Le Papillon et la Fleur
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.
Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.
Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.
Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.
— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.
Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.
— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.
A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.
— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…
Tentava…
Me esforcei para evitar os conflitos!
Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.
A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.
Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.
—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.
“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, — Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.
Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!
Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.
— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.
Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!
— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.
— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.
Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.
Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.
— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus… Pressão!
O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.
Depois, limpar. Com quê?
— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.
Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.
O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.
Não havia água limpa…
Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.
— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.
Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.
— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.
Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.
— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.
Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.
— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?
Busquei acalmar meu espírito.
— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.
Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.
Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”
— Uma vez médico… Sempre médico!
Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.
Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.
— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.
Seria aquele o pai dela?
Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?
A criança não… Ela não falou nada.
Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!
Estamos do lado errado do céu?
— É possível…? Em algum nível?
Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?
Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?
— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.
Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.
Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.
— “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.
Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.
Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.
De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.
A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.
Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.
— Que diabos foi isso? — Sussurrei.
Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.
Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.
— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.
Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.
Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.
Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?
Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.
O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.
Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.
Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.
O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.
Olhei para o meu braço com o corte.
— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.
Então um rosnado na escada. Passos pesados.
— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.
Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.
Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.
Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.
Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.
Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.
— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.
A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.
Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.
Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.
Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.
A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!
Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.
Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.
Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.
Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.
A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.
— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.
A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.
— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.
O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.
“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.
Um som explosivo e estrondoso.
Um mosquete?
O vazio.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
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13 - Azulácia de uma vida azul
“E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?” Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Relato de Alana Mortensen
“E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?”
Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para elaborar respostas que estivessem à altura. Contudo, desta vez, minha voz saiu rápida e assertiva: “Azul”.
Não sei precisar se tenho uma cor favorita, para ser sincera nunca vi sentido em pensar nessas coisas, mas agora sei o quanto gostava de azulescer meus sentimentos; o quanto gostava do límpido azulíneo da lua; o quanto azulescia-me cada vez que pensava no meu passado.
A vida é assim: quando menos se espera entramos nessas elucubrações sem propósito, e qual é o sentido de viver se não for para viajar por caminhos tortuosos?
Meu cabelo preto, de tão escuro e denso, tornou-se azulado. Nosso sangue não parece ser azul olhando de fora? Não entendo o porquê ele insiste em tornar-se apaixonante, cor vibrante quando arrancado das veias, pois enquanto aqui dentro — dentro de cada um de nós — ele mal tem forças para gritar, quem dirá ser paixão. Para mim, ser azul, aceitar o “Azul”, faria muito mais sentido.
Sentido.
E lá vou eu novamente falando de sentido.
Fugindo dele, na maioria das vezes.
Quiçá procurando um destino.
Das cores da sobrevida.
Destinos desconexos.
Sem sentido.
Sentindo.
Indo.
Lisa olhou-me como se eu fosse um espectro, mas sei que ela me entende. Óbvio que ela entende o que falo, porquanto fala também, mas me refiro a entender o que sinto. Nessa relação fico em desvantagem, porque não sei dos sentimentos dela, já que não gosta de se sentir vulnerável — nem sei se algum dia ficou indefesa —, mas é como se ela soubesse exatamente tudo o que trago dentro de mim. E tudo o que deixei transbordar.
E, atendendo aos pedidos expressos por seus lindos olhos amarelos, começo a transportar para a tela as nuances “azuis” das cores da minha alma.
Com os pincéis crio vórtices de vários tons e tamanhos, eles preenchem os espaços diferentemente do que ocorre em mim.
“Quais vórtices esses redemoinhos enigmáticos irão despertar?”, pergunta.
“Órbita que precede o óbito”.
Lisa desaprova. “Nada de óbitos!”.
Conto a ela que só estou devolvendo o tempo emprestado. Ela não acredita, e insiste para continuar.
“E se a morte aqui no Castelo não for real, Lisa?”
Ela grita “Eu morri, você não lembra?”.
Era verdade e eu tinha esquecido. Se eu tentasse, desta vez, poderia não ter Drácula para me salvar.
Afasto tais pensamentos. Para onde vou?
Não quero voltar para casa, mas também não quero ficar.
Lisa propõe uma jornada, um passeio pela região e então os vórtices na tela começam a girar.
