Sono atormentado
Prefiro aquele sono atormentado | por ogros e por bestas, pelo cão | sinistro e escuro, pela aparição | de tudo que é perverso e desolado | do que sonhar d’Arcádia o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Prefiro aquele sono atormentado
por ogros e por bestas, pelo cão
sinistro e escuro, pela aparição
de tudo que é perverso e desolado
do que sonhar d’Arcádia o campo amado
das ninfas e dos faunos, da canção
de Febo, deus do som e do clarão
imenso, deus vidente-iluminado.
O sono de terror, quando termina,
dilui-se no raio que ilumina
a mente quando morre a madrugada.
Mas quando do prazer desperta o sono
e o peito enfim percebe este abandono,
levanta-se a viver um grande Nada!
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Crepúsculo
As horas de clareza vão findando, | o Sol de face rubra já declina, | as sombras reinam sobre ramo e folha, | a Lua azul aos poucos se revela. | Constelações…
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As horas de clareza vão findando,
o Sol de face rubra já declina,
as sombras reinam sobre ramo e folha,
a Lua azul aos poucos se revela.
Constelações se mostram no vazio,
estrelas desenhando as formas delas,
luzindo, ainda que mortas há milênios,
o mesmo fogo astral, era após era.
E ao contemplar os pontos desse abismo
surgiu em mim um lúgubre conforto:
saber que a mesma forma e o mesmo brilho
hão de luzir quando eu estiver morto…
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Angústia
Quantas são as declarações tardias? | Quantas confissões guardadas no peito? | Quantas vezes não se tira proveito, | E dá-se lugar a insossos "bons dias"?…
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Quantas são as declarações tardias?
Quantas confissões guardadas no peito?
Quantas vezes não se tira proveito,
E dá-se lugar a insossos "bons dias"?
Há verdades que nunca são faladas,
Relações que a vergonha e o orgulho impedem;
Potenciais relações nunca iniciadas,
Olhares que se cruzam... e se perdem.
Coisas assim ocorrem diariamente,
Sentimentos reais sendo enterrados,
Suspeitos apegos sendo negados,
Paixões existindo secretamente.
Um coração que jamais se insinua,
Que enganando-se a bater continua.
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Doce Vampiro
A languidez dos teus escárnios | Purificam minha pele | A aspereza me incomoda | E chove agora lá fora. | Minhas lágrimas incendeiam…
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A languidez dos teus escárnios
Purificam minha pele
A aspereza me incomoda
E chove agora lá fora.
Minhas lágrimas incendeiam
A chama que eu mantinha acesa
Na espera do teu toque gélido
Teus dedos alongados me torturam.
Seja meu mestre
Seja meu dono
Apenas seja meu
Meu doce vampiro.
Sou aquele que absorto nas tuas presas
Sinto o frescor do teu hálito
Exalando em mim o mais puro amor
Envolva-me em teus braços da morte.
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Cosendo o Passado
O passado lhe serve | Caso o conserve no sepulcro da memória | Experimente, embora já não lhe caiba. | Experimentei o meu, vestiu bem, compreende?…
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O passado lhe serve
Caso o conserve no sepulcro da memória
Experimente, embora já não lhe caiba.
Experimentei o meu, vestiu bem, compreende?
porém carecia de ajustes,
e motivada o adaptei.
Transpassei a linha da memória e cosi a minha forma,
duas vezes, para não retornar.
Cosendo a ponta a qual ligava-me ao primeiro impulso
de contestar meu feito.
Atualmente adaptei-me ao passado.
Embora as linhas da memória transpareçam no tecido
amarrotado do fardo da vida.
Eu o combino ao presente, e o transporto como herança,
Para além do descanso eterno,
onde nada existirá após o findar
Do plano terreno.
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O Que Importa
A vida é curta, disse-lhe a ciência. | Curta demais para dizer um não... | Tão curta que só de pensar na ausência | sente Isabel pesar o coração…
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Em homenagem a Isabel Veloso.
A vida é curta, disse-lhe a ciência.
Curta demais para dizer um não...
Tão curta que só de pensar na ausência
sente Isabel pesar o coração.
Porém, percebe que o Amor lhe traz
nesta fatalidade algum alento:
em todo abraço goza de uma paz
que não achou no seu medicamento.
Que importa se o pesar da alma lhe agita,
se qualquer primavera que lhe fita
a dor quer transformar em duro inverno...
Que mais importa? Importa-lhe viver
o milagre de amar e de fazer
que cada curto dia seja eterno.
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Um rosto trágico III
Dobrado, na sarjeta cinza e úmida | Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação | Em volta, apenas olhos, viaturas; | No ar, a curiosa exclamação:…
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Dobrado, na sarjeta cinza e úmida
Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação
Em volta, apenas olhos, viaturas;
No ar, a curiosa exclamação:
“Coragem pra saltar daquela altura!”
