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Drácula, Morcegos, Vampiros e Tudo Mais

A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os…

The Vampire (1897) by Philip Burne-Jones

A história dos vampiros remonta a tempos muito antigos, tão antigos que é difícil determinar sua origem precisa. No entanto, sua associação com os morcegos só foi estabelecida entre 1756 e 1763, quando o naturalista francês Conde de Buffon fez a ligação entre o morcego hematófago da América do Sul e o mito do vampiro em seu livro "Histoire naturelle, générale et particuliére (1749-1767)". Antes disso, havia apenas alguns relatos, no século XVI, de exploradores europeus que observaram morcegos se alimentando de sangue na América do Sul.

Em 1839, durante sua expedição a bordo do HMS Beagle, Charles Darwin fez uma observação crucial ao descrever a primeira observação direta de um morcego vampiro verdadeiro, o Desmodus rotundus, se alimentando de sangue. Este evento foi fundamental para inspirar a representação dos vampiros com características e comportamentos parecidos aos dos morcegos na literatura, como visto em uma ilustração de “Varney, o Vampiro” de James Malcolm Rymer (1845). As características que morcegos e vampiros têm em comum são incisivos afiados (apenas no caso de Nosferatu, os demais vampiros costumam ter os caninos afiados), se alimentam do sangue de outros mamíferos, possuem haréns, gostam de locais escuros e ambos também são mamíferos. 

Apenas em 1897 que a ligação entre morcegos e vampiro ficou popular com a publicação do livro “Drácula”, onde Bram Stoker juntou o folclore da Transilvânia, com morcegos-vampiros e Vlad, o Empalador. Quando Stoker escreveu Drácula em 1890, alguns dizem que ele encontrou uma notícia em um jornal de Nova York que falava sobre os morcegos-vampiros, o que pode o ter inspirado, com isso a relação morcego e vampiro se consolidou mais ainda, porém ele preferiu ignorar o fato que o morcego-vampiro é uma espécie bem pequena com 9 cm de comprimento, pois toda vez que ele cita o morcego no livro ele o descreve como “um grande morcego”.

Pintura a óleo de Vlad Țepeș no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560

Existe teoria de que Bram Stoker se inspirou na história de Vlad, o Empalador para escrever o livro de Drácula, mas não há comprovações para isso, aparentemente ele apenas viu o nome Drácula em um livro numa biblioteca e usou o nome por significar “diabo” em romeno para alguns mais supersticiosos e inimigos de Vlad. O nome “Draculea” tem como significado o filho do dragão. Porém, há quem diga que ele compôs a aparência de Drácula numa mistura de Henry Irving, ator e amigo de Bram, isso foi confirmado pelo próprio Bram e o poeta Walt Whitman, a quem ele admirava muito, há outras teorias de que Drácula pode ter se inspirado em Oscar Wilde, ao qual supostamente cortejava Florence Balcombe, que depois veio a casar-se com Bram. Talvez ele tivesse uma homoafetividade reprimida, e usou a personalidade de Oscar Wilde, que era na época considerado perigoso, porém fascinante, para compor Dracula. Tudo isso torna o livro de Bram Stoker ainda mais interessante.

Desmodus rotundus | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes

Bram Stoker se inspirou bastante no folclore romeno para criar sua narrativa, inspirado por conversas que teve com o aventureiro Arminus Vambery e o  explorador Henry Morton Stanley conhecidos seus do Beefsteak Club, que Henry Irving também fazia parte, principalmente Vambery que conhecia profundamente a cultura, o folclore e as paisagens da Transilvânia, assim o príncipe Vlad III Dracul da Valáquia ou Vlad, o Empalador se tornou também o conde Drácula, o nome Empalador veio por conta do hábito de Vlad III Dracul executar suas vítimas, ele recorria ao empalamento para assustar o exército Turco que na época queria conquistar a Valáquia, diziam que ele gostava de olhar as vítimas empaladas enquanto se banqueteava, ainda havia quem acreditava que ele bebia o sangue dessas vítimas. Para alguns ele era um sádico, mas para o povo da Valáquia um herói que manteve os Turcos longe por algum tempo, por conta de tantos mitos e histórias relacionadas a ele, como a crença de que bebia sangue, de que era imortal e segundo algumas análises químicas feitas em cartas de sua autoria, ele poderia ter hemolacria, uma doença rara que faz a pessoa chorar sangue, o que dava a ele uma essência mais mítica. A figura histórica e a fictícia de Drácula acabaram por se tornar uma só. 

