5 - Séttimor

Minha cabeça dói exacerbadamente. Não sei por quantas horas dormi — só sei que gostaria de ter permanecido lá, mesmo que isso significasse a morte…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minha cabeça dói exacerbadamente. Não sei por quantas horas dormi — só sei que gostaria de ter permanecido lá, mesmo que isso significasse a morte. Afinal, seria a morte ao lado de Sibila. 

Nunca tivera um sonho como aquele, tão real: primeiro, aquele cheiro de lavanda infestando todo o local; depois, Lieran, aquele jovem portando uma chave dourada enorme, se dizendo guardião de um portal onírico. Mesmo imerso naquele mundo, algo em meu íntimo sussurrava que aquilo não era real — até Lieran surgir, segurando com sua mão esquerda uma chave dourada enorme, presa a um cordão grosso ao redor do pescoço. 

Eu tinha uma simpatia silenciosa pelos canhotos — pareciam esquecidos pelo mundo, como produtos com um leve defeito de fabricação — assim como eu. Pois bem, até que ele girou a chave em uma espécie de fechadura invisível, a mão esquerda no ar. 

Então, uma enorme porta se abriu. Do outro lado, um imenso campo tomado por uma relva verde e baixa. Ao cruzar a porta, olhei para as minhas mãos e já não eram enormes e esverdeadas, eram brancas e macias. Corri em busca de algo que espelhasse o meu reflexo, e Lieran prontamente me estendeu um espelho. Ao mirar o objeto, vi um rapaz de cabelos loiros e feições simetricamente perfeitas, lábios rosados e dentes alinhados e branquíssimos. Mas o olhar — esse eu reconheci — era o meu próprio reflexo. Eu não podia explicar, mas sabia que era eu mesmo! A cor dos meus olhos não mudara, continuavam sendo tristes e da cor âmbar, como se tivessem sido tomados por uma doença oculta. Eu sempre achara que meus olhos tristes eram ecos da morte, de onde eu nascera, já que eu era feito de partes de diversos cadáveres. 

Lieran me explicou, então, que naquela dimensão era possível ter a própria aparência alterada pelo simples fruto de nossos desejos e também devido ao que o nosso interior refletia. Então ele me fez adentrar ainda mais. Caminhamos através da paisagem em silêncio até chegarmos à beira de um precipício. Então ele anunciou, como um anjo que guardava as sombras do meu coração saudoso, que traria ela: 

— Eu sou Lieran, guardião do primeiro umbral de Somníria — um local além do tempo e do espaço, onde seres podem descansar da própria realidade ou mergulhar mais fundo nos próprios medos e pesadelos. Eu porto a chave para um portal: o sonho da pessoa com quem mais você precisa conversar agora. 

Então me sentei ansioso, aguardando que ele a trouxesse. Quando eu a vi, tentei esboçar o sorriso mais genuíno de todos, como quem tenta esconder uma rachadura profunda com uma camada fina de verniz. Eu queria ser perfeito aos olhos dela. Pedi para que se sentasse e apreciasse a paisagem comigo, tentando manter a voz firme, apesar do coração descompassado. Ela caminhava com elegância silenciosa, envolta por um manto branco que cintilava sutilmente, adornado por bordados dourados e vermelhos em forma de dragões orientais — criaturas que pareciam mover-se a cada passo seu, como se vivos estivessem no tecido. Com um gesto calmo, ela retirou o manto e o dobrou com cuidado antes de se sentar ao meu lado, como se aquela cena merecesse respeito e solenidade. 

