Reflexos do Mal

— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.
Friedrich Nietzsche 

— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu. Desde então, de seis em seis meses, nos conta essa mesma história absurda, de uma forma enfática e repetitiva. Quando será que o senhor irá nos confessar o que realmente aconteceu? Por que assassinou sua esposa e seus filhos? O senhor precisa realmente cooperar conosco; só assim poderemos tentar ajudá-lo.

O paciente baixou a cabeça e começou a chorar copiosamente, entrando numa terrível crise de histeria. Os enfermeiros foram chamados e conseguiram contê-lo, aplicando-lhe um forte calmante, que o fez ficar inerte na cadeira, mas ainda assim com os olhos abertos e vidrados em alguma direção a esmo, como se avidamente quisesse enxergar algo que ninguém mais pudesse ver.

Assim que aquele paciente se acalmou e o ambiente ficou mais tranquilo, o renomado psiquiatra Doutor Eugênio de Abreu, que conduzia aquela sessão e que também era o mais velho dos três médicos ali presentes, disse aos outros dois profissionais que estavam ao seu lado:

— Esse paciente que está à nossa frente é um espécime raro nesta instituição. Na visão de um leigo, que não saiba de seus crimes, ele pode parecer uma pessoa completamente normal. Há quase dez anos tenho acompanhado seu tratamento e, durante todo esse tempo, ele tem nos contado a mesma história sem nunca, nem mesmo sob o forte efeito de drogas pesadas — ou outros tipos de tratamentos nada ortodoxos —, ter mudado uma única vírgula do que sempre tem sido contado ao longo de todos esses anos. Sua inverossímil história parece o enredo de um conto de terror e mistério. Segundo ele, um antigo espelho que ele teria herdado de sua avó seria o responsável por toda a tragédia que assola sua família há muitos anos...

... Seu nome é Wilson Bernardes — mesmo nome do avô — ele era uma espécie de artista fracassado que ganhava a vida como professor de artes e, vez por outra, conseguia vender uma de suas pinturas por uma ninharia qualquer. Era casado com uma promissora médica — de nascimento nobre, filha de família rica — que abandonara a fortuna e carreira para acompanhar o marido, cuidar da casa e dos filhos que os dois logo tiveram no início do casamento.

Segundo a sogra — dona de uma renomada galeria de arte —, seu genro sempre havia demonstrado um comportamento estranho e arredio, com certo senso de inferioridade. O relacionamento dele com sua filha foi o típico casamento entre “a princesa e o plebeu”, fato esse que sempre gerou discórdia entre eles, e que, a todo custo, tentava se manter distante da família dela.

Professor Wilson é oriundo de um núcleo familiar onde a tragédia parece fazer parte da própria família. Ele mesmo era órfão desde os cinco anos, quando perdera os pais num terrível acidente de carro, onde somente ele conseguira sobreviver — as causas do acidente nunca foram totalmente esclarecidas —. Até os 18 anos, fora criado por sua avó materna numa pequena cidade do interior — uma bondosa e sofrida mulher que já havia criado seu filho sozinha, após a trágica morte do marido, que tirara a própria vida em circunstâncias misteriosas —.

O avô do nosso paciente, o senhor Wilson Bernardes, era motorista de um ônibus escolar. Um profissional competente e muito querido por todos, mas que, numa triste manhã de sexta-feira, sem nenhum motivo aparente, havia jogado o veículo que dirigia numa ribanceira, matando, além dele mesmo, mais 17 crianças, deixando outras tantas feridas — algumas das crianças que sobreviveram ao acidente disseram, em depoimento, que o sempre meigo e atencioso tio Wilson estava com um sorriso bastante estranho e se comportava de uma forma muito esquisita naquele dia —.