Diphylla ecaudata | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes

Diaemus youngii | Link | Autor: © Roberto Leonan Morim Novaes

No livro o conde Drácula além de beber sangue e ser imortal se transforma em morcego e sai à noite para ingerir sangue. Existem cerca de 1400 espécies de morcegos no mundo, no Brasil existem cerca de 180 espécies e de todas essas apenas três são hematófagas, ou seja, se alimentam de sangue. Essas únicas três espécies de morcegos-vampiros só existem na América do Sul e na América Central, são elas: O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), espécie que se alimenta de mamíferos. O morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngii), que tem preferência por aves. E o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata), que também tem preferência por aves. Os morcegos da Europa são insetívoros, eles se alimentam de insetos, então se o Conde Drácula saía à noite para se alimentar, era somente de insetos, mas o nome “Comedor de insetos” não traria tanto terror às suas vítimas quanto o nome “O bebedor de sangue”. Dessas espécies hematofagas também temos o extinto morcego-vampiro-gigante (Desmodus draculae) que provavelmente se alimentava de preguiças-gigantes e mamíferos gigantes. Seu nome é uma homenagem ao Conde Drácula. Mesmo que envoltos em mitos, os morcegos são criaturas de grande importância na nossa ecologia, não importando como a mídia os tenha mostrado, não são criaturas más, apenas pouco compreendidas, dessa forma é muito importante a preservação dessas criaturas da noite que, são tão diversas, que não se resume apenas a consumir sangue.

Referências: 

DARKSIDE. SERIA DRÁCULA INSPIRADO EM OSCAR WILDE?: Relação entre o autor e Bram Stoker ia além do triângulo amoroso com Florence Balcombe. [S. l.]: Darkside, 18 fev. 2022. Disponível em: https://darkside.blog.br/seria-dracula-inspirado-em-oscar-wilde/. Acesso em: 12 mar. 2024.

PITTALÀ, Maria G. G. et al. Count Dracula Resurrected: Proteomic Analysis of Vlad III the Impaler’s Documents by EVA Technology and Mass Spectrometry. [S. l.]: ACS Publications, 8 ago. 2023. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.analchem.3c01461. Acesso em: 15 mar. 2024.

PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. História da Magia: O Mito de Drácula. Rio de Janeiro. 23 fev. 2023. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em  https://www.instagram.com/p/CpBbKhTpCRy/. Acesso em: 11 mar. 2024

PROJETO MORCEGOS NA PRAÇA. Quem veio primeiro, o morcego ou o vampiro?. Rio de Janeiro. 29 nov. 2021. Instagram: @projetomorcegosnapraca. Disponível em  https://www.instagram.com/p/CW4HCfWpMsy/?img_index=1. Acesso em: 11 mar. 2024

NESTAREZ, OSCAR. De volta à estaca zero - uma jornada pela criação de ‘Drácula”. Barueri: Novo Século, 2021 (Suplemento literário).

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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O Eterno Mestre do Terror: Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Edgar Allan Poe é o Mestre da narrativa macabra e do mistério, deixou um legado literário profundamente influente que ecoa através dos séculos e há de ecoar, perpétuo, como um grito num abismo sem fim. Nascido em 1809, Poe viveu uma vida marcada por tragédias e dificuldades, isso moldou sua visão sombria do mundo e tornou sua escrita incomparável.

