Semblantes
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Algum dia, algum mês, algum ano do século XIX
Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística. Ele conseguia capturar expressões humanas com tanta precisão que era impossível distinguir entre uma máscara e um rosto.
Mmoggun era um homem estranho, com olhos fundos, uma voz baixa que sempre parecia sussurrar para si enquanto trabalhava. Tinha poucos amigos e quase ninguém o visitava. Na verdade, as pessoas o evitavam, elas temiam que ele escondesse algo mais sombrio em seu talento.
Obcecado pela perfeição, Mmoggun, decidiu que as máscaras que criava já não era suficientes. A madeira não conseguia capturar as emoções humanas na mesma profundidade que as feições vivas conseguiam, algo que somente a carne e a pele continham.
Foi então que uma peste caiu sobre o vilarejo, e as pessoas começaram a morrer. Com a morte se espalhando, Mmoggun viu naquela situação a oportunidade de encontrar a expressão perfeita, capturando o momento exato entre a vida e a morte. Passou a visitar os doentes, esculpindo suas máscaras enquanto os observava em seus últimos momentos.
Ele soube da morte de um amigo próximo, a única pessoa que se importava com ele, e isso o mudou profundamente. Seu amigo, Tomás, morrera após dias de agonia. Ao chegar em sua casa, Mmoggun se ajoelhou ao lado do leito, esculpindo o semblante de morte de seu amigo.
Foi nesse instante que o artesão sentiu que aquele ato o mudara. Sentiu um vazio que nenhuma máscara do mundo poderia preencher. Desesperado, ofereceu uma oração sombria aos deuses antigos, às almas esquecidas que habitavam as florestas e as sombras, pedindo que o ajudassem a capturar a verdadeira essência do medo e da morte. Ele ofereceu sua alma, seu corpo e tudo o que possuía.
Algo respondeu ao seu chamado.
Um vento maligno soprou pelo vilarejo, e uma figura encapuzada visitou Mmoggun. Era uma alma ancestral, uma criatura que vivia nas sombras que havia escutado seu desejo. O ser ofereceu a ele o poder de capturar o medo eterno, mas o advertiu:
— Se você aceitar, mortal, jamais poderá abandonar a sua busca, jamais poderá escapar dessa fome que o consome. Irá se tornar um caçador, incapaz de parar enquanto houver uma face que possa exibir um novo tipo de horror.
MMoggun aceitou sem hesitar.
Quando amanhece, ele já não era mais humano. Sua pele esticou, seu rosto se alongou, sua voz se tornou um sussurro gélido e vazio. Ele adquiriu o poder de capturar o semblante de suas vítimas, arrancando suas faces e usando-as como máscaras.
Ao longo dos séculos, ele passou a visitar vilarejos, oferecendo presentes amaldiçoados aos seus escolhidos. Mmoggun se tornou uma criatura temida e sua história nunca foi esquecida.
Tempos atuais
Uma noite, em um inverno particularmente rígido, um jovem recém-chegado à cidade, Rafael, encontrou um presente. Ele acabara de se mudar, atraído pela calmaria do interior. Estava organizando sua mudança quando notou uma caixa preta à sua porta. A madeira escura da caixa parecia absorver a luz da lua, e o intrincado entalhe de runas desconhecidas a transformava em algo hipnótico.
Ao abrir a caixa, Rafael encontrou um espelho de mão, com uma moldura prateada desgastada que, ainda assim, brilhava de forma inexplicável. Ao tocar o espelho, sentiu um frio subir por sua espinha, mas a curiosidade venceu o desconforto. Ele se olhou no espelho e, por um momento, teve a estranha sensação de que sua própria expressão o encarava. Algo nele parecia errado. Contudo, sem saber, esse olhar desconfortável era exatamente o que Mmoggun desejava: uma curiosidade misturada com um início de receio.
Nas noites seguintes, outros presentes foram surgindo. Uma velha caixa de música, e um colar de pedra vermelha. Cada objeto era uma armadilha, um elo a mais que conectava Rafael ao domínio de Mmoggun. Fascinado pelos presentes, o jovem passava horas a sós com eles, perdendo-se no mistério de cada peça, sentindo-se hipnotizado pela aura sinistra que os envolvia.
Foi quando ouviu o sussurro.
— Mmoggun… mmoggun…
O som vinha do nada, parecendo falar diretamente ao seu ouvido, suave, mas gélido. Rafael tentou ignorar, mas a cada noite o sussurro se tornava mais próximo e insistente. Ele já começava a sentir que era observado quando, numa noite, o sussurro se materializou em uma figura.
