A Ópera dos Vampiros

As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante do largo palco de madeira rangente. Quando todos estavam bem acomodados e o silêncio reinava, as cortinas vermelhas se abriram sob o tremelicar dos trilhos empoeirados.

O vulto de Melinda foi iluminado pelas luzes manuseadas por Syrrha, uma estranha jovem que guardava consigo uma lamparina e o dever de iluminar o palco. Melinda, que interpretava Christine Daaé, atenta a seu papel, ouviu os espirros do público, contagiados pela poeira. Ela andou vagarosamente até o centro, atraindo a atenção. Aquela plateia tinha olhos mórbidos, como bonecos de cera; pareciam imersos em um encanto sorrateiro que os prendia naqueles bancos.

Uma orquestra peculiar se destacava ao redor do palco; os músicos pareciam petrificados e presos aos seus próprios instrumentos pesados. O maestro produzia movimentos rápidos e rígidos, mas as roupas deles pareciam antigas e puídas pelo tempo. As faces mostravam-se sulcadas e fragilizadas pelo torpor de um sofrimento incomum, como se eles já não pertencessem ao mundo dos vivos, hipnotizados. Cada instrumento — os violinos, cujas cordas rangiam como unhas arranhando algo; oboés, que exalavam um chiado fúnebre; trompas de metal oxidadas — exibiam um véu espesso de pó, como se cada nota fosse expelida de um porão esquecido. Mas nada daquilo impressionava Melinda.

Ao som da orquestra sepulcral, ela entrou vestida com um longo traje de veludo escarlate, que ondulava como sangue sob as luzes do palco. Melinda era magneticamente bela. Seus cabelos ruivos, de um tom acobreado, eram uma cascata de cachos que desciam até a cintura, emoldurando um rosto pálido e aristocrático. Os olhos cor de mel, intensos e levemente entorpecidos, contrastavam com o ambiente imerso na penumbra. Era impossível fitá-la sem sentir-se atraído ou atraída.

Ao atravessar a coxia, ela desfilava em beleza pelo palco de madeira, enquanto sua voz reverberava doce e cálida, ecoando alta pela plateia absorta. Syrrha corria pelo fundo do palco para apontar a iluminação corretamente, contando com a ajuda de pessoas que ela via apenas como vultos na mudança de cenário.

Melinda atuava no teatro particular do Castelo Drácula, e aquela peça era nada menos que “O Fantasma da Ópera”. A ópera preenchia cada canto do teatro em um feitiço sonoro e, a cada nota, um desejo crescente pulsava nas veias dela. Ao fim de cada apresentação, sentia-se sedenta, pois seu canto exigia sacrifício.

Enquanto a vampira guiava os atos em atuação, aqueles vultos que Syrrha via estavam sob seu comando e, pelo comando dela, com apenas um único olhar, eles fizeram descer, por cordas, imagens de candelabros por trás de Melinda, imersa no papel de Christine e do Fantasma. A poeira suspensa dançava em redemoinhos no ar; iluminada pelos feixes de luz difusos, ela parecia tremelicar.

O Fantasma da Ópera entrou em cena, vindo das sombras de uma das coxias; ele deslizou sob o palco. A máscara branca ocultava parte de seu rosto mortiço, mas não podia esconder o sorriso traiçoeiro que se insinuava em seus lábios. Envolto em uma capa negra, ele avançava elegante; cada palavra entoada reverberava à luz vacilante dos candelabros. Era possível distinguir o brilho afiado de seus caninos sempre que sua voz cortava o ar, sugerindo sua realidade por trás do personagem.

A melodia era bela, entoada pela voz una do dueto e pela orquestra, incitando arrepios em Melinda. Enquanto a voz una do dueto se fundia às notas sombrias da orquestra, eles cantavam e encenavam como se estivessem possuídos.

“Those who have seen your face, draw back in fear...”

Melinda caminhava lentamente pelo palco, os braços erguidos em gestos fantasmagóricos, mas seus olhos permaneciam vigilantes. O Fantasma surgia por trás dela, como uma sombra a sugá-la para si; o rosto parcialmente coberto pela máscara branca, a capa ondulante como fumaça ao vento.

“I am the mask you wear...”
“It’s me they hear...”

A orquestra morta, mas vibrante, acompanhava ritmicamente o dueto. Enquanto a jovem dos olhos de mel ali cantava, podia sentir a respiração do Fantasma se aproximando pela sua nuca. Ele a abraçava, entrelaçando-se a ela com uma tensão entre ambos quase palpável, como se o palco fosse real. A voz dele roçava sua pele como um toque gélido.

“Your spirit and my voice in one combined...”
“The Phantom of the Opera is there...”
“Inside your mind...”