Diziam, como se a motivação
Daquela agora morta “criatura”
Passasse por igual preocupação…
Quem visse em vida o homem — já extinto,
Vagando qual anônimo indigente —,
Incerto é que previsse aquele estado…
Ainda mais depois de ver sorrindo
A face no retrato adolescente
(Achado no seu bolso), acompanhado…
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Valsa dos desesperados
Em vermelho sangue | Com letras douradas e brilhantes. | O envelope revela | Meu nome. | Um fascinante convite. | Daquele por quem | Secretamente…
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Em vermelho sangue
Com letras douradas e brilhantes.
O envelope revela
Meu nome.
Um fascinante convite.
Daquele por quem
Secretamente cultuo
Sentimentos obscuros.
Na hora exata
Trajada e mascarada
Sou recebida
No grande evento
No vai e vem de passos precisos
A alma saboreia,
enquanto desliso
Por entre corpos rendidos.
Nessa valsa dos desesperados
Sou rainha no abate
Rompendo as cordas da vida
Veias essas, tão fininhas.
No ápice da Lua Cheia
À meia-noite nos juntamos.
Em um grande banquete, brindamos
Liquor-carmesim.
Mas quando a música se finda
E o último acorde se desfaz.
Às três da manhã, em fim.
Para meu leito, devo seguir.
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Fio Invisível
Caminhar sobre um fio invisível | Como se disso, | Dependesse minha vida | É o mesmo que engolir mil facas | E não querer sangrar…
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Caminhar sobre um fio invisível
Como se disso,
Dependesse minha vida
É o mesmo que engolir mil facas
E não querer sangrar.
Não me diga para ir deitar
O repouso não é privilégio por aqui
Quem descansa,
Padece.
Costurar feridas não é opção.
Os cortes são profundos demais
Para que uma simples linha
Possa-o estancar...
Não chore,
A carne já morreu
Não deixe que morram também as lembranças.
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Vivendo nas sombras
Vivendo nas sombras | Rastejando pela escuridão | Sinto pedaços de mim | Se desprenderem pelo caminho. | Sentimentos petrificados…
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Vivendo nas sombras
Rastejando pela escuridão
Sinto pedaços de mim
Se desprenderem pelo caminho.
Sentimentos petrificados
Alma atormentada
Se contorcendo em agonia,
Sufocada...
Não suporta a luz
A dor te envolve e encurrala,
Mas, com muita sorte,
Hoje encontra a morte.
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Sonata Sombria
Sonata sombria ressoa | nociva suas notas violentas — | seus ecos se espalham e vibram torcendo | arpejos funéreos que vêm e que vão…
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Sonata sombria ressoa
nociva suas notas violentas —
seus ecos se espalham e vibram torcendo
arpejos funéreos que vêm e que vão.
As teclas sangrentas tremulam
acordes sinistros, sonoros
tal grasno de corvo que voa à meia-noite
sedento por covas abertas no chão.
Não há quem duvide das Sombras:
é a Morte imparável tocando!
São ruídos horrendos, visões de amargura
que hão de ganhar vida, ó sonata-caixão!
Mas subitamente é mudada…
é um calmo compasso de valsa:
p’ra um lado
pro outro
os passos
atroam
nos crânios
dançantes
do negro
salão.
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Um rosto trágico II
De viés, sutil, no canto da avenida, | Entre os gritos e a pressa dos passantes, | Vê-se a figura triste, e num instante | Ela desaparece, na surdina…
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De viés, sutil, no canto da avenida,
Entre os gritos e a pressa dos passantes,
Vê-se a figura triste, e num instante
Ela desaparece, na surdina.
Corre junto à calçada, sempre avante;
Qual fuga de um ladrão, vai rua acima;
Detém-se então cansado; numa esquina
Tem agitado o peito, angustiante.
Resulta ali a dor de tantos dias,
A decisão que teve agora, enfim,
Depois de resistir por tantas vezes...
Não quis nem optar por outras vias:
Subiu no prédio… acaba tudo assim,
Com trinta e poucos anos e alguns meses.
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Um rosto trágico I
Melancolicamente, ele saiu... | Precisava comer alguma coisa… | Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça, | Por favor… meu estômago vazio...
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Melancolicamente, ele saiu...
Precisava comer alguma coisa…
Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça,
Por favor… meu estômago vazio...
Faz dias que eu não como... nem me mexo...
É como se uma sombra me impedisse,
Como se um ser maligno em casa eu visse,
E me dissesse que comer não devo..."
A mulher o escutava com assombro,
E ao fim daquela inusitada história
Entregou a ele um pouco de comida;
Ao vê-lo sair, estranhou seus ombros...
