A Face Encarnada do Medo

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima…

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima, mãos trêmulas; um corvo-albino a rodeia, parece segui-la por vínculo — o que me impressiona, é certo, pois são criaturas ríspidas. Carregando o peso de um grande casaco de pelame de ursos negros, ela caminha devagar; o vento impiedoso ainda arrefece sua lívida tez. Ela busca por humanidade em recônditos aquecidos por uma chama à lareira, mas, não há mais lume; as ruínas que deixei são álgidas e traiçoeiras. 

Medo... é isso que atravessa sua carne no instante em que toca os primeiros escombros mastodônticos. Eu sinto o medo que a penetra violento. Que saudade sinto d’este lôbrego arrepio subindo pela espinha dorsal de meu próximo mártir; ó... sim... fascinante! O corvo-albino pousa no ombro dela, ele sabe do perigo, porém, jamais poderá alertá-la. Este era um reino próspero, cara visitante; sorvi da vida fértil e tive o mórbido prazer de assimilar seu idioma. Tão bela a minha obra de arte... de morte... tão bela que não pude deixá-la e, por isso, aqui estou, há mil e um milhões de anos; observando. Agora, vens tu; doce humana frágil; exígua criatura... 

A densa atmosfera é a cinesia que a cinge; ainda assim, em assombro, ela adentra os escombros do que outrora fora um lar abastado — O que houve aqui? — ela sussurra e, tão logo, um lume é aceso por ela com um tipo raro de artefato. Sou atraído a apagá-lo com um sopro de horror, contudo, por hora, agrada-me ver a vida sob seu brilho, a vida que hei de sorver, gota a gota. Aquecida, serena-se, porém, não o suficiente; a escuridão é o meu domínio, isso a terrifica. Para o meu abíssico gáudio, seu nome se desvela à minha consciência: Anissa... De tudo sei, Anissa; do teu coração em mágoa, do pranto, da dor e, principalmente, do medo. Dá-me o teu pavor, criatura feminil, dá-me o teu olhar de tormento! 

“Algo terrível aconteceu n’este lugar... eu sinto uma inominável aura dos cantos onde o lume não alcança, o breu parece possuir corpos e olhos que perseguem meus movimentos.” — ela escreve. “Ttir acompanha-me e está agitado como outrora não esteve, mesmo quando, ao meu lado, viu-me ser violentada pelo oceano cujo atroz poder revelara ao meu herodes que há forças bem maiores do que a sua crueldade desoladora. Estas mesmas profundas águas, condenaram-me aos escombros gélidos em que me encontro. Que perversa ventura... que hediondo fado! Tenho medo... um temor que toca minha tez, que olha para os meus olhos... nessa imensidão sombria...” — Sou eu, ela não sabe. Eu te vejo, Anissa... Eu sou a raiz do teu temor... sinta-me em teu corpo... nos poros da tez que pertence a ti... nem teu algoz ou o ancestral oceano são capazes de conceber tão genuíno terror. Venha para o abismo da loucura, ouça o murmúrio da tua agonia advir, ressoando em teus ouvidos...  

Escurece. Ela aguarda pelo alvor, escondida em minha destruição. Mal sabe que se amanhecer para seu deleite, é porque permiti. Adormecida, sei que sonhará com a meu rastro: a insânia. Um rosto rígido e feliz, de soslaio, fitando seu tormento. Mas, desta vez, não quero este jogo cruel. O corvo-albino crocita, Anissa acorda de súbito e suas pupilas se contraem. Este sou eu. E agora tu me vês. Teu pavor nasce lento, teu susto te afasta, teu grito me enleva. Queres ouvir a minha voz? Sou capaz de falar como os que eram símeis a ti, humanas criaturas ínferas... 