Mmoggun estava parado na porta de seu quarto. Um vulto encoberto por um manto negro, alto e deformado, com olhos que eram buracos fundos, famintos por alguma emoção que apenas a visão de um rosto aterrorizado poderia saciar. Rafael, fascinado e assustado, ficou imóvel. Era como se um peso invisível o pressionasse contra o chão.
A criatura estendeu a mão, de ossos longos e mostrou-lhe algo: uma última oferta. Era uma pequena escultura de madeira representando um rosto humano contorcido em uma expressão de medo. Rafael, dominado por uma atração inexplicável, tomou a peça e, ao segurá-la, sentiu o toque gelado de Mmoggun em sua pele, como uma promessa silenciosa de sua morte.
Mmoggun avançou então, aproximando-se com uma lentidão aterradora, e com o rosto encoberto pelas sombras, tocou a face de Rafael. O jovem sentiu seu próprio rosto começar a pulsar sob a pressão daquela mão inumana, cada linha de sua expressão sendo medida, analisada, desejada. E antes que pudesse reagir, Mmoggun enfiou as garras na pele de seu rosto e começou a arrancá-lo, centímetro por centímetro, enquanto Rafael, paralisado, assistia ao próprio reflexo no espelho a se desfigurar.
Enquanto o rosto era arrancado, Rafael sentiu o medo tomar conta de sua expressão, transformando-o em uma máscara viva de pavor absoluto. Era a imagem que Mmoggun desejava. Ele absorvia cada detalhe da agonia de sua vítima, a boca entreaberta num grito sufocado, os olhos arregalados em terror.
Quando finalmente Mmoggun se vestiu com o rosto recém-roubado, seu sorriso era uma cópia vazia do que antes fora de Rafael. Ele admirou a máscara de carne no espelho, um prazer sombrio, e desapareceu na noite, carregando consigo mais uma expressão única de horror para atrair novas presas.
Nos dias que se seguiram, a cidade foi tomada por um pavor silencioso. Pessoas relataram avistar Rafael vagando pela floresta, mas sabiam que algo nele estava errado. Aquela expressão aterrorizada que carregava não era a de um homem vivo, mas a de uma vítima aprisionada na última imagem de seu medo. Ninguém ousava falar sobre isso, mas todos entendiam que, uma vez marcado pelos presentes de Mmoggun, não havia como escapar de seu destino.
E ao final de cada noite, o mesmo sussurro continuava a rondar as casas, mais próximo, mais persistente:
— Mmoggun… mmoggun…
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Uma entrevista do “caso Mmoggun”
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima?
Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância…
Entrevistador: Estavam sempre juntos?
Amigo da vítima: Lógico que não. Conversávamos, trocávamos mensagens, dia a dia…
Entrevistador: No dia do crime, estiveram juntos?
Amigo da vítima: Pela manhã eu o vi. Estava bastante abatido.
Entrevistador: Abatido? Como assim?
Amigo da vítima: Não parecia bem. Tinha olheiras, caminhava devagar, parecia perdido…
Entrevistador: Interessante… Chegou a conversar com ele?
Amigo da vítima: Interessante nada… Ele estava visivelmente triste, tenso, alguma coisa já anunciava algo errado… E não, não conversamos. Quando me aproximei e tentei falar mais alto, vi que ele não me escutava. Ele pareceu se assustar com a minha presença, começando até a caminhar mais rápido.
Entrevistador: E para onde ele foi?
Amigo da vítima: Não sei dizer, apenas vi quando partiu apressado, arrastando e tropeçando os pés na calçada. Ouvi ele dizer algo, mas não entendi.
Entrevistador: Ele conversava contigo?
Amigo da vítima: Não diretamente. Parecia, na verdade, que sussurrava para alguém ao lado… Diria até que conversava com algo invisível… É estranho dizer isso, mas foi o que vi.
Entrevistador: Bastante estranho… Então quer dizer que não viu qual era o destino dele após isso?
Amigo da vítima: Não… Só sei que ele seguiu pela calçada e dobrou a esquina. Parecia saber aonde ia, pois erguia de maneira determinada o olhar na direção que seguia.
Entrevistador: Depois disso, você só o viu em casa, quando descobriram a tragédia?
Amigo da vítima: Sim… Fui chamado pelos policiais que chegaram. Queriam saber se eu ouvira algo…
Entrevistador: E você?
Amigo da vítima: Disse que não, que somente mais cedo havia presenciado aquele estranho comportamento dele, saindo pela rua e não respondendo ao meu chamado.
Entrevistador: Os policiais não perguntaram mais nada?
Amigo da vítima: Eu disse a eles o que sabia; falei um pouco das últimas vezes que tivemos contato…
Entrevistador: Se importa de me dizer qual foi seu relato?
