Cosendo o Passado
O passado lhe serve | Caso o conserve no sepulcro da memória | Experimente, embora já não lhe caiba. | Experimentei o meu, vestiu bem, compreende?…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
O passado lhe serve
Caso o conserve no sepulcro da memória
Experimente, embora já não lhe caiba.
Experimentei o meu, vestiu bem, compreende?
porém carecia de ajustes,
e motivada o adaptei.
Transpassei a linha da memória e cosi a minha forma,
duas vezes, para não retornar.
Cosendo a ponta a qual ligava-me ao primeiro impulso
de contestar meu feito.
Atualmente adaptei-me ao passado.
Embora as linhas da memória transpareçam no tecido
amarrotado do fardo da vida.
Eu o combino ao presente, e o transporto como herança,
Para além do descanso eterno,
onde nada existirá após o findar
Do plano terreno.
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O Que Importa
A vida é curta, disse-lhe a ciência. | Curta demais para dizer um não... | Tão curta que só de pensar na ausência | sente Isabel pesar o coração…
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Em homenagem a Isabel Veloso.
A vida é curta, disse-lhe a ciência.
Curta demais para dizer um não...
Tão curta que só de pensar na ausência
sente Isabel pesar o coração.
Porém, percebe que o Amor lhe traz
nesta fatalidade algum alento:
em todo abraço goza de uma paz
que não achou no seu medicamento.
Que importa se o pesar da alma lhe agita,
se qualquer primavera que lhe fita
a dor quer transformar em duro inverno...
Que mais importa? Importa-lhe viver
o milagre de amar e de fazer
que cada curto dia seja eterno.
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Um rosto trágico III
Dobrado, na sarjeta cinza e úmida | Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação | Em volta, apenas olhos, viaturas; | No ar, a curiosa exclamação:…
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Dobrado, na sarjeta cinza e úmida
Jazia o corpo: inerte, a sós… De ação
Em volta, apenas olhos, viaturas;
No ar, a curiosa exclamação:
“Coragem pra saltar daquela altura!”
Diziam, como se a motivação
Daquela agora morta “criatura”
Passasse por igual preocupação…
Quem visse em vida o homem — já extinto,
Vagando qual anônimo indigente —,
Incerto é que previsse aquele estado…
Ainda mais depois de ver sorrindo
A face no retrato adolescente
(Achado no seu bolso), acompanhado…
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Valsa dos desesperados
Em vermelho sangue | Com letras douradas e brilhantes. | O envelope revela | Meu nome. | Um fascinante convite. | Daquele por quem | Secretamente…
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Em vermelho sangue
Com letras douradas e brilhantes.
O envelope revela
Meu nome.
Um fascinante convite.
Daquele por quem
Secretamente cultuo
Sentimentos obscuros.
Na hora exata
Trajada e mascarada
Sou recebida
No grande evento
No vai e vem de passos precisos
A alma saboreia,
enquanto desliso
Por entre corpos rendidos.
Nessa valsa dos desesperados
Sou rainha no abate
Rompendo as cordas da vida
Veias essas, tão fininhas.
No ápice da Lua Cheia
À meia-noite nos juntamos.
Em um grande banquete, brindamos
Liquor-carmesim.
Mas quando a música se finda
E o último acorde se desfaz.
Às três da manhã, em fim.
Para meu leito, devo seguir.
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Fio Invisível
Caminhar sobre um fio invisível | Como se disso, | Dependesse minha vida | É o mesmo que engolir mil facas | E não querer sangrar…
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Caminhar sobre um fio invisível
Como se disso,
Dependesse minha vida
É o mesmo que engolir mil facas
E não querer sangrar.
Não me diga para ir deitar
O repouso não é privilégio por aqui
Quem descansa,
Padece.
Costurar feridas não é opção.
Os cortes são profundos demais
Para que uma simples linha
Possa-o estancar...
Não chore,
A carne já morreu
Não deixe que morram também as lembranças.
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Vivendo nas sombras
Vivendo nas sombras | Rastejando pela escuridão | Sinto pedaços de mim | Se desprenderem pelo caminho. | Sentimentos petrificados…
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Vivendo nas sombras
Rastejando pela escuridão
Sinto pedaços de mim
Se desprenderem pelo caminho.
Sentimentos petrificados
Alma atormentada
Se contorcendo em agonia,
Sufocada...
Não suporta a luz
A dor te envolve e encurrala,
Mas, com muita sorte,
Hoje encontra a morte.
