A Insondável Redenção
Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos…
Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos olhos nunca estiveram de frente a tal terrífica paisagem; tampouco o fremir das ondas sonoras deste estranho sibilar penetrara meus tímpanos alguma vez. No mais longínquo do que eu podia observar, as cordilheiras negras preenchiam uma infinitude sombria e, detrás das nuvens glaciais, havia o sol remoto— eu sei, pois seu reluzir fantasmagórico manifestava-se pelas céleres clareiras repentinas, como rachaduras no céu, eram raras frestas de lume solar, cada vez mais infinitesimais. Facilmente, debaixo daquela intensa nevasca, nada sobreviveria.
A flama que crepitava na lareira era um vagalume na vastidão azul-grisácea, tomada pelo seu imanente índigo. A madeira da cabana ilusionava-se mais escurecida e úmida, algo deveras insólito; em certo aspecto, parecia envelhecida. Minha percepção era de que a morte, em sua mais bruta manifestação, fomentaria um pavor verossímil à vívida crueldade da natureza climática. Apesar dessa mórbida verdade, a morte era a entidade que espreitava, na sua escuridão, as minhas visões paralelas; como três olhos fundos pelos cantos imersos em um estranho breu, onde a brasa, lânguida, não tateava. Antes do enregelar fúnebre, almejado pelo espectro de Exício que circundava, eu sentia que quando o sopro tétrico do exterior extraísse minha única fonte de aquecimento, o sibilo da insanidade causaria o efeito que narrava em seus decibéis e, então, eu cortaria meu pescoço com a lâmina de tungstênio da minha faca de caça.
No antro de minha existência, jamais cogitei tal medonha blasfêmia. O sibilo do vento antártico insinuava uma influência perversa, tanto quanto o espreitar da escuridão. A vida, em suas quedas mais abismais, tecera cenários terríficos que assombraram meu âmago, sob angústia e medo, no entanto, jamais ao nível daquilo — e não me refiro ao sopro diabólico da nevasca, tampouco às intimidantes trevas da cabana. Quando já não me era possível permanecer sob a frágil luz da última lenha queimada, protegi-me com o traje adequado, reforçado em razão do nível de horror branco no lado de fora; por instinto peguei alguns itens, como a faca de caça, uma corda, um candeeiro e suprimentos. Meu destino era o casebre da lenha, lar de Gahsper, meu irmão. Não ficava muito longe dali, aliás, deveria ser visível da fenestra do meu quarto, se não fosse o mal tempo.
Andejar na árdua neve acumulada, com a frígida e impetuosa aragem, assemelhava-se às veredas dos vales das montanhas mais afastadas, as que se enegreciam no horizonte. Tive de armar os báculos para me locomover com mais segurança, no entanto, o casebre de lenha não se desvelava à frente e, em minha análise, nele eu já deveria ter chegado. Quando fitei a bússola estagnada, completamente inerte, entendi que o pressentimento amargo não advinha de uma fraqueza mental, pois algo estava, sem dúvidas, errado; uma aura perigosa cingia-me de modo que, impossível de voltar à cabana para morrer de frio, segui com rapidez arriscada, à frente. Quando encontrei uma poça de líquido vermelho espargido na pálida neve cerúlea, n’uma cor vívida, como se tivesse sido vertido há segundos, empunhei a faca de caça e segui na direção da poça que permeava um corpo indistinguível. Como previ, sangue. O que... aconteceu aqui? E a pobre criatura estraçalhada, decapitada e devorada, era humana. Era Gahsper. Gahsper...
Nunca senti o tétrico gelar da minha alma, mesmo vivendo há tantos anos em Nehen. Ainda, pelo rosto de meu irmão, assombrado em um pânico indizível, por certo, aquela morte não fora causada por um animal selvagem. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas congelaram dilatadas. Nunca esquecerei o seu semblante dantesco, nem o seu sangue vertido — a única cor naquela brancura desoladora. Aquilo era tão obsceno e… pavoroso…que não pude chorar, pois, o temor impedia qualquer alarde emocional e, até hoje, inibe. É verdade que por esta razão, tudo o que escrevo é tão frígido quanto o fenômeno daquele dia; eu não sinto nada além do medo, visceral e íntegro, como uma chama no peito, acesa no perpétuo dos meus pesadelos, incitando-me à lembrança hedionda. A opressão deste pânico silencioso arruinou muito do que havia de contentamento em minha vida, pois me ronda, desde então, aviventando o pavor e a solidão que me residem.
Retirei a corrente de Gahsper, ela repousava no sangue; observei os arredores e guardei o objeto no bolso. Ainda cogitando voltar para a cabana, olhei na direção do meu rastro na neve, prestes a se perder no nevoeiro de gelo. Então, meus olhos viram o que fez meu coração disparar frenético em um macabro assombro. O sussurrante estridor do rígido inverno expandiu-se agônico de modo que meu crânio padeceu, no imediato instante, de uma dor aguda em cada têmpora. Um homem, é o que ele parecia, em uma nudez dismórfica, estava há poucos metros de distância de mim. Sua pele descamava e uma carne enegrecida e pútrida, mesmo longe, podia ser vista por detrás da cútis. Seus braços eram finos, seus olhos enegrecidos eram como dois poços profundos; havia sangue em seu rosto, mãos e torso. Ele fitava meu espírito como somente uma criatura do inferno poderia fazer. Seus dentes eram afiados, ele possuía vários em sua boca oval, e ao contorno da sua silhueta deformada, uma aura de breu, a mesma da cabana, o cingia. No centro de sua face medonha, havia um terceiro olho n’uma metamorfose bizarra na cavidade encarnada de seu nariz. De todos os orifícios de seu corpo absurdo em bestialidade, um escuro líquido espesso gotejava.
Eu desviei meus olhos da morbífica criatura humanoide e me apressei, ofegante, entre o sopro terrífico que se difundia cada vez mais violento e a paisagem que se tornava, em segundos, mais pálida. A caudalosa invernia, pela nevasca mais perturbadora que já vi, não cessaria; se aquela coisa sinistra me seguiria, eu não deduzi; ao guia de meu mais abismal pavor, apenas corri como me era possível, afundando na neve já embriagada de seu próprio poder destrutivo. Mas, reconhecia meus limites; do meu corpo a fremer de frio e horror, enquanto a imagem das vísceras de Gahsper vinham à minha mente ao lado dos dentes afiados e dos três olhos repulsivos e lôbregos; lampejos de um pesadelo no qual não se pode despertar. Assim fui consumida por uma ansiedade, talvez pela certeza de encontrar a morte de fato, da pior maneira; talvez porque eu não desejasse morrer, pois que eu amava, no mais fidedigno da minha essência, o poético viver naquela cidade perdida e consumida pela noite. Amava, também, todo aquele continente, pelos trens aquecidos, os quais eu viajava por longas horas e até mesmo por dias; pelos mistérios de seus habitantes que me ascendiam a um sentimento de vínculo profundo que galgava os entraves climáticos. Talvez porque eu ainda não tinha sido amada, tal como fora a minha mãe, pelo meu pai, por mais de cinquenta anos.
Afundei na neve nívea quando vi no céu as sombras fúnebres perpassarem com a chegada da noite. Ofegante cada vez mais. A escuridão era quase tangível, achegava-se como o vento pujante e se não mente a minha lembrança, a vi distorcer-se em determinados momentos, como se dançasse junto à nevasca, como se fosse sobrenatural. E eu, eu não conseguia correr nem mesmo um metro à frente. Avistei partes de uma torre ao longe, eu decerto estava próxima de um possível abrigo. Era tarde demais, como geralmente é quando encaramos demais o semblante da morte. A visão que antecedera o meu desmaio, fora da plenitude noturna e daquela mesma sensação que tive na cabana… o estranho breu que parecia me encarar com três olhos… ali, no entanto, diferente de antes, eu sabia muito bem que tipo de coisa me encarava daquela forma na escuridão.
O sopro da morte álgida, em frações de tempo, dissipou-se. O silvo se fez rarefeito, um símbolo à lembrança perturbadora. Meus olhos se abriram com uma lentidão difusa e queria eu ter visto a madeira da cabana e ouvido o crepitar na lareira, estalando a lenha; seria, inclusive, aceitável estar debaixo de um monte nevado, sentindo meus membros necrosarem. No entanto, nada disso era factual. Quando fui capaz de distinguir as sombras no verter do fluído de minhas retinas — as quais, cobertas pelas pálpebras, descansaram sabe-se lá por quantas horas — então, avistei paredes de pedra úmida e ouvi sons de correntes coincidentes aos meus movimentos. O que... o que é isso...? Meu corpo frágil desidratava, olhei em direção ao som ferroso e vi uma grossa argola enferrujada a prender meu tornozelo a uma corrente fundida na parede rochosa. Arfei trêmula, puxando a corrente diversas vezes. Foi em vão. E pairava um contínuo ruído por aquele ambiente sanguinolento, eu ouvia minha respiração cada vez mais acelerada, destacando-se no ruído. Esperei a morte, com duas faces: meu corpo decepado sobre a poça vermelha, como Gahsper, e ser necrosada até a morte pelo frio cruel. Todavia, estava encarcerada; nada do que eu poderia prever.
Fica... calma... Um enjoo germinou pútrido no meu estômago, decerto ocasionado pelo odor de plasma, de morte, de umidade. Turva, levei minhas mãos ao rosto, qualquer alívio seria suficiente. Então vislumbrei minha possível e única saída, advinha dela uma luz trêmula e fraca de pontos longínquos de luz por um corredor estreito; um lume que permitia as sombras do gradil se propalarem pela minha cela. Nestas grades arqueadas, contudo, um corpo jazia... contorcido. Discerni algumas coisas ao seu respeito, pois, a visão era limitada. Primeiro, o que me era mais inestimável, um molho de chaves esplendia em sutileza, resvalando do bolso do indivíduo; e seu cadáver vestia um tipo de traje específico, símil a uniformes usados pelos Humanos da Ordem, quando se erguia o inverno no continente acima. Era mais que fundamental alcançar o falecido, mesmo que para isso fosse inevitável uma irreparável perda. Não tenho escolha... Então comecei a esticar meu corpo, apoiando-me no chão enegrecido e sujo. Eu sentia a argola enferrujada rasgar a pele de meu tornozelo, um suor intenso escorria de minha testa e o enjoo se intensificava. Eu... me lembro... me lembro do quanto as emoções foram suprimidas e, meu corpo, distendido; lembro da minha carne sendo penetrada por aquele grilhão oxidado, a dor... a dor inominável... e o grito escravizado pelo medo sob as asas da mais verossímil aflição.
Alcancei as chaves e me libertei das correntes. Mas vi os ossos e tendões de meu calcanhar, tudo esfolado em uma ardência que parecia subir aos nervos de toda a perna esquerda. Aquela cena foi o meu estopim. Regurgitei tudo o que me era possível, à espera de expelir, talvez, minha própria alma. E quando fui capaz de cessar o vômito, percebi o perigo daquela perda excessiva de sangue. Rasguei a roupa do cadáver para envolvê-lo em mim, para extinguir o que vertia contínuo. Retirei do sujeito uma adaga, fincada em seu tórax — algo que vi ao abrir as grades do cárcere. Sim, eu caminhava, lenta e com vívida dor, mancando, decerto e apenas, por causa da adrenalina. O defunto nas grades, usava em sua face uma estranha máscara negra que escondia sua feição, ilusionava estar unificada à pele de seu rosto; de uma estranheza terrífica. Já o corredor, segui cambaleante por sua amplitude, no lado direito cuja luz espargia fraca. Fui buscando uma saída do pesadelo mórbido que preenchia todos os meus debilitados sentidos.
Subi por escadas longas e vi mais celas e corpos mutilados pelo caminho e era... tenebroso... ainda mais pelo contínuo ruído baixo... como se aquele lugar fosse vivo.... cada parede de pedra... cada sangue jorrado... algum tipo de energia. Dentro da última sala, após me esgueirar por escombros, encontrei um candeeiro e mais uma adaga, a qual, todavia, diferente da anterior retirada do torso do homem no gradil, esta era feita de algum tipo de material peculiar, como um quartzo bem rígido. Subi, portanto, mais uma quantia de degraus e entre o ruído aterrorizante, vozes longínquas passei a ouvir enquanto um cômodo se revelava à minha frente; sua amplitude era considerável e tinha um formato encíclico, nele difundia-se uma luz avermelhada que evidenciava altas estantes cheias de livros e mais dezenas de símbolos estranhos pelo chão e paredes, organizados criteriosamente. Pensei que encontraria a origem das vozes, cada vez mais altas em meus ouvidos como sussurros de morte, socorro e gritos abafados entre palavras indescritíveis. Contudo, ao adentrar de vez pela porta semiaberta e fitar cada detalhe daquela ritualística câmara, nada havia lá dentro... ninguém além de mim... enquanto as vozes tornavam-se verdadeiros bramidos.... Alessia... Alessia... aos meus tímpanos... Socorro... Ajuda-nos... Alessia... Socorro... Ajuda-nos... como se dezenas de pessoas estivessem ao meu redor.
Choro morbígero, urros bestiais... as vozes cada vez mais altas entre risos distorcidos... Alessia... Salve nossa alma... Socorro.... Enlouquecida, ajoelhei-me no chão, tapei meus ouvidos em busca de alívio, mas... aquilo estava dentro de minha mente... Alessia... inclusive a voz de Gahsper. Entre tantos clamores bizarros, eu o ouvia... Irmã.... fuja... fuja agora... minha... Alessia... Fechei meus olhos, cerrando minhas pálpebras em busca de um despertar. As lágrimas caíam de meus olhos vedados à força, verdadeiras como na infância, quando não se sabe de onde vem a primeira dor sentida... De súbito, porém, entre as frases e gritos desconexos, logo fitei a sala pelo pavor de sentir a presença de outro ser no ambiente... Ninguém... ninguém que podia ser reconhecido pelos meus olhos amedrontados. Comecei a retroceder, tendo aquela presença invisível cada vez mais próxima... arrastando-se contra mim, fazendo-me de imã à sua atroz consciência inominável. Socorro... Cuidado... Morra! Morra! Ajude-nos! Foi... extremamente difícil sair daquele lugar... o fiz com extensa agrura, fechei a porta da sala carmesim e empunhei a primeira adaga de ferro entre a porta e a parede, impedindo-a de ser aberta por dentro. Não importava saber o que havia naquele lugar, mas, decerto, importava-me trancar, o que quer que fosse, lá dentro.
