As Crônicas do Castelo Drácula, -Crônicas Castelo Drácula As Crônicas do Castelo Drácula, -Crônicas Castelo Drácula

Conjuntra

Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Meu celular descarregou e agora tenho que anotar tudo em meu diário, ainda estou juntando algumas informações dessa sala em que me encontro. A cor de antes não se faz tão presente. Algo me diz que…

—Miau

— Jason querido, estou indo!

Tiramos quase todos os quadros possíveis em busca de alguma pista e agora o Jason, de frente para este quadro com o número quatro escrito envolto de rosas negras com uma serpente abocanhando o algarismo, me convida a abrir a maçaneta e entrar no oculto que eu tanto esperava. 

— Miau

Jason me leva até algo.

Mal entrei no quarto para analisar tudo ao meu redor com calma, e já me deparo com um diário que muito me assusta, pois está datado em um ano muito distante do que estamos. 

Quem será a dona destas palavras tão solitárias? Ela já teve acesso ao anfitrião? Será que ela ainda está viva? 

Benquisto amigo. 

Admito minha insanidade ao crer na necessidade de oferecer-lhe o meu perdão, uma vez que és um ser inanimado, incapaz de ouvir-me ou sentir quaisquer sentimentos a respeito de minha terrível desatenção. A despeito disto, não devia tê-lo abandonado sobre a antiga arca no interior da sala de jantar, porém não controlei o impulso de atrair-me pela vista do antigo poço do pátio interno à luz do dia, envolto à neve nobre e alva, assentado sobre o pátio delicadamente. Sinto-me cada dia mais alheia e enfraquecida. Não usarei minha fraqueza como desculpa.

Penalizo-me por nossos segredos íntimos serem decodificados por uma figura masculina desconhecida. Pouco importa para mim sua origem, no entanto admito sentir o impulso de esbofeteá-lo no momento em que seus dedos tocaram sua encadernação e os óculos deslizaram em direção ao nariz assim que a respiração alcançou as páginas, embora, caso minha falha não fosse certa, descobriria não só o bisbilhoteiro como tantos outros embaixo do mesmo teto, como a mulher pálida de longos cachos cobres e seu gato, ambos sorrateiros como eu, escondidos nas sombras. Gostaria de poder conhecê-los, porém escondo-me em meu quarto por detestar quaisquer interações sociais.”

Me sento na cama para mergulhar ainda mais nessa evidência. Não consigo discernir muito bem os segredos dessa moça cujo nome parece ser Astrid, talvez ela tenha tido grande relevância para o aristocrata e poderia nos ajudar a encontrar as vozes que circulam no castelo. 

Bisbilhotei ao máximo o diário, indo contra a minha vontade e me entregando na curiosidade de encontrar outra pessoa nesse castelo. Levantei-me da cama e já ia anotar no meu diário os acontecimentos, quando sinto um cheiro gostoso. O único alimento para esse corpo em que habito. Eis que me deparo com uma jovem atônita entrando no quarto, aparência jovial assim como minhas amigas de Fortaleza. Os cabelos cacheados, morena e…

— Jason!

— Miau!

— Meu amor, tenha cautela, preciso de sua ajuda neste momento, lembra de tudo o que conversamos. Estamos distantes de casa e precisamos ter calma, esconde essas presas agora.

Jason escondeu as presas e as garras, atendendo fielmente aos meus pedidos. Ele, vez ou outra, desperta um lado mais aguçado do vampirismo. Acredito que seja por ele ser um animal. Ainda estou aprendendo sobre tudo isso.

— Olá! Não tenha medo. Ele estava apenas sendo territorial. Chamo-me Maria e ele Jason, como já deve ter percebido. Como se chama?

Pergunto para a moça que está prestes a fugir. A jovem mulher quase despenca ao lado da cama, parece enfraquecida, meço a temperatura dela, porém ela se afasta bruscamente, provavelmente sentiu o quanto minha temperatura é diferente das demais pessoas, por eu ser uma vampira.

— És um dos moradores do castelo, estou certa?

Ela me questiona com um tom de voz arrastado.

— Não me considero bem uma moradora, sinto que estou apenas de passagem. Peço desculpas novamente pelo Jason, estávamos à procura do anfitrião e do diário que acabei encontrando… Aliás, você é Astrid?

Acho impossível que essa mulher tenha vivido anos sem ser uma vampira. Porém, não custa nada perguntar.

