Milagre Maligno

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim que minha filha está miseravelmente endemoninhada”.  — Mateus 15,22 

Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante. Após deixar para trás seus tempos de inocência, com seus finos traços e a meiguice infantil, comuns a toda e qualquer criança, Dolores tornara-se uma bela mulher que a todos conseguia agradar: aos homens, por sua inquietante beleza; às mulheres, por sua amizade e simpatia. Maria Dolores, conhecida como D’asdor – nome pelo qual era chamada desde que se amasiara com o italiano Giuseppe Montanari – era uma mulher de estatura mediana, de vastos e longos cabelos negros, definidamente cacheados, caídos por toda a extensão de suas costas; trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era fortemente amorenada, num tom firme que dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa negra. Seus olhos eram negros e brilhantes, e traziam em si um brilho enigmático, típico das criaturas donas de seu próprio destino. Eu a conhecia desde que éramos crianças de colo. Como sempre fomos vizinhos, acompanhei e sei de toda a sua estória, menos, é claro, daquilo que ocorria em sua intimidade... 

Nessas exageradas palavras, Nhô Virgílio tentava buscar na memória a melhor definição tanto do talhe físico quanto da personalidade de Dona D’asdor, que em nada se parecia com a horrenda criatura que passara seus últimos momentos amarrada sobre a cama. A diferença entre aquela vaga lembrança e a atual realidade — daquilo que poderia ter sido visualizado por qualquer um — era tão discrepante, que era até difícil acreditar nas palavras daquele honorável ancião. 

Nos últimos quinze anos, quem tivera a oportunidade de estar em sua presença tinha visto uma franzina senhora acamada, desprovida de qualquer movimento nas pernas, desde que sofrera uma terrível queda de cavalo, que a deixara naquela situação. Esse acidente não tolhera sua vida, mas lhe deixara sérias sequelas. Além da perda dos movimentos de seus membros inferiores, adquirira uma aparência doentia e cadavérica, que trazia em si uma profunda nostalgia — típico sentimento que se apossa de tais desafortunadas criaturas. Seus olhos, sem brilho e vazios, estavam sempre vidrados em algum ponto distante, como se pudessem ver muito além das aparências. Talvez enxergassem os tempos idos, com suas conquistas e alegrias, numa época de frescor e juventude, onde tudo eram flores. Ou talvez esses mesmos olhos apenas vislumbrassem um melancólico fim para sua sofrível existência — presa para sempre numa cama, dependendo de outrem até mesmo para suas mais íntimas necessidades. Tal situação era tão definitiva que havia certa unanimidade: Dona D’asdor só sairia da cama direto para o caixão... 

No entanto, contradizendo toda e qualquer expectativa e se contrapondo a qualquer explicação lógica, nos últimos três dias, antes que o sopro da vida abandonasse de vez seu calejado corpo, ela se levantara da cama e iniciara uma verdadeira epopeia pela casa e por todo o seu quintal, correndo de um lado para outro numa ensandecida disparada. Quem, há mais de uma década, não conseguia mover um único músculo de suas pernas, de alguma forma inexplicável, levantara-se de seu leito e, num violento ataque de fúria, se lançava sobre qualquer um que atravessasse seu caminho. Sua aparência tornara-se sinistramente diabólica. Sua pele, que se tornara cinza e ressecada, mais parecia o couro de algum réptil. Suas mãos adquiriram uma feição aterradora e mais pareciam duas horrendas garras, com dedos afinados que terminavam em asquerosas unhas mal cuidadas. Seu rosto tornara-se chupado e cheio de marcas, como se deixadas por varíola. Ela, que nos últimos tempos quase nada dizia e trazia a face sempre fechada, devido à sua triste situação, começara a sorrir de tudo e de todos ao seu redor. Um sorriso sombrio, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados e pontiagudos que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes —; boca essa que agora praguejava quem cruzasse o seu caminho, quase todo o tempo blasfemando e dizendo palavras em algum idioma desconhecido. Vez por outra, sentava-se como um cão e uivava para o céu, como se fosse um animal em triste lamento. 