A insanidade prospera quando o horror irriga o espírito... e nunca sabemos como lidar com tamanho abismo, por isso, somos sorvidos pelo estado catatônico de nosso semblante e pelo instinto à sobrevivência... a qualquer custo... a qualquer preço. Mesmo à parte daquele salão de espectro aterrador, em estado de perturbação, com as vozes já dilatadas, eu corri numa pressa sobre-humana, abrindo todas as portas que via e entrando em todas as salas que eu podia em busca da saída. Corri... sem questionar como... sem sentir nenhuma dor no tornozelo... e encontrei a primeira luz pálida vinda de uma imensa porta meio vertical, em uma cor prata, lisa, com um único símbolo estranho, entalhado no material, algo jamais imaginado por mim ou por qualquer outro ser humano, tenho certeza. Ela estava entreaberta, a fresta de luz também carregava o frio e a nevasca hedionda, a esperança de sair outra vez na densa neve nunca me soou como tamanho alívio e proteção, mas ali me soava.
Uma sombra, entretanto, parou frente à fissura e ouvi uma voz humana masculina, grave e avultada, proferindo a seguinte palavra: “Ttyrttyuor” — deduzo sua grafia. Sob seu som, a porta cujo lume de seu exterior era minha única esperança, abriu-se em completude de modo a exasperar meus olhos. A palavra era a sua chave. Esgueirei-me em escombros próximos e notei serem duas pessoas, uma delas vestia-se como o guarda da minha cela. O outro sujeito, porém... era uma opaca sombra indistinguível na escuridão, uma silhueta de um homem alto com uma face oculta — não busquei olhar sua face vazia, nem mesmo compreender a sua existência... ele era como a energia pesada daquela sala... sua presença assemelhava-se àquela do cômodo escarlate como se fosse, ele próprio, o cômodo em si. Escondi-me como pude, prendi minha respiração.
— Certifique-se de que todos estão mortos, prenda-os se não estiverem. Estarei no anfiteatro sangrento. — Arrepiava-me ouvi-lo, era temível estar em sua presença abissal. Ainda assim, dediquei-me ao silêncio e respirei apenas quando estava prestes a esmaecer mesmo depois de não sentir mais a proximidade deles, no dissipar daquela energia diabólica. Retornei, portanto, à porta fechada, sem nenhuma fissura de luz; e restou-me pronunciar o que ouvi... e o fiz, em sussurro, com os lábios bem rentes ao símbolo esculpido.
— Ttyrttyuor... — Uma intolerável dor cingira-me repentina, pulsando meu organismo como um pêndulo que se abala, dramático e solene, no antro de uma catedral; e vi minha pele rasgar em inúmeros cortes onde o sangue verteu célere e vigoroso e tomou a forma do símbolo entalhado. A porta se abriu em um segundo posterior e, imersa em pungente algia agônica, corri pela neve... desesperada... sem olhar para trás, com o rastro do meu sangue na palidez e o cruel sopro gelado coagulando, aos poucos, as cissuras da pele. Eu jamais pronunciarei aquilo outra vez... muitos daqueles cortes permaneceram em minha pele... mesmo após tantos anos. E, como se ainda fosse vivido, a energia hedionda daquele homem... daquela sala... afluiu-se pelos poros de minha pele, à minha carne, ossos e sangue vertido... senti perder o controle de minha alma, por átimos de um tempo além do tempo... e quando vi a neve, quando corri para minha liberdade, eu estava... instável... desnorteada e... oca...
À beira da morte pelo frio, correndo sem cessar debaixo da eterna nevasca, tive a impressão de ser cercada por escuridão, outra vez, a energia... deduzi que era a morte ou a proximidade dela, todavia, a luz retornou às minhas retinas como se cobertas, tão somente, por uma espessa nuvem passageira, então, quando tive de volta a minha visão, percebi haver casas à frente, era uma vila desconhecida; luzes tremeluziam nas janelas de algumas delas, pinheiros indicavam vida aos arredores e, se posso dizer que sorri, naquela condição desgraçada, não estaria mentindo, pois algum tipo de sorriso construiu-se em meu semblante traumatizado quando observei um homem na janela de uma das primeiras casas avistadas e, com minhas últimas forças, levantei meus braços para sinalizar minha decadência, meu pedido de socorro.
— Como está o chá? — A voz de Samael era suave, embora viril como seu rosto. Abriu a porta de seu lar para mim, sem saber quem eu era. Ao ser acudida por ele, tive os cuidados mais inestimáveis; e deitada entre as cobertas tórridas, frente à lareira mais serena, tomei de seu chá de especiarias. Conversamos um pouco, não o revelei minha terrífica história.
— Perfeito... — murmurei, ainda exausta.
— É impossível sobreviver a tal nevasca... o Criador tem planos para a tua vida... tenho certeza...
— Criador? — Eu não entendia, genuinamente. Samael olhou-me atento.
— Tu não és de Múrmura? — Demonstrei desconhecimento através de meu silêncio angustiado.
— Estranho... Tens a marca de nascença de todos os múrmuros... No seu tornozelo...
Então olhei, pela primeira vez desde a cela, quando me turvei pelo sangue, pelos ossos expostos, pela mórbida dor... eu olhei para meu tornozelo. Nele residia um imenso estigma, uma perfeita cicatriz contornando todo o espaço onde fora corroído pela argola enferrujada quando eu estava naquele inferno. Sobre parte desta cicatriz, um símbolo estranho estava marcado, como se feito à ferro quente em minha pele. Tudo, porém, curado. E jurei ter visto o mesmo emblema naquele quarto escarlate, quando caí no chão, perturbada pelas vozes. Samael mostrou-me o mesmo símbolo em seu braço direito e explicou-me que advinha do batismo sagrado realizado com os recém-nascidos por toda a província em que estávamos.
— Tu estás em Múrmura, estranha-me que sejas de Nehen, pois... não existe este lugar... quero dizer... é uma província denominada “fantasma”, lugar aonde não se chega, a menos que sejas guiado por Lúcifer.
— Lúcifer? — Minha cabeça doía, minhas mãos tremiam a cada fisgada em minhas têmporas.
— Acalma-te, Alessia... — Samael sentou-se ao meu lado, levando à minha fronte um cálido pano banhado outrora em águas fumegantes. — Não te entulharei com indagações ou explicações agora, perdoe-me. Descanse... os próximos dias serão melhores, eu prometo.
Os dias foram, de fato, melhores, no entanto, a lembrança perdurou a cada adormecer; não posso esquecê-la, mesmo sob a benção do Criador que, hoje sei, esteve comigo a todo o momento, embora eu não compreenda como poderia aquele antro horrífico carregar um símbolo sagrado, igualmente desconfio de como pude não ser assassinada enquanto fugia, visto que, não há como negar, aquele homem sombrio e sem face possuía um poder diabólico que, sob uma impiedosa habilidade, me desolaria em segundos. Ainda assim, eu fugi... e desde então, tudo se fez reminiscências de um pesadelo. Mantenho o colar de Gahsper dentro de minha Bíblia e, no baú, a adaga de quartzo negro. Não compreendo, não vejo lógica ou explicação que possa elucidar o horror que vivi, por mais que eu tente pensar — e aqui escrevi com esse intuito —, parece que quanto mais insisto, mais distante de uma resolução eu me encontro. Eu continuo sem compreender... talvez seja, realmente, melhor assim.
O Caçador
A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar, e para comer. Nunca tinha sentido tanto frio. A gigante lua prateada pairava sob o céu há dias, imutável. Não se movia, crescia ou diminuía. Apenas ficava lá, o tempo todo naquele mesmo ponto fixo, impossivelmente grande, ofuscando as estrelas. O sol não nascera desde que a maldita lua surgira. Ao menos não era vermelha. Suas montanhas estavam tomadas pela nevasca cujo gélido vento açoitava sua pele sem dar trégua. A noite sem fim ainda durava, já havia perdido a conta de quanto tempo. Não mais que um mês, ele dizia a si mesmo, não mais que um mês.
Não sabia o porquê dessa noite eterna, o porquê dessa lua imutável, quando isso acabaria, ou nem mesmo se acabaria. Mas sabia que precisava continuar caçando. Caçava não porque queria, muito menos porque gostava. Miguel o fazia porque era seu dever patrulhar e proteger as montanhas onde nasceu – tinha feito essa barganha de livre vontade, era verdade – mas o fardo de sua vida havia ficado pesado. Como que para calar suas dúvidas, instintivamente, tocou o medalhão do sol em seu peito, reconfortando-se com sua presença. Inspirou profundamente, expandindo seus sentidos, e buscou certificar-se de que ainda se mantinha no rastro. Estava, e, portanto, continuou.
A verdade é que as montanhas lhe eram conhecidas. Sabia muito bem onde estava, mas a gélida noite branca havia instigado toda a sorte de monstruosidades a saírem de seus covis. Há seis refeições – era assim que podia contar o tempo – passara por um acampamento alvejado. Lá, encontrou uma família inteira assassinada, seus corpos parcialmente mastigados ainda frescos e o sangue quente, espalhado por todo lado, derretera um pouco de neve onde tinha empoçado, formando uma viscosa lama carmesim. Sangue, neve, e terra. Ao menos com isso já estava acostumado. Desde o acampamento, caçava a assassina criatura pelas montanhas. Ainda sem sucesso, mas seguia em seu rastro.
Horas de caminhada montanha acima se passaram e seu corpo já não aguentava mais. O frio, a fome, a neve, a falta do sol, a interminável caçada, tudo isso minava sua força e sua vontade. Não aguentava mais, caiu de joelhos no chão. Olhou para o céu, a lua impossivelmente grande, impossivelmente clara, a nevasca que não dava trégua, e, pior de tudo, a falta do sol. Pela primeira vez na vida considerou desistir e se envergonhou por sua fraqueza. Se enfureceu com sua vergonha. Fora acolhido pelos caçadores do sol ainda órfão, treinado, alimentado, educado. Sim, tudo isso era verdade. Deram a ele uma casa, um nome, um propósito, mas também tomaram sua vida em troca. Jurou abster-se de uma família, de amigos, de filhos, de viver. Jurou caçar. Desde que aceitou se tornar um dos sóis essa fora sua vida: sangue, morte, e vingança. Já sem ver o venerado sol há dias, frustrado, questionando sua vida e sua vocação, Miguel, rompendo a corrente prateada com suas próprias mãos, arrancou o medalhão de seu peito, atirou-o à neve e chorou. Sem saber quanto tempo ficou ali prostrado, desmaiou.
Acordou ainda no mesmo local, seu medalhão já levemente encoberto por uma nova camada de neve que continuava a cair. O céu ainda era o mesmo, mas o vento parecia ter piorado. A visibilidade havia diminuído. Se levantou com alguma dificuldade, esfregando seus olhos e sentindo a pele arder com o sal de suas lágrimas congeladas. Precisava comer. Precisava se aquecer. Juntou o pouco de gravetos que conseguiu encontrar e tentou fazer fogo. Conseguiu uma parca chama, um lampejo de luz e calor, de esperança. Lampejo que logo foi ceifado pela nevasca que não cessava. Tentou de novo, e de novo, e de novo, todas as vezes com o mesmo resultado. Um breve calor reconfortante, logo extinguido. Por fim, se rendeu a comer o pouco de carne salgada que ainda tinha e levantou-se, olhando para o medalhão ainda largado ao seu lado.
Titubeou, sua mente tomada por dúvidas. O sol o havia abandonado, o branco gélido tomava conta do que antes era luz, calor, e verde. Por outro lado – mas pelos mesmos motivos – as montanhas nunca precisaram tanto de um caçador. Lembrou-se dos corpos mutilados, da carne devorada, e do sangue empoçado. Terminaria essa caçada e então decidiria seu futuro. Questionar-se era um luxo para o qual não tinha tempo agora. Recolheu seu medalhão, colocou-o no bolso do casaco e seguiu montanha acima o rastro da criatura de cheiro inconfundível que precisava ser parada.
Já próximo ao topo, Miguel notou seu corpo entrar em alerta. Havia chegado ao seu destino, a criatura estava próxima. A batalha era iminente. Como já fizera muitas outras vezes antes, Miguel desembainhou a espada e deu os últimos passos em direção ao cume, em direção a muito mais do que apenas uma criatura.
Ao chegar, deparou-se com uma estrutura de rocha negra e formas geométricas impossíveis. O contraste entre a nevasca branca, o luar prateado, e a rocha era como olhar para um abismo que desafiava a razão e a própria sanidade. O cheiro da criatura vinha lá de dentro e, sem escolha, Miguel prosseguiu. Cruzar o arco e entrar na estrutura foi como entrar em outro mundo. Se lá fora o vento uivava e o branco cegava, ali dentro o silêncio ensurdecia e a escuridão era indecifrável. Deu mais alguns passos adiante e aos poucos seus olhos começaram a distinguir paredes de espaços vazios, e a cada passo mais profundamente entrava naquele santuário no cume da montanha, com o cheiro do monstro que caçava como seu único guia.
