Névoa viva
Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios entre as copas das árvores centenárias, estremecendo levemente sua solidez. Tomado por uma fúria imensurável, cavalgo ferozmente pela trilha tortuosa à procura de algo ou alguém que sacie meu desejo de vingança. O percurso é longo e meu cavalo demonstra nitidamente sinais de fadiga. Invisto mais um pouco e noto sua fraqueza em minhas mãos, minha imortalidade não acompanha a vida breve dos animais. Com rapidez, puxo as rédeas e esfrego o pescoço longo de Augustin que relincha alto indicando o alívio por minha decisão. Retorno vagarosamente para o castelo, mas minha inquietude continua alimentando meu ódio. Ao longo daquela noite letárgica, sombria e dolorosa, minha mente borbulha deixando-me nostálgico e amargurado. Caminho pelo corredor levemente iluminado por velas e observo as fotos que parecem sorrir para mim em meio ao caos de sentimentos. Tento repousar a mente próximo à imensa janela enquanto observo a formação de uma névoa tênue que espreita os arredores do castelo. Minhas mãos apertam com força a madeira envelhecida que reverte às paredes daquele velho castelo e minha fúria torna-se palpável ao enxergar o motivo da minha ira. Espalmo minhas mãos no vidro deixando marcas no vitral escurecido, desço às escadas apressadamente e no caminho vou até o quarto, retirando do antigo guarda-roupa minha capa preta. Selo novamente meu cavalo e adentro nas profundezas daquela floresta inóspita. A névoa contínua e fria espalha-se por todos os lados, perseguindo-me. Desvio de troncos caídos ao chão, a floresta sangra e meu coração compartilha de tal sofrimento arrancando gota a gota o resto de minha insanidade brutal. Ao longe, o velho chalé continua intacto e sem sinais do tempo, convidando-me para um abraço mortal. Deixo Augustin próximo a uma árvore centenária e sigo em direção ao chalé, paro junto aos primeiros degraus e pela janela consigo enxergar um sinuoso movimento. Seguro a maçaneta fria e com cautela empurro a porta devagar, meus passos me direcionam a uma sala gélida e úmida, os móveis antigos cobertos por um fino lençol branco continuam trazendo as lembranças escondidas por baixo de seus tecidos empoeirados. Um barulho no quarto retira-me do transe das memórias indesejadas e sigo apressadamente para o cômodo. Parado à porta, meu coração dispara rapidamente com a silhueta formada próximo à cama.
— O que faz aqui?! — Pergunto, incrédulo. — Não está satisfeita com o que faz comigo? — Questiono, aproximando-me lentamente.
Sem respostas, toco levemente sua cintura e sinto minhas mãos congelarem, algo em nós não é mais como antes. Minhas lembranças me atormentam e por impulso viro rapidamente seu corpo de encontro ao meu. Ela me olha com ternura e paixão, enquanto tento desvendar os meus sentimentos. Aproximo minhas mãos em seu rosto e acaricio sua face pálida enquanto a proximidade nos conecta. Nossos corpos necessitados se entrelaçam com fúria e desejo. Noto que seu coração bate descompassado e sua respiração torna-se cada vez mais acelerada. Minha fúria dá lugar à saudade e, calmamente, beijo seus lábios rosados que devolvem vida aos meus dias. Lá fora, a névoa começa a dissipar-se e já é possível ver os pinheiros e toda a extensão do lugar. Olho novamente em seus olhos e a beijo com força deixando nossos corpos sucumbirem ao amor. Ela me empurra devagar e com um sorriso tímido se afasta. Sigo-a por todo o chalé e me espanto ao ver os móveis descobertos, o lugar agora parece mais limpo e arejado, a luminosidade sombria deu espaço a um ambiente acolhedor.
— Estou aqui!