Assim que terminou os estudos escolares, o jovem Wilson veio estudar na capital, onde se formaria em História da Arte, tornando-se posteriormente professor de uma pequena escola de bairro. Ainda na faculdade, conheceria sua futura esposa. Clarisse estava cursando o penúltimo ano de medicina quando ele iniciou seus estudos no curso de Licenciatura em História da Arte. Em menos de cinco anos, oficializariam um relacionamento bastante conturbado devido a inúmeras diferenças que havia entre eles. Ele, que era bastante solitário desde que perdera sua avó, teria uma família novamente. Ela, por sua vez, estava selando seu trágico destino.

Quando se casaram, a esposa tinha certeza da vida simples e humilde que o futuro esposo poderia lhe proporcionar e nunca reclamara por isso, até o dia em que viria receber uma pequena fortuna de herança do pai. Dinheiro esse que era visto pelo marido como uma profunda ofensa a seus nobres princípios de homem humilde e trabalhador. Com a herança recebida pela morte do pai e a constante companhia da mãe, a esposa retomou alguns costumes e contatos da época de solteira, quando ainda vivia em uma vida de opulência e riqueza na casa dos pais. Esse fato causou a inevitável separação dos dois, devido ao sentimento de profunda inferioridade do marido.

Uma vez separado de sua esposa e longe da companhia de seus filhos, decidira tirar umas merecidas férias e retornar à sua cidade natal. Pois, desde que se mudara para a capital, jamais havia retornado à sua antiga cidade. Sua avó, que terminara seus dias no mais completo abandono numa clínica de repouso para idosos, havia deixado a ele — seu único herdeiro — sua casa e todos os seus pertences — essa casa estava fechada há muitos anos —. Professor Wilson, que trabalhava na mesma escola há 15 anos, solicitara uma licença do trabalho, alegando, além das questões pessoais — que todos já sabiam —, que também gostaria de um tempo para voltar a pintar de forma profissional ou, quem sabe, até mesmo poder escrever um livro sobre a história de sua família.

Após esclarecer seus planos à ex-esposa — com quem ainda mantinha um relacionamento de respeito e admiração, por ser ela a mãe de seus filhos —, despedira-se de seus filhos de forma bastante carinhosa e voltara para sua antiga casa dos tempos de infância, onde ficaria quase dois meses sem dar nenhuma notícia. Sua cidade natal ficava a mais de 150 km distante da capital.

Certa noite, já em alta madrugada, o vulto de uma pessoa parecida com o professor Wilson fora visto por um dos vizinhos — que chegava de uma noitada — entrando sorrateiramente em sua antiga casa, onde ele vivera por mais de 10 anos com a ex-esposa e seus dois filhos. Nenhum deles jamais seria visto novamente. A mãe de Clarisse — que estava em viagem à Europa —, ao perceber que Clarisse não respondia às suas ligações, retornou imediatamente de sua viagem e, assim que percebeu que sua filha e seus netos haviam desaparecido, logo teve a plena certeza de que o ex-genro era o responsável pelo sumiço de todos eles.

A polícia foi acionada imediatamente. Um pedido de prisão preventiva fora expedido contra o professor Wilson pelo desaparecimento de sua ex-esposa e também de seus filhos. Ele fora encontrado no porão da casa que herdara da avó, pintando um autorretrato, inocente a tudo que havia acontecido. Ao saber do desaparecimento de sua família, entrara em choque. Uma antiga conhecida da família, que ele havia contratado como uma espécie de governanta, dissera que ele não havia saído de casa na noite do assassinato.

Tanto a casa da avó quanto a casa onde eles viviam foram periciadas até pelo avesso em busca de evidências que pudessem comprovar um triplo assassinato. Paredes foram minuciosamente verificadas, os dois quintais foram revirados, vários testemunhos foram colhidos, porém nenhuma prova fora encontrada. De certo modo, o crime parece ter sido perfeito.

Wilson — que já não era mais professor — ficou preso até o julgamento, mas este douto e persuasivo ex-professor, contando com a competência de um bom advogado e a anuência da Lei, fora solto após o julgamento por ter sido considerado inocente, pois, segundo as negligentes leis vigentes desse país, “se não há corpo, não há crime”...

