Sepulte-me, Ana

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prometeram, 

Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! 

Não há morte, não há honra, não há sono... 

Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar. 

Bate o peito, Ana... 

Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou... 

Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta. 

É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar. 

A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens. 

Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada. 

Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar. 

Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar. 

Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Noites

Todas as noites aparece | Vem em formas visíveis tais | Que de lado a outro do globo | Se observa inteira | Ora se esconde na intimidade dos olhos, se banha…

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Todas as noites aparece
Vem em formas visíveis tais
Que de lado a outro do globo
Se observa inteira
Ora se esconde na intimidade dos olhos, se banha
E retorna intumescida a cada temporada
Nua ao céu aberto
Poetas inserem suas “lúgubres histórias”

Pessoas se alteram nos becos
As luzes da cidade não lhe tiram o reflexo
Está sempre a acompanhar
Todos os passos noturnos
Sente saudade da chegada dos decaídos

Os seres saem dos trabalhos
E precisam uivar como seus ancestrais
Entrar em águas profundas e
Perder a sua bússola
Ela é o olho sobretudo

Se não fosse nossas luzes
O lado obscuro
Da lua
É o seu descanso de nós.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Violenta II

O tempo de colheita já passara; | Passara o triste inverno e suas chuvas… | Somente o que não finda, o que não sara | Jamais: uma lembrança que machuca…

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O tempo de colheita já passara;
Passara o triste inverno e suas chuvas…
Somente o que não finda, o que não sara
Jamais: uma lembrança que machuca.

Num sempiterno voo, fazendo sala;
Insone predador, de garra adunca —
A cada vez que penso rechaçá-la,
Voltando ao fim mais forte do que nunca…

Presente em meio às provações do dia,
Também nas madrugadas, quando, em claro,
Batalho sempre em vão por meu descanso,

Pensando longamente na desdita
De ser por esta sombra o responsável:
Revés que originei e nem mesmo alcanço… 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Xadrez Alterado

Acordei um dia crendo não ser amado | Com um soluço guardado que não saiu de mim | Era um palpite dos amores mal empenhados | Que tão logo se foram…

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Acordei um dia crendo não ser amado
Com um soluço guardado que não saiu de mim
Era um palpite dos amores mal empenhados
Que tão logo se foram sem ter outro jeito
E uma palpitação no peito que fica, enfim

Comecei a raspar com a lima meia-cana
No golpe do aço, torcendo a pua até que atravessa
O atrito que deforma e lasca a beirada
Esculpindo o xadrez peça a peça
Mas cada uma das peças foi alterada
Eu que inventei esse jogo deixei de criar
as regras, abdiquei de fazer as jogadas

Acordei aquele dia crendo não ser amado
Ah dia, tornaste em mim noite mais cedo
O sol, grande amor, não quer e não se mantém
No desamparo da noite, eu com a lua nos braços
Com a janela do quarto aberta e o medo
Que na manhã seguinte ela me deixe também.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Noite na Taverna e o Gótico Brasileiro: Reflexões entre Alcoolismo, Desejo, Paixão e Originalidade na Literatura

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário, não apenas em sua atmosfera sombria e decadente, mas também na maneira como reflete as tensões sociais de seu tempo. Publicado em 1855, o livro vai além da simples imitação de modelos europeus ao incorporar questões como o alcoolismo, a alienação, o desejo, o medo, a paixão pela liberdade, características de uma juventude romântica brasileira tanto da classe burguesa quanto de classes econômicas mais baixas, confrontada com um contexto de transição e incertezas. 

A atmosfera gótica e os dilemas sociais  

A taverna, espaço central da narrativa, é um lugar de excessos onde o vinho conduz os narradores a relatar histórias permeadas por tragédia e destruição. A representação do alcoolismo e da embriaguez em Noite na Taverna não é meramente decorativa, mas uma metáfora para a alienação e o escapismo de uma geração romântica frustrada. Como afirma França em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, os excessos retratados em narrativas góticas brasileiras refletem uma juventude que muitas vezes se viam às margens de um contexto político e social que não oferecia espaço para seus ideais. Esse escapismo por meio do álcool, aliado ao ambiente sombrio da taverna, é uma crítica velada a uma sociedade que sufocava a busca por uma liberdade cultural e econômica. 