Assim como minha chegada ao Castelo foi por meio da minha arte, minha nova escapada aconteceu por causa daqueles vórtices; minha arte, pois, abrira um portal para as terras que ainda não havia explorado.
Mais tarde, descobri que fora transportada para as Dunas Múrmuras, um local repleto de areias, não as do tempo, mas as areias que cobrem terras secas e praias. Mas não havia mar, somente um Rio que chamou minha atenção.
Já olhastes luzes salvadoras após se ver perdida em meio à escuridão?
Quando criança, fingia não ter medo do escuro, porque não podia ter medo daquilo que não via. Quando cresci percebi que é exatamente aquilo que não vemos, ou sabemos, que nos causa mais medo. Como combater um monstro invisível?
O Rio era habitado por criaturas. Não só eram bem nítidas, como nos atraíam. A fotoluminescência agia como um canto sagrado — ou maldito —, que transpassava a armadura que havia colocado em volta de mim. Não pude ficar longe de suas formas e brilho intenso... convidavam-me para adentrar às águas. A voz de Lisa foi quase sufocada, sufoquei o instinto que clamava. Sabia que não poderia ceder tão facilmente, mas a quantos chamados estranhos já não havia respondido após chegar ao Castelo?
A ida para aquele mausoléu, por si só, já era uma atitude deveras ousada para mim, não era?
As formas aquáticas avolumavam-se à medida que me aproximava da margem do Rio Magöhorror. Sim, este era seu nome. Estava tão focada nos horrores submersos que demorei para notar que tudo ao meu redor tornava-se vívido. Não eram animais e flores comuns, pareciam mais provindos de uma floresta maldita. As flores com as bordas metálicas foram as que mais me chamaram atenção; lindas, assemelhavam-se aos espectros do passado, de outras eus e outras pessoas que desejava esquecer. Os esqueletos não estavam no armário, mas plantados na terra (não sei em qual momento a areia tornou-se terra, e quando o deserto virou miragem. Era uma miragem?).
Quando estava próxima demais da margem, Lisa me arranhou, já que eu insistia em não a ouvir. A floresta não me traria problemas, as flores tinham poderes de cura e apresentavam aquele aspecto por estarem carregadas demais. Porém, as águas azuis-índigo eram prisões de criaturas maléficas. Eram elas que me chamavam e não as águas.
Eu tinha esse dom de atrair monstros terríveis e de acreditar que sempre estaria segura. Lisa me olhava com indignação, e eu também me olharia assim se tivesse espelho naquele momento.
Não era uma tarefa fácil proteger alguém atraída pelo obscuro.
Lisa sorriu e disse que tinha todo o tempo do mundo.
E eu soube — mesmo sem provas — que enquanto houvesse azul em mim, ela estaria sempre atenta.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Pergaminho de Requiem
O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora um cemitério cromático. Sob o céu de um anil turvo e profundo, as flores não apenas desabrochavam; elas pariam horrores. Pétalas de marfim retorcido abriam-se em rostos pareidólicos que vertiam um sangue viscoso, e o vento, soprando sobre as Dunas Múrmuras, carregava o som de mil gargantas secas que tentavam, em vão, articular uma prece. O rio Magöhorror brilhava com uma bioluminescência maligna, transmutando a fauna em carcaças que se recusavam a repousar.
No centro do incêndio, onde o fogo lambia as vigas de madeira com uma fome de lobo, a garota de cabelos prateados como o luar de inverno via o mundo desmoronar. O calor das chamas era a única coisa que ainda a lembrava de que estava viva, enquanto criaturas de pele rachada e olhos vazios avançavam com a lentidão de um pesadelo inevitável. Foi quando o trovão metálico ecoou. Um cano longo e dourado cuspiu fogo, e a cabeça do carniçal mais próximo explodiu em um spray de polpa negra e fragmentos de osso.
Uma mão forte a puxou para as sombras. O homem tinha o olhar de quem já viu o fim de muitos mundos — uma esmeralda melancólica emoldurada por cicatrizes que cortavam sua beleza como sulcos de arado em terra morta. Ele não disse nada enquanto a guiava por passagens esquecidas até o ventre de uma gruta oculta por uma cortina de água estrondosa. Ali, o som da cachoeira abafava os gritos lá fora, criando um santuário de umidade e silêncio sepulcral.