Depois de todos esses episódios que vocês ouviram, esse paciente à nossa frente começou a dar mostras de um comportamento que variava entre o lúcido e o mais completo delírio. Envolveu-se em algumas confusões em bares e boates, muitas das vezes sendo expulso desses locais por quebrar os espelhos que encontrava pela frente. De alguma forma, criou uma espécie de total aversão pelo próprio reflexo.

Segundo sua governanta, alguns dias após o seu julgamento, ele tivera algum tipo de surto psicótico sobre um determinado espelho que havia em seu porão. Fez várias pesquisas sobre a origem do antigo objeto que pertencera ao seu avô, comprou diversos livros sobre ocultismo e chegava a ficar dias inteiros trancado no porão de sua casa, sussurrando palavras estranhas que ela não conseguia compreender direito, pois eram frases sem nexo algum. Falava sobre demônios, espelhos, portais e coisas desse tipo...

Depois de quase dois anos desde que tudo ocorrera, parece que as coisas estavam voltando ao normal e Wilson demonstrava que se tornaria uma pessoa lúcida novamente, até que, certa noite, em uma hora já bastante avançada, após a governanta ouvir estranhos barulhos de uma terrível luta no porão, além de vozes lamentosas e gritos de profundo desespero, ela, temendo pela integridade do seu patrão, que ela ajudara a criar desde criança, desceu até aquele ambiente onde lhe era proibido adentrar e pôde conferir com seus próprios olhos que ele já não estava mais lá. O ambiente estava tranquilo e silencioso. Era estranho, pois seu carro estava na garagem e ela não o ouvira sair pela porta da frente.

De alguma forma, Wilson havia chegado à casa de sua ex-sogra e tentou assassiná-la. A pobre mulher — que ainda chorava pela perda da filha e dos netos — conseguiu se salvar das garras do alucinado agressor, gritando por socorro aos seus vizinhos, que já estavam previamente avisados do comportamento psicótico e agressivo de seu ex-genro. Wilson foi preso tentando arrombar a casa da ex-sogra, de posse de uma afiada faca. Naquele momento, seu estado parecia ser de total embriaguez, mas parecia haver algo mais, pois, mesmo com a presença da polícia, mantinha um comportamento agressivo e alienado, ficando o tempo todo murmurando palavras sem sentido algum. Sua prisão em flagrante por tentativa de assassinato fora revertida em internação em uma clínica psiquiátrica de segurança máxima.

De alguma forma, ele conseguira escapar. Mesmo vestindo trajes de um interno, descalço, sem dinheiro algum e sem nenhum documento, conseguira retornar até sua antiga casa. A governanta fora encontrada aos prantos do outro lado da rua, amparada por vizinhos que também chamaram a polícia e os bombeiros. Segundo ela, ao ouvir barulhos estranhos no porão, desceu rapidamente para ver o que estava havendo, temendo ser um invasor. Encontrou a porta do porão trancada por dentro e logo sentiu cheiro de fumaça e o calor do fogo por debaixo da porta. Os bombeiros agiram rápido e conseguiram controlar as chamas e salvar a casa. Wilson, com quase 70% do corpo queimado, fora preso mais uma vez. Ficou mais de seis meses se recuperando das queimaduras e, logo após se restabelecer, foi enviado até nós. Desde então, tentamos mantê-lo longe de espelhos ou qualquer objeto ou superfície que possa refletir sua imagem.

