Mar de Escuridão

As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
(Augusto dos Anjos)

 

As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma tarefa exaustiva; cada braçada parece arrastar correntes invisíveis presas aos meus membros. Quando finalmente eu alcanço alguma praia esquecida, encontro apenas areia fria e um horizonte coberto por névoa. Ânsia.

Às vezes consigo acender uma pequena fogueira sob o olhar pálido da lua crescente. Por alguns instantes, observo o vasto oceano negro diante de mim e quase esqueço a agonia que habita minhas entranhas. Mas o alívio dura pouco. Logo, a escuridão profunda infiltra-se através da pele, dos olhos e dos meus ossos. Ela pesa sobre mim encharcada, roubando minhas palavras, dobrando minha vontade à dela e tornando cada passo adiante uma batalha contra o próprio abismo. Tontura.

A Escuridão, esta criatura densa e disforme, se personifica e senta ao meu lado, tocando o meu ombro, sussurrando vozes dissonantes carregadas dos meus piores anseios e fracassos; fantasmas que nunca sepultei. As vozes parecem ter vontade própria, elas rastejam pelos corredores da minha mente e a Escuridão se torna um abraço que envolve o desconforto, o medo e a ansiedade. Pouco a pouco, se transformam em um abraço familiar. Um abraço sufocante, porém, estranhamente acolhedor, que envolve o medo, a ansiedade e o desconforto até que se tornem indistinguíveis de mim. “O sonido agudo e áspero que se difunde ecoante e ininterrupto será a fonte da minha loucura? Agonia.”

Há dias em que observo meu reflexo e encontro apenas algo estranho sob minha pele. Seu rosto é o meu, mas seus olhos pertencem a um brilho opaco. A cada amanhecer, sinto-me mais distante das pessoas. Não por desprezá-los completamente, mas porque reconheço nelas a mesma matéria que alimenta minhas feridas. Afinal, a arte, a música, a literatura e até mesmo as cicatrizes da alma carregam as marcas da humanidade. Mesmo assim, quando você começa a se odiar, é difícil não odiar seus semelhantes. A natureza intocada e insondável é um refúgio!

Quando durmo, sinto um peso descer sobre meu peito. É a mesma Escuridão que me acompanha durante os dias, mas que à noite assume formas mais cruéis e definidas. Apagar as luzes transforma-se em um ritual de enfrentamento. Figuras arabescas e medonhas começam a se contorcer nos cantos do quarto. Elas observam em silêncio, aguardando o momento oportuno para devorar meus pensamentos e alimentar-se de minha essência. A paralisia me encontra.

Em minha mente habita um oceano profundo e agoniante, onde a Escuridão parece possuir matéria própria. Suas águas negras estendem-se até onde a razão não alcança, ocultando criaturas e lembranças que jamais deveriam emergir à superfície de meu inconsciente. Durante os devaneios que interrompem os afazeres mais comuns do dia, uma súbita petrificação me toma totalmente. Por alguns segundos, que se alongam como eternidades, minha consciência mergulha até o abismo interior repleto de olhos cadavéricos e sem pálpebras, todos a me encarar.

Então, eu as vejo:

Figuras esguias de longos cabelos negros, flutuam sob as águas escuras. Seus corpos dançam lentamente nas correntes profundas como se obedecessem a uma música fúnebre que apenas elas podem ouvir. Às vezes afundam, às vezes, retornam à superfície. Seus braços pálidos e esquálidos rompem as ondas e suas mãos estendem-se para o alto em um gesto desesperado, como se buscassem uma saída daquele reino submerso.

Não sei quem são.

Talvez sejam os restos de sonhos que abandonei. Talvez sejam versões antigas de mim, afogadas pelos anos, pelos medos e pelas renúncias. Ou talvez sejam apenas as filhas da ansiedade, eternamente condenadas a emergir e afundar nas águas escuras da minha própria alma...

