— Sinceramente, não consigo te explicar. Apenas sei que: “... há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia...” e que esses ciganos sabem o que dizem.

Continuaram caminhando lentamente por mais alguns quarteirões antes de chegarem até sua casa. Estando eles já na porta de sua residência, assim que Odete se sentou numa cadeira ao lado da porta, ainda na varanda, enquanto ele pegava as chaves para abrir a porta, Adalberto se lembrou que estava sem cigarros e disse que ela o aguardasse ali mesmo, enquanto ele atravessaria a rua e os compraria na loja da esquina. Estava ela bisbilhotando a sacola de compras quando ouviu uma terrível frenagem de pneus e um forte estrondo de metal se chocando contra uma árvore. No entanto, o acidente não era entre um veículo e uma árvore.

Adalberto, além de ser filho único e herdeiro de uma esplêndida fortuna, tinha um pomposo seguro de vida, fato esse que tornou Odete uma viúva muito rica, podendo, ao lado da filha que nascera bastante saudável, desfrutar de uma vida próspera e muito sossegada, como dissera a cigana, que também não mentira ao afirmar que Adalberto estaria em paz. Porque as cartas não mentem jamais: conseguem ver o passado, o presente, o futuro e até um pouco mais...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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