Prólogo: Desperta

Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Quão amarga é a solidão do silêncio absoluto, o abismo que sangra em palavras mortas. Meus olhos fitam meu retorno, e de repente vejo o nascer das trevas em meu peito, a poesia da escuridão ao lado do horizonte noturno. O espírito da finitude não beija meus lábios, de alguma forma eu sei disso. Despertei pela fresta de luz de um luar brando e vívido. Lembrei-me dos caminhos que fiz pelos sonhos mais frígidos e sei que atravessei cordilheiras distantes e precipícios símeis aos pélagos úmidos e aos arvoredos orvalhados.

A poeira ao redor sobre os lençóis de cetim escarlate, o espelho embaçado, as teias tecidas com esmero pelas aracnídeas cuja natureza é fascinante e silente. Estou acordada. O mundo humano ainda é o mesmo? A lua ainda reside no firmamento, embora as estrelas aparentem estar muito mais distantes do que outrora. Apoio-me no balaústre da varanda, quão alta esta torre se faz… posso ver o abismo e todos os pinheiros negros ao redor, junto à parte do castelo que está tomado por neve e galhos secos, sinto — enquanto estremeço — a brisa internamente densa em sua gélida composição. É inverno. Pela palidez que cai a neve em lentidão, não tenho dúvidas que estou no ápice da estação mais frígida. Quantos anos se passaram? Por que não envelheci?

Não ouço nada além do sibilar mórbido da aragem estonteante, e dos corvos a crocitarem tristes vez ou outra. Tenho pouquíssimas memórias, sinto-me como n’um nascimento prematuro, ainda entranhada em reminiscências do ventre em suas sombras, calidez e sons imprecisos, nada mais. Ainda não me fiz destrancar este umbral que me separa dos recônditos obscuros d’este lugar, pois temo — eis a razão desoladora. Do fogo que acendi na lareira umedecida, emergiu-me uma imagem efêmera de olhos escarlate e uma intensa dor em minh’alma, então senti minhas pálpebras estafantes, adormeci serena e lôbrega nos braços de alguém que não me lembro o semblante. Agora escrevo, porque posso não sentir a vida ebulir em minhas veias, mas sinto as mais fúnebres emoções que a ela pertencem.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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Conjuntra

Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro. A cor de antes não se faz tão presente. Algo me diz que…

—Miau

— Jason querido, estou indo!

Tiramos quase todos os quadros possíveis em busca de alguma pista e agora o Jason, de frente para este quadro com o número quatro escrito envolto de rosas negras com uma serpente abocanhando o algarismo, me convida a abrir a maçaneta e entrar no oculto que eu tanto esperava. 

— Miau

Jason me leva até algo.

Mal entrei no quarto para analisar tudo ao meu redor com calma, e já me deparo com um diário que muito me assusta, pois está datado em um ano muito distante do que estamos. 

Quem será a dona destas palavras tão solitárias? Ela já teve acesso ao anfitrião? Será que ela ainda está viva? 

Benquisto amigo. 

Admito minha insanidade ao crer na necessidade de oferecer-lhe o meu perdão, uma vez que és um ser inanimado, incapaz de ouvir-me ou sentir quaisquer sentimentos a respeito de minha terrível desatenção. A despeito disto, não devia tê-lo abandonado sobre a antiga arca no interior da sala de jantar, porém não controlei o impulso de atrair-me pela vista do antigo poço do pátio interno à luz do dia, envolto à neve nobre e alva, assentado sobre o pátio delicadamente. Sinto-me cada dia mais alheia e enfraquecida. Não usarei minha fraqueza como desculpa.

Penalizo-me por nossos segredos íntimos serem decodificados por uma figura masculina desconhecida. Pouco importa para mim sua origem, no entanto admito sentir o impulso de esbofeteá-lo no momento em que seus dedos tocaram sua encadernação e os óculos deslizaram em direção ao nariz assim que a respiração alcançou as páginas, embora, caso minha falha não fosse certa, descobriria não só o bisbilhoteiro como tantos outros embaixo do mesmo teto, como a mulher pálida de longos cachos cobres e seu gato, ambos sorrateiros como eu, escondidos nas sombras. Gostaria de poder conhecê-los, porém escondo-me em meu quarto por detestar quaisquer interações sociais.”