Por outro lado, os temas da paixão e do desejo são tratados por Azevedo com um misto de fascínio e ironia. Em histórias que oscilam entre o erotismo e o grotesco, como a narrativa de Bertram, o autor apresenta relações marcadas pela destrutividade, evidenciando uma visão trágica do amor que se aproxima do gótico europeu, mas que também ressoa com uma moralidade em crise no Brasil oitocentista. O amor em Noite na Taverna é fugaz, violento e muitas vezes fatal, refletindo a fragilidade das instituições sociais e do próprio indivíduo. 

O desejo de liberdade e a crítica à tradição  

Além disso, o desejo de liberdade permeia toda a obra, seja nas aventuras desregradas de seus personagens ou na rebeldia estética de Azevedo contra as normas literárias de sua época. Essa liberdade, no entanto, é constantemente confrontada pelo peso das consequências trágicas, reforçando a dualidade entre o ideal e a realidade, característica fundamental do gótico. Assim, Azevedo contribui para a formação de um gótico brasileiro que, mesmo inspirado em autores como Byron e Hoffmann, dialoga com as inquietações de seu tempo e espaço. 

Contrariando as críticas literárias que veem Noite na Taverna apenas como uma cópia do gótico europeu, é fundamental reconhecer que, como França (2022) argumenta em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, a literatura do medo no Brasil não é uma mera reprodução, mas um campo fértil onde elementos locais e universais se entrelaçam, por meio de várias autoras e autores brasileiros. Esse entrelaçamento permite a coexistência de escritores que abordam questões mais regionais com aqueles que exploram reflexões de caráter mais universalistas. Azevedo se insere na segunda vertente, utilizando o gótico como uma ferramenta para discutir dilemas existenciais e globais, mas sem jamais se desligar totalmente do contexto brasileiro. 

Originalidade na Literatura de Azevedo  

A acusação de cópia frequentemente desconsidera que todo autor é, em maior ou menor medida, influenciado por tradições literárias. No caso de Azevedo, suas inspirações europeias são reinterpretadas à luz de sua realidade. A atmosfera decadente de Noite na Taverna, por exemplo, é permeada por um senso de tropicalidade melancólica, que, embora não explicitamente regional, não pode ser dissociada da psique de um jovem autor brasileiro do século XIX. Essa abordagem, ao invés de diminuir a obra, a insere em uma tradição estética literária global que reflete sobre as angústias humanas em diferentes contextos. 

Assim, Noite na Taverna merece ser lida como um marco do gótico brasileiro, uma obra que, ao integrar questões universais como a paixão e o desejo de liberdade com tensões sociais como o alcoolismo e a alienação, apresenta uma profundidade que vai além de imitações superficiais. A crítica literária, portanto, precisa revisitar esse texto com a abertura necessária para reconhecer sua complexidade e relevância no panorama literário brasileiro e internacional. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Viva eu descansarei

Condenei-me a viver entre paredes de concreto e pedra fria, quando minha mente queria fugir para as florestas, admirar a altura das árvores…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Condenei-me a viver entre paredes de concreto e pedra fria, quando minha mente queria fugir para as florestas, admirar a altura das árvores, respirar o ar puro, colher cogumelos e encher meus pulmões com seus esporos. Então fugi, caminhei descalça e senti, com meus pés, a maciez do musgo, enquanto o sol da manhã aquecia minhas costas. Ouvi a música dos corpos d'água, o canto dos pássaros, o rastejar lento dos insetos. E, quando me cansei, deitei-me na úmida terra, admirei o céu e me mimetizei com o verde e o marrom.

Apenas realizei a minha vontade de desaparecer na natureza e, quem sabe, nunca mais ser vista ou ouvida. E, com o tempo, fazer parte da natureza tão intrinsecamente que dificilmente saberão a diferença entre mim e ela, pois a ela eu pertenço. Deito na relva, contemplo a altura das árvores e observo o anoitecer lento, enchendo o céu de estrelas. Sinto que tudo é natureza, e eu sou da natureza. E entendo que o que importa acontece na quietude, na composição e decomposição do belo, na natureza efêmera do ser, na morte e no próximo nascer.