Seu filho Agenor – filho único, e também única companhia – temendo aquele estranho comportamento de sua mãe, logo recorrera aos vizinhos em busca de socorro. Além do medo que sua mãe estava lhe causando, agindo daquela forma, ele também ficara temeroso de que algo pudesse vir a lhe acontecer de pior e que a culpa lhe fosse imputada. O fato de que sua mãe, há tempos entrevada, agora corresse pelo quintal como uma alegre criança também lhe era bastante assustador. De alguma forma, ele ansiava por testemunhas de todo aquele prodígio. E logo sua casa já estava apinhada de gente. Alguns amigos próximos, conhecidos distantes, ou até mesmo simples curiosos, logo foram chegando para verem com seus próprios olhos aquele inverossímil milagre. 

Por um breve momento, por mais estranho que pudesse parecer, aquele fato passou a ser visto como algum tipo de dádiva dos céus. No entanto, quando, dentre os presentes, alguém teve a ideia de fazer uma oração em agradecimento àquele notável acontecimento, assim que as primeiras palavras foram ditas, Dona D’asdor se lançara sobre essa pessoa e, com unhas e dentes, a atacara sem nenhuma piedade, deixando-a em lastimável situação. A infeliz religiosa só não fora morta porque, muito rapidamente, Dona D’asdor fora contida pelos presentes e, mesmo com muita dificuldade, logo fora amarrada à mesma cama onde passara os últimos anos de sua vida. Toda aquela situação levava a uma única certeza: Dona D’asdor estava possuída. Ela não havia sido curada; suas pernas não haviam retomado os movimentos de outrora. Mas, certamente, alguma entidade maligna havia tomado posse de seu combalido corpo e o estava usando para algum tipo de mal. 

Durante toda a noite, Dona D’asdor – ou quem, ou o que, estivesse no controle de seu corpo – tentara, de todas as formas, se ver livre das amarras que a prendiam àquela cama. Num primeiro momento, ela tentara persuadir quem estivesse próximo com palavras de afeto e ternura. Após perceber que tal intento era inútil, tentou utilizar-se de uma hercúlea força que ela não possuíra até então. O esforço para se libertar era tão grande que fazia com que a cama se movimentasse de um lado para o outro pelo quarto. Nesse estágio de violenta tentativa de se ver livre, ela tanto gritava com uma voz bastante sinistra, como emitia diversos sons – tanto de animais conhecidos, quanto de barulhos estranhos, jamais escutados por ouvidos humanos. 

Passado o primeiro momento de euforia, e sendo sabedores de que nenhum milagre ocorrera, logo muitos foram embora. Primeiro, os mais medrosos; em seguida, os menos curiosos; e, por fim, aqueles que nada poderiam fazer a respeito de tal situação e tinham seus afazeres os aguardando. Aqueles que ficaram rapidamente decidiram que um religioso entendido do assunto deveria ser chamado. Como o padre mais próximo distava pelo menos quarenta quilômetros dali, a pessoa escolhida fora o Pastor Ebenézer, o líder religioso de uma pequena unidade pentecostal, inaugurada há bem pouco tempo na região. Numa comunidade de maioria católica, aquele tipo de denominação religiosa fora recebida com certo receio pela população local. No entanto, como o carisma tanto do Pastor Ebenézer, bem como o de sua esposa, era algo bastante encantador, logo conseguiram conquistar a todos, sem maiores dificuldades. Sendo ele uma pessoa bastante prestativa, assim que fora acionado, rapidamente se prontificara a colocar seus serviços religiosos a postos. Até porque um fato como aquele poderia lhe servir como propaganda para sua humilde e recém-fundada igreja. 