A Ansiedade habita as profundezas desse oceano. Vejo apenas seus dedos longos surgindo entre as ondas para agarrar meus tornozelos. Acima das mãos fantasmagóricas que se debatem sob a superfície, ela se ergue envolta em suas próprias trevas. Alta e disforme, estende os braços em direção à lua alva que tantas vezes me salva, como se desejasse alcançá-la. Como se quisesse apagar a única luz capaz de atravessar seu reino de sombras.

Por vezes, desenhei tal devaneio em rabiscos soturnos de tinta negra sobre as páginas empoeiradas dos meus velhos cadernos, tentando compreender o que afirmavam aquelas figuras espectrais e as águas tortuosas que habitam minha mente. A sombra eterna e sublime sempre me aguarda lá dentro. No fundo do inconsciente e nas cicatrizes do coração, ela sempre retorna. Às vezes, penso que ela assombra quem sou. Outras vezes, temo que assombre quem eu poderia ter sido.

O que posso fazer com estas sombras além de adorá-las? Devo adorá-las ou fugir delas? Talvez elas sejam o próprio mar. Algo sempre me diz que não adianta tentar destruí-las quando já são profundas em minhas entranhas, quando as figuras esguias e fantasmagóricas de meu próprio eu são fragmentos do meu próprio espelho. A figura que mais temo em minha mente aponta sempre para o alto, envolta em um manto negro, suas garras quase alcançam o céu de minha mente. Como afogar espectros que nasceram das mesmas águas que me deram forma?

Temo que ela alcance o exterior do meu corpo. Não porque deseje destruir-me o que é provável, mas porque receio descobrir que jamais existiu separação entre nós. Que minha essência não venha a ser totalmente arrastada para as profundezas da escuridão, mas que retorne ao lugar de onde nunca realmente saiu.

— E se eu sempre tiver pertencido a ela?


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Já houve dias de calmaria, dias de tempestade. Já houve uma época que eu nem navegava. Por que raios fui me enfiar neste mar?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Já houve dias de calmaria, dias de tempestade. Já houve uma época que eu nem navegava. Por que raios fui me enfiar neste mar?

Minha embarcação não está apta para navegar em águas tão inóspitas, as ondas jogam-me pra lá e pra cá, penso em desistir... Não estou acostumada às provas que essa vida náutica me impõe.

Por outro lado, sinto que se não fosse os dias sombrios e devastadores, eu nunca haveria aprendido, eu nunca haveria me tornado perita nesse assunto, são as mazelas que nos transformam em algo superior ao que erámos, nossa evolução de nós mesmos. Isso que importa.

Continuo na esperança de avistar minha ilha perdida, aquela que trará meu refúgio terrestre. Como se todo esse sofrimento fosse recompensado no imediato momento que percebo aquele pedaço de terra, ali, boiando sob uma imensidão de água. Como somos pequenos!

Somos um nada em relação ao tudo, tudo que não consigo entender, tudo o que está lá fora. Se nem consigo entender tudo o que está aqui dentro, ora, que dirá o que rondeia lá fora. Ademais, essa minha cisma de entender o porquê das coisas já passou há muito tempo, porque entendi que entender é nada em relação ao sentir o que preciso sentir. Só não aprendi a ser menos confusa, isso me é quase impossível!

No entanto, há algum tempo já atraquei em uma ilha, muito bonita por sinal, tranquila e inabitada, um paraíso nesta terra. Tinha um ambiente agradável e belezas indescritíveis. Era tanta paz e sossego que me irritou, e não consegui permanecer nem mais um segundo ali. Retornei para o meu mar, agressivo e intempestivo. Eu corri para seus braços de amor, amor que reconheci na hora em que ele começou a me jogar para lá e para cá novamente.

Acho que finalmente entendi o porquê de ter me enfiado neste mar, só acho que não estou preparada para a resposta. Talvez deva permanecer quieta e continuar a manter essa incógnita para mim mesma, talvez eu deva continuar me enganando. Talvez eu deva parar de procurar outra ilha, porque eu pressinto que irei me irritar novamente, porque eu sou assim. Talvez minha felicidade não dependa de um paraíso, mas provenha e necessite do caos. Talvez eu esteja só divagando no nada, talvez eu nem exista. Talvez...


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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