Diário de Dantesca Nínmia — Trecho nº1

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria, atravessara a contenção, encontrando-me de súbito, com sua aparência asquerosa e dentes afiados. O líquido negro de sua constituição vertia sobre o derredor, enegrecendo ao violeta profundo as nuvens características do reino… eu temi, por um momento… temi não ser capaz de contê-lo. 

Seu sibilo e grunhido eram terríficos! Sem olhos, a criatura parecia guiar-se apenas pelo som; raízes cinéreas escurecidas formavam a sua asquerosa fisionomia. Para ser tão poderosa assim, receio que não venha d’um pesadelo qualquer, mas sim d’um abíssico trauma. Não encontrei sua origem ainda, contudo, tenho esperanças. Por hora, exausta me sinto… conter a criatura terrífica esgotou meu poder a um nível mortífero…

Adormeci pouco após o incidente com aquilo, e receio que a mórbida coisa penetrara em violência o meu sonhar — ou o pretendia fazer, pois, tive pesadelos de uma estranheza absurda! Parecia-me que a criatura me observava, mesmo destituído de visão. Lorrt tem cuidado do meu sono, quando me esgoto em perturbações, todavia, sei que ele está passando por um momento difícil que o está atormentando… parece que Somníria trouxe Áurea para ele, isso… me intriga, pois… é perigoso, é um risco imensurável para o Somníria e para todos nós.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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“Hibisscuss”

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.

Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.

Embora lindo, era… estranho…

O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…

Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.

Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.

Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…

Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

Lar de Breu-Mármore e Rubi

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro, espargido pelo firmamento instável. Abaixo dele, um oceano de mármore preto tal a noite que se via, por vezes, entre as clareiras do céu, criadas pelo vento intenso e amedrontador. Noite e dia; um entardecer melancólico, um paradoxo único. Das sombras no mármore, o fogo queimava na cor do sangue mais puro entre vilas cujas casas erguidas eram como ruínas de uma ancestral civilização. 

Meus pés aquecidos, o frígido sopro oscilava os galhos dos secos carvalhos mais próximos e, conforme eu caminhava, os arbustos de flores se faziam presentes como um jardim etéreo; flores símeis às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; eram leves como penas, rarefeitas pétalas brilhantes em cor negra-sublime com nuances carmesim. Espinhosas como as rosas, fascinantes como tudo o que habitava aquele lugar. Por quanto andejava, sentia a melancolia em meu peito. Desejei tanto adormecer sob tal lumiar coralino, enquanto a névoa negra dançava acima.

Nada, todavia, era mais deslumbrante que aquele castelo; em torres pontiagudas, esculpido em atro mármore e bruto rubi; desvelou-se a mim quando subi em outras ruínas, como antigos lares destruídos pelo tempo. E lá estava a sua inconcebível arquitetura. Intui um dever profundo de adentrar os seus umbrais e continuei minha marcha até que tal feito fosse realizado. Encontrei nímios frutos pelo rumo, nas veredas e pontes; eram tão semelhantes às uvas, de uma doçura apetitosa. Ainda que estas árvores frutíferas e outras plantas se movimentassem pelo ventanear; ainda que o mármore rachasse, vez ou outra; e o fogo ardesse, crepitante, por onde os olhos podiam enxergar; o silêncio beijava ao derredor, sem medo.

Então, ouvi som de queda d’água e sorri; sentia sede. Subi sobre mais escombros e alcancei uma pequena fonte ornamental próxima ao palácio sombrio. A água era negra, fluída, aprazível. Lavei com ela o meu rosto, renovando minh’alma que, na verdade, parecia distante de mim. Dali, portanto, fui à entrada da monumental maravilha em sua tétrica constituição. Seus umbrais gigantes se abriram para mim, sem que eu precisasse tocar em sua aldrava. Havia um lago em seu interior, colunas esculpidas com anjos e seres míticos; a luz do entardecer carmim adentrava os vitrais criando uma iluminação fascinante. À frente, um imenso trono de veludo encarnado.

Não me dirigi ao trono, ponderei sobre quem seria, pois, digno de tamanha magnificência. Em resposta à minha íntima indagação, passos ecoaram e, fitando na direção do que ouvia, avistei um homem forte. Seu corpo era como de um deus, e tinha uma tez com cicatrizes em sua fronte. Seus olhos eram rubros e brilhantes, uma roupa negra e régia o cobria. Era de uma beleza inenarrável. Tinha cabelos finos e curtos — os quais se movimentavam como as pétalas vistas outrora pelo caminho. Era um homem alto, sua força era visível e majestosa; se próxima a ele, decerto me sentiria como uma pequena criatura ínfima. Olhava-me, ele, atento e sério. Tão diferente de mim… eu que estava descalça e com meus soltos cabelos orvalhados pelo clima, sofrível, pois marchava no mármore. Decerto não éramos da mesma origem.

 — Estás em meu reino, em meu palácio. Bebeste de minha água e aqueceste os teus pés em meu mármore. Admiraste meu jardim e desejaste tocar o veludo de meu trono. — Dissera em tom sereno e grave, como um trovão sob controle. — E não sabes sequer o meu nome. Ao menos sabes como chegaste até aqui? — Indagou e sua voz que me embargava, assemelhava-se a um vinho de doce aroma e seco sabor. Prostrei-me ao chão, pois reconheci, em meu âmago, que estava de frente a um ser majestoso, um rei de um reino carmesim.