Acompanhado de seu filho mais velho – Ezequias, que certamente seguiria os passos do pai, vindo também a se tornar pastor – chegara à casa de Dona D’asdor logo pela manhã. Além do leal e inseparável Ezequias, de vinte e três anos, o Pastor Ebenézer tinha outros quatro filhos: três moças – Rebeca, Ruth e Deborah –, todas em idade de contrair matrimônio, e o caçula, Samuel, com apenas doze anos. Recebido por Agenor – filho da dona da casa e o mais interessado no desfecho daquilo tudo – e por Nhô Virgílio, que a tudo acompanhava com bastante curiosidade, logo ficara a par de tudo que ocorrera até então. Sem mais delongas, acompanhado de seu filho Ezequias, e estando de posse de sua Bíblia, de um saltério e de um vasilhame contendo água benta, dirigiu-se o Pastor Ebenézer ao quarto onde, naquele momento, por algum motivo ainda desconhecido, um sepulcral silêncio se fazia presente. Tanto Agenor quanto Nhô Virgílio recomendaram insistentemente ao pastor e a seu filho que, em hipótese alguma, deveriam soltá-la de suas amarras, independentemente do que ela lhes dissesse. 

Antes mesmo de adentrar aquele recinto, logo à porta, já fora possível perceber a sinistra atmosfera do lugar. O quarto exalava um peculiar cheiro de mofo de cemitério – uma mistura de nauseabundos odores. Algo em decomposição, cheiro de velas e flores mortas – e um saturado e pegajoso cheiro de algo podre. Esse estranho odor se misturava ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que lhe era ministrado. Poderia ser apenas mais um ambiente comum, como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento, exceto pelo extremo frio que havia no ambiente naquele momento. Mesmo já sendo dia claro, o quarto estava tomado pelas trevas, e fora necessário acender algumas velas para iluminar o ambiente. Dona D’asdor parecia estar dormindo placidamente. Seu semblante era meigo e sereno. Sua face transmitia uma intensa paz interior e, quando o Pastor Ebenézer a olhou de perto, teve quase certeza de que tudo o que ouvira sobre os últimos acontecimentos talvez fosse um ledo engano. Mesmo assim, achou por bem ungir o ambiente com orações e algumas passagens do saltério. Enquanto ele orava e citava salmos, Ezequias aspergia água benta por todos os lugares. Praticamente estavam dando aquele rito por encerrado, quando perceberam que Dona D’asdor estava sentada na cama, em posição de meditação, observando-os calmamente. 

– Que a paz do Senhor esteja contigo, Pastor Ebenézer... – disse ela, com uma doce voz infantilizada. 

O susto de Ezequias fora tão grande que ele deixou cair o vasilhame que trazia nas mãos, espatifando-se no chão do quarto. Pastor Ebenézer respondera prontamente: 

– Contigo também, irmã. Como está se sentindo hoje? 

– Poderia estar melhor, se meu filho ingrato não tivesse mandado me amarrar aqui nesta cama. Se não bastassem todos esses intermináveis anos que aqui estive presa, agora estou amarrada de vez... – respondeu ela, cada vez mais dócil. 

– Aqui fui chamado porque me disseram que a irmã estava tendo uma crise existencial. Creio, do fundo de minha alma, que talvez tenham se enganado quanto a isso, pois vejo que a irmã está bem, gozando de boa saúde e plena lucidez. 

– Sim! Estou ótima, como o senhor mesmo pode constatar com seus próprios olhos. Meu filho ingrato e seu amigo bêbado me amarraram sem motivo e ficam espalhando inverdades sobre mim, tentando difamar uma pobre velha e indefesa como eu. 

Tomado de profunda piedade por aquela pobre senhora e confiando em sua fé – imaginando que, se fosse algum estratagema do demônio para que a libertassem, ele e seu filho conseguiriam manietá-la novamente –, decidiu que a desamarrariam, deixando-a livre outra vez. Assim que uma das mãos de Dona D’asdor fora solta, ela agarrou a camisa de Ezequias e, trazendo-o para próximo de sua boca, mordeu-lhe o pescoço, rasgando-lhe a garganta. 