Virou à direita e chegou em uma grande sala aberta. O teto impossivelmente alto, as colunas grotescamente retorcidas, como vinhas negras que cresceram se contorcendo em si mesmas e então viraram pedra. Nada mais escutava do vento lá fora. Um par de olhos prateados surgiu em meio a escuridão. Era a criatura. Avançou em sua direção, mas ela, surpresa, fugiu. Miguel a perseguiu. Seus instintos tomando conta de seu corpo, a espada empunhada pronta para matar quando, de repente, os olhos de Miguel foram açoitados pela luz. A perseguição o levara até uma sala na qual as paredes de rocha eram translúcidas, deixavam passar a luz da lua diretamente em um altar da mesma rocha negra da qual era feita todo o restante da construção. O prateado da lua, o branco da neve, e o abismo da rocha se juntavam para permear o ambiente com um surreal brilho anil. Era como um lembrete do mundo hostil que o aguardava lá fora. Em meio à confusão pela impossibilidade do que via, Miguel sentiu dor. A criatura aproveitara o momento de desatenção para arrancar, com os dentes, um pedaço de seu ombro esquerdo.
Tomado pelos seus instintos, lutou. Por um breve momento tudo ao seu redor não mais importava, esqueceu da neve, do frio, da falta de sol. Esqueceu da insanidade do local onde estava, das suas dúvidas, de seu medo, e lutou. Defendeu-se de garras e dentes com sua espada e, encontrando uma oportunidade, feriu a criatura – decepando um de seus membros de onde jorrou o tóxico sangue rubro já conhecido de Miguel. O monstro, ferido, cessou seus golpes furiosos e fugiu. O primeiro instinto do caçador foi perseguir e terminar o que tinha começado, afinal não tinha ainda infligido um ferimento mortal. As monstruosidades podem se recuperar de coisas muito piores. Ao mesmo tempo, o altar lhe chamava, ele queria responder. Titubeou.
Perseguir a criatura significaria não mais encontrar essa sala, esse local sagrado de um deus desconhecido. Significaria voltar à sua vida de caçador. Ao frio, à fome, à nevasca. As paredes do santuário – sentindo sua dúvida – deixaram adentrar o vento gélido que rugia lá fora, açoitando a pele de Miguel e invadindo seus ouvidos. Estremeceu e institivamente levou a mão ao peito, almejando tocar seu medalhão do sol que não estava mais lá. Havia-o colocado no bolso. Nesse momento de angústia e dúvida, deixou a criatura fugir. Como que por uma demonstração de boa vontade, o altar restaurou a calmaria, novamente cobrindo o ambiente naquele curioso anil e silenciando o vento. Ainda exausto, drenado pelo recém combate, sentou-se no chão rochoso, de frente ao altar, disposto a ouvir o que a pedra tinha a dizer.
Miguel Alaric Sigel, caçador do sol, protetor das montanhas, aniquilador de monstros. Essa era sua identidade até aqui, essa fora a sua vida. Seu nome resumia bem quem era. Havia sido treinado para isso desde criança. Mas o altar lhe mostrou que poderia ter sido diferente. Infinitas outras possibilidades invadiram sua mente e ele viu que poderia ser o que quisesse, poderia ser feliz. Poderia abandonar o frio, a neve, os monstros. Poderia abraçar essa escuridão, fazer desse santuário seu lar. Bastava que renegasse o sol. Já não tinha o sol o renegado? Já não tinha o sol sumido dos céus, abandonando-o à neve? A dúvida dilacerava o caçador. Ele temia saber mais, mesmo assim o queria. Precisava saber mais. Rogou ao altar que lhe revelasse seus segredos. Queria compreender o que significaria abdicar de sua fé e aceitar outro deus. Mas também queria a paz, o silêncio, e o acolhimento daquele ambiente. Não ansiava voltar à nevasca, ao frio, e à fome. Desejava, mais que tudo, momentos de conforto e percebeu que já não os tinha há muito.
E o altar não mentiu. Não escondeu. Aquele era o santuário dos monstros e da noite. Era o santuário daqueles que Miguel passara sua vida combatendo. Mas a noite precisava dele, de alguém para brandir seu estandarte, e o receberia de braços abertos. Conceder-lhe-ia essa honra. Ele poderia ser o senhor de um novo mundo se assim desejasse. Isso o chocou. Era ao mesmo tempo inimaginável, inconcebível, e inaceitável, mas também completamente tentador. Poderia abdicar de tudo que acreditava, de sua vida, dos seus juramentos, em troca do conforto desse lar? Deixar os habitantes das montanhas à mercê das criaturas que os dilaceravam?
O altar, em sua infinita sabedoria, contra-argumentou. Disse-lhe que precisava de um campeão para coordenar as criaturas da noite. Poderia ser Miguel. Não era melhor que fosse ele? Melhor ele do que qualquer outro? O antigo caçador poderia conter as criaturas, diminuir o número de ataques, mantê-las sob seu controle, se portar como um carcereiro dos condenados. Estava a seu alcance. Era só tomar a oportunidade e o poder para si, bastava aceitar. Titubeou.
A oferta era doce, sensata, razoável. Sentia-se abandonado pelo sol, estava exausto, perdido, em uma terra que já não mais reconhecia como sua. E quem poderia culpá-lo? Se o fizessem, estaria ao seu alcance se vingar. Com o comando das criaturas, poderia direcioná-las como bem entender. Poderia subjugar seus inimigos. A noite já o tomara, já pensava como um deles. Ainda nem tinha a coroa e já havia sido corrompido. A alternativa era voltar à neve, ao vento, à fome. Não aguentava mais aquele branco sem fim, aquele frio interminável. Chorou, e aceitou. Resignou-se a aceitar a oferta. E assim levantou Miguel Ragnar Nott, o traidor.
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Parte II – Darquinha - Capítulo II - Insanidade
Dizem que o simples acaso não existe e que, para que algo aconteça…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Dizem que o simples acaso não existe e que, para que algo aconteça de fato, há inúmeros outros acasos acontecendo, seguindo uma sintonia perfeita de diversos acontecimentos. E foi justamente essa perfeita junção de vários acasos em sintonia que proporcionou o encontro de um ex-cativo chamado Thomás e uma determinada equilibrista de nome Joana D’Arc, mais conhecida por todos como Darquinha. O destino pode até ser considerado por alguns como um deus um tanto quanto traiçoeiro. No entanto, ninguém jamais poderá negar que esse mesmo deus é o autor de todas as histórias já escritas, contadas e vividas, sejam elas cômicas ou trágicas.
Darquinha talvez tenha sido a única mulher que Thomás amou verdadeiramente. É evidente que, para um homem de sua idade, ele tenha tido conhecimento de outras mulheres no leito. Entretanto, sempre fora de uma forma bastante efêmera e descompromissada, algumas até mesmo em troca de algumas moedas ou algum tipo de favor. Contudo, nunca algo muito sério. Eram sempre relacionamentos de uma única noite, na maioria das vezes fugazes demais para serem repetidos, uma vez que, antes de conhecer Darquinha, ele era um homem errante, sempre perambulando de um lado para o outro em busca de trabalho. Quando a conheceu, Darquinha era uma bela jovem ainda na flor da idade, com apenas quinze anos recém-completados. Ela tinha a pele extremamente clara e macia, cabelos cacheados na cor de ouro e belos olhos azuis que lhe davam a aparência de uma princesa de contos de fadas.
Thomás a conheceu no circo ao qual ela fazia parte desde que nascera – sendo seus pais artistas circenses desde sempre – e de acordo com que fora crescendo, seguindo os passos dos pais e atendendo a um chamado do talento artístico que corria em suas veias, tornara-se uma exímia equilibrista, que a todos impressionava tanto por sua beleza e simpatia, bem como a ousadia dos números que ela desempenhava a cada espetáculo. Negro e ex-cativo, Thomás, desde que a abolição fora decretada, – mesmo sendo ele um negro foro, bem antes disso – vivia errando de um lado para o outro de cidade em cidade em busca de algum trabalho honesto que lhe proporcionasse os meios para a sua sobrevivência de uma forma digna.
Se a vida dos negros escravizados já era difícil nas senzalas, com toda a humilhação e privação de qualquer tipo de dignidade. Quando ainda cativos morriam aos montes, no trabalho árduo e contínuo, onde seus senhores nenhum pouco se importavam, pois eram considerados apenas como instrumentos de trabalho que se moviam sozinhos, executando aquilo que lhes eram ordenados. Pois se um deles perecia, logo havia outro para poder substituí-lo. Como havia grande oferta, poderiam ser adquiridos por uma reles quantia nas feiras onde eram vendidos como animais considerados como seres desprovidos de alma ou qualquer tipo de sentimento.
Assim que foram libertos se encontraram numa situação um pouco mais degradante e desesperadora, pois não tinham dinheiro, nem bens e muito menos um lugar onde pudessem ficar. A maioria dos ex-cativos das cidades foram ocupar os morros em barracos improvisados, que mais pareciam sinistras armadilhas, prontas a colher a vida de seus ocupantes a qualquer momento. Para completar ainda mais o caos em que suas vidas se tornaram, a grande maioria não conseguia trabalho honesto em quase lugar algum. Desprovidos de bens, ou qualquer tipo ofício, os negros que conquistaram através da Lei Áurea sua tão sonhada liberdade, se encontravam soltos pelo mundo sem eira nem beira, completamente entregues à própria sorte. Para sobreviverem, eram obrigados a enfrentar e aceitar qualquer tipo de ocupação que lhes apresentasse, mesmo que fossem as mais degradantes possíveis. Literalmente, para não morrerem de fome, os negros logo após a abolição tinham que se virar sozinhos naquilo que desse e viesse. Talvez seja dessa época o provérbio que diz: “... não há maldade ou situação tão ruim que não possa piorar um pouco mais...”.
É correto salientar que, independente de qualquer coisa que se possa dizer o cativeiro, – seja ele qual for – é ignominioso e bastante deplorável. Contudo, a libertação dos escravos no Brasil em particular, se demonstrou em algo um tanto quanto ineficaz aos negros cativos, que se por um lado se viram livres do julgo de seus senhores, por outro continuaram escravos da necessidade e da humilhação, que torna qualquer individuo um prisioneiro do desespero e da indignação.
Thomás, que há tempos se encontrava no mais completo ócio, já praticamente sem dinheiro algum e quase à beira do desespero, muito se animou quando, numa bela manhã de céu claro e tempo firme, o circo desembarcou na cidade onde ele se encontrava naquele momento. Como era do tipo de homem que enfrentava todo e qualquer tipo de trabalho, logo foi contratado para a montagem das barracas e do improvisado e combalido parque de diversões – um colorido chamariz para as crianças – que agora fazia parte das atrações do circo. O Grande Circo Chittway – agora já não tão grande – já à beira da falência definitiva, sobrevivendo de minguadas arrecadações – cada vez mais escassas – sempre buscava, na medida do possível, gastar o mínimo, tentando empregar quem cobrasse um soldo mais barato, se possível alguém que trabalhasse por dois e recebesse pela metade de um – talvez seja por essas e outras que tenha surgido o preconceito que alega que o circo seja um antro de pessoas de índole duvidosa.
Thomás, com as finanças quase no fim, com o aluguel de seu biombo por vencer nos próximos dias, e se vendo em sérias necessidades financeiras, aceitou de imediato o parco valor oferecido por uma diária de trabalho. Esse ordenado, mesmo que mísero, foi prontamente aceito, pois vinha acompanhado de uma refeição, que logicamente não era nenhum manjar olimpiano – diga-se de passagem – mas, para quem já havia experimentado os mais abjetos repastos de uma senzala, qualquer comida poderia ser considerada um banquete.
Foi no mesmo dia em que se empregou no circo, numa tarde quente e abafada, com o sol brilhando forte e majestoso num céu límpido e claro, que Darquinha ofereceu ao suado negro Thomás uma refrescante limonada. Este, por sua vez, muito timidamente perante a beleza da jovem, aceitou o refresco e logo sorveu toda a limonada em grandes goles, pois naquele momento, debaixo daquele sol escaldante, a sede o açoitava sem piedade alguma – principalmente após o almoço, que fora composto de arroz com carne de sol e legumes, bem caprichado no sal. Contudo, quando, com toda galhardia, quis agradecer à bela jovem que lhe prestara aquela boa ação, logo lhe foi informado por um dos integrantes do circo que ela era surda desde criança. Thomás também soube pela mesma pessoa que ela havia ficado órfã há pouco tempo. Seus pais – a maior sensação do circo – haviam perecido num trágico incêndio que quase destruíra o circo por completo.
Alguns acreditavam que o fogo se iniciara na barraca de atendimento de Madame Staell, talvez foco de um de seus inúmeros incensos, que queimavam quase todo o tempo em sua barraca de cigana. Como ninguém sabia ao certo se fora realmente ela a responsável pelo incêndio, não ousavam acusá-la diretamente por perda tão irrecuperável – também havia o medo de, ao responsabilizá-la por tamanha tragédia, quem assim o fizesse poderia se tornar uma pessoa não grata aos olhos ferinos da sinistra cigana. Como esse incêndio trouxera enormes prejuízos materiais ao já combalido circo, e também colhera a vida do mágico Norman e sua esposa, a bela assistente Elizabeth, logo a vida de Madame Staell se tornou um tanto quanto insustentável ali perante seus companheiros que, de uma forma, mesmo que velada, estavam praticando certo desprezo pela cigana.
O dono do circo já não tinha tanta simpatia por ela. Primeiro, porque ela nunca lhe dera nenhum tipo de ousadia, mesmo as ofertas tendo sido por demais tentadoras e bastante generosas por parte dele. Segundo, porque os Benetti sempre a defenderam, pois ela era uma espécie de fada madrinha da jovem Darquinha. E por último – talvez, esse o fator mais relevante – o fato de ela ter perdido completamente a visão de um de seus olhos, enquanto o outro olho que lhe restara se mantinha sempre vermelho e remelento, dando-lhe uma feição asquerosa e horripilante. Sendo assim, seu faturamento como vidente havia diminuído substancialmente – afinal, ninguém tinha muita fé em alguém que prometia enxergar o futuro, se nem mesmo conseguia ver o presente. Madame Staell ainda não havia abandonado o circo porque, após o acidente que matara Norman e Elizabeth, a pequena Darquinha – com apenas doze anos – havia ficado sob seus cuidados.