Seus olhos, de um verde claro quase âmbar, refletiam algo que eu não saberia nomear: curiosidade, apreensão, talvez uma antiga solidão. Sua pele, tão branca quanto a luz filtrada por nuvens densas, parecia fria ao toque, mas transmitia uma serenidade perturbadora. Os cabelos castanhos, ondulados e presos com perfeição num penteado elaborado, emolduravam seu rosto com uma beleza sóbria. Pequenos brincos de pérola reluziam sob a luz suave do sonho. Quando ela falou — "Sinto que o conheço, porém nunca o vi em toda a minha vida..." — sua voz carregava um tom grave e suave; suas palavras derreteram minh’alma. O batom, um laranja pálido, parecia destoar levemente do restante, como um sopro de cor numa figura fantasmagórica. E, ainda assim, tudo nela era beleza para mim. Alta, esguia, o corpo quase reto, sem as curvas tão endeusadas por outros — para mim, era a imagem da perfeição. Uma perfeição não óbvia, que me fazia querer protegê-la do mundo — e de mim mesmo. 

Ah, foi tão perfeito poder conversar com ela... eu nunca ouvira a sua voz, pois sempre a observei de longe. Era muito mais bonita de perto, muito além do que eu imaginara. Seu perfume, um bálsamo para a minha alma animalesca e solitária, que ansiava por aquelas notas frutadas com um fundo de canela, sempre acalmavam meus pensamentos conturbados. Agora, sentado à beira desse catre sujo e frio, cheirando à bebida, percebo que fora só um sonho, fruto do delírio e desespero que sinto após o seu inexplicável desaparecimento. 

Ainda com a cabeça latejando, permaneço deitado por alguns minutos, tentando estender aquela sensação de paz que o sonho me proporcionou. Fecho os olhos, buscando o som da voz dela, tentando resgatar o aroma do perfume, mas tudo o que me resta agora é o gosto amargo do álcool e o frio que emana do chão de pedra sob minha cama improvisada. Sibila... seu nome ecoa em mim como uma oração que perdeu a fé, como um eco em um templo abandonado. Preciso encontrá-la — não importa como, nem o que custe. A ideia de tê-la visto em sonho só serviu para reacender em mim uma certeza: ela ainda está em algum lugar, e eu não descansarei até encontrá-la. 

A ideia me pareceu insana à primeira vista, mas foi se assentando na minha mente como um sussurro cada vez mais convincente. Forjar documentos. Eu sabia que, se quisesse entrar na antiga casa de Viktor Frankenstein — patrimônio agora sob custódia do Estado prussiano —, precisaria de uma justificativa legal forte. Bastaria alegar ser seu filho ilegítimo, fruto de um relacionamento secreto mantido nos anos de juventude, antes de sua ascensão como referência na comunidade científica internacional. Para isso, bastou uma combinação precisa de papéis envelhecidos artificialmente, um diário falso com entradas forjadas sobre uma suposta mãe desconhecida, e uma certidão de nascimento modificada. Com o apoio de um velho conhecido que devia favores e que conhecia os atalhos do sistema burocrático da Prússia, consegui o suficiente para enganar as autoridades locais. Ninguém ousaria duvidar de um documento bem selado, ainda mais quando carregava o nome de Viktor Frankenstein. 

Após ludibriar as autoridades locais e portando as chaves do casarão onde Viktor escondia sua figura torpe, dirigi-me para lá sem demora. A chave girou com dificuldade na fechadura enferrujada, como se a própria casa resistisse à ideia de ser violada. Ao empurrar a porta, um rangido grave ecoou pelos corredores escuros, trazendo à tona o cheiro penetrante de formol que eu sempre sentira do lado de fora, mas que era imperceptível por aqueles que não eram iguais a mim. 

Adentrei mais e mais os cômodos da casa. No primeiro e no segundo andar não encontrei nada que me levasse até ela. Visitei o que provavelmente fora o seu quarto e não encontrei nada relevante. Parecia que ela havia partido com muita pressa, pois não levara seus pertences. A escova de cabelo ainda repousava sobre a penteadeira; fios castanhos brilhavam sob a luz pálida que penetrava o recinto. O frasco de perfume repousava ao lado da escova. Eu o abri e borrifei alguns jatos no ar, enlevado pelo momento mágico que era estar onde ela vivera anteriormente. Me flagrei imaginando que tipo de relação eles tinham. Mentor e aluna? Pai e filha? Amantes? Captor e refém? 