Ela o observava enquanto ele limpava o sangue da arma, o silêncio entre eles mais pesado que a pedra acima de suas cabeças.
— Por que não impediu? — a voz dela era um sussurro quebradiço, o eco de uma esperança morta. — Você estava lá. Você via tudo.
Ele parou o movimento da flanela sobre o metal gravado. O brilho da tocha revelava runas que pareciam pulsar no cano da pistola.
— Há correntes que nem o aço mais forte pode cortar. O que você viu não é uma praga deste solo. É o cosmos sangrando. A energia que vaza das fendas da existência escolhe o que há de mais belo para corromper. As flores... elas são apenas os receptores mais sensíveis para essa escuridão.
Ele estendeu a mão, oferecendo um pequeno projétil de ouro. Símbolos arcanos estavam cravados na ogiva, emanando um calor antinatural.
— De onde eu venho, caçamos o que o resto do universo tenta esquecer.
— E quem é você? — ela perguntou, os dedos roçando o metal místico.
— No dialeto das minhas terras, chamam-me Leornn. — Ele fixou os olhos nos dela, buscando o rastro de força em meio ao prata de seus cabelos. — E você, portadora da neve?
— Clariegra — respondeu ela, sentindo o peso da bala na palma da mão.
Ele abriu um volume de couro curtido, cujas páginas pareciam feitas de pele humana. O cheiro de enxofre e sangue velho emanou do livro.
— Se quiser que o sol de amanhã signifique algo mais do que o início de uma nova agonia, aprenda. O sangue deles é o catalisador. A carcaça é o invólucro. Use a morte para ferir o que não pode morrer.
O amanhecer trouxe um sol pálido e doentio. O som ranhado de unhas contra a rocha anunciou que a trégua terminara. As criaturas, atraídas pela vibração das almas ainda quentes, escalavam as pedras úmidas. Leornn ergueu a pistola dourada, o olhar esmeralda fixo no vazio.
— Prepare o grimório, Clariegra. O banquete começou.
O aço e a magia se fundiram no ar saturado de neblina. Cada carniçal derrubado era uma fonte de matéria-prima. Entre o disparo e o golpe, eles colhiam o fluido negro e as vísceras místicas, forjando sob pressão e desespero as ferramentas de sua sobrevivência, enquanto o mundo lá fora continuava a ser devorado pela beleza letal da vêsffera sensiflora.
A névoa na gruta não era feita apenas de água; era o suspiro acumulado de séculos de solidão da pedra, agora misturado ao cheiro metálico da pólvora e ao odor adocicado da morte que pairava sobre eles. Clariegra sentia o peso do grimório em suas mãos, as páginas de pele pareciam pulsar contra seus dedos, uma biblioteca de dores antigas esperando para ser lida. O primeiro raio de sol, pálido e doentio, penetrou a cortina da cachoeira, não como uma promessa de esperança, mas como um holofote sobre a carnificina que os aguardava.
— O sangue deles é a tinta, Clariegra. — A voz de Leornn era um trovão baixo, ressoando na acústica da caverna. — O grimório é o papel. A sua vontade é a pena. Escreva a sua própria sobrevivência.
A primeira criatura rompeu a névoa. Não andava, mas se arrastava, uma abominação de membros alongados e pele que parecia casca de árvore queimada. Seus olhos, buracos vazios de escuridão, encontraram os de Clariegra. Houve um momento de reconhecimento silencioso, um eco de humanidade que se recusava a apagar. Clariegra viu, nas feições distorcidas, os traços de Elara, a padeira da vila, cujas mãos uma vez moldaram pães quentes e cujos olhos sempre sorriam para ela perfurou o peito. Não era a dor do medo, mas a dor da perda, a dor de ver a beleza de uma vida transformada em uma monstruosidade grotesca. O mundo ao seu redor pareceu desacelerar, o som da cachoeira abafado pelo batimento cardíaco frenético em seus ouvidos.