Ouço sua voz próxima à entrada e sigo em sua direção. Procuro ao redor, mas minha visão cansada não enxerga mais sua presença, a névoa aos poucos dissipa-se e a floresta já não é mais tão sombria. Caminho até Augustin que me aguarda com impaciência, esfrego sua crina delicadamente acalmando-o com meu toque. Subo em seu corpo longilíneo e olho uma última vez para o chalé, ele ainda mantém sua luminosidade e ela ainda está lá. Aceno levemente com a cabeça e retorno para a minha tumba, meu lugar sagrado, minha sentença. Enquanto aguardo ansiosamente a vinda da névoa para que novamente possa encontrar com ela.
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O Ocaso da Existência de um Pecador em Preces à São Miguel
À Morte, sacrifico tais últimas palavras, derramando-as na lamúria dos lábios que já não mais murmuram velhos dizeres…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
À Morte, sacrifico tais últimas palavras, derramando-as na lamúria dos lábios que já não mais murmuram velhos dizeres. O que resta-me, à exceção da despedida em sílabas mudas, das sentenças silenciosas e dos discursos incapazes de alcançar mesmo aqueles que habitam a necrópole de espíritos? Último, só e derradeiro suspiro, mesmo tal penúria a Morte usurpa-me, entregando-me às sombras daqueles que já não mais vivem. Trêmula, irrequieta caligrafia que mancha-se pelas rubras lágrimas de minha finada vida, redija minha condenação à morada do mal, ao passo em que estes dedos trêmulos que bruxuleiam a linguagem dos vivos em escarlate tinta entregam-se ao ofício fatal. Eis-me já sepultado, o mero esqueleto do que já foi um homem. Eis-me neste recinto, um cadáver herético, ausente.
E, ainda que encontre-me morto, envenenado em meu gélido sangue, padeço ainda entre os vivos, entregando-me às trevas em um corpo corrupto; triste, soturna é a febre desta carcaça que sou eu. Qual é a natureza de minha angústia, se não a enfermidade latente do cessar de minha existência? Doce, intoxicada morte, por que constringe-me à miséria? Por que não entrega-me, finalmente, àquele que navega por entre o rio das almas, onde sua balsa viaja com destino ao último adeus? Por que, por meu próprio e terrível infortúnio, reduz-me ao vago, temoroso martírio? Ah, oculta Morte, conte-me, bendiga-me com a razão para tal tormenta, tal tempestuoso sofrer? Se nem mesmo as sacras escrituras podem conceder-me mais a benção da vida, anseio, enfim, pelo calar de meu âmago, por meu infausto fim! Não obstante, para este crápula pagão, resta somente a morte enquanto tortura, enquanto um vagaroso pesar que passar-se-á por tantas noites até que a última gota deste sangue maldito chova perante o abismo, o horrível averno.
Fúnebre, melancólico e pálido é o crepúsculo. É o cinzento anoitecer dos mortos a acolher este tirano em sua residência. O entardecer lúgubre respira fracamente, em murmúrios tétricos de um cancioneiro cinza, apartando-se em afresco tão esquálido; a este herege, o poente perante seu falecimento é letárgico. Branco é o véu que vela meu leito de morte e, no entanto, tão cadavérico é também o santo céu na ocasião de minha partida. Por entre o ermo castelo a colapsar junto àquele que porta sua hereditariedade, a névoa peregrina em tons lívidos; as cinzas nuvens de neblina cegam mesmo aos anjos quando em seu encontro com as cores negras do anoitecer que arrebata. Velhas, arcaicas pedras de uma fortaleza que antes abrigara a austeridade, neste presente acolhem ao desafortunado maldito que as possui. O breu da última noite alcança-me, ocultando todo e qualquer resquício de vida que quiçá, apenas por um milagre do santíssimo, ainda resiste através do balcão da torre de minha fortificação. Por todo o forte, há apenas a ruína; a maldição do fim perece em meu castelo. O vento respira em lentos sopros contra minha face rasgada pela terrível expressão da desgraça. Solitário, amparando-me no arco gótico da sacada por onde o horizonte sinistro atravessa, contemplo, em penosos ares, o desfecho adverso que os céus atribuíram-me como penúria.