Será que Sibila e Viktor eram cúmplices, ou será que ela era apenas uma vítima daquele cientista obcecado por suas próprias ambições? O que importa isso agora, já que procuro ecos de alguém que já partiu... Não, ela não está morta, não posso aceitar isso. Tenho que encontrá-la de alguma forma. Os armários estavam cheios de roupas femininas, mas nenhuma eu a vira usando. Será que eram os vestidos das vítimas que ela desovava no rio? A cama era de solteiro, tinha uma fronha cor de rosa que eu decidi levar comigo. Ainda conserva o odor de sua pele misturado à deliciosa fragrância do seu humilde perfume. 

Após procurar pelos dois andares em busca de pistas e sem sucesso, decidi olhar o porão. Desci as escadas de pedra com cuidado; uma espécie de suor tomava as paredes. O ar condensara-se, pois ali era mais quente do que o frio do inverno que tomava o exterior da casa. Não havia janelas no porão, o cenário perfeito para esconder as atrocidades que Viktor fazia ali. Um vazio pesava em meu estômago. Era engraçado pensar que, apesar de ser uma criação, eu me assemelho em muitas coisas aos humanos — sentir medo era uma delas. Que segredos sórdidos eu descobriria naquele local? 

Comecei por vasculhar todas as gavetas de uma escrivaninha — eram seis no total. A última estava emperrada, mas não fora um grande empecilho para mim, já que eu sempre fui mais forte do que a maioria dos humanos. Após abri-la, o seu conteúdo revelou um caderninho de capa de couro marrom surrado, parecia ter sido extremamente manuseado. O seu interior trazia anotações e mais anotações sobre anatomia humana, alquimia e estudos sobre o que Viktor nomeava de “Ciência Oculta”. Uma frase anotada na contracapa me chamou a atenção: “testes com tecido neural feminino mais recente apresentaram reações promissoras. A transferência deve ocorrer antes do segundo dia. Ainda creio que o corpo dela possa recebê-la.” 

Além do travesseiro de Sibila, decidi levar aquele caderno comigo. Folheando-o, percebi que da metade para frente o cientista começara a escrever em uma língua desconhecida para mim. Havia glifos e símbolos estranhos anotados nas margens. Em uma das páginas ele desenhara um castelo à luz da lua. Ao longe, ainda nas proximidades do castelo, ele também rascunhara o que parecia ser uma vila. Embaixo estava escrita a palavra Séttimor. Um lugar? Um código? Por que esse nome me dá arrepios mesmo sem eu saber por quê? Guardei o caderno em meu bolso. Poderia voltar a examiná-lo mais tarde, quem sabe descobrir que língua era aquela. 

No laboratório havia muitos frascos, alguns com cores fortes, como vermelho-sangue e azul-petróleo. Outros, pálidos, com líquidos espessos que lembravam leite coalhado. O ambiente estava estranhamente asseado. Passei a mão por algumas bancadas de trabalho — não havia pó... a sensação de esterilidade era pungente. O cheiro de formol era extremamente intenso, fazia minhas narinas e olhos arderem. Passeei em frente a alguns frascos. Muitos conservavam partes de animais em formol. Mas, à medida que caminhava, a visão se tornava mais opressora ainda.  

Havia cerca de trinta vidros, todos com etiquetas de nomes de mulheres: Eleanor, Ema, Gema, Ava, Rose... De quem eram todos aqueles nomes? Tomado por uma estranha compaixão repentina, passei as pontas dos dedos por cada rótulo, desconfiado de que aquilo era o mais próximo de uma lápide que aquelas almas femininas teriam direito. Quantas? Quantas vidas ele apagou para cumprir essa obsessão? E Sibila... onde entra nisso tudo? Todos estavam vazios. O que será que ele planejava guardar ali? Ou será que Sibila ocultara o conteúdo antes de desaparecer? O que Viktor estava tentando fazer? 

