Perfeitos Estranhos IV – Faces 

— Nauärah? A palavra, o nome, simplesmente escorre pela minha boca, soando o mais natural e simples possível. Tenho certeza de que jamais...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Nauärah? 

A palavra, o nome, simplesmente escorre pela minha boca, soando o mais natural e simples possível. Tenho certeza de que jamais a ouvi, embora ela tenha sido lançada para fora de mim. Bem ali, a uma fração de metro de mim, estava a mesmíssima dama que avistei antes de adentrar os umbrais do castelo. Tenho a certeza, que emerge de lugares inomináveis da minha alma, de que é ela. Cabelos fartos e escuros, o olhar decidido, forte e um tanto indecifrável. Seria tal donzela uma ilusão? Uma manifestação da crueldade e do desejo sádico do castelo? Ou seria outra vítima, atraída para cá, assim como eu? 

Minhas mãos tremem. Meu maxilar tensiona. 

A visão vacila e sinto a sombra me arrastando para os bastidores. O outro quer seu lugar, seu espaço sob a luz, embora seja, literalmente, o pior momento para tal besteira. Tento lutar contra as garras amarelas que me arrastam para a bruma. Minha mente titubeia por um segundo, que se faz suficiente para que eu tenha que apoiar em um móvel próximo. 

Por alguns poucos segundos, que me parecem uma verdadeira eternidade, esforço-me para recobrar os sentidos. Balanço a cabeça na tentativa de retomar o bom senso e a normalidade. 

— Peço desculpas pela exibição pífia de uma possível labirintite não tratada. Antes de me apresentar, preciso ter certeza de que você é real, mademoiselle. Não me interprete mal, mas este castelo já se mostrou cruel o bastante comigo.

♤♡◇♧ 

O medo que outrora eu sinto, começa a dar lugar à curiosidade. Como ele sabe o meu nome? Como? Que lugar é este que faz com que as pessoas se conectem como se uma magia as fizesse agir de maneira ágil e soubessem de tudo? Onde já se viu perguntar se sou real ou coisa da sua imaginação? Desculpa tola de homens aproveitadores. Crueldade é a dele de invadir o meu espaço dessa maneira, e não do Castelo. 

Por outro lado, a sua voz é serena, embora seja masculina. “Mademoiselle”, ele profere, e uma aura de paz parece chegar em meu quarto. Mas ainda me sinto ameaçada. Não posso ser tão doce e pacífica com o estranho das matas. Foi por causa da minha antiga natureza dócil e pacífica que aconteceu comigo o que nunca deveria ter acontecido com uma moça. 

Levanto-me bruscamente da cama e as minhas mãos logo encontram o arco e a flecha próximos. Armo todo o movimento com técnica e fluidez e direciono-me para ele, deixando no ar o som do preparo selvagem. As luzes estão apagadas e apenas um feixe de luz da lua ilumina o momento de tensão. Não consigo perguntar quem ele é. Só consigo vociferar de medo e irritação. 

— Você vai sair do meu quarto agora! Ou a minha flecha vai adorar se sujar de sangue! A minha mira é mais eficiente do que o melhor atirador. E se der as costas sem olhar para trás, nem me encarar, lhe darei o direito de se explicar na antessala. O estranho cavalheiro escolhe. E então, decide se a “Mademoiselle” aqui é real ou não. — Digo de maneira irônica.  

Olho tensa para ele, pelas frestas e sombras da escuridão, tentando não demonstrar o meu medo, e o que vejo é o mesmo: aquela figura das matas… é ele! Finjo, então, estar segura, embora a minha fragilidade seja evidente agora. Estou tremendo. Ele percebe. O cheiro dele é miseravelmente agradável e se funde com o meu, mas a sua presença tão calma me faz dar essa chance de ouvi-lo. 

♤♡◇♧ 

Jamais presenciei um movimento tão ágil e impecável quanto aquele. Numa fração de segundo ela apanhou o arco e flecha e, com exemplar maestria, havia armado o disparo. Eu já havia atirado antes, e lembro da força que se fez necessária para entesar a corda e mantê-la daquela maneira. Muito além do que fui capaz de compreender, e acompanhar, me deparei com uma flecha apontada para mim, acompanhada de uma doce ameaça. 