Desde que se associara àquele circo há mais de vinte anos, ainda nas longínquas terras do velho mundo, Madame Staell tinha se afinizado bastante com os Benetti – na época, um jovem casal de artistas de matrimônio recente – e foi justamente ela – ninguém sabe ao certo como – que havia ensinado a pequena Darquinha uma forma de comunicação através de sinais, assim que a filhinha adorada dos Benetti demonstrou os primeiros sinais de surdez. Essa desconhecida forma de comunicação havia facilitado bastante a interação com a pequena equilibrista que, assim como seus próprios pais, também era muito aplaudida pelo público em suas apresentações, tanto por sua rara beleza quanto por sua destreza e coragem em números muito ousados para sua idade.
Soube-se depois que aquela forma de comunicação através de gestos e sinais era uma antiga tradição oriunda dos antepassados de sua avó – A Mudra é uma espécie de dança teatral que envolve movimentos rítmicos misturados com gestos e sinais que conseguem transmitir algum tipo de mensagem sem emitir nenhum tipo de som. Madame Staell conseguiu de alguma forma adaptar a Mudra para uma forma de comunicação que pudesse dispensar os movimentos rítmicos, deixando apenas gestos e sinais. Com zelosa paciência e dedicação, logo a cigana se comunicava abertamente com Darquinha, tornando-se assim, mesmo de uma forma involuntária, sua intérprete oficial para todos os outros integrantes do circo.
Depois da morte dos Benetti, o único parente vivo de Darquinha que ainda havia sobrado em terras brasileiras era seu tio Nicolas – Nico Besta-fera – um indivíduo de índole muito duvidosa, que enfrentava sérios problemas com a bebida – talvez devido à sua condição física – e que piorara bastante nos últimos tempos após a perda de seu irmão Norman, que sempre lhe fora uma espécie de protetor. Como não havia possibilidade alguma de deixar uma donzela – mesmo sendo sua sobrinha – aos cuidados de uma pessoa que não conseguia tomar conta nem de si mesmo – a situação emocional e a aparência física de Nico Besta-fera era cada dia mais deplorável – optou-se pela sensata decisão de que a jovem órfã deveria ficar aos cuidados e proteção da velha cigana, que além de ser uma mulher de comportamento ilibado, também sabia se comunicar muito bem com ela.
Não foi apenas o exagero da bebida que fez com que Darquinha fosse afastada da companhia de seu tio, sendo direcionada à proteção da velha cigana. Na verdade, Madame Staell não era nenhuma pessoa senil ainda. Contudo, após a perda parcial da visão, a decepção com as terras brasileiras, a dor e a tristeza adicionaram um suave toque de velhice à sua aparência – segundo a sabedoria popular: "... nada nessa vida é capaz de envelhecer um ser vivo mais do que o sofrimento...". A olhos vistos, a impressão era que a velha cigana tinha se esquecido do significado do que era esperança – talvez a constante companhia de duas almas sofredoras pudesse ser confortadora para ambas. De certa forma, a assustadora aparência de seu tio Nicolas já era motivo suficiente para manter a jovem e indefesa equilibrista afastada dele, o tanto quanto fosse possível.
Nicolas Benetti era irmão gêmeo de Norman. A diferença entre ambos gerava piadas um tanto quanto maldosas. Vladimir – que não era nenhum pouco simpático ao anão – certo dia, estando zangado com Nico por uma besteira qualquer, chegou mesmo a dizer: – "Quando o mágico Norman nasceu, sua bondosa mãe ficara tão admirada de sua beleza que decidira criar também sua placenta...". Muito diferente de seu irmão, o anão era um sujeito disforme, com uma cabeça enorme sobre uma protuberante corcunda; suas pernas eram grotescas e curtas, numa total desproporção ao seu torso. Sua cabeça, além de grande, era afinada na frente, quase como a figura de um tubarão; suas sobrancelhas unidas sobre o nariz vermelho eram salientes e davam-lhe um aspecto animalesco. Mas a pior parte eram os dentes afinados como os de um cão, além dos olhos que, pela lógica, deveriam ser claros, mas permaneciam quase constantemente olhando sempre em direções diferentes.
Nicolas Benetti fazia parte da família do mágico Norman e, por isso, acompanhava o pacote – o fantástico mágico, a bela assistente e o pequeno monstro. Enquanto Norman e Elizabeth deixavam o público boquiaberto com o universo místico dos passes de mágica, Nicolas Benetti, o anão húngaro do circo, amedrontava mulheres e crianças e divertia os adultos. Era apresentado ao público – na maioria das vezes completamente bêbado e sempre mal-humorado – como Nico Besta-fera, o último mordomo do Conde Drácula. Alguns diziam que o desavisado Conde Drácula havia morrido após experimentar o sangue do anão, nocivo até para o mais abjeto dos demônios.
Fora o próprio Sr. Zacky quem tivera a ideia de que a jovem Darquinha fosse viver na companhia de Madame Staell, ficando assim esta pela responsabilidade de zelar pela integridade da filha dos Benetti. Contudo, havia algo a mais além de toda essa benevolência por parte desse nobre cavalheiro, pois sua verdadeira intenção era, assim que a primeira oportunidade se demonstrasse propícia, abandonar a velha cigana – que há tempos era apenas um peso para o circo, pois era vista pelo público como uma horripilante bruxa. Quase ninguém mais procurava por seus serviços. Se suas premonições eram ruins, eram recebidas como agouro. Se, por outro lado, se demonstrassem boas e promissoras, eram consideradas uma benesse das trevas, que poderiam ser cobradas posteriormente – ficava semanas inteiras sem arrecadar nenhum tostão.
A jovem equilibrista, por sua vez, também não rendia os mesmos aplausos de outrora. Logo após a trágica morte de seus pais, ela ficara meses sem se apresentar – fato que foi respeitado por todos num primeiro momento – e, quando aos poucos foi voltando ao picadeiro, suas apresentações eram insalubres e sem nenhum brilho. Chegando mesmo, por algumas vezes, a abandonar o palco chorando numa sofrível agonia – quem conhecera os Benetti a aplaudia nesses momentos de tristeza, solidarizando-se com seu sofrimento. Mas como não há alegria que seja eterna e nem tristeza que perdure para sempre, logo até mesmo a morte dos Benetti virou história, e quem pagava para ver o espetáculo não se interessava por um show de lágrimas.
Sr. Zacky muitas vezes se perguntava se seu circo, que outrora fora grande e majestoso, havia se tornado uma casa de apoio a deficientes e idosos – na Europa, havia sempre a renovação do quadro de artistas. Era comum sempre aparecer indivíduos com algum talento artístico em busca de emprego. Desde que chegara ao Brasil, nenhum artista fora incorporado ao grupo, quando muito, um ou outro ser com alguma aparência estranha. Desde que chegaram ao Brasil, muitos haviam abandonado o circo para tentar a vida como colonos em grandes fazendas de café. Os que restaram eram algo deprimente de se ver: um anão bêbado em constante crise existencial, uma vidente praticamente cega que não via mais o futuro e nem o presente e já demonstrava esquecer até mesmo seu próprio passado, uma equilibrista que levava tombos da vida a torto e a direito e que havia ficado completamente surda, e por fim alguns outros artistas, sem muita importância, que já estavam ficando velhos e obsoletos. Por mais leviana que pudesse parecer, sua intenção de se livrar da cigana e de sua protegida – uma despesa supérflua – era tentar cortar todo tipo de gasto desnecessário de um circo que praticamente já não arrecadava quase nada.
Sr. Zacky, por muitas vezes – quando em madrugadas insones, quando todos dormiam e tudo se aquietava – deitado em seu leito na solidão de seus pensamentos, se arrependia amargamente de um dia ter abandonado sua terra para se lançar numa louca aventura, baseado em promessas vazias feitas por um desconhecido endinheirado e nos conselhos de uma sombria cigana – que advogava em causa própria. Mesmo que a situação do circo naquele momento na Europa fosse desesperadora, deveria ter sido mais prudente e não se deixar levar pelas circunstâncias. Infelizmente, em momentos de solidão e carência, toda e qualquer companhia é bem-vinda e, para quem está faminto, qualquer repasto é banquete. Naquele momento desesperador, tanto a sua realidade quanto a de seus companheiros fora substituída pela promessa de dias melhores em terras de além-mar.
Madame Staell – a pedido do próprio Sr. Zacky – tinha visto em suas cartas que a vida de todos no circo seria bem diferente no Brasil. Como as cartas não mentem jamais, a cigana tinha dito a verdade. Realmente a vida de todos que acompanharam o circo para terras brasileiras havia mudado bastante. Sr. Zacky suspirava de desgosto e arrependimento. Em outros tempos, quando ainda era jovem, a aventura de vir para o Brasil ou qualquer outra parte da América poderia ter sido diferente, pois sabia ele que o maior inimigo de um homem era o frio cortante dos anos acumulados em suas costas. Assim que o calor da juventude se esvai pelo corpo, pelas constantes decepções acumuladas, jamais essa chama poderia se aquecer novamente. Com o corpo frio e sem perspectivas para dias melhores, por diversas vezes havia cogitado a ideia de abandonar tudo e retornar sozinho para a Europa em busca de algum parente que ainda lhe restasse ou mesmo algum amigo que pudesse lhe dar guarida para terminar seus dias com dignidade em sua terra natal. Em sua concepção, a vinda para o Brasil se demonstrara um erro terrível. Mas, até que sua resolução de retornar à Europa fosse viável, deveria ele tentar cortar todo tipo de gasto desnecessário, pois, às escondidas e com muita dificuldade, na medida do possível, estava ele ajuntando míseros tostões para que pudesse custear seu retorno ao velho mundo.
O circo, cada vez mais decadente, havia se instalado naquela cidade – onde Thomás estava de passagem – devido a uma animada festa de quermesse, que se iniciaria duas semanas depois. As festas de quermesse, em muitas cidades do sertão, são sempre ansiosamente aguardadas pela população local e adjacente dessas ermas localidades, que em sua grande maioria não têm muitos atrativos. Essas festas religiosas são grandes acontecimentos, onde há muita bebida, comida farta com várias novidades, tanto de mercadorias comercializadas nas coloridas barracas de mascates, quanto nas barracas de jogos e diversão e, vez por outra, algo um tanto quanto mais diversificado como um circo, por exemplo. Após três dias de trabalho duro – com o auxílio do negro Thomás – logo o circo já estava todo montado e pronto para um colorido espetáculo.
Durante esses três dias de trabalho, por incentivo do dono do circo – que, independente de qualquer coisa, sempre fora muito gentil e benevolente com todos que trabalhavam com ele ou para ele – por duas ou três vezes, Darquinha havia servido algo para Thomás; um refresco aqui, um gole de café acolá e até mesmo uma satisfatória fatia de broa de milho que ela mesma havia preparado sob a supervisão da velha cigana – que havia visto em suas premonições algo muito promissor para ambas na presença daquele simpático e educado negro. De certo modo, de uma forma bastante substancial, Thomás fazia parte do futuro tanto de uma quanto da outra, mas bem longe do circo e de todos aqueles que as conheciam.
O destino, esse deus – entidade, espírito, ou seja, lá o que o valha – um tanto quanto confuso às vezes, para a simples e limitada compreensão humana, tornou a presença de Thomás – um homem já maduro – muito confortável para a jovem, que após muito tempo de tristeza voltou a sorrir e ter o olhar brilhante outra vez. A cigana, mesmo com a visão bastante comprometida, logo percebeu certa afinidade entre eles. Mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra e nem ao menos poder ouvir qualquer coisa que ele dizia, parecia que a troca de sorrisos e olhares entre ambos dava mostras de estarem travando longos diálogos. Madame Staell, muito interessada em tudo aquilo, decidiu questionar sua protegida. Através de gestos cuidadosos e com bastante parcimônia, perguntou a ela:
– Por que tanta gentileza para com aquele negro desconhecido?
Darquinha, por sua vez, também através de gestos, mesmo com certa timidez, mas bastante confiante, respondeu:
– Há algo de curioso no modo como ele me olha, e o jeito como ele me trata me deixa bastante segura e muito confortável, como se em seus gestos gentis e seu sorriso sincero houvesse algo que me fizesse lembrar meu saudoso pai.
Assim que conseguiu se fazer entender, caiu num doloroso pranto, abraçando fortemente a cigana, que logo a amparou em seus braços, deixando que ela pudesse desabafar toda a tristeza que havia retraída em seu ser por tão irreparável perda.
Darquinha, vez por outra, em raros momentos de descanso, flagrava Thomás com um livro nas mãos. Um livro em si era sinal de grandeza de caráter – seu pai, que era um assíduo leitor, sempre dizia que os grandes espíritos se formavam através de sabedoria e muito conhecimento – concedendo ao seu portador ares de boa índole, tal como seu próprio pai fora um dia. Um homem amante das letras, portando sempre consigo um bom livro, seria incapaz de cometer qualquer tipo de grosseria ou indelicadeza com quem quer que fosse.
Quando ela ainda era uma criança e ainda podia ouvir algum tipo de som claramente, certa vez questionou seu pai porque deveria aprender a ler e a escrever, sendo que aquele tipo de atividade não era tão relevante para eles ali no circo, onde não havia muitos livros para serem lidos. Seu pai, um homem de traços serenos, sempre muito paciente e carismático, lhe respondera citando um antigo provérbio árabe:
– “A ignorância é vizinha da maldade.” Pessoas sábias são benevolentes por natureza.
Mesmo já com os primeiros sinais de surdez, quando seu pai lia algum livro para ela ou lhe ensinava algo, Darquinha escutava com silenciosa atenção, coisa que só se via na face de um aluno quando o professor era objeto de sincera admiração. Em seus inocentes pensamentos, um homem que admirasse os livros e que amasse as letras saberia o verdadeiro significado do amor.