Ela vai me compor enquanto eu vou me decompondo, nos dias e nas noites que virão, na chuva e no calor alentador. Ela irá me aceitar e, do meu peito, farão nascer belas flores; dos meus olhos úmidos, cogumelos dos esporos que inalei. E assim, o musgo e a relva, como um cobertor reconfortante, aos poucos vão me cobrir. Então, eu me tornarei parte eternamente da natureza e ela de mim, e, quando a chuva cair para regar o solo e o sol iluminar as flores, assim, viva eu descansarei.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Sonuras de Áurea Lihran: Saudade

Aborom! Larajim d’esta manhã | Desponta a quint’essência de meu ser; | O frutossangue: mélica romã | D’arbórea que m’encanta a aquiescer;…

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Aborom! Larajim d’esta manhã 
Desponta a quint’essência de meu ser; 
O frutossangue: mélica romã 
D’arbórea que m’encanta a aquiescer; 

Aparta em lume doce o negr’oblívio 
Que assombra tal pupila ébria no céu 
De mórbido terror e horror sonívio… 
Abrigo em lanrinura, a noite-véu; 

Da morte d’idos ledos — falta fúnebre —  
Compr’ende o querer tanto um lhano lar? 
Ruínas, fogo-fátuo rubro e lúgubre 

Nas dunas, n’azul íris, no sonhar, 
Nos braços d’um demônio — meu ambíguo —  
Nos sais meus, lacrimais, elã exíguo 
E a frágil esperança a se abeirar. 

Palavra criada por Sara Melissa de Azevedo: Lanrinura (substantivo feminino poético): Languidez causada por uma introspecção acentuada. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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O Retrato

Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completava a pintura, e o transe finalmente…

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Com um movimento violento e preciso de minhas mãos, um arremesso de tinta laranja-abóbora na tela completara a pintura, e o transe finalmente terminava. Vivaz, espirituoso e, ao mesmo tempo, fúnebre, o retrato estava completo. Ele é a lembrança de um passado mais simples, um passado mais calmo, em que eu era eu mesmo. Que retrato, você me pergunta? Ora, o retrato da defunta, da decomposição, do que acontece com a carne morta quando vai ao chão. O retrato de minha mãe.

Ela morrera cinco outonos atrás. Terminei seu retrato meses depois. É assim que me lembro dela, é a imagem mais vívida que tenho, minha âncora em meio à tempestade da loucura. Lembro-me de seu corpo parcialmente devorado pelos vermes e dos fungos que crescem onde antes floresciam suas generosas pupilas. Penso nesse retrato com frequência. É a melhor memória que tenho de quem eu era e foi também assim que tudo isso, o que escrevo agora nessas páginas, começou.

Em nossa família, pintamos assim há gerações. Das abóboras, fazemos o pigmento alaranjado; das beterrabas, o vermelho-sangue; das hortaliças, o verde; do musgo, os tons mais escuros. Trazemos vida para a arte morta ao usar a própria vida. A vida decomposta, esmagada, misturada, transformada, morta, mas ainda assim viva. Esses são meus ingredientes; esses sempre foram nossos ingredientes. A morte traz para a tela o que um dia já foi, e dali em diante, eternamente será. É inebriante como conseguimos cristalizar o efêmero; é a nossa própria forma de honrar e dar vida eterna aos ingredientes que alimentam nossa arte — e, por extensão, nossa própria vida. Outrora, já fomos muitos, nosso sobrenome carregado por dezenas, sim, dezenas de receptáculos. Dezenas de pintores, de artistas, pessoas capazes de, assim como eu, eternamente capturar o que há de mais belo e mais transitório neste mundo: a vida.

Mesmo que hoje esteja sozinho, ainda sou muitos. A verdade é que o mundo seguiu em frente e nós ficamos. Cada vez menos primos tinham descendentes, tios que não encontravam tias, irmãs que morriam cedo; cólera, tísica, a ciência, a medicina, o progresso — cada um, um golpe em nossa família, em nossa vida. O mundo seguiu em frente, e eu sou o último.

Não há mais ninguém; somente eu conheço o segredo que vive em minha família há centenas de anos, talvez milhares. Um segredo lúgubre, laranja-carmesim. O segredo de que, para capturar a vida, é necessário também a morte. A mesma carne que alimenta os vegetais alimenta também nossas tintas: carne fresca, ossos, sangue e carne putrefata. Há incontáveis retratos de nossa família espalhados pelo mundo, todos feitos de acordo com a tradição: o corpo ancestral alimenta a própria tinta em um ciclo perpétuo de decomposição e arte.