Quando o último verso desta parte foi entoado, ele ergueu os braços atrás dela, como se fosse uma entidade que a possuía por inteiro. Os rostos estavam muito próximos um do outro. Neste momento, Melinda o viu olhar por cima de seu ombro; ela sempre esquecia que o nome verdadeiro de seu par não era Erik. Ele olhava para a escuridão além da coxia.

Algo no Fantasma estava levemente estranho naquela noite; ele parecia mais sedento que o normal, mais insano e libidinoso que o usual. Lançou um olhar inquietante para o lugar onde Syrrha se escondia, enquanto cuidava da iluminação, e Melinda sabia o que aquele olhar sádico poderia significar — ele queria sangue. Mas aquela garota não era permitida para eles.

O espetáculo sombrio foi interrompido pelo Fantasma vampiresco, e as cortinas começaram a descer lentamente. A plateia permaneceu imóvel, com olhos vidrados, sorrisos petrificados, mãos imóveis segurando binóculos dourados. Melinda estava confusa.

O Fantasma, movido pelo impulso, deslizou para fora da atuação. Seus olhos escarlates, inflamados pelo desejo de sangue, fixaram-se em Syrrha, a jovem que, nos bastidores, sentiu o perigo. Em um ímpeto febril e faminto, ele avançou sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la. Melinda tentou contê-lo, mas não conseguiu e foi arremessada para longe.

Syrrha recuou às pressas entre as cordas; seus dedos trêmulos seguravam a lamparina de óleo que carregava. No desespero da fuga, ela tropeçou. O vidro se partiu com um estalo seco contra o chão de madeira, o que fez com que as chamas, aos poucos, consumissem parte do palco. Um brilho soturno estava nos olhos dela, e uma energia enigmática e ameaçadora, emanada por ela, fez com que o vampiro se afastasse.

Melinda voltou a se aproximar e o segurou pela mão, pedindo para que parasse com aquilo, pois aquela garota não era para eles. O rosto da criança endureceu, como se o tédio e a raiva a possuíssem; uma risada sarcástica ecoou de sua boca. Ela parecia triste e, ao mesmo tempo, impetuosa. Por trás dela, vultos observavam, encobertos por véus negros muito finos. Então, ela revelou aos dois vampiros:

— A dor de vocês foi mais suportável quando vivida como ficção. Eu quis preservar e proteger isso, mas a verdade é a verdade, mesmo que façamos da dor um papel e da morte uma peça.

Um estalo sutil percorreu o ar, e a plateia, antes enfeitiçada, piscou como quem desperta de um longo sonho no umbral. Os vultos de Syrrha atravessaram as pessoas em silêncio... e desapareceram. Os binóculos tombaram das mãos. Murmúrios roucos, de quem desperta, escaparam das gargantas de cada um. Os atores, músicos, espectadores... todos, desnorteados. Aquilo não era apenas um teatro; era uma prisão. E os que ali atuavam não eram meros vampiros, mas sombras aprisionadas num ciclo de encenação eterna, condenadas a repetir papéis que não escolheram.

Aquele foi o fim, o último ato. Estavam libertos, mas quem eram eles de verdade? A plateia se ergueu lentamente. Alguns caíram de joelhos. Outros choraram. A orquestra virou pó. E Syrrha, a guardiã do encanto, tornou-se sua libertadora forçosamente. Melinda observava em silêncio, com uma lágrima de sangue imóvel à beira do olho esquerdo.

Quem era, afinal, seu companheiro de palco? Ela já não se lembrava. E ele desaparecera, deixando para trás apenas a máscara do Fantasma da Ópera, chamuscada pela chama da lamparina. Restaram apenas Melinda e Syrrha, sob o palco, no teatro abandonado por todos, em um silêncio ensurdecedor que queimava os ouvidos como uma tocha pode queimar o véu da ilusão.

Revisão de Tiago Serigy
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

O Arvoredo

O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia…

Atenção! Esta obra é do selo Eros Mórbia e pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O arvoredo de carvalhos era rodeado por árvores altas e robustas que se aglomeravam em formato circular, um pequeno riacho se estendia, brilhante; quando a brisa vespertina tocava as águas cristalinas se assemelhava à prata. Pedras e galhos se espalhavam pela grama verde e caliginosa. Sob o lado esquerdo do riacho, um grande carvalho antigo exibia seus galhos robustos e vibrantes ao vento, sua casca era envelhecida, mostrando sua imponência em comparação aos outros.

Ali, era o santuário das jovens dríades amantes da natureza. Beladona, em especial, costumava visitar o carvalho antigo e sentar-se por longos períodos para observar o pôr do sol e o fim da tarde. Um dia, ao fim de uma tarde gélida, ela se recostou com languidez sobre o carvalho, com delicadeza, tocou a grama entre as raízes, enquanto observava a esfera solar descendo no horizonte. Seus olhos cor de mel estavam fixos no céu enquanto as folhas presas em seus cabelos dançavam junto aos fios de cobre cacheados.

