Perfeitos Estranhos - II
Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte […] A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte. Não me lembrava de como havia chegado ali, tampouco me apercebi de qualquer fonte lógica para o terror que me tomava. Certamente essa, e tantas outras respostas, haviam sido postas à sombra do meu ser, um local que, em definitivo, eu não teria acesso neste momento.
O outro fizera exatamente o que sugeri, em sonho. Pela primeira vez minhas sementes haviam dado frutos dentro daquele ser sugestionável e covarde que compartilhava do mesmo corpo, e mente, comigo.
Sem sorrisos, alegrias e quaisquer vestígios de bondade. Aqui, dentro destas paredes cinzentas e cadavéricas, eu me tornaria realizado. Seus mistérios, envoltos nos mais cruéis ardis, seriam o solo fértil para a concretude de meus mais íntimos desejos.
Dentro do Castelo, não havia limites.
Entretanto, da mesma maneira que eu me tornei um predador, outros também predavam neste território. Havia outros escritores, dispostos a alimentar a máquina carniceira que o castelo se tornara. Caçadores e vítimas. O topo e a base da mesma cadeia.
O outro me servira bem. Percorreu uma distância surreal e empreendeu recursos de forma exaustiva para chegar até aqui. Tudo isso sem, sequer, ter certeza dos motivos. Queria tê-lo como amigo, mas uma relação parasitária como a nossa, dispensa quaisquer interesses do tipo. O horror tomaria conta da sua alma se soubesse da natureza do castelo. Por isso precisávamos vir. É dentro destas paredes que o tempo, a lógica e a sanidade se corrompem e recaem sobre si mesmas.
Ainda é muito cedo para especulações. Muito precisa ser feito.
Para minha surpresa, compartilhamos da mesma visão. A figura feminina, misteriosa e distante, de dentro do castelo. Fui tomado pelo seu olhar arrebatador, impactante e desmedido. Pude sentir, mesmo estando à sombra, que meu colega também foi abatido por esse acontecimento. O Castelo brinca com as distâncias, com o tempo e com as emoções, e eu havia começado a ser manipulado por ele, mesmo distante das suas garras. A silhueta, mesmo ao longe, me parecia próxima. O peso de ser observado quase fez minhas costas curvarem.
Bem, tudo, daqui em diante, deveria ser examinado com cautela e inteligência. Tateei os bolsos e encontrei meus óculos. O outro não usava óculos. As lentes estavam imundas, descuidadas e completamente embaçadas. Arrisco dizer, com segurança, que notei um ou dois riscos. A falta de cuidado para com minhas coisas me aborrecia, mas consigo ser empático o bastante para compreender esse dissabor.
As portas se fecharam às minhas costas, em um som seco e amadeirado. Uma pequena nuvem de poeira me abraçou pelas costas e tingiu, gentilmente, toda a minha roupa. Era chegada a hora de explorar os ambientes internos desta obscenidade.
O salão principal era amplo, teto alto e com uma infinidade de caminhos possíveis. Deduzi a direção que deveria seguir para chegar à janela do curioso espectro que me observou enquanto chegava.
...
A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido, ainda que estejamos em cômodos distantes. Ouço, então, o ranger da colossal porta a se abrir. A minha intuição briga com a possibilidade de não ser tal figura que avistei ao longe nas matas atrás do Castelo.
Apesar de calejada pelas experiências funestas que ocorreram em minha vida, estou intrigada. A curiosidade rouba os meus princípios e todas as regras que eu estabeleci para mim mesma. A voz interior ainda me questiona se devo fazer o que estou imaginando. Mas o meu espírito aventureiro é grandioso demais para recusar os riscos.
Coloco um roupão que me cobre ainda mais, como uma capa em tom canela, escondendo o damanoute que me veste, escondendo o meu corpo quase completamente. “Cuide do teu corpo. Ele é um templo.” A lembrança da voz maior me orientando ressoa na minha mente.
Aproximo-me da porta do meu quarto e abro. O ar gélido do Castelo, bem como o som da antiga música do baile anterior parece ecoar, ainda, em meus ouvidos. Mas não mais do que o som de passos que começam a me confirmar que é aquela figura que vi nas matas.
Do alto, ainda escondida em frente à porta da clássica alcova onde me hospedo, o vejo, vejo mais próximo. A balaustrada traz espaços em filigranas, onde o rosto baixo e reto do homem se encaixa simetricamente. Agora as minhas certezas ganham forças e uma emoção dolorosa me encontra. É a primeira figura masculina que os meus olhos percebem depois de tudo. Os únicos homens cujos quais tenho vivência são os da minha família, vizinhos xamânicos e indígenas da região onde eu estava morando.