— Anissa... — Profiro. Caída no canto, ela mal consegue respirar. — Que sublime é o aroma negrume do teu instável temor... Não aprecias o que vês? — Indago, densificando as trevas; tornando seu lume em um risível vagalume. Lacrimeje, menina. Como é frágil... Desapareço para brincar com sua mente, ela grita e fecha seus olhos lacrimosos. Trarei o amanhecer, pequena criança, para que outra noite traga a face rígida à tua espreita, com o riso mórbido e a minha visita. Estou sempre olhando para ti, admirando o medo que escorre em tuas têmporas e guiando as imagens infernais do teu onírico. Ela caminha mais à fundo na vila do sibilo da morte e da loucura. Está exausta, em tormento e dor.  

“Ele tinha uma feição humana...” ela escreve quando encontra uma antiga catedral em ruínas e adentra seu esplendoroso interior; notando se tratar do que fora uma alcova de fé há éons, esgueira-se entre ervas daninhas do ártico. “Entretanto, seus olhos eram umbrosos, com as cavidades expandidas e fundas, tal como a área menos óssea de seu rosto, marcada por uma fundura que lhe dava um aspecto cadavérico e... sua pele era carne pútrida... Nunca senti tamanho medo...” — E nunca alguém fora assim, suficientemente intrépido, para redigir minha aparência, Anissa. “Sinto falta de Sihren... sei que morrerei n’este insosso lugar... consumida por uma diabólica criatura, porventura advinda das agruras pertencentes a mim...” — Sim; sou eu, criado por tua tolice. “Estarei sempre fadada ao horror? In perpehctua?”. 

O corvo-albino voa pelos vitrais estilhaçados; Anissa o observa. Ele deve morrer; sua presença é desgraçada e impede que o meu tétrico expandir alcance o mártir. Então, o avisto; na brancura da densa neve; tu vês, mediano animal, esta turvação? A atmosfera a renegar o teu voo? Não posso controlar o tempo, de fato, mas sinto o medo de tudo o que respira e o medo sempre há de se ampliar sob meu fitar. Por infortúnio, perco-o na imensidão cândida. Um assovio quebranta o horizonte, o corvo retorna à Anissa; ao redor da flama áurea, eles se deliciam com frutas secas. — Resta-nos pouco alimento, Ttir... por favor, voe para Sihren e sobreviva! Não sabes o quanto destruirás meu coração, impedindo minha alma da paz eterna, sob a circunstância de ter sido razão da morte tua, de meu único amigo... — ela diz, o corvo a compreende. 

Contudo, ergue-se a segunda noite lôbrega e, com ela, o meu poder. A face rígida em sorriso diabólico emerge das trevas, Anissa sabe e evita que seus olhos mirem a aparição. É em vão. Seu suor escorre, sua tensão exala. O corvo crocita. “O que é isso...? Eu estou delirando...?” — Sim, está, pequena infeliz. Um sussurro em eco pela catedral, um murmúrio nos tímpanos de Anissa. Chama pelo nome dela. De repente, ela se levanta apontando, ao derredor, o seu lume pulcro. “Quem está aí!?” — Vocifera oscilante. Gosto da tua solidão, criatura humana; enquanto estiveres só, na amargura pertencente às tuas mazelas, eu estarei à espreita — sussurrarei teu nome nas noites mais fúnebres; farei visível o rosto rígido que ri, na tua visão paralela, uma presença pecaminosa; consegues sentir, não é? Bem atrás de ti... enquanto me lês. 

“Isso não é real...” — Lamúrias de insignificância. Anissa se encolhe como um feto exaurido. Seu coração é o púlpito do meu esconjuro. Estou no silêncio, entidade notívaga, apague a luz para me ver. “Está... dentro de mim?” — Ela segreda a si mesma. Sim, estou dentro de ti; arranque-me por sua tez; corte sua carne para me encontrar. Eu sou o teu medo. Ela leva suas mãos ao seu crânio dorido, as têmporas estalam em algia; o corvo que voava em ansiedade mórbida, de súbito, cai; morto; morto de temor. Anissa o acaricia, em lágrimas. “Ttir... não... por favor Ttir!” — agoniza junto ao pássaro cuja expressão é de um pânico hediondo. Acolhe-o em seu casaco. Mas eu quero mais. Tu vês? Tua chama enfraquecendo...? A escuridão ascende... ela pesa... é densa... ramosa... sólida... capaz de sufocar... lentamente... 