— Pelas barbas do Rei, mulher, abaixe isso! — Cubro os olhos com a mão esquerda, restando a direita para manter distância da dama armada. Sinto um medo, bem sólido, ao perceber a possibilidade de ser atingido. Àquela distância, a flecha poderia, facilmente, me ferir de forma letal. — Prometo não estar vendo mais nada. Darei meia volta… Mas não atire em mim! 

Dou dois passos em direção à porta, a encontrando com a mão direita. Mantenho os olhos cobertos, embora esteja ciente de que minha jornada nesta terra possa se encerrar a qualquer momento. Fecho a porta e a aguardo no corredor, apartado daquela loucura. 

Sou atingido pelo doce perfume que havia seguido a pouco. Sem dúvida alguma era o perfume dela. Penso, também, que deveria estar armado com algo. Se ela for hostil, não terei como me defender de um ataque. A existência de um arco e flecha indica a existência de outras armas, acredito. Procuro por objetos que possam ser usados para defesa, mas nada existe aqui além de quadros de gosto duvidoso e velas praticamente sem vida. 

Massageio as têmporas com os dedos, buscando algum tipo de conforto, enquanto espero aquele espectro violento resolver se manifestar novamente. 

♤♡◇♧ 

Quando o estranho sai do meu quarto, parto correndo para trancar a porta. Agora entendo, algo sombrio neste lugar me fez ficar sonolenta, que até esqueci-me da porta aberta e do meu perfume também. Que inútil, me condeno.  

Respiro fundo, me desarmando e abaixando o arco e a flecha, os posicionando de volta ao chão. De tudo que me aconteceu aqui no castelo, isso foi o mais bizarro e doloroso. Esbarrar com uma face masculina próximo à minha cama me deixou pensando que todo aquele passado aconteceria comigo novamente. 

Preciso sair para falar com ele? Não, não preciso, ainda assim, a força maior de um chamado esquisito me faz querer sair para apresentar-me e talvez fazer uma amizade. Se eu ficar tão reclusa desse jeito, ficarei o tempo todo sozinha, sem companhia. Esses homens que estou avistando, se amigos forem, podem até defender-me dos perigos também, apesar de eu saber bem fazer isso. Não. Não preciso deles. O último que eu confiei desgraçou a minha vida.  

Paro de pensar demais, olho para a porta e me dirijo até lá para sair e falar com ele. Quando toco na maçaneta noto que ainda estou em vestes de dormir. Me assusto e a porta faz um barulho de abrir e fechar. Estou tão turbulenta que não me vesti adequadamente. Volto para dentro e troco a roupa. Visto muito bem a minha capa e cubro-me adequadamente para não transparecer nenhuma feminilidade que chame atenção, embora já tenha deixado isso escapar demais.  

Me dirijo até a porta e abro, sem nenhum armamento. Sinto que não é necessário. Dou um passo à frente, com o coração batendo forte, e quando saio pela porta, o visualizo, como se estivesse me aguardando. Não posso ser tão hostil. Ele chamou o meu nome. Deve me conhecer. E se for um mensageiro? Penso inúmeras coisas enquanto me aproximo tão fielmente de uma figura masculina por aqui pela segunda vez. Ele sente minha presença, mas fica no mesmo lugar. Devo mesmo tê-lo assustado, mas é melhor assim. Olho para ele, ainda com a minha capa, e a minha voz tenta dizer algo lúcido.  

— Eu... é... — Respiro fundo — Quem é você, o que faz na Vila Séttimor, para que adentrou neste castelo, como sabe o meu nome e por que entrou em meu quarto? Se apresente, diga a verdade e juro que não lhe farei mal. Vês? Estou desarmada, confiando totalmente em sua integridade.  

O ambiente do castelo é assustadoramente escuro, ainda assim, consigo enxergá-lo bem entre a meia luz e alguma abóbada próxima à parede. Seu aroma permanece no ar, e agora o suspense da sinestesia que tem acontecido aqui e o mistério das nossas faces confusas estão mais próximos de serem revelados.

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Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Perfeitos Estranho III - Morte

Morte. É isso que verte pelas paredes do Castelo. […] Após escrever a carta para a minha família, deixo-a em uma espécie de escrivaninha…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Morte. É isso que verte pelas paredes do Castelo.