— É bom olhar para um rosto sob a claridade, não como vultos encobertos nas sombras. Sou Astrid Lencastre Mascarenhas.

 Respondeu ela, massageando os pulsos de veias azuis salientes.

— Estamos em uma década diferente da qual está nas anotações do seu diário, Astrid. Hoje em dia temos uma tecnologia mais avançada e que as mulheres têm mais liberdade de escolha. Ainda falta muito a ser melhorado, mas posso te ajudar se quiser entender um pouco mais. Pergunto-me como viveu todos esses anos trancafiada neste lugar assombroso, sem se deparar com criaturas que vagueiam pela noite à procura de um pescoço para abocanhar. Tens noção que o anfitrião é um dos vampiros mais antigos?

Fico a pensar como ela, com essa aparência tão jovem, tem vivido aqui por todos esses anos sem se tornar a presa de alguma criatura do anfitrião. Será que ela é alguém tão importante para ele? Preciso descobrir mais detalhes e assim poderei entender melhor o que neste castelo me aguarda.

— Papai, e o meu colégio...   

Respondeu Astrid levando a mão a boca,  interrompendo sua frase, chocada com a notícia da passagem do tempo e da inexistência de pessoas do seu passado.* (Acrescentei)

— Já não existem mais!

Respondi confirmando seu maior temor 

— Não estou pronta para ponderar a respeito. 

A jovem mulher deixa o olhar vagar pela janela em busca de consolo na paisagem exterior.

— Eu escutei algumas vozes no castelo, mas não me atrevi a procurar outras pessoas senão o anfitrião.

Dei outro rumo ao assunto afim de dissipar a névoa melancólica que estava prestes a nos afastar.

— Eu a vi, ocorreu-me sobre sua necessidade de esconder-se, como eu. Não estou aqui por vontade própria, como sabes. 

Ela aponta os dedos pequenos e pálidos em direção ao encadernado aberto sobre a cama. 

— Não conheço o anfitrião, ele e seu estranho advogado, embora o tenha visto poucas vezes, geralmente pela noite, acredito que papai o tenha pedido para aterrorizar-me com suas estranhezas após... 

— Quanto tempo você acreditava estar aqui, Astrid?

— Não compreendo parte do que vem ocorrendo e nada sei sobre o tempo, sinto-me ainda presa ao pesadelo remoto, justamente o qual venho vivenciando dias após dias.

— Entendo.

— Sonhas, Maria? Não sei discernir meus sonhos, ou melhor, pesadelos, desde minha estada neste castelo. Quando sonho vejo um relógio incrustado em ametistas, repousa ao meu lado, neste leito, embora eu o tenha abandonado anteriormente. Eu o aprecio e pouco me espanto no momento em que se transforma em uma obra de arte composta por ametistas rubras como o sumo da vida corrente em minhas veias, porém o rubro verte-se por todo o leito, emporcalhando a chemise em demasia, mesmo eu torno-me pegajosa e vermelha, e o sonho parece-me uma lembrança, uma lembrança ruim, a qual já não posso revelar. No fim, penso despertar, porém ainda estou presa ao sangue, mergulhada, e não mais no vermelho de outrora, agora a cor torna-se escura. Envolta ao plasma sangrento e viscoso, alcanço meu relógio de algibeira ao lado, e ao pousar meus olhos sobre ele, deixando a marca de minha impureza gosmenta e escorregadia, o dispositivo move os ponteiros freneticamente ao mesmo tempo em que o sino da catedral próxima, badala teimosamente quatro vezes. 

Revelou Astrid. 

— Bom, faz algum tempo que não tenho sonhos no meu leito, almejo muitas coisas, as quais minha alma gélida de alguma forma preenche o buraco que ficou quando a minha vida mudou drasticamente. Agora que você citou esse sonho, preciso te dizer, que ao entrar neste quarto, me deparei com um quadro com uma serpente e o algarismo quatro envolto de rosas negras, estas rosas para mim remetem a morte e nisso eu tenho experiência de sobra. Precisamos encontrar esse relógio, sinto que ele irá nos levar até as vozes e talvez até onde um certo aroma tem me inebriado desde que fui corrompida por uma sala violeta. 

Expliquei a Astrid.

— Sei onde está o relógio incrustado em ametista.

