Desafio Sombrio 2024, -Artigos Castelo Drácula Desafio Sombrio 2024, -Artigos Castelo Drácula

Está chegando a hora!

Em 31 de outubro será lançada a 10ª edição do nosso periódico Castelo Drácula, uma revista digital para apreciadores da Literatura Gótica, do Terror, Horror, Mistério e Fantasia Sombria….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Em 31 de outubro será lançada a 10ª edição do nosso periódico Castelo Drácula, uma revista digital para apreciadores da Literatura Gótica, do Terror, Horror, Mistério e Fantasia Sombria. Junto desta edição de Halloween, cujo nome é Aborom, lançaremos a edição do Desafio Sombrio, que já conta com mais de 30 envios de autores e convidados. É uma conquista poder comemorar um ano de Castelo Drácula com uma edição dupla cheia de magia e horror. A empolgação irradia de todos os que estão participando com afinco e, principalmente, de mim, que vejo se materializando um sonho que sempre tive: reunir autores, publicá-los, lê-los e me dedicar a eles para vê-los escrever cada vez mais.

Os spoilers já foram dados: a edição Aborom é laranja e vivifica a essência do Halloween que, embora seja uma festividade norte-americana, aqueles cujo coração transborda em trevas não podem ignorar tamanha celebração. Estamos vinculados a Samhain, esta é a verdade, pois somos pagãos, de uma forma ou de outra; ainda que o inverno não se inicie em nosso adorável outubro, sentimos que, em homenagem às energias do inverno em países do hemisfério norte, celebramos para fortalecer a egrégora. A verdade é que, no Brasil, as estações são diferentes, e estamos próximos do fim da primavera. Nosso Samhain deveria ser em março, com suas águas profundas fechando o verão mórbido e trazendo o outono. No entanto, você já imaginou como poderíamos ressignificar o Halloween para nossa cultura? Eu já pensei.

É principalmente por isso que a Edição 10 da revista Castelo Drácula chama-se Aborom. A palavra remete às abóboras, pois a colheita também é feita nesse período no Brasil. Este vegetal é representativo também no Halloween norte-americano. As abóboras não são tão fãs de climas profundamente frios, então combinam com a primavera brasileira, que, em alguns estados, é quente e úmida, embora não tão quente quanto o verão, quer dizer, às vezes é. Nossas estações são quentes, quase sempre. O calor é nossa maldição, e é por isso que Aborom é de um laranja intenso, lembrando um entardecer melancólico de calor.

Aborom é o nome que dei para esse festim que acontece todo 31 de outubro — que, na verdade, acontece em minha mente e pude trazer para vocês através do Castelo Drácula. Nele, unimo-nos com aqueles que importam, cozinhamos receitas ancestrais com abóboras e grãos integrais rústicos, frutos de nêsperas, acerolas, mangas e jabuticabas, especiarias moídas: cumaru, açafrão e folhas de manjericão. Relembramos momentos especiais sentados à mesa, dançamos ao som de músicas estranhas e consultamos nossos oráculos das cartas, para que possamos entrar com sabedoria no período de transição que se inicia em novembro. Novembro e dezembro são meses de profunda reflexão; neles, uma melancolia de fim de ano se esparge e, em Aborom, são compreendidos como um período importante para nossa individualidade e nossos vínculos. Foi assim que ressignifiquei o Halloween. Uma tradição única e incrível, não acha?

Talvez você acredite que isso não tenha a ver com os brasileiros; no entanto, tudo começa pela literatura. Nela vivenciamos o que faz sentido para nós e a tornamos real. Tudo o que crio e compartilho por aqui é para ser apreciado por aqueles que veem sentido em cada detalhe, e sei que alguém, além de mim, verá. Em Aborom, há a brincadeira comum de "doces ou travessuras", onde usamos roupas e máscaras para assustar os familiares e amigos que não levam doces para a celebração. É uma recreação que acontece nesse dia. Debaixo do fim da primavera, próximo ao verão, festejamos em Aborom.