Anissa busca pelo sopro hialino da vida; ares de alívio. É em vão. Ela está submergindo. Aflita, rasga a pele de seu pescoço, seus olhos arregalados, semblante pávido. Quem ousou dizer-te que o horror é frígido? Anissa tira seu casaco, pois, está quente; o inferno em suas pernas e braços... “So...corro...” — murmureja. Agora é a minha hora, em minha mais bela e vil aparição. Uma besta horrenda e deformada, humanoide esguia, sempre sorrindo; decomposta, exposta em carne escarlate. Ela não consegue tirar seus olhos dilatados de mim. A escuridão atrai o mártir ao seu horror. Trêmula e sem oxigênio. Agônico pavor. Uma excelsa sínfora para mim que, por infortúnio, se esgota quando ela, a vulnerável, desmaia; púrpura de tanta adrenalina; hirta como uma estátua de mármore. Ela não está morta; há de retomar a consciência e chorar de horror. Tão frágil... Tu és tão frágil... 

E esta é apenas a segunda noite, quantas outras virão? Quantas suportarás sob meu macabro domínio? Desejo que muitas... para o meu vil prazer. 

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Os irmãos Winsttein

 — A arte, querida Bella, requer vida e morte, tu sabes… — Bellanna pretendia argumentar, todavia, Dhiego aumentou seu tom de voz ao notar que seria interrompido…

— Não renuncie a tua descendência, Bellanna Winsttein! — Proferiu Dhiego, seu irmão. Bellanna o olhou furiosa.

 — Sabes que não o faço, apenas questiono a tua pretensão… — Dhiego sorriu.

 — A arte, querida Bella, requer vida e morte, tu sabes… — Bellanna pretendia argumentar, todavia, Dhiego aumentou seu tom de voz ao notar que seria interrompido, Bellanna, portanto, recuou bufando. — Tu sabes que para termos o pigmento da morte, precisamos nos aproximar dela sem sucumbir às suas cores pútridas e tão fascinantes!

 — E o fazemos, Dhiego! Papai está morto naquele quadro! — Bellanna apontou para o quadro à esquerda, na parede da sala. A moldura marfim fora esculpida com os ossos do falecido, a tela foi costurada com a sua pele e, pelas mãos hábeis de Dhiego, o sangue e a carne tonalizaram as nuances do retrato. Dhiego deu de ombros ao ouvi-la. — Não é suficiente para ti?

 — Poderia ser… mas nunca ouvimos um Winsttein sequer pintar a si mesmo sem que tivesse de beijar os lábios mórbidos da morte…

 — O que estás dizendo, Dhiego!?

 — Pinte-me ainda vivo! Retire alguns ossos desnecessários, rasgue-me a pele, retira-me o sangue! Todavia, mantenha-me vivo.

Os olhos de Bellanna se arregalaram na surpresa da proposta de seu irmão, que loucura aquilo lhe parecia! Mas, Bellanna rapidamente se sentiu intrigada com tal horrenda possibilidade — afinal, era uma Winsttein. Deixou-se, portanto, idealizar a imagem de sua própria pintura, ao lado de seu irmão, sendo eternizados em morte, sem que morressem de fato.

— Uma… exposição… —Murmurara Bellanna, olhando ao derredor, sonhando. — Apenas aos críticos, aos familiares… tu e eu, Dhiego! Arrancando-nos partes de nossos corpos e pintando de imediato o nosso próprio retrato. E, então, finalizá-lo antes de nossa morte…

— Porque, se vivos no término, já teremos o legado… — Completou Dhiego, extasiado com a ideia. Ambos se olharam.