Sinto certa surpresa por Astrid esconder essa informação durante todo o nosso encontro e me pergunto se seria muito intrometida em pedir sua ajuda para encontrar o objeto. *

— Por que nós três não saímos em busca das respostas?

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de abril de 2024. → Ler edição completa
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A Casa da Travessa

A ingenuidade é algo bobo, mas com o passar dos dias, meses e anos, simplesmente se torna uma burrice. Escrevo aqui como se fosse um diário, já que me…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

A ingenuidade é algo bobo, mas com o passar dos dias, meses e anos, simplesmente se torna uma burrice. Escrevo aqui como se fosse um diário, já que me faltam páginas nos cadernos, usei-os com intensidade escrevendo cartas que findaram a mim em dias melancólicos. Escrevi muitas cartas e, em todas elas, meus anseios sobre a casa… é a tal casa que irei preservar não só nas lembranças, mas também na pele, todos os fragmentos mais dolorosos que vivenciei.

É inútil me ater aos detalhes quando, nas palavras de meu âmago, estarei apenas descrevendo cada momento que me fez desconfiar de minha sanidade. Estive à beira muitas vezes, não só da loucura, mas também da vida, da fé e esperança. 

Aqui então começo o meu pesar. 

Quando mais nova encontrei o que achava ser o amor da vida toda, na mente adolescente e cheia de floreios, é fácil acreditar que a vida tem belas cores em todas as fases. Não me influenciei só pelo amor, mas também pela falta dele em casa, um lar conturbado deixa a mente de qualquer um à beira do abismo e eu só queria fugir, não tinha idade suficiente para tal, então, na primeira oportunidade, eu só abri a porta e lá quis ficar. 

Nunca me esquecerei daquela casa. A casa da Travessa. No meio de tantas ruas e avenidas longas, numa viela de travessas eu me enfiei. Finalmente achei que um novo lar me traria bons sentimentos, só que as emoções ruins venceram e apagaram qualquer vestígio de algum dia ter visto aquela casa com belos olhos. 

Quando vivemos em uma casa que está em completo caos, temos o intuito de achar que o piso do vizinho é melhor. Mas que piso? Aquela casa estava em um ar de insalubridade por anos, ceras de velas nas paredes. Sujeira de muitos anos de uma mente insana que dominou o local sem a menor assistência. 

O ditado que a grama do vizinho nem sempre é o melhor, cabe bem neste parágrafo. Foi tudo apenas uma mera ilusão. O piso era encardido e nem com um ano de limpeza foi possível tirar todo aquele sebo que estava encarnado. 

Submeti-me ao fracasso desde que dei uma chance ao tal amor e lá fui eu perder meu primeiro desabrochar, minha flor já estava corrompida e a mente aturdida nas palavras do potoqueiro

Quando eu subia aquelas escadas, eu sentia como se fosse a maturidade batendo à minha porta. Era tão nova e tão bobinha, achava que a morte era apenas na velhice. Mal sabia que a minha mente estava morrendo a cada segundo naquela casa. 

A casa era uma tragédia por si só, o fundo mais imenso do profundo poço existente. Minha alma ficou assim desde que entrei pela primeira vez, eu demorei a perceber com as nuvens e arco-íris ilusório. As lembranças que tenho do começo da minha jornada nesta casa são de uma pessoa que eu jamais voltaria a tornar-me. 

Hoje sou o que sou, caminhando de mãos dadas com a esperança que vaga vez ou outra, e também sou as cicatrizes dessa época e, caro leitor, eu achei que jamais iria ficar bem. Não querendo ser motivacional neste desabafo, mas acredite, a vida ainda pode te surpreender. 

Você acredita em fantasmas? No sobrenatural? Na espiritualidade?

Afinal, o que é um conglomerado de perguntas que nos rodeiam com tantas respostas no mundo atual? O que as pessoas estão pensando? O que você pensa e o que eu estou pensando agora?

Vou compartilhar com você o que mais me assustou nessa vida. Foi quando eu senti aquele vulto, não apenas de forma etérea, senti o seu toque gélido em meu pescoço. Estava tentando dormir com a minha criança ao lado. Aquela folga que toda mãe aproveita me foi tirada deixando meus pelos eriçados o dia inteiro. Ainda bem que tenho a mente forte e, mesmo incrédula com o que avistei me empurrando e sufocando contra a cama, eu consegui me afastar. E olha que neste dia eu estava faminta…

Eu sei a dor da fome, sei o que é ouvir o estômago embrulhando diversas vezes por dia. Acostumei-me com isso e já sabia até a hora que ele iria roncar de novo. Talvez seja por isso que ASMRs não me agradam. Aqueles sons baixos me lembram da minha única companhia fora o meu filho. Ouvir o estômago roncar mais e mais naquela casa escura. 