Ela suspirou pesadamente, pensando se encontraria novamente aquela que seu coração tanto almejava encontrar. Quando estava perdida em seus pensamentos, uma doce e ébria voz alcançou seus ouvidos. Era ela — a dríade de cabelos brancos e olhos dourados como a esfera solar. As duas se entreolharam e um sorriso íntimo surgiu no rosto de Beladona. A outra estava de pé, aproximando-se dela, demonstrando uma expressão ávida e contente, mesmo com o olhar melancólico e usual que ela tinha, era como uma deusa da floresta em seu caminhar tranquilo, banhada pela luz amarela do entardecer.

Beladona convidou-a para se sentar ao seu lado, o que ela aceitou alegremente, mexendo nos cabelos brancos, bem perto do ouvido dela a jovem disse, sussurrando, que sentira saudade. Beladona respondeu sorrindo, dizendo que também tinha sentido falta dela e pronunciou seu nome baixinho: Astrid. O sol finalmente se pôs, deixando o ambiente acinzentado para trás, com um último lampejo avermelhado entre as nuvens. Diante da leve escuridão que se instaurou no arvoredo, aos poucos as duas se entrelaçaram. Beladona acariciou os cabelos brancos da outra com os dedos, elas se aproximaram ainda mais, selando um beijo apaixonado. A dríade de pele escura e cabelos brancos avançou aos poucos, os beijos cada vez mais intensos e apaixonados.

A respiração de Beladona estava acelerada sentindo o toque dela quando suas mãos desceram aos poucos pelo seu corpo, tocando carinhosamente seus seios e descendo cada vez mais as carícias, vagarosamente mudou de posição aproximando a boca do pescoço dela permitindo que a língua roçasse em sua pele causando-lhe um arrepio vibrante.

Com os lábios trêmulos e as pernas entrelaçadas entre as raízes sagradas, Beladona sentiu a boca da amante descer por seu colo com devoção. Havia entrega, mas também reverência. A língua dela desenhava trilhas lentas e úmidas sobre a pele, descendo lentamente até o ventre — naquele ponto já desnudo — de Beladona, e a brisa noturna entrava no corpo das duas, causando uma breve sensação de frio ao toque que se desmanchava a cada movimento ardente entre elas.

Recostada ao tronco, Beladona envolveu o pescoço de Astrid com os braços, entrelaçando as pernas ao redor de sua cintura com leveza. Seus corpos se uniram como se florescessem juntas acima de uma flor de lótus. Astrid, com a lentidão de um rito antigo, ergueu o fino vestido de Beladona — cor de folhas secas ao fim do outono, deslizando o tecido por sua coxa exposta. Ao toque, Beladona arfou, um suspiro úmido escapando por entre os lábios entreabertos. As duas se beijaram com doçura faminta, línguas se tocando como se reconhecessem o caminho de cada íntimo desejo.

Os dedos quentes e reverentes de Astrid adentraram os véus de tecido, ultrapassando o limite entre o desejo contido e a entrega. Por dentro dos vestidos, os toques se tornaram mais intensos, mais profundos, e os gemidos, entrecortados e sôfregos, ecoaram entre os galhos. Era amor, era fome, era devoção. Na fusão de suas respirações, os dedos de ambas encontraram o âmago uma da outra. Ali, sob a sombra das árvores e o brilho distante da lua cheia que nascia no céu, o desejo tomou forma e o tempo se dissolveu.

Tomada pelo êxtase, Beladona segurou o corpo de Astrid com ternura firme, erguendo os braços dela com um sorriso cínico. Removeu-lhe o vestido com reverência e, em seguida, despiu-se por completo, libertando a pele de suas amarras de tecido.

Despida, deitou Astrid suavemente sobre a grama fria, sentindo o contraste entre o frescor do chão e o ardor que irradiava de seus corpos. Ajoelhada entre as pernas de Astrid, Beladona inclinou-se com desejo, sua boca descendo com lentidão até encontrar o centro úmido de prazer da amante. Com os joelhos de Astrid apoiados em seus ombros, ela iniciou um movimento delicado e rítmico com a língua, traçando círculos, sentindo em sua boca um sabor semelhante ao que o vinho seco deixa na boca após descer pela garganta.

Os gemidos de Astrid ecoaram entre as copas altas, entrecortados, sôfregos e encantados. Beladona se deliciava com o som e o sabor — era como provar o orvalho que nasce nas folhas ao sereno. Cada reação da outra fazia seu próprio corpo tremer, e o prazer que brotava entre elas parecia impactar também o solo, as árvores e a noite.