Me sento na cama para mergulhar ainda mais nessa evidência. Não consigo discernir muito bem os segredos dessa moça cujo nome parece ser Astrid, talvez ela tenha tido grande relevância para o aristocrata e poderia nos ajudar a encontrar as vozes que circulam no castelo. 

Bisbilhotei ao máximo o diário, indo contra a minha vontade e me entregando na curiosidade de encontrar outra pessoa nesse castelo. Levantei-me da cama e já ia anotar no meu diário os acontecimentos, quando sinto um cheiro gostoso. O único alimento para esse corpo em que habito. Eis que me deparo com uma jovem atônita entrando no quarto, aparência jovial assim como minhas amigas de Fortaleza. Os cabelos cacheados, morena e…

— Jason!

— Miau!

— Meu amor, tenha cautela, preciso de sua ajuda neste momento, lembra de tudo o que conversamos. Estamos distantes de casa e precisamos ter calma, esconde essas presas agora.

Jason escondeu as presas e as garras, atendendo fielmente aos meus pedidos. Ele, vez ou outra, desperta um lado mais aguçado do vampirismo. Acredito que seja por ele ser um animal. Ainda estou aprendendo sobre tudo isso.

— Olá! Não tenha medo. Ele estava apenas sendo territorial. Chamo-me Maria e ele Jason, como já deve ter percebido. Como se chama?

Pergunto para a moça que está prestes a fugir. A jovem mulher quase despenca ao lado da cama, parece enfraquecida, meço a temperatura dela, porém ela se afasta bruscamente, provavelmente sentiu o quanto minha temperatura é diferente das demais pessoas, por eu ser uma vampira.

— És um dos moradores do castelo, estou certa?

Ela me questiona com um tom de voz arrastado.

— Não me considero bem uma moradora, sinto que estou apenas de passagem. Peço desculpas novamente pelo Jason, estávamos à procura do anfitrião e do diário que acabei encontrando… Aliás, você é Astrid?

Acho impossível que essa mulher tenha vivido anos sem ser uma vampira. Porém, não custa nada perguntar.

— É bom olhar para um rosto sob a claridade, não como vultos encobertos nas sombras. Sou Astrid Lencastre Mascarenhas.

 Respondeu ela, massageando os pulsos de veias azuis salientes.

— Estamos em uma década diferente da qual está nas anotações do seu diário, Astrid. Hoje em dia temos uma tecnologia mais avançada e que as mulheres têm mais liberdade de escolha. Ainda falta muito a ser melhorado, mas posso te ajudar se quiser entender um pouco mais. Pergunto-me como viveu todos esses anos trancafiada neste lugar assombroso, sem se deparar com criaturas que vagueiam pela noite à procura de um pescoço para abocanhar. Tens noção que o anfitrião é um dos vampiros mais antigos?

Fico a pensar como ela, com essa aparência tão jovem, tem vivido aqui por todos esses anos sem se tornar a presa de alguma criatura do anfitrião. Será que ela é alguém tão importante para ele? Preciso descobrir mais detalhes e assim poderei entender melhor o que neste castelo me aguarda.

— Papai, e o meu colégio...   

Respondeu Astrid levando a mão a boca,  interrompendo sua frase, chocada com a notícia da passagem do tempo e da inexistência de pessoas do seu passado.* (Acrescentei)

— Já não existem mais!

Respondi confirmando seu maior temor 

— Não estou pronta para ponderar a respeito. 

A jovem mulher deixa o olhar vagar pela janela em busca de consolo na paisagem exterior.

— Eu escutei algumas vozes no castelo, mas não me atrevi a procurar outras pessoas senão o anfitrião.

Dei outro rumo ao assunto afim de dissipar a névoa melancólica que estava prestes a nos afastar.