— Que assim seja! — Proferiram sorrindo.

A macabra exposição masoquista aconteceu como previsto e os irmãos Winsttein nunca foram esquecidos. Morreram minutos após o término do quadro e os seus gritos — dizem aqueles que lá estiveram — foram gritos hórridos, lamúrias atormentadoras e gemidos lascivos, tudo tétrico tal como as cenas mais atrozes de mutilação e tortura. Sorriam, contudo, a quase todo o instante; sentiam o prazer do maior de todos os feitos. Ninguém os interrompeu e seus filhos os assistiram bem à frente do palco — crianças tão pequenas. Todos os aplaudiram por minutos até o momento em que morreram no palco. Um silêncio, então, espargiu pelo anfiteatro até ser quebrado por uma terrível e grave voz que disse: “Bravo!” entre aplausos longos e mórbidos.

Até hoje, ninguém sabe de quem era aquela voz e, acreditam, era da Morte que os assistia desde o início.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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 Diário de Dantesca Nínmia — Trecho nº1

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Uma criatura de agoníria atravessara o portal obsidia; foi contida por Somníria dentre as densas nuvens alvililáses, todavia, em sua força sombria, atravessara a contenção, encontrando-me de súbito, com sua aparência asquerosa e dentes afiados. O líquido negro de sua constituição vertia sobre o derredor, enegrecendo ao violeta profundo as nuvens características do reino… eu temi, por um momento… temi não ser capaz de contê-lo. 

Seu sibilo e grunhido eram terríficos! Sem olhos, a criatura parecia guiar-se apenas pelo som; raízes cinéreas escurecidas formavam a sua asquerosa fisionomia. Para ser tão poderosa assim, receio que não venha d’um pesadelo qualquer, mas sim d’um abíssico trauma. Não encontrei sua origem ainda, contudo, tenho esperanças. Por hora, exausta me sinto… conter a criatura terrífica esgotou meu poder a um nível mortífero…

Adormeci pouco após o incidente com aquilo, e receio que a mórbida coisa penetrara em violência o meu sonhar — ou o pretendia fazer, pois, tive pesadelos de uma estranheza absurda! Parecia-me que a criatura me observava, mesmo destituído de visão. Lorrt tem cuidado do meu sono, quando me esgoto em perturbações, todavia, sei que ele está passando por um momento difícil que o está atormentando… parece que Somníria trouxe Áurea para ele, isso… me intriga, pois… é perigoso, é um risco imensurável para o Somníria e para todos nós.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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“Hibisscuss”

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Quando me aproximei daquelas ruínas, imaginei que encontraria destroços de um outrora sombrio, objetos deteriorados pelo tempo e, talvez, segredos esquecidos sobre aqueles que já se foram. Mas, não. Ao invés disso, avistei densos arbustos que possuíam uma espécie de flor de hibisco, cor de sangue vivo.

Adentrando nestas plantas, encontrei um recôndito que, como uma clareira, deixava o sol pálido atravessar sutilmente o seu interior e a luz evidenciava uma estrutura fascinante. Era como uma biblioteca em um jardim, possuía estantes de pedra, esculpidas como por um artista antigo. Os livros — sim, as estantes tinham livros inteiros — estavam protegidos dentro de invólucros feitos de algum tipo de rocha, talvez da mesma cujas estantes haviam sido erguidas. Cada livro, em um idioma desconhecido, ocupava um desses invólucros que o preservavam da umidade.