Acredito que seja de total conhecimento de vocês, jovens e devotados calouros em psiquiatria, que todo e qualquer indivíduo, com qualquer tipo de distúrbio, por menor que seja, uma vez internado numa instituição como essa, muito dificilmente conseguirá sair para o convívio social novamente. Principalmente em se tratando de casos específicos, como esse, em que o paciente transita em paralelo entre universos de fantasia e realidade. Como podem saber, sou um profissional com mais de quarenta anos de carreira e já vi muitas coisas estranhas em todos esses anos de psiquiatria. Tenho acompanhado o caso do paciente Wilson desde que ele chegou aqui nesta clínica. Em todos esses anos, nunca havia me deparado com um caso tão peculiar como esse, onde o paciente jamais desiste de contar a mesma história. De alguma forma, ele realmente acredita em tudo o que diz, como se toda essa insanidade fosse realmente verdade, e não apenas um mero fruto de sua fértil imaginação...

Um dos jovens calouros, que atentamente ouvia todo aquele relato e que tentava anotar tudo o que o experiente médico dizia, ousou perguntar:

— Doutor Eugênio, em algum momento, o senhor, com toda a sua experiência, cogitou a possibilidade de que ele talvez estivesse falando a verdade? Sobre o espelho amaldiçoado em seu porão? O senhor não nos disse muitas coisas sobre esse espelho.

Aquele sábio e experimentado psiquiatra deu um longo suspiro e, olhando para aquele jovem e inexperiente médico com certa indulgência, disse num tom paternal:

— Cuidado, meu jovem rapaz... Aqui, entre essas paredes, tem um lugar reservado a todos aqueles que contam histórias fantásticas e também para quem acredita nelas...

— O tal espelho realmente existe, mas é somente uma peça antiga, talvez do século XVIII ou XIX. Depois que nosso paciente foi definitivamente considerado incapaz de retornar à sociedade, sua casa, com todos os pertences que restaram após o incêndio, foi leiloada pelo Estado. Eu mesmo arrematei o tal espelho por mera curiosidade, devido a todas as histórias que o acompanham. Era uma das peças da coleção particular do avô de nosso paciente. Senhor Wilson Bernardes era um aficionado por coisas antigas e colecionava todo tipo de quinquilharia. Era um verdadeiro saudosista dos tempos idos, que, em sua estranha coleção de velharias, sempre optava por objetos que tivessem algum tipo de relato macabro em sua história...

Saindo daquela sala especial onde os internos eram examinados a cada seis meses, Doutor Eugênio convidou os outros dois médicos a acompanhá-lo até seu consultório, onde o espelho se encontrava. Naquela mesma tarde, Doutor Eugênio de Abreu fora brutalmente assassinado dentro de seu próprio consultório; um dos médicos que o acompanhava está em coma profundo após ter o seu crânio fraturado e os olhos perfurados com um bisturi. O outro médico encontra-se foragido...

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Quitandas da Vovódelícia

O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

“As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos e serviram-lhes de alimento”
Livro das Lamentações 4;10

O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar. A baixa umidade relativa do ar torna os dias abafados e sufocantes. Respirar é quase um suplício; a pele, ao mesmo tempo ressecada pela manhã, fica também bastante pegajosa à tarde, devido ao calor que causa uma sudorese constante. Verdadeiramente, é uma época praticamente insuportável.

No esporte, após a tristeza pela morte de Ayrton Senna — o maior piloto de Fórmula 1 da época — numa triste manhã de domingo, no mês de maio, logo a alegria voltaria aos lares brasileiros com a conquista do tetracampeonato mundial pela seleção brasileira de futebol, numa animada tarde de domingo, no mês de julho. Mesmo mês em que entrou em vigor o Plano Real. O país ganhava uma nova moeda e a perspectiva de uma tão sonhada estabilidade econômica. Tudo parecia estar às mil maravilhas, até mesmo para o jovem Cláudio Martins, que acabara de conseguir seu primeiro emprego, iniciado já no primeiro dia do mês de julho.

Oriundo de uma família simples e muito humilde, o jovem Cláudio, após uma infância bastante sofrida numa pequena cidade do interior do estado — lugar onde não havia muito trabalho, tampouco perspectivas para um jovem sem muitas posses —, se mudara com a família para a capital. O pai — um humilde homem do campo — logo conseguira emprego como vigilante noturno numa garagem de ônibus urbano. Sua mãe — uma cozinheira bastante talentosa — arranjara uma ocupação como auxiliar de cozinha numa pequena escola do bairro onde moravam. Ele, após quase seis meses fazendo pequenos biscates, também conseguira um trabalho fixo num supermercado, no cargo de entregador.