A nuvem de poeira que me atinge após o fechar das portas é suficiente para me trazer à mente outra necessidade, que de outra maneira teria levado alguns minutos para revisitar: minhas luvas. Tateio os bolsos do casaco e as encontro. Um belo par de luvas brancas, maltratadas pela longa jornada a esse local repulsivo. Me pego refletindo sobre as justificativas que ele teria dado a si para carregar consigo itens aos quais não se recorda de possuir. De qualquer maneira, me sinto satisfeito pela gentileza acidental e as calço.

Me encontro no saguão principal do castelo — uma área ampla, de teto alto, e surpreendentemente limpa e bem cuidada, contrastando com a maltrapilha aparência externa do prédio. O espanto me impacta, afinal, imagino o trabalho homérico que é manter essa propriedade asseada e em bom estado.

À esquerda vejo um corredor largo que provavelmente leva a outras áreas do castelo, áreas estas que me darei ao luxo de explorar em um momento posterior, depois que minha curiosidade for sanada, afinal, que donzela misteriosa seria aquela que avistei pelas janelas do andar superior? Fui alertado quanto à natureza sobrenatural do Castelo e como manipula as distâncias, podendo fazer com que objetos pareçam mais próximos, ou mais distantes, do que realmente estão. Outros perigos me foram informados, mas tomarei nota de todos eles após encontrá-la.

Resolvo investigar os demais cômodos, para me sentir seguro para buscar respostas no piso superior. Adentro o corredor à direita, ganhando o novo ambiente. É uma galeria arrojada, com quadros antigos representando as mais diversas paisagens, além de pequenas estátuas com alguns traços medonhos. Admiro a criatividade do escultor, mas não sou capaz de admirar a beleza poética de corpos de mármore dobrados em ângulos estranhos. Sigo por generosos metros até me deparar com duas portas fechadas. Um detalhe que talvez tenha passado despercebido: lá fora, havia anoitecido e as poucas luzes que iluminavam o castelo por dentro eram de velas dispostas, estrategicamente, pelos ambientes.

As portas eram antigas, de madeira maciça e com trancas rústicas. Forcei uma, depois a outra, sem qualquer sinal de sucesso em abri-las. Decidi não continuar com o trabalho inútil, por receio de gerar mais barulho e chamar a atenção dos outros moradores do castelo. Este detalhe, aliás, não havia ficado claro para mim. Havia outros, sim, mas nada sei sobre suas intenções e, tampouco, se são confiáveis ou não. Não seria eu outra presa, capturada pelas demoníacas garras do castelo. Ah, não!

Sem sucesso em prosseguir, resolvi me virar e voltar pelo caminho que havia seguido. Para o meu terror, o corredor já não era mais o mesmo. Os quadros haviam mudado para paisagens grotescas e disformes. As pequenas estátuas, de natureza desprimorosa, se tornaram versões ainda mais bizarras de si mesmas, como uma confusão de membros retorcidos. O corredor estava ainda mais escuro e já não era possível enxergar com clareza o seu outro lado.

No ápice da minha tolice, eu fui pego.

Tomado pela aflição e pelo pavor, tentei não expressar tais sentimentos. Tateei as paredes. Eram sólidas e firmes. Segui tateando, passo a passo, em direção ao que antes era o saguão principal, mas que agora estava tomado pela escuridão. Impossível ter escurecido em um espaço tão curto de tempo. Antes de mergulhar no breu, respirei fundo.

Avancei por alguns metros pela total obscuridade. Ao longe, avistei um vestígio de luz. Era outra sala, iluminada por uma vela solitária que já havia doado metade da sua vida, disposta sobre uma pequena mesa de canto. Ao lado, uma janela, de onde pude observar o céu estrelado, tão limpo como nunca havia visto antes. Apoiei os dedos na madeira áspera da moldura e fui hipnotizado pela visão.

Minha visão vacilou e minha mente estremeceu. As estrelas ficavam cada vez mais próximas, e a própria lua começou a se deformar em uma massa branca amarelada. O horror estava entranhado em mim.

Antes de perder a consciência, lembrei da donzela da janela. Espero que tenha um destino melhor do que este…

Recobrei os sentidos, prostrado no corredor. Todo o cenário estava da exata maneira que o vi pela primeira vez: os quadros dispostos pelas paredes e as pequeninas estátuas excêntricas.