Embora lindo, era… estranho…

O silêncio pairava como uma mórbida presença que, de soslaio, observava. A brisa frígida fazia assemelhar-se a oscilação da folhagem e dos hibiscos, como passos entre a vegetação e isso me assustava. Sempre que me aventurava a abrir um dos invólucros e folear algumas páginas, arrepiava-me a tez como se algo amedrontador estivesse escrito em seu interior. Em um dos livros, notei que a tinta estava ainda fresca…

Cada detalhe me levava a uma inquietação profunda, então fugi o mais rápido que pude após o segundo arrepio, pois, com ele veio o que eu juro ter sido um murmúrio, um sussurro longínquo e tão próximo… acho que esse bizarro som dissera-me “hibisscuss” — arrastando no “s” como o silvar de uma cobra cuja língua freme na ponta dos lábios.

Quando alcancei o nevoeiro outra vez, respirei profundamente aliviada, mas isso não durou muito; notei uma flor daquelas em meu braço, devia ter caído por causa do meu movimento fugaz. Ao puxá-la, senti uma pungente dor. Sua raíz adentrara minha pele, deixando viva a carne por debaixo, como uma ferida profunda. Temi que tivesse algum veneno, todavia, dentre a névoa naquele lugar tão macabro, eu não podia encontrar algo que pudesse ser utilizado para desinfeccionar a ferida.

Em razão daquele murmúrio bizarro, veio à mente a opção de sugar o local para, quem sabe, extrair qualquer veneno existente. Eu, então, o fiz. Sangue. Gosto ferroso. Até ser engasgada com outra flor de hibisco que emergiu do local mais uma vez… puxá-la abriu ainda mais o ferimento inicial. Foi uma dor terrível…

Olhei para a lesão, preocupada e agonizando, e o que vi fora perturbador…vi dezenas… infindas raízes na carne, minúsculas e, sutilmente, em movimento… dentro de mim… mudando a minha humana natureza e transformando-me em uma delas… das flores… por uma maldição sussurrada em meu ouvido…

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa

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Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Morlirismo, Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

Lar de Breu-Mármore e Rubi

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O sol era a nódoa escarlate na imensidão enevoada em um carmim enegrecido; o sol não tangível em sua forma de estrela, era tão só um clarão rubro, espargido pelo firmamento instável. Abaixo dele, um oceano de mármore preto tal a noite que se via, por vezes, entre as clareiras do céu, criadas pelo vento intenso e amedrontador. Noite e dia; um entardecer melancólico, um paradoxo único. Das sombras no mármore, o fogo queimava na cor do sangue mais puro entre vilas cujas casas erguidas eram como ruínas de uma ancestral civilização. 

Meus pés aquecidos, o frígido sopro oscilava os galhos dos secos carvalhos mais próximos e, conforme eu caminhava, os arbustos de flores se faziam presentes como um jardim etéreo; flores símeis às dálias, porém, com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; eram leves como penas, rarefeitas pétalas brilhantes em cor negra-sublime com nuances carmesim. Espinhosas como as rosas, fascinantes como tudo o que habitava aquele lugar. Por quanto andejava, sentia a melancolia em meu peito. Desejei tanto adormecer sob tal lumiar coralino, enquanto a névoa negra dançava acima.

Nada, todavia, era mais deslumbrante que aquele castelo; em torres pontiagudas, esculpido em atro mármore e bruto rubi; desvelou-se a mim quando subi em outras ruínas, como antigos lares destruídos pelo tempo. E lá estava a sua inconcebível arquitetura. Intui um dever profundo de adentrar os seus umbrais e continuei minha marcha até que tal feito fosse realizado. Encontrei nímios frutos pelo rumo, nas veredas e pontes; eram tão semelhantes às uvas, de uma doçura apetitosa. Ainda que estas árvores frutíferas e outras plantas se movimentassem pelo ventanear; ainda que o mármore rachasse, vez ou outra; e o fogo ardesse, crepitante, por onde os olhos podiam enxergar; o silêncio beijava ao derredor, sem medo.