O supermercado não era muito grande, por isso não havia muitas entregas a serem feitas. Sendo assim, Cláudio auxiliava na seção de hortifruti, repunha mercadorias nas prateleiras e também era responsável pela precificação dos produtos. As entregas — quando havia — eram feitas apenas para clientes do próprio bairro e adjacências, num raio de no máximo 5 quilômetros, pois as mercadorias eram transportadas numa velha bicicleta cargueira. O trabalho em si não era de todo ruim. Cláudio era um adolescente pobre, mas cheio de sonhos e precisava de dinheiro para ajudar nas despesas do lar e também custear suas vaidades juvenis.

Morando na capital, cursando a primeira série do Ensino Médio e com 16 anos completos, Cláudio necessitava desse emprego. Fã de rock and roll desde a mais tenra infância, agora, vivendo numa cidade grande, teria a oportunidade de assistir a shows de bandas nacionais que volta e meia se apresentavam na capital. Naquele ano em particular, a banda mineira Skank havia lançado um álbum chamado Calango e estava em turnê pelo país. Cláudio estava ansioso e apreensivo, pois essa banda faria uma apresentação na cidade em outubro. Seria o primeiro show de rock de sua vida. Ele, que ficara maravilhado com o casamento do rei do pop com a filha do Elvis, mesmo após alguns dias de profunda melancolia pela morte do líder do Nirvana, ainda assim, imaginava em sua inocência que 1994 seria o grande ano de sua vida. Cláudio era jovem e sonhador. Estudava, trabalhava, curtia rock and roll e já trocava olhares mais calientes com uma ou outra coleguinha de escola. A vida se abria para Cláudio num sedutor leque de oportunidades.

Devido a lapsos de rebeldia, já enfrentava alguns problemas relacionados a divergências de opinião com sua família, que era muito católica e bastante conservadora. Seus pais eram religiosos ao extremo e fiéis defensores da moral e dos bons costumes. Assistir à missa pelo menos uma vez na semana era algo sagrado. Cláudio andava muito ocupado com todas as suas responsabilidades. Domingo era seu único dia de ócio. A missa pela manhã iniciava-se bem cedo, e ele queria ficar mais tempo na cama. À noite, a celebração era bem no horário de seu programa de rádio preferido. Depois de quase um mês sem ir à igreja, após um belo sermão do pai e muita insistência da mãe, decidiu ir à celebração. Como se não bastasse a missa ter sido bastante maçante e a homilia muito longa, a ponto de ele cochilar enquanto o padre falava, quando chegou em casa, seu irmão caçula ainda lhe dissera que naquela noite, no rádio, havia sido apresentada a biografia de Paul McCartney — seu Beatle preferido.

Naquela noite, Cláudio fora se deitar muito ensimesmado com a vida. Era jovem e não entendia ainda — talvez jamais viesse a compreendê-lo — como era o verdadeiro funcionamento do mundo, com seus estranhos mecanismos de controle emocional e segregação social e econômica. Ficou até bem tarde ouvindo o insistente cantar de um grilo na parede e os demais sons que o silêncio da noite lhe oferecia. Depois de muita especulação filosófica, adormeceu por volta da meia-noite, sem saber que, naquela mesma semana, sua vida iria mudar para sempre.