Percebo que há muito para relatar sobre esses estudos que resolvi fazer. Mas o que este homem está fazendo aqui no Castelo? Ele veio me importunar? Quase me arrependo de ter vindo para este lugar. Mas seria muito luxo e muita exigência da minha parte que este grandioso recinto hospedasse apenas mulheres.
“Homem”. Respiro. A palavra precisa soar natural para mim. Preciso parar de temê-los. Por que tenho medo deles desta maneira? Nem todos são iguais àquele ser, eu sei, não são.
Encosto-me na balaustrada e a magia do lugar parece querer trazer alguma percepção ou conexão entre mim e a figura masculina. Ainda assim, disfarço bem, para que ele não note a minha presença o observando. Torço, ainda, para que o meu perfume natural não me denuncie, espiando-o na parte alta do Castelo, escondida na balaustrada em frente a alcova.
Quase não respiro, enquanto ele parece se direcionar a um alvo. O que ele vê? Penso em voltar para o meu quarto, antes que essa figura me alcance com o seu olhar. Não quero ser percebida.
Talvez, se eu buscar um arco e uma flecha, eu me sinta mais segura, mas algo dentro de mim pede para não o machucar sem antes saber quem ele é. Pela recepção que tive anteriormente, estou segura. Nem mesmo devo ousar direcionar a lança em sua direção. Não posso. Sinto que não devo. Aqui ninguém me fará mal.
Fico apenas pronta para recuar rapidamente ao meu quarto, se por um acaso ele me perceba. O capuz que cobre a minha cabeça deixaria alguma incerteza para ele, de que talvez eu não fosse um ser tão indefeso assim, como ele percebera da minha janela, ao longe.
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Almas Cinzentas
A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde levemente, trazendo lágrimas quentes que começam a verter. Por que a monotonia me toma, por quê? Por que o dia amanhece tão estranho? Na verdade, onde estou? Estaria eu ainda sonhando? Talvez. Seco as lágrimas de saudade de algo que não sei decifrar.
Levanto-me da cama, lavo meu corpo e sinto a água gelada. Saio rapidamente do banho e me visto com roupas confortáveis e aquecidas. Decido explorar melhor o lugar, mas antes de sair, avisto uma placa gigantesca na saída do castelo onde estou hospedada, que diz: “Vila Séttimor” — percebo da minha janela. Então, o nome deste lugar é Vila Séttimor? Muitas interrogações me tomam.
Lembro-me de Olga Nivïttz, da sua inteligência, altivez e coragem para viver neste lugar, que agora me encanta grandiosamente. A cada orientação sua, me sinto mais segura, ainda assim, sinto-me nostálgica, como se algo dentro de mim faltasse. A busca por esse algo parece distante, dolorosa.
Ao longe, vejo pessoas caminhando vagarosamente, como se estivessem enfermas ou com preguiça. Mas todas? Decido sair do quarto para conhecer melhor o ambiente lá fora. Desço as escadas e a atmosfera é gélida, logo, penso que fiz bem em me cobrir bastante.
A porta do castelo se abre lentamente e range alto. Nunca sei o que me espera por aqui, e realmente, o que vejo é estranho. Ao me afastar do grande recinto, vejo as pessoas lentas, da mesma maneira que vi pela janela. Seus rostos são estranhos e elas não me olham fixamente.
— Olá... — digo, mas ninguém responde. Os seres andarilhos apenas me olham. Realmente, este lugar é um destino que jamais imaginaria estar. Essas pessoas não me fazem mal, mas me transmitem estranheza, como se eu estivesse em outro mundo, um mundo além do meu. Meus líderes conversaram bastante comigo sobre portais que podem ser abertos e nos levar a locais inexplicáveis, e penso se isso poderia estar acontecendo comigo.
As pessoas que vejo são frias, em todos os sentidos possíveis. Logo, elas me fazem lembrar de tantas pessoas que amo e que se foram, não sei por que penso nisso. A morte parece estar tão próxima de mim, uma atmosfera cinzenta, uma aura funesta e dolorida...
Continuo caminhando e não apenas sinto cheiro de sangue, mas o vejo por entre os cristais de gelo ao chão. Sim, nevou, e a neve ainda cai, improfícua. De quem seria esse sangue? A vila parece grande, misteriosa e assustadora.