Então, ouvi som de queda d’água e sorri; sentia sede. Subi sobre mais escombros e alcancei uma pequena fonte ornamental próxima ao palácio sombrio. A água era negra, fluída, aprazível. Lavei com ela o meu rosto, renovando minh’alma que, na verdade, parecia distante de mim. Dali, portanto, fui à entrada da monumental maravilha em sua tétrica constituição. Seus umbrais gigantes se abriram para mim, sem que eu precisasse tocar em sua aldrava. Havia um lago em seu interior, colunas esculpidas com anjos e seres míticos; a luz do entardecer carmim adentrava os vitrais criando uma iluminação fascinante. À frente, um imenso trono de veludo encarnado.

Não me dirigi ao trono, ponderei sobre quem seria, pois, digno de tamanha magnificência. Em resposta à minha íntima indagação, passos ecoaram e, fitando na direção do que ouvia, avistei um homem forte. Seu corpo era como de um deus, e tinha uma tez com cicatrizes em sua fronte. Seus olhos eram rubros e brilhantes, uma roupa negra e régia o cobria. Era de uma beleza inenarrável. Tinha cabelos finos e curtos — os quais se movimentavam como as pétalas vistas outrora pelo caminho. Era um homem alto, sua força era visível e majestosa; se próxima a ele, decerto me sentiria como uma pequena criatura ínfima. Olhava-me, ele, atento e sério. Tão diferente de mim… eu que estava descalça e com meus soltos cabelos orvalhados pelo clima, sofrível, pois marchava no mármore. Decerto não éramos da mesma origem.

 — Estás em meu reino, em meu palácio. Bebeste de minha água e aqueceste os teus pés em meu mármore. Admiraste meu jardim e desejaste tocar o veludo de meu trono. — Dissera em tom sereno e grave, como um trovão sob controle. — E não sabes sequer o meu nome. Ao menos sabes como chegaste até aqui? — Indagou e sua voz que me embargava, assemelhava-se a um vinho de doce aroma e seco sabor. Prostrei-me ao chão, pois reconheci, em meu âmago, que estava de frente a um ser majestoso, um rei de um reino carmesim.

— Perdoe-me, vossa alteza. Despertei à beira de um oceano e, invitada por um ser de poética nume, adentrei seu pequeno barco e ouvi seu lirismo melancólico até descer nas vossas terras. O ser poético fora uma ilusão, transfigurado em pedra, uma estátua devaneada por mim. Não compreendo mais nada além disso e fui enlevada pela sublimidade de teu grandioso castelo. — Disse, célere; respirei profundamente ao término e mantive-me de joelhos. O silêncio pairou por longos instantes.

— Levanta-te. — Eu o obedeci. Era agradável retornar meus olhos ao seu austero semblante. — O Sonurista da Morte não é uma ilusão. Não compreendo, todavia, a razão pela qual ele te trouxe até meu império. Vês? — O ser estendeu sua mão esquerda e os umbrais de seu palácio se abriram ao seu comando. Então vimos a paisagem em completude, um reino carmim e negro, envolto a fogo rubro, mármore-breu, lava, rochas ígneas, ventos, natureza morta e flores raras; era lindo e solitário. — Este é o Inferno. — Explicou, todavia, não compreendi. — Sou o rei do Inferno há éons, incontáveis noites, inumeráveis dias. Esta é a minha terra, de rara beleza.

— Como tu és, vossa majestade. — Sussurrei, senti-o me encarar. — Perdoe-me, majestade. Apenas devo dizer que se cá estou, então, devo servir-te… não há nada em mim… há nada que sou… nem mesmo tenho nome… — Eu não tinha memória do antes de despertar naquela areia negra, com a água negra daquele oceano em meus pés. Sequer um nome eu tinha, ou uma história. Voltei-me ao rei, aproximei-me devagar. 

— Teu nome será Líria, pelo lírico perfume doce que emanas e pela poesia vestal dos teus olhos. — Reconheci-me Líria, intimamente. — E deverás chamar teu rei pelo nome que o pertence… Ahzaez. Eu sou Ahzaez. — Afirmou e manteve seus olhos em mim, olhos de raro rubi.