Amigo da vítima: Não… Acho que quanto mais pessoas souberem, melhor será para uma futura investigação… até para a prevenção de outros casos…
Entrevistador: Prevenção do quê?
Amigo da vítima: Do crime! Pois o que aconteceu com meu amigo foi um crime.
Entrevistador: Quais os motivos para dizer isso, com tanta convicção?
Amigo da vítima: Meu amigo foi vítima de alguém que conheceu pela internet. Semanas antes do ocorrido, ele me falava que tinha finalmente tido sucesso no app de encontros. Não me dizia muito sobre quem era ou como se dava a interação; tudo o que me revelava era um enorme otimismo e algumas provas de que, dessa vez, daria certo…
Entrevistador: Que provas eram essas?
Amigo da vítima: Ele me dizia que estava recebendo presentes, alguns mimos da pessoa com quem interagia. Não me mostrou nenhum deles, pois, segundo ele, essa pessoa do outro lado solicitava total privacidade; era uma espécie de trato: ele não deveria falar para mais ninguém sobre o que recebia…
Entrevistador: Um tanto ingênuo seu amigo… Então nenhum desses presentes ele exibiu para você?
Amigo da vítima: Não. Tudo o que consegui dele foi saber como os recebia.
Entrevistador: E como era?
Amigo da vítima: Era uma espécie de código. Na calada da noite, quando a rua estivesse vazia, sem barulho algum, essa pessoa dizia para ele aguardar do lado de dentro da casa, apenas colocando o ouvido na porta para ouvir sua chegada. Os horários eram quase sempre perto da meia-noite... Por isso as olheiras, penso, e o cansaço com que o via nos últimos dias...
Entrevistador: E a chegada dessa pessoa era acompanhada de algo? Não havia interação entre eles?
Amigo da vítima: Não. Meu amigo disse que ouvia apenas os passos vindos de fora, depois uma espécie de palavreado que até agora não consigo rememorar: gugum, logum, nogum… sempre terminava com esse "um"...
Entrevistador: Gugum, nogum... O que isso significa?
Amigo da vítima: Não sei. Ele também não sabia dizer. Os presentes também, um completo mistério.
Entrevistador: Quais eram?
Amigo da vítima: Ele não me dizia. Era proibido, estava completamente de acordo com o sigilo solicitado por quem os trazia...
Entrevistador: Entendo... Aí você só o viu na rua na véspera do crime?
Amigo da vítima: Não, antes eu ainda tinha contato com ele, mas isso foi rareando cada vez mais. Acho — tenho convicção — que as sucessivas madrugadas à espera desses presentes, dessa visita misteriosa, deixaram meu amigo cansado e extremamente alucinado.
Entrevistador: Ele pareceu piorar? Ficou doente?
Amigo da vítima: No mínimo. Suas respostas não eram mais objetivas; ele me respondia com desdém. Se eu perguntava como estava, ou como ia sua relação com aquela pessoa do app, ele me grunhia algo, quase parecido com aqueles nomes que sussurravam do lado de fora da porta...
Entrevistador: Aquele "nhugum, nogum"...?
Amigo da vítima: Isso... Chego a imaginar que possa ter sido um feitiço.
Entrevistador: Então você acha que seu amigo foi vítima dessa pessoa com quem interagia pelo app, que lhe trazia presentes altas horas da noite e que, de alguma forma, acabou entrando em sua casa e fazendo aquilo com ele?
Amigo da vítima: É minha única suspeita. Ele não tinha inimigos, dívidas, nada que pudesse ter levado alguém a invadir sua casa e o deformar daquele modo bizarro. Você viu as imagens?
Entrevistador: Sim. O crime foi tão divulgado que as imagens chegaram até mim. Ele parecia simplesmente sem olhos, nariz, boca. Sua expressão facial, por completo, havia sido removida, deixando o rosto liso, como se uma cicatrização assim fosse possível...
Amigo da vítima: Meu amigo não merecia isso.
Entrevistador: Meus pêsames.
Amigo da vítima: Agora é torcer para que descubram algo, que cheguem à identidade dessa criminosa, que tirou a vida dele e... fez aquilo com ele.
Entrevistador: Vamos torcer. Irei tentar contatar mais gente envolvida nas investigações. Me diga se lembrar de algo que possa ter passado em branco durante a entrevista.
Amigo da vítima: Direi, sim. Espero que eu não seja a próxima vítima. Ando escutando vozes pela casa à noite... e juro que parecem as mesmas que saíam da boca do meu amigo, naquele estado abatido dele.
Entrevistador: O nogum... logum?
Amigo da vítima: Isso, nogum... mogun... acho que era isso…
Entrevistador: Bizarro... Tome cuidado!
Amigo da vítima: Pode deixar.
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…