Na segunda-feira, como era de costume, logo pela manhã, dona Cleuza, uma simpática quitandeira — uma quarentona ainda na flor da idade e bastante vaidosa — fazia suas compras para o início da semana. Além dos itens domésticos de consumo próprio, ela também adquiria os ingredientes necessários para a produção de doces e salgados da quitanda que ela e sua mãe — dona Valdelice — tocavam juntas. As Quitandas da Vovódelícia eram bastante afamadas por quase toda a cidade. Os doces não eram tão diferentes de qualquer outro que se vendesse em uma padaria qualquer. Contudo, os salgados eram extraordinários, e ninguém num raio de quilômetros-luz conseguiria fazer algo nem mesmo parecido. O tempero era esplêndido, causando uma explosão de sabor na boca, e o recheio era de uma carne com sabor bastante exótico, mas muito agradável ao paladar, devido à textura e às nuances dos condimentos.

Todas as vezes que Cláudio levava suas compras — pelo menos duas vezes na semana — dona Cleuza lhe presenteava com um apetitoso salgado e um copo de refresco. Enquanto ele saboreava seu lanche, ela lhe cobria de voluptuosos olhares, que às vezes o deixavam até constrangido. Dona Cleuza era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente poderia ser confundida com uma jovem de, no máximo, uns vinte e cinco, talvez até um pouco menos. Era uma dessas raríssimas criaturas sobre as quais o tempo não parece ter efeito. Cláudio era um jovem com os hormônios em ebulição, e saber que aquela bela mulher o devorava com os olhos lhe causava imensa satisfação.

Naquela manhã em particular, dona Cleuza estava bastante sorridente e parecia mais amável do que de costume. Assim que terminou de fazer suas compras, solicitou ao dono do mercado que enviasse suas encomendas o mais rápido possível, pois teria um importante compromisso e, sendo assim, talvez depois não houvesse ninguém em casa para receber o entregador. Seu Nelson — o proprietário do mercado — deu sua palavra de que a entrega seria executada sem demora, pois, além de ser um prestativo comerciante, tinha certa queda pela quitandeira, que, por sua vez — por questões pessoais — não dava ousadia a homens casados, mas nunca havia sido grosseira com ele. Dona Cleuza era o tipo de mulher de sorriso fácil e meiguice espontânea, dotada de uma gentileza ímpar, que chegava a causar certa inveja.

Naquele momento, Cláudio estava fazendo uma entrega numa clínica de repouso para idosos ali próximo. Essa clínica também fazia suas compras naquele mercado. Contudo, aquela entrega em si era uma doação que o próprio dono do mercado fazia toda semana para a instituição — era quase sempre a mesma coisa: frutas, verduras e carne, ou seja, produtos frescos, que eram entregues na clínica na segunda-feira pela manhã. A maioria dos outros itens básicos para a alimentação dos internos também era proveniente de doações. A clínica — uma instituição de caridade sem fins lucrativos — sobrevivia da bondade alheia e do voluntariado de algumas pessoas de alma nobre, que, além de doações materiais, também dedicavam parte de seu tempo ao cuidado dos idosos. Havia poucos funcionários remunerados.

Pela primeira vez, Cláudio — que demonstrava bastante retidão de caráter e muita seriedade em suas funções — demorou mais do que o normal com a entrega, fato que causou estranheza ao seu patrão, que estava até mesmo preocupado com a integridade física do rapaz, pensando que ele poderia ter sofrido algum tipo de acidente. Entretanto, quando Cláudio retornou ao mercado com as caixas de entrega já vazias, logo explicou o motivo de sua demora. Já acomodando as compras de dona Cleuza sobre a bicicleta para a entrega, relatou o ocorrido na clínica.

... Na noite anterior, um dos internos havia desaparecido. Havia um verdadeiro rebuliço, com a presença da polícia e tudo mais. A diretora da clínica estava exigindo, por parte dos policiais, que um inquérito fosse aberto para investigar o desaparecimento de mais um de seus internos. Um dos policiais, após anotar num pequeno bloco os dados pessoais do idoso que sumira, disse que, assim que completassem 24 horas do ocorrido, abriria um boletim de ocorrência. Também aconselhou a diretora da clínica a aumentar a segurança do local, ao que ela respondeu prontamente, até com certa rispidez, ao perceber a má vontade do policial:

— Aqui não é um presídio, rapaz! É uma casa de repouso. Zelamos pelo bem-estar daqueles que já não têm ninguém por eles. Não prendemos ninguém aqui!