A mensagem era clara. Eu não devia me esquivar. Deveria seguir a imagem misteriosa no piso superior, sem hesitar.

Retornei ao saguão principal e observei a escada que dava acesso ao primeiro andar. Senti um perfume excepcional, de natureza floral e aveludada. Algo nele despertou fortes emoções em mim, como a necessidade sem precedentes de descobrir sua fonte. Então, subi pela escada a passos largos, seguindo a fragrância, que ficava cada vez mais forte. Um corredor, depois outro. Fui tomado por tamanha ansiedade que não me atentei em decorar o caminho de volta. Finalmente parei em frente a uma porta, entreaberta. Ao abri-la, um nome me veio à mente e deixei escapar pela boca.

— Nauärah?

… 

Após escrever a carta para a minha família, deixo-a em uma espécie de escrivaninha mágica, em formato de esfera, desacreditando que este castelo, magicamente, a transportará para a minha aldeia no Brasil. Sorrio, e pela primeira vez com um riso mais disposto aqui neste lugar, pois a magia daqui é totalmente diferenciada da magia que conheço, embora sejam magias, de fato, e esta tem me conquistado, me incentivado a estudá-la e praticá-la mais profundamente. Mas questiono-me: como a minha carta, algo físico, chegará em minha aldeia através de uma espécie de portal na superfície de uma bancada mágica? Sorrio novamente, pela segunda vez, respondendo para mim mesma que a carta será enviada com a mesma força da magia em que acredito.

Um sono inexplicável alcança-me, fazendo as minhas pálpebras ficarem mais lentas. Este Castelo é enérgico o suficiente para me fazer pensar que estou sendo manipulada por sua magia. Consegui sorrir algumas vezes e ainda ficar em um local praticamente sozinha, embora haja outros residentes. E por falar nisso, acredito que eu tenho certeza de ter fechado a minha porta. Eu sempre fecho e a tranco. Sabe? Se este castelo é poderoso o suficiente, ele vai tratar de conferir todas as trancas por si só. O meu sono não me permite verificar mais nada aqui e me dirijo, sonolenta, ao meu dossel, saindo da antessala da minha alcova.

Apenas me livro dos acessórios mais pesados em meu corpo, penteio leve os meus longos fios com as mãos, retiro a capa áspera que me cobre, lavo o meu rosto e higienizo a minha pele. Depois, utilizo a minha fragrância favorita, com aroma floral e aveludado. Eu sempre fecho bem o meu perfume, mas o sono que sinto agora, me faz ficar sem forças. É. Eu acho que eu escrevi demais. Deixo o frasco na cômoda próxima à cama e paro de lutar contra o meu cansaço.

Deito-me na cama, bocejando leve, mas suficientemente profundo para deixar escapar um som sutil do bocejo. Apago a luz do abajur e o quarto finalmente fica escuro e agradável para o momento do meu sono. Nem consigo me cobrir totalmente, mas os lençóis deste lugar parecem me envolver, magicamente. Neste instante, posso sentir alguma presença próxima, dentro do Castelo, mas estou tão vulnerável agora que não conseguiria segui-la com as minhas lanças e vestida com a minha capa.

Um cheiro também invade as minhas narinas, e não é o meu. É um cheiro quase familiar, mas estranho. Estranho? Lembro-me do cavalheiro que as minhas vistas alcançaram em uma das noites anteriores. Se o vi nas matas, se aproximando, e logo depois o vi neste recinto, o quarto dele deve ser próximo ao meu. A minha intuição grita que há alguém perto. E o meu trauma zomba de mim, me dando a certeza de que é uma figura masculina, mas por que sinto isso? Por que sinto aquele homem tão perto?

O cheiro dessa presença é masculino, sinto, sei. Mas não me atreveria a explorar mais nada à essa altura. Por que sinto esse cheiro agora? E tão agradável? Por que eu gosto desse cheiro?

Lembro-me da minha adolescência, quando chegavam na vila estrangeiros trazendo especiarias. Eles vendiam esse cheiro e também tinham esse cheiro... Não. Eu não deveria gostar. Não devo nem ficar curiosa como estou agora, ainda que sonolenta. Foi um homem com um cheiro desse que desgraçou a minha vida.