— Eu a vi, ocorreu-me sobre sua necessidade de esconder-se, como eu. Não estou aqui por vontade própria, como sabes. 

Ela aponta os dedos pequenos e pálidos em direção ao encadernado aberto sobre a cama. 

— Não conheço o anfitrião, ele e seu estranho advogado, embora o tenha visto poucas vezes, geralmente pela noite, acredito que papai o tenha pedido para aterrorizar-me com suas estranhezas após... 

— Quanto tempo você acreditava estar aqui, Astrid?

— Não compreendo parte do que vem ocorrendo e nada sei sobre o tempo, sinto-me ainda presa ao pesadelo remoto, justamente o qual venho vivenciando dias após dias.

— Entendo.

— Sonhas, Maria? Não sei discernir meus sonhos, ou melhor, pesadelos, desde minha estada neste castelo. Quando sonho vejo um relógio incrustado em ametistas, repousa ao meu lado, neste leito, embora eu o tenha abandonado anteriormente. Eu o aprecio e pouco me espanto no momento em que se transforma em uma obra de arte composta por ametistas rubras como o sumo da vida corrente em minhas veias, porém o rubro verte-se por todo o leito, emporcalhando a chemise em demasia, mesmo eu torno-me pegajosa e vermelha, e o sonho parece-me uma lembrança, uma lembrança ruim, a qual já não posso revelar. No fim, penso despertar, porém ainda estou presa ao sangue, mergulhada, e não mais no vermelho de outrora, agora a cor torna-se escura. Envolta ao plasma sangrento e viscoso, alcanço meu relógio de algibeira ao lado, e ao pousar meus olhos sobre ele, deixando a marca de minha impureza gosmenta e escorregadia, o dispositivo move os ponteiros freneticamente ao mesmo tempo em que o sino da catedral próxima, badala teimosamente quatro vezes. 

Revelou Astrid. 

— Bom, faz algum tempo que não tenho sonhos no meu leito, almejo muitas coisas, as quais minha alma gélida de alguma forma preenche o buraco que ficou quando a minha vida mudou drasticamente. Agora que você citou esse sonho, preciso te dizer, que ao entrar neste quarto, me deparei com um quadro com uma serpente e o algarismo quatro envolto de rosas negras, estas rosas para mim remetem a morte e nisso eu tenho experiência de sobra. Precisamos encontrar esse relógio, sinto que ele irá nos levar até as vozes e talvez até onde um certo aroma tem me inebriado desde que fui corrompida por uma sala violeta. 

Expliquei a Astrid.

— Sei onde está o relógio incrustado em ametista.

Sinto certa surpresa por Astrid esconder essa informação durante todo o nosso encontro e me pergunto se seria muito intrometida em pedir sua ajuda para encontrar o objeto. *

— Por que nós três não saímos em busca das respostas?

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de abril de 2024. → Ler edição completa
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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte

Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…

Criado para o Castelo Drácula com Midjourney

Diário de Rute Fasano

12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.

Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.

13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.

Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:

— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?

Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.

O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.

Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.

Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.

Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.

Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.

Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.

As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.

Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.

Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.

P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar. 

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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A Morte Ecoa

Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada…

Naman Sood

Morte. É o que parece gritar irônico e suave aos meus ouvidos. A culpa grita... O sangue vertido das entranhas minhas, a flecha lançada. O corpo em cima do meu. O peso másculo e doloroso. A força que necessitei fazer para aquilo — ser inumano —, sair de cima de mim. Somente o encaro pela necessidade de conferir se ele estava mesmo morto. Se não fosse a minha lança, quem estaria morta seria eu. Mas estou. Morta por dentro.

Os olhos dele estão fechados, entretanto não há coragem da minha parte em aproximar-me e conferir se ele ainda respira. Eu choro — estava fraca, fraca de tanto lutar contra ele. Por que tua pele alvacenta bronzeada me feriu, por quê? Por que eu? Penso demais, enquanto olho aquele corpo ali, enquanto um fio de sangue passeia pacientemente doído e quente pelo interior de uma coxa minha. As entranhas ardem. Mas não dá tempo de chorar de dor agora.