— Sendo assim, a senhora não deveria reclamar quando um deles, não apreciando a comida ou as acomodações, decide ir embora — respondeu o outro policial em tom de pilhéria.

— Como de costume, devo prestar meus sinceros agradecimentos por mais uma eficaz demonstração de profissionalismo de nossa honrada força policial. Ou seja, muito obrigada por nada! Exijo que pelo menos fique registrado nos autos que, somente este ano, aqui na clínica já foram seis internos que desapareceram de forma misteriosa no meio da noite. Sumiram com a roupa do corpo, sem deixar nenhum vestígio...

Os policiais, sentindo-se bastante ultrajados pela fala da diretora — que demonstrava estar bastante irritada com a piadinha que um deles fizera —, como nada mais tinham a fazer no local, logo entraram no carro e saíram em disparada, com a sirene da viatura ligada. Assim que Cláudio terminara o seu relato, o dono do mercado não emitira nenhuma opinião sobre o acontecido, além de lamentar profundamente o fato em questão.

Cláudio, que tinha muito apreço pelo trabalho que a clínica fazia no cuidado com aquelas pobres almas inocentes, ficou bastante acabrunhado pela negligência com que os policiais atenderam a ocorrência, mas principalmente ao pensar na triste situação de quem chega ao fim da vida sem ter com quem contar. Ficou bastante melancólico e reflexivo sobre a forma como um idoso é tratado pela sociedade. Primeiro, repudiado pela família que o abandona; segundo, pela própria sociedade, que enxerga uma pessoa mais velha como alguém que tem uma doença contagiosa — por isso, precisa ficar isolada —; e, por último, pela negligência do próprio poder público, que, após pagar uma mísera aposentadoria, lava as mãos e deixa aqueles que um dia tanto significaram para a nação entregues à própria sorte.

Perdido nessas tristes reflexões, mas, mesmo assim, cumprindo suas obrigações profissionais, Cláudio logo chegou à casa de dona Cleuza e, após encostar sua bicicleta com as compras no muro — há anos aquela bicicleta não tinha mais o descanso —, bateu palmas no portão da quitandeira e aguardou que alguém viesse atendê-lo. Esperou por uns dois minutos e, como não ouviu nenhum movimento, bateu palmas novamente, dessa vez com maior intensidade. Após aguardar por quase cinco minutos e não ser atendido por ninguém, decidiu testar a maçaneta do portão e, caso não estivesse trancada, entraria e deixaria as compras na cozinha, mesmo se não houvesse ninguém em casa. Para sua sorte, o portão estava destrancado.

Pegou as pesadas caixas com as compras e adentrou a casa, indo direto para a cozinha. A mesa onde ele colocava as compras sempre que as trazia estava repleta de caixas de plástico brancas — do tipo que são usadas em açougues. Como não havia outro lugar para colocar as compras, decidiu deixá-las na bancada da pia. Enquanto executava esse processo de descarregar as compras, ouviu o som de música e de um chuveiro ligado em um dos quartos da casa. Pensou que, talvez devido a esse barulho, quem estivesse na casa não teria ouvido quando ele batera palmas no portão. A música que ele ouvira era do grupo Roupa Nova e, se não estivesse enganado, a canção se chamava "Tímida".

Imaginando que estivesse sozinho na casa, e com sua curiosidade ardendo para saber quem estaria no banho, caminhou sorrateiramente na direção do barulho e logo se viu diante de um belíssimo aposento. Muito grande e bastante aconchegante. A enorme cama em estilo colonial ficava numa parede de frente para uma grande janela panorâmica, que dava para um jardim lateral da casa. Todo o mobiliário do aposento era de fino estilo colonial. No chão, um grande tapete felpudo fazia conjunto com as cortinas em tom de vermelho púrpura. Sobre a cabeceira da cama, na parede logo acima, havia um grande quadro com uma pintura a óleo de uma serena paisagem campestre. O ambiente era bastante perfumado, tanto pelo cheiro das flores nos jarros espalhados pelo quarto quanto pelo aroma de sabonete que vinha do banheiro, onde alguém — certamente dona Cleuza — tomava um demorado banho.