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Sonata Sombria
Sonata sombria ressoa | nociva suas notas violentas — | seus ecos se espalham e vibram torcendo | arpejos funéreos que vêm e que vão…
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Sonata sombria ressoa
nociva suas notas violentas —
seus ecos se espalham e vibram torcendo
arpejos funéreos que vêm e que vão.
As teclas sangrentas tremulam
acordes sinistros, sonoros
tal grasno de corvo que voa à meia-noite
sedento por covas abertas no chão.
Não há quem duvide das Sombras:
é a Morte imparável tocando!
São ruídos horrendos, visões de amargura
que hão de ganhar vida, ó sonata-caixão!
Mas subitamente é mudada…
é um calmo compasso de valsa:
p’ra um lado
pro outro
os passos
atroam
nos crânios
dançantes
do negro
salão.
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Um rosto trágico II
De viés, sutil, no canto da avenida, | Entre os gritos e a pressa dos passantes, | Vê-se a figura triste, e num instante | Ela desaparece, na surdina…
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De viés, sutil, no canto da avenida,
Entre os gritos e a pressa dos passantes,
Vê-se a figura triste, e num instante
Ela desaparece, na surdina.
Corre junto à calçada, sempre avante;
Qual fuga de um ladrão, vai rua acima;
Detém-se então cansado; numa esquina
Tem agitado o peito, angustiante.
Resulta ali a dor de tantos dias,
A decisão que teve agora, enfim,
Depois de resistir por tantas vezes...
Não quis nem optar por outras vias:
Subiu no prédio… acaba tudo assim,
Com trinta e poucos anos e alguns meses.
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Um rosto trágico I
Melancolicamente, ele saiu... | Precisava comer alguma coisa… | Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça, | Por favor… meu estômago vazio...
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Melancolicamente, ele saiu...
Precisava comer alguma coisa…
Achou um bar, entrou... sussurrou: "moça,
Por favor… meu estômago vazio...
Faz dias que eu não como... nem me mexo...
É como se uma sombra me impedisse,
Como se um ser maligno em casa eu visse,
E me dissesse que comer não devo..."
A mulher o escutava com assombro,
E ao fim daquela inusitada história
Entregou a ele um pouco de comida;
Ao vê-lo sair, estranhou seus ombros...
A postura inclinada de suas costas
Era a de alguém pisado pela vida…
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Inextricável
Pisoteado por esqueletos | Corvos crocitando | Lápides quebrando | Uma festa em meu enterro…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Não existem vocábulos
Que descrevam aquele momento.
A insensatez do divino escorrendo,
Lamúrias e gritos soberbos
Do fidalgo e suas criaturas no ensejo.
O salão espalhafatoso
De lobos nervosos.
Correntes da nobreza
Candelabros e cabanas acesas.
Criaturas feridas no eixo do pupilo
Em compleição de sorrisos esbeltos.
As máscaras caindo lentamente
Os rostos nascentes das entidades.
Marcas de sangue nos lábios
E no baile uma tempestade
Corpos se quebram pela metade
E a música reverbera o desastre.
O badalar do relógio toca
No toque de recolher lá fora
Os membros voltam ao normal
E as lembranças evaporam.
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Mistério
Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…
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Vampira, bruxa ou só uma alma errante
que dança flutuando no salão?
A valsa corre num pulsar vibrante
e lá com ela vai meu coração.
Baila, conversa e ri... Eu, invisível,
ao seu encontro vou de peito aberto.
Louco – digo comigo – é impossível...
e, contra esta razão, chego mais perto.
Seu semblante não vejo... eu, entretanto,
com firmeza vos digo que ela é bela,
porque as janelas da alma dão o encanto:
o que a máscara oculta o olhar revela.
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Fantasiando Finado
Pisoteado por esqueletos | Corvos crocitando | Lápides quebrando | Uma festa em meu enterro…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Pisoteado por esqueletos
Corvos crocitando
Lápides quebrando
Uma festa em meu enterro.
Rostos sorrateiros
Na espreita de uma fortuna
A qual maliciada
Em minha longa vida dura.
Padeci em braços estranhos
Minha existência foi um engano
Consumido por doses diárias
Patológicas de um insano.
O solo precavido de ruínas
Que outrora despertadas
De um sono longínquo
Um temível pesadelo.
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Lete
Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Vê, meu amigo, a dor deste lugar...
Que figura se mostra ao teu olhar,
da qual podes dizer: esta conheço!?
Qual nome hoje se mostra à sepultura
gravado pelo choro da amargura
que goza da memória algum apreço?
Que buscas, meu poeta, além da morte?
Uma esperança vã que te conforte
quando for a tua alma recolhida?
Do nada vieste e hás de tornar ao nada.
Tua tumba será sempre gelada,
escura e, como as outras, esquecida.