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Soneto da possibilidade

Tivéssemos mantido uma amizade, | Um algo a mais que um ínfimo contato… | Possivelmente além de aproximados, | Bem mais…

MidjourneyAI

Tivéssemos mantido uma amizade,
Um algo a mais que um ínfimo contato…
Possivelmente além de aproximados,
Bem mais que apenas íntimos, quem sabe…

Seríamos, talvez, uma metade
Faltante para o outro incompletado…
Com quem distribuir o peso e parte
Das nossas confissões não fosse um fardo…

Um braço para descansar o corpo
Feliz ao encontrar seu lado oposto…
Seria assim conosco tão mais fácil.

Agora, nada disso dividimos;
Por duas direções nós dois seguimos,
E penso que somente um tenha errado…

Soneto publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
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Ode ao Corvo

Ó Senhor Mistério que comigo agora estás, | levanta-te desta poltrona, amigo, | nunca, jamais, te esqueças do que digo…

Ao mestre Edgar Alan Poe

MidjourneyAI

Ó Senhor Mistério que comigo agora estás,
levanta-te desta poltrona, amigo,
nunca, jamais, te esqueças do que digo.
Oculta de minha mente meus sonhos infernais,
nunca me faças padecer na dor
de ter aqui comigo esses tormentos tais...

Olha ao fundo da taça que te ofereço,
bebe, pois este é o sangue dos imortais,
é chegada a hora de inundar a garganta
e lubrificar estas cordas vocais
para o canto do ilustre corvo de Poe...

És tu, amigo, este pássaro que choras
nos espaços dos meus umbrais
pela musa Lenora que se foi...

Conheço a tua saudade esmagadora,
já me perdi na vida de aventuras,
fui ferido pela musa da Ternura,
cantei somente uma vez e nada mais...

Olha atentamente o retrato que te incomoda,
vês nele as minhas digitais?
Pois bem! Estimado companheiro,
já amei, o teu amor, não amo mais...

Este coração que guardo no peito
foi tomado por forças tais
de um escorpião de tamanho feito
que me enlaçou de tal jeito
fazendo-me um dos seus amores mortais...

Minha alma hoje clama a força
ó ave feia e escura que aqui estás,
tu, somente tu, criatura noturna,
ouviste esse canto desabafo declarante.
Costure neste bico a tua língua delirante
para que tua voz nunca mais
ouse explanar essas fraquezas fatais...

Entreguei-me à filha de Novembro,
aquela bela cujos cachos negros
enfatizei nos meus sonhos perfeitos
deixando-me domar pelos desejos materiais...

Ó pássaro das escuras
a lucidez está a me esperar!
Adeus senhor das plumas,
espero ver-te nunca mais.

Poesia publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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Void

De tudo o fim somente é garantia, | Certeza inevitável do incompleto — |  Um fio de luz que haja, e, sem saídas, | Retorna…

Arte de Glauco Moura

De tudo o fim somente é garantia,
Certeza inevitável do incompleto — 
Um fio de luz que haja, e, sem saídas,
Retorna ele a seguir ao ponto zero.

Um prêmio antes mesmo da conquista,
Fortuna a todos paga (sempre a crédito):
Poder ambicionar enquanto as vistas
Conseguem distinguir se longe ou perto…

Nas imaginações um ominoso
Destino, solitário, pesaroso — 
Razão deste desvio que dele fazem…

Talvez, amor à própria natureza;
Um tipo de resguardo, de defesa,
Temendo o vir a ser de algo que acabe…

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Sobre o Artista Convidado - Ed. 1, Janeiro de 2024 - Castelo Drácula

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Ingenuidade

Perfeita!… Assim mantenha, não se mova! | Não há de ser difícil tal retrato… | Procure observar o resultado…

Perfeita!… Assim mantenha, não se mova!
Não há de ser difícil tal retrato…
Procure observar o resultado
Com base na postura que impressiona…

Tão fácil que ninguém mais se questiona
Por que louvar o que já está fadado
A se perder… Pois não?! Então suponha:
Não fora aquele caco um dia um vaso?

