Menel Lomë II - Uma busca fútil

Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo. Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo.

Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?

Essas perguntas remoíam seus pensamentos.

Já caminhava há horas, e não conseguia sair da margem. A areia da praia já começava a incomodar sua pele fina e fria como cinzas.

Foi então que ele avistou uma esperança.

Um rastro dela.

Um sapato parcialmente soterrado pela areia.

Ele correu, esquecendo que estava sem forças, esquecendo onde estava. Só pensava que havia encontrado algo, algo que o levaria até sua alma gêmea. Era a única coisa que importava. Era a única coisa que ele queria.

Pegou o sapato como se fosse a flor mais delicada, e o analisou como se olhasse uma obra de arte.

E, então, Menel não estava mais na praia.

 

Sua visão escureceu por um segundo — apenas um segundo — e ele se viu em um lugar escuro.

Uma escrivaninha sanguinolenta.

Manchas secas. Manchas frescas. Algo brilhava sobre a madeira escura, algo que ele não queria identificar. O cheiro era metálico, doce, insuportável.

Menel correu para longe, mas não conseguia se afastar. Não conseguia se aproximar. Quando se virava e corria em outra direção, a escrivaninha estava lá, à sua frente. Como se o perseguisse. Como se o chamasse.

O sangue na mesa parecia se mover. Lentamente. Escorrendo para as bordas, pingando no chão com um som úmido e aterrorizante.

— Não... — sussurrou Menel, a voz falhando. — Pare!

Mas o lugar não perguntava o que ele queria.

 

Então ele piscou novamente.

E voltou à praia.

Suas mãos agora estavam manchadas com o rubro do sangue. Manchas frias, pegajosas, que se espalhavam pelos dedos e sujavam o sapato que ele segurava com tanto cuidado.

Menel não se aguentou.

Caiu de joelhos. O sapato rolou para o lado, parcialmente enterrado na areia molhada, agora também manchado.

Ele olhou para as próprias mãos. Para o sangue que não era dele. Para o horror que aquele mundo lhe trouxera sem aviso.

— O que é isso? — perguntou em voz alta, para ninguém. — O que vocês querem de mim?

O vento respondeu com silêncio.

Ele ficou ali por muito tempo. Ou talvez apenas alguns segundos. O tempo naquele lugar não obedecia às regras que ele conhecia.

Aos poucos, a respiração voltou ao normal. O coração ainda batia forte, mas já não parecia que explodiria. Menel limpou as mãos nas roupas, o sangue saiu, mas a sensação ficou. Uma ardência invisível. Uma memória na pele.

Ele olhou para o horizonte. Para o mar escuro. Para o céu de cor incerta.

Iria buscar sua amada. Iria salvá-la.

Mas será que sobreviveria ao horror que encontraria em cada beco? Em cada visão? Em cada escrivaninha sangrenta que o chamasse?

Menel pegou o sapato novamente. Limpou na areia. Guardou-o junto ao peito como uma promessa.

E continuou caminhando.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Caellum Noctis, Parte III - Vestígios de Lembrança

— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei. Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu: — Sei. — Então me leve até lá!…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei.
Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu:
— Sei.
— Então me leve até lá! Me diga o caminho.
Ela entristeceu. Depois de uma longa pausa, suspirou e disse:
— Caellum, eu sinto muito…
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ela continuou:
— Vá para o castelo. Suas memórias estão lá em algum lugar. Com eles. Você... você as encontrará...
— Mas?
Ela hesitou novamente. O silêncio entre nós se alongou como um corredor sem fim.
— Mas?
— Nada. Deixa pra lá. Você sempre faz isso… — disse, caminhando até a porta.
— Vá. Não perca seu tempo comigo de novo. 

E eu fui.
Saí de lá com mais perguntas do que quando entrei.
Caminhei pela estrada de terra por alguns minutos, até começar a avistar o castelo. Era magnífico — uma estrutura gigantesca, com torres por toda parte. Se minhas memórias estivessem lá, seria muito difícil encontrá-las em um lugar tão grande.
Mas, mesmo assim, segui.
O caminho até o castelo era fácil de percorrer. Depois da estrada de terra, encontrei uma bifurcação que me levou a uma estrada de pedra, e então, aos arredores do castelo que exibiam um lindo jardim. E por mais que estivesse com pressa, parei para observar um pouco.
Era lindo. Como se alguém cuidasse dele todos os dias.

Então me adentrei no castelo.
E uma forte dor de cabeça invadiu minha mente. Segurei a cabeça com as mãos, tentando fazer aquela dor parar.
E então me lembrei.
De novo.
Eleine.
Ela estava sorrindo. Tocando meu rosto com afeto.
Esqueci da dor por um segundo.
Quando finalmente parou, consegui lembrar de verdade.
Ela era minha esposa.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.

Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.