Quando os corpos enfim cessaram seus movimentos febris, restaram apenas os sussurros, abafados pela brisa e o som do riacho correndo ao lado. As duas permaneceram despidas, unidas ainda pelo calor, pele com pele, desfrutando da companhia carinhosa e amorosa uma da outra.

Beladona repousou a cabeça sobre o peito de Astrid, ouvindo o coração da amada pulsar em ritmo lento. Os dedos de Astrid se enredavam nos cachos ruivos de Beladona ainda úmidos de suor, enquanto suas bocas não diziam mais nada, não havia mais palavras, apenas silêncio e pertencimento.

Acima delas, o céu se abria em tons profundos, salpicado de estrelas. A lua cheia, já alta, lançava um reflexo pálido e prateado sobre as águas do riacho. As duas dríades contemplaram a cena em quietude, como se o mundo houvesse parado por um instante apenas para que existisse aquele amor. E ali, sob a proteção dos carvalhos e da noite, seus corpos entrelaçados repousaram até o amanhecer.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

Leituras recomendadas para você:
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais

O Reflexo da Bruxa

Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.

No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.

Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.

 A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.

Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.

Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.

Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.

Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.

Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.

Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.

Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.

Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.

Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.

Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

 Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.

Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.

Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.

Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.

Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.

Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.

Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!

Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.

Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.

Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.

Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.

Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?

A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.

O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.

Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.

O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda.  A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.

Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.

O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.

A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.

Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.

Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.

A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.

Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.

A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.

Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.

Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.

Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

Leia mais em “Contos”:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais

O Sangue da Bruxa

Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Como de costume, ela caminhava sozinha pelos corredores do castelo, seus longos cabelos negros reluzindo com um brilho azulado sob a pouca luz. O corredor que percorria era ladeado por uma extensa varanda de mármore, com vista para as imponentes montanhas envoltas pela neblina matinal. A penumbra de um céu nublado tornava o ambiente ainda mais sombrio, mergulhando tudo em uma atmosfera de mistério e quietude.

Uma voz masculina ecoava ao longe, chamando pelo seu nome. Ela não se virou para olhar, mantendo o passo sereno e despreocupado. Estava descalça, e o vestido preto, longo, era adornado com rendas e bordados delicadamente alinhavados que emolduravam a saia. Ao alcançar a varanda, ela parou, deixando o vento brincar com o tecido enquanto aguardava calmamente que a voz se aproximasse. Aquele era seu pai o rei Kheas, cabisbaixa ela apoiou o braço no mármore frio, sem olhar para a figura autoritária ao seu lado, como se já soubesse o que iria ouvir.

— Minerva! Já disse que não é adequado andar descalça pelo castelo, mesmo sendo o que somos...  — ele parou ao lado dela, penteando a barba longa e ruiva com os dedos. Kheas era um homem esbelto, tinha olhos fundos cor de mel e sempre se vestia com cores escuras.

— Não tenho o direito de sentir o chão do castelo? — respondeu ainda sem olhar para ele.

— Essa é uma atitude antiga demais, não precisamos mais fazer isso.

— E o que você sabe sobre as coisas antigas? — perguntou ela, com os olhos fixos no topo de uma montanha distante. O queixo repousava sobre a palma de sua mão direita, enquanto um suspiro desanimado escapava de seus lábios, carregando um ar de melancolia.

— Não fale coisas sem nexo, você é parte deste reino e eu sou a autoridade maior. Te espero na Sala das visões. — Ele se retirou com uma postura controlada, sem demonstrar irritação. No entanto, ela sabia que suas palavras o haviam incomodado.

Em outro momento, ao ser questionado por ela dessa maneira, agiu de forma oposta. O resultado foi a princesa passar quase um mês com o rosto escondido por um véu negro. Seus olhos azuis, agora vermelhos como sangue, estavam constantemente marcados por lágrimas silenciosas. Em seus pensamentos sombrios, ela jurou a morte de seu pai, Kheas.

Uma jovem princesa, filha da magia e das montanhas, vivia confinada, presa às mesmas correntes que um dia aprisionaram sua mãe, a rainha Nuara. Por anos, o rei as tratou como meras joias da coroa, belas, mas silenciadas. Ele explorava os poderes e a inteligência de ambas, mas nunca lhes concedia o verdadeiro crédito por seus feitos.

Nuara era conformada com sua condição, enquanto a filha não aceitava, de nenhuma maneira, aquela forma de vida. Suas fortes personalidades eram tidas, por todo o reino, como flores da meia-noite: muito delicadas. A beleza das duas chamava atenção. A corte e o povo não imaginavam que a genialidade das construções e da gestão era, na verdade, autoria das duas, que eram confinadas ao disfarce do silêncio.