Continuando minha busca por pistas que me levassem até o paradeiro de Sibila, tateei por cima de uma prateleira com mais substâncias para experimentos. Encontrei alguns papéis amarelados com desenhos dele. Eram estudos de anatomia feminina, continham infindáveis anotações e respingos de sangue seco por todos os papéis, mas, ao contrário do caderno, tudo estava compreensível. Parece que ele estava tentando recriar o meu experimento, mas, desta vez, ao invés de partes de cadáveres, ele precisava encontrar uma vítima que recém tivera perdido a vida — algo muito difícil de conseguir de forma natural... Céus! Viktor, o que tramava? Qual era a natureza da relação deles? A julgar pelas diversas vezes que eu observara Sibila jogando sacos nos rios madrugada afora, os experimentos dele não iam nada bem, mas ele estava obcecado em obter sucesso, visto que não tivera escrúpulos nem respeito perante a vida. 

Em uma das paredes do laboratório havia um retrato de uma mulher cujo semblante eu conheci bem — era a falecida esposa do velho cientista. Ela tinha olhos e cabelos pretos, pele extremamente clara, uma expressão preocupada e séria, como se estivesse assistindo a um momento solene. Retirei o retrato da parede. Atrás dele algumas palavras haviam sido rabiscadas com caneta tinteiro, em uma letra elegante: 

“Quero que guarde esse presente como recordação do amor que sinto por você, Viktor. Faça somente isso, após a minha partida. Não se prenda a mim, viva a sua vida em toda a sua plenitude. Quero saber das suas aventuras quando me encontrares no além-vida! 
Elizabeth Frankenstein.” 

Ao que parece, Elizabeth sabia das intenções de seu esposo após a sua morte. Acho que ela foi uma grande mulher. Recoloquei o quadro na parede. Quando já estava me retirando daquele lugar triste e mórbido, pensando que já tinha vasculhado tudo — ao menos o suficiente para aquele dia, pois eu pretendia fazer mais buscas na casa que agora me pertencia —, o retrato que eu acabara de recolocar caíra no chão.  

Ao me abaixar para juntá-lo, o caderno de Viktor escorregou do meu bolso e, ao cair, revelou uma folha rasgada e rabiscada com uma letra cursiva diferente da de Viktor. Nela estavam escritas as seguintes palavras: “...eu nunca quis participar daquilo, Viktor. Não era isso que prometemos. Eu tentei ajudar, mas agora... os olhos delas me perseguem.”  Desconfio que esse papel é fragmento de algo que Sibila escrevera para Viktor. 

O que será que prometeram um ao outro? Que tipo de relação doentia eles mantinham? Séttimor... esse nome ecoava em minha mente como um prenúncio. Algo me dizia que minha jornada estava longe do fim. E, por mais que abominasse o que Viktor fizera, não podia ignorar o que agora crescia em meu peito. Viktor, agora, não me parecia ser tão moralmente errado. Assim como ele, eu desejo ardentemente algo, reencontrá-la, e... sim, eu mataria por ela. 


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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4 - Prazer, meu nome é Marcos

Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Após vagar durante anos, aprendendo tudo que eu podia a respeito da humanidade e de seus costumes, eu já tinha a maestria de caminhar entre as gentes, sem ser notado. Na verdade, abandonando o medo que eu tinha de ser descoberto, após os anos iniciais que se seguiram à minha criação, eu descobri que isso era bem fácil: o segredo de não chamar a atenção residia em justamente ser pobre e sem sucesso, as pessoas não querem ser pobres, mas menos ainda dispensar atenção a quem precisa, estando muito ocupadas com seus próprios destinos. Então me vestia com trajes andrajosos, com capa escura e nunca ousei revelar meus verdadeiros talentos, afastando conscientemente o sucesso de mim. 

Talvez, quando essas palavras forem lidas por alguém, após a minha morte, achem o que escrevi acima pretensioso e arrogante demais; mas a verdade é que certamente eu faria sucesso no campo ao qual eu dediquei os meus estudos. Tudo o que é belo me fascina, que melhor lugar para expressar o meu fascínio do que uma folha de papel para acolher as minhas palavras? Ou uma tela a óleo para dar vida às mais belas imagens formadas pela minha imaginação? Se exteriormente eu talvez seja uma aberração, em minha alma, se é que a possuo, a arte pulsa e se desenvolve com toda a força e beleza da qual é digna. Aqui eu sou um ser belo, dotado de sensibilidade, amor e carinho por tudo que é sagrado, por tudo que considero belo, de forma que não me defino como monstro e me considero muito mais humano do que alguns ditadores que circulam por aí. 