Com um urro de um animal selvagem, ela comemorou aquela medonha façanha e, ao ver o desespero do pastor, que tentava a todo custo ajudar o filho que se esvaía em sangue e certamente vivia seus últimos momentos, ela disse:  

– Pensou mesmo que um servo do pecado como você estaria à altura de vir até aqui me confrontar? É deprimente saber que pessoas iguais a você não tenham o mínimo de conhecimento sobre quem somos nós, de tudo que podemos e daquilo que sabemos. Nem por um momento passou pela sua cabeça que, quando você abusa de suas filhas, estamos nas sombras assistindo você profanar justamente aquelas que você deveria proteger a todo custo? Pois saiba você, filho de Belial, que o seu abjeto prazer é para nós um saboroso deleite. Aquele que se diz servo do Senhor, alguém que se autodenomina pastor de ovelhas, ser na verdade um lobo voraz. Tirei a vida de seu filho apenas para que você sinta o mesmo que suas filhas sentem quando você as obriga a abortar o fruto de seu pecado de seus inocentes ventres. Mesmo sendo uma criança incestuosa ainda assim é uma criança, e para nós é um deleite inigualável ver o próprio pai causando esse mal à sua própria semente, obrigando suas filhas a serem assassinas de seus próprios filhos... 

Agenor e Nhô Virgílio, que a tudo aquilo assistiam da porta do quarto – pois, assim que ouviram os gritos, vieram tentar ajudar –, olharam para o Pastor Ebenézer com um misto de escárnio e incredulidade, pois já haviam ouvido rumores estranhos sobre o comportamento do pastor com suas filhas, sendo estas proibidas, por ele mesmo, de manter qualquer tipo de relacionamento com outros rapazes, mesmo que fosse da mais respeitosa amizade. As três filhas do pastor, mesmo já sendo mulheres adultas, eram mantidas sempre em casa, sob a mais severa vigilância, sem qualquer tipo de envolvimento social. Pastor Ebenézer, que não dissera uma única palavra sequer, assim que seu filho, desfalecendo em seus braços, dera o último suspiro, lançara-se sobre Dona D’asdor e, num desvairado ataque de fúria, tentara com todas as forças esganá-la, mas logo fora contido por Agenor, enquanto Nhô Virgílio tentava amarrá-la novamente. Dona D’asdor, que gargalhava incontrolavelmente, talvez por isso mesmo tenha se deixado amarrar novamente. 

Não havendo mais nada a fazer naquele lugar, com o corpo inerte do filho nos braços, Pastor Ebenézer se fora sem ao menos dizer adeus. O que se soube depois foi que ele, assim que enterrara o corpo do filho numa cerimônia rápida e simples, abandonara esposa e filhos, lançando-se pelo mundo sem deixar nenhum vestígio de seu paradeiro. Sua esposa e filhos também logo se mudaram, e ninguém mais ouvira falar sobre nenhum deles. Agenor, imaginando não ter outra solução, decidira que, a qualquer custo, o Padre Ozório deveria ser chamado. Pela distância, esse somente chegaria no outro dia. Durante todo esse tempo, Dona D’asdor transitara por diversos tipos de comportamentos, desde o mais dócil até o mais violento possível. Sua selvageria era tão grande que, ao fim do dia, seus dois pulsos já estavam completamente dilacerados na tentativa de se soltar. Pela gravidade dos ferimentos, certamente ambos deveriam estar quebrados. Seus gritos, urros e gemidos eram ouvidos ao redor de toda a casa, a uma distância considerável. O som que ela emitia deixava todos os pelos do corpo arrepiados; até mesmo Nhô Virgílio, um septuagenário vivido e experiente, vez por outra tinha calafrios e se tremia todo de medo. 