Dia 31 de outubro você fará parte dessa festa apreciando a Edição 10 da revista mensal Castelo Drácula. E, depois de apreciá-la em todo o seu encantamento sombrio, poderá dizer se não é, pois, a festa mais fascinante de Halloween que você já viu! Melhor do que o Halloween, melhor do que Samhain. Estamos em Aborom!

 
 
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O Eterno Mestre do Terror: Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário profundamente influente que ecoa através dos séculos e há de ecoar, perpétuo, como um grito num abismo sem fim. Nascido em 1809, Poe viveu uma vida marcada por tragédias e dificuldades, isso moldou sua visão sombria do mundo e tornou sua escrita incomparável.

Poe começou sua carreira literária como crítico, destacando-se por suas análises afiadas e incisivas. No entanto, foi como escritor de contos e poemas que ele alcançou fama duradoura. Suas histórias, permeadas por elementos góticos e sobrenaturais, exploram os recantos mais sombrios da psique humana, mergulhando em temas como morte, insanidade e o desconhecido. O escritor e poeta influenciou todos os autores posteriores a ele, contos como “Os crimes da Rua Morgue” e “O Gato Preto” tornar-se-iam, quem diria, em obras relevantes não apenas na literatura, mas em todos as outras artes e, também, nos movimentos artísticos, tais como o romantismo, além de abraçar a escrita policial que veio a ser valiosíssima para autores como Conan Doyle e Agatha Christie (BELLIN, 2011).

Entre suas obras mais conhecidas, também consta "O Corvo", um poema que narra a visita de uma ave misteriosa a um homem atormentado pelo luto e pela perda. A musicalidade e a melancolia deste poema o tornaram um clássico da literatura mundial, ecoando através das eras e sendo adaptado para o cinema de forma recorrente e de maneiras singulares, sendo também símbolo na cultura gótica com sua marcante frase “Nevermore”.

Além de "O Corvo", Poe é célebre por contos como "O Coração Delator" — que, aliás, é um dos meus preferidos; nesta obra-prima, um narrador perturbado confessa um assassinato motivado pela obsessão com o olho de um idoso e, no final, sem spoiler, a profunda angústia e aflição são transmitidas ao leitor — algo que, para mim, nenhum outro escritor foi capaz de fazer com tanta maestria. "A Queda da Casa de Usher" é outro clássico de Poe, uma história de decadência e loucura que captura a imaginação com sua atmosfera sinistra e surreal; atualmente este conto foi adaptado, e modernizado, para uma série da Netflix, junto com outros elementos e obras importantes do autor, como a extravagância de “A Máscara da Morte Rubra”.

A habilidade de Poe em criar um clima de suspense e horror, aliada à sua prosa cuidadosamente elaborada, estabeleceu os padrões para o gênero do conto de terror e influenciou inúmeras gerações de escritores. Sua habilidade de penetrar nas profundezas da psique humana e explorar os abismos da alma humana continua a fascinar leitores até os dias de hoje. No entanto, o autor também foi influenciado pelos autores de sua época e antecessores, nomes como Lord Byron, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge teriam sido suas instigantes leituras, com mistérios boêmios, descrições poéticas e sobrenaturais acontecimentos (BELLIN, 2011).

Segundo García (2019), Edgar parece residir em cada espectro da literatura sombria, até mesmo no que viera antes de sua existência, e não há como negar essa verdade, aliás, devo reiterá-la em outro aspecto: Poe habita os corações de toda a literatura gótica em razão do seu explorar profundo, em cada uma de suas tramas, das nuances perturbadoras da humanidade; sua técnica narrativa foi e é um marco tão imensurável, que é impossível ler quem quer que seja sem compará-lo à grandiosidade do autor de “Silêncio: Uma Fábula” — citado por ser o conto número um na minha lista de preferidos do poeta.