Pesadelos... sempre eles. Devem ser pesadelos... Este lugar parece me pregar peças.

Estou deitada na cama, dormindo e uma espécie de paralisia do sono me acomete. Nela, uma silhueta toma conta do meu espaço, não o espaço que antecede o meu quarto, mas pior, o ambiente próximo à minha cama, de fato.

"Tem um homem no seu quarto... é ele. É ELE!". A voz zombadora insiste em minha mente. Mas ela zomba me revelando sempre a verdade... E o pesadelo não termina.

"Nauärah?", ouço meu nome em um tom de voz viril, firme e suave. Como se um desconhecido me chamasse.

Com muito esforço, quase me debatendo na cama, consigo despertar do transe. Os meus olhos se abrem e, apesar do escuro, a mesma silhueta está aqui. Um homem. No meu quarto. Próximo à minha cama. Não. Não pode ser... Uma figura que tanto temo... entrar dessa maneira no quarto de uma donzela?! Onde estão todos os meus líderes para defender-me agora? Onde estão os guardadores deste lugar? O que mais temo, acontece — estou sozinha e na presença de um homem estranho.

Penso em esticar o meu braço e pegar a minha flecha a poucos centímetros da cama. Parece que eu sabia que seria surpreendida e precisaria usá-la. Mas algo dentro de mim diz que não devo retribuir com agressividade. Ainda assim, estou temerosa, com a respiração ofegante e quase suando frio.

A única solução que encontro é ficar calma e respirar fundo, controlando a situação, como se eu realmente estivesse dormindo, e a figura se esvairá. Caso contrário, fingirei estar morta, porque morta é como desejo estar, se ele fizer algo contra mim.

Lembro-me das cenas perturbadoras há anos. A minha mente parece reviver tudo novamente, sem nada ter acontecido agora, e uma lágrima quente começa a querer chegar.

Espero, respiro e tomo a coragem necessária para encarar a silhueta que também me encara, através do canto dos meus olhos emocionados, e constato: É ele. A mesma figura vista pelas minhas retinas naquela noite através da minha janela. Agora entendo a sensação da sua presença e o cheiro... que exala todo o meu quarto e que odiosamente eu aprecio. Ele fica parado próximo à minha cama, o que faz o meu peitoral ficar arfante pelo medo e denunciar que eu estou acordada. Porém finjo que não estou vendo, então, aperto firme e discretamente o meu cristal caído ao redor do meu pescoço, encolhendo ainda mais o meu corpo, com impotência e medo, debaixo dos lençóis.

Eu não arriscaria dizer uma palavra, mas os meus ouvidos saberiam se, pela sua voz, ele é alguém de confiança ou não — aprendi a identificar tom de vozes. Quem dera seja um bom amigo ou algum guardador deste lugar, caso não, a minha flecha teria que assustá-lo hoje, pois isso não se faz com uma dama deitada em sua cama e com vestes particulares.

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Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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Perfeitos Estranhos - II

Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte […] A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte. Não me lembrava de como havia chegado ali, tampouco me apercebi de qualquer fonte lógica para o terror que me tomava. Certamente essa, e tantas outras respostas, haviam sido postas à sombra do meu ser, um local que, em definitivo, eu não teria acesso neste momento.

O outro fizera exatamente o que sugeri, em sonho. Pela primeira vez minhas sementes haviam dado frutos dentro daquele ser sugestionável e covarde que compartilhava do mesmo corpo, e mente, comigo.

Sem sorrisos, alegrias e quaisquer vestígios de bondade. Aqui, dentro destas paredes cinzentas e cadavéricas, eu me tornaria realizado. Seus mistérios, envoltos nos mais cruéis ardis, seriam o solo fértil para a concretude de meus mais íntimos desejos.

Dentro do Castelo, não havia limites.

Entretanto, da mesma maneira que eu me tornei um predador, outros também predavam neste território. Havia outros escritores, dispostos a alimentar a máquina carniceira que o castelo se tornara. Caçadores e vítimas. O topo e a base da mesma cadeia.

O outro me servira bem. Percorreu uma distância surreal e empreendeu recursos de forma exaustiva para chegar até aqui. Tudo isso sem, sequer, ter certeza dos motivos. Queria tê-lo como amigo, mas uma relação parasitária como a nossa, dispensa quaisquer interesses do tipo. O horror tomaria conta da sua alma se soubesse da natureza do castelo. Por isso precisávamos vir. É dentro destas paredes que o tempo, a lógica e a sanidade se corrompem e recaem sobre si mesmas.