No entanto, viver dessa forma, embora fosse seguro para mim, não era de forma alguma satisfatório. Havia dias em que permanecia enclausurado em um casebre que eu mesmo construí, apenas pintando e me alimentando de restos encontrados no lixo e animais que eu mesmo caçava. Estava farto de apenas ter interações fugazes, tendo que disfarçar minha voz, minha aparência, queria poder me relacionar em nível mais profundo com alguém, dividir meus pensamentos, ter minha arte admirada. Apenas exibir minhas telas nas feiras de verão e conseguir algum trocado ou outro para sobreviver ou enviar poesias de forma anônima para os folhetins locais não estava mais preenchendo meus vazios existenciais. Eu precisava desesperadamente que alguém me amasse, que apreciasse o fato de eu existir. Eu ansiava por algo a mais, foi então que decidi, após muitos anos sem vê-lo, procurar o meu criador e implorar por ajuda para mudar a minha aparência. Eu não precisava de compaixão e comiseração da parte dele, eu precisava apenas de ajuda para ter uma existência mais digna. 

No entanto, enchi-me de cautela e, apesar de saber o paradeiro de Viktor, pois sempre o acompanhei de longe, decidi vigiar a sua casa durante alguns dias antes de recorrer à sua ajuda, já que o meu criador, desde o início, nunca demonstrara simpatia ou sequer interesse pelo meu paradeiro; supus que a minha volta seria um incômodo. Acompanhando as descobertas que ele fizera no campo da medicina, desconfiava que agora ele finalmente poderia fazer algo com relação a minha aparência disforme. Rondei a fachada de sua casa por dias a fio. Era feita de pedras cinzentas que contrastavam com as luzes amarelas e quentes que permaneciam acesas durante a noite no andar inferior. Eram raros os dias em que aquelas luzes não eram acesas, e eu inferi que ali deveria estar o laboratório dele.  

De início, me surpreendi ao constatar que ele dava abrigo a uma jovem que estudava na Universidade na qual ele trabalhava como professor. A diferença de idade entre ambos era grande, mas eu sabia que não era sua filha. Lera sobre a morte de sua esposa nos jornais e, para falar a verdade, me regozijei com a notícia. Quem sabe agora ele soubesse a tristeza que era viver completamente só. Quis ter raiva daquela jovem por isso, mas a verdade é que, desde o primeiro momento em que minhas retinas tristes e amareladas tocaram aquele ser puro, sua imagem de perfeição ficou atada à minha mente. 

Ela tinha lindos cabelos castanhos, sempre presos de forma displicente, mas ainda assim encantadora. Seus olhos eram verdes claros e ganhavam tons amarelados ao sol, o que era uma pena, pois geralmente eu a observava à noite, escondendo minha aparência horrenda de seus olhos inocentes e tristes. Também pude deduzir que ela não era da aristocracia: seu melhor vestido era sempre o mesmo, um azul royal com delicados detalhes em renda branca. 

O que me chamara atenção nela, de início, foi sua aura inocente e determinada. Era perceptível sua paixão pelo conhecimento, pois não faltava um dia sequer às aulas na faculdade. Às vezes acompanhava Viktor em uma carruagem, outras, seguia a pé, fizesse chuva ou sol. 

Com o tempo, sem atingir a coragem necessária para interpelar o cientista, observá-la de longe tornou-se meu passatempo predileto. Mas logo percebi que ela tinha um estranho hábito. Sempre que botava o lixo para fora, fazia-o usando botas e luvas de açougueiro, muitas vezes durante a escura e fria madrugada. 