De que um errante é digno? Cousa alguma, senão este epílogo teatral agourento que sufoca-me. O que, além de uma tragédia que banha tudo com miséria? É na obscuridade, em meio ao absoluto blecaute, que minha figura remanesce, com vivências não mais. Vilão, tirânico soberbo, sou eu, que não mais hei de viver em plena ambição e poder, pois tais doces sentidos, com toda sua malícia, suscitam todas as angústias de meu drama. Por minha ganância mundana, corrompi-me e, por minhas barbáries, a divina providência há intervindo, para que este diabo desprezível pudesse purgar-se por suas atrocidades. Minha tragédia é apenas uma devida penitência ao homem cristão.
Os adversos fatos que conduziram-me até este terrível presente constroem-se como uma narrativa. Por séculos, aqueles de meu sangue dedicaram-se às conquistas. Por uma década, os sucessos foram-me incontáveis; ainda que proveniente de terras distantes, além de onde nossas águas marítimas alcançam, por todo o Reino das Astúrias, meu nome fez-se ouvido e reconhecido. Entretanto, toda a vitória apresenta-se a um custo; a infelicidade daquele que é arruinado em batalha. Mesmo o mais devoto cavaleiro da Santíssima Maria, iluminado e protegido por suas bênçãos, não está hábil a conduzir uma vida composta de triunfos. E, ante à minha iminente derrota, apenas reduzi-me à aceitação, acomodando-me com a certeza do fim. De fato, as más notícias cruzam as montanhas e costas com impressionante velocidade; o assalto ao castelo foi-me inevitável e, débil e com um exército reduzido a um mínimo número, assisti à minha queda perante um inimigo imortal; o orgulho que assassina impiedosamente os homens presos à vaidade. Terríveis, deploráveis noites de sangue e batalha, uma guerra perdida em meu próprio domínio. Todavia, mortal algum poderia ferir-me tão impetuosamente quanto a própria noção de minha desgraça que prevaleceu na mente e, disposto a não ceder à soberba, concedi-me, com maestral arrogância, a vanglória de ser vitimado por ser algum, se não minhas próprias mãos. Ignorante diante da morte, a misericórdia dilacerou-me as vísceras, entregando-me a um destino fatal; o punhal que atravessou incontáveis oponentes, por fim, destruiu seu possessor.
Àqueles que cometem incessantemente o mal, a Providência reserva-lhes o castigo da recíproca, e quiçá eu, conforme a profunda tenebra asfixia todo vestígio de vago brilho embranquecido, encontre-me com minha última penitência…
Mas, com o desfalecer deste coração emudecido, o congelar deste sangue maldito, e o enrijecer destes ossos feridos, o negro vazio do purgatório não faz-se sentido e, perante o estranhamento de minhas emoções, uma cândida estrela manifesta-se diante de minhas pálpebras cerradas. Cálida, plácida, é a brisa em que o tempo desfaz-se, conforme este reduzido sol em forma de luz arma-se em um fulgor cada vez mais claro. O vento desvela-se sinistramente afetuoso, ainda que em tão tardio horário e, mesmo em minha pele fria, um pouco de vida ainda poderia ser sentida diante de tal calor. Não obstante, mesmo as brasas do mármore infernal não impediriam o suscitar destes longos arrepios que cruzam toda a extensão de meu corpo imóvel. Por que mesmo a respiração já findada ainda ofega em ânsia? Por que tal tremor perante o desconhecido, quando já não há mais vida alguma? E, em semelhança às grotescas faíscas que cortam o céu de veraneio durante as tormentas chuvosas, o relampaguear cintilante da excêntrica claridade arrebata-me. A umbrosa escuridão converte-se em alvo esplendor, e as trevas já não mais abito.
Harmoniosa, serena e ainda assim misteriosa, é a sombra que dança com seu caminhar entre os corredores da fortaleza em ruínas. Em calmaria, silenciosos passos, como cisnes que banham-se nas águas dos lagos, mal fazem-se ouvidos. Com um pincelar sutil de um afresco desbotado, a nébula do amanhecer desvela-me a verdade, revelando-me em fascínio. Diante de meu cadáver, a excêntrica aparição emudece-me. Onde encontram-se todas as palavras deste bom idioma? Mesmo que as possuísse com o dom de um poeta, ainda estaria inapto a responder a tal dilema, pois o cancioneiro de nenhum trovador confidenciaria com precisão sequer uma parte da estranha magnificência do espectro. Suave é a composição de seus traços, puros são os brancos tecidos de sua túnica, abençoada é a sua presença; na figura de rapaz, é um jovem Narciso grego enviado como mensageiro do Olimpo. Imaculado fantasma, angelical assombração de meus sonhos… é a visita divina da qual esta alma condenável não é merecedora.