“Edgar Allan Poe parece estar em todos os lugares, e sua presença é tão impregnante que nos faz inverter o eixo cronológico, e ler até mesmo aqueles autores que o antecederam a partir dele. Em outras palavras, não apenas encontramos Poe em H. P. Lovecraft, Richard Matheson, Shirley Jackson e Stephen King: lemos Ann Radcliffe, Charles Maturim, Matthew Lewis e Mary Shelley, também a partir de Allan Poe” - García (2019)

Infelizmente, a vida pessoal de Poe foi marcada por tragédias e lutas constantes. Ele enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua vida e sofreu com o alcoolismo e a depressão. Parece que sua genialidade foi interrompida pela pobreza de suas condições básicas e suas amarguras emocionais. Sua morte prematura em 1849, aos 40 anos, permanece envolta em mistério, com as circunstâncias exatas ainda debatidas por estudiosos e admiradores. As causas de sua morte foram atribuídas a uma miríade de possibilidades, incluindo delirium tremens, doenças cardíacas, envenenamento por metais pesados e até mesmo rabia, mas nenhuma delas foi conclusivamente provada (ALLEN, 2001).

Apesar das adversidades, o legado de Edgar Allan Poe perdura como um monumento à imaginação humana e à capacidade de transformar o terror em arte. Sua obra continua a inspirar e fascinar leitores e escritores, garantindo-lhe um lugar permanente no panteão dos grandes mestres da literatura. Abaixo está uma lista dos contos publicados por Poe durante sua vida, nos títulos originais.

  • 1831 - "Metzengerstein" - A primeira história que Poe publicou, marcando sua incursão no conto com um sabor gótico.

  • 1832 - "The Duc de L'Omelette" - Um conto irônico e satírico sobre um duelo póstumo.

  • 1832 - "A Tale of Jerusalem" - Um conto humorístico ambientado durante um cerco na Jerusalém antiga.

  • 1833 - "MS. Found in a Bottle" - Um conto de terror marítimo e fantástico que ganhou um concurso literário.

  • 1835 - "Berenice" - Uma história de terror psicológico focada em uma obsessão mórbida.

  • 1835 - "Morella" - Uma reflexão sobre a reencarnação e a identidade.

  • 1835 - "Lionizing" - Uma sátira sobre a fama e a sociedade.

  • 1838 - "Ligeia" - Uma das obras mais elogiadas de Poe, explorando a morte e a ressurreição.

  • 1839 - "The Fall of the House of Usher" - Um dos contos mais famosos de Poe, exemplificando o terror gótico.

  • 1839 - "William Wilson" - Um conto que explora o doppelgänger e a consciência culpada.

  • 1840 - "The Man of the Crowd" - Um estudo sobre a alienação e a observação urbana.

  • 1841 - "The Murders in the Rue Morgue" - Frequentemente citado como o primeiro conto de detetive moderno.

  • 1842 - "The Masque of the Red Death" - Uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. Excêntrico e trágico.

  • 1842 - "The Pit and the Pendulum" - Uma história de suspense e terror ambientada durante a Inquisição Espanhola.

  • 1843 - "The Tell-Tale Heart" - Um conto psicológico de culpa e loucura.

  • 1843 - "The Gold-Bug" - Uma aventura envolvendo criptografia e um tesouro enterrado.

  • 1843 - "The Black Cat" - Um conto de perversidade e culpa.

  • 1844 - "The Premature Burial" - Uma história que explora o medo de ser enterrado vivo.

  • 1845 - "The Purloined Letter" - Um conto de detetive que enfoca a psicologia do crime.

  • 1845 - "The Facts in the Case of M. Valdemar" - Um conto que mistura elementos de horror e ficção científica.

  • 1846 - "The Cask of Amontillado" - Uma história de vingança meticulosamente planejada.

Referências

KIEFER, Charles. A poética de Edgar Allan Poe. Letras de Hoje, v. 44, n. 2, 2009.

BELLIN, Greicy. Edgar Allan Poe e o surgimento do conto enquanto gênero de ficção. Anuário de literatura: Publicaçao do Curso de Pós-Graduaçao em Letras, Literatura Brasileira e Teoria Literária, v. 16, n. 2, p. 41-53, 2011.

ALLEN, Hervey. Vida e obra de Edgar Allan Poe. POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.