— Use a dor — comandou Leornn, sua voz agora uma âncora na tempestade emocional de Clariegra. — Transmute-a em poder.
Clariegra respirou fundo, o ar frio e úmido queimando seus pulmões. Ela abriu o grimório, suas páginas se abrindo como feridas expostas. Suas mãos, tremendo, traçaram as runas que pareciam queimar em sua mente.
O fluido negro, colhido dos corpos caídos, começou a ferver no grimório, emanando um calor antinatural.
A criatura que já foi Elara avançou, um rosnado gutural escapando de sua garganta.
Clariegra sentiu a magia fluir através dela, uma torrente de energia que parecia consumir sua própria essência.
Ela carregou a pistola com aquele orbe de sangue e disparou, uma explosão de luz prateada que envolveu a criatura. O carniçal gritou, um som que não era deste mundo, um lamento de dor e desespero.
Seu corpo começou a se desintegrar, a pele de casca de árvore queimada se desfazendo em cinzas.
Clariegra assistiu, com lágrimas nos olhos, enquanto a criatura que já foi sua amiga desaparecia no ar.
— Ela está livre agora — disse Leornn, sua voz suave por um breve momento.
Quando o sol finalmente começou a descer no horizonte, tingindo o céu de um carmesim doentio, a batalha cessou. A gruta estava silenciosa, exceto pelo som da cachoeira e pelo suspiro exausto de Clariegra. Leornn limpou o sangue de sua pistola dourada, seu olhar melancólico fixo na névoa que se dissipava.
— O mundo lá fora está em cinzas — disse ele, sua voz vazia de emoção.
Clariegra sabia que ele estava certo. A vila que ela uma vez chamou de lar era agora um cemitério cromático, as flores de vêsffera sensiflora desabrochando em horrores pareidólicos. Ela sentiu uma pontada de tristeza, uma saudade dolorosa da vida que ela conhecia.
Eles deixaram a gruta, caminhando pelas Dunas Múrmuras em direção à vila. O vento carregava o som de mil gargantas secas, um lamento constante que ecoava em seus ouvidos. Clariegra sentiu o peso do grimório em suas mãos, uma lembrança constante da escuridão que ela agora carregava consigo.
Ao chegarem na vila, Clariegra foi dominada pela visão de destruição. As casas de carvalho estavam reduzidas a cinzas, as vigas carbonizadas pairando no ar como esqueletos de um passado esquecido. O cheiro de queima e de morte era avassalador, um lembrete constante da beleza letal da vêsffera sensiflora.
Clariegra caminhou pelas ruas em ruínas, seus pés pisando nas cinzas de sua vida anterior. Ela sentiu uma solidão avassaladora, uma sensação de perda que parecia consumir sua própria essência. Foi quando ela ouviu um choro fraco, um som de dor e desespero que partiu seu coração.
—Platina? Ela exclama.
— Clari…egra? A criança incapaz de terminar a sentença, estava gravemente ferida açoitada pelo sangue daquele acontecimento,
— O que… o que houve? Clariegra estava trêmula ao ver aquela pobre criança naquele estado.
— Mortos-vivos, eles eram muitos, grunhindo, mastigando, entre eles estava um homem de armadura escura, um semblante terrível ele parecia um demônio, mas era humano, ele me pegou pelo pescoço e ordenou que eu dissesse onde estava Arale ou se eu conhecia tal moça, eu disse que não, então ele me apunhalou e me arremessou aqui…
—Calma… você vai ficar bem…
A garota cuspiu sangue e tossia enquanto gemia, a vida estava se apagando de seu globo ocular.
— Clariegra, só mais uma coisa, ele procurava um pergaminho e… obrigado por ser minha amiga...
—Platina? Platina…
Clariegra chorou com uma expressão de ódio e sentindo-se totalmente perdida.
— Arale? — Pergaminho? — Leornn por favor me ajude.
— Sim, não vou te abandonar, exatamente por isso estou aqui para encontrar Arale também…
Os olhos de Clariegra se arregalam, quem é Arale?
Leornn dá um sorriso de canto de boca e carrega sua arma.
— Abra o seu Códex Sangria e você vai descobrir.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…