Assim que o Padre Osório chegara, trazendo consigo dois auxiliares religiosamente paramentados, nem mesmo quiseram ouvir todos os relatos de Agenor e de Nhô Virgílio, pois já sabiam previamente do que se tratava e, rapidamente, foram entrando no quarto e preparando tudo para o exorcismo. Sendo eles pessoas já acostumadas com aquele tipo de situação – Padre Osório era um sábio demonologista e um exorcista renomado – em menos de uma hora conseguiram expulsar o demônio que assumira o corpo de Dona D’asdor. Assim que se viu livre da maligna entidade que o possuíra, o corpo entrou em um rápido estado de decomposição e teve que ser enterrado com urgência. 

Quando o exorcismo enfim se deu por encerrado e o Padre Osório saíra do quarto, trazendo na face o semblante de mais um dever cumprido, Agenor, timidamente, perguntou-lhe: 

– Minha mãe morreu? 

– Filho, sua mãe está morta há três dias! Aquilo que se levantou da cama e andou entre os vivos, atacando a quem quer que fosse, não era sua mãe... 


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Coelho Vermelho

O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O solitário castiçal iluminava as cartas sobre a escrivaninha. Sua luz trêmula projetava a sombra disforme do homem sem rosto – um aristocrata cujo semblante ninguém jamais vira. Os rumores sobre sua origem remontavam a séculos, mas sua existência permanecia um enigma envolto na imensidão e silêncio do seu castelo. Apenas alguns servos fiéis, de olhares baixos e lábios selados, lhe faziam companhia. 

O homem mergulhou a pena no tinteiro negro. O arranhar no pergaminho ecoava como unhas em um caixão. 

"O Conde te espera na celebração dos Láparos. Haverá um baile em prol do Aesttera — Tempo de Conceber Novas Vidas. Te esperamos neste franco deleite", escreveu com caligrafia meticulosa. 

Era o décimo quinto ano do ritual. Os Láparos, segundo os antigos manuscritos guardados nas catacumbas do castelo, eram espíritos da fertilidade que exigiam sangue para conceder vida. O Aesttera, ciclo lunar de conceber, aproximava-se do auge. 

Mulheres solteiras ou casadas, sem filhos, e homens livres de qualquer preconceito eram bem-vindos. Muitos ignoravam o verdadeiro propósito da celebração, atraídos apenas pela promessa de libertação. O grande evento era visto como um encontro de possibilidades e de escalada social. As melhores joias, as melhores roupas visavam ostentar seus alter egos, que para muitos seriam inalcançáveis caso não fossem ao baile. 

A noite chegou com um céu sem estrelas. Coelhos híbridos com humanos, advindos de várias carruagens, rompiam o silêncio espectral daquele lugar. O relinchar dos cavalos misturava-se ao murmúrio excitado dos convidados. Máscaras ornamentadas com penas, joias e cristais escondiam identidades, mas revelavam olhares cheios de desejo, esperançosos pela entrega à libido. O aroma de incenso e almíscar impregnava o ar, enevoando os sentidos já turvos pela expectativa. 

Um tilintar numa taça de cristal reverberou pelo salão, evocando a atenção dos convidados que sorriam inocentemente, ansiosos pelo deleite do raro vinho da maçã sangrenta. O líquido escarlate brilhava sob a luz dos candelabros, sua viscosidade deixando rastros rubros nas taças de cristal. Um aroma metálico, adocicado, emanava da bebida. 

"Este néctar", anunciou o servo principal, "foi preparado pelo próprio Conde durante o ciclo completo da lua negra." 

Eles bebiam. O líquido escorria por gargantas sedentas, esquentando-os por dentro. Comiam. Carnes raras, frutas exóticas, manjares nunca antes provados. Tocavam-se. A princípio com timidez, depois com voracidade crescente. Mas só havia uma única regra: nunca remover a máscara. 

E continuavam... As risadas tornavam-se mais estridentes, quase histéricas. Contorciam-se, despiam-se... O som úmido da carne contra carne mesclava-se ao tilintar das joias. Elevavam acima de suas cabeças as taças cheias do néctar afrodisíaco, seus reflexos vermelhos manchando o teto como sangue espalhado. 