GARCÍA, Flavio; COLUCCI, Luciana; GAMA-KHALIL, Marisa Martins; PHILIPPOV, Renata (Orgs.). Edgar Allan Poe: efemérides em trama. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2019.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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O Que é um Memórum?

Ao Memórum pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas…

MidjourneyAI

Ao Memórum pertencerá a sua vida em todas as instâncias emocionais e psíquicas. O Memórum é um livro e posso compará-lo ao Diário, visto que ambos são guardiões dos aspectos quotidianos da vida humana singular. Todavia, o Memórum, para além d’esta tarefa, possui muitas outras e, para que estas muitas outras sejam cumpridas, é requerido que seu autor tenha um vínculo com seu Memórum, é imprescindível que seu autor tenha uma intenção verdadeira de encontrar, através da escrita, o autoconhecimento.

Cada um deve ser autor de seu próprio Memórum. O autor deve se vincular profundamente e emocionalmente ao seu Memórum para que sinta ser substancial escrevê-lo. A intenção, a qual supracitei, nada mais é do que a verdadeira vontade de fazer algo. Por vezes temos anseios quais, por mais que sejam anseios, não são febris o suficiente para que utilizemos nosso tempo e energia em nome deles. O anseio de escrever em seu Memórum deve ser, para o autor, um anseio resoluto. Isso, pois, das outras muitas tarefas destinadas ao Memórum, está o hábito de descrever o seu dia com minuciosos detalhes, em especial a respeito de seus pensamentos, sentimentos e emoções.

Em um Diário, naturalmente escrevemos o que sentimos ou pensamos, porém, no Memórum, é preciso uma dedicação para que esses detalhes sejam mais aprofundados, uma vez que são eles que trarão compreensão para nós e consciência para o nosso quotidiano. Isso acontece porque, ao nos dedicarmos à lembrança de cada pensamento e emoção, além dos acontecimentos do dia, trabalharemos a memória e a atenção a cada dia com mais avidez; imersos no verdadeiro desejo pelo autoconhecimento e vinculados, sem hesitar, ao Memórum; quereremos investir nossa atenção nos dias corriqueiros tão somente porque queremos ter o que redigir ao anoitecer. Esse ciclo de escrever para se lembrar e investir na atenção para se lembrar mais ao escrever, é o ciclo virtuoso do Memórum.

A memória é a razão pela qual somos capazes de compreender novos conhecimentos; exercê-la e praticá-la não apenas leva ao autoconhecimento, mas também nos permite transformar a nossa existência com a expansão da nossa capacidade de assimilação do mundo. O Memórum é a ferramenta do ciclo virtuoso da memória, pois a expande naturalmente. Além disso, com o exercício da Escrita, ampliamos nossa capacidade cognitiva e desenvolvemos, assim, maior habilidade de processamento de informação, além de autocontrole nas respostas reativas do nosso comportamento. Não é atoa que sempre, desde os primórdios da humanidade, buscamos formas de escrita que, mesmo rudimentar, vinham da nossa intuição primitiva de evolução mental.

Compreende-se que, portanto, enquanto ferramenta da consciência, o Memórum como hábito produz: 1) Exercício e expansão da Memória; 2) Reforço da atenção diária; 3) Ampliação da capacidade cognitiva no processamento e assimilação das informações do eu-mundo; 4) Melhoria na habilidade de lógica; 5) Construção de autoconhecimento na análise facilitada por todo o movimento dinâmico da mente descrito nos quatro itens anteriores — essa construção acontece porque, necessariamente, somos colocamos como observadores dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções e, principalmente, das situações cotidianas, isto é, do mundo que estamos inseridos; ao escrever o Memórum, somos colocados como narradores da nossa história e, enquanto tais, podemos definir o futuro do protagonista que somos, pois, nós mesmos; isso acontece gradativamente, a cada nova folha redigida no Memórum, a cada novo esforço intencional para manter o hábito e dedicação para se lembrar de tudo o que passara por sua mente e coração ao longo do dia. Autoconhecimento é algo a se buscar do início ao fim da vida.

