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O Sonho

Sonhei que caminhava | Por longo bosque escuro | E o vento mui soprava | Nas breves, vãs, clareiras | Ardores inseguros…

Arte de Glauco Moura

Sonhei que caminhava
Por longo bosque escuro
E o vento mui soprava
Nas breves, vãs, clareiras
Ardores inseguros
E ao longe, nas figueiras
Fulgia — estranhamente,
Igual aos astros puros
Um algo dissidente;

Bem lá, andarilhando
À frente sem parar
Que próxima, brilhando
Àquilo, então, cheguei
As copas a abaular
E a névoa reparei
Somente e nada mais
À frente a m’esperar
O espelho dos vestais;

Não sei como eu sabia
Nem como estou lembrando
Pois nele eu só me via
Em pálida paisagem
Com asas e chorando
Refém de brusca aragem
Semblante turvo e aflito
Olhar pequeno e brando
Soneto nunca escrito.

Poesia publicada na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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Sobre o Artista Convidado - Ed. 1, Janeiro de 2024 - Castelo Drácula

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A Fenomenologia da Imortalidade

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a…

Death of an Orphan, 1884 — Stanisław Grocholski (Polish, 1858–1932)

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.

Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.

Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.

Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.

Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.

Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.

Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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Resenha: A Melancolia de Trees Of Eternity

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio e…

Foto da Web

Trees of Eternity foi uma colaboração musical entre o guitarrista finlandês Juha Raivio (da banda Swallow the Sun) e a cantora Aleah Stanbridge, nascida na África do Sul e residente na Suécia. A música deles é frequentemente descrita como melancólica ea inspirada no estilo musical doom/death, com vocais femininos angelicais.

A banda foi formada quando o guitarrista Juha Raivio e a cantora Aleah se juntaram no estúdio para trabalhar na música "Lights on the Lake" para o próximo álbum da Swallow the Sun. A partir dai, o projeto se tornou uma ideia com vida própria e, desta experiência nasceu o álbum Hour of The Nightingale.

Em 11 de agosto de 2016, o álbum de estreia da banda, Hour of the Nightingale, foi anunciado para ser lançado em 11 de novembro. Infelizmente, em 18 de abril de 2016, a cantora Aleah Stanbridge faleceu de câncer aos 39 anos. Dois dias depois, Juha escreveu no Facebook que o álbum estava pronto para ser lançado há algum tempo e que os planos ainda estavam em andamento. Ele também planejava lançar as músicas solo de Aleah

"Alcance através de sua mente, céu interno
Deslize infinito até mim
Alma encarcerada, presa atrás de seus olhos
Até que seja salva, compartilhando sua luz
E escuridão"
— Trecho traduzido da música Condemned To Silence

O álbum foi lançado, às condolências por Aleah e em nome de sua voz perfeita e do trabalho que tivera, junto a Juha e os demais convidados, na produção de Hour of The Nightingale.

É preciso ouvir Aleah cantar em Hour of The Nightingale para compreender como as sensações mais soturnas emergem no âmago e florescem em uma lentidão abominável dentro da alma. Tamanha é a melancolia dos instrumentos que conduzem a voz de Aleah que, através dos nossos olhos, vertem lágrimas imateriais enquanto um estranho conforto nos guia a um abismo sem fim. Por tais sensações inenarráveis, é impossível deixar de ouvir o álbum completo, várias vezes consecutivas; é viciante o universo que tais composições evocam.

Há males quais não podemos dizer terem vindos para o bem, pois que amargura é não ter um novo single de Trees of Eternity nos dias atuais; resta-nos o lamento e a mensagem deixada: “Não chores por mártires | Levante a cabeça | Águas salinas não vão ressuscitar os mortos” — Trecho traduzido da música que leva o nome do álbum: Hour Of The Nightingale.

"Veja todas as cores desaparecendo
Com o Sol
Temporada de uma escuridão sombria
De novo, isto começou
Amaldiçoado por ciclos recorrentes
Erguido para ser desfeito"
— Trecho traduzido da música Eye Of Night
Artigo publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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