Minerva carregava consigo um rancor profundo, fruto de anos de sofrimento silencioso. Ela não era uma rosa delicada, mas sim uma pedra preciosa e rara, dura como um diamante — um diamante que seu pai insistia em tentar quebrar. Tratando-a como um mero objeto de estudo, ele a subjugava com sua autoridade, reforçando que ela era parte do reino e devia obrigações. No entanto, o pior de seus atos deixou marcas irreversíveis: ele a transformou em cobaia de uma transmutação, um experimento cruel que deixou cicatrizes não apenas em seu corpo, mas também em sua alma.

O Reino da Áugures, um lugar onde os segredos da ciência antiga eram guardados nas sombras, era o domínio de Kheas, um alquimista obcecado pelo que todos buscavam: o conhecimento absoluto. A imortalidade, uma dádiva rara de sua raça, não era o suficiente para saciar sua sede insaciável por poder. Em sua busca, ele ousou realizar o impensável, transmutou sua própria filha, Minerva, fundindo-a com uma loba.

A forma resultante foi a maldição do reino, um reflexo de sua crueldade. As dores da transmutação não apenas afetaram seu corpo, mas também corroeram sua mente. Durante meses, Minerva permaneceu como loba, uma criatura atormentada pela dor física e pela confusão mental, enquanto o reino, agora marcado por essa transformação sombria, ecoava os ecos de seu sofrimento.

Sem conseguir reverter o processo, Kheas trancou Minerva em uma cela no calabouço do castelo, condenando-a a viver em sua forma monstruosa. Mas foi quando Nuara, a rainha, interveio, determinada a salvar sua filha, Nuara fez ajustes em elementos místicos e, com grande esforço, conseguiu libertar Minerva de sua forma de loba, mas ela ainda transmutaria na lua cheia.

Cada vez que a transformação acontecia, ela chamava esse processo de "rasgar a pele", pois sentia como se sua essência fosse dilacerada, dividida entre duas existências, forçada a conviver com a dualidade de sua natureza. Em condição de loba, ela se tornava um pouco inconsciente de si própria, era uma enorme fera de pelos negros. Avistá-la era assombroso. Seu corpo se contorcia e sua pele se rasgava. Uma bruxa em pele de loba, insana nas noites de lua cheia.

Ela caminhava em direção à Sala das Visões, o peso da tristeza obscurecendo seus passos. Era hora de revelar os planos de Kheas, um segredo que pesava mais do que o próprio silêncio que envolvia o castelo. A Sala das Visões era uma biblioteca peculiar, circular, com estantes escuras de jacarandá que se estendiam até o teto. Cada prateleira estava repleta de livros antigos, escritos em línguas que desafiavam o entendimento de muitos. O ambiente, sem janelas, parecia sempre imerso em uma sombra perpétua, e o frio que emanava das paredes parecia penetrar até os ossos.

 No centro da sala, um pentagrama intricadamente desenhado no chão servia como base para uma mesa redonda, onde repousava um candelabro de ouro negro. Criado pelas primeiras bruxas do reino, o candelabro emanava uma luz tênue e distante, como se carregasse consigo séculos de feitiçaria e sabedoria ancestral. Ela sabia que, naquele lugar, cada segredo do reino estava guardado, e agora era sua vez de desvendar o mais sombrio deles.

Minerva utilizava o candelabro negro para acender as suas velas ao realizar, ritualisticamente, as leituras de tarot, as bruxas do passado eram suas guias durante o processo.  Kheas já estava lá sentado à sua espera. Ao chegar diante do local, ela respirou fundo enquanto olhava o ouroboros de madeira esculpido na porta. Aquela serpente engolindo a própria cauda sempre a lembrava de sua primeira transmutação. Sempre se repetiria. Pedindo forças à magia, ela entrou e foi até o centro, sentou-se à mesa já prevendo o que ele iria perguntar, o que sugaria sua energia naquela tarde.

— Preciso saber se seremos bem-sucedidos na comemoração de amanhã, onde você conhecerá seu noivo. — Ele estava sério com os olhos fixos nos dela.

— Acontece que já o conheço, ele só não sabe o que você fez com a noiva dele. — a voz dela soava trêmula.

— Você entendeu o que eu quero dizer.  Preciso que saiba controlar a sua situação para que nada saia do comum amanhã na lua cheia.

— Para que a maldição que me impôs não atrapalhe a aliança entre Áugures e Zhale? Ele não sabe das histórias que contam por aí?

— Minha querida, o rei Hansert será um bom marido. Já que se amam, seja sensata!

— Ele não sabe por sua culpa! – exaltada ela parou de súbito, respirou fundo e continuou. — Vamos às cartas...