O Memórum, enquanto ferramenta, pode não trazer benefícios se utilizado de forma errônea; portanto eu reforço, é preciso um profundo e incorruptível querer-escrever-um-Memórum, para que a ferramenta seja aproveitada em todo o seu potencial. 1) Queira, de verdade, escrever um Memórum; 2) Dedique-se ao seu Memórum; 3) Divirta-se lembrando do seu dia, sentimentos, pensamentos e emoções, para que a “tarefa” de escrever lhe seja agradável; 4) Trate seu Memórum como um amigo, ou como seu Psicólogo, queira revelar para ele tudo o que se passa em seu ser; 5) Entenda seu Memórum como uma criatura que só vive se for alimentada por suas palavras, logo, não a deixe falecer no esquecimento. Se não houver disposição para estas cinco coisas, desconsidere a escrita de um Memórum e prefira o Diário que é, em si mesmo, um hábito de escrita mais suave e fácil. Ambos tem suas qualidades, no entanto, não esqueça que escrever um Memórum é dedicar-se ao método mais poderoso para o autoconhecimento e independência racional e emocional através da Escrita.

Texto publicado na 2ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2024. → Ler edição completa

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A Fenomenologia da Imortalidade

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a…

Death of an Orphan, 1884 — Stanisław Grocholski (Polish, 1858–1932)

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.

Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.

Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.

Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.

Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.

Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.

Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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Resenha: A Melancolia de Trees Of Eternity

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio e…

Foto da Web

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio (da banda Swallow the Sun) e a cantora Aleah Stanbridge, nascida na África do Sul e residente na Suécia. A música deles é frequentemente descrita como melancólica ea inspirada no estilo musical doom/death, com vocais femininos angelicais.

A banda foi formada quando o guitarrista Juha Raivio e a cantora Aleah se juntaram no estúdio para trabalhar na música "Lights on the Lake" para o próximo álbum da Swallow the Sun. A partir dai, o projeto se tornou uma ideia com vida própria e, desta experiência nasceu o álbum Hour of The Nightingale.

Em 11 de agosto de 2016, o álbum de estreia da banda, Hour of the Nightingale, foi anunciado para ser lançado em 11 de novembro. Infelizmente, em 18 de abril de 2016, a cantora Aleah Stanbridge faleceu de câncer aos 39 anos. Dois dias depois, Juha escreveu no Facebook que o álbum estava pronto para ser lançado há algum tempo e que os planos ainda estavam em andamento. Ele também planejava lançar as músicas solo de Aleah

"Alcance através de sua mente, céu interno
Deslize infinito até mim
Alma encarcerada, presa atrás de seus olhos
Até que seja salva, compartilhando sua luz
E escuridão"
— Trecho traduzido da música Condemned To Silence

O álbum foi lançado, às condolências por Aleah e em nome de sua voz perfeita e do trabalho que tivera, junto a Juha e os demais convidados, na produção de Hour of The Nightingale.

É preciso ouvir Aleah cantar em Hour of The Nightingale para compreender como as sensações mais soturnas emergem no âmago e florescem em uma lentidão abominável dentro da alma. Tamanha é a melancolia dos instrumentos que conduzem a voz de Aleah que, através dos nossos olhos, vertem lágrimas imateriais enquanto um estranho conforto nos guia a um abismo sem fim. Por tais sensações inenarráveis, é impossível deixar de ouvir o álbum completo, várias vezes consecutivas; é viciante o universo que tais composições evocam.

Há males quais não podemos dizer terem vindos para o bem, pois que amargura é não ter um novo single de Trees of Eternity nos dias atuais; resta-nos o lamento e a mensagem deixada: “Não chores por mártires | Levante a cabeça | Águas salinas não vão ressuscitar os mortos” — Trecho traduzido da música que leva o nome do álbum: Hour Of The Nightingale.

"Veja todas as cores desaparecendo
Com o Sol
Temporada de uma escuridão sombria
De novo, isto começou
Amaldiçoado por ciclos recorrentes
Erguido para ser desfeito"
— Trecho traduzido da música Eye Of Night
Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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