De seu trono nas sombras, o anfitrião, o homem sem rosto, assistia ao espetáculo daqueles a quem denominava como selvagens. Sob seu manto negro, suas mãos pálidas apertavam os braços entalhados do assento. Era o décimo quinto sacrifício, e cada ano a sede dos Láparos crescia. 

"Bebam, velhas bestas, coelhos malditos, hoje celebramos a morte e a vida", e por detrás de sua máscara — única com a cabeça de coelho vermelho, olhos de rubi e pelagem escarlate — projetou sua voz enquanto tilintava sua taça. "Olhem, admirem a origem do sangue que bebem." 

Um véu pesado foi removido no centro do salão. E numa gaiola dourada, uma pobre e fértil mulher definhava, pálida como marfim polido, os pulsos cortados e enfaixados, seus olhos vidrados fixos nos convidados. Uma mangueira transparente ligava suas veias à grande ânfora de cristal de onde o vinho era servido. Ela assistia seus algozes deleitarem-se com o viscoso vinho escarlate – seu próprio sangue, drenado lentamente para alimentar a celebração. 

Os convidados congelaram. Taças caíram, estilhaçando-se contra o mármore. Alguns levaram as mãos à boca, outros permaneceram imóveis, fascinados pelo horror. 

"Os Láparos exigem sangue voluntário," continuou o Conde, sua voz agora mais profunda, inumana. "Ela se ofereceu em troca de riquezas para sua família. Um sacrifício nobre, não acham?" 

E a mulher na gaiola, como se esperasse este momento, moveu seus lábios ressecados. "Vocês... todos... malditos..." sussurrou ela, sua voz fraca atravessando o silêncio absoluto do salão. E, destarte, a sua vida esvaiu-se, porém, não com os olhos cerrados, mas fixos em seus carrascos mascarados, em uma maldição silenciosa que cada um deles levaria consigo para sempre. 

Por baixo de suas máscaras, imperceptivelmente, pequenos tufos de pelo branco começavam a brotar na pele dos convidados. 


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Ardente

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era quase madrugada, e o alvoroço na casa da rua não cessava. Henrique pegou a arma que guardava no cofre e caminhou até a janela para investigar. Ele era um homem metódico, de olhar afiado, qualidades forjadas em anos de serviço militar exemplar. Nada lhe escapava — exceto, talvez, o preço que essa rigidez cobrava. Seu temperamento afastara todos que um dia cruzaram seu caminho, deixando-o sozinho, amargurado, corroído pela felicidade alheia. 

A alegria dos vizinhos, tão tarde da noite, era algo intolerável. Aquela algazarra precisava acabar. Em um mês, ele perdera a conta de quantas vezes fora dormir com horas de atraso, mais do que podia contar nas mãos calejadas e enrugadas. Sentia nelas o peso da arma, sua fiel companheira dos tempos de glória. Agora, ela carregava tanto o fardo de sua existência quanto a honra que restava de seus dias como major. Jamais a abandonaria — era tudo o que lhe sobrava. 

Pela janela imunda, a três casas de distância, avistou os malditos. Todas as noites era assim: eles se postavam na porta, estáticos, e, pontualmente às 23:45, a entrada se abria. Entravam, mas nunca saíam. No dia seguinte, outros apareciam para perturbar seu sono. Após inúmeras chamadas, a polícia finalmente apareceu — mas também não voltou. A viatura seguia lá, exposta ao sol e à chuva, há dias. 

Naquela noite, a porta se abriu novamente. As figuras desapareceram no breu do interior, mas, dessa vez, ela permaneceu escancarada. Seria um convite? Com a arma nas mãos, sentia-se forte, jovem outra vez. Poderia ir até lá e pôr fim àquela festa. Refletiu por um instante, mas decidiu não se expor. Ainda tinha um nome e uma honra a zelar, por mais tentadora que fosse a ideia de silenciar os arruaceiros. 

