Cantos de Magöhorror
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Canto I
As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.
Canto II
Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca.
Canto III
Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo.
Canto IV
Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas.
Canto V
Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar.
Canto VI
Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte.
Canto VII
Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Clamor dos Filhos da Noite
Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vede agora os que têm sede de sangue,
Não da água salina ou da doce corrente,
Mas do carmesim puro que a luxúria condena;
Estes possuem, em seus mortos peitos,
Algo além do saudosismo da vida humana:
Um clamor masoquista, um culto ao impossível,
Ídolos de sombra que a luz seduz e fere,
Vampiros que emergem sob o azulíneo.
Impedidos de serem tocados pelo Sol,
Pelas próprias fantasias são julgados;
Desejos oprimidos que jamais revelam,
Seres das trevas que o dia bendizem;
Pois o que vale a imortalidade fria
Diante do aquecer do Astro inigualável?
O Sol, vilão senciente, o alvo do desejo,
Destrói a escuridão que lhes serve de berço.
Nas margens do Magöhorror eles se prostram,
Banhados pelo brilho que a água esparge,
Buscando no reflexo a quentura do ouro
Que em suas peles seria o fim absoluto.
É a nostalgia do que jamais lhes pertencera,
O blues melancólico de uma noite frígida,
Onde o brilho de um outrora inalcançável
Torna a eternidade um fardo pesado.
Se o azulíneo da morte é o palco eterno,
Onde zumbis bebem o próprio pranto,
O vampiro é o verso de um sonho invertido:
Ama o carrasco que o reduz a cinzas.
Assim se desvela o existir em Irihria,
Entre a bioluminescência da efemeridade
E a busca da luz que, ao mesmo tempo,
É a suprema cura e a morte derradeira.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sepulcral
Um beijo sepulcral na testa dada ao frio | Mais descoberta que a vida fora dos rumores | Um beijo traz imagens das carícias e das dores | Da vida gélida de um alguém sem brio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um beijo sepulcral na testa dada ao frio
Mais descoberta que a vida fora dos rumores
Um beijo traz imagens das carícias e das dores
Da vida gélida de um alguém sem brio
Não estava o céu como num poema de anil
Naquele dia de dúvidas e temores
Quando no copo de veneno goles dos odores
Desciam. Tomando o último soneto, partiu
Morte breve, sem amigos por escolha sua
Morreu bêbado com uma pena atravessada ao peito
Desfez as malas: um papel e rabiscos
Jogou com a morte paciência à luz da lua
Perdeu naquilo que nunca tinha feito
Bebeu por último o último dos seus vícios.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Crê
Crê em mim, filho da vergonha | Crê em mim, sou o senhor do inferno | Sombrio e distante como útero materno | São os tempos loucos e ninguém mais sonha…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Crê em mim, filho da vergonha
Crê em mim, sou o senhor do inferno
Sombrio e distante como útero materno
São os tempos loucos e ninguém mais sonha
Sombra em torno de nós, medonha
Reza para mim homens! De joelhos!
Ovelhas adestradas, ouvem meus conselhos
“Segue o Mito, renegue a verdade, enfadonha”
Sede ingrato, maldito e sincero
Sedes o mal agouro do desterro
Ser atribulado com os ruídos de uma guerra
Oh! Ninguém mais vê e nem sente o desespero
A dor do poeta tecendo um erro
Anunciando Mefistófeles a pairar sobre a terra.
Tiago Serigy
Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Vazio
Foi-se um baile há muitas conjunturas | Que ainda ressoam lúgubres histórias | Muita gente, muitas memórias | De amores, sonhos tolos, vãs loucuras…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Foi-se um baile há muitas conjunturas
Que ainda ressoam lúgubres histórias
Muita gente, muitas memórias
De amores, sonhos tolos, vãs loucuras
Risos de chamas e cabelos negros
Olhos serpenteiam, riscos nos lábios
Ninguém se conhece, nem os larápios
Beijos furtados de vinho... Byron... gregos
Resta um baile de máscaras sombrio
Visitantes... então o salão vazio
Apenas fantasmas que ainda rondam
Bebendo de gota em gota se esgota
Presente, passado e futuro findam
Velando ao anfitrião da vida morta.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
A Vingança
Sinopse: Uma morte por envenenamento é causada durante o banquete de Aborom e agora todos os convivas, em especial o Detetive, precisam descobrir quem é o assassino.
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A Vingança: Envenenamento
Pupila-lua ao céu mui laranjim,
Crepúsculo de lânguido calor,
Servido Funghi ao Creme-Galarim
E à mesa estão os convivas em horror;
“Alguém envenenara Dom Mortez!
Ninguém, este recinto, deixará!
E traga-os, da cozinha, de uma vez!”
— Dissera — “O culpado expor-se-á!”
A noite s'inclinava umedecida;
“Que o réu revele agora o assassinato!”