Ela respirou profundamente, posicionou a vela no candelabro e a acendeu, permitindo que a chama dançasse com suavidade. Sob a toalha especial, espalhou as cartas de tarot, seus dedos acariciando o tecido enquanto sua mente se concentrava no que estava prestes a acontecer. Com um movimento lento, sua mão direita se ergueu no ar, percorrendo as cartas, captando a energia que elas emanavam.

A primeira carta foi puxada com cuidado e colocada sobre a mesa. Seus olhos estavam fechados, os lábios murmurando palavras antigas, enquanto as mãos trêmulas sentiam a conexão entre o presente e os destinos que estavam prestes a ser revelados. A sala parecia suspensa, aguardando o desfecho das forças que se alinhavam diante dela.

Novamente ela percorreu a mão pelas cartas sentindo a energia que atraía sua mão e escolheu a segunda, o mesmo foi feito na escolha da terceira.

— A primeira carta é O Mundo, quer dizer que o momento é propício, a festa pode sim ser muito bem aproveitada.

— Enquanto a segunda carta? — perguntou ao apontar.

— A segunda carta é O Diabo, pelo contexto você está preso a alguma coisa. Suas conquistas que escondem o que você realmente é. Isto provavelmente está ligado ao que aconteceu que você tanto deseja esconder do mundo.

— Não é isso que eu quero saber, Minerva! — ele falou com rispidez.

— A festa vai ser bem-sucedida. O rei Hansert ficará feliz, só que esta carta do Diabo mostra um apego forte aos seus bens e diria até mesmo... O medo de se perder tudo! Ela está invertida. Indica que é o momento de olhar para o seu ego, pai! Não é o momento de esconder mais nada! — ela estava apreensiva.

— Chega, não preciso ouvir você! — ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes da sala. No mesmo instante, a marca da transmutação de Minerva surgiu em sua mão esquerda, uma linha vermelha incandescente que iluminou a palma com um brilho intenso e ameaçador. Ela, no entanto, não se intimidou. Ignorando o fenômeno e a fúria dele, continuou a leitura.

— A terceira carta é o Enforcado. — Houve uma pausa em sua fala — O que você deseja exige sacrifício e, pelo visto, você está disposto a fazer.

— Você sabe que sim. Amanhã é lua cheia, e, se for necessário, eu a trancarei. Não ouse usar seu poder contra mim amanhã à noite. Sua língua será selada, e você não pronunciará uma única palavra, seja como bruxa ou como loba, se é que a fera é capaz de falar e não apenas rugir! — declarou ele com frieza, cada palavra carregada de ameaça e controle.

— Sim, meu pai, eu não pretendo te envergonhar em uma noite tão importante! – disse ela, ironicamente.

Ele se levantou da mesa e deixou a sala sem sequer agradecer pela leitura feita. Minerva, com os nervos à flor da pele, pressionava as têmporas com força, tentando conter a irritação que pulsava em sua mente. Ela soprou a chama da vela revoltada, guardou suas cartas e saiu de lá sem finalizar o ritual devidamente. A porta da sala ficou aberta, dividindo o círculo do ouroboros ao meio.

***

Minerva estava em seu quarto, acariciando um enorme gato preto. Ambos estavam deitados em um sofá espaçoso, escarlate como sangue, a lua invadia o lugar pela janela longa em formato de lanceta. Seu pensamento estava distante, um recado de Hansert foi entregue a ela, enviado por um corvo astral que entrou pela janela. A tinta do bico de pena ainda estava com o cheiro forte, estava escrito:

 “Logo nos encontraremos, filha da penumbra, dona do meu coração.”

Amavam-se, porém, ele não sabia que a sua condição de loba era feral. E ela tinha planos para que isto mudasse. Ele acreditava que ela era uma beldade atormentada pelas dores de sua “pele rasgada”, Kheas o convenceu de que, como loba, ela era consciente e o casamento era um sinal de aliança entre dois reinos sábios. O segredo de Minerva, supostamente, seria uma herança para os futuros herdeiros dos dois reinos.

Rosas vermelhas adornavam cada cômodo, seu perfume intenso contrastando com a escuridão. Os convidados, trajados elegantemente em preto, moviam-se com uma graça quase teatral. Zhela e Áugures, repletos de segredos e histórias compartilhadas, estavam finalmente reunidos sob o mesmo teto, sob a vigília silenciosa da noite.

A noite da festa estava especialmente escura e as nuvens no céu eram vermelhas, a lua se escondia nas trevas. O castelo estava decorado com muitos castiçais, haviam rosas vermelhas distribuídas pelos cômodos e as pessoas estavam elegantemente trajadas em preto. Zhela e Áugures estavam no mesmo lugar.