É claro que não parei de pintar nesses últimos anos em que fui o único. Eu não poderia cessar a arte e deixá-la morrer, a arte que é a própria vida. A pulsação da vida precisava continuar. Mesmo não tendo mais corpos ancestrais, eu precisava pintar. Descobri que nem só de ancestrais se faz tinta — mas de qualquer um. Essa é a beleza da minha obra desde então: posso honrar qualquer pessoa. Qualquer um que seja digno pode ser cristalizado em arte — basta, é claro, que eu tenha acesso a seu corpo decomposto, a seu sangue putrefato, e à vida que cresce nutrida pelos seus restos. Criei muito mais nesses últimos cinco anos do que nos trinta que os antecederam, pois não preciso mais esperar o curso natural da vida. Posso, afinal, antecipar a morte. Basta querer. Basta fazer.

Foi por causa dessa descoberta e dessa prática que me perdi. Desconfio que não fui o primeiro de minha família a fazer tal descoberta — mas fui o primeiro de quem tive certeza. Hoje sei que não fui o único; há ecos de vidas passadas que habitam minha mente, dançam em meu consciente e se confundem com quem eu sou.

Há algo mais que preciso registrar nestas páginas: desde que pintei minha mãe, eu a escuto. Ela sussurra em meus pensamentos — e grita, algumas noites — conta-me verdades esquecidas. Mas mãezinha não é a única, não, é claro que não. Eu sei tanto sobre tantas pessoas, são tantas vozes... todas as pinturas, todos os retratos que pintei, estão mais vivos do que nunca. Os corpos se movem, as tintas tomam formas, se misturam e formam novas cores, as pinturas falam. Falam diretamente em meus pensamentos — e eu as escuto.

Mais do que escutar, eu me tornei outros. Com o passar dos anos, à medida que lentamente me perdia, acabei por esquecer quem eu era. Há tantas histórias, tantas famílias, tantas vidas interrompidas por minhas mãos, e que agora vivem pela minha mão, veem pelos meus olhos e são meus pensamentos. Não poderia lhe contar meu nome, pois ele se dissolveu em muitos. Não poderia lhe contar o nome de minha família, pois o sangue foi misturado.

Em meu desespero, há dois outonos, ofereci meu braço esquerdo ao jardim. E pintei. Pintei meu próprio braço — não um retrato, não, não. Nunca ousamos pintar um retrato de alguém vivo. Estremeço agora, mesmo amarrado, só de pensar nas possíveis consequências. Mas a verdade é que retomei um pouco mais de mim. Meu braço direito começou a se comportar mais como eu mesmo — mas os pensamentos, as vozes, a sabedoria e a existência, ah! Elas continuaram se misturando. Em um esforço de compreender melhor meu passado, passei então a retocar antigos retratos de meus antepassados com tintas frescas — tintas de outros corpos, tintas de outras pessoas.

Sou lembrado agora de uma doce, feliz memória: o dia em que ganhei meus pincéis das mãos ensanguentadas de minha mãe. Meu irmão acabara de nascer, e minha mãe me contou que eu teria a honra de pintá-lo. Nasceu natimorto. Foi uma noite feliz, e a lembrança me faz sorrir. Sou lembrado de outra memória: do dia em que dei meu primeiro beijo, anos depois de já ter ganhado meus pincéis. Um rapaz elegante visitava minha família querendo vender sementes para nosso jardim de rosas. Como era encantador... Espere. Rosas? Nós nunca tivemos um jardim de rosas. Enfurecido, reconheço que assim têm sido meus dias. Confusos, com memórias que são minhas e memórias que são minhas, mas não originalmente minhas. Vejo os quadros andando pela casa. Vejo meu avô cozinhando o almoço e me alimento da comida que ele preparou. Mas meu avô está morto há décadas. Fui eu quem cozinhou? Foi sua vida animada com poderes sobre a própria matéria, mesmo depois de morto? Não sei dizer. Mas meu pai limpava a casa enquanto eu comia.