Quando você entra numa casa que o cadeado não fecha, já suspeite logo. Algo normal não está ali dentro, e quando apenas uma lâmpada funciona, então saia correndo o quanto antes. Esse é o manual de sobrevivência cuja experiência posso te alertar. Não sou a voz da verdade, e ainda assim tudo que falo aqui é verídico. É duro ler algo que já foi macerado em uma pessoa quando você não costuma pensar em tais fatos. Nossa rotina às vezes não nos dá espaço para pensar no alheio e talvez seja por isso que mesmo em sociedade, às vezes nos sentimos tão sozinhos. 

Destrinchei alguns fragmentos da casa, e com tantos pensamentos me levando a esse desabafo, te digo que ouça meu conselho. Até um homem de fé que prega a palavra correu ao entrar na casa, ele disse que precisaria derrubar tudo e reconstruir. Quando se tem apenas uma refeição por dia, como se pode derrubar o seu maior pesadelo? É fácil falar vendo do lado de fora, sentindo apenas a energia uma vez por dentro. Aquele ambiente era o mais profano dos lugares. 

Você que gosta de casa assombrada, será que gostaria de sentir o horror que ela realmente proporciona? 

A casa da travessa foi o meu maior medo por anos, eu senti e vivi a morte quase todos os dias. Eu não risquei só as folhas deixando cartas pela casa, acabei riscando também o meu corpo, mas a tinta era de outra cor. Não deixo mais um pingo sequer dessa tinta me atormentar, já agonizando tudo que tinha pra viver quando morei na travessa. 

O declínio mora naquele lugar, a casa estava aos cacos e não só por ela ser daquele jeito, os membros passados não cuidaram bem e ela sentiu. Eu a julgo porque fui uma moradora que sofreu os traumas da casa, ela descontou em mim pensando que eu seria só mais uma, e eu superei as dores dela. 

Como que se abraça uma casa?

A Bíblia com as fotos furadas nos rostos e apenas uma foto normal. As palavras clamando por um nome daquele em quem acreditam, mesmo algo estando fora das leis divinas. 

A crença na existência se fez permanente naquela mente anterior. Eu fui apenas uma câmera para registrar tudo aquilo em alguns momentos, mesmo que minha lente estivesse embaçada e quebrada. 

Guardo em mim as emoções daquela época e te digo, caro leitor, não entre numa casa da travessa. Principalmente se ela tiver tudo que te falei. Sua mente pode não ser mais a mesma. Ou você supera ou você encerra sua doce vida. 

Não apague a única luz que tem dentro da casa. Ela pode ser a única fagulha que existe também em você. Se nem o eletricista conseguiu funcionar todas as luzes do ambiente, quem sou eu para apagar a única coisa que me restava. 

Um dia eu saí e o banheiro caiu, ainda bem que ninguém se machucou. Ouvir os detalhes da casa não morando mais lá, me faz sentir naqueles jogos de realidade virtual, porque eu senti tudo e as cicatrizes que hoje estão fechadas, não doem mais como antes. O único declínio que me cerca é o da minha mente se deixar levar pelas lembranças mais dolorosas da casa da Travessa.

Texto publicado na 4ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de abril de 2024. → Ler edição completa
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Esperança Cadavérica

Caindo lentamente | No rosto desfigurado | Que chora desde ontem | A cruz que a enforcara | De suas crenças. | Acredita-se que talvez | Um ser divino possa vir…

Criado para o Castelo Drácula com Midjourney

Caindo lentamente
No rosto desfigurado
Que chora desde ontem
A cruz que a enforcara
De suas crenças.

Acredita-se que talvez
Um ser divino possa vir
Alimentar a alma
Que deveras esgotada.

Possa vir quatro vezes
Cantar o som da calmaria
E assim enobrecer
Um jardim de alegria.

Vida esta que corrói
Quebrantada nas esperanças
Resvalada assim como a água
Só quatro vezes ela espera.

Não tenho muito tempo
Sou apenas uma lágrima
No rosto que secara
Do cadáver que aguarda.

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