O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.

Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.

Ele a havia visto três vezes.

Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.

Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.

Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.

Pensou demais.

Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.

A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.

Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.

Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.

E então ele sumiu, tudo sumiu.

Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.

Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.

Menel se levantou e disse:

— Onde ela está?

O homem, em silêncio, apenas sorriu.

— Ela já se foi.

Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:

— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.

— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.

Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…

— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.

E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.

Um segundo depois, sua visão retornou.

E o homem e a criança já haviam desaparecido

Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:

Na areia.

Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.

Estava perdido.

Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.

Só não sabia por onde começar.

Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.

Mas não encontrou nada.

E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Caellum Noctis, Parte II - Minhas Memórias

Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico.

Aos poucos, minha visão se ajustou e comecei a entender onde estava, mesmo que isso fosse irreal. Eu tentei entender, mas acho que enlouqueci, pois nada do que conseguia ver parecia real. O céu era vermelho, o rio era brilhante e o cheiro parecia velho e antigo. Apesar de estar ao ar livre, era como estar preso em uma sala empoeirada demais.

O azulíneo do rio brilhava ou parecia brilhar. A luz iluminava apenas o suficiente para que minha imaginação completasse o resto — formas que se moviam nas bordas da visão, sombras que podiam ser árvores ou coisas observando, esperando o melhor momento para atacar.

Aquele lugar era hostil, eu podia sentir. Mas não era uma hostilidade comum, era como se qualquer coisa pudesse me matar... a qualquer momento..., mas escolhia esperar, escolhia não ter que caçar e apenas esperar para quando eu não pudesse mais fugir.

E então, eu a vi.

Como se sempre tivesse estado ali. Me observando.

— Eleine — sussurrei, esperando que meus olhos e minha mente entrassem em acordo sobre aquilo ser real ou apenas minha mente pregando uma peça.

Não era possível. Não podia ser ela. Era fácil demais.

Mas meu peito não queria saber. Ele acreditava. E isso é o poder que a imaginação tem sobre os homens apaixonados…

Descobri depois o poder daquele azulescer. As plantas que pareciam chorar sangue tinham algum efeito sobre a mente. E eu fui apenas mais uma vítima.

A última coisa de que me recordei, antes de desmaiar, fora seus cabelos: pretos de um lado, uma mecha branca do outro. Ela se ajoelhou perto de mim, e eu pude ouvir sua voz preocupada, perguntando-me se estava tudo bem.

E então…

O vazio.

Quando acordei, estava deitado em uma cama dura. Minha boca tinha gosto amargo, e minha mente continuava nublada, como um quebra-cabeças com peças faltando. Se recuperei alguma memória ao vir para cá, eu a esqueci novamente.

— Vejo que acordou — disse uma voz.

Suave. Melodiosa. Quase sedutora.

— Tive que cuidar de você e te tirar de lá. Aquele lugar é difícil para recém-chegados.

Segui o som da voz, procurando de onde vinha. E então a encontrei.

Ela era diferente da mulher que vi na minha ilusão. Não era Eleine. Eu não conseguia sentir o desejo, o amor, o prazer que me atravessavam quando pensava no que Eleine significava. Aqui, havia apenas curiosidade. E cansaço.

— Quem…? — tentei perguntar.

Queria fazer tantas perguntas: “Onde estou? Quem é você? Onde encontro respostas sobre mim?”. Queria saber tudo, mas não sabia como me expressar. Minha cabeça doía. Minha boca não falava o que eu mandava.

— O remédio ainda vai levar um tempo. — Ela se aproximou, sentando-se numa cadeira ao lado da cama. — Os efeitos colaterais… bom, tudo ainda vai levar algum tempo para melhorar. — Ela colocou a mão em minha testa, sentindo o calor do meu corpo, me examinando.

Ela me observou em silêncio por um momento. Os olhos dela eram estranhos, de uma cor que nunca tinha visto antes, de uma cor que não existia. Mas ali, era tão real quanto qualquer coisa. Se é que alguma dessas coisas eram reais.

— Não sei por que está aqui, estranho — ela continuou, inclinando a cabeça. — Mas talvez tenha seus motivos. Todos têm.

— Quero... quero encontrar minhas memórias...

E eu pude notar sua expressão, ela sabia o que eu estava procurando, ela sabia quem eu estava procurando.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?

Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.

Eleine Gallhan.

Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?

A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.

Ela mentiu, pensei.

Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.

Por que...? Por que não consigo me lembrar?

Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?

Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.

Como você era?

Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.

Eu preciso lembrar!

Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.

O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.

— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:

“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”

— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.

E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.

Quem é você, Eleine Gallhan?

Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.

Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.

Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.

— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.

Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.

— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.

Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.

— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?

E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.

— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.

Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.

— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.

O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.

Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.

Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.

Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.

— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.

O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.

E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.

Eu não estava mais em lugar nenhum.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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