No domingo, acordou convicto de que teria paz. Era um dia em que as pessoas descansavam, ficavam em casa. Tudo correu bem até a noite, quando um estrondo vindo da frente o arrancou de um cochilo. Pegou o tablet que exibia as câmeras da casa e viu um adolescente parado perto do portão, encarando fixamente a direção da casa dos baderneiros. 

Era o estopim. Não toleraria uma criança malcriada chutando sua propriedade. Abriu o cofre, apanhou a arma e correu à janela da entrada. Chegou a tempo de ver o garoto atravessar a rua e se juntar à multidão diária diante do imóvel. Todos, imóveis, fitavam a porta. 

Ela se abriu mais uma vez. A escuridão do interior parecia engolir a da rua, como um buraco negro. O grupo entrou sem hesitar. Henrique já não sabia se queria punir ou salvar o menino, mas tinha certeza de que precisava tirá-lo dali. Preparou a arma, puxando o ferrolho, e avançou até o imóvel, cuja porta aberta o aguardava, mergulhada em um breu absoluto. 

Diante do batente, encarou a escuridão. Mesmo a um braço de distância, nada conseguia enxergar. Uma fraqueza, que outros chamariam de medo, atravessou sua mente. Poderia estar entrando em uma armadilha, mas não recuaria. Resgataria o garoto e, se necessário, acabaria com os arruaceiros. 

Ao cruzar o limiar, a escuridão o envolveu, roubando-lhe os sentidos. Caminhou às cegas pelo que pareceu uma eternidade, até que uma luz discreta surgiu no horizonte, atraindo-o como uma mariposa. Era uma árvore colossal, ardendo em chamas que lambiam galhos e folhas sem os consumir. Centenas de pessoas — talvez quinhentas — observavam, hipnotizadas, babando, tremendo, algumas à beira da inanição. 

Empurrando a multidão, chegou ao pé da árvore. Lá estava uma mulher imponente, vestida com trajes religiosos chamuscados, segurando um tomo enorme do qual lia incessantemente. De repente, ele notou: seus olhos estavam cobertos por um pano sujo de sangue. Aquilo era uma seita, percebeu. E ele não tinha munição suficiente para enfrentá-la. 

Algo se moveu entre os galhos. Um animal o encarava — semelhante a um macaco de pequeno porte, mas grotescamente deformado, com a pele derretida em uma massa disforme de músculos e tecidos. Mostrou os dentes afiados e correu pelos galhos, numa clara ameaça. 

Horrorizado, Henrique ergueu a arma e disparou todo o pente, acertando o ser três vezes. O grito de agonia ecoou, e a resposta veio rápido. Um titã, oculto entre as chamas e as folhas, desceu da árvore para proteger sua cria. A criatura, semelhante a um gorila monstruoso e igualmente deformado como o filhote, aterrissou, esmagando os hipnotizados mais próximos. Sua bocarra soltou um rugido que estourou os tímpanos de todos ali. 

Surdo e horrorizado, Henrique tentou atirar em vão. A entidade o agarrou como se fosse um brinquedo frágil, erguendo-o até sua face. Parecia avaliá-lo — seria comida ou algo mais? O fedor de sua respiração o sufocava, forçando-o a encarar as escolhas de uma vida rígida, vazia de afeto. O fim chegara, e ele sabia. 

Com facilidade, o monstro escalou a árvore colossal, levando-o ao ninho. Henrique nunca mais foi visto. A casa, até hoje, segue atraindo pessoas, e a porta permanece aberta, esperando. 


Escrito por:
Luiz E. Marcondes

Luiz E. Marcondes é um escritor brasileiro de literatura de terror cósmico e psicológico. Desde jovem, sempre foi curioso sobre a mente humana. Formou-se em Psicologia Comportamental e Existencial e faz uso de sua formação profissional para agregar mais complexidade e valor aos textos que escreve. Apaixonado por uma variedade de gêneros literários... » leia mais
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