Poe começou sua carreira literária como crítico, destacando-se por suas análises afiadas e incisivas. No entanto, foi como escritor de contos e poemas que ele alcançou fama duradoura. Suas histórias, permeadas por elementos góticos e sobrenaturais, exploram os recantos mais sombrios da psique humana, mergulhando em temas como morte, insanidade e o desconhecido. O escritor e poeta influenciou todos os autores posteriores a ele, contos como “Os crimes da Rua Morgue” e “O Gato Preto” tornar-se-iam, quem diria, em obras relevantes não apenas na literatura, mas em todos as outras artes e, também, nos movimentos artísticos, tais como o romantismo, além de abraçar a escrita policial que veio a ser valiosíssima para autores como Conan Doyle e Agatha Christie (BELLIN, 2011).

Entre suas obras mais conhecidas, também consta "O Corvo", um poema que narra a visita de uma ave misteriosa a um homem atormentado pelo luto e pela perda. A musicalidade e a melancolia deste poema o tornaram um clássico da literatura mundial, ecoando através das eras e sendo adaptado para o cinema de forma recorrente e de maneiras singulares, sendo também símbolo na cultura gótica com sua marcante frase “Nevermore”.

Além de "O Corvo", Poe é célebre por contos como "O Coração Delator" — que, aliás, é um dos meus preferidos; nesta obra-prima, um narrador perturbado confessa um assassinato motivado pela obsessão com o olho de um idoso e, no final, sem spoiler, a profunda angústia e aflição são transmitidas ao leitor — algo que, para mim, nenhum outro escritor foi capaz de fazer com tanta maestria. "A Queda da Casa de Usher" é outro clássico de Poe, uma história de decadência e loucura que captura a imaginação com sua atmosfera sinistra e surreal; atualmente este conto foi adaptado, e modernizado, para uma série da Netflix, junto com outros elementos e obras importantes do autor, como a extravagância de “A Máscara da Morte Rubra”.

A habilidade de Poe em criar um clima de suspense e horror, aliada à sua prosa cuidadosamente elaborada, estabeleceu os padrões para o gênero do conto de terror e influenciou inúmeras gerações de escritores. Sua habilidade de penetrar nas profundezas da psique humana e explorar os abismos da alma humana continua a fascinar leitores até os dias de hoje. No entanto, o autor também foi influenciado pelos autores de sua época e antecessores, nomes como Lord Byron, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge teriam sido suas instigantes leituras, com mistérios boêmios, descrições poéticas e sobrenaturais acontecimentos (BELLIN, 2011).

Segundo García (2019), Edgar parece residir em cada espectro da literatura sombria, até mesmo no que viera antes de sua existência, e não há como negar essa verdade, aliás, devo reiterá-la em outro aspecto: Poe habita os corações de toda a literatura gótica em razão do seu explorar profundo, em cada uma de suas tramas, das nuances perturbadoras da humanidade; sua técnica narrativa foi e é um marco tão imensurável, que é impossível ler quem quer que seja sem compará-lo à grandiosidade do autor de “Silêncio: Uma Fábula” — citado por ser o conto número um na minha lista de preferidos do poeta.

“Edgar Allan Poe parece estar em todos os lugares, e sua presença é tão impregnante que nos faz inverter o eixo cronológico, e ler até mesmo aqueles autores que o antecederam a partir dele. Em outras palavras, não apenas encontramos Poe em H. P. Lovecraft, Richard Matheson, Shirley Jackson e Stephen King: lemos Ann Radcliffe, Charles Maturim, Matthew Lewis e Mary Shelley, também a partir de Allan Poe” - García (2019)

Infelizmente, a vida pessoal de Poe foi marcada por tragédias e lutas constantes. Ele enfrentou dificuldades financeiras ao longo de sua vida e sofreu com o alcoolismo e a depressão. Parece que sua genialidade foi interrompida pela pobreza de suas condições básicas e suas amarguras emocionais. Sua morte prematura em 1849, aos 40 anos, permanece envolta em mistério, com as circunstâncias exatas ainda debatidas por estudiosos e admiradores. As causas de sua morte foram atribuídas a uma miríade de possibilidades, incluindo delirium tremens, doenças cardíacas, envenenamento por metais pesados e até mesmo rabia, mas nenhuma delas foi conclusivamente provada (ALLEN, 2001).