Sem muita cerimônia adentrou pelo quarto e se aproximou do banheiro que ficava aos fundos. Tentou ser o mais silencioso possível para não ser notado. Parou a uma distância segura e ficou observando dona Cleuza que estava em todo seu esplendor, da mesma maneira que chegou a esse mundo. Ela que trazia em seu ventre um calor tão quente como o fogo do próprio Tártaro, naquele momento, debaixo das tépidas águas daquele convidativo chuveiro, se tocava voluptuosamente na tentativa de abrandar aquele fogo que lhe queimava as entranhas.

Cláudio que devido a idade já havia acordado com os lençóis de sua cama sujos e pegajosos após despertar de um sonho molhado que tivera com a própria dona Cleuza, se encontrara naquele momento numa situação bastante embaraçosa. Havia um emaranhado de sentimentos tomando conta de todo o seu ser. Desejo de entrar no chuveiro com aquela bela criatura, medo de que alguém o visse ali no quarto de uma dama naquela situação e curiosidade em saber como tudo aquilo terminaria. Estava ele tão entretido com aquela lasciva visão que nem mesmo se dera conta de que dona Valdelice entrara no quarto e estava de pé logo atrás dele.

Quando percebeu que havia sido flagrado, — em pleno horário de trabalho — dentro do quarto de uma dama em seu momento de mais pura inocência e intimidade, saiu correndo do recinto trombando em tudo que via pela frente, inclusive na própria dona da casa. Ao passar pela cozinha para se evadir do local, acabou derrubando uma das caixas que estava sobre a mesa. Ficou pasmo quando viu que dentro da caixa havia partes de uma perna humana. Levantou o pano que cobria as demais caixas e viu que havia mais partes humanas, um pouco de carne já moída, massas para salgados e temperos e condimentos de todos os tipos.

Naquela mesma tarde daquele quente e sufocante final de agosto, além dos restos mortais do idoso que havia desaparecido da clínica na noite anterior, também fora encontrado várias ossadas humanas enterradas no quintal da casa de Dona Cleuza. Logo se soube que um dos enfermeiros da clínica era amante da quitandeira. Era ele quem lhe fornecia a carne para os, até então, saborosíssimo e inigualáveis salgados da Vovódelícia. Dona Cleuza foi presa em flagrante e logo depois condenada e sentenciada à pena máxima por vários crimes: canibalismo, homicídio, ocultação de cadáver etc. Dona Valdelice, devido a idade e seu estado de debilidade, fora internada numa clínica para idosos com problemas mentais. Terminou seus dias de forma lamentável, no mais completo abandono. O suposto amante nunca fora encontrado para responder por seus crimes. Ao saber que dona Cleuza havia sido presa, foragiu sem deixar vestígios, ninguém mais soube de seu paradeiro. O inquérito policial concluiu que ele usava uma documentação falsa que havia sido abandonada em seu alojamento na clínica.

Cláudio, em pouco tempo, saiu do emprego de entregador e buscou outra ocupação até se formar em medicina, especializando-se em geriatria. Mesmo depois de muitos anos e, sendo ele um clínico renomado, atendendo em um grande e respeitado hospital particular da capital, ainda assim presta serviços voluntários em diversas clínicas e casas de apoio aos idosos espalhadas pela cidade. Ele jamais se esqueceu daquele ano de 1994. Nunca mais comeu nenhum outro tipo de salgado. Na verdade, tornou-se totalmente vegano, ao ponto de sentir repugnância a qualquer tipo de proteína, seja ela qual for...

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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