Xadrez Alterado
Acordei um dia crendo não ser amado | Com um soluço guardado que não saiu de mim | Era um palpite dos amores mal empenhados | Que tão logo se foram…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Acordei um dia crendo não ser amado
Com um soluço guardado que não saiu de mim
Era um palpite dos amores mal empenhados
Que tão logo se foram sem ter outro jeito
E uma palpitação no peito que fica, enfim
Comecei a raspar com a lima meia-cana
No golpe do aço, torcendo a pua até que atravessa
O atrito que deforma e lasca a beirada
Esculpindo o xadrez peça a peça
Mas cada uma das peças foi alterada
Eu que inventei esse jogo deixei de criar
as regras, abdiquei de fazer as jogadas
Acordei aquele dia crendo não ser amado
Ah dia, tornaste em mim noite mais cedo
O sol, grande amor, não quer e não se mantém
No desamparo da noite, eu com a lua nos braços
Com a janela do quarto aberta e o medo
Que na manhã seguinte ela me deixe também.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A pressão rompe o silêncio na madrugada
Vibra o éter como música e ressoa
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada
Cadente, nos ouvidos desta pessoa
Aos poucos me vem memoráveis momentos
Que longe vai o meu pensar
Reavive voraz a figura e me revira o intento
Faltava a substância de alucinar
Aquela do verde frasco deixado na prateleira
Insiste, ainda que eu queira,
No convite para expirar os vapores novamente
Doces ilusões inspiradas na mente…
Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro,
Contra a janela fumaça e nevoeiro,
E o perfume se expande neste cômodo lugar
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro
E subitamente se espalhasse pelo ar
Descomedido, fui além do que posso aguentar
Oito taças me arrisquei ingerir
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar
Para no último gole então descobrir
Materializava um corpo bem onde eu estava
A forma feminina a dançar em minha fronte
Mais derretido e sombrio eu ficava
Como se um riacho desaguasse no aqueronte
Sufocado eu pedia uma fonte de água
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido
Restou apenas um misto de todos os sentimentos
De todos os vapores, emplastros e unguentos
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.
Era um ideal, enfim entendi
Algo que estava em mim, mas não em você
E deixei-me jogado naquela cadeira
Sem me preocupar se havia um porquê
Fiquei contemplando o corpo despido
Por baixo da transparência daquele vestido
Eu dançava com os olhos, da minha maneira
Será que é sólida para que eu a abrace firmemente?
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé
Tem forma, tem corpo e tem face
E todos eles pertencem a você.
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Desfalecem os sonhos | Que sucumbem à incompleteza | Em grandes ondas, | No profundo mar da inconstância | Naufraga impotente a nau da incerteza…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desfalecem os sonhos
Que sucumbem à incompleteza
Em grandes ondas,
No profundo mar da inconstância
Naufraga impotente a nau da incerteza
Agoniza o sonho de vil substância
Dissolve nas águas como um papel delicado
O frágil objeto de laços estreitos
Carregando fragmentos de sonhos desfeitos
Nas fluidas correntes do mar agitado
Leva o coração de um sonhador acordado
Até, por fim, encontrar no éter defeitos
Há um doido a nadar nestas águas
No licor de negrume do fosco luar
Se debatendo entre velhas resíduas
Golpeia a superfície escura do mar.
Luta valente com golpes fantásticos
E a lua aberta, mãe dos lunáticos,
Severa assiste seu filho afogar
Que salvem ele, ó navegantes!
Tirem ele deste mar de espinhos!
Mas se for para que volte a ser como antes
Deixemos então que se mate sozinho!