O Céu das Alfazemas
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Efervesce a penúltima instância dessa madrugada que precede a miséria. A cova estreita, madeira de bétula, os vermes e comichões... É o meu dia que chega! E felicito-me por recebê-lo assim, com uma despreocupação tão geniosa e sagaz. Que tenho a perder agora, homem? Diga!... nem mesmo o inferno tem algo para mim. Nada mais temo ou anseio. Mas a recusa, sim! A recusa me servirá como redenção. Vou-me ao pé dos quadros de Diana, nunca na cela fria deles.
Por que nos fizeram tão frágeis, minha amada criatura?... Onde puseram as lamparinas que conosco deviam seguir, impregnando de luminosa bondade esses campos fadados à escuridão? Podes ouvir quando sopro, nas pedras, teu nome?
Ao pecado do amor – demasiado, maldito e incorrigível–, a sentença: nunca mais amar, nunca mais o cheiro dos campos e a vida das montanhas, nunca mais... A morte! A morte aos que cometem heresia. Eu e tu, no breu prateado dessa infinidade. Eternos, como é eterna a dor e a tragédia nessa terra de gente vil. Escute!...Um coral de passarinhos sobrevoa! Zombam dessa bruxa velha, que há de morrer sem aprender a voar. Cai dum vasilhame ambarado o primeiro sinal dos olhos do sol. Pairam estrelas nesse horrendo céu de alfazemas, guerreando por espaço com a turvidão das nuvens, carregadas de toda, toda, toda a tristeza da vida.
Perseguida pela praga daquele dezembro, revejo-te incansavelmente, a cada hora, indo de encontro ao chão. Por três segundos olhou-me, por três segundos aspirou um sorriso, por três segundos amou-me com a feição... era a vida deixando a ti, como a alma de uma festa, abandonando a todos os convidados – famintos, mortos de sede–...
Por que, meu bem, por que tivera de condenar a mim e a ti? Ouso dizer que convenceria a Morte. Se ao menos houvesse tentado... Agora vou eu, fadada a seguir-te submundo adentro. Como poderia não ir? Acorrentaram-me em teu punho, e eu mesma vivo a lustrar as correntes.
Como cheiram os jasmins... quão intoxicante é a vida aqui, crisálida e perto do fim. E na moldura de carvalho que me permite observar a vida lá fora, ainda repousa a lua, lançando-me um fraco sorriso. Como se até mesmo ela sentisse alguma piedade de mim. Bela é a porcelana que carrega a camélia, adoçada em leite e gotejada por alma de beladona. Colhidas do abandonado jardim de um enforcado. É o fim, meu bem... é o fim! É o fim da desonestidade, e se pretendem nos prender, que encontrem corpos. Corpos a enterrar.
E não diga, nunca – e em parte alguma desse vale – que és um homem só. És metade formosa e sempre bem acompanhada. Lembra-te do pacto de perseguir, juntos, a chama da vida, e rasteje impiedosamente. Não pare, nem por um segundo. Não pare até me encontrar.
O vento sussurra promessas de primavera, com perfume de orvalho do passado. O céu de alfazema reina, onipotente contra a falta de sangue e coração daquele povo, tão firmado na descomunhão com tudo que é de visceral e estranha natureza. Em marcha lenta, cruzarei a ponte dos mundos, conformada de que nunca havia de entregar-me ao julgamento daqueles que se opõem ao fluxo que tem o corpo e o pensamento. Aos que andam assassinando as bruxas e poetas, julgando com fogo a cada delito, o mais sincero escárnio. Já é hora de partir, deixando para trás a indecência da repressão, indo à vida que emerge da morte, para nunca mais sofrer. Para nunca mais voltar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Sepulte-me, Ana
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?! Não há morte, não há honra, não há sono...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Prometeram,
Prometeram-me que não haveria enredo depois do fim! Quem eles pensam que são?... Como ousam mentir?!
Não há morte, não há honra, não há sono...
Continuidade, Ana! A horrenda continuidade que me assola. Sopro as velas e corro da memória daquela lareira, onde aquecíamos a ponta dos pés, entornando canecas fumegantes de chocolate, lendo a tudo que não se pode ler numa idade como tal. O tempo passou... E malditos sejam eles, com seus terços e cânticos de funeral. Choram bem menos que o morto, quando acorda – brusco, desarmado – n’outro corpo e n’outro lugar.
Bate o peito, Ana...
Há tanto não devia bater! Há tanto ouviste parar... Se ao menos me dissessem porquê! Se ao menos me contassem quem sou...
Onde anda minha alma? Ora, eles cantam. Jane Doe, Jane Doe! O turvo vale roubou meu nome, e nem mesmo o posso praguejar sem que me pragueje de volta.
É o inferno, Ana, é o inferno e o céu, disputando lugar. É a brisa que incendeia os bares mundo adentro, e, ainda assim, não cessam os bêbados de pedirem conhaque. Furioso é o vento... nunca tivera piedade de mim. Vento feiticeiro que me traz o perfume d’outrora. Dos invernos em despercebida completude... Da vida que ascendia horripilantemente, tão bela. Dos pinheiros em oração e das infindáveis conversas sobre o mar.
A vela que aqui queima existe pelo mesmo princípio que ali acendíamos a lamparina. – Nasce do mesmo fogo que assava os leitões. – A chama imparável que reina, grandiosa, sobre o tempo e sobre os homens.
Prometeram-me um fim, e agora o reclamo. E não somente a ele, mas à vida, em impaciente e revoltosa espera. Que me tragam a primavera que não vi! Que tragam aquele amor, sepultado com mácula, roubado com tanta desonra. Clamo por encontrar a água viva na próxima parada.
Quanto me resta até que, ao fechar os olhos, não venham mais as cores de um outro campo? Quantas estações até que se faça o digno e ansiado Ponto final? Não remende o vestido, doce Ana... sempre serei a menina molambenta que apreciavam escarnar. Flores bastam. Sempre hão de bastar.
Diga que vivi com a injúria e a raiva de Artemisia. Que praguejei contra as abelhas e contra a rainha, encontrando a graça no outono e zombando de minha própria estupidez. Que vivi para morrer, e, ainda assim, não encontrei morte alguma para descansar.
Somos ametista bruta emergindo do solo, amiga minha. Um pedregulho no sapato de todo falso pregador. Somos nós a dúvida e a insanidade. Companheiras deste (e)terno velejar.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “Contos”:
Violenta II
O tempo de colheita já passara; | Passara o triste inverno e suas chuvas… | Somente o que não finda, o que não sara | Jamais: uma lembrança que machuca…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
O tempo de colheita já passara;
Passara o triste inverno e suas chuvas…
Somente o que não finda, o que não sara
Jamais: uma lembrança que machuca.
Num sempiterno voo, fazendo sala;
Insone predador, de garra adunca —
A cada vez que penso rechaçá-la,
Voltando ao fim mais forte do que nunca…
Presente em meio às provações do dia,
Também nas madrugadas, quando, em claro,
Batalho sempre em vão por meu descanso,
Pensando longamente na desdita
De ser por esta sombra o responsável:
Revés que originei e nem mesmo alcanço…