A postura inclinada de suas costas
Era a de alguém pisado pela vida…
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Inextricável
Pisoteado por esqueletos | Corvos crocitando | Lápides quebrando | Uma festa em meu enterro…
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Não existem vocábulos
Que descrevam aquele momento.
A insensatez do divino escorrendo,
Lamúrias e gritos soberbos
Do fidalgo e suas criaturas no ensejo.
O salão espalhafatoso
De lobos nervosos.
Correntes da nobreza
Candelabros e cabanas acesas.
Criaturas feridas no eixo do pupilo
Em compleição de sorrisos esbeltos.
As máscaras caindo lentamente
Os rostos nascentes das entidades.
Marcas de sangue nos lábios
E no baile uma tempestade
Corpos se quebram pela metade
E a música reverbera o desastre.
O badalar do relógio toca
No toque de recolher lá fora
Os membros voltam ao normal
E as lembranças evaporam.
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Mistério
Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…
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Vampira, bruxa ou só uma alma errante
que dança flutuando no salão?
A valsa corre num pulsar vibrante
e lá com ela vai meu coração.
Baila, conversa e ri... Eu, invisível,
ao seu encontro vou de peito aberto.
Louco – digo comigo – é impossível...
e, contra esta razão, chego mais perto.
Seu semblante não vejo... eu, entretanto,
com firmeza vos digo que ela é bela,
porque as janelas da alma dão o encanto:
o que a máscara oculta o olhar revela.
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Fantasiando Finado
Pisoteado por esqueletos | Corvos crocitando | Lápides quebrando | Uma festa em meu enterro…
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Pisoteado por esqueletos
Corvos crocitando
Lápides quebrando
Uma festa em meu enterro.
Rostos sorrateiros
Na espreita de uma fortuna
A qual maliciada
Em minha longa vida dura.
Padeci em braços estranhos
Minha existência foi um engano
Consumido por doses diárias
Patológicas de um insano.
O solo precavido de ruínas
Que outrora despertadas
De um sono longínquo
Um temível pesadelo.
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Lete
Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…
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Vê, meu amigo, a dor deste lugar...
Que figura se mostra ao teu olhar,
da qual podes dizer: esta conheço!?
Qual nome hoje se mostra à sepultura
gravado pelo choro da amargura
que goza da memória algum apreço?
Que buscas, meu poeta, além da morte?
Uma esperança vã que te conforte
quando for a tua alma recolhida?
Do nada vieste e hás de tornar ao nada.
Tua tumba será sempre gelada,
escura e, como as outras, esquecida.
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Inefável
Inefável sentir o coração aterrorizado | Enfraquecer até parar | .O poder que exerço | De percorrer suas veias | Levando sua vida comigo...
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Inefável sentir o coração aterrorizado
Enfraquecer até parar.
O poder que exerço
De percorrer suas veias
Levando sua vida comigo...
Inefável.
Não foge, se não teme
Mas tema, porque é por mim
Que sua carne sucumbirá.
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Plácido Jardim
Plácido é o jardim onde posso me deitar | E simplesmente descansar | Alimentar as árvores com meu corpo, | Fazendo parte delas e elas de mim…
Foto de REGINE THOLEN
Plácido é o jardim onde posso me deitar
E simplesmente descansar
Alimentar as árvores com meu corpo,
Fazendo parte delas e elas de mim
Simples assim, afundar na terra
E quem sabe ser alimento,
adubo para esse calmo jardim
Consumida lentamente pelo solo,
que usufrui de mim
Que faz parte de mim e eu dele,
Aqui sozinha, porém rodeada de vida
Na morte do que fui, e trabalhei para ser
Destituída das máscaras que construí
Para no fim, enfim
Ser útil a esse sereno jardim
Deitada no solo eu olho as estrelas e tudo o mais não importa
Apenas o verde e o marrom me acomodam
E isso é o bastante para descansar
Sim! Tenho certeza absoluta
de que esse de fato é o meu lar
Fico calma sem movimentos
Sem sonhos e pesadelos
Sem esperanças e frustrações
E descanso, aqui jaz e até que enfim
Finalmente em paz.
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Epitáfio de um infeliz
Fecho os olhos… e esqueço do que vi; | Esqueço a dor, a angústia dessa vida, | Esqueço da alegria não vivida, | Dos desejos daquilo que eu não fiz….
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Fecho os olhos… e esqueço do que vi;
Esqueço a dor, a angústia dessa vida,
Esqueço da alegria não vivida,
Dos desejos daquilo que eu não fiz.
Tenho agora tudo o que eu sempre quis:
Sinto toda a Vontade enrijecida,
A Esperança não é mais bem-vinda,
Nunca me senti antes mais feliz.
Tenho agora o descanso merecido,
Depois de esperar tanto a tal da Sorte,
O Destino, o Futuro Prometido…
A vida me mostrou ainda jovem
Que nada nesse mundo é garantido
Além da terra, quando chega a morte.