— Perdoe-me, vossa alteza. Despertei à beira de um oceano e, invitada por um ser de poética nume, adentrei seu pequeno barco e ouvi seu lirismo melancólico até descer nas vossas terras. O ser poético fora uma ilusão, transfigurado em pedra, uma estátua devaneada por mim. Não compreendo mais nada além disso e fui enlevada pela sublimidade de teu grandioso castelo. — Disse, célere; respirei profundamente ao término e mantive-me de joelhos. O silêncio pairou por longos instantes.

— Levanta-te. — Eu o obedeci. Era agradável retornar meus olhos ao seu austero semblante. — O Sonurista da Morte não é uma ilusão. Não compreendo, todavia, a razão pela qual ele te trouxe até meu império. Vês? — O ser estendeu sua mão esquerda e os umbrais de seu palácio se abriram ao seu comando. Então vimos a paisagem em completude, um reino carmim e negro, envolto a fogo rubro, mármore-breu, lava, rochas ígneas, ventos, natureza morta e flores raras; era lindo e solitário. — Este é o Inferno. — Explicou, todavia, não compreendi. — Sou o rei do Inferno há éons, incontáveis noites, inumeráveis dias. Esta é a minha terra, de rara beleza.

— Como tu és, vossa majestade. — Sussurrei, senti-o me encarar. — Perdoe-me, majestade. Apenas devo dizer que se cá estou, então, devo servir-te… não há nada em mim… há nada que sou… nem mesmo tenho nome… — Eu não tinha memória do antes de despertar naquela areia negra, com a água negra daquele oceano em meus pés. Sequer um nome eu tinha, ou uma história. Voltei-me ao rei, aproximei-me devagar. 

— Teu nome será Líria, pelo lírico perfume doce que emanas e pela poesia vestal dos teus olhos. — Reconheci-me Líria, intimamente. — E deverás chamar teu rei pelo nome que o pertence… Ahzaez. Eu sou Ahzaez. — Afirmou e manteve seus olhos em mim, olhos de raro rubi.

— Ahzaez… — Sussurrei e, para ele, sorri.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

A Lenda de Ohropo e Sepulcro

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada, retorna ao seu corpo sob um manto negro e pesado — vertendo abismo. Deste modo, quando Ohropo olha em direção ao som violento, a noite está ofuscada e, murmurando, ela ascende em seu coração um temor inominável que, de súbito, outorga-lhe nítidas memórias hediondas. Instável, caminha pelas sombras, e lamuria. Compreende que seu destino inconcusso, na tarefa imorredoura de irrigar o mundo humano com seu aspecto soturno, é o sentido primevo da sua criação — e desta fatalidade ele não pode esgueirar-se, mesmo que resida, no seu mais íntimo ser, um pequeno esplendor de desejo cuja emersão advém em uma indagação longínqua, uma dúvida ínfima, um tão-somente “por quê?”.

— Qual horizonte teus pronos olhos à maldição perscrutam? — A voz que indaga possui um sibilo indistinto, de entonação lôbrega como o canto gregoriano. É Sepulcro. Ohropo volta-se devagar a Sepulcro que se orvalha na cinesia do frígido vento crepuscular; é bela como anjos lapidados pelas covas que a compõe. Ohropo nunca vira Sepulcro.

— Quem és tu? — Sonda Ohropo cuja voz é franzina em angústia.

— “Quem sois?” é o que consultas, pois que não me restrinjo a uma. — Responde Sepulcro, altiva.

Há custosa aflição à fronte de Ohropo cuja verve falecera no primeiro despertar ao entardecer, quando em seu cerne ainda habitava a si mesmo e quando suas mãos eram retratos pulcros de desgraça e sangue. Naqueles tempos, Ohropo vociferava, plangia, e nada mais.

— Vejo... És as mortes todas... — conclui, pelo que vê, através de seus olhos ainda semicerrados em ranzinza tragédia.

— Ora, que proseio contigo do além? Nada disso. Estou à vida como tu estás ao teu caminho, sempre fiel — ufana Sepulcro, elegantemente.

— Sempre fiel... — Ohropo repete, pois está confuso, algo no âmago da sua tétrica constituição oscila.

— Leva-me contigo, — implora Sepulcro — posso deixar menear teu fardo no interior de meu cálice que há de envolvê-lo em sua seiva sepulcral.

— Não posso... — Ohropo responde e suspira — Este fardo é horrendo, há de desolar todo o vosso encanto.

— Há nada que me ascenda o temor — teima Sepulcro.

— Impossível... — insiste Ohropo — Pavores são o soprar da aragem fria, e são o agora, o amanhã, o tudo o que é e há de ser.

Sepulcro sorri em revide.

Sua beleza revela uma reminiscência a Ohropo, símil ao que o oscila no cerne, o esplendor lúgubre de seu outrora tão cruel. A lágrima que vertera pela última vez há tanto tempo, renasce tímida, intolerável. Contudo um som execrável impede o alívio etéreo do broto da emoção, é a estrondosa sonância da foice de Exício. O corpo esquálido de Ohropo se consome ao desespero lutuoso, sua sentença ressurge do abismo entre ele e a inalcançável Sepulcro que, naquele átimo de tempo, fechou seus olhos santos e ideou um enlevo ao lado de Ohropo.

— Sepulcro! — Ouvem ambos, e tremulam, a voz é grave e trevosa, Exício a chama, feroz e austero; por isso Sepulcro vai ao seu encontro, pois a ele pertence, então desvanece. Ohropo senta-se sob a sua perdurável dor em solitude, frente d’onde outrora vira Sepulcro; e, sob um semblante medonho, ele espera até poder vê-la outra vez.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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