ANJO. E, por fim, a morte a ti abraça, nobre cavaleiro. Neste reino de mortais, viveste como um monarca — embalsamado em infinitas alegrias terrenas efêmeras, acorrentado na prisão da luxúria material, desconhecedor perante inclinações que não fossem benéficas para ti e suas posses — expandindo seu poderio como o solene propósito de sua existência. Por quantos dias e noites abdicaste de sua humanidade para que a glória fosse-lhe companheira? Por teu contentamento mundano, tantos morreram, muitos destes em tuas próprias mãos degradadas pelo sangue daqueles que já partiram. Mas, da tua vida já não mais pode desfrutar; estás morto, como aqueles que antecederam-te. Qual foi o valor da tua ambição, senão a tua existência? E, com que intuito lutaste tanto? Se de teus lábios, jamais viram orações desabrocharem, se tuas mãos nunca uniram-se em preces para o bem, se tua riqueza nunca fez-se uma oferenda? Agora, que tudo já não mais importa-te, o que levas tu para o além vida, meu caro lorde? É ofício de teu coração reconhecer a miséria a qual está reduzido. É papel da tua alma, com o sentimento da verdade, redimir-se. Quando o amanhã nascer, tua boa-fé poderá libertar-te.
E, a branca aurora acalma-se, devolvendo-nos o vazio da escuridão. O coração em partida já não mais palpita; restam-nos apenas as memórias de um corpo extinto. A pálida emoção etérea regressa ao seu lar por entre o Olimpo. Solitária, remanesce a alma de tons negros que, tão quieta a refletir, enterra-se em sua sepultura por todo o sempre.
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Sangue Materno
Talvez Jesus estive certo quando disse que a verdade liberta. Mas depende muito de que verdade seja esta, pois Nietzsche dizia que a verdade era subjetiva…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” — João 8,32
Talvez Jesus esteve certo quando disse que a verdade liberta. Mas depende muito de que verdade seja esta, pois Nietzsche dizia que a verdade era subjetiva. Napoleão foi um pouco mais além ao dizer que a verdade é apenas uma mentira contada várias vezes. Aquilo que diz respeito sobre a verdade da minha vida, se outra pessoa me contasse, eu duvidaria na hora. Para ser bem sincero, em muitas ocasiões me pergunto se realmente tudo que presenciei com meus próprios olhos realmente aconteceu. No entanto, sempre que me olho no espelho, aquilo que vejo, ou melhor, o que não vejo, acaba por me convencer que a verdade sobre minha vida não conseguiu me libertar, – muito pelo contrário – pois hoje sou mais prisioneiro do que qualquer criminoso um dia possa ter sido. Passo os dias fugindo e as noites me escondendo...
Até onde me lembro de minha infância, eu sempre fui um garoto muito introspectivo e insociável ao extremo. Talvez pela minha estranha aparência. Não que eu fosse um monstro, –não naquela época – mas, eu era bastante diferente. Olhos azuis acinzentados, cabelos alaranjados da cor das mais ardentes labaredas, orelhas pontudas e uma pele branca como neve, com algumas sardas no rosto. No entanto, o que mais assustava as outras crianças da minha idade – e em certas ocasiões até mesmo os adultos – era minha inteligência aguçada. Além, é claro, do fato de que de forma alguma eu poderia receber qualquer pessoa que fosse em nossa casa.
Minha mãe havia proibido expressamente qualquer tipo de visitas. Até onde eu sabia sobre sua vida, dizia ela que era garçonete, numa boate que ficava há alguns quilômetros de nossa cidade. Trabalhava quase a noite toda e dormia durante o dia, – ou pelo menos ficava trancada em seu quarto. Não tenho nenhuma lembrança de ter visto minha mãe em nenhuma ocasião durante o dia. Ela sempre saía depois do pôr do sol e retornava para casa antes do amanhecer.