Minerva estava em seu quarto, mas a sensação que a envolvia era a mesma de quando estava na masmorra. Para ela, não fazia diferença; sentia-se apenas um experimento, uma criação sem vontade própria. Amarras pesadas a prendiam à parede em frente à janela, e em seu pescoço repousava uma coleira de couro de dragão, presa a uma corrente de aço forjada pelas mãos habilidosas dos anões.

O quarto era tomado por seus gritos, longos e agonizantes, enquanto seu corpo se contorcia, sofrendo a inevitável transmutação. A dor era lancinante, como se sua própria essência estivesse sendo rasgada e moldada novamente sob o peso de uma maldição.

Os gritos de Minerva ecoavam pelo castelo, atravessando as paredes e chegando ao salão onde a música da orquestra real tentava abafar a agonia. O som do piano e do violino se mesclava com os gritos distantes, criando uma melodia tenebrosa. No centro do salão, o rei Kheas mantinha sua fachada inabalável, transformando seu erro em uma nova mentira.

Ele declarou a todos que sua filha havia se voluntariado para o experimento, manipulando a narrativa para proteger sua reputação. A festa, repleta de convidados trajados de preto, celebrava não apenas uma aliança, mas o suposto controle sobre Minerva. O noivado entre Minerva e Hansert simbolizava a união dos reinos Áugures e Zhelas, prometendo consolidar suas forças sob um só poder, ainda que o preço fosse o sacrifício de sua própria filha.

A princesa seria finalmente apresentada em sua forma de loba e as histórias de suas aparições sombrias seriam confirmadas. Esta era a noite das feras, os lobos e as bruxas eram exaltados. As nuvens já se mexiam com o vento, os uivos de Minerva eram altos e poderosos. Todos estremeceram ao ouvir e sentir o poder que emanava vindo dela.

As memórias de sua primeira transmutação sempre pairavam em sua mente. Naquela noite, todos conheceriam a bruxa e loba que nela habitava. Aquela corrente a enlouquecia, ela desejava fugir enquanto sofria. Seus uivos evocavam os uivos ferais de outros lupinos e até mesmo os cães uivavam por ela.  Todos ouviam seu rugido que não mais seria silenciado!

No baile, os bruxos da corte entregavam-se à diversão, seus risos e murmúrios crescendo à medida que se embriagavam com o vinho vermelho como sangue. Entre taças erguidas e olhares conspiratórios, Hansert permanecia inquieto, imóvel durante o evento.

Cada uivo que ecoava pelos corredores do castelo parecia atravessar os ouvidos dele e cravavam alfinetes em seu coração. A dor não era apenas física; era o peso insuportável da culpa e do horror, enquanto a verdade da maldição de Minerva se desenrolava bem acima deles.

Atrás da porta do quarto, a rainha Nuara sofria em silêncio, suas lágrimas vermelhas escorrendo como gotas de sangue que carregavam toda a sua angústia. Cada soluço abafado era uma pergunta sem resposta: por que não conseguia reagir? Por que permanecia imóvel diante da loucura de Kheas? Encostada na parede de pedra fria, ela escondia o rosto entre as mãos trêmulas, enquanto o peso da culpa e da impotência a esmagava. Seu coração estava em pedaços, dividido entre o amor por sua filha e o medo paralisante do homem que chamava de rei.

Enquanto no andar de cima os sofrimentos de Minerva eram ocultados nas sombras do castelo, os dois reis discutiam no salão principal, seus olhares frios e calculistas observando a festa que acontecia ao redor deles. Entre copos de vinho e risos forçados, suas palavras afiadas se cruzavam, trocando acusações e estratégias.

—Rei Kheas, eu preciso vê-la! Ter certeza de que ela está bem.

— Claro que ela está bem! Só precisamos diminuir um pouco toda a histeria da corte.

— O que quer dizer? – Hansert o olhou confuso.

— Seria interessante evitar que ela assustasse nossos convidados.

— Ela está sofrendo com as dores e está acorrentada como um animal, como pode ser tão frio?

— Rei Hansert, lembre-se de que a Minerva que conhece é uma criatura da noite. O que queremos é mostrar força, somos melhores que os homens comuns e sem magia é isto que queremos impor esta noite!

— Não foi isso que você me falou antes, ela poderia ter morrido neste experimento hediondo que você inventou! Só pensa em si mesmo e na magia oculta na escuridão que deseja dominar, como eu fui tão cego?

— Você não compreende. Não tem a noção do poder que está guardado nela, diria que nem ela ainda tem. Não pense que ela sofreu sozinha. — ele desviou o olhar, um vulto sinistramente negro adentrava o salão, todas as velas se apagaram e a música parou.

PELE RASGADA

Minerva estava imersa na dor de suas primeiras memórias da transmutação. A maneira como tudo havia acontecido, foi tirada à força de seu quarto em uma noite tempestuosa, arrastada para um calabouço onde foi espancada e teve a alma violada pelo próprio pai. Por alguns segundos se calou, sabia que estava quase no fim. Seus olhos viam patas no lugar das mãos e a dimensão do ar que respirava era diferente. Ela era uma loba, o presente mais imponente que ganhara de seu algoz e a maior maldição.