Apesar de ser dona de um corpo franzino e desprovido de curvas femininas, eu a admirava e me surpreendia ainda mais com a força oculta que revelava ao arrastar aqueles sacos até o rio Spree. Depois, voltava para casa correndo e—o mais estranho—sempre em prantos, desde a primeira até a última vez em que a observei. 

Certa vez, após ela abandonar os sacos no rio, em vez de segui-la para admirá-la por mais alguns minutos e protegê-la na volta para casa, mergulhei nas águas frias, movido por um impulso febril: queria resgatar o conteúdo do lixo que ela jogara fora. A ideia me pareceu estranha e obsessiva no começo, mas quando emergi com um dos sacos e o rasguei sob a luz trêmula da lua, soube que fizera o certo. O que vi me encheu de horror. Eram restos mortais de diferentes corpos femininos. 

Dentro do saco, havia a cabeça de uma jovem ruiva—uma estudante, reconheci-a de uma das classes para as quais o velho lecionava. Também havia um torso nu, um corte reto e profundo no peito, suturado com o cuidado meticuloso de um louco embebido na própria psicopatia. Para completar o horror da cena, distingui um braço e uma perna, cobertos por sangue e vísceras já começando a se decompor na água turva. No fundo do saco, algumas pedras pesadas, para esconder o crime da qual ela era cumplice. 

Inexplicavelmente, soube que ela não era responsável pelas mortes. Estava ajudando Viktor a escondê-las. Por quê? Eu ainda não sabia, mas tudo o que conhecia daquele homem me levava a crer que ela estava sendo manipulada, enredada por aquela mente doentia. Então meu objetivo mudou. 

Em vez de procurar Viktor para que ele me ajudasse a mudar minha aparência, passei a querer, com ardor insuportável, salvá-la dele. Mas demorei demais. O último saco que abri foi o último que ela descartou. Depois daquela noite, nem ela nem Viktor saíram de casa outra vez. 

Alguns dias depois a casa de Viktor fora arrombada, seu corpo putrefato fora encontrado em sua cama. Fazia dias que estava morto. Os jornais não mencionaram a presença de Sibila na casa, mas o seu sumiço se quer foi notado. Nem pelos familiares dela e nem pela faculdade na qual ela estudava. Tive a impressão de que eu era o único ser na face da terra que notara o seu desaparecimento. Movido pelo amor que eu já sentia, mesmo sem ter trocado uma palavra se quer com ela, pesquisei sobre a sua vida pregressa e descobri nos arquivos da faculdade que ela era estudante de medicina, órfã de pai e de mãe. Era muito admirada por Viktor e pelos professores da faculdade, que após o falecimento dele, acharam que ela tinha retornado para o campo, visto que era Viktor quem financiava os seus estudos. Então confirmei as minhas suspeitas que eu era o único que sabia o seu desaparecimento. 

Rondei a casa de Viktor durante aproximadamente um mês, mas não obtive resposta para a angústia que invadia a minha alma. Até então, não me apercebera do quanto estava ligado a ela; só agora, que não podia mais admirá-la, é que sentia profundamente a falta que ela fazia. Passei a pintar telas com a sua imagem, compulsivamente. O casebre que eu ocupava estava tomado por telas e mais telas com retratos dela. Em uma delas, dei asas aos meus desejos não realizados: se, na vida real, eu não pudera tê-la em meus braços, na arte eu a teria. Pintei-a em seu clássico vestido azul royal, com lavandas ornando os seus cabelos, acrescentei a mim mesmo na pintura, com trajes de cavalheiro. Me dei cabelos loiros e bem cortados, a aparência de um deus, tão belo quanto Apolo. Eu inclinava o seu tronco, na iminência de um beijo. Ao redor, o que de mais belo existia no mundo, não o cinza e a fuligem que o número crescente de fábricas estava dando às cidades, mas sim um vasto e verdejante campo. 