— Eu o matei? — Vejo a lança cravada em seu peito, antes, com tantas perfurações profundas. Posso ser frágil intimamente, mas a minha força braçal não é brincadeira.

 — Preciso fugir. Agora. — Penso. — Se ele acorda eu estaria condenada, ainda que ele também fosse até ser pego. Eu seria perseguida. Mas em um ato de coragem, me aproximo, 'inda distante, e puxo a lança dele. Nesse momento os seus olhos abrem grandiosos e a sua mão voa em direção ao meu tornozelo, o firmando. Eu grito!

Desperto, gritante, suada e chorosa. Não, ele não puxou o meu tornozelo, deu tempo de fugir e ele morreu, morreu... Tranquilizo a mim mesma. O pesadelo sempre me persegue. Pesadelo de uma cena real. Mas a sua mão parece tocar-me ainda. Sinto-me enojada como se tivesse acontecido hoje o ocorrido. Não posso assustar os residentes daqui assim, não posso... Mas sossego-me, respirando fundo. Onde estariam as governantas deste lugar neste momento? Preciso de ajuda. Preciso acalmar-me.

Lembro-me do banho doloroso que tomei no rio. A água lavou-me completamente, pele por pele. Os meus olhos fechados tentavam ver alguma esperança em continuar vivendo. Enterrei a lança em um lugar próximo. Jamais a usaria novamente. Assassina. Nauärah, assassina. A voz desconhecida ecoa em meus ouvidos. Mas ecoa também a violação que o meu corpo sofreu, antes de eu conseguir ceifar a sua vida. Espero eu que ele não tenha sobrevivido. Ou ele estaria sempre à espreita, me esquinando, me industriando por onde eu passar, para vingar-se... ou matar-me.

Dez anos... dez anos e nada esqueci. Nunca soube dele. Deve ter morrido com aquela lança que fora consagrada pelo nosso líder. O triste é que toda a sua geração foi amaldiçoada. Eles não têm culpa. Mas a alma do alvacento que me agradeça. Se ele sai vivo, eu não quero imaginar o rito diabólico que fariam com seu corpo. Das primeiras torturas até a entrega da sua carne aos animais da selva.

Paro de lembrar de dores e aconchego-me ao dossel que me acolhe, adormecendo. Não estou sozinha, sinto. E as presenças, por mais obscuras que eu possa sentir neste recinto cheio de mistério, são também dos meus protetores, visíveis e invisíveis.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa
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Devaneios

É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

É inevitável negar a mudança em mim. Não somente mais bonita e sagaz, mas mais inspirada também. Sinto meu corpo tão frio e ao mesmo tempo tão vivo. Sei que beira a insanidade, mas me delicio com cada gesto que faço ou toque que sinto em minha pele. A sensibilidade é imensa e igualmente prazerosa, fato esse que me manteve ocupada com Malus, explorando as novas sensações e necessidades.

Tenho sonhado com mais frequência, mesmo acordada. Alucinada, talvez. Suponho que tenha alguma ligação com o sangue azul de outrora. Mas não há sobre o que me queixar. O Conde Drácula me deu as boas-vindas pessoalmente. Um tanto fantasmagórico, concordo, mas foi uma noite memorável. Sedutor, cordial e erudito como ninguém, me fez ansiar por colocar no papel as palavras que imploram por saírem de mim.

Não sei dizer quanto tempo faz que não escrevo em meu diário, meu pobre amigo que por diversas vezes foi testemunha das minhas alegrias e tristezas. Provavelmente deve ter sido descartado após minha partida. Ainda absorta em lembranças, apanho meu novo companheiro de escrita, deixado por Malus como presente em minha escrivaninha, e começo o registro de minha jornada até aqui.

Poderia lamentar a perda de meus antigos poemas, mas a memória é uma dádiva, eis que deixo aqui um dos primeiros que escrevi, enquanto me deslumbrava com a Lua de Sangue.