Apesar das adversidades, o legado de Edgar Allan Poe perdura como um monumento à imaginação humana e à capacidade de transformar o terror em arte. Sua obra continua a inspirar e fascinar leitores e escritores, garantindo-lhe um lugar permanente no panteão dos grandes mestres da literatura. Abaixo está uma lista dos contos publicados por Poe durante sua vida, nos títulos originais.

  • 1831 - "Metzengerstein" - A primeira história que Poe publicou, marcando sua incursão no conto com um sabor gótico.

  • 1832 - "The Duc de L'Omelette" - Um conto irônico e satírico sobre um duelo póstumo.

  • 1832 - "A Tale of Jerusalem" - Um conto humorístico ambientado durante um cerco na Jerusalém antiga.

  • 1833 - "MS. Found in a Bottle" - Um conto de terror marítimo e fantástico que ganhou um concurso literário.

  • 1835 - "Berenice" - Uma história de terror psicológico focada em uma obsessão mórbida.

  • 1835 - "Morella" - Uma reflexão sobre a reencarnação e a identidade.

  • 1835 - "Lionizing" - Uma sátira sobre a fama e a sociedade.

  • 1838 - "Ligeia" - Uma das obras mais elogiadas de Poe, explorando a morte e a ressurreição.

  • 1839 - "The Fall of the House of Usher" - Um dos contos mais famosos de Poe, exemplificando o terror gótico.

  • 1839 - "William Wilson" - Um conto que explora o doppelgänger e a consciência culpada.

  • 1840 - "The Man of the Crowd" - Um estudo sobre a alienação e a observação urbana.

  • 1841 - "The Murders in the Rue Morgue" - Frequentemente citado como o primeiro conto de detetive moderno.

  • 1842 - "The Masque of the Red Death" - Uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. Excêntrico e trágico.

  • 1842 - "The Pit and the Pendulum" - Uma história de suspense e terror ambientada durante a Inquisição Espanhola.

  • 1843 - "The Tell-Tale Heart" - Um conto psicológico de culpa e loucura.

  • 1843 - "The Gold-Bug" - Uma aventura envolvendo criptografia e um tesouro enterrado.

  • 1843 - "The Black Cat" - Um conto de perversidade e culpa.

  • 1844 - "The Premature Burial" - Uma história que explora o medo de ser enterrado vivo.

  • 1845 - "The Purloined Letter" - Um conto de detetive que enfoca a psicologia do crime.

  • 1845 - "The Facts in the Case of M. Valdemar" - Um conto que mistura elementos de horror e ficção científica.

  • 1846 - "The Cask of Amontillado" - Uma história de vingança meticulosamente planejada.

Referências

KIEFER, Charles. A poética de Edgar Allan Poe. Letras de Hoje, v. 44, n. 2, 2009.

BELLIN, Greicy. Edgar Allan Poe e o surgimento do conto enquanto gênero de ficção. Anuário de literatura: Publicaçao do Curso de Pós-Graduaçao em Letras, Literatura Brasileira e Teoria Literária, v. 16, n. 2, p. 41-53, 2011.

ALLEN, Hervey. Vida e obra de Edgar Allan Poe. POE, Edgar Allan. Ficção Completa, Poesia & Ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.

GARCÍA, Flavio; COLUCCI, Luciana; GAMA-KHALIL, Marisa Martins; PHILIPPOV, Renata (Orgs.). Edgar Allan Poe: efemérides em trama. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2019.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa

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