Sempre que tinha algum tipo de evento na escola durante o dia, ela jamais comparecia, mas se fosse a noite estava presente quase sempre. Seu quarto era um território proibido, se mantendo trancado todo o tempo. Se fosse durante o dia, ela estaria repousando e incomodá-la estava fora de conjecturas; à noite, quando ela saía, ela o deixava trancado. Como uma criança, eu sempre tivera uma enorme curiosidade em saber o que havia naquela alcova, mas jamais ousara desafiar uma norma estabelecida por minha mãe.
De certa forma, minha mãe era bastante ausente em minha vida, mas se preocupava muito com meu bem-estar. Nossa geladeira se mantinha sempre cheia e nunca tive que reclamar sobre um tênis rasgado ou uma roupa que tivesse velha demais. Em questão de bens materiais, nunca me faltara nada. E quando, certa vez, fui motivo de piada para meus colegas que caçoaram de mim dizendo que além do fato de meu pai ter me abandonado, minha mãe também não se importava comigo, ela se fez presente da melhor maneira possível. Esse fato se deu numa festa de noite de Halloween. Era um baile de máscaras promovido pela escola. A maioria dos pais e das mães de meus colegas estavam presentes. Para surpresa de todos, por volta das dez horas da noite, minha apareceu na festa causando certo alvoroço. Pois, estava ela realmente esplendorosa.
Eu mesmo, que era seu próprio filho, quase não a reconheci vestida daquele jeito. Todas as lembranças que eu tinha de minha mãe até então, era de uma mulher chegando do trabalho, cansada ao extremo, e ávida por se recolher aos seus aposentos para um longo repouso, ou então, ela saindo apressada com seu uniforme de garçonete, sempre de cabelos presos e nenhuma maquiagem, exceto um simples e pálido batom nos lábios. Naquela noite pude vislumbrar a verdadeira face de minha mãe e como sua beleza era inebriante.
Era ela uma mulher alta, de corpo bem-feito, com belos seios rijos e um quadril largo. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom, de um vermelho vivo e brilhante. Quando falava, além de expelir um refrescante hálito de menta, deixava à mostra dentes perfeitos e brancos como o mais alvo marfim. Seu sorriso discreto, mesmo sendo um tanto quanto enigmático, era atraente e sedutor. Para completar o conjunto daquela magnífica obra da natureza, tinha ela uma vasta cabeleira de uma cor negra e brilhante, como uma noite sem luar. Os cachos de seus cabelos estavam revoltos como as ondas de um mar bravio. Ao contemplar todos os ínfimos detalhes daquela magnífica beldade, parada ali no meio do salão, quase todos os presentes ficaram basbaques e sem palavras, como se um terrível feitiço tivesse paralisado a todos aqueles que a contemplavam.
Por onde ela passava ficara a marca de um inebriante perfume, era um doce e marcante odor de rosas que lembrava uma fresca manhã de primavera. Enquanto ela suavemente caminhava até onde eu estava, quase todos que a viam ficavam meio que hipnotizados, acompanhando seus movimentos que mais pareciam precisos passos de uma dança ritualística, como se pairasse sobre o chão sem ao menos tocá-lo. De acordo que, ao se virar de um lado para o outro, o tecido de seu vestido bailava no ar como se fosse uma pluma, solta ao vento. Era um comprido vestido negro de belo talhe e de corte fino, feito sobre medida, que lhe associava perfeitamente ao seu corpo, como se fosse, na verdade, uma segunda pele que cobria seu belo corpo de curvas perfeitas.
Meus colegas ficaram estupefatos quando ela me tirou para dançar e começou a bailar comigo pelo salão. Até aquele dia, – ou melhor aquela noite – eu sempre fora motivo de chacota entre meus colegas e acho que até de alguns professores, mas depois daquela apresentação apoteótica de minha mãe naquele meio social, minha vida mudaria de forma bastante substancial. Meus colegas quiseram se tornar meus amigos e meus professores começaram a me tratar de forma bastante diferente. Alguns até mesmo me recomendando lembranças a minha mãe. Aquela noite foi a primeira e última vez que eu e minha mãe fomos vistos em público juntos...