Seu brilho mortal
Enche minha alma de esperança.
Nas noites
Você reina,
Solitária e autoritária,
Radiante, pálida e fria.
Como desejei ser como você,
Com inigualável beleza,
Lua de Sangue.

Muito eu ouvi falar do paraíso. De como as pessoas almejam ir para lá. Cá onde estou é deveras temido e amaldiçoado pelos tolos que de longe avistam. Mas o que diria minha mãe ao me ver plena, dona do meu próprio ser, como nunca antes? O que diriam os imbecis que zombaram de mim e que tanto fizeram, mas é o inferno que está destinado a eles? Ah, as palavras... saltam de meu interior em busca de morada nas páginas em branco... eu cedo a elas.

Dançando em harmonia, sensações e desejos percorrem o papel. Sussurros e sombras oscilam em meus aposentos. Poesias fluem, ecoam nas paredes frias e famintas deste castelo e eu as sinto se deliciarem junto a mim.

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Post Mortem

Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes…

Imagem criada pelo autor com IA

Era inverno. Era a melhor época do ano, estando em Londres ou em Coimbra. Londres certamente combinava mais comigo; era, na maioria das vezes, fria e sombria e o inverno nessa cidade era a época que mais me dava forças para seguir. Pensando em toda a minha trajetória até aqui, começarei a relatar todas as desvantagens de minhas origens, que já se encontram em um passado um pouco distante, datando aproximadamente de quase cem anos. Venho de uma linhagem de plebeus simples que viviam em Portugal. Minha vida era comum e sem grandes acontecimentos; eu fui casado primeiramente com uma mulher simples de nome Emília, porém, com pensamentos ambiciosos. 

Eu era um homem pobre e vivia adoentado, não tinha forças até para recuperar minha própria honra diante de toda a Coimbra, que se aproveitava destes meus defeitos até para ferir ainda mais o meu nome, sabendo que eu pouco poderia fazer para mudar os fatos. O caso da desonra se deu porque Emília passou a se prostituir a partir do momento em que viu que eu não conseguiria garantir seus luxos; eu vivia em um bairro relativamente nobre da cidade, pois havia herdado uma casa que pertencera aos meus pais e que, por sua vez, também havia pertencido aos meus avós, porém, tão pouco o meu sustento de marceneiro dava para cobrir os gastos mensais da casa e, apesar da origem de Emília ter sido mais simples que a minha, ela passou a invejar as outras mulheres da vizinhança por terem artefatos e objetos mais caros e pomposos do que os que eu conseguia dar a ela. Pela soberba, minha falecida esposa havia desonrado meu nome e o dela e eu seguia a vida como se já não quisesse viver. Eu vivia pelos cantos da cidade alcoolizado, até que certa vez, em uma noite, entre um porre e outro de vinho, tropecei em uma tumba misteriosa nos arredores de Coimbra.

A tumba era antiga e enegrecida pelo tempo, escondida sob a sombra de árvores centenárias que se localizavam numa área isolada do cemitério São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades. O portão do cemitério havia sido esquecido entreaberto pelo coveiro ou por algum parente de qualquer moribundo. Intrigado, decidi adentrar no local e me deparei imediatamente com um mausoléu que se destacava dos outros; resolvi investigar seu interior. Ao abrir a tampa de pedra, deparei-me com uma visão terrível: os restos mortais de um ser que não parecia humano envolvidos em uma aura de mistério e escuridão. Um arrepio percorreu minha espinha quando uma voz sussurrou em minha mente, instigando-me a consumir a carne podre daquele monstro. Um instinto telepático me envolveu, me puxando em direção aos restos mortais da criatura sobrenatural. Apesar do medo e da repulsa, uma força irresistível me dominou, e cedi ao impulso sinistro. Com um misto de horror e curiosidade, eu me curvei sobre os restos da aberração e engoli um pedaço de sua carne podre.

Minha vida havia mudado para sempre. As consequências do meu ato misterioso me assombraram, mas também me fascinaram. O que aconteceu comigo depois daquela noite fatídica? Essa é uma pergunta que ainda me intriga, assim como intriga a todos que ouvem minha história. Alguns dizem que me tornei um ser das sombras, condenado a vagar pela eternidade em busca de sangue para saciar minha ávida sede.  