Ainda é muito cedo para especulações. Muito precisa ser feito.

Para minha surpresa, compartilhamos da mesma visão. A figura feminina, misteriosa e distante, de dentro do castelo. Fui tomado pelo seu olhar arrebatador, impactante e desmedido. Pude sentir, mesmo estando à sombra, que meu colega também foi abatido por esse acontecimento. O Castelo brinca com as distâncias, com o tempo e com as emoções, e eu havia começado a ser manipulado por ele, mesmo distante das suas garras. A silhueta, mesmo ao longe, me parecia próxima. O peso de ser observado quase fez minhas costas curvarem.

Bem, tudo, daqui em diante, deveria ser examinado com cautela e inteligência. Tateei os bolsos e encontrei meus óculos. O outro não usava óculos. As lentes estavam imundas, descuidadas e completamente embaçadas. Arrisco dizer, com segurança, que notei um ou dois riscos. A falta de cuidado para com minhas coisas me aborrecia, mas consigo ser empático o bastante para compreender esse dissabor.

As portas se fecharam às minhas costas, em um som seco e amadeirado. Uma pequena nuvem de poeira me abraçou pelas costas e tingiu, gentilmente, toda a minha roupa. Era chegada a hora de explorar os ambientes internos desta obscenidade.

O salão principal era amplo, teto alto e com uma infinidade de caminhos possíveis. Deduzi a direção que deveria seguir para chegar à janela do curioso espectro que me observou enquanto chegava.

...

A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido, ainda que estejamos em cômodos distantes. Ouço, então, o ranger da colossal porta a se abrir. A minha intuição briga com a possibilidade de não ser tal figura que avistei ao longe nas matas atrás do Castelo.  

Apesar de calejada pelas experiências funestas que ocorreram em minha vida, estou intrigada. A curiosidade rouba os meus princípios e todas as regras que eu estabeleci para mim mesma. A voz interior ainda me questiona se devo fazer o que estou imaginando. Mas o meu espírito aventureiro é grandioso demais para recusar os riscos. 

Coloco um roupão que me cobre ainda mais, como uma capa em tom canela, escondendo o damanoute que me veste, escondendo o meu corpo quase completamente. “Cuide do teu corpo. Ele é um templo.” A lembrança da voz maior me orientando ressoa na minha mente. 

Aproximo-me da porta do meu quarto e abro. O ar gélido do Castelo, bem como o som da antiga música do baile anterior parece ecoar, ainda, em meus ouvidos. Mas não mais do que o som de passos que começam a me confirmar que é aquela figura que vi nas matas.  

Do alto, ainda escondida em frente à porta da clássica alcova onde me hospedo, o vejo, vejo mais próximo. A balaustrada traz espaços em filigranas, onde o rosto baixo e reto do homem se encaixa simetricamente. Agora as minhas certezas ganham forças e uma emoção dolorosa me encontra. É a primeira figura masculina que os meus olhos percebem depois de tudo. Os únicos homens cujos quais tenho vivência são os da minha família, vizinhos xamânicos e indígenas da região onde eu estava morando.  

Percebo que há muito para relatar sobre esses estudos que resolvi fazer. Mas o que este homem está fazendo aqui no Castelo? Ele veio me importunar? Quase me arrependo de ter vindo para este lugar. Mas seria muito luxo e muita exigência da minha parte que este grandioso recinto hospedasse apenas mulheres.

 “Homem”. Respiro. A palavra precisa soar natural para mim. Preciso parar de temê-los. Por que tenho medo deles desta maneira? Nem todos são iguais àquele ser, eu sei, não são.  

Encosto-me na balaustrada e a magia do lugar parece querer trazer alguma percepção ou conexão entre mim e a figura masculina. Ainda assim, disfarço bem, para que ele não note a minha presença o observando. Torço, ainda, para que o meu perfume natural não me denuncie, espiando-o na parte alta do Castelo, escondida na balaustrada em frente a alcova.  

Quase não respiro, enquanto ele parece se direcionar a um alvo. O que ele vê? Penso em voltar para o meu quarto, antes que essa figura me alcance com o seu olhar. Não quero ser percebida. 