Foi assim que pude, então, conhecer muito mais sobre nossa família; soube que não fui o primeiro a explorar retratos de fora da linhagem. Outros parentes ousados já o haviam feito, mas nunca tiveram os excelentes resultados que obtive. Fui o primeiro a misturar tinturas, fazendo com que o próprio sangue se misturasse. Nosso — meu — legado hoje se confunde com o legado de tantos outros. Sou pintor. Sou vendedor. Sou bailarina. Sou médico. Não, médico não. Médicos não compreendem a beleza da morte; prolongam, inutilmente, a efemeridade da vida. Eu posso cristalizá-la para todo o sempre.

A confusão me levou a continuar tentando, tentando conseguir voltar a ser único novamente. Mesmo que meu braço tenha se tornado meu novamente, mesmo que tenha continuado pintando, a confusão crescia. Precisava descobrir mais sobre quem eu era. Precisava saber. Foi então que ofereci, no outono passado, minhas pernas ao jardim e as pintei. Minha esperança era de que — pelo mesmo princípio da oposição que restaurou meu braço — a parte inferior de meu corpo restauraria a parte superior. Não foi o que aconteceu.

Hoje, é como se minhas pernas tivessem tomado vida própria. Pela primeira vez, não cristalizei um momento efêmero de vida, mas, sim, dei vida a uma pintura. Elas andam por aí, vagando; às vezes me trazem notícias, outras vezes somem por vários dias. Não as vejo, é claro, mas sei que vagam. Eu sei que andam com rumo e propósitos próprios. Nós sabemos. Meus pés vagantes nos contam segredos que descobrem. Às vezes estou aqui, mas estou também tão longe, tão distante, experimentando chãos sob os quais nunca pisei. Agora mesmo, enquanto escrevo estas páginas em uma noite fria, com lágrimas escorrendo de meus olhos, sinto — em ambas as minhas mãos — o chão úmido e convidativo do jardim onde plantamos, ansioso, aguardando o que está por vir. Mas sinto também a textura do veludo. Sedoso, leve, aquecido, das deliciosas roupas de cama onde minhas pernas se deitam com outrem. Somos tantos. Vivi mais vidas do que jamais pude imaginar. Deitei-me com mais pessoas do que jamais me deitaria se não fosse por minha arte. Por minha pintura. Sinto que descobri o verdadeiro significado de honrar a vida através da morte. Sou a própria materialização de tal honra, pois, através da morte, vivo — vivemos.

Estou perdido. Perdi-me em tal honra — por um lado, essa é a maior e mais intensa exploração da arte de minha família em séculos — meus antepassados me dizem o tempo todo. Suas vozes ecoam em minha mente, pedindo que eu continue e me incentivando a não desistir, implorando que não abandone minha família. Por outro lado, anseio ser eu novamente. Quero poder viver minha vida, descobrir coisas novas e não saber de coisas que não vivi. A angústia entre abandonar a tradição secular para ser eu mesmo ou continuar era tremenda. Preciso me libertar das memórias que não me pertencem, e por isso, decidi, há duas semanas, decidi. Eu precisava de uma saída, precisava voltar a ser eu mesmo, mas também precisava continuar com a arte. Era a única solução.

Cortei a madeira, comprei o aço, afiei a lâmina. Além de pintor, tornei-me carpinteiro. Trabalhei arduamente noite após noite e, nesse mesmo jardim, construí uma guilhotina. Minha própria guilhotina. A consciência de estar criando-a pesava em cada golpe do martelo. Sei que fui eu quem a construiu, sei que essa arte foi somente minha: as vozes gritavam em meus pensamentos a cada segundo em que trabalhei nela. Uma cacofonia ensurdecedora ocorria em minha mente enquanto meu braço trabalhava: “Não faça isso!”, “Pare imediatamente!”, “Você condenará sua família ao esquecimento!”, entre tantas outras advertências, ameaças e súplicas. Não dei ouvidos a nenhuma delas. Sei que estão enganadas. Quanto mais avançava, mais difícil ficava. Somente uma parte de mim não lutou contra o restante do meu corpo enquanto construía: minhas pernas. Não posso dizer o porquê com certeza, é claro. Mas desconfio que seja porque elas sabem que estaremos reunidos ao fim de tudo.