Outros afirmam que desapareci misteriosamente, deixando para trás apenas um rastro de lendas e mistérios; ainda há também quem diga que de fato desencarnei, mas a verdade sobre meu destino final permanece oculta, talvez para sempre. Enquanto isso, eu, Filipe, continuo a contar minha história, um simples plebeu que teve um encontro fatídico com a escuridão em uma noite sombria em Coimbra.

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Realidade

Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha…

Criado para o Castelo Drácula com Midjourney

Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha — e quase mergulhando num maior desconhecido, dei de cara com a própria realidade? Pois é…

Não que eu esperasse me deparar com algum tipo de entrada numa dimensão alternativa, um portal para além da zona de exclusão que é este tempo-espaço, com o qual já estou vividamente acostumado, preso; como eu já havia me dado conta, o próprio ambiente do Castelo e seus membros, com os quais eu também travara contato (ainda que tímido), já eram mais do que prova de que eu adentrara num território supranatural — ou talvez fosse melhor dizer num “maravilhoso breu” …

(Começo a pensar que alguma força me impele a construir neologismos, a me dar indicativos de que somente assim poderei transmitir o que sinto e vejo neste lugar…)

Voltando ao que escrevia… Tal fumaça, de aparência mágica, um tanto quanto esotérica, logo após eu ter pisado naquele curioso recinto, dissolveu-se por completo, o que logo em seguida fez-me sentir calma e súbita certeza de que nada me faria mal — outra razão ao que eu já tinha assimilado: as ameaças aqui são inexistentes, existindo mais nos pensamentos que tendemos a elaborar do que nas capacidades reais de um pretenso mal… Sim, não me sinto intimidado por nada, não até agora.

Se posso deixar registrado o que senti após ver aquela fumaça desvanecer-se, fugir pelo corredor e tornar ao caminho misterioso no qual surgira, devo dizer que foi algo no mínimo reconfortante, uma sensação de que, por mais estranhas e imprevisíveis sejam as impressões tidas nesse lugar, tudo está repleto de sentido, devendo eu apenas me concentrar e interpretar os fatos presenciados para algum próprio desígnio…

O que intriga, de fato, é este inegável cheiro de sangue… ferroso odor, rascante, pairando sobre o ar do Castelo nos instantes em que me desloco pelos seus cômodos…

Não que eu já tenha visto em alguma de suas torres a figura espectral desse que dá nome ao lugar, sabidamente apreciador do plasma alheio… mas… as pessoas daqui: são elas que, talvez, devam me fornecer respostas ao melhor observá-las — não podendo ainda me certificar de suas verdadeiras naturezas e reais intenções… O acesso à escrita delas (algo que todos nós, estabelecidos aqui, partilhamos constantemente) é que me guiará, creio, a uma categórica afirmação sobre…

P.S. Alguém está batendo na porta… curiosamente, fazendo com que eu termine mais um aventuroso relato para ir de encontro a mais um… (as coisas aqui parecem realmente funcionar de maneira sistemática). Espero retornar e registrar do que se trata.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa
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Escrito por Leonardo Garbossa, -Crônicas, -Contos Leonardo Garbossa Escrito por Leonardo Garbossa, -Crônicas, -Contos Leonardo Garbossa

Floresta

Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro. A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo,…

Imagem criada pelo autor com IA

Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro.

A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo, encobrindo qualquer vestígio de vida. Nesta floresta monocromática somente a eternidade e a amargura permanecem.

Negras, carbonizadas, jazem as árvores. Emissárias da degeneração infindável e moradia daqueles que desistem de buscar os limites da Floresta.

Em movimento, as cinzas não condensam, mas basta um único segundo inerte para sentir o ímpeto lúgubre da ruína que recai sobre tudo.

Aqui, firmo eu, meus pés, sitiado entre o intérmino vazio e o descorado solo que se compõe.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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