Talvez, se eu buscar um arco e uma flecha, eu me sinta mais segura, mas algo dentro de mim pede para não o machucar sem antes saber quem ele é. Pela recepção que tive anteriormente, estou segura. Nem mesmo devo ousar direcionar a lança em sua direção. Não posso. Sinto que não devo. Aqui ninguém me fará mal. 

Fico apenas pronta para recuar rapidamente ao meu quarto, se por um acaso ele me perceba. O capuz que cobre a minha cabeça deixaria alguma incerteza para ele, de que talvez eu não fosse um ser tão indefeso assim, como ele percebera da minha janela, ao longe. 

 

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Texto publicado na 7ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de julho de 2024. → Ler edição completa

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Perfeitos Estranhos

Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de […] | Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui […]

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de sol, para que eu me dirija para as matas lidar com os animais perigosos? Não... eu não estou em meu país — preciso lembrar.

Lentamente, ainda no escuro, levanto-me da maciez dos lençóis de cetim e sinto os meus olhos ainda sonolentos, se ajustando à baixa luz da alcova onde me encontro. 

Ao me aproximar da janela deste quarto no antigo castelo, os meus olhos se fixam nos majestosos montes que se erguem ao longe. Lá, entre os mistérios da madrugada, surge uma silhueta, e mais do que isso, uma figura solitária, destacando-se contra o horizonte sereno. Um homem, cujos contornos se misturam com a imponência das montanhas distantes.

Minha feição muda para um possível receio, enquanto observo aquele estranho visitante. Uma sensação indescritível me envolveu, um misto de curiosidade e medo, como se o universo tivesse conspirado para que eu visse alguém a uma hora dessas.

Me afasto do grande vidro, rogando a Tupã que aquilo não tenha me enxergado assim como eu o enxerguei e vou correndo até a porta do quarto conferir se está mesmo trancada. Eu poderia buscar à Olga Nivïttiz, mas preciso me controlar e dominar os meus medos. É só um andarilho, vizinho, talvez. Ou será mais um residente do Castelo? Não, não sou capaz de ver nenhuma figura masculina em minha frente. Bastam todas aquelas pessoas estranhas que vi na grande embarcação cuja qual me trouxe até aqui. 

Preciso registrar tudo, tudo, para mostrar aos meus líderes, à minha família. Busco meus papiros e sento-me na escrivaninha que me é possível, próxima ao dossel onde estou descansando, e escrevo, relato, amedrontada, mas o faço. 

Meus lábios se entreabriram, tentando questionar tudo isso comigo mesma, mas nenhuma palavra escapa deles. Eu permaneço aqui, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse dissipar a visão diante de seus olhos. 

O vento que escapa de uma fresta discreta brinca suavemente com as cortinas de renda, criando uma dança etérea ao redor dela, enquanto meus pensamentos se perdem na figura misteriosa lá fora que eu acabo de vislumbrar.

Eu posso sentir a pulsação do meu próprio coração, cada batida ecoando no silêncio da madrugada. O desconhecido nos montes parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Uma inexplicável sensação de conexão se estabeleceu, como se “aquilo” pudesse compreender-me ou, até mesmo, ter vivido uma história similar à minha. Muitas vezes, histórias se cruzam e eu preciso parar de temer as pessoas, preciso parar de pensar que todos os seres masculinos são diabólicos e monstros. Talvez até eu ganhe um amigo-irmão um dia. É o que vibra em meu coração, como se houvesse um fio invisível de verdade. Para isso eu preciso parar de acertar homens com a minha flecha. Não farei mais isso. Não aqui. Com ninguém. Prometo para mim mesma. 

Com um suspiro involuntário, me aproximo novamente da janela e não mais o vejo. Será alucinação? Alucinose? Ele desaparece dos meus olhos, mas a imagem do homem nos montes permanece gravada em minha mente. E se ele se aproximou do castelo e conseguiu entrar? Fecho os olhos, como se assim eu sentisse mais veracidade e sensibilidade no ambiente e percebo que ele pode ter adentrado no castelo. Ele está presente neste lugar, sei que está. Olho novamente para a porta e me acalmo. Por mais presente que aquela criatura Indecifrável esteja, ela não será capaz de adentrar às portas das alcovas particulares deste grande recinto. 