Madame Staell tentou lhe gesticular sobre a diferença que havia entre eles, não só de cor – que era proporcional ao dia e à noite – a origem e tudo o mais, mas principalmente a idade, que era demasiadamente incompatível para um relacionamento entre ambos. Darquinha então se recordou de um livro que seu pai lera para ela há muito tempo. Nessa obra escrita pelo filósofo Platão ainda nos tempos áureos da humanidade, o enredo tratava de um grande banquete onde um elogio era feito para o Amor, esse deus infinito de sentimento sublime. Dentre os diversos elogios que foram cantados, um se destacou acima dos demais; dizia que no princípio éramos seres ligados como se fôssemos apenas um, formando duas partes que se completavam para formar um todo. Até que um dia os deuses – por ira ou talvez até mesmo inveja da felicidade humana – nos dividiram por toda a eternidade em duas partes distintas e, a partir de então, erramos pelo mundo de coração vazio e alma atribulada, sempre em busca de nossa outra metade. Quando encontramos a outra parte que nos completa, nada mais importa. Nenhum tipo de riqueza, status ou posição social faz sentido até nos ligarmos de forma incondicional a essa metade e sermos completos novamente.
Desde que o homem pisou nessa terra, talvez fosse essa a melhor explicação para o Amor, esse estranho sentimento que une as pessoas sem fazer distinção de gênero, cor, idade etc. Não que o amor seja cego, na verdade apenas consegue ver muito mais além do que os olhos podem enxergar. Madame Staell, uma mulher muito versada nas questões que envolvem os sentimentos e até mesmo a própria alma, se deu por convencida e nada mais acrescentou.
Na noite de estreia do circo, tudo estava belo e colorido como num sonho. Naquele pequeno vilarejo, era a primeira vez que um circo se instalava ali. Para a grande maioria – de uma população relativamente pequena – o circo era uma fantástica novidade, e todos estavam bastante ansiosos pelas apresentações. Até mesmo Darquinha, que há tempos não se apresentava como outrora sempre fizera, naquela noite em particular, estava bastante eufórica.
A festa da quermesse se iniciara assim que o sol se pôs e deu lugar a uma bela noite enluarada de tempo fresco e agradável. Havia comidas e bebidas dos mais variados tipos. Barracas coloridas anunciavam muitas novidades da cidade grande e o circo, sem muita demora, logo iniciara suas apresentações. O espetáculo foi um tremendo sucesso, mesmo que a plateia não fosse tão numerosa quanto o esperado. No entanto, a meia centena de pessoas – talvez até um pouco mais – que assistira ao espetáculo ficou admirada com tanta maestria dos artistas. O mais deslumbrado dos espectadores era o negro Thomás, que contemplava a apresentação de Darquinha boquiaberto. A jovem equilibrista estava inspirada naquela noite e fez uma de suas mais belas apresentações, mal sabendo que aquela seria a última vez que atuaria como uma artista circense.
Assim que as apresentações se encerraram e todos estavam contentes com o resultado – alguns porque ficaram admirados com toda a magia do circo, outros porque logo terminara. Somente Sr. Zacky estava cada vez mais acabrunhado com os parcos resultados da bilheteria, que, mesmo para uma noite de estreia, mal cobriam os custos da montagem do circo. Os artistas, que pareciam já estar acostumados com aquelas poucas migalhas, se deram por satisfeitos e, assim que terminaram suas apresentações, quiseram também – na medida do possível – aproveitar a festa. Nico Besta-fera, que antes mesmo de terminar as apresentações já estava caindo de bêbado, assim que o circo deu por encerradas as atividades da noite, logo se recolheu e foi tentar curar sua bebedeira com uma tranquila noite de sono. Alguns seguiram o exemplo de Nico e também foram se recolher.
Muitos outros quiseram estender a noite. Enquanto Vladmir se exibia com suas habilidades com as facas para algumas moças e rapazes, viu que Darquinha dava certa ousadia ao negro que ajudara na montagem do circo. Percebeu que os dois estavam ficando íntimos demais, pois o negro já havia lhe comprado um mimo na barraca de bichos de pelúcia e também haviam tomado refrescos juntos. Estando ela sempre muito sorridente para aquele estranho. Vladmir que outrora cultivara um amor platônico pela bela mãe de Darquinha, com a morte desta, entendeu que esse amor poderia ser estendido para filha que a cada dia que passava, ficava tão bela quanto a própria mãe. Ele que estava mordido de ciúmes pelo comportamento que Darquinha despedia a um estranho, – intimidades que a ele nunca fora permitida – decidiu que se quisesse alguma chance com a jovem deveria agir muito rapidamente. Como na feira havia bebidas à vontade para quem pudesse pagar, ele acabou exagerando no consumo e em pouco tempo já não era senhor de seu juízo perfeito e arquitetara para aquela mesma noite tomar Darquinha por companheira, mesmo que tivesse que obrigá-la a tal feito. O único problema era a velha cigana que trazia sua protegida sempre debaixo de seus olhos, mas como ele já havia tomada aquela resolução ficaria a espera da melhor oportunidade para colocar em prática seu vil intento.
Antes da meia noite, quando as luzes começaram a se apagar e todos já estavam se recolhendo, o casal de apaixonados também decidira dar aquela noite por encerrada e após se despedirem com algumas trocas de carícias foram se recolher. Thomás se dirigira para o quarto onde estava hospedado radiante de alegria, tal como uma criança que ganha um brinquedo novo. Darquinha por sua vez, vivia os momentos mais intensos de sua tão lastimosa existência e se encaminhara a passos lentos para a barraca da velha cigana, que naquela hora já estava recolhida, mas ainda acordada a espera da jovem protegida. O circo estava montado ao lado da igreja e o acampamento dos artistas um pouco mais atrás. Entre o circo e o acampamento havia um pequeno trecho que àquela hora da noite, com céu já começando a se fechar para uma chuva que se anunciava para breve, estava um pouco escuro, mas era o caminho que ela deveria seguir até a barraca em que estava alojada.
Foi justamente nesse trecho que Vladmir decidiu esperar por ela e dar seu golpe de misericórdia. Assim que Darquinha se aproximou do local onde ele estava de tocaia, ele se fez visível e para que ela não se assustasse gesticulou para que ela o reconhecesse. Como conhecia o faquir há muitos anos, ela pareceu não dar muito importância a ele e continuou caminhando até o momento que ele a segurou firmemente pelo braço tentando arrasta-la até uma construção em ruínas ao lado do caminho. Qualquer pessoa teria tentando gritar por socorro, mas para a jovem Darquinha isso não era possível, e ela mesmo que muito relutante, teve que se deixar levar, pois Vladimir tinha quase o dobro de sua força e parecia estar completamente descontrolado. Ela pode sentir o hálito de bebida e mesmo na penumbra da noite parece que podia ver algo estranho em seu olhar. Brilho que só aparece nos olhos de alguém que está friamente determinado a fazer algo terrível.
Darquinha estava, naquela noite, trajada com um belo vestido de cetim de cor amarelo com belos motivos florais. Tinha os cabelos soltos apenas com um enfeite de prata para prender a franja que lhe caia nos olhos, e usava um agradável perfume que trazia notas de refrescantes flores silvestres. Até o momento que fora abordada por Vladmir estava numa noite esplendorosa, mas se vendo presa nas garras daquele ignominioso crápula experimentou um momento de terrível desespero. O até então, gentil e prestativo faquir, finalmente revelara sua verdadeira natureza e estando os dois a sós resguardados pela penumbra e a quietude da noite tentava de todas as formas arrancar as vestes de Darquinha com o ímpeto de possuí-la a qualquer custo e depois tomá-la por esposa. Naquele momento o terror enfrentado por Darquinha era algo inominável, sabendo que ali naquele local e àquela hora da noite sem poder gritar por ajuda, ninguém viria em seu socorro.
Contudo, o ser humano desde sua origem mais remota, nos momentos mais terríveis de sua existência sempre conseguira encontrar uma forma de vencer as adversidades que a vida lhe apresentava e foi agarrada a essa desconhecida força que Darquinha encontrou a ajuda que necessitava naquele instante. Sabendo que suas forças e capacidades físicas eram inversamente desproporcionais a daquele asqueroso ser que a atacava como um animal selvagem, ela utilizando-se da capacidade de dissimulação que só os seres humanos têm, deixou de resistir e deu mostras que consentiria tudo o que ele quisesse.
Estando ele muito entretido em seu intento, parecendo que ela havia cedido as suas investidas e também por estar sobre forte efeito do álcool, abriu sua retaguarda e nem mesmo percebeu quando ela num ímpeto incrível de sobrevivência e defesa da honra arrancara-lhe uma de suas facas – que ele sempre trazia consigo na cintura – e num único golpe certeiro, cravou-lhe em seu peito com toda a força que possuía – a energia que um ser vivo consegue canalizar quando se encontra na iminência de algo perigo letal, é algo inacreditável. – Vladimir que jamais poderia esperar uma atitude daquela, vindo de alguém que até então tinha sido de uma meiguice extraordinária, deu alguns passos para trás e caiu de joelhos tentando arrancar a faca de seu peito. Todavia, o golpe havia encontrado o destino certo e o coração que outrora já batera doridamente pela mãe de Darquinha, naquele fatídico instante encerrava seus movimentos de uma vez por todas e colocava um fim definitivo na errante e frustrada vida daquele distinto faquir, que em último ato de desespero havia puxado a faca da ferida recém-aberta sacramentando seu próprio fim.
Assustada com todo aquele sangue que esvaia em jorros da ferida de seu algoz, sem saber se ele estava vivo ou morto, Darquinha saiu correndo na direção do acampamento que não estava muito longe. Logo na entrada do local onde as barracas estavam instaladas parou por um instante, para que pudesse recuperar o fôlego e tentar se recompor. Parada encostada a uma pequena árvore olhou ao redor e pôde então perceber que àquela hora já bastante avançada da noite, todos haviam se recolhido. Tudo estava quieto e silencioso, somente na barraca de Madame Staell ainda havia luz e movimento. Mesmo estando o céu quase todo encoberto por pesadas e escuras nuvens que ameaçavam derramar um aguaceiro a qualquer momento, naquele instante uma réstia de luar brilhou em seu rosto pouco antes dela entrar na barraca da cigana, que de alguma forma sobrenatural pressentia que algo não estava certo e já a aguardava ainda de pé bastante ansiosa.
Quando sua protegida entrou ainda esbaforida e com escuras manchas de sangue respingadas em quase todo o vestido, a sábia cigana logo concluiu que por mais uma vez sua intuição não estava errada e muito rapidamente acolhendo a assustada jovem em seus braços tentou acalma-la com carícias e afagos. Assim que percebeu que sua respiração se desacelerava e ela estava um pouco mais calma, questionou o que havia acontecido a ela e o porquê dela estar naquele estado tão lastimável. Através de gesticulações ainda desconexas, Darquinha lhe relatara todo o acontecido e tentava a todo custo convencê-la a segui-la para mostrar-lhe o local onde Vladmir tentara lhe violentar e ela o havia ferido. Mesmo sendo vítima daquela vil criatura, ainda assim, demonstrava uma profunda preocupação pela vida daquele ser, e ansiava por tentar ajuda-lo de qualquer forma.
Madame Staell sendo uma mulher já experimentada em anos de vivência e com a maldade humana, decidiu que não seria correto irem sozinhas até o local de um possível homicídio. Sem demora, foram chamar o dono do circo, mas antes fizera com que Darquinha trocasse o vestido sujo de sangue e lavasse bem o seu rosto, tentando apagar qualquer traço de culpa que pudesse lhe incriminar. A velha cigana fora categórica ao dizer que ela deveria manter tudo àquilo no mais absoluto segredo, e de forma alguma deixar que qualquer pessoa ao menos desconfiasse que ela tivesse algo haver com o assassinato em si. Diriam apenas que, estando ela voltando de um passeio pela cidade se deparou com alguém caído no caminho e quando ela por curiosidade foi ver de quem se tratava, percebeu que era o faquir e este, estava ferido de morte.
Como a hora já era um tanto quanto avançada, Sr. Zacky com muita má vontade e um mau humor bastante amargo, se levantara praguejando a tudo e a todos, quis logo saber quem o estava incomodando àquelas horas tão tardias. Com palavras rápidas e diretas, logo a cigana o colocara a par de toda a situação e mais que depressa lhe rogou que as acompanhasse até o local para quem sabe ainda poder ajudar o infeliz faquir. Rapidamente se encaminharam para o local do acontecido.
Quando chegaram onde tudo ocorrera, Sr. Zacky logo percebeu que o faquir estava sobre uma poça de sangue como se todo o sangue de seu corpo tivesse se esvaído e logo pôde verificar que Vladmir já estava sem vida, e que nada mais poderia ser feito por ele. Pediu a velha cigana que lhe repetisse toda a historia uma vez mais. Enquanto Madame Staell lhe relatava a história que ela mesmo criara em todos os seus pormenores, sem mudar uma única silaba se quer, ele com o dedo sobre o lábio superior tentava entender como aquele fato se dera. Mesmo achando toda aquela historia muito estranha. Pois, sabia ele que Vladimir era um homem forte e muito ágil e não deixaria se ferir tão facilmente daquela forma com uma facada no peito, havia algo muito errado naquilo tudo, mas de forma alguma ele ousou duvidar das palavras que a cigana lhe relatara.
Deixando o dono do circo digerir a historia bem como entendesse, deu-lhe alguns minutos de reflexão e logo em seguida questionou-lhe de forma categórica e muito convincente:
– O que faremos Sr. Zacky? Este homem foi assassinado! Devemos acionar as autoridades imediatamente! Ou pelo menos dar o alarde pela cidade, quem sabe assim poderemos esclarecer o que aconteceu com nosso companheiro.