Objeto de valor e de consumo,
De chamativas cores e rotundo,
Mas hoje ali num canto, só, quebrado…

Não quer a foto mais? Okay… desculpe…
Por mal não quis dizer, mas… se pergunte:
Não somos todos feitos desse barro?…

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Ciclos

Deixada em um canteiro a flor de outrora, | Germina ao lado um pé de nova estima… | Nas elucubrações ela se enrosca …

Deixada em um canteiro a flor de outrora,
Germina ao lado um pé de nova estima…
Nas elucubrações ela se enrosca — 
Por outra mão talvez apetecida…

Mas nada pra evitar que seja agora
Presente nesta interminável lista
De espécimes que a cada dia engrossa:
Da mais comum à rara, menos vista…

Tentar à parte vê-la de seu meio,
Colhê-la para si de seu herbário — 
Poeta pela flor desesperado…

Por ela dispersar o próprio tempo…
Perder a mão, falhar no seu manejo — 
Poeta pela flor espezinhado…

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Declínioterapia

O ciclo de esquecimento transmutado em alegoria, | Vigora o perdão, | incorporado em mim como terapia…

Bing Image Creator AI

O ciclo de esquecimento transmutado em alegoria,

Vigora o perdão,

incorporado em mim como terapia.

Consisto em sentir, indiferente a minha letargia,

degustando o declínio da dor,

sustentada pelo dia.

Sinto, pois sentir é permitido, porém,

mesmo o direito de sentir

Por mim foi diminuído.

Contrário à minha natureza, busco alívio

Sintomático, veloz como a correnteza.

Aguardo dessa forma o torpor,

Enquanto assisto desaparecer de mim

o temor.

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Noite Chuvosa

Nos lugares mais recônditos da mente, | O obtuso “ser” que em tolices parecer… | No íntimo de apaziguar-se a maneira brusca…

MidjourneyAI

Nos lugares mais recônditos da mente,
O obtuso “ser” que em tolices parecer… 
No íntimo de apaziguar-se a maneira brusca. 
Delirantes fraquejos de loucura

Se perpetuam em criptas forjadas,
Enlameadas e cercadas de ninharia.

Quão nobre “ser” que estupefato em viver
Na eloquência atroz;
Multidões voluptuosas embriagando-se mutuamente.

Não há jazigos suficiente…
Tamanha lascívia que levaram em todos a vida,
Acometidos por eterno desejo
Que em pleno ar virou derradeiro.

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Arrependimento (baseado no conto de mesmo nome de Guy de Maupassant)

Saval, num dia triste de outono, | Passando a limpo toda a sua história…

Retrato de Guy de Maupassant fotografado por Nadar.

Saval, num dia triste de outono,
Passando a limpo toda a sua história:
O ponto ao qual chegara, com desgosto
Sessenta anos de vida ele recorda…

Três décadas atrás, os dois andando…
Sra. Sandres nele se encostava;
Seus rostos, ao se proteger dos ramos…
Olhares que ela certamente dava…

Atravessou a rua em desespero,
As dúvidas solucionar querendo:
“O que faria se eu tivesse ousado?”

“Cedido eu lá teria, meu querido” — 
Saval correu pro Sena, atordoado;
Sentou-se e lá chorou, arrependido…

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Pax Romana

As mulheres e crianças liberdade receberam | Podendo viver, livres, sem receio; | Pedra seus corações se tornaram, | Na cidade onde os homens nada falam…

Arte de Glauco Moura

As mulheres e crianças liberdade receberam
Podendo viver, livres, sem receio;
Pedra seus corações se tornaram,
Na cidade onde os homens nada falam

Bocas rosadas e juvenis contam
Histórias antigas suas narrativas remontam
O doce sono da morte embalam
Na cidade onde os homens nada falam

O silêncio pútrefo impera regente
No coração de um movimento final, emergente
Solo bélico que poucos tocaram
Na cidade onde os homens nada falam

Por guerras sem sentido a trama fora marcada
Um clássico de frieza rebuscada;
O desejo e a destruição se calam
Na cidade onde os homens nada falam.