O mistério daquele quase encontro noturno paira no ar, deixando-me ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos que o destino reserva para mim neste castelo. 

...

Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui. Abracei o incerto, o irreal, abandonando minha vida anterior atrás de algo que, à princípio, me parecia um mero devaneio, mas agora é angustiantemente verdadeiro.

Juntei todas as economias que pude, me desfazendo de todos os bens que me cabiam, para poder partir com todos os recursos possíveis. Após dias e mais dias de uma jornada cruel e longa, cheguei a um pequeno povoado. Muitos idosos, poucos adultos e nenhuma criança. Este último fato me causou um desconforto visceral e inesperado.

Eu deveria esperar pela carruagem que me levaria pelo último trecho do meu caminho.

Os moradores mal se dirigiam a mim, e quando eu os forçava, por meio de minhas diversas e invasivas perguntas, eles condensavam suas respostas ao mínimo possível, apenas me indicando onde esperar pelo cocheiro.

O povoado era pequeno, bem pequeno para os meus padrões. Úmido, escuro, quase pútrido. Não esbarrei com uma dúzia de pessoas, o que me causou uma estranheza exponencial.

Conforme o esperado, a noite chegou, e o cocheiro também. Eu seria seu único cliente, se é que posso me identificar desta forma. O sujeito vestia um manto escuro, denso, velho e maltratado. Era pouco mais baixo do que as outras pessoas que observei, embora sua estatura reduzida não condissesse com sua força sobrenatural, a qual demonstrou ao erguer minha única mala, desprezando totalmente o peso exagerado.

A viagem seguiu sem maiores intercursos. Não trocamos palavras, nem olhares, nem coisa alguma. Seguimos floresta adentro, por uma trilha que mal era visível. Me questionei quantas vezes ele teria realizado aquele caminho… Inúmeras, talvez.

Após uma subida íngreme e desleal, ele parou. Senti uma estranha angústia descer pela garganta e tomar conta do meu estômago. Não o vi descer do banco frontal, tão pouco ouvi retirar minha mala de trás da diligência. Abriu a porta lateral e fez menção para que eu saísse. Senti que, se ousasse desafiar sua sugestão, seria estripado e largado à própria sorte.  Estava acuado, como uma presa indefesa, mas segui a ordem.

Não pude localizar o povoado, nem me esforçando para tal. A floresta era densa e escura, iluminada por poucos pontos de luz, espaçados, que indicavam a presença de lamparinas. No segundo seguinte, tanto a diligência quanto o cocheiro haviam desaparecido, sem deixar rastro ou som algum. Nada ali fazia sentido, tão pouco o que eu presenciei em seguida.

O Castelo erguia-se imponente, tal como uma entidade sobrenatural, atemporal e titânica. A morte reinava em cada torre, cada quarto, cada porta e janela. Tudo me causara terror, mas não o terror que eu já conhecia, e que escrevia em minhas obras, mas sim um terror feroz, cruel, brutal, rígido e ávido por sangue.

A ânsia e o desespero congelaram cada músculo do meu corpo, de forma que levei alguns segundos, ou horas, para me recompor. Minha cognição estava prejudicada, talvez pela longa viagem, talvez pelo espanto, talvez pela falta de tabaco.

Balancei a cabeça, tentando me ater ao último fio de sanidade que me restara. Foi quando meus olhos me pregaram uma peça cruel.

Pude ver, dentro do Castelo, uma figura feminina. Sim, claramente uma mulher. Soube, dentro do meu ser, que ela também havia me visto, apesar da generosa distância entre nós.

Havia vida dentro daquelas paredes, restando-me descobrir que tipo de vida era aquela. Poderia, também, ser uma penosa e bem delineada armadilha. Eu poderia estar sendo guiado para um abatedouro, destinado ao fim mais mórbido que meu lado pessimista pudesse imaginar.

Antes que eu pudesse conceber qualquer pensamento concreto, a figura desapareceu, fechando as cortinas da janela. Ela era real. Real e viva, tão viva quanto eu. Fora este o momento oportuno para que eu pudesse recobrar o controle sobre minhas pernas e caminhar em direção à porta do Castelo.

Faço uma pequena e rápida prece aos deuses e bato à porta.

Ela se abre sozinha.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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