Decido retornar, ou essas pessoas me deixariam ainda mais tonta de tanto rondarem próximas a mim, como se fossem cair e me derrubar ao chão.
Não acredito que zumbis possam existir neste espaço-tempo em que me encontro. São pessoas, pessoas estranhas, mas ainda são seres humanos. Isso parece ser um pouco mais profundo do que imaginei.
Ao retornar para o castelo, lembro-me do meu avô. Ele me doutrinou tanto, me ensinou tantas coisas, e agora não tenho seus conselhos sábios em tempo real. Tudo ficou na minha mente, apenas. Lembro-me e choro. Meu choro é a única coisa que aquece um pouco o meu rosto, pois a frieza que toma minha pele, ainda que aquecida, é inegociável.
De tanto pensar, esbarro em uma pessoa que parece não estar olhando por onde anda.
— Você consegue olhar por onde anda? — Quase brado, impacientemente, e a pessoa passa por mim e para, de costas. Quando se vira para mim, vejo que seu rosto não existe, está cinzento, pálido, vazio, com uma cor inexistente... me assusto desta vez. Antes que a figura abra a boca para dizer algo, corro para o castelo, e antes mesmo que eu possa me aproximar, a grande porta se abre, parecendo me reconhecer enquanto residente.
Adentro a porta e subo as escadas correndo, até chegar ao meu quarto. Preciso urgentemente relatar tudo para meus líderes xamânicos que deixei em meu país. Eles precisam saber o que anda acontecendo desde que aqui cheguei.
Fico imaginando: se uma daquelas criaturas adentrar o castelo, não sei o que poderá acontecer. Pela primeira vez não tive medo ao ver figuras masculinas rodando a Vila Séttimor. Talvez, por ter figuras femininas por perto. Ou talvez por serem lentos, indefesos. Mas por que não tive medo? Por que sei que não me fariam mal? Por que são tão diferentes dos outros seres vivos?
Pego meus pergaminhos, caneta e tinteiro, e surgem as primeiras palavras, ainda em minha mente. Acalmo-me e sento-me à escrivaninha disponível em meu quarto. Através dela, é possível ver a janela, que me dá a possibilidade de ver as pessoas estranhas lá fora. Eis o momento de respirar fundo e iniciar meu primeiro relato a ser enviado para minha aldeia.
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Sete Maneiras de ir para Setealém
Quem nunca desejou ir em Setealém ou nunca pensou em visitar esse lugar? A maioria de nós, que vivencia espiritualidade…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Quem nunca desejou ir em Setealém ou nunca pensou em visitar esse lugar? A maioria de nós, que vivencia espiritualidade, tem curiosidade em acessar esse mundo...! Mas o que tem lá? Ah, muitas coisas que irão te surpreender. Para você saber o que, de fato, existe lá, você deve ir. E para ir, há algumas maneiras que você precisa conhecer.
Antes de ir para Setealém, esteja ciente de cada consequência e convicto(a) de que quer ir, realmente, para lá. Lembre-se, também, de deixar alguém avisado sobre a sua ida ou visita. A possibilidade de você não retornar é grande e, a depender do seu objetivo, você pode voltar para o nosso mundo ou ficar em Setealém por um tempo maior ou até definitivamente. É o que explica, também, muitos desaparecimentos que acontecem por aí.
Este manual pode soar com dinamismo ou parecer que é algo fictício, mas ele é tão real e sombrio quanto a própria realidade do lugar.
As maneiras de ir para lá podem ser intencionais ou acidentais, então, vamos às sete maneiras de ir para Setealém:
Através do Sonho
Ao sonharmos, nos desligamos deste corpo físico e acessamos outras dimensões. E você pode acabar sonhando com Setealém, ou seja, indo lá através do seu sonho. Nesse caso, há uma possibilidade grande de você voltar, já que é somente um sonho. Basta apenas acordar no momento em que seu corpo julgar naturalmente.
Através de Projeção Astral
Esta é uma maneira mais profunda de ir para Setealém. A projeção astral pode ser inconsciente e até consciente, embora seja mais raro de acontecer nesse segundo tipo. Mas, é através da projeção astral que visitamos ambientes outros, que nos possibilitam conhecer e aprender, então, através de uma projeção astral você consegue acessar Setealém. Nesse caso, tenha cuidado, pois você pode demorar bastante para retornar.