— Ahzaez… — Sussurrei e, para ele, sorri.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa Escrito por Sahra Melihssa, -Contos Sahra Melihssa

A Lenda de Ohropo e Sepulcro

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada, retorna ao seu corpo sob um manto negro e pesado — vertendo abismo. Deste modo, quando Ohropo olha em direção ao som violento, a noite está ofuscada e, murmurando, ela ascende em seu coração um temor inominável que, de súbito, outorga-lhe nítidas memórias hediondas. Instável, caminha pelas sombras, e lamuria. Compreende que seu destino inconcusso, na tarefa imorredoura de irrigar o mundo humano com seu aspecto soturno, é o sentido primevo da sua criação — e desta fatalidade ele não pode esgueirar-se, mesmo que resida, no seu mais íntimo ser, um pequeno esplendor de desejo cuja emersão advém em uma indagação longínqua, uma dúvida ínfima, um tão-somente “por quê?”.

— Qual horizonte teus pronos olhos à maldição perscrutam? — A voz que indaga possui um sibilo indistinto, de entonação lôbrega como o canto gregoriano. É Sepulcro. Ohropo volta-se devagar a Sepulcro que se orvalha na cinesia do frígido vento crepuscular; é bela como anjos lapidados pelas covas que a compõe. Ohropo nunca vira Sepulcro.

— Quem és tu? — Sonda Ohropo cuja voz é franzina em angústia.

— “Quem sois?” é o que consultas, pois que não me restrinjo a uma. — Responde Sepulcro, altiva.

Há custosa aflição à fronte de Ohropo cuja verve falecera no primeiro despertar ao entardecer, quando em seu cerne ainda habitava a si mesmo e quando suas mãos eram retratos pulcros de desgraça e sangue. Naqueles tempos, Ohropo vociferava, plangia, e nada mais.

— Vejo... És as mortes todas... — conclui, pelo que vê, através de seus olhos ainda semicerrados em ranzinza tragédia.

— Ora, que proseio contigo do além? Nada disso. Estou à vida como tu estás ao teu caminho, sempre fiel — ufana Sepulcro, elegantemente.

— Sempre fiel... — Ohropo repete, pois está confuso, algo no âmago da sua tétrica constituição oscila.

— Leva-me contigo, — implora Sepulcro — posso deixar menear teu fardo no interior de meu cálice que há de envolvê-lo em sua seiva sepulcral.

— Não posso... — Ohropo responde e suspira — Este fardo é horrendo, há de desolar todo o vosso encanto.

— Há nada que me ascenda o temor — teima Sepulcro.

— Impossível... — insiste Ohropo — Pavores são o soprar da aragem fria, e são o agora, o amanhã, o tudo o que é e há de ser.

Sepulcro sorri em revide.

Sua beleza revela uma reminiscência a Ohropo, símil ao que o oscila no cerne, o esplendor lúgubre de seu outrora tão cruel. A lágrima que vertera pela última vez há tanto tempo, renasce tímida, intolerável. Contudo um som execrável impede o alívio etéreo do broto da emoção, é a estrondosa sonância da foice de Exício. O corpo esquálido de Ohropo se consome ao desespero lutuoso, sua sentença ressurge do abismo entre ele e a inalcançável Sepulcro que, naquele átimo de tempo, fechou seus olhos santos e ideou um enlevo ao lado de Ohropo.

— Sepulcro! — Ouvem ambos, e tremulam, a voz é grave e trevosa, Exício a chama, feroz e austero; por isso Sepulcro vai ao seu encontro, pois a ele pertence, então desvanece. Ohropo senta-se sob a sua perdurável dor em solitude, frente d’onde outrora vira Sepulcro; e, sob um semblante medonho, ele espera até poder vê-la outra vez.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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