De súbito — as velas — distorcidas,
A chama pontiaguda, o breu-regato
De mórbido ar regélido e terrível;
Anae Mortez: “Que olor tão putrescível!”
O espírito sibila: “Vizir... rato...”
~ ❦ ~
A Vingança: Verdades
Um rasgo em sua garganta. Anae, o fim...
Uníssono de assombro enlouquecido,
E Correm todos, gritos e motim,
Enquanto Nohn ofende o seu cupido;
O sangue em flúmen, ela apodrecendo...
“Amava-te, mi'a Anae...” — Silêncio horrente,
O bravo detetive estremecendo...
“Nohn, casa-te comigo...” — a voz pruriente;
Os olhos esgazeados, puro medo;
Anae aos braços dele: decomposta,
Sorrindo lhe revela um vil segredo:
“Vindita aos imorais Mortez, exposta
Está toda a verdade no porão...”
Mil corpos esfolados, que aflição!
O caldo especial da Sopa à Tosta.
~ ❦ ~
A Vingança: Descoberta
Nohn vira Anae pútrida e possuída,
A morta co'a verdade que confessa
Que a vil família, em peso, era homicida
E o cárcere, o porão… Nohn logo apressa:
“Chamai-vos a polícia… que já basta…
Amá-la foi um erro, e eu sempre soube…
Seus olhos âmbar, doces, alma casta…
À mala, meu ser tolo, mui bem coube”;
Cuidavam das perversas evidências,
Convivas abalados, decadentes…
“Fantasma vingativo? Que ocorrência!” —
Dissera alguém p'ra outrem, pouco descrente,
Até que viram, pois, cadáver-Dinho
“Receita, Sopa à Tosta " em pergaminho.
Virara, o cozinheiro, o ingrediente.
~ ❦ ~
A Vingança: Razões
“Querido Vizir Dinho, traga a janta!”
— Dissera Luhna — “Há fome a me atingir!”;
“Grã-mestre dos sabores! Anae, canta!”
À mesa pôs-se o pão para cerzir;
“Qoe santhis dorvirmor devatte ziinm”
Cantara enquanto a sopa era servida,
Porém, no degustar, pleno festim,
Mortez, o Dom, presença requerida;
Estranha carta entregue, sugerindo
Que Dinho era um covarde traidor:
Mudara a grã-receita, confundindo.
“Sabia!” — Vociferara o Dom, no agror.
Então desembainhada a adaga — Morte!
Vizir sangrara à sopa, pouca sorte,
“Ó rato! Morra agora, opositor!”.
~ ❦ ~
A Vingança: Receita (Final)
Colha alguma abóbora vistosa,
Marine ao sangue fresco d'um infante,
Prepare o moedor que, para a Tosta,
Precisa pó de ossos de gestante;
Cuidado para o ponto, ponha sal!
Na massa da torrada vai farinha;
À sopa: um limão, uma dorsal,
Tomates frescos, mel e pimentinha -
Com alho, o creme-queijo, abundante,
Afogue a manjerona e as nove línguas
Enquanto ao forno as tostas. Fascinante!
Polvilhe a seca tez, não tenha mínguas!
E sirva com liquor de olhos castanhos;
Os crânios de bebês têm bom tamanho,
São belas cumbuquinhas ou morínguas.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Sonuras”:
Soneto do Horror
Nas sombras dançam ecos de terror | Sussurro tenso e frio pela parede | Do espelho veja a morte — que horror! | Que bebe do meu sangue em muita sede…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Nas sombras dançam ecos de terror
Sussurro tenso e frio pela parede
Do espelho veja a morte — que horror!
Que bebe do meu sangue em muita sede
Assombração que ronda tal lamento
Gargalham vozes tais, tão traiçoeiras
As velas que se apagam com tormento
Do próprio fogo e sangue são herdeiras
Sorriso desenhado no lençol
Em sangue, pele, carne e teu suor
Que embala o pesadelo noite afora
Já chega da tortura tão cortês
Vos rogo, me atormentem d’uma vez
À morte digo: “Olá, me leve embora”.
Leia mais em “Sonetos”
Levante de Halloween
A escuridão se avoluma, | sob sua luz escaldante. | Hoje, a Lua é Sol, | e o Sol se veste de noite. | Brilha como o próprio Sol, | seu açoite é abrasante. | Minh ‘alma se acostuma…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A escuridão se avoluma,
sob sua luz escaldante.
Hoje, a Lua é Sol,
e o Sol se veste de noite.
Brilha como o próprio Sol,
seu açoite é abrasante.
Minh’alma se acostuma,
mira ossos caminhantes.
São vultos em brasas!
Folhas de outono a queimar...
Abóboras laranjas,
velas a incendiar
Saem das sepulturas,
os mortos a vagar.
Suas formas, impuras,
vêm os vivos abocanhar.
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…