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Sobre o Artista Convidado - Ed. 1, Janeiro de 2024 - Castelo Drácula

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Mãe

Tu que colhes os ermos deste cemitério, | vem colher a víscera deste corpo, | louco e desvairado, carne do fracasso...

José Uría y Uría (1861–1937) - Lope de Vega en el cementerio (1884)

Tu que colhes os ermos deste cemitério,
vem colher a víscera deste corpo,
louco e desvairado, carne do fracasso...
Tu que amamentas um feto menino,
derrama o teu leite num leito de flores,
vem, entrega-te ao arroio...
Tu que andas nesta noite,
vem visitar-me, estou a sete palmos,
ó ser excomungado pela lua...
Tu que choras nesta tumba,
deixa que o teu pranto invoque estes restos,
esses pútridos esquecidos pela vida...
Tu que a saudade é quem guia,
nunca me esqueças!
Busque-me algum dia...
Tu que os sonhos acompanham,
nunca te esqueças,
dos dias em que éramos um só...
Tu que levas esta carcaça depressiva,
vem dar-me o último beijo,
o abraço do adeus...
Tu que és musa de um desgraçado,
feio, morto e sepultado,
traz-me o teu colo, ó mãe querida.

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Uma Mulher, Sobre Todas as Coisas

Se eu pudesse me dobrar ao seu sorriso
Lábios vermelhos, repletos de mistério
Flertando a beira do abismo…

MidjourneyAI

Se eu pudesse me dobrar ao seu sorriso
Lábios vermelhos, repletos de mistério
Flertando a beira do abismo
Me perdendo sem nenhum tipo de critério

Quantas mentiras seus olhos ocultam
Oh, dama de beleza distinta
Palavras que a muitos insultam
Quadro belo, colorido com tinta

Rosto corado, jovem e ardente
Sua doçura abundante se dispõe
Através de palavra cuidadosa, prudente
A alma de muitos, com facilidade, transpõe

Quisera eu, a eternidade com ti compartilhar
Mesmo que isso a morte significasse
Tudo que possuo posso lhe doar
Para cair, voluntariamente, dentro de seu enlace.

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Escrito por Thiago Amorim, -Poesias, -Sonetos Castelo Drácula Escrito por Thiago Amorim, -Poesias, -Sonetos Castelo Drácula

Pacto

Ergue o olhar ao céu de turno em turno 
a consultar um livro atentamente, 
assim é que ela aguarda paciente…

Foto de Akira Eshi

Ergue o olhar ao céu de turno em turno 
a consultar um livro atentamente, 
assim é que ela aguarda paciente 
os astros alinharem-se a Saturno. 

À densa mata adentra facilmente 
a fim de ter com seu fauno noturno 
e por um canto crebro, assaz soturno, 
seu ritual começa diligente: 

Traça-lhe a estrela ao chão e amor lhe jura 
numa gota de sangue, sobretudo; 
dança em transe despida e, nesta altura, 

gargalha e então blasfema, faz de tudo 
a pobre ninfa, como que em loucura, 
no afã de pertencer ao seu chifrudo.

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Todos Iguais

Neste lugar de paz e de saudade, 
a dura realidade se comprova, 
em cada tumba aberta se renova…

Foto de JF Martin

Neste lugar de paz e de saudade, 
a dura realidade se comprova, 
em cada tumba aberta se renova 
aos olhos de quem vive uma verdade: 

Os homens têm aqui estranha prova 
da fé que lhes confia a eternidade; 
jazem no horror de sua vaidade, 
reduzidos à escuridão da cova. 

Notam aqui a sua irrelevância 
aqueles que se julgam maiorais 
nesta mesma devida circunstância; 

despidos dos seus bens materiais, 
veem, a despeito de sua arrogância, 
o quanto todos são na morte iguais. 

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