Darquinha se mantinha de cabeça baixa sem conseguir levantar os olhos – pois sabia que qualquer um poderia ver culpa em seus olhos – se mantinha quieta ao extremo tentando manter até mesmo a sua respiração num movimento cadenciado e muito silencioso, vez por outra dava um suspiro profundo e balançava a cabeça em movimento negativo. Quando a cigana propôs acionar as autoridades, de alguma forma ela pode entender o que estava sendo dito, mesmo sem poder ouvir nenhuma palavra se quer. Um frio arrepio correu por toda a sua espinha e todos os pelos de seu corpo se eriçaram, sorte sua que as trevas da noite ocultaram aquela infeliz e involuntária reação perante aquelas palavras de sua tutora. O dono do circo decidira que o melhor a se fazer era primeiro alertar seus companheiros, e somente depois, acompanhado de outras pessoas de sua confiança irem em busca das autoridades locais, pois sabia melhor do que ninguém que a polícia no Brasil não era muito sociável com estrangeiros e nada benevolente com estórias mal contadas.
Em poucos minutos todo o circo estava de pé. O alvoroço foi completo como se o Juízo Final tivesse se iniciado. Houve diversas acusações, profundos lamentos e várias conjecturas infundadas. Todos pareciam ter uma resolução predeterminada para o que havia acontecido. Sr. Zacky a todo o tempo tentando se manter calmo e como líder daquela trupe, buscara com palavras de bom senso manter os ânimos amainados. Dizendo em tom sereno, mas de uma forma firme, que todos deveriam tentar falar um pouco menos e agirem um pouco mais. Reuniu alguns homens consigo e acompanhado da velha cigana foram em busca de alguma autoridade na cidade. Madame Staell dera ordem a Darquinha para que se recolhesse e em hipótese alguma deveria manter nenhum tipo de diálogo com quem quer que fosse.
Logo toda a cidade estava sabendo do acontecido e como era um lugar onde a paz era absoluta, aquele trágico acontecimento era uma novidade que por muitos dias serviria de entretenimento nas rodas de conversas. Antes de tudo, havia a necessidade de tentar solucionar o crime. Naquela mesma noite, um pouco mais cedo, algumas pessoas da cidade presenciaram uma violenta discussão entre Nico Besta Fera e o Faquir Vladimir. Para os integrantes do circo aquilo era algo mais do que normal, mas para uma população pacífica e bastante fraterna, aquela contenda era algo desnecessário e bem possível de ser evitado. Para quem presenciou a discussão, não restava dúvidas de quem era o assassino do belo e simpático rapaz que a todos agradara naquele pequeno lugarejo. Vladimir, quando lhe era conveniente sabia muito bem como ser agradável e muito dissimulado. Assim que a notícia do assassinato chegou aos ouvidos do padre – principal autoridade local – e os relatos da discussão se fez presente, rapidamente fora dada a ordem para que o anão do circo fosse detido para um breve interrogatório.
É dito em mesas de bares e rodas de conversas que uma desgraça nunca vem sozinha. Nico Besta Fera que dormia sossegadamente, curtindo mais uma noite de bebedeira, nem mesmo poderia imaginar o que estava acontecendo quando um grupo de homens lançou-se sobre ele para o manietarem e o levarem perante o padre que já havia chamado o coronel, para que em sua presença o acusado pudesse confessar seu hediondo crime. O anão que despertara de um sono ebriamente pesado, se assustara bastante com tudo o que estava acontecendo. Primeiro pensou estar tendo um terrível pesadelo, mas logo pode perceber que realmente estava sendo amarrado e amordaçado por um monte de pessoas desconhecidas naquela escuridão da noite.
Como ele dormia numa espécie de oficina do circo, junto a várias ferramentas e apetrechos, num ímpeto de tentar escapar daquela situação, deu alguns pinotes e empurrando um daqui e derrubando outro acolá tentou fugir pela única porta que havia naquele improvisado dormitório e quando se lançou em sentido a porta, acabou por derrubar a única mulher que estava naquele grupo que viera com intuito de prendê-lo. Na queda a mulher foi de encontro com um ancinho que havia caído com toda aquela balburdia. Os dentes da ferramenta lhe cravaram em seu crânio de forma letal, causando a segunda morte da noite naquela então pitoresca e pacata cidadela.
O anão sem saber do que se tratava, ainda tentou de todas as formas escapar de seus algozes, mas sua tentativa desesperada de fuga era prova mais que suficiente de sua culpa pelo assassinato do faquir. Aquele incidente com a mulher na porta de sua barraca selara de vez o seu destino que se resolvera em poucos minutos, quando a turba enfurecida com a cena da mulher que perdera sua vida avista de todos após o anão tê-la empurrado na tentativa de se evadir do local. Nicolas Benetti fora linchado por um grupo de pessoas, que até então se demonstraram ser bastante calmos e muito benevolentes com forasteiros, mas naquele momento perdera por completo o sentimento de piedade. Sob uma torrente de socos e pontapés vindos de todos os lados, em poucos instantes a vida do anão do circo também fora tolhida.
Aquela noite que se iniciara com fogos de artifício, muita música e uma alegria incontida por parte de todos que prestigiavam a festa, terminaria com um saldo bastante negativo. Três mortes bastante incomuns. O primeiro deles, – um assassinato sem sombra de dúvidas – não havia certeza plena de quem era o criminoso – apenas conjecturas –. O segundo havia sido um infeliz acidente causado pelas sinistras tramas do destino. E o terceiro, – também um crime certamente –, mas os assassinos eram muitos e não havia como indicar um único culpado. Pois, fora um grupo, que sob a proteção da escuridão da noite conseguiu se livrar de qualquer tipo de acusação. Tudo foi tão rápido que ninguém viu nada e se alguém o viu, preferiu por se manter em sigilo numa espécie de autoproteção mútua. De certo modo tudo estava esclarecido. O que restava era cada qual chorar e lamentar pelos seus mortos e dar prosseguimento para as devidas exéquias de cada um.
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A Casa das Sete Irmãs
Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer.
Eram paredes cinzas e descascadas, com um lodo escorrido em estrias escuras sobre a tinta branca envelhecida, recoberta de trepadeiras, tinha o contorno de uma burlesca figura.
Um jeito bucólico nas janelas altas, jardim de roseiras, árvores de galhos retorcidos, a grama por cortar de onde trevos brotavam, escondia os sapatos ao pisar no caminho.
Havia pedras encaixadas no chão antes de chegar na varandinha inclinada. A entrada breve tinha algo quase lúdico, recaía o telhado sobre a fachada. No fim da tarde havia um brilho nas janelas de vidro fúlgido.
Não se encaixava em qualquer época que fosse, perdida num mundo isolada e tão só. Uns ares nostálgicos de infância, mas era um pouco estranha demais para ser casa de vó.
Bati à porta e depois de alguns toques percebi que se abriu de repente. Ninguém me recebeu, na verdade, mas fui entrando pela porta da frente.
Era o fim do dia e meus olhos já sentiam a fosca escuridão do entardecer. Eu buscava ali uma estalagem onde eu poderia me hospedar, um lugar seguro para, então, adormecer.
Conforme entrei fui notando de quem era a residência, primeiro pelas fotos nas paredes, depois pelas próprias moradoras, que eu logo encontrei na sequência.
Eram mulheres muito bonitas, todas irmãs de soberba elegância, todas elas com capricho na aparência e um modo muito cortês, de pronto tive a impressão. Eram sete moças, nenhum irmão.
Tão logo estive com elas, percebi por que fiquei tão atraído, a natureza lasciva daquelas mulheres encantadoras. Eram elegantes, como uma dama deve ser, e eu estava acanhado, com desenvoltura amadora.
Passei com elas aquele fim de tarde e à noite subsequente. Foi uma noite tão fria e escura que o vento soprava fazendo parecer permanente. Mas tive uma ótima experiência no interior do sobrado, que agora eu conto neste breve relato.
Não eram tímidas nem tampouco audazes. Mas não estavam acostumadas a receber muitos rapazes.
Acho que é por isso que tive a honra de ser cortejado. Depois de um jantar no conforto do sobrado, na calmaria de um ambiente tão hospitaleiro. Ali eu era o único hóspede, não sei se fui o primeiro.
Não é que tivesse um jeito de cabaré decadente, por Deus, não, nem sequer as aparências de um lupanar. Tudo aquilo era até mesmo um pouco inocente, bastante respeitável pelo que consigo lembrar.
Assim, terminada a refeição, nas segundas horas daquela noite, começa o jogo de sedução. Se empenharam no cortejo, uma a uma. E eu tão sensível a elas, reagia emotivo como o arrepiar de uma pluma.
Satisfeito e acomodado ainda na mesa, vi uma imagem deslumbrante, me salta aos olhos a primeira beleza. Aquela que se revela de vez num instante, mas que devolve os olhares para então compreendê-la.
Eu passaria tantas horas contemplativo, sem nem mesmo o ângulo alterar. Poria meus olhos a desvendar essa mistura, imerso nas cores que a visão captura, perdido nas linhas daquele profundo olhar.
Ela foi uma paixão duradoura, um primeiro amor de juventude que ali reencontrei. Ela foi o primeiro sentimento da paixão quando estoura, o primeiro retrato depois que coroam o rei.
Aquele mundo dos seus olhares me envolveu como se fosse um novo sonho e me acolheu na paisagem etérea que fez dos contornos. Era algo nostálgico que estava em mim, eu suponho, naquela imagem construída de riscos, texturas e adornos
A próxima irmã era a boneca da pele clara mais lisa. De onde vinha um toque com a aspereza do olhar, nas formas de uma geometria muito precisa.
Ali havia o desenrolar inerte de um movimento na estática. Não sei onde ela nasceu, talvez fosse de todo mundo, mas tenho certeza de que ela cresceu na Ática. E ainda conserva um modo grego de mostrar o corpo em detalhes. Uma maneira caprichosa na destreza dos seus entalhes.
Embora ficasse imóvel, com suas misteriosas expressões na inação, desvendada no corpo em cada pormenor, debaixo da pele o músculo ainda sentia a pressão, carne viva num sentido maior.
Só seu toque era frio, me causava uma sensação inesperada por não ter tato na palidez, algo como um arrepio. Quase poderia esperar um calor, quase sentia o veludo da pele. Mas no teste me deparava com uma rigidez.
Intrêmula sem mudar o semblante. No entanto, havia um movimento insistente. É como se o tempo parasse num instante, mas que o vento ainda soprasse sutilmente.
A terceira irmã era proeminente. De rosto simétrico e a que vestia maior grau de elegância. Ela é a que esteve sempre presente, em toda a cidade que visitei, em qualquer circunstância. Por isso a considero inevitável. Era a mais prática de todas elas, de ações certeiras e personalidade razoável.
Ela sabe ser modesta quando quer, e assim mesmo transbordar sua beleza. Era a mais magnânima mulher, nos braços dela fui tratado como um membro da realeza. No descanso do seu toque eu senti um grande alívio. Companhia da solidão ou cenário do convívio.
Me convidou para a sala que era um lugar tão agradável. Foi aquela que me fez acomodar, me pôs no maior dos confortos daquela casa que era seu próprio lar.
Daí então me estendi na poltrona e ali estava um calor convidativo. Depois me mostrou a sua grandiloquência, a sua vocação eminente e soberana. Ela era o modo mais eficiente de representar a grandeza humana.
Então todo meu entorno era a coisa mais nobre, foi ela quem o criou assim. Fosse com o recurso mais rico ou então o mais pobre, a casa e seus cantos, que encontrei pelo caminho, eram a pura expressão dos encantos desta nobre irmã e seus carinhos.
A moça seguinte era então deslumbrante, a que encontrei, talvez, tardiamente. Tão alheia a mim, mas tão excitante, eu mal notei, mas tanto esteve em mim presente.
Estava nos gestos que me recordam a memória, estava na ação do que quer que eu fizesse. Ela, a maneira mais sofisticada de se contar uma história, logo apareceu mostrando a sua finesse.
O rosto mudava num vórtice de emoções ostensivas, causando-me um êxtase tão expressiva figura. Surgiu num instante, como a visão de uma diva, usando a meia luz daquela sala escura.
Ela era todo um mundo que surgia na minha frente, toda possibilidade das coisas como poderiam ser se elas emergissem como são na nossa mente, a ficção mais real que alguém poderia conceber, a verdade filtrada do mundo aparente.
Todo o drama que ela tinha vivido ainda estava ali completando a tragédia. A mais sofrida das irmãs, também ria e encenava suas dores e lágrimas como se fosse uma comédia.
Fiquei absorto ao assistir sua performance, me ganhava a atenção cada hora mais e mais. Devia ser a mais sensível, era o que eu pensava enquanto ela estava ali na minha frente. Era a mais destacada, era, até então, o olhar mais potente.
Logo em seguida, com um andar ritmado, vem a jovial e mais enérgica das mulheres daquela casa. Veio suave quase levitando, como se movesse com auxílio de asas.
Era mesmo como um anjo ao fazer seus balanços suaves. Ela tinha um incrível controle, tal como a delicadeza que têm as aves. Pois voava como se morasse num céu esplêndido de outono, nas nuvens evanescentes, no vai e vem. Essas nuvens se moldam no vento com a mesma fluidez que ela tem.
Esta era o corpo por excelência e colocava seu corpo no limite da possibilidade. Me deixava atônito em ver suas proezas, que fantástica desenvoltura ao saltar com destreza, que sentimento apaixonante em mim ela invade.
Tinha um jeito de menina travessa e um andar ostentoso de mulher fatal. Era como o leito de um rio em correnteza ou como a luz coruscante no brilho de um cristal.
Suas pernas e braços deslocavam o ar, deve ser por isso que ele me faltava naquele momento. Esvoaçava os panos das vestes de um jeito que poderia ser as vezes rápido ou mesmo lento. Foi desta forma que ela me fez entender o significado mais precioso do que é movimento
Grande amor foi a seguinte. O maior de todos, da paixão mais aguda. De linhas finas e modo suave. Era tão passional a penúltima irmã e seu amor também era o mais grave
Era a mais velha daquela família, personalidade forte de um jeito volúvel, eu poderia dizer até mesmo lunática. Governava as outras como uma grande soberana e seu corpo tinha uma perfeição matemática.
Ela tinha um toque tão cativante, uma carícia e um apelo tão fortes às minhas emoções, se divertia em acelerar o ritmo do ar que eu aspirava nos meus pulmões.
Surgiu de canto sem que eu notasse, sua presença não vi, mas eu pude sentir. Pelos panos pousados no chão ao meu lado, percebi que ela deixou seu vestido cair.
Busquei ansioso ver onde ela estava, quis afoito olhar sua nudez, virava a cabeça seguindo o ruído. Eu procurava de um lado e depois do outro, mas só sentia os sussurros bem perto do ouvido.
Ela era também a mais íntima da Inspiração, a causa de um êxtase quase hipnotizante. Naqueles braços eu sentia as batidas do meu coração, que se repetia pulsando de instante em instante.
E a última… Eu me lembro bem.
Por fim esta última me causava um mistério. Permanecia alheia a mim, de canto, num semblante mais sério. Acho que esperava que eu a entendesse, lançava seus olhares, mas não se empenhava.
Eu sabia dela pelas histórias contadas, irmã inquieta, do tipo aventureira, com um viver inteiramente conturbado. Saiu pelo mundo registrando o que via e trouxe pra cada uma das outras um presente guardado. Um breve relato de alguém ou uma descrição que revivesse a essência de um belo lugar. Algo que servisse de inspiração, que fosse proveitoso pra alguma outra usar.
Foi assim que me despertou a curiosidade, com um vislumbre pequeno do que ela trazia. Quanto andou? Por onde tinha passado? Eram perguntas que eu me fazia sem saber ao certo se eu queria a resposta. A verdade é que eu queria tudo e queria saber o quanto ela estava disposta.
Eu esperava que algo acontecesse, que alguma coisa mudasse aquele silêncio. Será que era isso que ela pretendia sem que eu percebesse? Eu estava intrigado com aquela situação, fiquei tenso e inseguro até que notei o mais evidente, ela inverteu esta lógica da sedução.
Seu olhar analítico era estonteante, isso sem sequer tentar algum raio fatal. Me olhava serena, de um jeito distante, com ares altivos de quem pouco se importa. Ao mesmo tempo flui a minha imaginação em composições de lembranças que a consciência recorta transformando cada uma em irmã.
Esses fragmentos que a última me trouxe, me remeteram às outras mulheres daquela morada. Então entraram, naquele olhar, todas elas. O cortejo daí teve fim, no último toque de cada uma, pois se foram então de repente. Era apenas o éter de uma visão, formas sem solidez, presença evanescente.
Sobrou por fim só a última irmã sentada na sala, no mesmo lugar, inerte e ainda com a mesma expressão, fazendo parecer que mesmo calada ainda tinha muito a dizer.
Ela era a amada irmã, que trazia um pouco das outras em si. Mesmo não sendo a mais velha carregou-as todas quando criança, tinha um pouco delas sem que precisasse usar de alguma forma, cor ou estímulo sonoro. Ela era mesmo um grande mistério, esfinge de inúmeros enigmas. “Decifra-me e desta forma eu te devoro”.
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Delírio Azul
Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Hoje o luar está sereno, porém com um fenecimento visível, como quem dá razão ao meu padecer. Sei que isso se dá pelo fato de eu ter perdido aquele para a morte. Uma música triste pode tocar no interno dos meus ouvidos — aquela música que nós ouvimos aqui mesmo nesta pilastra onde estou sutilmente encostada.
A lua tem um tom cobalto ao seu redor e está imersa nas alturas, como se flutuasse num céu em tom marinho. As nuvens passeiam vagarosas e provocativas, me fazendo flutuar em pensamentos que são suficientes para que a primeira lágrima caia dos meus olhos.
Quando a minha lágrima cai, a doce e rouca voz sussurra em minha mente:
“Vês, estimada Nathállia, o céu azul. As nuvens passeiam claras e pacientes, enquanto a lua ilumina e nos encoraja a amar.”
Suspiro forte, ao ponto de sentir o meu vestido vitoriano apertando firme o meu busto. Por que não estás, Pierre? Por que não estás mais? A sua morte me dói, convidando-me, também, a fenecer com ele.
Lembro-me das manhãs em que ele me despertava da janela barroca do meu quarto, das tardes em que íamos tomar um banho de rio, escondidos, sem nunca nos tocarmos. E a noite? Era aqui mesmo onde admirávamos a tal lua. Lua maldita — me faz lembrar dele toda vez em que ela surge. Esse anil do luar é o que mais me mata. Anil é a cor que Pierre usava nos bailes onde valsamos por saudosos anos.
De tanto refletir na dor dessa perda, encosto a minha cabeça na pilastra e sento-me na baixa balaustrada, quando sinto em meu ombro a suave mão, a tão carinhosa mão... Será Pierre? Sorrio. Sorrio e olho para trás, mas é apenas a candura de Marta, que vem me recolher do grande pátio.
— Senhorita, precisa descansar. — Marta me acaricia o ombro, de maneira carinhosa. — Eu sinto em lhe dizer: O jovem Pierre não vem. Ele não vai voltar, senhorita.
Marta sabe que nas noites de lua sempre venho o esperar... sempre. Engulo seco e quando quase me conformo, a enfrento:
— Ele vai voltar, sim! Nem que eu precise morrer para encontrar-me com ele. Nem que eu finja que ele está aqui. Nem que eu sonhe com ele todas as noites. — Caminhamos até o meu quarto enquanto me perco no que eu digo. — Ele era o meu melhor amigo, ele era mais que um amigo, ele era...
— O seu amor, não era? — Pergunta sorrindo leve.
— Era não. É. Pierre É o meu amor! E sempre vai ser.
Deito-me, como a única alternativa.
— A senhorita não vai se trocar? Vestir um damanoute para dormir...
— Não quero. Eu quero dormir assim, do jeito que eu costumava ficar na presença dele.
Marta não diz mais nada. Pede licença e se retira do meu quarto. Do meu dossel, a maldita lua, a bendita lua, lumiando o meu quarto e me trazendo a sensação de estar sendo tocada por Pierre. Sim, eu o sinto. E posso ouvir a sua voz grave e serena agora.
“Estou aqui, minha estimada Nathállia. Eu sempre estarei aqui no gélido anoitecer e no azul do luar. Estarei vertendo em tua face, junto às tuas lágrimas azuis que vertem agora.”
Constato dois fatos: eu enlouqueci e consegui acessar o mundo do outro lado onde o meu eterno estimado está. O seu corpo é esbelto, forte e, vestido em trajes clássicas, ele me segura contra o seu torso, acarinhando-me a face e os cabelos. E o frio da noite nos faz ficarmos mui próximos e aquecidos, envoltos aos lençóis do meu espaçoso dossel.
ASelenoor que acontece na região é raro. E é isso que me conforta. Porque a noite é perpétua, bem como a lua tão anil que me proporciona o melhor delírio real com o meu Pierre, e que nunca mais irá se findar.
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Blog da Carmen
Olá, meu nome é Carmen! Apenas Carmem! Venho de uma cidade que morei por alguns meses com o meu marido. Eu não tive pais, não sei muito bem como…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Olá, meu nome é Carmen! Apenas Carmem!
Venho de uma cidade que morei por alguns meses com o meu marido. Eu não tive pais, não sei muito bem como vim ao mundo. Talvez eu seja fruto da imaginação de algum ser sobrenatural, mas prefiro pensar que sou apenas uma pessoa comum. Morei um tempo na roça e não tenho mais o sotaque mas “Ôh trem bão” que era viver naquela zona rural. Quando conheci o meu marido, primeiro e único namorado. Fomos direto morar na cidade. Ele era um empresário renomado e nossa vida até que era boa. Eu não podia dar um filho para ele, meu útero veio com defeito de fábrica, ou será que é sobrenatural que nem a existência dos que me tiveram?
Gostávamos muito de viajar e alguns amigos dele nos indicaram uma cidadezinha que ficava na fronteira de um bendito lugar que eu não faço a menor ideia como eles descobriram um lugar como aquele. A cidade não morava ninguém, tinham evacuado as pessoas, mas mantinham tudo abastecido. Não tinha bichos na rua, as casas estavam todas fechadas, como se todos os vizinhos realmente tivessem se mudado. Eles disseram para ele, o meu marido, que na cidadezinha tinha algo interessante e que nos ia ensinar umas novas aventuras.
Aceitamos a empreitada e fomos só com a nossa mala de sempre, com data prevista para passar uns dois meses e desfrutar ao máximo o que aquele lugar pudesse nos oferecer.
Quando chegamos lá, estava exatamente do jeito que eu falei anteriormente, só que os mercados eram o único lugar aberto. Não tinha como fazer reserva de um lugar para ficar, apenas chegamos e nos alojamos na única casa aberta. A cor da frente da casa me chamou atenção de longe. O vermelho carmim e as portas da mesma cor, com duas janelinhas abertas sem cortina e sem persianas. Ao entrar no recinto, a mobília até que era agradável, os móveis antigos pareciam recém-restaurados, acho que o antigo dono vinha passar uma demão de verniz para mantê-los daquela forma. Ou só estou sendo matuta a cogitar isso.
A casa tinha dois quartos, apenas com andar térreo, apenas um banheiro, cozinha, sala e jantar. Fomos às compras no mesmo dia e ao chegar no mercado era pegar o que queria que estava tudo certo.
Nossa rotina consistia em tentar abrir as casas vizinhas, entrar no shopping da cidade que estava aberto, mas as lojas não. Apenas a praça da alimentação e lá tinha tudo dos cardápios expostos e prontos. Meu marido comia de tudo um pouco, voltávamos para a casinha e dormimos. E foi assim por quinze dias seguidos, eu não estava cansada, porque eu queria agradar ele.
No décimo sexto dia, meu marido acordou empachado com toda a comida, e ele havia ganhado uns quilinhos a mais desde que viemos para cá, meus cabelos vermelho cor de sangue, precisavam de um retoque. Quando ele levantou para usar o banheiro, lá estava eu pintando as madeixas, quando ele me cobrou sobre a minha “regra”, se já havia descido. Achei esquisito ele perguntar, pois, o mesmo nunca se importou, assim como ele já sabia da minha esterilidade.
De repente ele aumentou a entonação como nunca fizera antes nesse tempo de casados. Me cobrou persistentemente pela minha regra, até que desci a calcinha e mostrei o absorvente de pano que eu usava com meu sangue. Com as mãos sujas de tinta, parecia uma cena de crime, tudo vermelho, meu marido enfiou a mão no meu órgão e enfiou meu catamênio pela boca. Sem direito de falar, eu engoli a força algo tão íntimo e repulsivo para alguns. Após o ocorrido, perguntei porque ele fizera isso.
Sua resposta, que não fora nada convincente, ousou dar a desculpa que o sangue da mulher nutre, assim como o sagrado feminino, ele quis impor a mim que meu sangue iria deixar meu útero fértil. E assim me cobrou todos os dias de “chico” para que a cena se repetisse. Fiz com gosto, porque acreditei que sua fé poderia me causar algum fio de esperança e como agradá-lo era meu maior feitio como esposa, fiz tudo calada.
Chegamos no nosso segundo mês naquela cidadezinha silenciosa, que o maior som era do nosso mastigar quando íamos ao shopping. Meu marido já tinha engordado bastante e eu fiquei feliz por ele estar feliz nesse lugar a sós comigo.
Precisei retocar o cabelo novamente e com isso a regra desceu junto. Eu não estava grávida e mais uma vez meu marido insistiu para eu fazer o mesmo do mês passado. Fiz tudo calada e a rotina seguia do mesmo jeito todos os dias. Como num loop de clipes repetidos, eu estava vivenciando a mesma coisa, exceto quando estava de chico.
Nossa estadia perdurou e meu marido não parava de comer, e eu não ficava grávida, até que um belo dia eu acordei querendo uma nova aventura, segui minha curiosidade e fiz alguns testes com a minha regra do nosso nono mês nessa cidade pacata e farta. Coloquei meu fluxo na bebida do meu marido, o gosto não era ruim, era sangue, não tinha cheiro, afinal eu usava apenas paninhos de algodão, a química do absorvente descartável que dava o odor.
Quando ele bebeu o suco, não reclamou de nada. Fiquei calada e quando ele dormiu, decidi enfiar um pouco na boca dele enquanto dormia. Ele acordou no outro dia sentindo dores fortes e eu com o chico acabando. Já estava cansada daquele lugar. Ele queria permanecer, mas esse vício na minha regra de me cobrar mensalmente estava me deixando assustada. Parecia um caso de monomania.
Decidimos voltar para casa devido às dores dele, que foram aumentando de acordo com que íamos chegando em outra cidade. Ao chegar no primeiro hospital que vi, o médico deu o parecer que meu marido estava sentindo contrações. Perguntei se era devido ao fato dele ter adquirido 50 quilos a mais desde que viajamos para a casinha vermelha e o doutor disse que essas contrações eram iguais a uma gestação.
Não pude crer quando ele falou isso. Afinal, meu sangue era fértil, só que nutriu o solo errado. As dores foram intensas e meu marido não resistiu. Eu voltei para casa e meu luto foi passageiro, agora voltei a ser a Carmen, apenas Carmen e criei esse blog.
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Os Fantasmas na Tenebra de Minha Alma
A morte… sob a soturna treva que se sepulta no lúgubre ar, contemplo eu a morte. Morrer, por fim, parece-me a…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
A morte… sob a soturna treva que se sepulta no lúgubre ar, contemplo eu a morte.