Alguns anos se passaram e logo me tornei um homem adulto. Após ter terminado meus anos de escola, pouco antes de matricular na faculdade onde eu pretendia cursar belas artes, decidi fazer uma visita surpresa no trabalho de minha mãe, naquela noite que eu imaginava ser seu aniversário. Como eu já era maior de idade, não haveria problemas em frequentar um ambiente para adultos. Imaginei, em minha reles inocência, que minha mãe poderia gostar da surpresa. No entanto, no final, o surpreendido foi eu mesmo.
Certamente aquele não era o melhor lugar do mundo. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentarem se esconder de seus próprios problemas.
Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá, jamais, esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se seja verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.
Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido a chuva fina que caía constante, dentro do bar estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Parece que os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite como outra qualquer. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis como se fosse um fúnebre fundo musical.
Toda aquela paz fora interrompida pela minha chegada, pois assim que atravessei os umbrais daquele ambiente logo me encaminhei para o balcão e logo me dirigi à bela garçonete que naquele momento estava de costas para a porta e não me viu quando entrei.
– Boa noite, minha amada Rainha! – Disse entregando-lhe um buque de rosas vermelhas e uma caixa de bombons finos que eu comprara com meu próprio dinheiro.
Minha mãe ficou bastante lisonjeada com o presente, mas ao mesmo tempo um tanto incomodada com minha presença ali naquele ambiente. Ela jamais imaginara que algum dia eu pudesse estar ali. Sem me perguntar o que eu queria beber, abriu uma garrafa de refresco e o colocou na minha frente me servindo um copo em seguida. Naquele momento me senti um tanto quanto ofendido, pois aquele ambiente era uma boate, com belas garotas e gente adulta, fumando e bebendo. Eu era o único tomando um simples refrigerante. No entanto, eu jamais ousara questionar minha mãe em qualquer coisa que fosse, e não seria naquela noite – supostamente sendo o seu aniversário – que eu o faria. Tomei aquele refresco e já estava me encaminhando para a saída quando o pior aconteceu.
A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão que quase derrubou a garrafa do refresco que minha mãe me servira, pensei comigo que aquilo não terminaria bem. Quando minha mãe, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela em seguida de forma bastante desrespeitosa:
– Belezoca quero uma bebida e uma beijoca.
– Boa noite senhor. Qual bebida poderei lhe servir? – Disse ela muito educadamente.
– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.
– Peço perdão senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo se me disser o seu nome terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? – Disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.
– Quando eu lhe disser o meu nome terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. – Respondeu ele.
Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por um passe de mágica, vi minha mãe saltar pelo balcão e dar a volta por trás daquele indecoroso cliente e em questão de segundos tomar-lhe a arama de sua mão. Um silêncio se fez por completo naquele instante como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.
Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, tentou se desvencilhar de minha mãe, mas a força com que ela o manietava parecia ser de dez homens. O próprio valentão não acreditava no que estava lhe acontecendo, pois por mais que insistisse em se desvencilhar do abraço de minha mãe, soltar-se dos braços dela parecia algo impossível. Naquele momento, tive a estranha impressão de ter visto várias pessoas se aproximando de todos os lados. No entanto, o semblante daquelas pessoas havia mudado bastante. Seus olhos estavam vermelhos como duas chamas incandescentes e suas bocas estavam com uma aparência terrivelmente famintas com enormes dentes despontados por todos os lados, como se fossem feras selvagens.
Como em toda minha vida jamais havia presenciado uma cena como aquela, fiquei atônito e sem reação, mas de alguma forma consegui forças para sair correndo quando vi minha mãe se transformando numa besta horrível e se lançado sobre o pescoço daquele infeliz. Rapidamente muitas coisas sobre minha mãe se tornaram claras para mim...
Descobri da pior maneira possível quem – ou que – minha mãe realmente era...