Em minha desesperada busca por mim mesmo, fui mais longe do que qualquer um de minha família já foi. Quebrei a última barreira esta noite: terminei meu próprio retrato. Completo. Ainda vivo. Pela primeira vez pintamos alguém a partir de seu corpo vivo e não putrefato. A profundidade dessa criação não posso ainda compreender, não sei mais quem sou, mas sei o que pintei. Sei que posso voltar a ser eu mesmo. Sei que posso ter minha própria vida.

Enquanto contemplo, agora, a lâmina brilhante sob a luz laranja da própria lua, percebo que o retrato não é apenas um reflexo de quem fui, mas também de quem posso me tornar. Preciso desfazer completamente a linha entre a vida e a arte, pois o que está por vir não é um fim, mas um recomeço. Meu coração, meus pulmões, meu torso, ali — aqui — está a vida. Ali está o ar que respiro, o sangue que percorre minhas veias — e a tela de meu retrato — ali estou eu.

Minha mente, no entanto, está tomada por todos os retratos que pintei e restaurei, por todas as outras vidas que interrompi e que vivi. Preciso separar eu de mim mesmo, para que possa novamente me tornar quem serei. Amarrei-me à guilhotina para que não fuja do meu próprio destino — não sei do que as vozes, meus pensamentos, seriam capazes nesses últimos minutos de suas vidas, enquanto escrevo minha própria história para mim mesmo.

É chegada a hora. Com a mesma mão com a qual registro essas últimas palavras, liberarei a lâmina que entregará minha cabeça — minha mente — ao jardim. Sei que somente assim meu corpo poderá seguir, sendo eu, apenas eu. Meu retrato será alimentado com o alimento que nascerá da minha cabeça, do jardim fertilizado novamente. E então, finalmente, serei eu novamente. Completo. Como arte. E o resto? O resto é sangue.

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Transcende

Quero ser parte da relva | Desconhecido pela brisa que passa | Ser parte do mar e navegar profundo | Constante como o vento de todas as estações | Aquele que roda o mundo…

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“Existe prazer nas matas densas
Existe êxtase na costa deserta
Existe convivência sem que haja intromissão
no mar profundo e música em seu ruído.
Ao homem não amo pouco, porém muito a
natureza.
”
Lord Byron

Quero ser parte da relva
Desconhecido pela brisa que passa
Ser parte do mar e navegar profundo
Constante como o vento de todas as estações
Aquele que roda o mundo
Diminui o ritmo para ver a chegada do verão
Passeia na neve do inverno sem tremer de frio
Permeia ruas barulhentas sem se incomodar

Quero ser como o voo azul das aves
Pintando de aquarela um lago luminoso
O brilho que soa orquestra
Uma árvore que dá balanços sem crianças
Uma gota d'água e finalmente descer a cachoeira
Um raio de sol já na atmosfera
Tocando a superfície fina e dura de uma rocha
Como um carinho
Queria ser campo, deitado, sem finalidade
Queria ser chão melado do amarelo de mangas caídas

Quase tudo que é belo ainda está livre das mãos
Pedaços de vidro como a imagem do céu
Nuvens que cuidam do vento
Ventos que cuidam das águas
Águas que dormem na terra
A terra que habita espíritos
Espíritos que suportam os corpos.

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Entre Estações

Na meia estação, entre a primavera e o verão, | há um sussurro quase imperceptível, | talvez seja o respirar das folhas que se preparam | para a chegada do calor…

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Na meia estação, entre a primavera e o verão,
há um sussurro quase imperceptível,
talvez seja o respirar das folhas que se preparam
para a chegada do calor,
mas ainda sentem o frio da estação passada.
Nesse limiar, os dias, embora mais longos,
carregam o peso de uma oculta melancolia.

As árvores se vestem de verde
e o céu começa a queimar lentamente,
e desta forma a natureza quase hesitante,
teme o futuro que a aguarda.
Os ventos carregam sussurros de mudança,
e também uma memória que se recusa a morrer.

E assim somos nós,
presos nesse limbo entre a promessa e o esquecimento.
O calor da juventude se esvai
como as flores murchas aos pés de um jardim esquecido,
e, no entanto, ainda há vida,
ainda há esperança, pois, sementes ainda caem,
mesmo sabendo que o ciclo vai se repetir.