IPSO FACTO

 

Todos estavam imersos em um tremor coletivo, paralisados pela visão estática da criatura diante deles. Enorme, ela se destacava na penumbra da noite, seus pelos negros e brilhantes refletindo, de forma fantasmagórica, a luz vaga da lua que adentrava pela janela do salão de festa. A cada movimento, os pelos pareciam brilhar como se fossem feitos de sombras e luar. Seus olhos, azuis e faiscantes, eram como chamas em meio à escuridão. Uma corrente quebrada pendia de seu pescoço, uma marca do passado e da dor que a acompanhava.

Um uivo longo e agonizante rompeu o silêncio, ensurdecendo os presentes, fazendo com que todos se tremessem de medo e fascínio. Kheas, no entanto, a olhava fixamente, diante de algo que ele mesmo havia criado e agora não podia mais controlar. Quando ele deu um passo à frente para se posicionar, Hansert interferiu avisando para que ele olhasse ao redor, uma legião de lobos estava se agrupando ao redor dela. A grande loba encarava os bruxos e bruxas com desdém e fazia menção de falar.

— Esta é minha forma, e esta é minha legião de feras. Esperei muito por isso — a voz de Minerva ecoou com um poder sombrio, reverberando pela sala. Seus olhos faiscavam com uma intensidade ameaçadora, enquanto as criaturas ao seu redor se agitavam, como se atentas à sua autoridade. — Temam a mim e não a ele — continuou.

— Por favor... — Kheas tentou falar, mas foi interrompido abruptamente. Um dos lobos avançou, derrubando-o com força e mordendo-o, ameaçando rasgar sua garganta.

— Somos fortes, e somos um, meu pai! Esses não são bruxos, mas lobisomens que vivem nas montanhas de Áugures. Ele não é rei, é um verme... — Minerva rosnou com a ferocidade de uma líder, suas palavras ecoando com o peso de sua nova identidade.

A multidão, paralisada, observava em choque enquanto os lobos se espalhavam, cada um se aproximando lentamente de uma pessoa. O medo se espalhava como uma epidemia, e o ar vibrava com a tensão crescente. Os lobos, em ferocidade, cercavam a todos, prontos para mostrar que o poder de Kheas havia se desvanecido naquele momento.

Minerva se aproximou de Kheas, que tremia sob o olhar feroz de sua filha, uma loba imponente. O silêncio no salão se estabeleceu por alguns segundos quebrado apenas pelos uivos distantes e pelo som da respiração pesada da criatura. Ela se abaixou até ele, suas garras afiadas tocando sua pele, realizando um movimento rápido e brutal, arrancou a cabeça de Kheas, a engoliu diante dos olhos atônitos de todos.

O sangue jorrou, escorrendo pelo chão, enquanto Minerva ergueu-se, agora mais poderosa do que nunca. O noivo, Hansert, estava paralisado, impotente diante da visão de sua futura esposa, transformada em uma fera imbatível. Ele ficou sozinho no salão, a multidão dispersando em pânico, incapaz de compreender o que havia acontecido. A rainha Nuara observava escondida toda aquela cena.

Minerva olhou para ele uma última vez, seus olhos azuis faiscando com um brilho gélido e distante. Sem uma palavra, ela virou-se e se uniu aos lobos que a acompanhavam. Eles avançaram, e como uma sombra, desapareceram na noite, deixando o castelo para trás. A liberdade estava finalmente ao seu alcance. Em um canto escuro da sala, ela viu a figura de sua mãe, Nuara, parcialmente oculta nas sombras, os olhos assombrados pela dor. Por um momento, seus olhares se encontraram. Ela se aproximou, suas palavras suaves, mas firmes, cortando o silêncio:

— Mãe, venha comigo. Não há mais razão para permanecer aqui!

Nuara hesitou por um instante, os olhos perdidos em uma mistura de medo e alívio. Com um suspiro resignado, Nuara se aproximou e, com a ajuda de Minerva, subiu nas costas dela, montando como uma amazona. Juntas, mãe e filha começaram sua fuga.

Os lobos, como sombras ágeis e implacáveis, se moveram ao redor delas, guiando o caminho para a liberdade. Enquanto o castelo ficava para trás, Minerva sentiu, pela primeira vez em sua vida, que o peso das sombras de seu passado estava finalmente sendo deixado para trás. O destino dos reinos de Áugures e Zhelas estava selado, mas agora, ela era a dona do seu próprio caminho sob o luar.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

Leia mais em “Contos”:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais