Drácula, Morcegos, Vampiros e Tudo Mais
A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os…
The Vampire (1897) by Philip Burne-Jones
A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os morcegos só foi estabelecida entre 1756 e 1763, quando o naturalista francês Conde de Buffon fez a ligação entre o morcego hematófago da América do Sul e o mito do vampiro em seu livro "Histoire naturelle, générale et particuliére (1749-1767)". Antes disso, havia apenas alguns relatos, no século XVI, de exploradores europeus que observaram morcegos se alimentando de sangue na América do Sul.
Em 1839, durante sua expedição a bordo do HMS Beagle, Charles Darwin fez uma observação crucial ao descrever a primeira observação direta de um morcego vampiro verdadeiro, o Desmodus rotundus, se alimentando de sangue. Este evento foi fundamental para inspirar a representação dos vampiros com características e comportamentos parecidos aos dos morcegos na literatura, como visto em uma ilustração de “Varney, o Vampiro” de James Malcolm Rymer (1845). As características que morcegos e vampiros têm em comum são incisivos afiados (apenas no caso de Nosferatu, os demais vampiros costumam ter os caninos afiados), se alimentam do sangue de outros mamíferos, possuem haréns, gostam de locais escuros e ambos também são mamíferos.
Apenas em 1897 que a ligação entre morcegos e vampiro ficou popular com a publicação do livro “Drácula”, onde Bram Stoker juntou o folclore da Transilvânia, com morcegos-vampiros e Vlad, o Empalador. Quando Stoker escreveu Drácula em 1890, alguns dizem que ele encontrou uma notícia em um jornal de Nova York que falava sobre os morcegos-vampiros, o que pode o ter inspirado, com isso a relação morcego e vampiro se consolidou mais ainda, porém ele preferiu ignorar o fato que o morcego-vampiro é uma espécie bem pequena com 9 cm de comprimento, pois toda vez que ele cita o morcego no livro ele o descreve como “um grande morcego”.
Pintura a óleo de Vlad Țepeș no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560
Existe teoria de que Bram Stoker se inspirou na história de Vlad, o Empalador para escrever o livro de Drácula, mas não há comprovações para isso, aparentemente ele apenas viu o nome Drácula em um livro numa biblioteca e usou o nome por significar “diabo” em romeno para alguns mais supersticiosos e inimigos de Vlad. O nome “Draculea” tem como significado o filho do dragão. Porém, há quem diga que ele compôs a aparência de Drácula numa mistura de Henry Irving, ator e amigo de Bram, isso foi confirmado pelo próprio Bram e o poeta Walt Whitman, a quem ele admirava muito, há outras teorias de que Drácula pode ter se inspirado em Oscar Wilde, ao qual supostamente cortejava Florence Balcombe, que depois veio a casar-se com Bram. Talvez ele tivesse uma homoafetividade reprimida, e usou a personalidade de Oscar Wilde, que era na época considerado perigoso, porém fascinante, para compor Dracula. Tudo isso torna o livro de Bram Stoker ainda mais interessante.
Desmodus rotundus | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
Bram Stoker se inspirou bastante no folclore romeno para criar sua narrativa, inspirado por conversas que teve com o aventureiro Arminus Vambery e o explorador Henry Morton Stanley conhecidos seus do Beefsteak Club, que Henry Irving também fazia parte, principalmente Vambery que conhecia profundamente a cultura, o folclore e as paisagens da Transilvânia, assim o príncipe Vlad III Dracul da Valáquia ou Vlad, o Empalador se tornou também o conde Drácula, o nome Empalador veio por conta do hábito de Vlad III Dracul executar suas vítimas, ele recorria ao empalamento para assustar o exército Turco que na época queria conquistar a Valáquia, diziam que ele gostava de olhar as vítimas empaladas enquanto se banqueteava, ainda havia quem acreditava que ele bebia o sangue dessas vítimas. Para alguns ele era um sádico, mas para o povo da Valáquia um herói que manteve os Turcos longe por algum tempo, por conta de tantos mitos e histórias relacionadas a ele, como a crença de que bebia sangue, de que era imortal e segundo algumas análises químicas feitas em cartas de sua autoria, ele poderia ter hemolacria, uma doença rara que faz a pessoa chorar sangue, o que dava a ele uma essência mais mítica. A figura histórica e a fictícia de Drácula acabaram por se tornar uma só.
Diphylla ecaudata | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
Diaemus youngii | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes
No livro o conde Drácula além de beber sangue e ser imortal se transforma em morcego e sai à noite para ingerir sangue. Existem cerca de 1400 espécies de morcegos no mundo, no Brasil existem cerca de 180 espécies e de todas essas apenas três são hematófagas, ou seja, se alimentam de sangue. Essas únicas três espécies de morcegos-vampiros só existem na América do Sul e na América Central, são elas: O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves. Os morcegos da Europa são insetívoros, eles se alimentam de insetos, então se o Conde Drácula saía à noite para se alimentar, era somente de insetos, mas o nome “Comedor de insetos” não traria tanto terror às suas vítimas quanto o nome “O bebedor de sangue”. Dessas espécies hematofagas também temos o extinto morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae) que provavelmente se alimentava de preguiças-gigantes e mamíferos gigantes. Seu nome é uma homenagem ao Conde Drácula. Mesmo que envoltos em mitos, os morcegos são criaturas de grande importância na nossa ecologia, não importando como a mídia os tenha mostrado, não são criaturas más, apenas pouco compreendidas, dessa forma é muito importante a preservação dessas criaturas da noite que, são tão diversas, que não se resume apenas a consumir sangue.
Referências:
DARKSIDE. SERIA DRÁCULA INSPIRADO EM OSCAR WILDE?: Relação entre o autor e Bram Stoker ia além do triângulo amoroso com Florence Balcombe. [S. l.]: Darkside, 18 fev. 2022. Disponível em: https://darkside.blog.br/seria-dracula-inspirado-em-oscar-wilde/. Acesso em: 12 mar. 2024.
PITTALÀ, Maria G. G. et al. Count Dracula Resurrected: Proteomic Analysis of Vlad III the Impaler’s Documents by EVA Technology and Mass Spectrometry. [S. l.]: ACS Publications, 8 ago. 2023. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.analchem.3c01461. Acesso em: 15 mar. 2024.
PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. História da Magia: O Mito de Drácula. Rio de Janeiro. 23 fev. 2023. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em https://www.instagram.com/p/CpBbKhTpCRy/. Acesso em: 11 mar. 2024
PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. Quem veio primeiro, o morcego ou o vampiro?. Rio de Janeiro. 29 nov. 2021. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em https://www.instagram.com/p/CW4HCfWpMsy/?img_index=1. Acesso em: 11 mar. 2024
NESTAREZ, OSCAR. De volta à estaca zero - uma jornada pela criação de ‘Drácula”. Barueri: Novo Século, 2021 (Suplemento literário).
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4. Jardim da Morte
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem…
Kay Steventon - The Wheel of Fortune
Na penumbra de um jardim oculto, úmido e sombrio, onde não existe tempo, onde todas as coisas sempre estão perto de findar, porém nunca se extinguem; onde as flores eternamente exalam seu perfume como suspiros finais e os raios de uma lua cheia incomum derramam-se pálidos sobre a relva, uma mulher está sentada esperando. Os animais que lá estão já não podem ser diferenciados dos objetos que compõem aquele cenário, pouco se movem e mal fazem ruídos, parecem apenas aguardar, se ouve apenas o sussurro inquietante do vento, como se fosse um eco dos lamentos dos que se foram. Uma ceifadora, envolta com sua capa negra como uma mortalha, chega e se senta de frente à mulher em uma mesa de mármore gasta, com fissuras e imperfeições. A mulher, que aparenta estar habituada a toda aquela encenação, inicia a conversa:
— Vamos jogar xadrez desta vez?
A ceifadora responde com uma voz calma:
— Hoje não, deixarei você escolher.
A mulher, imersa em seus pensamentos, lembra-se que em vida era boa com cartas:
— Vamos jogar carteado dessa vez, nesse eu sou boa. — Murmura ela, com uma pontada de esperança de que dessa vez iria ganhar.
A ceifadora pega sua maleta, um artefato antigo coberto de runas estranhas, e tira um baralho tarô. As cartas, gastas pelo tempo, são embaralhadas com um ranger sinistro.
— Sério? Você vai ler meu futuro? — A mulher pergunta, com um riso nervoso. — Estou morta, não tenho um futuro.
— Apenas vamos jogar e ver o que pode acontecer. — Responde a ceifadora.
Com habilidade ela segura as cartas como se fosse um leque e olha para a mulher: — Tire uma carta, para que se dê início ao jogo.
A mulher olha a ceifadora com dúvida e pergunta:
— O que isso significa? Normalmente você é quem escolhe o jogo e é a mais falante e agora fica nesse silêncio e me pede para escolher uma carta? — A mulher dá mais um riso nervoso — Não era esse tipo de jogo que eu estava falando, há algo que eu preciso saber?
A ceifadora suspira e olha para a mulher:
— Há certas regras aqui no Sheol que não posso burlar, porém há outras que algumas pessoas que estão fora dele podem. E é isso que estou fazendo agora, fazendo um favor a um conhecido que pode burlar essas regras. Então apenas escolha a carta.
A mulher fita as cartas com uma mistura de temor e esperança. Sem saber muito bem o que esperar. A mulher tirou uma carta do leque e entregou à ceifadora que sorriu e mostrou a ela a carta.
— Ótimo, la roue de fortune. — Cantarola a ceifadora numa pronúncia perfeita e musical — A roda da fortuna.
— E isso significa que? — A mulher pergunta curiosa.
A ceifadora sorriu para ela, segurou as mãos da mulher e falou:
— Essa carta significa o ciclo da vida e com ela irei dar a você a oportunidade de ver a sua amada, pois eu sei que isso que passa pela sua cabeça o tempo inteiro, não é?
— Sim, isso passa pela minha cabeça sempre, falo sobre ela para você o tempo todo, mas se ela tiver que morrer para que isso ocorra eu prefiro não a ver.
A ceifadora falou: — Nesse momento ela está num local envolto em magia, num local de vivos, mortos e não tão mortos — a mulher arregalou os olhos — Calma, ela está viva e consciente, é claro — disse a ceifadora acalmando a mulher — Então será possível que vocês tenham um breve encontro, nesse exato momento, então aproveite.
— Eu tenho que ir? — A mulher fez uma careta.
— Oras, mas é claro, estou te dando a oportunidade de encontrar a sua amada em um lugar além dos véus da morte. Só aproveite, nem todos têm a chance de reencontrar os que perderam.
— Isso meio que parece uma pegadinha — diz a mulher ainda em dúvida.
— Oras, querida, apenas vamos, não há muito o que se fazer aqui no Sheol, um passeio fora irá ser bom para você, e não se preocupe, estarei por perto para te trazer de volta. — A ceifeira se levanta sorrindo e segura a mão da mulher — Então, vamos?
A mulher fecha os olhos e inspira profundamente e solta o ar por hábito:
— Sim, vamos, não é sempre que algo diferente ocorre nesse lugar.
E assim, uma porta roxa, adornada de arabescos prateados nas bordas envolta em uma névoa púrpura se materializou, a mulher e a ceifadora desaparecem daquele jardim incomum, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e as cartas sobre a mesa.
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Plácido Jardim
Plácido é o jardim onde posso me deitar | E simplesmente descansar | Alimentar as árvores com meu corpo, | Fazendo parte delas e elas de mim…
Foto de REGINE THOLEN
Plácido é o jardim onde posso me deitar
E simplesmente descansar
Alimentar as árvores com meu corpo,
Fazendo parte delas e elas de mim
Simples assim, afundar na terra
E quem sabe ser alimento,
adubo para esse calmo jardim
Consumida lentamente pelo solo,
que usufrui de mim
Que faz parte de mim e eu dele,
Aqui sozinha, porém rodeada de vida
Na morte do que fui, e trabalhei para ser
Destituída das máscaras que construí
Para no fim, enfim
Ser útil a esse sereno jardim
Deitada no solo eu olho as estrelas e tudo o mais não importa
Apenas o verde e o marrom me acomodam
E isso é o bastante para descansar
Sim! Tenho certeza absoluta
de que esse de fato é o meu lar
Fico calma sem movimentos
Sem sonhos e pesadelos
Sem esperanças e frustrações
E descanso, aqui jaz e até que enfim
Finalmente em paz.
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3. Castelo Vampírico: Agora e na Hora de Nossa Morte
Diário de Rute Fasano. 12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Diário de Rute Fasano
12 de dezembro - Depois daquele encontro com Drácula, pude me sentir inspirada o bastante para escrever. Aquilo foi um pouco parecido com a experiência que tive quando minha terapeuta me recomendou usar 2g do Psilocybe cubensis para tratar minha ansiedade, foi uma experiência ao qual eu não estava preparada e não sei definir se foi boa ou ruim, uma mistura de medo e prazer, inquietação e paz, que não quero repetir por ser algo muito imprevisível. Mesmo que depois dela eu tenha me tornado mais funcional por um breve momento. E assim como a viagem de cogumelo, eu não sei definir se quero outro encontro com Drácula. Esqueça as flores, esqueça o afeto por elas. Eu gostei daquele gesto, mas a experiência que veio antes eu não consigo definir bem o bastante para saber se quero repetir.
Estou um pouco irracional ultimamente, mesmo sendo bastante mente aberta e curiosa por demais, tem coisas que tem acontecido que estão além de uma explicação racional. Uma delas é essa minha vontade de andar nas madrugadas pelo castelo, feito aquelas damas de filmes góticos antigos com vestidos esvoaçantes e castiçal em mãos. Outra é a sensação latente de que eu irei ouvir a voz da minha amada a qualquer momento como um o sussurro do vento e seus dedos gélidos baterem à minha janela para que eu a deixe entrar. Isso faz com que eu queira perambular pelo castelo e apenas voltar para o quarto quando tiver que dormir. E realmente foi o que fiz, perambulei por todo ele sem encontrar uma alma viva ou morta. Investigando cada local que fosse possível e memorizando todos os caminhos que eu poderia passar sem que ninguém me percebesse.
13 de dezembro - Essas madrugadas de caminhada pelo castelo tem sido um bálsamo para mim, sem aquela ansiedade anterior que eu tinha de talvez encontrar Drácula ou um hóspede do castelo. Sei que uma hora ou outra terei que me dirigir a eles e compartilhar minhas dúvidas e reflexões sobre esse local que agora todos habitamos. Mas ainda não sinto que é chegada a hora. Estou escrevendo alguns contos, mas não os sinto bons o bastante, aquela sensação latente de sair do quarto tem me agitado, mais tarde sairei para caminhar.
Mais tarde - Escrevo isso com ódio, com um choro preso na garganta e usando tanta força para escrever que chega a marcar o papel. Fui, como de costume, perambular pelo castelo como há quatro dias já havia feito e caminhando pelos mesmos caminhos que eu havia memorizado. Me perdi por um momento em pensamentos sobre o que escrever dessa vez, o que fez com que eu caminhasse sem rumo. Encontrei uma capela abandonada em ruínas, odor de mofo entranhado nas paredes de pedra, bancos de madeiras todos danificados, castiçais com velas velhas e quebradas com suas chamas extintas, mesmo em destroços e esquecida, havia nela traços de que um dia fora bela e imponente, ainda era bela da sua maneira. Vitrais coloridos quebrados que em outros tempos mostravam imagens sacras, um crucifixo de ouro envelhecido acima do altar ao qual não pude olhar atentamente, pois a grande bíblia sobre o ambão tomou toda a minha atenção. Suas páginas estavam amareladas pelo tempo, porém intactas em comparação a todo o cenário envolta dela, aberta aguardando para ser lida. Toquei suas páginas e como esperado estava no salmo 91, porém marcado com o que parecia ser sangue seco estava o salmo 89, tentava em vão conseguir ler o versículo 48 que estava mais manchado, até que ouvi um sussurro muito perto do meu ouvido a pronunciar essas palavras:
— Que homem pode viver e não ver a morte, ou livrar-se do poder da sepultura?
Surpreendida, olhei a pessoa dona daquele sussurro, uma figura translúcida oscilante, vestida de branco, me aproximei devagar, sentindo o peso do meu próprio desconforto e angústia aumentarem. Seus olhos castanhos claros e a palidez sobrenatural que sempre a envolvera. Era ela, aquela que amei incondicionalmente sem nunca entender o porquê. Aquela que sempre soube que havia algo errado comigo, que via além das máscaras que eu usava para enfrentar o mundo, que compreendia minhas obsessões estranhas e meus medos mais profundos. Aquela que o nome eu nem sequer ouso mais pronunciar. Olhou-me com aquele seu olhar paciente e gentil e aquele sorriso doce que sempre me desarmava, e naquele momento minha mente se esqueceu do motivo de estar ali, pois nada mais importava. Tomei ela nos braços, senti-a com todo o meu corpo e meu coração, sentindo seu cheiro doce, fresco e leve. A beijei sem pressa como se nunca tivesse partido, ela me olhou ainda sorrindo e se desvencilhou delicadamente, segurou minha mão esquerda, e colocou minha mão em sua cintura e depois pôs a mão em meu ombro, e começamos a valsar, naquele silêncio incômodo, como nos velhos tempos. Dançamos, não sei por quanto tempo, até que abruptamente rodopiamos uma, duas, três, quatro vezes, ela olhou em meus olhos e curvou o corpo para trás com certa violência no meu braço direito e parou, e era como se eu tivesse despertado para aquele momento. Tudo aconteceu tão rápido que fui impedida de conseguir fugir da situação que me paralisou.
O pouco de cor que sua pele pálida tinha foi roubado, tornando seu rosto uma máscara de cera, seu belo rosto desvanecendo em um grito surdo. Aquela casca vazia, mole e sem movimentos. Pesada em meus braços, e sendo um peso sufocante em meu coração. Havia vozes, vindas não sei de onde, em uníssono sussurrando como em uma oração: — Pallor Mortis.
Seu corpo começava a pesar mais e mais, fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar e acomodar melhor seu corpo sem vida, um frio gélido a envolveu, penetrando minha carne, me causando calafrios e um ardor nos olhos, como se eu tivesse em meus braços um mármore gelado. As vozes novamente: — Algor Mortis.
Eu tentava aquecê-la em vão, impedir que se fosse, friccionar sua pele, mas nada adiantava. Seus músculos se enrijeceram, uma imobilidade agonizante, deveria tê-la soltado para que não presenciasse mais nada daquilo, só que não havia coragem em mim para deixá-la sozinha mais uma vez. Vozes: — Rigor Mortis.
Sua pele começou a adquirir tons avermelhados profundos, com sangue estagnado nas extremidades, marcando seu corpo agora inchado, meus dedos afundaram na sua carne mole e apodrecida enquanto eu a banhava em lágrimas que não conseguia conter, pois, a cada estágio, sua falta de vida era um peso no meu coração, que me consumia e matava aos poucos. Vozes: — Livor Mortis.
Seu corpo começou lentamente a se desfazer nos meus braços, deixando seu rosto disforme, desconhecido. O odor repulsivo e forte, já conhecido meu, invadiu minhas narinas e adentrou a minha garganta, sentir ele tão fresco, tão perto, era lancinante, fazia revirar o meu estômago e tentava me controlar para não regurgitar, o que foi em vão, pois além de lágrimas, também a sujei de restos malcheirosos do meu estômago. Vozes: — Putrefação.
Ela foi resumida a um esqueleto com vestígios de algo que antes seria alguém. Despida de sua antiga beleza, para uma beleza macabra, sem carne, envolta num manto alvo, como uma santidade cadavérica. Vozes: — Decomposição.
As vozes em coro silenciaram. Seu esqueleto em meus braços. Vestígios de tudo que foi e nunca mais será. E eu presenciei cada etapa de seu inevitável fim. Aquele fim que imaginei detalhadamente quando a deixei sozinha apodrecendo naquele cemitério. Ela definhou em meus braços, pela segunda vez. Entre lágrimas e dor, vi-a morrer pela segunda vez. Meu olhar então se voltou para a cruz que antes eu não havia dado atenção, e lá, em lugar do Cristo morto, vi uma figura que me encheu de ódio. Era um Jesus vampírico, uma distorção grotesca daquilo que um dia acreditei por ela. Na primeira morte dela, reneguei Deus; agora, diante dessa imagem profana, reneguei Drácula, por me fazer passar por essa agonia novamente. Seu sorriso maldito parecia zombar de minha dor, alimentando ainda mais a minha revolta.
Ele desceu lentamente daquela cruz, como uma figura divina, era como se o tempo desacelerasse ao seu redor, coroado e envolto em um manto de sangue e carne, extremamente pálido como se não houvesse sangue em seu corpo. Eu tremia, não queria mais nenhum encontro com Drácula, mas aqui estamos novamente, e eu o temo e o odeio, porém sua figura parecia obrigar uma contemplação forçosa e uma paz ilusória que lutei para não me permitir sentir. Não agora, pois naquele momento eu precisava odiá-lo. Cada vez mais, a presença opressiva de Drácula se fazia sentir, seu olhar penetrante atravessando minha alma enquanto eu lutava para manter minha mente própria. Não queria permitir que ele exercesse nenhum poder sobre mim.
Eu estava perdida naquela capela abandonada, presa entre o céu e o inferno, entre o amor e o ódio, entre a vida e a morte. Talvez condenada àquele purgatório que era o castelo, uma prisioneira, talvez assim como Drácula. Sua presença me oprimindo, e com um comando de mãos, como da última vez, me fez despertar mais uma vez em meu quarto, onde estou nesse momento a escrever meu segundo encontro com ele.
P.S. Talvez Drácula, tentando pensar racionalmente agora, use desses subterfúgios para que os que estão no castelo se sintam mais inspirados, ou tenham sobre o que escrever, talvez olhar nossa dor, analisá-la e escrever sobre ela, não sei. Só sei que ele ultrapassou alguns limites nesses seus métodos. Usou de coisas que eu tentava esquecer ou achei que deveria esquecer. Outra coisa que percebi foi que em nossos encontros, nunca trocamos palavras, mas sim pensamentos, sensações, como se respeitássemos mutuamente a decisão de manter o silêncio. Ainda não o compreendo e isso me perturba, porém naquele momento terrível, pude compreender que minha jornada estava bem longe de terminar.
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Morto-Vivo
No altar o odor pútrido paira no ar, | Nessa igreja de cadáveres esquecidos, | Seu jardim sagrado é o cemitério, | Onde os mortos estão escondidos…
Foto de Zoltan Tasi
No altar o odor pútrido paira no ar,
Nessa igreja de cadáveres esquecidos,
Seu jardim sagrado é o cemitério,
Onde os mortos estão escondidos
Estou rezando e sentindo o péssimo odor do altar
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também vou estar
A terra engoliu todos aqueles corpos
Entre gemidos e lamentações
Neste santo jardim mal cuidado com odor de podridão
Eu vejo um manto de trevas cobrir o pouco de devoção que restou
Do alto do altar a morte se ergue em sua glória
Meu senhor está morto-vivo, morto e eu também estou
Os fiéis se curvam em dor
Sinto o odor pútrido, doce e forte
Ouço um hino sem o fim do redentor
Em meio a oração uma presença se manifestou
Vejo suas cicatrizes e seu sangue seco
Meu senhor está morto-vivo, morto-vivo e eu também estou
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Tumba para duas
Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá, | Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade | Nesta noite turbulenta que agita a minha mente…
Foto de Veit Hammer
Escrevo essas palavras sabendo que você nunca as lerá,
Mesmo assim mergulho em minha alma com ansiedade
Nesta noite turbulenta que agita a minha mente
E as escrevo sem piedade,
Pois me odeio nesse momento por respirar sem a sua presença,
Percebo como é doloroso viver,
Sabendo que tudo que faço ou irei fazer
Não será mais do seu conhecimento.
Nem meus pensamentos,
Nem meu dia-a-dia a partir do momento de sua partida
Já que não está mais aqui,
Desejo apenas não sentir,
Não ter esses sentimentos,
Talvez atenuá-los e seguir minha vida,
Mas todos os caminhos que sigo me conduzem a você
E as vezes eu quero poder te fazer companhia,
Descansar, como você faz, na terra fria
Aquilo que outrora nos unia, agora parece uma barreira
Oh vida, como gostaria de dissolvê-la
Para nos deixar a sós novamente
As vezes ouço sussurros e passos,
E me percebo te procurando,
Como se de algum lugar você estivesse me assombrando
Não é real, é apenas meu cérebro a me enganar
Crendo que nosso amor além da morte poderia estar
E confesso silenciosamente que, eventualmente,
Eu queria poder descansar em paz
Naquela tranquilidade final que só a morte traz
E se por uma tranquilidade silenciosa
Nos deitássemos lado a lado pela eternidade nessa cova?
Sei que há espaço nessa tumba para nós duas.