A meia estação é a metáfora perfeita para o humano,
para quem vive sempre no limite,
entre o que sonhou e o que alcançou,
entre o sorriso que se foi e as rugas que agora aparecem.
Como a natureza,
somos escravos de ciclos invisíveis,
presos em um tempo que não nos pertence,
mas sim ao eterno agora,
um instante suspenso onde tudo parece estar por vir,
mas onde tudo já começou a desvanecer. 

Os campos, antes verdes,
agora são salpicados de tons que prenunciam
o dourado da morte lenta,
e nós, caminhamos por esses campos,
sentindo o peso do que fomos,
o desejo de ainda ser mais,
mas com medo de sucumbir ao calor do destino
que se aproxima com o sol a pino. 

O verão que está chegando é o fim de uma era,
um momento de plenitude que traz consigo
o fardo inevitável da decadência.
Cada passo que damos é uma lembrança de que,
assim como a flor que desabrocha,
também murchamos com o tempo,
a beleza dá lugar ao desgaste,
o vigor à fragilidade que nos aguarda. 

Na meia estação, nos olhamos no espelho
e vemos os traços de uma primavera que já passou,
mas que nunca nos deixou por completo.
É nesse ponto de transição,
que encontramos nossa verdade,
somos tanto o nascer, quanto o murchar,
tanto a promessa, quanto o fim.
E, mesmo assim, ainda caminhamos,
ainda sentimos o vento suave
que, por um breve momento, nos lembra
que existimos entre o tudo e o nada.

E talvez seja isso que nos define,
a meia estação da vida,
onde não somos totalmente jovens
nem completamente velhos,
onde nossos sonhos ainda florescem,
mesmo sabendo que o verão
não tarda a chegar,
com sua luz e suas sombras profundas.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Raízes de Vida e Morte

No silêncio de uma floresta esquecida,
Onde o musgo cresce entre segredos antigos,
Uma mulher vaga, solitária, perdida,
Com seu olhar buscando a verdade em vestígios.

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No silêncio de uma floresta esquecida,
Onde o musgo cresce entre segredos antigos,
Uma mulher vaga, solitária, perdida,
Com seu olhar buscando a verdade em vestígios.

O verde da floresta a envolve, denso e profundo,
Como um véu de esperança e também de inquietação,
Cada folha é como uma palavra, cada tronco um mundo,
Murmúrios de uma vida, a decadência de sua existência.

O verde cresce em sua mente de uma forma sutil,
Como promessas de vida que brotam em terra árida,
Mas logo a cor se transmuta em um sentimento hostil,
Que queima sua alma de uma forma violenta, ávida.

Raízes enlaçam seus pés e suas mãos,
Como se fossem correntes de um destino cruel,
O verde, que antes era promessa e vida,
Agora a aprisiona, um manto de fel.

Seu corpo se funde à terra escura,
Carne e folha, sangue e seiva misturados,
O verde que outrora fora a cura,
É agora veneno, destinos trocados.

A decadência se instala, lenta,
Como um outono sem fim, sem retorno,
A mulher se torna parte da floresta,
Um espectro verde em eterno abandono.

Na escuridão da mata, ela jaz,
Um eco de vida que se perdeu,
O verde, quem um dia foi paz,
É agora a cor da mulher que morreu.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Artemísia

A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A pressão rompe o silêncio na madrugada 
Vibra o éter como música e ressoa 
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada  
Cadente, nos ouvidos desta pessoa  

Aos poucos me vem memoráveis momentos 
Que longe vai o meu pensar 
Reavive voraz a figura e me revira o intento 
Faltava a substância de alucinar  

Aquela do verde frasco deixado na prateleira 
Insiste, ainda que eu queira, 
No convite para expirar os vapores novamente 
Doces ilusões inspiradas na mente…  

Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro, 
Contra a janela fumaça e nevoeiro, 
E o perfume se expande neste cômodo lugar 
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro 
E subitamente se espalhasse pelo ar  

Descomedido, fui além do que posso aguentar 
Oito taças me arrisquei ingerir 
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar 
Para no último gole então descobrir  

Materializava um corpo bem onde eu estava 
A forma feminina a dançar em minha fronte 
Mais derretido e sombrio eu ficava  
Como se um riacho desaguasse no aqueronte 
Sufocado eu pedia uma fonte de água 
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido 
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido 
Restou apenas um misto de todos os sentimentos 
De todos os vapores, emplastros e unguentos 
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.  
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.  