Através do Espelho
Esta é uma das maneiras mais arriscadas, pois o espelho é um portal. Ele é um tipo de objeto que, além de refletir a nossa imagem, a energia que ele traz consegue captar toda aura e vibração que nos ronda dentro do ambiente em que o espelho se encontra. Ele é capaz de nos levar energeticamente ou até de outras maneiras para determinados ambientes e lugares que nem sempre são leves. No caso de Setealém, o ambiente é denso, pesado e carrega uma aura sombria. Cuidado com espelhos. Se você ficar olhando por um tempo a sua imagem ali, disser algumas palavras que demonstrem interesse em visitar Setealém e mentalizar que está indo para lá, alguma coisa pode acontecer.
Através de Portais Ocultos em Ambientes
Nos ambientes há portais, que vão desde espelhos, como falado no exemplo anterior, até cantos improváveis da sua própria casa. É uma maneira perigosa de acessar Setealém. Pois, sem querer, através do nosso estado vibracional ou do próprio ambiente, alguns portais acabam sendo abertos dentro da nossa própria casa. O problema é que esses portais, muitas vezes, não dão sinais de que são portais. Mas é possível perceber uma determinada parte da casa mais fria ou mais quente, ou até sentir uma energia diferenciada. Se aproximando desses cantos específicos sem estar com o seu campo vibracional bem, a possibilidade de ir para Setealém é grandiosa.
Através da Paralisia do Sono
Esta maneira de ir para Setealém causa até arrepio. Quem nunca teve uma paralisia do sono, é melhor não querer experimentá-la. E quem já teve sabe o quão doloroso e assustador é. Além de ser sufocante! Entretanto, é através da paralisia do sono que o nosso corpo está bastante vulnerável e apto a ser conduzido facilmente por energias, até porque, na paralisia do sono não conseguimos sair do lugar. Pior, nem sai o som da nossa voz, por mais que tentemos isso. Mas, como na paralisia do sono geralmente ficamos mais conscientes do que inconscientes, podemos, no momento em que estamos ali inertes, mentalizarmos Setealém ou até mesmo solicitar a alguma figura que apareça para nós, nossa ida para lá. Mas que é perigoso, é. Perigosíssimo! Até duvido que alguém desesperado com a paralisia do sono queira ir para Setealém no momento. Mas se você quiser arriscar, bem..., fica por sua conta.
Através do Sonho Lúcido
Vamos para uma das maneiras mais perigosa de ir para Setealém, senão a mais. Ir para esse lugar através de um sonho lúcido é quase não mais voltar. É um risco enorme, pois no sonho lúcido você está consciente de que está sonhando. Se diz por aí que em um sonho lúcido não devemos perguntar a hora e nem a data, pois começam a acontecer coisas estranhas e você começa a ser perseguido. É verdade, eu posso comprovar, por experiência própria. Então, é nesse momento consciente do sonho lúcido que você vai dizer a alguém que esteja presente no seu sonho que você deseja ir para Setealém. Caso você esteja sozinho(a) em seu sonho lúcido, você pode dizer em voz alta para onde deseja ir. Mas tenha muito cuidado. Da mesma maneira que em um sonho lúcido você pode ter autonomia para acordar, caso você deseje ir para Setealém, talvez seja difícil controlar a sua volta ao despertar e você pode ficar preso nesse lugar até que o seu sonho lúcido chegue ao fim. E se ele não chegar ao fim? Talvez, arriscar tanto assim, seja um caminho sem volta.
Através de um Pedido ou Solicitação
Esta maneira de ir para Setealém parece simples, mas não é tão fácil assim. Fazer um pedido poder ser simples, mas a questão é: para quem você vai fazer esse pedido? Geralmente, pensamos ser pra algum anjo guia espiritual, mas não. Os mentores espirituais e todas as figuras religiosas estão fora disso. O seu pedido deve ser feito à própria Setealém. Como se você estivesse pedindo algo ao universo ou solicitando a sua ida para lá para Guardiões da cidade. E o seu pedido pode ser atendido ou não. Vai depender das suas intenções. Quem, em sã consciência, pediria para ir para Setealém? Você?
Lembre-se: Setealém não é brincadeira. Se você brincar com esse lugar, ele também vai brincar com você.
Alexandre Neri é escritor, além de ávido estudante sobre o ocultismo e seus mistérios. Após uma situação traumática, não registrada, passou a apresentar comportamentos atípicos e destoantes com sua personalidade. Os episódios se tornaram cada vez mais frequentes, o que fez Alexandre abandonar o tratamento que seguia…