Epitáfio de um infeliz
Fecho os olhos… e esqueço do que vi; | Esqueço a dor, a angústia dessa vida, | Esqueço da alegria não vivida, | Dos desejos daquilo que eu não fiz….
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Fecho os olhos… e esqueço do que vi;
Esqueço a dor, a angústia dessa vida,
Esqueço da alegria não vivida,
Dos desejos daquilo que eu não fiz.
Tenho agora tudo o que eu sempre quis:
Sinto toda a Vontade enrijecida,
A Esperança não é mais bem-vinda,
Nunca me senti antes mais feliz.
Tenho agora o descanso merecido,
Depois de esperar tanto a tal da Sorte,
O Destino, o Futuro Prometido…
A vida me mostrou ainda jovem
Que nada nesse mundo é garantido
Além da terra, quando chega a morte.
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Caça
Acreditar demais no sonho tido, | Depositando nele as esperanças: | O mesmo que um disparo só de tiro | Na mira, co'arsenal de nossa herança...
Foto de Alex Perez
Acreditar demais no sonho tido,
Depositando nele as esperanças:
O mesmo que um disparo só de tiro
Na mira, co'arsenal de nossa herança...
Pensando em atingir um alvo crido
Estar à nossa espera — quando a lança
Que nós julgamos ter obedecido
Às próprias ordens quebra e nada alcança…
A meta, perseguida e alcançada,
Contato visual tendo com ela…
Talvez, nem sendo aquela imaginada;
Mostrando ser, no fim, uma quimera…
Um leque d'infinitas ilusões,
Rateio de quem fica, de quem passa…
Vontades e caminhos, opções:
A vida, em seu percurso, é uma caça.
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Realidade
Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Não é que prestes a entrar naquela fumaça cor-de-violeta, onde eu estava a me considerar a um pé de algum mundo fantástico — ainda mais do que este, eu supunha — e quase mergulhando num maior desconhecido, dei de cara com a própria realidade? Pois é…
Não que eu esperasse me deparar com algum tipo de entrada numa dimensão alternativa, um portal para além da zona de exclusão que é este tempo-espaço, com o qual já estou vividamente acostumado, preso; como eu já havia me dado conta, o próprio ambiente do Castelo e seus membros, com os quais eu também travara contato (ainda que tímido), já eram mais do que prova de que eu adentrara num território supranatural — ou talvez fosse melhor dizer num “maravilhoso breu” …
(Começo a pensar que alguma força me impele a construir neologismos, a me dar indicativos de que somente assim poderei transmitir o que sinto e vejo neste lugar…)
Voltando ao que escrevia… Tal fumaça, de aparência mágica, um tanto quanto esotérica, logo após eu ter pisado naquele curioso recinto, dissolveu-se por completo, o que logo em seguida fez-me sentir calma e súbita certeza de que nada me faria mal — outra razão ao que eu já tinha assimilado: as ameaças aqui são inexistentes, existindo mais nos pensamentos que tendemos a elaborar do que nas capacidades reais de um pretenso mal… Sim, não me sinto intimidado por nada, não até agora.
Se posso deixar registrado o que senti após ver aquela fumaça desvanecer-se, fugir pelo corredor e tornar ao caminho misterioso no qual surgira, devo dizer que foi algo no mínimo reconfortante, uma sensação de que, por mais estranhas e imprevisíveis sejam as impressões tidas nesse lugar, tudo está repleto de sentido, devendo eu apenas me concentrar e interpretar os fatos presenciados para algum próprio desígnio…
O que intriga, de fato, é este inegável cheiro de sangue… ferroso odor, rascante, pairando sobre o ar do Castelo nos instantes em que me desloco pelos seus cômodos…
Não que eu já tenha visto em alguma de suas torres a figura espectral desse que dá nome ao lugar, sabidamente apreciador do plasma alheio… mas… as pessoas daqui: são elas que, talvez, devam me fornecer respostas ao melhor observá-las — não podendo ainda me certificar de suas verdadeiras naturezas e reais intenções… O acesso à escrita delas (algo que todos nós, estabelecidos aqui, partilhamos constantemente) é que me guiará, creio, a uma categórica afirmação sobre…
P.S. Alguém está batendo na porta… curiosamente, fazendo com que eu termine mais um aventuroso relato para ir de encontro a mais um… (as coisas aqui parecem realmente funcionar de maneira sistemática). Espero retornar e registrar do que se trata.