Era um ideal, enfim entendi 
Algo que estava em mim, mas não em você 
E deixei-me jogado naquela cadeira 
Sem me preocupar se havia um porquê 
Fiquei contemplando o corpo despido 
Por baixo da transparência daquele vestido 
Eu dançava com os olhos, da minha maneira   

Será que é sólida para que eu a abrace firmemente? 
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde  
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé 
Tem forma, tem corpo e tem face 
E todos eles pertencem a você. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa
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Promessas Vazias

Você me disse que eu teria um final feliz | Que haveria flores sobre mim | Que sobre à terra eu iria descansada permanecer | E que você não se esqueceria...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Você me disse que eu teria um final feliz
Que haveria flores sobre mim
Que sobre à terra eu iria descansada permanecer
E que você não se esqueceria de sempre ir me ver
E ficar feliz por mim
Pelo meu merecido descanso
Estou pacientemente aqui deitada
Esperando tu Morte, porém sem sorte
Mais uma vez não veio me visitar
Isso tem se tornado entediante
Esse sofrimento constante de te esperar
Você que me garantiu que logo viria
E com isso já vivi mais do que deveria
Porque tudo não passou de promessas vazias. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Matinal

O cheiro do café e a saliva no canto da boca | É verde manhã que se vê da janela | Paisagem de folhas roçando | E o silvo nos galhos os ventos balançam...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O cheiro do café e a saliva no canto da boca
É verde manhã que se vê da janela
Paisagem de folhas roçando
E o silvo nos galhos os ventos balançam
Numa sinfonia matinal um baile de insetos que dançam
Decompondo restos mortais  

Lá fora, despedidas, beijo na boca e automóveis desfilam operários
O concreto racha e sucumbe às raízes
Floresce um amanhecer jardim neste fabulário 

De vida e de morte  

E na memória viva da noite passada
Madrugada adentro os dois estavam
Descrevendo as partes de suas próprias naturezas 

Agora, é alvorecer do verde manhã se
Estendo ao azul céu
São as folhas das árvores que se desprendem e voam; 

Aqui, etéreo é o cheiro do café, das salivas e da danação matinal
Os gatos regressam pra casa;
O lixo se detém nas calçadas;
Damos um trago na xícara e
Respiramos o ar marginal.

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Dissoluções

Desfalecem os sonhos | Que sucumbem à incompleteza | Em grandes ondas, | No profundo mar da inconstância | Naufraga impotente a nau da incerteza…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Desfalecem os sonhos
Que sucumbem à incompleteza
Em grandes ondas,
No profundo mar da inconstância
Naufraga impotente a nau da incerteza
Agoniza o sonho de vil substância

Dissolve nas águas como um papel delicado
O frágil objeto de laços estreitos
Carregando fragmentos de sonhos desfeitos
Nas fluidas correntes do mar agitado
Leva o coração de um sonhador acordado
Até, por fim, encontrar no éter defeitos 

Há um doido a nadar nestas águas
No licor de negrume do fosco luar
Se debatendo entre velhas resíduas
Golpeia a superfície escura do mar.
Luta valente com golpes fantásticos
E a lua aberta, mãe dos lunáticos,
Severa assiste seu filho afogar

Que salvem ele, ó navegantes!
Tirem ele deste mar de espinhos!
Mas se for para que volte a ser como antes
Deixemos então que se mate sozinho!

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa
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Tempus Fugit III

Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão? …

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alguém verá esta noite, que estrelada, 
A sós vislumbro em toda a imensidão? 
E mesmo que a perceba agraciada 
Compreende seu sabor de solidão? 

Alguém, sentindo a aragem tão sutil, 
Enquanto a escuridão é mui soturna, 
Talvez encontre lá, sentidos mil, 
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna... 

Ó, quanta vastidão, do firmamento, 
Assombra, pois, infinitesimal, 
Mui faz do meu haver — triste relento; 

Soterro-me em vazio adagial... 
— O sopro d’uma vida passadiça — 
Andar errante à sombra fronteiriça 
Das horas no relógio arterial. 

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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