Morrer, por fim, parece-me a resolução mais sensata para as funestas torturas que acometem meu miserável ser; sim, morreria, pois, somente entregando-me ao submundo, somente repousando no gélido de um mausoléu arcaico, poderia idealizar o recuperar de minha calmaria há muitas épocas dissipada por entre as nuvens da obscuridade que tudo consome. Como angustio, ansiando que a Morte roubasse-me o último suspiro de vida! À morte, rogo que me usurpe desta minha angústia, ainda que me encontre no mármore mais profundo do inferno!
Vós, cujos espíritos conservam a sanidade racional, não podeis compreender-me, sem embargo, ao tempo em que redijo meus infortúnios à negra tinta e à caligrafia de uma pena de corvo nesta memória amaldiçoada, concedo-me a lamúria de relatar-vos os fatos, as reminiscências ominosas que me fazem, no desafortunado presente, aspirar ao caráter putrefato de minha morte.
Minha alma, há tantos invernos, afligiu-se, atormentando-se por visões hórridas, as quais homem nenhum é apto a idealizar, se não pela ação do próprio Diabo. O mal, o pior dos males, rasteja por meu ser, como uma víbora, envenenando-me com imagens e sensações provindas das profundezas do abismo eterno de pecadores. O horror assombra-me, e, eu, a miserável eu, ambiciono somente por uma madrugada onde não mais os espíritos e demônios arruínem-me, em uma ocasião de crepúsculo em que possa, mesmo que em túmulo álgido e ausente de vida, descansar sem sofrer pelos murmúrios agonizantes que provém da eternidade perversa. Meus terrores não apresentam causa ou razão, há somente o caráter detestável, que, com seus aspectos tenebrosos, dilacera minha fleuma e distancia-me de uma boa mente sóbria; o que sou, nesta terrível contemporaneidade, é somente um reflexo esquelético do que um dia fora, um cadáver cujo sangue é ainda infernalmente cálido. Não, não só me sinto assombrada, como bem sei que, os infernos contemplados por meus negros olhos em todo o anoitecer em que a paz é-me arrebatada, apresentam-se como mais que os meros devaneios quiméricos de uma mente ardente em delírios.
Por efeito de meus próprios terrores, disponho de uma parca memória, gravemente tênue, que é incapaz de recordar-me mesmo de minhas mais estimadas lembranças, no entanto, em prol da coesão desta narrativa, empenho-me, apesar de meus sentidos debilitados, para lembrar-me de motivos e datas. Com um tom dúbio, ocultado pela névoa cinza de meus pensamentos, tenho a vaga recordação de enfraquecer-me por esta maldição de horror posteriormente ao abandonar de meu pretérito lar, em um outono de brisas uivantes em que empreendi uma longa viagem até a solitude das posses de minha estimada tia, a qual assisti até os derradeiros dias de sua enfermidade que, ao fim, em um anoitecer mudo como este, roubou-lhe a vida, levando-a ao seu sepulcro. Ulteriormente à tal fatalidade, que, com suficiência, já debilitava meus nervos, conservei-me nas dependências da arcaica residência que há gerações acolhe todos àqueles aos quais compartilho meu sangue; todos repousam no cemitério deste recinto e eu, esta débil herdeira, também enterrar-me-ei nesta terra maldita. E, nesta decisão mal refletida, reside minha dolorosa sina, que me condena a ser horrorizada pelo próprio anjo das trevas, para todo o sempre…
Nesta casa mal-aventurada, construída em meio à melancolia e infelicidade, há a solidão taciturna e somente esta; à parte de minha alma só, existem apenas os fantasmas, cuja intenção é arrastar-me até o mesmo inferno em que habitam. Por entre as galerias consumidas pela quietude sombria, vivo eu, contemplando minha tragédia que não há de ser contada pelas cores e nuances vívidos de um talentoso pintor, um homem de artes que desenharia meu drama na harmonia de um afresco. Nestes umbrais que bradam, na maré contrária às arfadas exorbitantes de um vento intenso, observo eu o horizonte sinistro que acolhe o exterior, questionando-me se mesmo na estranheza bucólica do mundo externo seria eu perturbada por estes espíritos agourentos que suporto em minha sombra. Todavia, mesmo no aquém da soledade de meu exílio turbulento, o medo oculta-se; em todo o desconhecido que se esconde nos vale de um verde pálido, na dura natureza intocável das colinas varridas pela brisa sazonal, nos ferozes lagos de águas turvas que abraçam os entornos da propriedade. Para além da fortaleza corroída por monstros, descansa a paisagem desolada, ausente de um só homem vivo, que, por certo, complementa-se às desgraças das ruínas desta casa.
Em minhas dependências pessoais, o terror constrói sua morada, morosamente, pois toda aflição é mais sentida quando a dor apresenta-se toda fiel noite; a maldade detém de sua própria sabedoria, não sem razão todo cálice de toxinas é melhor empregado como ferramenta de assassinato quando ministrado em pequenas doses, vós os sabeis melhor. E é neste mesmo leito, sufocada pela escuridão, que morro eu. O entardecer, o ocaso de tons cobres, que carrega o astro solar para o véu do horizonte, havia sido de grandes lamentações; quando as antigas pedras que erguem estes muros ainda acolhiam o cintilar diurno, tremia eu, ponderando sobre o que havia de passar-se quando a penumbra se fizesse minha só companhia. Meus dias têm passado-se em tais queixas silenciosas, que alimentam os pavores da psique fraca. Quando ainda há claridade, sinto-me em grande molesta, receando, mortalmente, o cair da noite, pois são nas sombras obscuras que os espíritos arrastam-se.
Inevitável, não obstante, é o regresso do escurecer. Destarte, recebo as agourentas novas do cenário noturno, com as mesmas desventuras que trucidam minhas vísceras como se fossem já um hábito. Em minha mortalha, onde zelo por minhas dores intensificadas perante meus presságios ruins, meus olhos veem-se incapazes de exercer o mero ato de fechar-se. Não há repouso para esta alma maldita, que não é apta a encontrar, no conforto de sua cama, o sossego da sonolência trazida pelas harpas divinas. Assim, desperta, não há empecilho para tudo que há de maligno visitar-me. Nesta insônia febril, suscitam-se, por minha consciência que se recusa a descansar, os piores delírios; padecimento, cólera, mágoa, ressentimento… Quando, por misericórdia de meus vilões, entrego-me aos braços de Morfeu, o maligno, também em sua própria hibernação, desadormece, aguardando-me para mais um período de terríveis visões.
Há apenas o escuro breu; diante de meu ser retraído, tudo é preto, pintado à escuridão que amedronta. Ainda que minhas pálpebras movam-se e busque eu, em vão, por uma fonte de luz, nada existe além de minhas entranhas e o vazio que sufoca. Em meu coração, sentimentos de ânsia intensificam-se, como uma febre irritante para os nervos, formigante para as mãos trêmulas e delirante para com o cérebro adoentado. Gélida, tal qual o inverno mais ferrenho nos alpes, suspiram minhas respirações entrecortadas, gravemente descompassadas, apressando-se e encurtando-se, fazendo do alçar e retrair de meus pulmões um ato quase taquicardíaco. Lágrimas carmesins derramam-se de meus lábios, que se oprimem até que o aroma de ferro propague-se no ar e a cor sanguínea manche toda a vida existente. Como presença constante de minha apreensão, tremores terríveis alastram-se por toda minha constituição, fazendo-me um esqueleto vacilante, incapaz de movimentar-se com clareza por seus críticos arrepios. De súbito, um pálido e bruxuleante cintilar contempla minha visão; o brilho que observo perante meus olhos fatigados é débil, tal qual minha própria saúde, impossibilitando-me de contemplar todo o quadro em meu derredor. Brevemente, experimento o perfume de brancos botões-de-ouro e dourados lírios, que me abraçam com seu frescor dos límpidos riachos de primavera. Por um minuto de hora, sinto-me diante da placidez calma, estudando o aroma de flores reconfortante e olvidando-me de quaisquer matérias terrenas. Entretanto, a paz que recai sobre meu ser mundano é, rapidamente, furtada pela personificação do desespero. Em meu cerne, uma cólica atroz grita, esbraveja, troveja desde meu coração até a última veia de sangue em meu corpo. O desconforto invade-me e logo arfo, ofegante em completa exasperação; os respiros de ar faltam-me, ao passo em que meus pulmões recobrem-me de algo que intoxica. Clamo, clamo aos céus e ao inferno para que me auxiliem, no entanto, nem mesmo a mais cândida prece salva-me. E, perante o desalento que me imerge, rendo-me ao meu último suspiro que me encaminha para as sombras…
Abruptamente, é já a madrugada maldita quando, por santo ou diabo, recobro meus sentidos e amanheço de meus tenebrosos sonhos ruins. No entanto, mesmo o recuperar de minhas boas respirações não faz-se suficiente para repor meus pobres nervos pois, com o temor de uma consciência acostumada a tais acontecimentos, a peça que encenar-se-á no anfiteatro do inferno é uma tragédia na qual esta atriz já não mais deseja atuar. Desgraçadamente, sem embargo, tal resolução não é-me concedida e, assim, sucumbo aos males de toda a madrugada. Então, em meu detestável derredor, o entendimento é apenas a penumbra, a escuridão; trevas e mais trevas ameaçam-me. Como sentir-se acolhida pelas sombras? É uma questão tola, que não dispõe de respostas sábias. Nos aposentos do inferno, a noite é sépia, de um ébano carvão como o sangue de um de seus diabólicos filhos. Entre a mudez das chamas ardentes do mármore e a infernal melodia da mudez que assassina, pouco há, além da escuridão. Somente a escuridão, e nada mais.
Lânguido vermelho, profundo preto da obscuridade, fantasmagórico branco de vultos. Inevitáveis, estes últimos torturam-me com as suas súbitas aparições. Aquelas malditas figuras tortuosas, desprovidas de contornos corretos, sobrevoam os entornos de meu leito como uma eterna maldição. Fantasmas de aspecto lívido perturbam-me, bailando em escárnio por cima de minha cabeça, tonteando-me com seus movimentos descoordenados e executados para causar-me tais enxaquecas. Esqueletos, grandes esqueletos desprovidos de órgãos, mas de cadavéricas bocas de dentições afiadas, que ferroam repetidamente, mastigando ossos e pedras ao pé de seus ouvidos já danificados. Suas largas bocas expõem suas horrendas línguas espectrais, fazendo graças e zombarias com a face de desgosto de meu ser infausto. Estas criaturas de Belzebus, pintam-se em um branco maldito, tal qual o cloro mais ácido, cloro este que anseio poder tragar, para que a morte liberte-me. Nesta dança da morte, rangem e remoem ossos, cantando em estridentes uivos transtornantes. E tais diabólicas figuras nunca apresentam-se sós, é uma certeza que minha mente debilitada adquiriu de experiências passadas. São estas somente a entrada para um horrendo prato principal.
E, em um ímpeto, manifesta-se o Diabo, o próprio Diabo! Por todas minhas maldições, sangram meus tímpanos, que se lastimam com a soada progressiva, arrastada, que cresce desde a entrada de meu quarto. Como passos estridentes, esta toada infernal rasteja, sempre mais alta e mais próxima. Para a minha miserável eu, resta somente encolher-me, aguardando, em prantos, que o perverso arruíne-me. Em meio ao vento que ameaça arrebatar-se contra os vitrais e persianas, o timbre de um arranhar surge, ferindo tal qual a lâmina de um punhal; é o dilacerar minucioso de algo, e temo eu, que este seja minha carcaça prestes a apodrecer em meio aos vermes da terra pútrida. Logo, o pesadelo de ruídos torna-se um espetáculo, rompendo em tragédias que me cegam. Por entre as nuances da completa penumbra, uma cena maldita gargalha perante meu drama; tardia, a aparição tenebrosa desloca-se, com o desgosto de um ente do submundo. Entre lágrimas de horror, contemplo as garras ausentes de um corpo, de uma matéria viva, que caminham nas sombras, somente nas sombras, deslizando sua entidade desgraçada nas paredes da extensão de todo o cômodo. Estas mãos, mãos de monstruosas garras afiadas, procuram por meu corpo, procuram por minhas lesões, procuram golpear-me. Navalhas, terríveis navalhas, suspendem-se sob meu crânio! Então, estas garras prendem-me!
Por meus demônios, hostilizo-me! Em meu desespero crescente, por alguma entidade sacra, sou capaz de desvencilhar-me, apressando-me a abandonar meus aposentos. Ausente do equilíbrio lógico para sequer dar-me conta de meus arredores, percorro, em meio ao escuro, os corredores negros, onde risadas diabólicas acompanham minha peregrinação rumo à morte. Torres em pedra, escadas em caracol, frestas em arcos, rosáceas, bustos em bronze, pinturas de um sangue amaldiçoado; abandono a tudo que existe no velho castelo para libertar-me. Quando aproximo-me do grande portal em abóbada cercado por duas torres, não há alívio em minha essência, apenas apresso-me, segura de não regressar, se não morta, ao mundo maldito que habita na fortaleza desta abadia ominosa. Posterior a mim, bem sei que o mal persegue-me, sedento por meu sangue infeliz.
Contudo, quando meus passos errantes traçam sua fuga sob a ponte arqueada de pedregulhos, congelo no instante, presa, por alguma razão, nas águas escuras abaixo de meus pés. Sob um véu azulado de neblina, o lago fita-me de volta e, de improviso, uma tempestade banha-me, como um dilúvio de memórias invadindo meus pensamentos soturnos. Minhas reflexões melancólicas, meus anseios tenebrosos, as flores, minhas vestes molhadas, minha face desbotada de vida… contemplando as águas, compreendo uma terrível resolução. Ante o abrigo das águas, meu reflexo é inexistente, minha imagem é desconhecida, meu ser não é presente neste plano; sempre estivera morta.