Enquanto eu pintava, sentia-me reconfortado, mas, ao terminar a pintura, uma ideia sombria me passou pela mente: e se Sibila fosse apenas a materialização do meu desejo por amor? Seria isso possível? Será que todas as vezes em que a vi e os arquivos que pesquisei posteriormente seriam apenas meras invenções de uma mente já conturbada pela solidão e pela carência extremas? Enlevado por esses tipos de pensamentos, destruí a tela que eu acabara de pintar e decidi vagar pela cidade, para me distrair e, quem sabe, esquecê-la nos braços de uma prostituta que se importasse mais com o dinheiro do que com a minha aparência. 

Coincidência ou não, consegui encontrar uma que concordou em me atender. Mas simplesmente não consegui completar o ato, pois, ao adentrarmos a alcova, vi o rosto de Sibila ao invés do da senhora que me atendia. Persisti, e, ao nos deitarmos, a visão do rosto dela se intensificou. Ela tinha um olhar de súplica e julgamento. Soltei um grito de horror que assustou a mulher e a despertou de seus movimentos mecânicos. Me desculpei, paguei por seus serviços e corri em carreira desabalada até o meu lar. 

Ao chegar em casa, revi as telas que pintara de Sibila. A tela destruída gritava em silêncio, uma condenação implacável: eu nunca poderia tê-la. Tudo fora apenas um sonho, uma ilusão minha. De repente, algo dentro de mim se partiu. Não sabia mais o que era real ou o que era fantasia, mas a certeza de que algo em mim estava sendo consumido por uma força que eu não compreendia se tornava cada vez mais clara. Eu destruíra a pintura, mas ela, de alguma forma, já estava dentro de mim, imortalizada de uma maneira que nenhum pincel ou tela poderia apagar. E foi aí que a verdadeira angústia se instalou: eu já não sabia mais se desejava encontrá-la ou se temia a ideia de que ela fosse apenas uma criação da minha mente, uma sombra de algo que jamais deveria ter existido. 

Desesperado, comecei a beber, tentando entorpecer os sentidos e a mente, sem encontrar uma explicação lógica para o que eu sentia e para o que achava que havia presenciado. Foi quando, exausto da bebedeira, me deitei na cama solitária. O travesseiro parecia ter o perfume dela misturado ao de lavandas, um cheiro que eu não sabia se era real ou fruto do delírio. Fechei os olhos, e, apesar da névoa do álcool em minha mente, uma sensação de premonição me envolveu. Algo estava prestes a acontecer. Algo mágico. Algo que eu não podia controlar. Ao longe, uma voz masculina e jovem chamava o meu nome:  

— Marcos! Marcos! Bem-vindo ao mundo dos sonhos.  

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos licorosos: fabricados a partir da fermentação do sangue de diabéticos, ele achava que era por causa do nível de açúcar alto.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Óh, desgraçada forma essa a minha, | Do meu destino não prevejo uma linha. | Pois a sete palmos do chão, | Jaz uma amada, morta…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Óh, desgraçada forma essa a minha,
Do meu destino não prevejo uma linha.
Pois a sete palmos do chão,
Jaz uma amada, morta por minha mão.

Óh, desafortunada forma essa a minha,
Envenenado, não por feitiço ou varinha.
Sofri quando me disseste: "me esqueça!"
Uma abóbora tenho, ao invés de cabeça.

Óh, formosa forma era a tua!
Apaixonei-me, pois a vi nua.
Seu sorriso, primavera pura,
Nunca estaria eu à tua altura.

Óh, gloriosa forma era a tua!
Passei a persegui-la nas ruas.
Rubras melenas aquecem o coração,
Amor, candura e tentação.

Óh, graciosa forma me seduz!
Teus passos, dança que me conduz.
Teu perfume, doce brisa ao luar,
Eras meu sonho, impossível de alcançar.

Óh, funesta decisão que obriguei-me a tomar:
Se não posso te ter, não há por que te deixar.
Se não posso a ti chegar, que você venha a mim,
E assim decidi pelo seu fim!

Óh, vergonhosa decisão, ponho-me a lamentar:
Desgraçado sou! Como pude te aniquilar?
Num ímpeto sombrio, tua vida tirei,
E agora, em silêncio, minha chama extinguirei.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

 
 

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